OS DIREITOS MORAIS DO AUTOR: Repersonalizando o Direito Autoral

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1 OS DIREITOS MORAIS DO AUTOR: Repersonalizando o Direito Autoral RODRIGO MORAES Advogado. Mestre em Direito Privado e Econômico pela UFBA. Pós-Graduado em Direito Civil pela Fundação Faculdade de Direito da Bahia (UFBA). Membro da Associação Brasileira de Direito Autoral (ABDA). Consócio do Instituto dos Advogados da Bahia (IAB). Professor de Direito Civil e de Direito Autoral e Propriedade Industrial. Professor Convidado do curso de Pós-Graduação em Direito Civil da Fundação Faculdade de Direito da Bahia (UFBA). Pesquisador da Linha de Pesquisa Propriedade Intelectual, do Grupo Direitos Fundamentais e Reflexos nas Relações Sociais, da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Presidente da Comissão de Educação, Cultura, Esporte e Lazer da OAB-BA, triênio OS DIREITOS MORAIS DO AUTOR: Repersonalizando o Direito Autoral Editora Lumen Juris Rio de Janeiro 2008 Copyright 2008 by Rodrigo Moraes

2 Produção Editorial Livraria e Editora Lumen Juris Ltda. Capa Juarez Paraiso A LIVRARIA E EDITORA LUMEN JURIS LTDA. não se responsabiliza pela originalidade desta obra. É proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio ou processo, inclusive quanto às características gráficas e/ou editoriais. A violação de direitos autorais constitui crime (Código Penal, art. 184 e, e Lei no , de 1o/07/2003), sujeitando-se à busca e apreensão e indenizações diversas (Lei no 9.610/98). Todos os direitos desta edição reservados à Livraria e Editora Lumen Juris Ltda. Agradecimentos Impresso no Brasil Printed in Brazil Dedico este trabalho aos autores brasileiros. Sobretudo, aos injustamente desconhecidos do grande público. Aos meus pais, Charles e Sônia: pelo amor, pela fé, pelo dom da vida. A Carla, minha poesia cotidiana, meu chão, minha esposa-namorada. Aos meus irmãos Paulo, Lêda e Fátima, pela amizade e pelo carinho. Aos meus sobrinhos, Lucas, Lara e Yago. Vó Augusta, Teca, Mário, Zé Rodrigo, Tio Rodrigo e Tia Lêda, Cida, Érica, Fernando, Marilene, Cris, Roberto, Tia Lúcia, Tio Sérgio, Marcelo, Mônica, Bahia, Excelsa, Priscila, Candice... A todos os meus familiares!

3 Ao estimado orientador Edivaldo Boaventura, pela experiência e pelas importantes dicas para esta dissertação. A Nilza Reis, estimada amiga, exemplo de magistrada e profunda conhecedora do tema direitos da personalidade, obrigado pela generosa e tão importante contribuição para este trabalho. A Oscar Lepikson, amigo-irmão e primeiro incentivador de minha vocação para o magistério. A Lisane Gesteira, querida amiga, pelo imenso apoio na pesquisa bibliográfica. Ao fantástico Movimento Escalada (www.movimentoescalada.org.br), que me conquistou desde Maranatá! A Pe. Irala (www.opa.art.br) e ao grupo OPA (Oração Pela Arte), tão importantes em minha vida. Ao querido amigo Pe. Roberto Ribeiro, pelo precioso auxílio na tradução da obra de Stockholm, escrita em francês. A Elza Lapa e José Borba Pedreira Lapa, queridíssimos amigos e padrinhos de casamento. Serei sempre grato a Deus por essa amizade. A Jorge Lapa, advogado competente, exemplo de ética na profissão. Ao saudoso Arx Tourinho, querido professor de Direito Constitucional, advogado comprometido com a democracia e a justiça. Valente e corajoso, partiu no auge da carreira, deixando imensa saudade. Aos amigos Ana Lúcia Berbert de Castro, Fernando Fontes e Fernando Henrique Fontes, obrigado pela amizade sincera. Ao mestre Juarez Paraiso, artista de escol, mestre das artes plásticas e da cidadania. Obrigado pela linda capa, que contém seus inesquecíveis painéis destruídos pela intolerância religiosa. À artista plástica mineira Yara Tupinambá, que disponibilizou preciosas fotografias de sua obra Guerra e Paz. Ao artista plástico Inácio Rodrigues, que disponibilizou precioso material sobre sua obra Ribamar. A Edvaldo Bispo Gomes Filho e Paula Morais Brito de Santana, que me apresentaram, com paixão e criatividade, ao Direito Autoral. Nossos encontros do DEDA (Dinâmica de Estudos em Direito Autoral) são inesquecíveis. A Hildebrando Pontes, consagrado autoralista mineiro. Valeu, sô! A Otávio Afonso, Gerente de Direito Autoral do Ministério da Cultura, pela amizade, pelo apoio e pela confiança. A Eduardo Pimenta, experiente advogado autoralista, meu sincero obrigado pelo precioso apoio. A José Amando Junior, amigo e advogado de coragem, constitucionalista talentoso, pessoa com imensa sensibilidade social. A Mônica Aguiar, querida e competente professora de Bioética, no Mestrado, e de Direito Civil, na graduação. A Saulo Casali e Paulo Pimenta, estimados professores do Mestrado.

4 Ao consagrado J. J. Calmon de Passos, pelas inesquecíveis aulas de Processo Civil durante o Mestrado. A Rodolfo Pamplona Filho, inquieto-amigo-incentivador de sonhos, obrigado pelo lindo prefácio. A Paquito, talentoso compositor baiano, pela colaboração na pesquisa bibliográfica sobre histórias da MPB ligadas ao Direito Autoral. A Saul Quadros Filho, com quem tive a oportunidade de aprender e descobrir o dia-a-dia do nobre e difícil labor de advogado. A Pablo Stolze Gagliano, pelo incentivo e pelo lindo prefácio. A Roxana Borges, civilista apaixonada pelo estudo dos direitos da personalidade, pela importante dica no exame de qualificação. A Cristina Cunha, amiga-professora-compositora, pela revisão do texto. A Marcus Vinícius de Andrade (AMAR), pela contribuição na pesquisa sobre plágio em música. A Rafael Oliveira, amigo-irmão-jurista, talentosíssimo processualista, pela leitura atenciosa dos originais desta obra. A Adriano Marques, irmão de fé, excelente advogado, pela amizade tão especial. A Jackson Azevedo, exemplo de professor comprometido com a Educação não-mercantilista e cidadã. Obrigado pelos ensinamentos duradouros, Caro Mestre! A Cristiano Chaves de Farias, genial civilista baiano, pessoa humana das mais sensíveis. Obrigado pelo carinhoso posfácio, que tanto me alegrou. E, principalmente, a Deus, Autor dos autores, Criador dos criadores, Pai da humanidade, Fonte inesgotável de amor. Artigo II Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou. Sumário (Thiago de Mello, Os Estatutos do Homem) Apresentação... Prefácio... Introdução... 1 xix xxiii PRIMEIRA PARTE FUNDAMENTOS DOS DIREITOS MORAIS E SUA FORMAÇÃO HISTÓRICA

5 Capítulo 1 Conceito, Denominação, Natureza Jurídica e Características dos Direitos Morais Conceito de direitos morais Denominação: direitos morais, extrapatrimoniais ou pessoais Natureza jurídica dos direitos morais Características dos direitos morais Inalienabilidade Irrenunciabilidade Intransmissibilidade inter vivos Imprescritibilidade Perpetuidade dos direitos morais à paternidade e à integridade Impenhorabilidade Capítulo 2 Evolução Histórica do Direito Autoral A Antigüidade greco-romana A Idade Média A invenção de Gutenberg (1450) e a posterior censura sob a forma de privilégios A primeira lei autoral: Ato da Rainha Ana (Inglaterra, 1710) A Revolução Francesa: abolição dos privilégios e surgimento da noção de propriedade intelectual A construção jurisprudencial dos direitos morais: França, século XIX Capítulo 3 Breve Histórico das Legislações Autorais Brasileiras Lei Medeiros e Albuquerque, de Código Civil de 1916 (CC-16) Lei no 5.988, de 1973 (LDA-73) Lei no 9.610, de 1998 (LDA-98) Capítulo 4 Reconhecimento dos Direitos Morais no Âmbito Internacional Reconhecimento do direito moral na revisão da Convenção de Berna (Roma, 1928) Reconhecimento do direito moral na Declaração Universal dos Direitos Humanos (França, 1948) Exclusão dos direitos morais no Acordo TRIPS (1994) Capítulo 5 Natureza Jurídica do Direito Autoral Teoria do privilégio Teoria do direito real de propriedade Teoria do direito de personalidade Teoria dos direitos intelectuais Teoria do direito da coletividade Teoria do direito pessoal-patrimonial: adotada pela legislação brasileira Capítulo 6 Repersonalização do Direito Autoral Conceito, terminologia e fundamentos A visão patrimonialista do Direito Autoral e a proposta de repersonalização SEGUNDA PARTE OS DIREITOS MORAIS PREVISTOS NA LEI AUTORAL BRASILEIRA Capítulo 7 Direito à Paternidade da Obra Considerações iniciais Terminologia A paternidade nasce com a criação da obra e não com o registro... 60

6 7.4. O absurdo art. 667 do Código Civil de A co-autoria de obras musicais Casos na história da Música Popular Brasileira Luiz Gonzaga tenta comprar canção de Patativa do Assaré O vendedor de sambas Nelson Cavaquinho O comprositor de sambas Francisco Alves e os vendedores Ismael Silva, Nilton Bastos e Noel Rosa O samba 14 anos de Paulinho da Viola A parceria frutífera de Dorival Caymmi e Carlinhos Guinle Orientador de monografia, dissertação ou tese acadêmica não é co-autor Direito ao nome não se confunde com direito moral à paternidade Revogação do art. 185 do Código Penal Direito ao nome em relação a projeto arquitetônico Conceito aberto (indeterminado) de plágio e alguns critérios utilizados para a sua identificação Não existe plágio de idéias Os plágios equivocadamente atribuídos a Ari Barroso, Bruno Gouveia (Biquíni Cavadão), Herbert Vianna, Tom Jobim e Zezé Di Camargo O falsário que acusou, injustamente, o grupo mineiro Skank O plágio de Roberto Carlos e Erasmo Carlos O careta O quase-plágio involuntário de Noel Rosa O plágio de Rod Stewart em cima da obra Taj Mahal, de Jorge Ben Jor O correto uso das paráfrases Modalidades de identificação do autor: o uso de pseudônimos Violação ao direito de anunciar a autoria: sanções previstas no art. 108 da LDA A omissão das autorias pelas emissoras de rádio e TV Omissão e erro na atribuição de autoria A omissão da autoria de obras fotográficas e audiovisuais A omissão dos nomes de intérpretes A paternidade de canções folclóricas: o episódio Mané de Izaías A paternidade de obras psicografadas: o caso da viúva de Humberto de Campos versus o médium Chico Xavier A paternidade de obras feitas por ghost-writer

7 A proliferação da desonestidade intelectual na pesquisa acadêmica Capítulo 8 Direito ao Ineditismo da Obra Considerações iniciais Terminologia Direito ao ineditismo: direito fundamental (CF, art. 5o, XXVII) O direito ao inédito antes da LDA O significado da autorização prévia e expressa do autor O que se entende por acesso da obra ao público Prazo máximo de dois anos para edição de obra O célebre caso de Anatole France versus Editora Lemerre Direito ao inédito: ponto de partida para exercício dos direitos patrimoniais O exercício do direito ao inédito após a morte do autor O testamento de Franz Kafka A divergência de co-autores no exercício do direito ao ineditismo Cartas missivas em processos judiciais Jurisprudência Último capítulo da novela Ti ti ti publicado pela revista Amiga Comercialização não autorizada de palestras Três famosos julgados ocorridos na França

8 Whistler versus Eden

9 Charles Lecocq versus Sra. Cinquin Camoin versus Carco Capítulo 9 Direito à Integridade da Obra Considerações iniciais Direito moral à integridade: breve histórico legal e conceito O direito à integridade na Convenção de Berna Prejuízo à obra ou agressão à honra ou à reputação do autor Terminologia Integridade de obras teatrais e musicais Integridade de obras fotográficas Integridade de obras audiovisuais Integridade da edição gráfica de obras musicais Integridade de obras de artes plásticas O processo de Yara Tupinambá contra o Município de Belo Horizonte O processo de Juarez Paraiso contra a Igreja Evangélica Renascer em Cristo O processo de Carlos Bastos contra Lojas Insinuante Ltda O processo de María Waveluk contra a Igreja Ortodoxa Russa do Patriarcado de Moscou A revolta de Diego Rivera contra Nelson Rockfeller Carta de Frida Kahlo ao Presidente do México O dever do Estado de proteção ao patrimônio histórico, cultural e artístico Integridade de obras caídas em domínio público Paródia: liberdade de expressão versus direito moral à integridade da obra

10 9.14. Direito à integridade dos intérpretes Capítulo 10 Direito à Modificação da Obra Considerações iniciais Direito moral de modificação: conceito e fundamentos Modificação: alteração do conteúdo Intransmissibilidade mortis causa do direito de modificação Limites ao exercício do direito de modificar: direito adquirido e co-autoria

11 10.6. Versão definitiva de uma obra Capítulo 11 Direito ao Arrependimento da Obra Considerações iniciais Terminologia A ligação do direito ao ineditismo com o direito ao arrependimento A mudança ocorrida na LDA-98: restrição ao exercício do direito ao arrependimento Direito ao arrependimento em outros países Significado da expressão retirar de circulação a obra As prévias indenizações a terceiros A reabilitação do preso e a proibição de anotação do motivo da despedida na Carteira de Trabalho do empregado Ausência de prazo de reflexão para exercício do direito ao arrependimento Exemplos de arrependimento de autores Rosa Mystica, de Afrânio Peixoto: Incorrigível. Só o fogo O Manual Prático do Vampirismo, de Paulo Coelho O Mundo da Paz, de Jorge Amado O saravá do Samba da Benção, de Baden Powell e Vinícius de Moraes Tim Maia e o relançamento post mortem de seu renegado disco Racional Arrependimento de intérpretes Xuxa e o filme Amor, estranho amor Durval Lelys e a canção Osama, Osama Bin Laden Madonna e o videoclipe American Life

12 O primeiro disco de Roberto Carlos: Louco por você Capítulo 12 Direito ao Acesso a Exemplar Único e Raro de Obra em Poder de Terceiro Considerações iniciais Natureza jurídica: direito moral ou patrimonial? Limitação ao direito de propriedade Requisitos Finalidades Possibilidade de o autor divulgar e comercializar a sua obra Preservação da memória do autor: o exemplo de Candido Portinari Ajuda na fiscalização das revendas Prevenção contra futuras falsificações Significado da expressão maneira menos inconveniente possível Ter acesso : possibilidade de deslocamento da obra?

13 12.8. Intransmissibilidade: prejudicial aos interesses dos sucessores e da coletividade de acesso a bens culturais

14 Conclusões

15 Referências Bibliográficas Apêndice Quadro Comparativo Posfácio Apresentação Honrada pela solicitação de Rodrigo Moraes para fazer a apresentação do trabalho apresentado como requisito essencial à conclusão do seu curso de Mestrado, na Faculdade de Direito da UFBA, enfrentei, inicialmente, sérios obstáculos, quando busquei encontrar as palavras adequadas para transportar, sinteticamente, a todos aqueles que se interessam pelo direito autoral, a riqueza que nele encontrei. Sim, porque o trabalho ora apresentado tem caráter interdisciplinar e, por isso, como afirma o autor, não se destina apenas aos estudantes e profissionais do Direito, mas também aos escritores, fotógrafos, compositores, músicos, arranjadores, artistas plásticos, atrizes, diretores teatrais e cinematográficos, publicitários, editores, cantores, arquitetos, tradutores, jornalistas, empresários de indústria fonográfica e de radiodifusão, o que, em tese, dificultaria a tarefa que me foi atribuída, ante a minha total impossibilidade de domínio sobre aspectos inerentes a essas diversas searas. Fiquei, todavia, entusiasmada quando, lendo o trabalho, verifiquei que o autor traz ao cenário nacional uma obra de fôlego, haja vista que, suprindo uma lacuna na bibliografia pátria atual, inverte o tratamento doutrinário tradicionalmente consagrado no âmbito do direito autoral, qual seja, aquele que confere prioridade ao aspecto patrimonial, para dar o merecido destaque à dimensão que concretiza a dignidade da pessoa humana dotada do poder de criação o autor da obra literária, artística e científica e que se revela, prioritariamente, nos direitos - morais analisados na segunda parte de sua obra. Preocupado com a supervalorização dos direitos patrimoniais do autor apenas uma das facetas que amparam a sua criação, Rodrigo Moraes não se descurou de analisar, na primeira parte de sua obra, os fundamentos, o conceito, a natureza jurídica e as características do direito autoral, sem esquecer, entrementes, de referir a sua formação, assegurando, assim, aos seus leitores, a exata apreensão do horizonte histórico de suas diversas fases evolutivas. Seguindo essa linha, manifesta a certeza no sentido de que a compreensão da proposta encaminhada à repersonalização dos direitos autorais não pode ser apreendida sem o prévio conhecimento dos caminhos tortuosos através dos quais as lutas pelo seu reconhecimento em prol do criador vararam os séculos. Ciente das inúmeras e significativas controvérsias que ainda palpitam nesta esfera, e terminam submetendo os direitos conferidos ao criador de uma obra literária, artística ou científica a uma impiedosa e quase exclusiva valorização do aspecto patrimonial, Rodrigo Moraes remete o estudioso da matéria, na segunda parte do seu trabalho, à análise do tema central. Enfrentando a matéria, Rodrigo Moraes alerta os leitores para a necessidade de urgente reconhecimento da primazia dos direitos morais do autor, não apenas baseado em uma opinião pessoal, mas atento, sobretudo, ao fato de que essa conclusão resulta da sua consagração pelo legislador pátrio quando os indica no art. 22 da Lei 9.610/98, topograficamente, antes dos direito patrimoniais, assim como fez o legislador constituinte com os direitos fundamentais, previstos no art. 5o da nossa Lei Maior.

16 Depois, fixando a sua atenção nos direitos morais indicados nos arts. 24 a 27, daquele diploma legal, analisa cada um deles o direito à paternidade, ao ineditismo, à integridade, à modificação da obra, bem como a garantia legal de arrependimento do autor e o seu direito de acesso a exemplar único e raro de obra em poder de terceiros, desenhando um modelo direcionado à valorização da pessoa do criador, do que resulta uma visão humanista capaz de abrir caminhos para a efetiva repersonalização do direito autoral. Considerando o direito ao ineditismo como um ponto de partida para o exercício dos direitos patrimoniais, já que a expressão econômica da obra não pode ser concretizada sem a sua publicidade e divulgação, o autor adota uma visão crítica que aguça a curiosidade alheia, brindando os leitores de seu trabalho com inúmeros e valiosos subsídios, a exemplo do que ocorre quando, ao examinar o difícil tema do plágio, sustenta o caráter aberto do seu conceito, evidenciando, com percuciência, que, na obra musical, ele não pode ser conduzido ao mito dos oito compassos, nem é possível a sua identificação na alegação de um simples estilo próprio de arte ou de idéias que alguém eventualmente adota ou manifesta. Citando casos pitorescos vivenciados por conhecidos e célebres compositores brasileiros, tais como Tom Jobim, Bruno Gouveia, Zezé Di Camargo, Jorge Ben Jor e tantos outros, Rodrigo Moraes consegue efetivamente afastar-se do academicismo das obras jurídicas, tornando o seu trabalho acessível ao grande público, sem deixar, todavia, de enfrentar os aspectos jurídicos relevantes constatados nesta órbita, corajosamente preocupado com a defesa dos direitos autorais alheios. Adotando essa postura, manifesta repulsa à tão conhecida e descabida indústria da composição de equipe tradutora do enriquecimento sem causa lícita, em razão da qual - alguns criam e, sem qualquer esforço criativo, muitos ganham fama! Desenvolvendo o trabalho em direção à conclusão do seu lógico raciocínio, de forma profunda e com incursão na doutrina e na jurisprudência nacional e estrangeira, o autor também faz menção ao correto uso das paráfrases e dos pseudônimos, enriquecendo a sua obra, ainda, com a narração de histórias reais de diversos autores de obras literárias e musicais, dentre outros, tornando extremamente agradável a sua leitura. É o que ocorre, por exemplo, quando, ao centrar a sua atenção na paternidade das canções folclóricas, cita o episódio de Mané de Izaias, autor de um trecho da conhecida música Quixabeira, que foi interpretada por Carlinhos Brown, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia e Carla Visi, sem qualquer menção ao seu nome, pois era atribuído à criação um autor desconhecido, com indicação apenas dos adaptadores o próprio Brown, Afonso Machado e Bernard von der Weid. Estes, porém, tiveram a oportunidade de manter contato com o seu verdadeiro autor, que, ao final, foi resgatado do anonimato pelo jornalista e pesquisador Josias Pires, e, ao rememorar o episódio, quando questionado pela imprensa, declarou: É como se uma mãe botasse um filho no mundo, ele fosse voando pro estrangeiro e não voltasse mais pra casa. Transcrevendo as palavras de um homem simples do interior do Brasil, mas dotado de um rico poder de criação musical, Rodrigo Moraes não consegue ocultar a sua extrema sensibilidade em relação às agruras alheias, revelando, assim, no seu trabalho, a preocupação com o compromisso assumido com a alteridade, em defesa da qual muitas vezes atua. Não seria possível indicar todos os assuntos relevantes analisados por Rodrigo Moraes ao longo de mais de duzentas páginas, mas não há dúvida de que traz ao cenário nacional um trabalho inovador, corajoso, esclarecedor e profundamente rico, que, valorizando a disciplina normativa construída pelo legislador, não consegue esconder o conhecimento que conseguiu apreender nos seus poucos anos de vida, tanto no exercício do magistério, quanto na labuta diária que enfrenta, brilhantemente, na sua atividade de advogado.

17 Dotado de imensa sensibilidade, o autor defende, ao final, a repersonalização dos direitos autorais, estabelecendo, assim, uma verdadeira conexão interna dos aspectos moral e patrimonial, na qual o primeiro exige uma opção preferencial em seu favor, afastando, em conseqüência, as deformações resultantes da consideração solitária e da hipervalorização do último (direitos patrimoniais), fazendo florir, como resultado desse entendimento, a superação do egoísta ato de ter pela extraordinária tarefa humana de poder ser, de forma integral, como inúmeras vezes refere Rodrigo Moraes. Ao fazê-lo, manifesta o pleno conhecimento da necessidade de resgatar-se, de forma efetiva, a dignidade da pessoa do criador, concretizando, por seu intermédio, não somente um dos fundamentos da nossa República (art. 1o, inciso III, CF), mas sobretudo um princípio antropológico que acolhe a idéia pré-moderna e moderna de dignitas-hominis (Pico della Mirandola), ou seja, do indivíduo conformador de si próprio e da sua vida segundo o seu próprio projecto espiritual * (1). E, por certo, não haverá resguardo da dignidade humana do autor de uma obra seja artística, literária ou científica, senão através da sua total capacitação para o pleno exercício das faculdades inerentes ao conteúdo dos direitos que amparam o seu poder de criação, do que resulta a imperiosa necessidade de conferir-se prevalência aos aspectos morais do seu direito autoral, como defende, com entusiasmo contagiante, o elaborador e, portanto, criador deste trabalho. Por isso, antes de tudo, devo agradecer a Rodrigo Moraes pela contribuição que ora oferece à doutrina autoral com a sua obra, fruto de estudo, pesquisa e extrema dedicação, tornando possível a absorção de profundos conhecimentos e a obtenção de primorosas informações aos que têm interesse no tema, desejando que este seja um dos muitos trabalhos com os quais brindará o mundo interdisciplinar referido em seu âmbito, com o qual induvidosamente guarda pertinência, pois também alia em si as qualidades de poeta e músico. Nilza Reis Professora de Direito Civil da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Juíza Federal Titular da 8a Vara Federal Seção Judiciária do Estado da Bahia. Mestre em Direito Privado e Econômico pela UFBA. Professora de Direito Civil no Curso de Pós-Graduação da Fundação Faculdade de Direito da Bahia. Prefácio A presente obra é fruto da dissertação, defendida em 06 de julho de 2006, na Faculdade de Direito da UFBA Universidade Federal da Bahia, perante banca examinadora composta pelos Profs. Drs. Edivaldo M. Boaventura (orientador), J. J. Calmon de Passos e Rodolfo Pamplona Filho, em que o autor obteve o título de Mestre em Direito Privado e Econômico. O livro versa sobre um tema pouco explorado na doutrina especializada, constituindo-se, sem sombra de dúvida, em uma nova referência brasileira no estudo da matéria. Os direitos morais do autor exigem, para a sua devida compreensão, uma concepção interdisciplinar, pois se trata de temática de grande interesse tanto para os profissionais da área jurídica, quanto para a imensa gama de militantes da produção intelectual, no que se incluem todos aqueles amantes da criatividade humana. * CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucional e Teoria da Constituição. 3. ed. Coimbra: Almedina, 1998, p. 221.

18 O trabalho se encontra dividido em duas partes: uma geral, que aborda os fundamentos desses direitos e a sua formação histórica; e outra específica, onde são analisados, minuciosamente, cada um dos incisos do art. 24 da Lei n , de 1998, vigente Lei de Direito Autoral. O estudo procura abordar, ainda, a evolução histórica dos direitos morais, bem como seu conceito, natureza jurídica, principais características e reconhecimento em âmbito internacional. Além disso, analisa, de forma minudente, os direitos autorais morais previstos expressamente na legislação brasileira, quais sejam, o direito à paternidade, ao ineditismo, à integridade, à modificação e ao arrependimento da obra, além do direito ao acesso a exemplar único e raro de obra em poder de terceiro. O mais importante, porém, é o novo olhar, digno do artista, com que projeta os direitos autorais, pois, mudando o seu foco tradicionalmente patrimonial, dirige sua atenção à pessoa do autor. Assim, não há dúvidas de que o leitor está recebendo uma obra-prima inédita no meio jurídico nacional. E não conhecemos realmente indivíduo melhor talhado que o autor para tal mister. Com efeito, congregando em si as condições de advogado, professor universitário e músico, tem - amplas condições de tratar a matéria com a mencionada (e imprescindível) interdisciplinaridade (jurídica, cultural e sociológica), permitindo uma visão efetivamente ampla sobre o problema. A obra é atualíssima e tendo a honra do convite para prefaciá-la, somente nos resta recomendar a sua leitura a todos os interessados, com a certeza de que o brilho intelectual de Rodrigo Moraes encantará a todos que, como os subscritores, têm o prazer de conviver com este advogado com alma de poeta. Ver o seu sucesso é constatar a verdade de que todo mundo carrega em si o Dom de ser capaz.... Salvador, fevereiro de Pablo Stolze Gagliano Juiz de Direito no Estado da Bahia. Professor de Direito Civil da Universidade Federal da Bahia. Professor de Direito Civil da Escola da Magistratura do Estado da Bahia. Professor Convidado dos Cursos de Extensão da Faculdade Autônoma de Direito de São Paulo. Professor dos Cursos de Pós-Graduação da Fundação Faculdade de Direito da Bahia e da UNIFACS. Mestre em Direito Civil pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Especialista em Direito Civil pela Fundação Faculdade de Direito da Bahia. Rodolfo Pamplona Filho Juiz Titular da 1a Vara do Trabalho de Salvador/BA (Tribunal Regional do Trabalho da Quinta Região). Professor Titular de Direito Civil e Direito Processual do Trabalho da Universidade Salvador UNIFACS. Professor Efetivo do Programa de Pós-Graduação em Direito da UCSAL Universidade Católica de Salvador Professor Adjunto da Faculdade de Direito da UFBA Universidade Federal da Bahia. Professor da Pós-Graduação em Direito (Mestrado e Doutorado) da UFBA. Coordenador do Curso de Especialização em Direito e Processo do Trabalho do JusPodivm/BA. Mestre e Doutor em Direito do Trabalho pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

19 Especialista em Direito Civil pela Fundação Faculdade de Direito da Bahia. Membro da Academia Nacional de Direito do Trabalho e da Academia de Letras Jurídicas da Bahia. Introdução Inicialmente, é importante dizer que a presente dissertação de mestrado, na intenção de ser lida e compreendida não somente por estudantes e profissionais do Direito, evita academicismo, rebuscamento da linguagem e excessos do chamado juridiquês, discurso hermético que se torna inacessível ao leigo no jargão da ciência jurídica. Esse cuidado deve-se, sobretudo, ao fato de o tema ser, inegavelmente, interdisciplinar, do interesse de um vasto público de nãoespecializados no Direito, tais como: escritores, fotógrafos, compositores, músicos, arranjadores, artistas plásticos, atrizes, diretores teatrais e cinematográficos, publicitários, editores, cantores, arquitetos, tradutores, jornalistas, empresários da indústria fonográfica e de radiodifusão. Os direitos morais do autor ainda foram pouco estudados pela doutrina autoralista brasileira. O primeiro livro específico sobre a matéria é datado de De autoria do jurista Philadelpho Azevedo ( ), tal obra, intitulada Direito moral do escriptor, mesmo não estando obsoleta, por ser vanguardista e longeva, encontra-se, hoje, incompleta e desatualizada. Existe, também, uma excelente dissertação de mestrado (não publicada), intitulada Direito moral do autor literário, que foi defendida, em 1988, na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pela professora Maria das Graças Ribeiro de Souza, sob a orientação do professor Milton Fernandes, que foi desembargador do Tribunal de Justiça mineiro. Esses dois únicos trabalhos revelam a carência bibliográfica da matéria, apesar de sua indiscutível importância prática e teórica. A presente dissertação, salvo engano, é a terceira, no país, em ordem cronológica, a se debruçar especificamente sobre os direitos morais do autor. Os - manuais de Direito Autoral abordam o tema em exíguos capítulos, sem uma análise profunda e pormenorizada. Em geral, a discussão dos autoralistas nacionais e estrangeiros é, ainda, predominantemente, patrimonialística. O debate gira muito mais em torno da proteção de investimentos que da dignidade do homem-criador, o centro e o fim do Direito, seu principal destinatário. Os direitos morais, que potencializam a dignidade da pessoa humana em sua manifestação criadora, mantêm-se à margem, como questão menor, secundária, inoportuna. Apesar da inegável importância do tema, a doutrina especializada ainda o desprestigia. O Direito Autoral sempre esteve moldado em função quase que exclusivamente de critérios de rentabilidade. A valorização exagerada conferida, historicamente, aos direitos patrimoniais precisa ser mitigada. Desde a vigência de sua primeira lei, em 1710, o Direito Autoral sempre priorizou o aspecto monetário, em detrimento do elemento extrapatrimonial. Preocupou-se muito mais com a dimensão do ter que com a do ser. A proteção sempre foi muito mais direcionada aos investimentos de grupos econômicos do que à pessoa do autor. Pode-se dizer que os direitos patrimoniais, em última análise, visam a satisfazer os meios de sobrevivência do criador intelectual, apesar de, na prática, estarem também a serviço de inúmeros intermediários das indústrias criativas, tais como editores e produtores fonográficos. Os direitos morais, por sua vez, objetivam salvaguardar as razões da existência do autor. Os primeiros estão ligados a questões pecuniárias. Os segundos, a questões de ordem extrapatrimonial.

20 É urgente uma ruptura da lógica patrimonialística, que sufoca a existencial. É tarefa que se impõe ao autoralista voltar os olhos à pessoa humana, e, assim, mudar o foco de sua atenção, repudiando a vetusta mentalidade oitocentista. Chamar-se-á essa mudança paradigmática de repersonalização. O Direito Autoral não pode ser despido de sua vocação humanista, como, há tempos, vem exigindo o capitalismo. Nessa nova perspectiva, é imprescindível uma reconstrução profunda da denominada propriedade intelectual, que não pode ser reduzida a meros padrões monetários, a simples operações comerciais. A repersonalização do Direito Autoral, através da valorização dos direitos morais de autor, consiste na bússola para o itinerário desta pesquisa, permeando todos os capítulos. Essa idéia-mestra serve de guia e alicerce na análise dos principais questionamentos enfrentados, instigando uma nova mentalidade, um novo paradigma, um novo espírito, que anima o Direito Autoral a ser antropocêntrico, considerando a pessoa humana como valorfonte de todos os valores, no dizer de Miguel Reale. Entretanto, existe uma hipocrisia no contemporâneo discurso autoralista, que, invocando a pessoa do autor, busca, na verdade, a proteção de investimentos de grupos empresariais. Esse fingimento, que invoca dignidade e cultura para, no fundo, salvaguardar business e entretenimento, será oportunamente criticado e repelido. Metaforicamente, existem, no âmbito autoral, lobos intermediários disfarçados de ovelhas, com um falacioso discurso legitimador, que, não raro, engana os mais desavisados. Em outras palavras, o presente estudo pretende detectar, criticamente, a elefantíase da faceta econômica do Direito Autoral. Estruturalmente, o presente estudo é dividido em duas partes: uma geral e outra específica. A primeira, geral, aborda os fundamentos e a formação histórica dos direitos morais. A segunda, específica, analisa, detidamente, cada um dos sete incisos do art. 24 da vigente Lei de Direito Autoral, n , de 1998, que será chamada simplesmente de LDA-98. Além desses sete incisos, outros artigos espraiados na legislação autoralista, que se referem aos direitos morais, ganharão a devida análise. No capítulo 1, são analisados o conceito, a denominação, a natureza jurídica e as principais características dos direitos morais. Nos capítulos 2 a 4, é feito um estudo histórico, em âmbito nacional e internacional, que permite uma melhor percepção da importância dos direitos morais neste século XXI. No capítulo 5, é abordada uma antiga e espinhosa problemática do Direito Autoral: a sua natureza jurídica. São enfocadas diversas teorias, representando diferentes visões ideológicas. O capítulo 6, encerrando a parte geral, traz a idéia-mestra do presente estudo: a proposta de repersonalização do Direito Autoral, priorizando o ser em relação ao ter, o que vai de encontro à atual tendência patrimonialista. Chegando à parte específica, nos capítulos 7 a 12, destrincha-se cada um dos direitos - morais previstos na lei autoral brasileira, quais sejam: direito à paternidade, ao ineditismo, à integridade, à modificação, ao arrependimento e ao acesso a exemplar único e raro de obra em poder de terceiro. Todas essas prerrogativas são analisadas à luz da valorização da dignidade do criador intelectual, numa ótica, portanto, humanista. Na conclusão, amarram-se as principais idéias enfocadas, abrindo-se, também, frestas para o desenvolvimento futuro de tópicos que não puderam ser abordados com a devida profundidade, por exigir maiores pesquisas. Apontam-se, pois, novos caminhos, que necessitam de posterior e cuidadosa reflexão. Metodologicamente, a repersonalização do Direito Autoral consiste na motivação desta pesquisa, no problema a ser enfrentado. Em outras palavras, a pergunta a ser respondida é a seguinte: os direitos morais de autor estão sendo prestigiados pela atual sociedade capitalista? Em torno desse problema núcleo do tema direitos morais girará toda a investigação. Os capítulos da segunda parte desta dissertação funcionam como respostas à pergunta lançada. A proposta de repersonalização consiste na bússola, no fulcro, no sustentáculo para o desenvolvimento de cada um dos direitos morais previstos na LDA-98.

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