Jornal Impresso Como Objeto De Pesquisa Histórica: Análise Da Construção Dos Movimentos Estudantis De Teresina 1

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1 Jornal Impresso Como Objeto De Pesquisa Histórica: Análise Da Construção Dos Movimentos Estudantis De Teresina 1 Elinara Soares Barros de Sousa 2 Universidade Federal do Piauí Teresina/PI Resumo Este artigo tem como objetivo perceber os jornais impressos de Teresina como objeto de pesquisa histórica sobre os movimentos estudantis da capital. Para tanto, fez-se uma pesquisa de tipo qualitativa, utilizando como método a pesquisa documental ao analisar as edições dos jornais teresinenses que circularam no período de 27 de agosto a 03 de setembro de Para se chegar ao objetivo proposto, buscou-se trazer à tona a relação entre História e Comunicação, além de mostrar os movimentos estudantis como objetos históricos, levando-se em consideração como se deu esse movimento no Brasil nos anos 60 e 70, onde era possível perceber o grande número de movimentos contestatórios realizados pelos estudantes da época. Este artigo traz para a discussão a questão da constituição da identidade do jornalista, o jornalismo como lugar de memória e o jornalismo como fonte de pesquisa histórica. Na segunda parte traz-se como foco o estudo sobre os movimentos estudantis no Brasil e na terceira parte é apresentada a análise dos jornais O Dia, Diário do Povo e Meio Norte. PALAVRAS-CHAVE: Jornais Impressos; Movimento Estudantil; História; Comunicação; Piauí. Introdução No final de agosto e início de setembro de 2011 as principais ruas do Centro de Teresina foram envolvidas por manifestações estudantis contra o aumento da passagem de ônibus, que passou de R$ 1,90 para R$ 2,10. Diante desses acontecimentos, pode-se perceber que os meios de comunicação da capital colocaram em evidência os atos dos manifestantes, trazendo o assunto como pauta nos principais sites de notícias, programas televisivos e radiofônicos. Os jornais impressos também trataram do assunto, dando destaque em suas capas e trazendo várias reportagens durante o período. 1 Trabalho apresentado no GT 1 História do Jornalismo do II Encontro Nordeste de História da Mídia, Teresina, 20 e 21 de junho de 2012 ² Graduada em Comunicação Social/Habilitação Jornalismo pela Universidade Federal do Piauí. 1

2 Cada jornal impresso de Teresina tratou o tema de forma bem específica e isso fez criar alguns questionamentos a respeito da construção que os jornais fizeram a respeito do fato: a construção histórica foi feita a partir de uma memória já instalada socialmente sobre os movimentos estudantis no Brasil? Até que ponto os jornais poderão ser utilizados como fontes para futuras pesquisas? Esta pesquisa busca responder esses questionamentos, a partir do estudo sobre a relação Comunicação e História. A História traz em sua problemática a questão da objetividade. Segundo Le Goff (2003), a objetividade histórica objetivo ambicioso constrói-se pouco a pouco através de revisões incessantes do trabalho histórico, laboriosas verificações sucessivas e acumulação de verdades parciais. Tal problematização se dá pelo fato de que pesquisa histórica ser realizada a partir de uma delimitação e de escolhas quanto ao objeto pesquisado. Por isso que a incansável busca pela objetividade histórica é posta à prova, pois seus estudos dependem das escolhas feitas pelo pesquisador. Essa mesma problemática pode ser percebida na área de comunicação, principalmente quando se fala em jornalismo. No entanto, esse é apenas um dos pontos em comum dessas duas áreas de estudos. Ainda pode-se citar que o estudo da comunicação e da história tem em comum o envolvimento de outras disciplinas, não sendo possível trazer esses estudos fora de um contexto no qual se apresentam outros sujeitos. Para Said (1997, p.08), isso pode ser percebido nos estudos sobre Comunicação, no qual afirma que mesmo tendo conquistado o status de disciplina teórica, em momento algum do seu percurso evolutivo a Comunicação Social prescindiu dos avanços auferidos por outras áreas de conhecimento, especialmente aquelas ligadas às Ciências Humanas e Sociais. Segundo Said, o pesquisador Wolf (1992: 11 apud Said, 1997, p.08-09), ao fazer alusão à relação estabelecida entre a comunicação e outras disciplinas, [...] afirma que a Comunicação Social, ao longo do seu desenvolvimento, gerou um âmbito disciplinar não autônomo, e, ao mesmo tempo, uma área temática específica, cujo objeto de estudo, dentro dos seus limites, especificidade e amplitude próprio, pode ser reconhecido e identificado, mas não pode ser facilmente delimitado [...] Diante disso, busca-se perceber como os jornais impressos de Teresina construíram em suas páginas os movimentos estudantis ocorridos durante no fim do mês de agosto e início de 2

3 setembro de 2011 e a partir disso, perceber como esses jornais se tornam objeto para pesquisas futuras. A identidade do sujeito do jornalismo O presente trabalho busca trazer à tona as discussões sobre a construção dos movimentos estudantis contra o aumento da passagem de ônibus de Teresina feita pelos meios de comunicação impressos, levando-se em consideração as edições dos jornais O Dia, Diário do Povo e Meio Norte que circularam no período de 27 de agosto a 03 de setembro de Para tanto, busca-se perceber os jornais analisados como objetos de pesquisa histórica. Para tratar do objeto de análise desta pesquisa, trouxe discussões relevantes a respeito da construção da identidade do sujeito como jornalista. Quanto a esta questão, é preciso destacar dois pontos. Primeiro, que a identidade é uma construção social e não algo nato ao ser humano, com isso, pode-se afirmar que a identidade é construída ao longo da existência do homem e, por isso, ela não é imutável. Lopes (2007, p.138) afirma que é necessário entender que identidade é formada a partir de vários elementos que são continuamente negociados e podem ser constantemente revistos e transformados. Corroborando essa opinião, Hall (2006) expõe sobre o fato de a identidade do sujeito estar em constante mutação, ou seja, o sujeito não mais nasce e morre com uma única identidade. O autor traz o sujeito como uma figura discursiva e afirma que o sujeito moderno nasceu no meio da dúvida e do ceticismo metafísico, o que nos faz perceber que o homem não era estabelecido e unificado como se imaginava. O segundo ponto que vale destacar é que a identidade se constitui de mais do que um simples papel que assumimos em determinado momento. Manuel Castells (2000 apud LOPES, 2007, p. 138) afirma que identidade compreende mais do que papeis: enquanto estes organizam funções, identidade é organização de significado. O Conceito de habitus, trazido por Pierre Bourdieu, é importante para as discussões a respeito da construção da identidade do jornalista. Tal conceito afirma que o indivíduo não é completamente autônomo em suas ações e, ao mesmo tempo, não é somente resultado das estruturas existentes na sociedade. 3

4 Segundo Bourdieu (2007, ), hatibus é um [...] sistema de disposições inconscientes que constitui o produto da interiorização das estruturas objetivas e que, enquanto lugar geométrico dos determinismos objetivos e de uma determinação, do futuro objetivo e das esperanças subjetivas, tende a produzir práticas e, por esta via, carreiras objetivamente ajustadas às estruturas objetivas. Com isso, o autor consegue fazer um equilíbrio entre as correntes de pesquisa que trazem o homem como único responsável por suas ações e as correntes que o considera como mero suporte de uma determinada estrutura social. É de suma importância ainda colocar nesta discussão o fato de a identidade de um grupo necessitar de legitimação diante da sociedade para continuar sendo válida (LOPES). Esta legitimação traz à tona a figura do Outro, pois é a partir da relação com o outro que sustentamos nossas identidades. Pollak (s/d, apud LOPES, 2007, P. 148) também traz o Outro como fator importante na construção da identidade. O autor sintetiza o conceito de identidade em uma imagem de si, para si e para os outros. Quanto à presença do Outro na construção da identidade do jornalista, podemos perceber com mais evidencia pelo fato de seu trabalho ser realizado em função de falar para o Outro. Sobre o trabalho realizado pelos profissionais de jornalismo, podemos afirmar que as técnicas empregadas diariamente influenciam diretamente no produto apresentado ao consumidor. Tais técnicas podem trazer como conseqüência, entre outras coisas, a não priorização, nas notícias, de uma abordagem histórica (Said, 1997). Não cabe neste estudo descrever todas as técnicas utilizadas pelos jornalistas, pois não é esse o objetivo proposto. No entanto, é importante lembrar que os profissionais trabalham levando em consideração critérios de noticiabilidade, trazendo como pauta fatos que são avaliados como singulares. Diante disso, Said (1997, p.20) afirma que um fato inesperado será sempre notícia em qualquer parte do planeta, e mesmo aqueles sem quase alguma imprevisão, quando transformados em notícia, não deixam de perder sua singularidade. Essa discussão sobre identidade do sujeito jornalista é importante para se perceber com mais clareza a questão analisada no nosso objeto de pesquisa, mostrando que os jornais também são constituídos a partir da identidade dos jornalistas, contribuído para o resultado apresentado nos jornais. 4

5 O jornalismo como lugar de memória A noção de memória se caracteriza como outro conceito construído socialmente. No entanto, tal percepção só foi possível a partir dos estudos realizados por Halbwachs (s/d apud LOPES, 2007), que deu à memória um viés sociológico, mostrando que até mesmo as lembranças mais íntimas não podem ser separadas do fato de o ser humano ser construído socialmente. Segundo Mendes e Leal (2011, p.03), Halbwachs lança como fundamento [...] que a memória não é evocação e sim reconstrução do passado realizada no presente. Não é um passado imutável que se tem acesso nos atos de rememoração, mas a lembranças dinamicamente construídas e reconstruídas de acordo com noções coletivas, também transformadas pelo horizonte social de uma época. Isso ainda é trazido por Santinello e Kaminski (2011, p. 01), que afirmam que a memória perpassa pelas práticas culturais, além de estar intrinsecamente interligada com o indivíduo e a sociedade. A memória é constituída pelo par lembrança/esquecimento, motivada por interesses do presente (Colombo, 1991, apud LOPES). Por isso é constante a reconfiguração que cada um faz do que é tido como algo importante a sustentar como lembrança. Outro ponto de vista interessante sobre memória é o trazido por Ribeiro e Brasiliense (2007, p. 221 apud SANTINELLO E KAMINSKI, 2011, p. 03), na qual afirmam que [...] na medida em que a memória vai ser ativada, remetendo àquilo que já aconteceu, o passado torna-se flexível e o presente um fluxo de mudanças constantes [...] Mas os acontecimentos jamais são pura factualidade, e mesmo o fato não pode ser entendido a partir de uma perspectiva ingênua, como se fosse uma realidade autônoma e prévia a sua configuração discussiva e mneumônica. Quando se fala do contexto vivido pela sociedade atual, pode-se perceber o excesso de informação e, consequentemente, uma dificuldade de conseguir lembrar todas as informações expostas diariamente. Em contraponto, é importante destacar que os avanços tecnológicos da comunicação têm tornando possíveis coisas que jamais se imaginou, como por exemplo, a 5

6 possibilidade de armazenamento de informações em um arquivo infinito através da internet (RIBEIRO; BARBOSA, 2006). É importante destacar que a memória é um fator de constituição da identidade. Segundo Ribeiro e Barbosa (2006, p.103) Cardeau argumenta que é através da memória que as identidades coletivas são fundadas. Diante disso e da aceleração de mudanças sociais ocorridas atualmente, os meios de comunicação se apresentam como um lugar de memória a partir do resgate da história em matérias especiais e comemorativas. Esse lugar é legitimado através de um discurso autorizado, isto é, reconhecido como tal e definido legitimamente: ele é pronunciado por uma pessoa legitimada, conhecida e reconhecida como habilitada e hábil para produzir esta classe particular de discurso. (Bourdieu, 1989, apud Ribeiro; Barbosa, 2006) No entanto, o jornalismo também se apresenta como um lugar de preservação de sua própria memória. Ribeiro e Barbosa destacam grandes instituições que fizeram o resgate de sua história, valorizando não só passado, mas também seu presente e futuro. Com isso, não se pode esquecer [...] que a memória não é apenas uma conquista de indivíduos ou coletividades, é também um instrumento e um objeto de poder (Le Goff, 1992, apud Ribeiro; Barbosa, 2006, p. 106). Jornalismo como fonte histórica Apesar de não ser o que priorizam na fabricação de suas notícias, podemos perceber que os jornalistas utilizam de conhecimento histórico em seus trabalhos diários, com isso, pode-se afirma que não somente o jornalismo é fonte para a história, pois os jornalistas utilizam o conhecimento histórico (ROMANCINI, 2005, p. 02). No entanto, é importante trazer aqui a discussão sobre o jornalismo como fonte de pesquisa histórica. Não foi com facilidade que os meios de comunicação se tornaram uma fonte credível para a História, pois, é inevitável colocar em questão a imparcialidade dos jornalistas e os interesses por trás das notícias expostas. Pelo menos até a década de 70 a utilização da imprensa como fonte história ainda não é significativa. Sobre isso, Romancini (2005, p. 10) traz a tona discussão proposta por Camargo, que discute aspectos que poderiam explicar esse fato, como a problemática da 6

7 veracidade da informação da imprensa, a ausência de repertórios de jornais exaustivos e a dispersão das coleções. Essa resistência se deu, principalmente, por conta da forma como a história foi percebida por muito tempo, na qual, somente os documentos oficiais eram levados em consideração, o que Romancini (2005, p. 03) traz como uma história tradicional, objetiva ou positivista. Esse quadro mudou a partir da percepção mais crítica da história, no qual passou-se a dar importância aos meios de comunicação como fonte de pesquisa da história, na qual se apresenta como rastros de um determinado tempo, pois seguir um rastro é percorrer um caminho já trilhado pelos homens do passado. Os rastros pressupõem que os homens do passado passaram por ali: são traços que ficaram de suas atividades, de suas obras (ferramentas, casas, templos, sepulturas, escritos, imagens) e que deixaram marca. (Barbosa, 2007, p ) Isso mostra mais claramente o jornalismo como fonte de pesquisa, na qual é possível tirar da produção diária dos jornais vestígios de como uma sociedade era representada pelos meios de comunicação a partir da legitimação do seu lugar de fala. No uso do jornalismo como fonte histórica é necessário levar em consideração os diversos conflitos apresentados em seus discursos. Não se pode ser simplista ao ponto de ver os produtos jornalísticos como um espelho da realidade, longe de qualquer subjetividade. Cabe lembrar que a análise realizada no presente trabalho toma como base o fato de o jornalismo ser uma fonte histórica e a História ser uma fonte para a realização do trabalho jornalístico. Os movimentos estudantis no Brasil Os jornais impressos de Teresina trouxeram como principal evento na semana analisada os movimentos contra o aumento da passagem de ônibus realizados pelos estudantes. Pode-se perceber que cada jornal construiu discursivamente o acontecimento de forma bem particular, porém, quanto a construção histórica, os jornais, como objeto de pesquisa, se tornaram fontes para historiadores, levando-se em consideração o que o movimento estudantil representa na construção societal brasileira, principalmente por conta dos protestos realizados durante as décadas de 60 e 70. 7

8 Os conflitos entre gerações são trazidos como um dos fatores que motivaram os movimentos estudantis ocorridos durante a década de 60. Segundo estudos realizados por Foracchi (1972, apud SOUSA, 1999, p.22), Crescer e tornar-se adulto são tarefas terrivelmente difíceis em nossa sociedade. (...) Há, assim, um enorme desperdício de potencial humano, incapaz de ser criadoramente absorvido pelo sistema social, e a juventude é parcela considerável, desse potencial. O debate realizado sobre a juventude é marcado pela pluralidade de visões, na qual pode-se perceber que a mais utilizada trata a categoria a partir de um ciclo biológico e psicológico, no qual se encontram a faixa de idade, o período de vida, as mudanças psicológicas, etc. No entanto, no campo da sociologia prevalece a visão da juventude como categoria social. Segundo Abramo (1994, p. 01): A noção mais geral e usual do termo juventude, se refere a uma faixa de idade, um período de vida, em que se completa o desenvolvimento físico do indivíduo e ocorre uma série de transformações psicológicas e sociais, quando este abandona a infância para processar sua entrada no mundo adulto. No entanto, a noção de juventude é socialmente variável. A definição do tempo de duração, dos conteúdos e significados sociais desses processos se modificam de sociedade para sociedade e, na mesma sociedade, ao longo do tempo e através de suas divisões internas. Além disso, é somente em algumas formações sociais que a juventude configura-se como um período destacado, ou seja, aparece como uma categoria com visibilidade social. Durante a ditadura militar, os estudantes em movimentos sociais reivindicavam reformas no Estado. Após o golpe de 1964, os estudantes se configuram como uma das maiores forças de mobilização popular, ganhando uma atenção especial do governo militar como força opositora ao que foi chamado de retomada da democracia. Santana (2007, p. 48): Como o movimento estudantil já havia assumido um posicionamento político contrário àqueles que tomaram o poder, passaram a sofrer muitos ataques após o golpe, configurando um período de relações conflituosas entre estudantes e governo. Até as verbas oficiais, aprovadas pela Câmara dos Deputados, que as entidades estudantis recebiam antes do golpe, foram cortadas. 8

9 Contudo, na realidade atual há uma diminuição nos movimentos. Segundo Mesquita (2003), movimento estudantil passa assim, por uma crise de representatividade e organicidade que se manifesta na sua intervenção fragmentada e na pouca expressividade entre os estudantes. O autor ainda destaca o Impeachment do presidente Fernando Collor como um dos poucos momentos de maior fluxo de participação dos estudantes nos últimos anos. No entanto, pode-se perceber que essa representatividade tratada por Mesquita (2003) não leva em consideração os múltiplos canais de expressão que atualmente os jovens possuem. Diante desse fato, apreende-se a emergência de novos atores juvenis que atuam nos mais diversos campos, discutindo e construindo coletivamente políticas públicas que atendam as suas necessidades. Na sociedade em rede é possível fazer reivindicações e mobilizações a partir da rede mundial de computadores. Isso é possibilitado por conta da [...] dinâmica da Internet como um sistema universal desprovido de centros fixos de enunciação e também de significações unívocas não encontra paralelo nos meios de comunicação que conhecemos até hoje. Cabe à capacidade cognitiva de seus usuários determinar, por conta própria, como se vão reorganizar, a todo momento e interativamente, as partes das conexões globais. (MORAES, 2000, p. 143) Segundo Moraes (2000), na Internet as mobilizações podem efetivar-se com maior rapidez de resultados, além de possibilitar driblar o monopólio de divulgação, permitindo que forças contra-hegemônicas se expressem com desenvoltura. Análise do objeto Tendo como base o fato de os três jornais impressos de Teresina serem considerados imprensa de referência do estado, a análise realizada buscou perceber como esses jornais construíram os movimentos estudantis ocorridos na capital piauiense, tendo como corpus os jornais que circularam entre os dias 27 de agosto a 03 de setembro de Com isso, buscase perceber como essa construção se torna objeto de pesquisa histórica. 9

10 Na análise podem-se perceber diferenças na construção que cada um dos jornais fez sobre os movimentos, no entanto, percebe-se também que os mesmos utilizaram do conhecimento histórico para a realização das matérias expostas. É importante esclarecer que o modo como os movimentos são apresentados atualmente não pode ser comparado com os protestos realizados em décadas anteriores, pois os mesmo não possuem a mesma origem, muito menos o mesmo processo histórico. Porém, é possível perceber que nas páginas analisadas os jornais fazem alusão ao que aconteceu em movimentos estudantis ocorridos anteriormente. Isso pode ser confirmado através da foto utilizada pelo jornal Meio Norte do dia 03 de setembro, no qual o jornal faz referência ao movimento dos caras pintadas, ocorrido no início da década de 90, como pode ser visto na figura 01, na qual o jornal traz duas estudantes com os rostos pintados e a seguinte legenda: CARAS PINTADAS Manifestantes de rostos pintados na frente da câmara de Vereadores ontem, quando o prefeito resolveu suspender aumento da passagem de ônibus por 30 dias. Figura 01 Foto apresentada na capa da edição de 03 de setembro de 2011 Fonte: Meio Norte, ano XVI, n Outro destaque dado pelos jornais foi o excessivo uso da força por parte dos policiais da capital, onde, mais uma vez, é possível fazer uma relação com os movimentos estudantis ocorridos durante a década de 60 e 70, durante o período militar, onde era comum o uso indiscriminado da força, conforme mostra as figuras 02, 03 e

11 Figura 02 - Foto apresentada na capa da edição de 30 de agosto de 2011 Figura 03 Foto apresentada na capa da edição de 31 de agosto de 2011 Fonte: Jornal Diário do Povo, ano XXIV, n Fonte: Meio Norte, ano XVI, n Figura 04 Foto apresentada na edição de 30 de agosto Fonte: Jornal O Dia, ano 60, n Percebe-se que os jornais se colocam como lugar de memória ao recordar, mesmo que a partir de acontecimentos do presente, um momento importante na história do Brasil. Com isso, é notável que os jornais impressos analisados trouxeram o passado para dentro da notícia atual, tornando, ao mesmo tempo, o meio de comunicação como responsável pela construção de uma história imediata (Romancini, 2005, p.02). No entanto, na análise realizada nos três jornais impressos de Teresina percebe-se que o responsável direto pelos conteúdos expostos, ou seja, o jornalista, não se preocupa com o conteúdo vinculado diariamente, pois a construção feita por cada jornal traz muito mais o posicionamento de cada empresa em relação aos movimentos estudantis, onde cada um traz um posicionamento distinto, tornando-se, assim, um problema para os futuros estudiosos, pois terão que tomar um cuidado muito maior com as informações contidas em cada jornal. 11

12 Os jornais impressos se constituem rastros trazidos do passado, no qual será possível entender mais de uma determinada época. Entretanto, atualmente os grandes avanços trazidos pela internet possibilitam a divulgação e arquivamento de informações que também são rastros de um tempo. A Internet proporciona uma comunicação de todos para todos, no qual a limitação imposta pelos meios de comunicação como lugar privilegiado do discurso deixa de existir. Porém, essa liberdade também possibilita a divulgação desenfreada de informações e opiniões, não tendo como analisar a veracidade do que é exposto. Tendo conhecimento das diversas possibilidades proporcionadas pela Internet e da restrição que possuem nos jornais impressos, os estudantes envolvidos buscaram como meio de divulgação dos seus atos a Internet. Utilizaram o endereço eletrônico e as redes sociais facebook e twitter como forma de se posicionar sobre o movimento, visto que não tiveram esse espaço nos meios de comunicação tradicionais. Como o ciberespaço possui uma memória, onde é possível fazer resgates de informações, a utilização desse meio pelos estudantes proporcionará aos estudiosos perceber um posicionamento diferente do que foi visto nos jornais impressos. Com isso, a Internet acaba se tornando também uma fonte de futuras pesquisas. O que se pode perceber durante a análise foi a existência de diversos conflitos a respeito dos movimentos em estudo. A começar pelo conflito entre os envolvidos diretos nos movimentos estudantis, no qual pode-se destacar: Prefeitura Municipal de Teresina, Sindicato das Empresas de Transporte Urbano de Teresina e os estudantes. Busca-se obter maior espaço nos meios de comunicação, para, com isso, autenticar seu posicionamento. Além disso, os três jornais impressos da capital também apresentam conflitos, no qual cada um busca legitimar seus discursos. E como a Internet proporciona comunicação direta com os usuários, não necessitando de jornalistas para intermediar, os conteúdos apresentados na rede se tornam ainda mais conflituosos. Diante desse contexto, os jornais impressos ainda constituem fontes de pesquisa histórica, porém, é necessário levar em consideração essas questões que envolvem embates de poder existente nos discursos apresentados. 12

13 Considerações Finais A presente pesquisa buscou mostrar os jornais impressos de Teresina como objeto de análise histórica e, ao mesmo tempo, como os mesmo utilizaram a História recente brasileira para construir suas matérias sobre os movimentos estudantis ocorridos na capital piauiense contra o aumento das passagens de ônibus de Teresina. Percebendo-se, com isso, que os jornais partiram de acontecimentos recentes que fazem parte da memória construída socialmente nos leitores. Sobre os jornais como objeto de pesquisa, pôde-se perceber que cada jornal trouxe o movimento de forma bem específica, mostrando que os interesses empresariais superaram as questões jornalísticas na construção das matérias. Isso acaba trazendo prejuízo para pesquisadores quando o jornal for utilizado como objeto de estudo, pois os historiadores terão que levar em conta essas questões de interesse particular dos empresários. É possível perceber que os jornais impressos se apresentam como lugares de memória, sejam de um determinado tempo ou de seus próprios passado institucional, onde podem construí-lo através de constantes referências. E essa memorização faz parte da constituição das identidades social e institucionais. O avanço da tecnologia, principalmente com o advento da Internet, atualmente, os pesquisadores possuem como fontes outros meios de comunicação importantes, no qual, percebe-se que o conteúdo já não é mais produzido somente pelas empresas de comunicação, mas o uso de redes sociais e a criação de blogs fazem com que a produção parta de diferentes lugares, onde o usuário deixa de ser passivo e passa a ter a possibilidade de se tornar um produtor. No entanto, pode-se perceber que os jornais impressos continuam a ter importância como rastro para os estudos da História. Além disso, os historiadores têm como objeto de pesquisa outros meios de comunicação, no qual lhe proporciona uma visão maior dos fatos, do que apenas o posicionamento de um meio tradicional. Diante disso, é possível perceber que a posição dos jornais impressos como fonte de pesquisa histórica modificou-se a partir do incremento da Internet. Os jornais continuam 13

14 tendo importância, no entanto, os pesquisadores atualmente contam com outras fontes da imprensa, no qual a multiplicidade de visões dá um complemento maior a pesquisa. Referências ABRAMO, H. M. Cenas juvenis. São Paulo: Página Aberta, BARBOSA, M. C. Meios de comunicação e história: um universo de possíveis. In: RIBEIRO, A. P. G; FERREIRA, L. M. A. (Org). Mídia e Memória: A produção de sentidos nos meios de comunicação. Rio de Janeiro: Mauad, p BOURDIEU, P. A economia das trocas simbólicas. 6 ed. São Paulo: Perspectiva, HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. 11 ed. Rio de Janeiro. DP&A, LOPES, F. L. Identidade jornalística e memória. In: RIBEIRO, A. P. G; FERREIRA, L. M. A. (Org). Mídia e Memória: A produção de sentidos nos meios de comunicação. Rio de Janeiro: Mauad, P MENDES, G. S.; LEAL, P. R.F. Memória liberal e construção do socialismo do século XXI no noticiário de O Globo sobre a reforma constitucional venezuelana de Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho Jornalismo Político do IV Encontro da Compolítica. Rio de Janeiro, MESQUITA, M. R. Juventude e Movimento Estudantil: discutindo as práticas militantes. In: Revista Psicologia Política. São Paulo, jan/jun. vol. 3. n p MORAES, D. Comunicação virtual e cidadania: movimentos sociais e políticos na Internet. Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, LOCAL, v. XXIII, n 2, p , jul./dez ROMANCINI, R. História e Jornalismo: reflexões sobre campos de pesquisa. In: Congresso Brasileiro de Ciência da Comunicação, 28, 2005, Rio de Janeiro, Anais. Disponível em: Acesso em RIBEIRO, A. P. G. e BARBOSA, M. Memórias, relatos autobiográficos e identidade institucional. Comunicação e Sociedade: Ciberativismo Latino-Americano. Ano 29 - N 47, Editora Metodista Original: Universidade Metodista de São Paulo,

15 SAID, G. F. Jornalismo e história: uma análise do tempo histórico da notícia. Teresina: APeCH/UFPI, SANTANA, F. A. Atuação política do movimento estudantil no Brasil: 1964 a São Paulo: USP, 249 p. Dissertação (mestrado) - Recife: UFPE, 2007, 140 p. Dissertação (mestrado) - Programa de Pós-Graduação em Sociologia, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, SANTINELLO, J.; KAMINSKI, E. Memória e esquecimento na rede: subjetividade no ciberespaço. Trabalho apresentado no GT de Mídia Digital, integrante do VII Encontro Nacional de História da Mídia. Guarapuava-PR, SOUSA, J. T. P. Reinvenções da Utopia: a militância política de jovens nos anos 90. São Paulo: FAPESP, p