Indústria indica recuperação gradual impelida pelo investimento, mas com trajetória irregular

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1 Indústria indica recuperação gradual impelida pelo investimento, mas com trajetória irregular O importante a conferir é a tendência da retomada e a resposta das medidas acionadas para alçar a produção de bens de capital e do setor da construção 8/3/ :27 - Antonio Machado O forte avanço da produção industrial em janeiro, com alta de 2,5% em relação a dezembro e de 5,6% sobre igual mês de 2012, é coerente com a expectativa de retomada gradual do crescimento econômico este ano, mas com uma trajetória irregular. Os indicadores antecedentes sobre o resultado da indústria em fevereiro, por exemplo, antecipam queda de produção de 1% a 2% em relação ao nível de janeiro. O importante a conferir é a tendência da retomada e a resposta das medidas que o governo acionou para alçar o investimento em bens de capital e no setor da construção. Os sinais parecem promissores. Na comparação mensal, 18 dos 27 segmentos industriais pesquisados pelo IBGE acusaram aumento de produção. A recuperação foi disseminada. Os destaques ficaram com o setor automotivo, com alta de 4,7% no mês (após duas quedas seguidas), material eletrônico e comunicações (+10,5%), fabricação de máquinas e equipamentos (+5,7%) e refino de petróleo e produção de álcool (+5,2%). Em sentido contrário, a indústria extrativa teve retração mensal de 6,6%. A desagregação por categorias de uso, que informa sobre a situação das cadeias produtivas, mostra a eficácia das medidas, sobretudo, para turbinar o investimento. Peque-se a produção de caminhões: foi uma das causas da queda da indústria em 2012 (revisada pelo IBGE de -3,6% para -3,5%). A mudança impositiva dos motores para aumentar a eficiência, mas com aumento de preço, colapsou as vendas no início de O BNDES reagiu com uma linha especial de crédito com juros subsidiados. O forte aumento da produção de caminhões em janeiro, de 206,4% sobre igual mês de 2012, resgata a normalidade ao setor. A indústria de máquinas e equipamentos é outro ramo abalado por razões estruturais - mais antigas e profundas que o ajuste exigido ao setor de caminhões. A Fazenda criou o

2 incentivo da depreciação acelerada para uns poucos segmentos (o que significa abater o custo de aquisição para fins tributários) e o BNDES ampliou o subsidio do crédito. O resultado começa a aparecer: a produção da indústria de bens de capital, termômetro do investimento, aumentou 8,2% no mês (maior avanço desde junho de 2008) e 17,3% sobre janeiro de Resposta aos incentivos Não fossem as providências para evitar o colapso do investimento industrial e o pálido crescimento de 0,9% da economia em 2012 teria sido pior. O investimento recuou 4% no ano passado, derrubando sua taxa como proporção do PIB para 18,1%, mas virou o último trimestre recuperando 0,5% em relação ao período anterior - primeira variação positiva depois de quatro quedas trimestrais seguidas. O incentivo da depreciação acelerada e o crédito com juro negativo no BNDES, porém, tiveram prazo exíguo, valendo até fim de dezembro, o que levou as empresas a dar entrada a uma enxurrada de projetos para assegurar os benefícios. Alguns só deverão sair do papel se a economia reagir. Os que não tinham esse caráter especulativo, no entanto, são os que fizeram expandir o investimento em janeiro. Superando reticências Talvez esteja nisso um sinal de que o empresariado não estaria tão insensível às medidas acionadas para desembargar o crescimento. É o que se vai ver no curto prazo. O juro negativo do PSI (Programa de Sustentação do Investimento) foi elevado, e a linha, estendida até dezembro, mas ela continua atrativa. Com o suporte de um extensivo programa de depreciação acelerada, é possível que a reticência do empresariado para pôr pique no investimento viesse a desaparecer. Um exercício da consultoria LCA atesta que o investimento ganhou vigor em janeiro, considerando seus dois componentes: a construção civil e os bens de capital. A estimativa é que tenha crescido 12,8% sobre o nível de janeiro de 2012, com a produção de bens de capital avançando 17,3%, a importação de máquinas e equipamentos, 14,8%, e os insumos da construção, 1,7%.

3 Tais números sugerem que a taxa de formação bruta de capital fixo, FBCF - leia-se, investimento -, já tenha retornado ao patamar em que se encontrava no início de O perigo dos afobados Se o Banco Central e a Fazenda tiverem habilidade para tourear os informes do mercado financeiro a respeito da inflação, adiando até onde der o aumento da Selic no limite, dispensando tal ação -, é possível que o investimento ganhe tração. A condição é que de fato a inflação esmoreça, como sugere sua marcha mensal ainda sujeita a comprovação. Certamente, não ajudam as expectativas o vazamento de supostas medidas para segurar administrativamente a inflação, como apreciam economistas mais afobados do governo. A confiança trafega sob um fio tênue. Apelar a ameaças plantadas na imprensa é o jeito mais curto para frustrar a ainda tênue retomada captada pelo IBGE. Os desperdícios do 4G O setor de telefonia é uma das áreas que podem acelerar o salto de qualidade da economia, alavancada pela quarta geração da tecnologia do celular (4G) e a disseminação da banda larga. Mas o governo ignora que nem na Coréia do Sul, onde está mais avançada a universalização do 4G no mundo, o sistema é rentável. Já a qualidade do serviço tem relação com o resultado das operações - função do preço, da área de atuação e do prazo para a cobertura se tornar extensiva no país. O desequilíbrio da equação torna o consumidor vítima de tarifas altas e de serviço ruim. O bom senso nesta relação poderia viabilizar o renascimento de uma indústria de telecomunicações, perdida pela visão obtusa da burocracia. Há outra chance, mas desperdiçada pela agenda apertada para a implantação do 4G nas cidades que vão sediar jogos da Copa. Ou o governo se capacita, servindo-se, por exemplo, dos recursos técnicos do BNDES, ou seguirá iludido pela indústria de multas, que trata o problema como se fosse só de sanção.

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