Poesia: "Há uma gota de sangue em cada Poema (1917)

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2 MÁRIO DE ANDRADE O AUTOR E SUA OBRA Foi considerado o "Papa do Modernismo". O movimento muito lhe deve pelo que contribuiu na teoria e na prática para divulgar a escola e enobrecê-la, e por sua atuação na SAM. Foi polígrafo, diversificou sua atividade entre a poesia, a ficção, a crítica literária, o folclore e a musicologia. Poesia: "Há uma gota de sangue em cada Poema (1917) Influência parnasiano-simbolista, prenúncios de renovação. "Pauliceia Desvairada", (1922): rompe com o passado, dando início ao modernismo. o poeta liberta-se da métrica tradicional e da rima. preocupa-se em "destruir" a estética do passado e causar escândalo. TEXTO ODE AO BURGUÊS Eu insulto o burguês! O burguês-níquel, o burguês-burguês! A digestão bem feita de São Paulo! O homem-curva! o homem-nádegas! 05 O homem que sendo francês, brasileiro, italiano, é sempre um cauteloso pouco a pouco! Eu insulto as aristocracias cautelosas! Os barões lampeões! os condes Joões! os duques zurros! que vivem dentro de muros sem pulos; 10 e gemem sangues de alguns mil réis fracos 1

3 para dizerem que as filhas da senhora falam o francês e tocam o Printemps com as unhas! Eu insulto o burguês-funesto! O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições! 15 Fora os que algarismam os amanhãs! Olha a vida dos nossos setembros! Fará Sol? Choverá? Arlequinal! Mas à chuva dos rosais o êxtase fará sempre Sol! 20 Morte à gordura! Morte às adiposidades cerebrais! Morte ao burguês-mensal! ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi! Padaria Suissa! morte viva ao Adriano! 25 Ai, filha, que te darei pelos teus anos? Um colar... Conto e quinhentos!!! Mas nós morremos de fome! Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma! Oh! purée de batatas morais! 30 Oh! cabelos nas ventas! Oh! carecas! Ódio aos temperamentos regulares! Ódio aos relógios musculares! Morte e infâmia! Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados! Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos, 35 sempiternamente as mesmices convencionais! De mão nas costas! Marco eu o compasso! Eia! Dois a dois! Primeira posição! Marcha! Todos para a Central do meu rancor inebriante! Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio! 40 Morte ao burguês de giolhos, cheirando religião e que não crê em Deus! Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico! Ódio fundamento, sem perdão! Fora! Fu! Fora o bom burguês!... (ANDRADE, Mário de. Ode ao burguês. In: - Poesias completas. 6. ed. São Paulo, Martins, Belo Horizonte, Itatiaia, 1980.) ATENÇÃO : O título do poema A descrição que o poeta faz do burguês. Aspectos do "eu lírico" em relação ao burguês. Influência das vanguardas europeias. 2

4 Losango Cáqui (1926 e Clã do jaboti (1927) : Mesmo permanecendo processos anteriores, já existe mais pesquisa artesanal e menos ímpeto de destruição. Pesquisa folclórica (L.C) "Um diário no qual se juntam rapsodicamente sensações, ideias, alucinações, brincadeiras, liricamente anotadas, é exatamente a crítica ao militarismo". "Remate de Males" (1930): Há mais formalismo, evitando-se o anedótico e o circunstancial. Busca-se o universal a partir do popular. Reúne diversas composições do autor, em vários estilos, escritas durante os anos 20, desde o vanguardismo até a lírica equilibrada e contida, passando pelo nacionalismo. Observe que o poema "Eu sou trezentos", alude a essa diversidade de linguagem e modos de ser: EU SOU TREZENTOS... E sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta, As sensações renascem de si mesmas sem repouso, Óh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras! Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro! Abraço no meu leito as melhores palavras, E os suspiros que dou são violinos alheios; Eu piso a terra como quem descobre a furto Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus [próprios beijos! Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta, Mas um dia afinal eu toparei comigo... Tenhamos paciência, andorinhas curtas, Só o esquecimento é que condensa, E então minha alma servirá de abrigo. Lira paulistana (1946) : (In: LAFETÁ, João Luis. Mário de Andrade São Paulo, Abril Educação Coleção Literatura Comentada) Poemas mais comoventes, espontâneos e maduros. Consolida-se sua condição de cantor e amante da cidade de São Paulo. Já havia em "Mário uma angústia social que indicava a proximidade de um salto participante em sua obra. 3

5 PROSA MACUNAÍMA A OBRA, O MOMENTO HISTÓRICO E O MODERNISMO Macunaíma é de Embora produto de pesquisas de longos anos, segundo o próprio Mário de Andrade a obra foi escrito em seis dias de dezembro de A sociedade brasileira já vivenciava uma série de mudanças. Em 1922, já ocorrera a Semana de Arte Moderna, a criação do Partido Comunista; o movimento tenentista já se iniciara. A coluna Prestes já atuava. Em termos socioeconômicos, São Paulo já se destacava pela mecanização, pela industrialização; o comércio se desenvolvia mais intensamente, já se iniciara o movimento de emancipação da mulher; os meios de comunicação e transporte ganhavam mais velocidade. Em termos de Arte, a Semana de Arte Moderna balançara a arte brasileira. E a chamada Geração de 22 se desenvolvia afirmando postura anárquicas, irreverentes, demolidoras, nacionalistas. Macunaíma é a mais expressiva obra em prosa da geração de 22. SÃO CARACTERÍSTICAS DA GERAÇÃO DE 22 PRESENTES NA OBRA ruptura com as normas e tradições acadêmicas; irreverência, atitude demolidora do conservadorismo, tabus e preconceitos; nacionalismo, busca de identidade nacional; afirmação de elementos autenticamente nacionais; provocar escândalos; descentralizar a cultura e arte; e oralismo: valorização da cultura e da língua falada. MACUNAÍMA COMO RAPSÓDIA Rapsódia é termo de origem musical. A rapsódia é uma composição musical formada por uma grande variedade de motivos populares, tradicionais, pela reunião de vários temas afins. Ao chamar o seu livro de rapsódia, Mário de Andrade o fez porque Macunaíma é construído a partir de várias procedências: lendas populares, provérbios, superstições, anedotas, evo-cações históricas, elementos folclóricos e paródias, associados pelo autor para contar os feitos do herói. 4

6 J. Dominges Maia Sendo obra de um único autor, poderia ser obra coletiva, pois que a técnica de sua construção é usada pelo povo. NARRATIVA PICARESCA DE VANGUARDA A. Coutinho Com uma narrativa fantástica e picaresca ou malandra Mário de Andrade reelabora nesta obra temas da mitologia indígena com visões folclóricas da Amazônia e do resto do Brasil, fundando assim, uma nova linguagem literária.... Obra afinada com as vanguardas de seu tempo. No texto encontramos traços do Dadaísmo, Futurismo, Expressionismo. Cubismo e Surrealismo, sobrepostos às raízes da cultura brasileira.... Obra revolucionária ao desafiar o sistema cultural vigente com uma nova linguagem literária. Telê Porto Ancona Lopes Antes de Macunaíma, temos, no Romantismo Brasileiro, a obra de Manuel Antônio de Almeida, MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS, que, pelo seu caráter picaresco, os críticos acreditam que foge aos padrões românticos e prenuncia o Realismo. CARACTERÍSTICA DA NARRAÇÃO PICARESCA O herói da narrativa é um anti-herói. (Anti-herói é o personagem que, apesar de ser o personagem central da narrativa e, não raras vezes ser o vencedor, se comporta fora dos padrões morais, sociais. Para ele, tudo é válido desde que atinja seus objetivos). Mas, através da figura desse anti-herói, o narrador desenvolve uma série de críticas a padrões e comportamentos sociais, a valores convencionais, a tabus e preconceitos; a narrativa se inicia com o nascimento do herói = anti-herói; as peripécias e aventuras deste herói se tornam o fio condutor da narração. A narrativa se passa, sobretudo, no plano exterior, ou seja, o relato de fatos. É mínima ou quase nenhuma a análise psicológica. Através dos comportamentos e atitudes, pode-se deduzir uma caracterização do personagem. A Obra sob vários prismas a) Macunaíma, o "herói de nossa gente", é o personagem configurado com pedaços do Brasil. Mário "refocila com gosto nas coisas bárbaras do mulatismo e do indigenismo mais selvático e fuzarqueiro e escreve" um livro no qual acumula um despropósito de lendas, superstições, frases feitas, provérbios e modismos de linguagem, tudo sistematizado e intencionalmente entretecido, feito um quadro de triângulos coloridos em que os pedaços, aparentemente juntados ao acaso, delineiam em conjunto a paisagem do Brasil e a figura do brasileiro comum". O "herói sem nenhum caráter" "visa a personificar a falta de caráter, o caos de moralidade e pitoresco do jovem Brasil, herdeiro ladino, mas ignorante, 5

7 de todas as ideologias, de todas as culturas, de todos os instintos, de todos os costumes e música de diversas raças". Macunaíma deixou, certa vez, a consciência na ilha de Marapatá; mas, quando foi buscá-la e não a achou, "pegou na consciência de um hispano-americano, botou na cabeça, se deu muito bem da mesma forma." Esta gratuidade moral é um problema que o autor não abandona e ao qual ele chama "o meu obsessionante problema" do "sem nenhum caráter, que me persegue em nós". (Afrânio Coutinho) b) Macunaíma é a mais expressiva obra em prosa da geração de 22. Apesar de ser classificada como um romance, Mário de Andrade a definiu corno uma "rapsódia", termo que em música classifica as peças compostas com base na improvisação, de inspiração em cantos populares e tradicionais. O título foi retirado do texto "Makunaima und Pia", contido na obra Indianern arehen aus Sudamerika, do etnólogo, alemão Theodor Koch-Grunberg, que foi a principal fonte de elementos da cultura indígena para Mário. Em carta ao Professor Sousa da Silveira, datada de 26 de abril de 1935, Mário de Andrade esboça uma síntese do espírito dessa rapsódia "Um poema heroi-cômico, caçoando do ser psicológico brasileiro, fixado numa figura de lenda, à maneira mística dos poemas tradicionais. O real e o fantástico fundidos num plano. O símbolo, a sátira e a fantasia livre fundidos. Ausência de regionalismo pela fusão das características regionais. Um Brasil só e um herói só." (LOPEZ, Telê Porto Ancona. In Macunaima: A Margem e o texto. São Paulo, Hucitec -SCET.CET, 1974.) Como um mito de libertação do inconsciente coletivo, Macunaíma á uma personagem que se metamarfoseia de acordo com as necessidades e circunstâncias, sem apresentar um caráter definido. Ele pode também simbolizar uma síntese da cultura e da mentalidade brasileiras, que não têm uma linha precisa de resistência, sendo uma mescla de influências. Nessa rapsódia, Mário enfeixa lendas e mitos indígenas, piadas, ditos populares levados à ação ao pé da letra, expressões, rituais extraídos do Brasil e do mundo primitivo sul-americano, que vão se sobrepondo ou alternando num fluxo caleidoscópico. Embora Macunaíma o Herói sem Nenhum Caráter tenha sido escrito antes da articulação do movimento antropófago por Oswald de Andrade, tem em comum com aquele movimento a evocação às raízes primitivas brasileiras e o nacionalismo crítico. (Oliveira, Cleuir Be/Jezi de, Arte literária brasileira." Clenir Beilezi de Oliveira SP Moderna 2000.) PERSONAGENS MACUNAÍMA "Era o herói inteligente, que vivia deitado, "espiando o trabalho dos outros". Mas, "si" punha os olhos em dinheiro, "dandava pra ganhar vintém" Oportunista e acomodatício, desconhecia o espírito de luta e sacrifício: "não pagava a pena brigar'. E ia fazendo uma "coleção de palavras feias de que gostava tanto... "Na macumba que o herói frequentava, o "çairê pra saudar os santos" tinha na ponta o ogã, "um negrão filho de Ogum, bexiguento e fadista de profissão, se 6

8 chamando Olelê Rui Barbosa". E na procissão que acompanhava aquela reza em melopeia entorpecente, "seguiam advogados taifeiros curandeiros poetas o herói gatunos portugas senadores, todas essas gentes dançando e cantando a resposta da reza" : Vamos sa-ra-vá!" (Afrânio Coutinho) "Cavalcanti Proença explica-o como o herói excepcional da literatura popular, aquele herói que 'não tem preconceitos' não se cinge à moral de uma época e concentra em si próprio todas as virtudes e defeitos que nunca se encontram reunidos em um único inimigo." "Herói síntese, folclórico, à antiga, como entendeu o seu próprio criador: criador do ciclo americano, urna força pura da cosmografia pré-colombiana, cujas dimensões excedem a realidade. Tanto "está fora do bem e do mal como transcende o espaço e o tempo." "O herói é marcado pela preguiça pela astúcia, pela fantasia, pelo erotismo, pela magia. São traços que trafegam por todo o romance, conduzindo duas acepções a satírica, ou o anti-herói, e a trágica, o herói. Na trágica firma-se a solidão de quem transgride tabus ou abala certezas instituídas." Jiguê Irmão que está na força de homem, mas tonto o suficiente para Macunaíma estar sempre lhe passando a perna e, principalmente, roubando suas mulheres. Jiguê fica mulato, cor de bronze, quando toma banho na água milagrosa. Maanape Irmão já velhinho, mas feiticeiro, esperto. É ele quem consegue converter o cacau em dinheiro na Bolsa de Mercadorias. Ci Também cognominada Mãe do Mato, uma amazona, como indica o fato de só ter um seio (o outro fora arrancado), que tanto gosta de guerrear quanto de fazer amor, chegando a exaurir Macunaíma, que até dorme no meio da relação, sobe para o céu e vira a estrela Reta do Centauro. Venceslau Pietro Pietra É o gigante Piaimã, de pés virados para trás (Caipora), disfarçado de comerciante peruano com grandes bigodes, mas não consegue enganar o herói, que lhe dá fim, afogando-o numa macarronada. Mas o antagonista morre com graça, dizendo que está faltando queijo. Safará Mulher de Jiguê ainda nos tempos da infância de Macunaíma, às margens do Uraricoera. Era ela que levava o menino para passear no mato e voltava cansada, dizendo que era de carregar o piá nas costas. Até que não era uma mentira tão grande. Íriquí Outra mulher de Jiguê, conseguida em São Paulo. Era linda e gostava muito de se pintar, mas tinha muito piolho. Também brincava com o herói, fazendo Jiguê de bobo. (Geraldo Chacon) Mário escreveu também o Ensaio: A Escrava que não é Isaura (1925): teoria poética do Modernismo. Amar, verbo Intransitivo Amar Verbo Intransitivo é prosa experimental e metalinguística voltada para a construção da identidade da nação para uma abordagem da relação amorosa 7

9 em sua intransitividade, em seus elementos complexos, de fundo psicológico, destacando-se a especificidade da alma feminina. O núcleo da narrativa é o idílio, a história de amor, a descoberta do amor, sua prática pelo jovem aluno e Fraulein revistando sua pedagogia e seu sonho, afeiçoando-se, mais do que desejava, a Carlos, sem esquecer, entretanto, a intransitividade do verbo amar... Telê Porto Ancona Lopez, "uma Difícil Conjugação ", estudo introdutório de Amal; Verbo Intransitivo, de Mário de Andrade. NARRADOR A "lição da amor" da governanta alemã Fraulein ao jovem brasileiro Carlos constitui, nas palavras de Telê P A. Lopez, o núcleo narrativo do "idílio" que vamos estudar. A utilização da palavra idílio poesia lírica bucólica ou pastoril para classificar a obra, índica o seu principal aspecto: trata-se de um exemplo da prosa experimental de Mário de Andrade, o mais expressivo líder de nossa primeira geração modernista, a geração de 22. Com Amar; Verbo Intransitivo, o autor pretendia, então, colocar em prática as propostas de renovação literária que instauram a modernidade artística brasileira. No trabalho mencionado, a estudiosa de Mário de Andrade afirma o seguinte: O narrador que capta a cena no que ele tem de essencial, frequentemente nos faz lembrar a representação cinematográfica: a câmera que segue as pessoas, foco isento, olhando por detrás, ou foco comprometido que faz as vezes dos olhos da personagem. Narrar cinematograficamente o romance moderno combinado com reflexão literária, machadiana, metalinguística, e com a capacidade do narrador de se fundir às manifestações do mundo interior de seus personagens. A afirmação lida refere-se aos dois fatores essenciais que caracterizam o narrador, transformando-o em personagem da história. O primeiro consiste na aproximação entre literatura e cinema, no caráter metonímico (a parte pelo todo) das cenas narradas, as quais aparecem em close, destacando um traço de personagem, um elemento narrativo, para que o leitor participe ativamente da montagem do romance, como uma espécie de co-autor. O segundo concerne às digressões metalinguísticas do narrador, digressões que lembram o estilo de Machado de Assis, e que nos permitem ver no narrador um personagem, o personagem principal, não pela sua presença na intriga, ou por se confundir com aqueles que a vivem, mas porque, ao contar, o narrador mostra-nos como conta, exercendo, assim, a metalinguagem. A técnica cinematográfica e a metalinguagem a linguagem que tematiza a própria linguagem constituem, portanto, os procedimentos essencialmente modernos presentes ao longo de todo o texto. Através deles, o narrador altera o foco narrativo da primeira para a terceira pessoa e vice-versa, assume concomitantemente as posições de observador e de "onisciente" sem deixar de analisar as motivações íntimas dos personagens, mas sem esgotá-las. Enfim, podemos afirmar que o narrador interfere de 8

10 forma sistemática e pedagógica na arquitetura do processo narrativo, para desvendá-lo ao leitor, quebrando a "ilusão romanesca" e conduzindo o mergulho na ficção para um outro mergulho no fazer ficcional. A paródia, ou a imitação satírica de procedimentos e aspectos que envolvem a criação literária, associa-se aos dois tal fatores comentados e torna, conforme exemplificaremos, difícil mas fascinante a leitura de Amar; Verbo Intransitivo. FOCO NARRATIVO Narrativa em terceira pessoa, com narrador onisciente. Mas que, no epílogo, assume a própria voz em primeira pessoa. Tudo ele (o papagaio) contou pro homem.... E o homem sou eu, minha gente, e eu fiquei pra vos contar a história. Em síntese: Mário de Andrade assume, explicitamente, o papel de narrador. Usa muitos cortes bruscos da narração para dar voz aos personagens, o que aproxima a narrativa da técnica cinematográfica. Isso imprime velocidade à obra, movimento à narrativa e marca o simultaneísmo (influência do cubismo). ESPAÇO E TEMPO Embora, como nas narrativas picarescas, a história comece do nascimento do herói (na realidade, anti-herói) e ainda que a narração da vida de Macunaíma, a perda e a recuperação da muiraquitã sejam um fio condutor da narração, não existe um tempo cronológico. Os cortes são constantes e frequentes são os relatos de lendas e mitos. O tempo se torna assim indeterminado. Tem-se alguma referência: São Paulo já tem um processo de mecanização, de industrialização. Macunaíma se espanta que, em São Paulo, as máquinas já tenham mais valor que as pessoas. Já existe a máquina telefone, a máquina-automóvel. Mas, ao mesmo tempo, Anchieta, João Ramalho, pe. Bartlomeu Gusmão, Zumbi, o pintor Mendonça Mar estão presentes. Em síntese, o tempo, como tudo o mais na narrativa, é tratado de forma fantástica (de fantasia), maravilhosa e mágica; O mesmo se diga do espaço. Há uma desgeografização. O herói, ao mesmo tempo está em São Paulo, Rio. Chuí, Natal, Amazonas. Bahia e Mendoza, na Argentina. Em síntese: o tempo e o espaço, na obra não resistem a nenhuma lógica racional. Há, em Macunaíma, uma atemporalidade e uma inespacialidade. LINGUAGEM A linguagem é bem revolucionária. O autor une expressões populares, provérbios, frases feitas. Cria palavras novas. Quebra padrões gramaticais e gráficos. Em síntese: coloquia-lismos, brasileirismos, regionalismos, transgressões gramaticais e gráficas, vocabulário indígena, tudo se torna elementos para a criação de um estilo vivo e original. Chama, ainda a atenção, a ironia crítica da Carta pras Icamiabas. : Vazada em linguagem escorreita, de modulação seiscentista, mas com deliberados intuitos satíricos, visto que o seu pedantismo se creditaria ao vezo brasileiro semiculto do falar bonito. Massaud Moisés 9

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