CONCEPÇÕES DE GÊNERO DE FUTUROS/AS PROFESSORES/AS DE CIÊNCIAS E BIOLOGIA A PARTIR DO VÍDEO BONECA NA MOCHILA

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1 CONCEPÇÕES DE GÊNERO DE FUTUROS/AS PROFESSORES/AS DE CIÊNCIAS E BIOLOGIA A PARTIR DO VÍDEO BONECA NA MOCHILA Sandro Prado Santos Faculdade de Ciências Integradas do Pontal - FACIP/UFU RESUMO O artigo originou-se de uma atividade prática, de um curso de formação de professores de Ciências e Biologia, com o vídeo Boneca na Mochila. A partir das discussões e debates acerca do vídeo, solicitamos que os/as licenciandos/as tecessem considerações do mesmo e construíssem, de acordo com suas concepções, uma continuidade da história que transcendesse o final do curta, permitindo identificar, por meio das narrativas, concepções de gênero, configurando o objetivo do presente artigo. Nesse contexto, o presente trabalho mostra as concepções de Gênero de 13 futuros/as professores/as de Ciências e Biologia. Usando a abordagem metodológica de cunho qualitativo, analisamos as narrativas construídas por esses sujeitos acerca dos sentidos que atribuem ao vídeo. Para uma melhor interpretação, dividimos o conteúdo dos discursos em categorias de análise. Nas narrativas construídas a partir do vídeo Boneca na mochila observamos que futuros/as professores/as de Ciências e Biologia demonstraram temer que meninos assumissem a suposta identidade de gênero oposta a sua. Dessa forma, concebem, menino brincar com boneca, como algo problemático e estranho, então precisam estar sob um policiamento constante, para que cada um seja mantido em seu lugar. As transgressões devem ser permanentemente observadas e combatidas através da vigilância das escolas, dos pais e pelo preconceito e rejeição dos colegas, demonstrando nessas concepções homofobia e misoginia. Os resultados apontaram que alguns, futuros/as professores/as, apresentam um discurso normatizador que acabam impedindo outras possibilidades, sociais e afetivas, para as expressões de gênero e para as muitas formas de ser menino. Esperamos que esse estudo possa contribuir na formação docente inicial e continuada e que professores/as e futuros/as professores/as possam encontrar muitas questões para serem discutidas e aprofundadas. Palavras-Chave: Relações de Gênero. Boneca Mochila. Formação Docente INTRODUÇÃO Pesquisas na área acadêmica que estudam, discutem, refletem e problematizam a temática sexualidade tem mostrado que às questões sexuais permeiam o cotidiano escolar, bem como a relevância de trabalhá-las nos conteúdos em sala de aula (LOURO, 1997). Nesse sentido, uma complexa e profícua produção acadêmica vem ressaltando a impossibilidade de se ignorar a sexualidade quando se busca analisar e compreender questões educacionais, ou seja, parece impossível separar a escola de tudo isso, uma vez Livro 1, p

2 2 que, tem se apresentado como um instrumento de normalização e disciplinamento dos gêneros e das sexualidades, legitimando rígidos padrões definidores do masculino e do feminino em nossa cultura (FURLANI, 2011, p. 120). Segundo Louro (1997) se a escola é uma instituição social ela está, obviamente, envolvida com as formas culturais e sociais de vivermos e constituir nossas identidades de gênero e nossas identidades sexuais, configurando em um espaço sexualizado e generificado. Diante desses apontamentos, percebemos a relevância da temática sexualidade e relações entre os gêneros na formação inicial dos/as futuros/as professores/as. Daí a necessidade dos cursos de formação contemplar essas temáticas em seus currículos, uma vez que, estão presentes cotidianamente no espaço escolar, sendo papel da escola tratálas (LEÃO; RIBEIRO, 2009, p. 7). Nessa perspectiva, percebemos, e, em consonância com nossa área de formação, a ausência de formação inicial dos educadores de Ciências e Biologia acerca da Sexualidade e Relações entre os Gêneros, visto que essa temática não é tratada como obrigatoriedade no curso de Licenciatura em Ciências Biológicas, nosso espaço da pesquisa. Entretanto, prevê como opção a disciplina específica sobre sexualidade no currículo de formação dos profissionais que depois se tornarão professores na Educação Básica (SILVA, 2011, grifo nosso). A disciplina Educação, Saúde e Sexualidade no referido curso tem como objetivo geral: compreender o significado bio-histórico-social do Corpo, Gênero e da Sexualidade na construção identitária do sujeito, bem como analisar suas inter-relações com a escola e o Ensino de Ciências e Biologia. Em uma experiência prática na referida disciplina em específico no módulo intitulado Sexualidade(s) e Gênero(s): desafio(s) nos espaços escolares exibimos um curta metragem do diretor Reginaldo Bianco Boneca na Mochila, tal vídeo se torna interessante para o trabalho com os/as professores/as na medida em que permite problematizar as Relações entre os Gêneros no espaço escolar. A partir das discussões e debates acerca do vídeo, solicitamos que os/as licenciandos/as tecessem considerações do mesmo e construíssem, de acordo com suas concepções, uma continuidade da história que transcendesse o final do curta, permitindo Livro 1, p

3 3 identificar, por meio das narrativas, concepções de gênero, configurando o objetivo do presente artigo. Sendo assim, temos como objetivo desvelar e analisar as concepções de Gênero de futuros/as professores/as de Ciências e Biologia. RELAÇÕES DE GÊNEROS: UMA PERSPECTIVA HISTÓRICA E CULTURAL Os estudos de Gênero são relativamente recentes, sobretudo no campo da Educação. No território brasileiro este termo começou a ser utilizado na década de 1980, especialmente pelos movimentos sociais feministas. Nessa direção, o conceito Gênero surge através desses movimentos políticas sociais com o intuito de distinguir Gênero de sexo (LOURO, 1997, p.21). Baseado somente nas características sexuais predominou, por muitos séculos, o discurso do determinismo biológico, que respaldava práticas baseadas nas diferenças sexuais. Segundo, Scott (1995) desta maneira se fez necessário a criação do termo gênero, com o intuito de ressaltar o caráter fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo. (p.72). Segundo Auad (2006) Gênero refere-se a um conjunto de representações construída em cada sociedade, ao longo de sua história, para atribuir significados, símbolos e diferenças para cada um dos sexos. Com isso, percebemos que aprendemos e construímos as identidades do que é ser homem e mulher e essa aprendizagem se processa em diversas instituições sociais em tempos e lugares específicos (MEYER; SOARES, 2008). Para Louro (1997) os sujeitos se fazem homem e mulher num processo contínuo, construído em práticas sociais masculinizantes e feminilizantes, então o conceito de Gênero se firma. Esse conceito passa a reforçar a necessidade de se pensar que há muitas formas de sermos mulheres e homens, acentuando que essas representações são diversas, ao longo do tempo, ou no mesmo tempo histórico, nos diferentes grupos e segmentos sociais (MEYER; SOARES, 2008). De acordo com os aspectos conceituais de Gênero assumidos no trabalho, indicamos: nós aprendemos a ser homens e mulheres. Trabalhar a temática das Relações de Gênero dentro do ambiente escolar é tão necessário como trabalhar qualquer conteúdo tradicional, fato reconhecido e legitimado Livro 1, p

4 4 por documentos oficiais como os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), sobretudo os referentes aos Temas Transversais. EDUCAÇÃO DE MENINOS E MENINAS A PARTIR DOS ESTUDOS DE GÊNERO Segundo Furlani (2011, p.119) a Educação Sexual, a partir da educação infantil, pode articular os estudos das relações de gênero com o processo de formação das crianças e jovens. Cruz (2003) ressalta que a educação sexual no âmbito da Educação Infantil pode configurar-se como um espaço privilegiado para articular-se o debate dessas áreas de conhecimento com a temática da infância. O desenvolvimento deste campo de estudos pode contribuir para a melhoria da qualidade da Educação Infantil e para que se possa diminuir a perspectiva adultocêntrica, para que as crianças sejam meninos e meninas com direito à própria sexualidade. A escola não é neutra nas construções/relações de gênero, ela participa sutilmente da construção da identidade de gênero e de forma desigual. E essa construção inicia-se desde as primeiras relações da criança no ambiente coletivo da Educação Infantil (FINCO, 2003). Uma possibilidade de prática docente que contribui na construção do conceito de gênero no espaço escolar na educação de meninos e meninas é o entendimento que a igualdade de gênero começa com a disponibilidade de brinquedos infantis, sem restrição ou qualquer segregação de acesso baseado no sexo da criança (FURLANI, 2011, p. 120, destaque da autora). O Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI) adverte contra a legitimação de identidades de gênero estereotipadas, sugerindo que as crianças brinquem com as possibilidades relacionadas tanto ao papel de homem como ao da mulher (BRASIL, 1998, p. 41, grifo nosso). Neste sentido, segundo Furlani (2011), a classificação entre brinquedos de menina e brinquedos de menino representa uma barreira ao conhecimento e ao desenvolvimento das habilidades que o brinquedo proporciona e desenvolve. Livro 1, p

5 5 Nesta perspectiva, Biagio (2005) enfatiza por que meninos têm de jogar bola e só meninas brincam de casinha? (p. 33) e aponta que a escola pode ajudar a criança a se libertar dessas amarras e a desenvolver plenamente suas capacidades. No entendimento de Furlani (2011, p. 121), no qual comungamos, é a relação automática que fazemos entre os brinquedos infantis e a formação da identidade sexual da criança, isto é, que o brinquedo explicita e constrói a orientação sexual da criança. Enquanto os adultos explicitarem pânico pedagógico diante de um menino que se fantasia de bailarina e desliza um batom vermelho em seus lábios, estão demonstrando sua homofobia e sua misoginia (FURLANI, 2011, p. 121). Tendo por base essas indagações e ideias, realizamos um diálogo/conversa com futuros/as professores/as de Ciências e Biologia a partir do vídeo Boneca na Mochila. A problemática da produção está voltada para a angústia de uma mãe que é chamada na escola por que seu filho foi pego com uma boneca. Este acontecimento ganha grandes proporções, pois chega aos ouvidos da imprensa que faz uma ampla reportagem sobre o assunto, entrevistando ouvintes por telefone. Esses ouvintes têm opiniões diversas sobre a temática. Enquanto isso mostrase a aflição da mãe do menino que toma um táxi para ir a escola e acompanha pelo rádio todo o estardalhaço que se faz sobre o assunto estabelecendo diálogo com o taxista (CARVALHO; CASAGRANDE, 2008). PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Trata-se de uma pesquisa com abordagem metodológica de cunho qualitativo, almejando a interpretação oriunda das concepções de gênero dos sujeitos envolvidos na pesquisa. Essa está embasada nos pressupostos metodológicos da Pesquisa Qualitativa em Educação que segundo estudos de Mazzotti e Gewandsznajder (2001). O público-alvo composto por 13 futuros/as professores/as de Ciências e Biologia, graduandos/as do 10º período do curso de Ciências Biológicas de uma universidade pública federal mineira do município de Ituiutaba/MG e regularmente matriculados/as na disciplina Educação, Saúde e Sexualidade no 2º semestre de Esses sujeitos serão identificados por nomes fictícios como forma de mantê-los/as no anonimato. Livro 1, p

6 6 Para pesquisarmos as concepções de Gêneros, realizamos uma atividade prática na referida disciplina, por meio da exibição de um curta metragem intitulado Boneca na Mochila. A partir das discussões e debates acerca do vídeo, os/as licenciados/as construíram uma narrativa acerca dos sentidos que atribuem ao vídeo, bem como a continuidade da história que transcendesse o final do curta. Os dados coletados foram analisados a partir de técnicas específicas de análise de conteúdo (BARDIN, 2010) e discutidos a partir do referencial teórico adotado. A partir dos resultados encontrados, trabalhamos no módulo Sexualidade(s) e Gênero(s): desafios no espaço escolar, da disciplina Educação, Saúde e Sexualidade, com a estruturação de ações pedagógicas no sentido de problematizar os estereótipos e preconceitos sexistas que perpassam as relações de gênero. RESULTADOS Para uma melhor interpretação, agrupamos os dados coletados por meio das narrativas, dividimos o conteúdo expressivo dos discursos dos/as futuros/as professores/as em categorias de análise, dentre as quais, destacamos: Menino brinca de boneca? Algo problemático e estranho e Menino brinca de boneca? Vigilância sobre o diferente. Menino brinca de boneca? Algo problemático e estranho Segundo Biagio (2005) os adultos entendem que existe uma essência ou uma natureza para explicar os comportamentos masculinos e femininos, e, nesse contexto, meninos têm de jogar bola e só meninas brincam de casinha e bonecas. Dessa forma, as crianças que fugirem a essa regra ou normalidade serão olhadas com certo estranhamento e preocupação, então serão excluídas e depreciadas, por serem consideradas como problemas e diferentes. Essa ideia de menino brincar com boneca ser tido com algo problemático e estranho pôde ser constatada em alguns relatos dos/as futuros/as professores/as: A mãe chegou na escola e com muita vergonha pegou seu filho, pediu para a diretora que não tocasse mais no assunto, que este era um problema a ser resolvido em casa. (Bete, 2011). O garoto desabafa com a mãe, relatando as vontades estranhas que ele tem sentido nos últimos dias. (Maria, 2011). Livro 1, p

7 7 Constatamos que tal comportamento por ser considerado estranho, vergonhoso, problemático, indesejável, frustrante e desesperador, causa preocupação e é motivo de incômodo, uma vez que: A mãe não queria assumir que o filho estava tendo um comportamento feminino. (Mirna, 2011). As situações descritas nos mostram que esses futuros/as professores/as não disponibilizam outras formas de masculinidade, preocupando-se em legitimar aquela já consagrada como sendo a referência. Tudo o que se distanciar dela passa a ser interpretada como anormal e desviante. Tal afirmação coincide com a fala de Drumond (2010, p.2) As crianças são vistas como corpos femininos ou masculinos, que precisam ser diferenciados, rotulados, classificados. A menina precisa ser comportada, obediente, compreensiva, gostar de cor de rosa e de brincar com a Barbie. Já o menino tem que gostar de jogar bola, de correr, subir, pular, brincar de lutinha. Se ficar muito parado é problema. Percebemos e em consonância com Felipe e Guizzo (2008) que o simples fato de um garoto querer experimentar brinquedos que sejam próprios de menina, já seria motivo suficiente para causar grande inquietação, conforme podemos perceber nos discursos anteriores. Essas autoras ainda relatam que: A preocupação com os meninos parece ser ainda maior quando eles brincam de bonecas. (p. 34). Quando não há correspondência entre o que se espera de um menino em relação a comportamentos e preferências, um desconforto se instala na suposição de que algo esteja errado com aquela criança (PEREIRA, 2005). A atitude do menino brincar com boneca também é entendida por alguns como irresponsabilidade da mãe, atribuindo o sentimento de culpa a mesma: A mãe é acusada de irresponsável e desnaturada, que acabou deixando o filho desviar do normal. (Maria, 2011). Notou-se que ela (a mãe) estava aflita com medo da escola colocar a culpa sobre ela, ou mesma relatar que isso somente tinha acontecido pela criança ter presenciado algo parecido. (Élida, 2011). A partir dessas perspectivas, o menino brincar de boneca é concebido como algo não aceito e sem concordância: somos amigos e apesar de não concordar ele poderia sempre contar comigo. (Paulo, 2011, grifo nosso). Livro 1, p

8 8 Devido tal ação amedrontar os adultos, um sujeito destacou que: Em casa, deixaria o filho de castigo e queimaria a Barbie bailarina. (Bete, 2011). É possível observar que o distanciamento do menino da matriz de masculinidade torna-se menos permitido, mais regulado e mais problemático. Ressaltamos que, enquanto os/as professores/as demonstrarem pânico pedagógico diante de um menino brincando com boneca, estão demonstrando sua homofobia e sua misoginia (FURLANI, 2011). Também foi possível constatar nas narrativas construídas pelos/as sujeitos, justificativas da não transgressão de fronteiras, pois demonstraram temer que meninos assumissem a suposta identidade de gênero oposta a sua. Fui falar com meu filho e perguntei de onde era aquela boneca e ele me disse que sua coleguinha tinha esquecido na sala e ele guardou para entregar a ela no outro dia. (Paula, 2011). A mãe ao indagar o filho ainda na sala da pedagoga fica surpresa com a justificativa do filho o qual diz para a mãe, pedagoga... que havia pedido a sua tia para comprar uma boneca para ele dar de presente de aniversário para sua irmã. (Sofia, 2011). Com esses discursos, notamos que tais sujeitos ainda estão muito preocupados em uniformizar os comportamentos dos meninos na tentativa de eliminar possíveis diferenças e garantir as normas de gênero. Dessa forma, utilizaram estratégias, que segundo eles, o fariam ter um comportamento mais masculino, tais como: era de uma menina que havia esquecido e o menino guardou; a boneca era um presente para a irmã, esses não provocariam tanto desconforto. Em um dos discursos referentes às justificativas da não transgressão de fronteiras observamos que a boneca na mochila do menino é justificada pela referência a sua não vontade de jogar futebol que é considerado quase uma obrigação para qualquer garoto. Então, os colegas, como forma de vigilância de gênero, colocaram a boneca na sua mochila com tom de deboche e para fazê-lo passar por mulherzinha. Perguntando ao filho o que significava aquela boneca dentro da mochila ele disse que alguém tinha colocado para fazê-lo passar vergonha diante da escola porque ele não tinha concordado em entrar para o time de futebol da escola. Então apurados os fatos percebeu-se que na verdade a boneca não pertencia ao menino e que só por ele não Livro 1, p

9 9 querer jogar futebol debocharam do menino fazendo-o passar por mulherzinha. (Mirna, 2011) Menino brinca de boneca? Vigilância sobre o diferente Percebemos nos discursos, desses futuros/as professores/as, que comportamentos considerados transgressores do padrão estabelecido passam a ser vistos como um problema que precisa ser o quanto antes resolvido. Então, há uma severa vigilância em torno da masculinidade infantil, visto ser ela uma espécie de garantia para a masculinidade adulta. (FELIPE; GUIZZO, 2008, p.34). Dessa forma, alguns sujeitos destacaram que: Provavelmente iria ter um cuidado maior em observar a frequência que o filho iria querer brincar com brinquedos femininos. (Rose, 2011); a escola pediu à mãe que se tome cuidado (João, 2011). Sem dúvida, os trechos acima nos mostram como as fronteiras da masculinidade são permeadas de um policiamento constante, para que cada um seja mantido em seu lugar, sendo assim, as transgressões devem ser permanentemente observadas e combatidas (FELIPE; BELLO, 2009). Em um relato, percebemos que há uma vigilância exercida para que se possa garantir a manutenção de uma masculinidade considerada hegemônica através do: preconceito e rejeição dos colegas, que autodenominam de homossexual, pelo fato de ter sido encontrada uma boneca em sua mochila. (Ana, 2011). Além disso, consideraram que a atitude do menino poderia influenciar outras crianças, visto que entendem como um modelo de comportamento não ideal, em contrapartida, é visto como o incorreto e o fora do normal, conforme mostrado a seguir: A criança apresentava comportamento divergente dos demais colegas e isso poderia influenciar os amiguinhos a fazer o mesmo: Boneca é brinquedo de menina! (Mirna, 2011) (...) os pais podem não ver isso com bons olhos e a escola ficar mal vista. (João, 2011). É interessante notar nesses discursos que os sujeitos assumem uma postura de estimular masculinidade considerada hegemônica, dessa forma precisam conter comportamentos, de meninos, que destoam dessa identidade de gênero. Livro 1, p

10 10 Nos discursos, passagens como: vergonha; problema; vontades estranhas; desvio; culpa; castigo; a boneca é da colega; a boneca era presente para irmã; alguém colocou dentro da mochila; cuidado; observação; rejeição e comportamento divergente foram tecidos no sentido de reafirmar que brincar de boneca não é coisa para menino. Nessa perspectiva notamos que ainda é possível identificar estereótipos de gênero arraigados por uma ideologia machista e sexista sendo reproduzidas por esses futuros/as professores/as. CONSIDERAÇÕES FINAIS Nas narrativas construídas a partir do vídeo Boneca na mochila observamos que futuros/as professores/as de Ciências e Biologia demonstraram temer que meninos assumissem a suposta identidade de gênero oposta a sua. Dessa forma, concebem, menino brincar com boneca, como algo problemático e estranho, então precisam estar sob um policiamento constante, para que cada um seja mantido em seu lugar. As transgressões devem ser permanentemente observadas e combatidas através da vigilância das escolas, dos pais e pelo preconceito e rejeição dos colegas, demonstrando nessas concepções homofobia e misoginia. Os resultados apontaram que alguns, futuros/as professores/as, apresentam um discurso normatizador que acabam impedindo outras possibilidades, sociais e afetivas, para as expressões de gênero e para as muitas formas de ser menino. Com o objetivo de desvelar e analisar as concepções de Gênero de futuros/as professores/as de Ciências e Biologia, bem como a relevância de discussão da temática Relações de Gênero na formação docente inicial e continuada é que apresentamos este estudo, acreditando que professores/as e futuros/as professores/as possam encontrar muitas questões para serem discutidas e aprofundadas. REFERÊNCIAS AUAD, D. Educar meninas e meninos: relações de gênero na escola. São Paulo: Contexto, BARDIN, L. Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições 70, BIAGIO, Rita de. Meninas de azul, meninos de rosa. Revista da Criança/MEC. São Paulo: SP, 2005, p BIANCO, Reinaldo. Boneca Na Mochila. [vídeo]. São Paulo, ECOS Comunicação em Sexualidade, DVD, 25 min. som. Livro 1, p

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