GALERIAS DE IMAGENS E O FOTOJORNALISMO DA COPA NA FOLHA.COM: O VALOR DO EFÊMERO NA IMAGEM PÓS-MODERNA

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1 GALERIAS DE IMAGENS E O FOTOJORNALISMO DA COPA NA FOLHA.COM: O VALOR DO EFÊMERO NA IMAGEM PÓS-MODERNA Carolina Zoccolaro Costa Mancuzo 1 Universidade Estadual de Londrina, Londrina, PR Resumo: Este artigo faz parte de estudos que procuram alargar horizontes para a produção de dissertação no Programa de Mestrado em Comunicação da Universidade Estadual de Londrina (UEL) que tem como tema a imagem fotojornalística aplicada na internet e, como recorte espaço-temporal a Copa do Mundo de 2010, realizada na África do Sul e as galerias de imagens dos jogos do Brasil. Para tanto, apresenta aqui reflexões preliminares a partir da análise de uma das galerias apresentadas pelo site de notícias Folha.com, quando do jogo entre as seleções brasileira e holandesa. Tendo como base metodológica a desconstrução analítica da imagem, entende-se que ao contrário do jornal impresso, a internet dá a possibilidade de romper com os limites do espaço e possibilita ao leitor a visualização de uma série de imagens de um mesmo evento sem que haja agora o apoio do texto. No entanto, questionamentos podem ser feitos no sentido de compreender como o jornalismo online tem trabalhado esta questão a partir da premissa de que com a pós-modernidade e uma visão de sociedade (hiper) espetacularizada, a fotografia jornalística passa a ser trabalhada essencialmente como factual, ou em estado efêmero permanente, para uma sociedade que busca imagens para decodificar fatos. Palavras-chave: fotojornalismo online, galerias de imagens, efêmero, Copa do Mundo Introdução Os primeiros desenhos pré-históricos da humanidade continham em sua essência a necessidade do homem em contar suas peripécias, seus engenhos e autoridade diante da Natureza e do contato com outros seres. Seja em uma caçada ou em uma guerra, essa apropriação quase ou totalmente mística da imagem deixa vestígios importantes no sentido de apreender que a transmissão de informações na história humana teve início, muito antes da escrita e do desenvolvimento das línguas, a partir da sequência iconográfica, ritualizada ou não. Não há dúvidas de que partir desta constatação, já tão expandida no meio acadêmico de análise de imagens pré-históricas e sua relação com os homens, é necessário porque se torna ela uma chave importante para o debate que se pretende abrir com este estudo. 1 Graduada em Comunicação Social Habilitação Jornalismo pela Universidade do Oeste Paulista de Presidente Prudente (SP). Especialista em Agronegócios pelas Faculdades Integradas Antônio Eufrásio de Toledo, de Presidente Prudente. Mestranda em Comunicação Visual pela Universidade Estadual de Londrina (PR). Professora e coordenadora do curso de Jornalismo da Universidade do Oeste Paulista, de Presidente Prudente (SP). 577

2 Ou seja, o artifício lançado pelo homem pré-histórico na reconstrução de realidades a partir do elemento imagético se refaz novamente em importância, mas dentro de um novo suporte. Se antes a história em sequência era apresentada na rocha, na caverna, agora é a tela do computador seu principal ponto de apoio, onde conexões de vários tipos se instalam, inclusive e, principalmente, imagéticas, para uma geração cada vez mais audiovisual. (CANEVACCI, 2009) Embora se possa falar que este padrão é existente em toda rede mundial de computadores, o mesmo procedimento encontra realização plena quando enquadrado no ofício organizado e profissionalizado de se contar aquilo de aconteceu: o Jornalismo. As galerias de imagens dos portais noticiosos também apresentam aos seus espectadores a história sequenciada de um acontecimento. Fazem cumprir com isso, entre outras premissas que autores como Camargo (1999) e Joly (1996) detectaram em estudos de base, o que é designado à imagem em sua própria ontologia: as funções informativa e narrativa. Assim, compondo um mosaico de informações, podem ajudar a compreender e abrir o debate no sentido de como é que esta narrativa se desdobra, e com quais consequências, em uma época saturada de imagens e formas mil de se transmitir um fato. Estas premissas suportam este artigo, onde a discussão teórica e reflexões, porém, são reforçados a partir da análise preliminar de uma galeria de fotografias veiculada no portal Folha.com, que trata da eliminação da Seleção Brasileira de Futebol na Copa do Mundo da África do Sul, em julho de 2010, diante da Seleção Holandesa. Um recorte específico de imagens será aplicado e, sobre este, feita uma avaliação a partir do método de Desconstrução Analítica da Imagem, proposta por Boni (2000), cuja validade reside no fato de esquadrinhar a cena e observar recursos da linguagem fotográfica usados, bem como seus possíveis efeitos posteriores. O que se espera é a ampliação de horizontes em uma tentativa coordenada de dirimir dúvidas e questionamentos e contribuir com provocações e diálogos no campo da Comunicação Visual, do Jornalismo e da Fotografia usada no meio digital. Até que ponto a sequência de fotografias de uma história é suficiente para seu descortinamento diante do público? A superexposição fotográfica nas galerias de imagens de notícias na internet somente apresenta um fato ou abre espaço também para o detalhamento de informações, antes impossível por força da delimitação do espaço jornalístico no meio impresso? Este mesmo detalhamento significa uma abertura importante para humanizar ainda mais uma notícia a partir do momento em que não só o fato macro é exposto, mas também, de maneira muito mais perfeita e por conta das condições técnicas das máquinas fotográficas, seus personagens? 578

3 Até que ponto a possibilidade de espaço e a superexposição cumprem a função de informar e humanizar, considerando sua presença em um ambiente hiperespetacular? São objetivos extensos, que este artigo não tem a pretensão de explicá-los em sua totalidade, mas principalmente abrir o debate visando novos esclarecimentos que permitam avançar sobre a proposta de dissertação que se encontra em fase de pesquisas no Programa de Mestrado em Comunicação da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e que tem como tema macro a imagem fotojornalística aplicada na internet e, como recorte espaçotemporal a Copa do Mundo de 2010, realizada na África do Sul e as galerias de imagens dos jogos do Brasil. Espera-se que as considerações finais apontadas neste artigo, mesmo que em recorte reduzido para as galerias de imagens, apontem caminhos de elucidação para a dissertação em andamento, especialmente no que diz respeito às potencialidades e reflexos do uso da imagem fotojornalística. 2. Mudanças no Jornalismo A web, com a possibilidade de compartilhamento mundial, como existe hoje, só se tornou realidade no mês de agosto de 1991, quando o físico britânico Tim Bernes Lee trouxe à tona dois grandes inventos que revolucionariam a comunicação: o www (World Wide Web) e o HTML (Hipertext Markup Language). O primeiro, segundo Pinho (2003), organiza as informações e os arquivos na rede, enquanto o segundo é uma linguagem de programação que serve como base para todo conteúdo online: texto, foto, áudio, vídeo, design, animação. Nesses 20 anos, a internet teve seus conceitos transformados, a participação de recursos audiovisuais na elaboração do conteúdo se tornou peça-chave no processo e a web é considerada o meio de comunicação mais completo da história. Hoje, a informação jornalística é mais uma forma de se fazer uso da rede. Só o Google, site de buscas mais acessado do mundo, contabiliza bilhões de páginas indexadas, com conteúdos dos mais variados possíveis. Desde informação levada por profissionais comprometidos com a veracidade do fato, como sites de empresas e também pessoais, que estão livres para a publicação de conteúdo, sem a preocupação com a qualidade. O novo período é considerado revolucionário porque vai de encontro com o conceito trabalhado até então na Comunicação Social, quanto à influência da Indústria Cultural através de uma cultura de elite, monopolizando o que se discute na mídia. Nos dias atuais, com a internet tão presente no cotidiano das pessoas, faz-se presente o livre-arbítrio no 579

4 consumo e produção de informações, já que todos são produtores potenciais de conteúdo e podem determinar o que deve ser lido e quais os assuntos estarão na pauta do dia. Tudo isso revolucionou ainda mais as rotinas do jornalismo diário, que na rede, deixa de ser diário e passa a ser instantâneo. Moretzsohn, em seu livro Jornalismo em Tempo Real, de 2002, já questionava a velocidade em que a informação deve ser apurada, produzida e finalizada para um jornal impresso. Ela afirma na obra que os valoresnotícia se distorciam frente à velocidade das informações. Essa noção, decorrente da velha e criticada idéia de que o público tem o direito de saber para poder tomar suas decisões, sugere que o público precisa saber cada vez mais rápido, porque este é o ritmo do mundo. Portanto, a qualidade é aí identificada com a rapidez na transmissão da informação. (MORETZSOHN, 2002, p. 12) Com a web, esta realidade fica cada vez mais latente e a preocupação fundamental trata-se da velocidade em que os fatos devem ser noticiados, dada a concorrência com a avalanche de informações que está disponível na rede. A cada dia, o jornalista da web deve buscar formas de transmitir a informação da maneira mais completa, utilizando-se de todos os recursos disponíveis para prender a atenção do leitor-internauta. [...] Basta ler a primeira página de um jornal de papel e a home page do mesmo jornal em formato eletrônico. As diferenças saltam aos olhos literalmente: a quantidade e a qualidade de imagens, vídeos, fotos, músicas, conexões a crescentes links paralelos do mesmo grupo editorial etc. transformam a experiência tranquila e privada da leitura em uma conexão contínua transitiva entre focos curtos e densos do ponto de vista da experiência visual e, de qualquer modo, sempre multirreceptivos. (CANEVACCI, 2009, p.228, grifo do autor) Porém, ao mesmo tempo em que a informação deve ser trabalhada de maneira cada vez mais rápida, os recursos visuais podem ser vistos como uma maneira de garantir que essa notícia seja transmitida de maneira fidedigna, sem necessariamente, ter a construção de um texto como suporte. É o caso das galerias de imagens, que rompem com o espaço delimitado das páginas de um impresso e podem ser utilizadas como narrativa de um fato. 3. A Fotografia na Internet Um fator determinante para o avanço da fotografia na rede foi a criação da banda larga. Até o surgimento desta nova tecnologia de recepção do sinal, o tempo de 580

5 carregamento de uma página era longo e o uso de imagens dificultava ainda mais a abertura da página. [...] Tal situação, evidentemente, limitava a utilização não só de fotos, mas de todo e qualquer recurso não-textual. (MUNHOZ, 2007, p.2) Sendo assim, para fins de estudo do fotojornalimo na internet, Munhoz (2007) divide três fases distintas do uso da imagem na rede, apontadas pelo Grupo de Estudos de Jornalismo On-line (GJOL) da Bahia: a) um primeiro momento onde o jornalismo é caracterizado pelo modelo transpositivo, quando os produtos oferecidos, em sua maioria, eram reproduções de partes dos grandes jornais impressos; b) uma segunda fase de desenvolvimento quando, mesmo atrelado ao modelo do jornal impresso, os produtos começam a apresentar experiências, na tentativa de explorar as características oferecidas pela rede, chamada fase da metáfora, e; c) um terceiro e atual momento que corresponde a um estágio mais avançado designado como fase do Webjornalismo propriamente dita, com produção de sites jornalísticos que começam a se distanciar do modelo puramente metafórico da fase anterior. (MUNHOZ, 2007, p.6, grifo do autor) linguagem própria Esse terceiro e atual momento da imagem fotográfica online busca uma [...] utilizando suas características e seu potencial, sendo por isso denominado de geração do Webjornalismo. É também nesse momento que surgem e se difundem novos formatos, que passam a ter crescente importância no conjunto do jornalismo praticado na Web: os Weblogs, Fotologs e os sites de jornalismo de pauta aberta, em que a participação do cidadão comum na construção das notícias é fundamental. (MUNHOZ, 2007, p.10, grifo do autor) A fotografia, como afirma Munhoz, passa a ser trabalhada com maior destaque na atualidade. Esse espaço é aberto também em consequência de uma geração considerada audiovisual, ou seja, que tem a necessidade de ser informada com o suporte da imagem e do áudio. Desta forma, faz-se necessário usar outros recursos além do texto para prender a atenção do internauta, que é um ser ativo, em um suporte não-linear e tem a liberdade de escolher para onde deve seguir. Canevacci (2009), ao vislumbrar as particularidades do hipertexto, que proporciona essa não-linearidade, e as possibilidades infinitas de escolha que a rede oferece ao leitor, avalia que a comunicação visual tem um papel bem mais significativo se comparada a outros suportes. A tarefa que se abre à comunicação digital é bem outra: elaborar particulares tramas narrativas que, desde seu próprio interior, desenvolvam uma experimentação de lógicas não-lineares: tramas escriturais, sônicas, icônicas e gráficas que, já em sua 581

6 imanência comunicacional, elaborem outras sintaxes, lógicas, perspectivas, identidades. (CANEVACCI, 2009, p.229) A fotografia, após a passagem por esses três momentos na rede, ganhou espaço e poder na transmissão da informação. Desta forma, o jornalismo praticado na web atualmente propõe possibilidades de aprofundamento maior da informação visual. As capas dos sites dão espaço em destaque às fotografias, além de, na própria página inicial, ao contrário do jornal impresso, haver a possibilidade de usar mais imagens, com o recurso do slide show, ou seja, no decorrer dos segundos mudam-se as imagens, o que favorece um uso mais abundante em números de fotografias, inclusive na home page. Já nas páginas internas, objetos de análise deste artigo, além do espectador se deparar com recursos visuais que intercalam ao texto, é possível clicar em uma fotografia e seguir para galerias de imagens, o que mostra a possibilidade de aprofundamento informativo visual no ambiente online. O limite de espaço quase inexistente na Web assinala com a possibilidade de se estruturar o material fotográfico de forma inédita, favorecendo o aprofundamento da informação imagética e disponibilizando-a de maneira criativa e dinâmica, proporcionando transformações significativas na narrativa do fato jornalístico. Da mesma forma, a facilidade de acesso do cidadão a equipamentos digitais de alta tecnologia, tanto na produção como na disponibilização de dados, tem revolucionado a mídia informativa, gerando notícias diretamente do local dos acontecimentos, em tempo real, suplantando em muito a suposta agilidade da cobertura jornalística produzida pelos meios convencionais de imprensa e, dessa forma, impondo aos profissionais da fotografia jornalística novos paradigmas que o impelem a um redimensionamento do fazer fotojornalístico.(munhoz, 2007, p.13) 4 Galerias de Imagens Bruno Rodrigues, autor de diversos livros sobre jornalismo online, costuma usar a metáfora da cebola para explicar as camadas de conteúdos de um site. Ele explica que para entender os níveis de aprofundamento, basta imaginar as camadas de uma cebola. A parte mais externa, que fica amostra, pode ser chamada de Camada de Apresentação onde são expostos os aspectos mais persuasivos da informação que virá a seguir (BRASIL, 2010, p.12). Ou seja, é a página inicial do site. Na segunda camada, que é encontrada após o clique em um link da página inicial, chama-se Camada Genérica onde são respondidas questões básicas sobre a informação em questão mas apenas as básicas (BRASIL, 2010, p.12). Às camadas e páginas que vêm posteriormente, com os múltiplos aspectos da informação, dá-se o nome de Camadas de Detalhamento. Nestas camadas estão todos os detalhes sobre a informação abordada (BRASIL, 2010, p.12). 582

7 As galerias de imagens de um site normalmente estão nas camadas de detalhamento. Mas existem possibilidades de serem encontradas em camadas genéricas, ou seja, quando da página inicial, pode-se ir direto a uma galeria. Quando isso acontece, é sinal de que o próprio site valoriza a informação visual passada pela galeria, a ponto de que ela seja encontrada facilmente e que alcance um número maior de leitores para aquele conteúdo. Ainda usando a metáfora da cebola, é importante deixar claro que, mesmo com a infinita possibilidade de disponibilização de conteúdo na internet, já que não existem limites espaciais e/ou temporais, quanto mais profundo estiver um conteúdo nessas camadas mais difícil ele será encontrado, o que faz com que a audiência para aquele conteúdo seja limitada, além de não garantir a eficiência na informação que pretende ser transmitida. O enorme fluxo de informações e a rapidez com que elas circulam torna cada vez mais difícil a escolha consciente entre uma e outra. Há, além disso, uma busca incessante por essa rapidez de acesso, mas o tempo nunca será suficiente para usufruirmos de todas as informações desejadas ou disponíveis. (BERGO, 2009, p.124) Muitos sites fazem uso de galerias como forma de garantir que o internauta tenha a maior quantidade de informações possíveis sobre determinado tema. Porém, às vezes limitam o acesso a esta galeria a partir de um link em uma matéria sobre o assunto. O que ocorre é que em pouco tempo, devido ao fluxo de informações e a troca de matérias na página inicial, essa camada que era genérica (a segunda após a home page) passa a ficar perdida em meio a outras informações. As galerias vinculadas àquela matéria, por sua vez, tem o mesmo fim. Mesmo assim, as galerias foram um grande avanço no que se refere à disponibilização de conteúdo imagético em um veículo de comunicação. A dissolução dos limites cronoespaciais e a conseqüente possibilidade de se dispor de espaço (praticamente) ilimitado para a apresentação do material noticioso são a maior ruptura a ter lugar com o advento da Web como suporte midiático para o jornalismo. A disponibilidade de espaço, somada à multimidialidade, leva à expectativa de uma valorização do lugar da imagem nos sites jornalísticos da Web. (MUNHOZ, 2007, p.2, grifo do autor) O internauta, ao se deparar com aquela quantidade massiva de imagens digitais precisa redescobrir a forma de fazer a leitura deste conteúdo. A fotografia digital, em sua práxis e como produto massificado pela cultura, revela as novas relações do homem contemporâneo com a imagem, convidando-o a sair da posição de espectador para uma ilusória posição de fotógrafo, mas uma real posição 583

8 de narrador. Um narrador de sua condição individual que se deixa entrever, que dá pistas de sua condição de ser cultural. (CAMARGO, 2007, p.3) Portanto, a eficiência na comunicação, só é possível quando o emissor atinge seu objetivo na exposição dos fatos. Para tanto, a fotografia jornalística na internet quando usada com o recurso de galeria, precisa adotar uma nova linguagem, ou será apenas uma série de imagens desconexas sobre determinado fato. Uma das possibilidades que vem sendo usada cada vez mais nas galerias de imagens dos sites noticiosos, é a linguagem narrativa, ou seja, as fotos colocadas em ordem cronológica, de forma a contar uma história. Este recurso, além de trazer lógica ao conteúdo abordado, facilita a compreensão do internauta e, ainda, faz com que ele tenha a informação completa sobre o assunto, apenas vendo a sequencia selecionada pela edição do site. Além disso, outro fator que tem aparecido de maneira sistemática nas galerias em questão, é o tipo de imagem que se disponibiliza: fechada com a predominância do elemento humano. Esta característica se deve, entre outros fatores, a uma série de estudos realizados pelo Instituto Poynter, especializado em estudar o comportamento do internauta. Entre as conclusões apresentadas na pesquisas, uma delas apontou que o leitor da web prefere imagens fechadas, com a presença de pessoas, a imagens gerais de um fato. Na época desta pesquisa, 2004, o motivo apresentado estaria ligado ao fato de que o tamanho destinado às fotografias na web era pequeno, o que dificultava a visão de detalhes quando a imagem era aberta. (OUTING, 2004). Sete anos depois, tempo considerável em se tratando de internet, o tamanho das imagens aumentou e o comportamento do internauta mudou bastante. Porém, as imagens permaneceram humanizadas, como será visto a seguir em uma análise preliminar de uma galeria fotojornalística. 5. Análise de Imagens da Galeria Brasil x Holanda A galeria escolhida para servir como ponto de análise e abertura para as considerações pretendidas a respeito do uso da fotografia na internet possui 62 imagens, produzidas quando do jogo entre as seleções do Brasil e Holanda, no dia 02 de julho, pelas quartas-de-final da Copa do Mundo da África do Sul, em São fotografias com autores diversos e pertencentes a várias agências noticiosas. Este material está disponível online para observação no endereço Do montante geral de imagens nesta galeria, 62 unidades, percebe-se por 584

9 observação simples que 36 fotografias possuem como característica geral a preferência do fotógrafo por detalhes, seja de rostos de jogadores ou situações específicas de jogo em que aparecem em cena no máximo três pessoas. Embora se trate de um procedimento normal quando da produção jornalística fotográfica de uma partida de futebol, o índice de 36 imagens, que corresponde a 58% em um universo de 62, com estas características é importante. Quanto à produção técnica das cenas, é possível verificar que os fotógrafos, até por necessidade, optaram por trabalhar a partida com teleobjetivas, cujas imagens proporcionam maior profundidade de campo. No uso dos planos de tomada, verifica-se uma preferência pelo plano americano, onde o objeto fotografado tem sua vividez destacada diante de outros elementos da natureza em cena, assim o primeiro plano, ou o tradicional close up, que isola o sujeito, registra pormenores, com maior capacidade de despertar sensações e recordações. O mesmo se percebe quando se adiciona na análise das imagens a questão do foco. Especialmente trabalhadas a longa distância, as cenas possuem alto grau de nitidez nos elementos centrais o que, com ajuda da questão da profundidade de campo, auxilia na recepção da mensagem. A cena da Figura 1 dá conta de uma das imagens da galeria analisada. Nela é possível identificar de maneira imediata dois jogadores da Seleção Brasileira, Cacá (à esquerda) e Robinho. Ambos apresentam sua decepção logo após a virada da seleção holandesa, marcando 2 a 1, este que seria o resultado final da partida. Pela profundidade de campo e foco obtidos com a cena, os dois jogadores brasileiros aparecem com muita nitidez. Cacá, com uma das mãos na cabeça e Robinho, com olhar perdido para o chão demonstram o fracasso e a derrota. O ar é de desolação, assim como foi para milhões de torcedores brasileiros. Encarar esta imagem na internet, pode ser capaz de evocar a dimensão do acontecimento, especialmente para aqueles que sofreram junto. 585

10 III Encontro Nacional de Estudos da Imagem Figura 1 Cacá e Robinho Imagem da galeria de imagens Brasil x Holanda, da Folha.com Autor: Matt Dunham/AP Elementos de análise semelhantes são possíveis de serem observados nas duas imagens seguintes (Figuras 2 e 3), também retiradas da galeria analisada, mas que dão conta do goleiro brasileiro Júlio César. Na primeira, ele está encostado em uma das traves no gol da Seleção Brasileira. Tanto a composição da cena, quanto profundidade de campo, ângulo e foco contribuem decisivamente para também apresentar ao espectador a decepção do jogador e provocar no observador a mesma memória triste, ruim. Figura 2 Júlio César, goleiro da Seleção Brasileira Imagem da galeria de imagens Brasil x Holanda, da Folha.com Autor: Matt Dunham/AP 586

11 III Encontro Nacional de Estudos da Imagem Assim também o é com a fotografia seguinte, já ao final da partida, quando depois de ter ele também falhado em um dos gols, deixa o campo de jogo. A proximidade da pessoa Júlio César em um momento assim pode evocar sensações humanísticas, tanto por apoio ao profissional quanto também pelo próprio espectador sentir-se desta maneira. Figura 3 Goleiro Júlio César, da Seleção Brasileira Imagem da galeria de imagens Brasil x Holanda, da Folha.com Autor: Matt Dunham/AP 6. Considerações Finais A fotografia jornalística na internet, embora utilizada de maneira massiva nos dias de hoje, precisa encontrar sua própria linguagem para ganhar destaque em meio à efemeridade das imagens técnicas na rede, que somente passam aos olhos dos internautas no decorrer do dia, mas não deixam suas marcas enquanto produção e informação. Esta sociedade mediada por imagens e que precisa delas até mesmo para compreender um pensamento, visto que cada vez mais a linguagem escrita vem sendo banalizada com o avanço das tecnologias, exige que as informações sejam amparadas por suportes visuais. Não apenas a fotografia ganha espaço nesta sociedade tecnológica, como o vídeo, os infográficos e os áudios. Pensar jornalismo na rede hoje, significa pensar convergência. Desta forma, em mundo em que os valores mudaram e o cidadão comum tem papel decisivo na construção da informação, ditando boa parte das regras, é preciso criar padrões. O bom jornalismo não deve estar pautado apenas nos resultados das pesquisas de audiência. Em uma sociedade de massa, que segue as tendências da maioria, 587

12 ainda é possível trazer novos formatos, que estejam à altura do fazer jornalístico e que atendam a este público. Neste aspecto, é papel fundamental do jornalista da web garantir lugar de destaque ao fotojornalismo enquanto informação visual e não apenas ilustração dos fatos em meio a enxurrada imagética disponível na rede. Nas análises realizadas até aqui é possível afirmar que, mesmo com as mudanças no comportamento do internauta e com o aumento do espaço para a fotografia no ambiente virtual, já foi criada uma cultura na elaboração e divulgação da imagem de galerias, no sentido da humanização da notícia, valorizando assim o personagem da ação. Para esta pesquisadora, além do fato de ter se criado esta cultura no modo de se usar a fotografia na internet, a concorrência dos fotojornalistas com fotógrafos amadores, que estão nos mesmos locais, mostrando as mesmas imagens, foi determinante na consolidação desta técnica. Isto porque, como fotógrafos profissionais, cada vez mais é preciso trazer à fotografia um olhar diferenciado, com técnica apurada e com um conteúdo que traga informação. Além do mais, nesta sociedade hiper-espetacularizada, na proposta de Silva (2007), em que o mundo é mediado por imagens, o cidadão comum não quer mais ser um mero observador, mas fazer parte do espetáculo. (2007, p.1-3) diz que Estamos agora no hiper-espetáculo. O espetáculo era a contemplação. Cada indivíduo abdicava do seu papel de protagonista para tornar-se espectador. [...] No espetáculo, o contemplador aceitava viver por procuração. Delegava aos superiores a vivência de emoções e de sentimentos que se julgava incapaz de atingir. (SILVA, 2007, p.1). O espectador agora adentrou ao mundo do hiperespetáculo, onde Silva [...] a contemplação continua, mas é uma contemplação de si mesmo num outro, em princípio, plenamente alcançável, semelhante ou igual ao contemplador. [...] São tantos mais adorados quanto menos se diferenciam realmente dos fãs. [...] O hiperespetacular não é um conjunto de imagens espetaculares, mas uma relação social entre telespectadores mediada por imagens banalizadas e repetidas à exaustão. E essa visão pormenorizada de um fato, em que é possível ver as vitórias e as mazelas da pessoa em destaque, e não mostrar apenas os números, em uma imagem geral e ampliada, o uso da fotografia humanizada possibilita um interesse muito maior frente ao que se é mostrado e a própria fotografia jornalística tem seu papel valorizado. Portanto, o uso de uma galeria de imagens para a cobertura de um evento, como uma Copa do Mundo, ou mesmo para o relato de uma tragédia, pode trazer muito mais 588

13 curiosidade e vivacidade no que se mostra, do que imagens que se intercalam a um texto, como em um jornal impresso. Referências Bibliográficas BERGO, Lívia. A revolução das tecnologias de informação e comunicação: conseqüências sociais, econômicas e culturais. Revista Digital de Biblioteconomia e Ciência da Informação. Volume: 7, Issue: 1, Pages: BONI, Paulo César. O discurso fotográfico: a intencionalidade de comunicação no fotojornalismo. Tese (Doutorado em Ciências da Comunicação). São Paulo: ECA/USP, BRASIL. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Secretaria de Logística e Tecnologia da Informação. Departamento de Governo Eletrônico. Padrões Brasil e-gov. Cartilha de Redação Web. Versão Disponível em: <http://www.governoeletronico.gov.br/biblioteca/arquivos/padroes-brasil-e-gov-cartilha-deredacao-web>. Acesso em: 29 jul CAMARGO, Hertz Wendel de. Corpo e Narrativa Visual: enredamentos da fotografia na realidade simulada. I Seminário "Escritas, Imagens e Criação: Diferir". Associação de Leituras do Brasil: Campinas, Disponível em: Acesso em 04/03/2011. CAMARGO, Isaac Antonio. Reflexões sobre o Pensamento fotográfico: pequena introdução às imagens e à fotografia. Londrina: ed. EDUEL, CANEVACCI, Massimo. Comunicação Visual: olhares fetichistas, polifônicos, sincréticos sobre corpos. São Paulo: Brasiliense, JOLY, Martine. Introdução à análise da imagem. Campinas: Papirus, MORETZSOHN, Sylvia. Jornalismo em tempo real: o fetiche da velocidade. Rio de Janeiro: Revan, MUNHOZ, Paulo. Estágios de Desenvolvimento do Fotojornalismo na Internet. Diálogos & Ciência Revista da Rede de Ensino FTC. Ano V, n. 11, set OUTING, Steve; RUEL, Laura. The Best of Eyetrack III: What We Saw When We Looked Thought Their Eyes, 2004, disponível em: PINHO, J. B. Jornalismo na Internet: Planejamento e produção da informação on-line. 3. ed. São Paulo: Summus, SILVA, Juremir M. Depois do espetáculo: reflexões sobre a tese 4 de Guy Debord (Texto apresentado no GT Comunicação e Cultura na XVI COMPÓS, Curitiba). 589

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