MANUAL DE OBSERVAÇÃO PARA O EDUCADOR: CONHECENDO MELHOR A PRÁTICA PROFISSIONAL E MEUS ALUNOS

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1 MANUAL DE OBSERVAÇÃO PARA O EDUCADOR: CONHECENDO MELHOR A PRÁTICA PROFISSIONAL E MEUS ALUNOS Caro leitor: O objetivo principal deste Manual de Observação para o Educador: conhecendo melhor a prática profissional e meus alunos, pretende ajudar o professor a melhorar o seu desempenho enquanto mediador e construtor de conhecimentos, através da observação atenta para seu desenvolvimento pessoal e profissional junto a seus alunos. Este manual faz parte do livro Caminhos para uma Inclusão Humana, que procura contribuir para uma educação inclusiva, pautada na ética, portanto humanizadora. A sala de aula constitui-se como o centro da reflexão e análise dos fenômenos educativos, é neste contexto que aparecem toda sorte de comportamentos e dificuldades dos alunos. Pretende-se focalizar a atenção do professor no processo ensino aprendizagem, buscando compreender as dificuldades de modo a criar condições para se pensar e posteriormente intervir. Partimos da fundamentação que o papel do professor está sendo considerado como um mediador da aprendizagem, portanto cabe a ele tomar consciência das características do seu agir em cada situação, de suas responsabilidades, das singularidades dos alunos e as decisões tomadas possam ser pautadas dentro de sua realidade e possibilidade circunscrita no momento. Novembro, Marina S. Rodrigues Almeida* 1

2 Para aprender a observar levaremos em conta: 1. Planejamento da observação; 2. Antecipação dos problemas (queixas que tenho do aluno e minhas dificuldades); 3. Determinar os aspectos a observar; (quais atividades ele realiza? quais não realiza? como realiza? como foi proposta a atividade? que apoio ou explicação ele entende ou se sai melhor? os demais alunos da classe ou algum aluno o ajuda? De que maneira se eu propuser uma atividade ele se sairia bem? qual atividade ele se identifica? com que disciplina ou conteúdo? O aluno tem consciência de suas dificuldade? Conversei com ele? Ele propõe ou pensa em alguma saída? E os pais o que pensam sobre isso? Como poderiam ajudar? Se não podem como resolverei o problema? Adianta enviar lições de casa? O uso de gravador, pesquisa, desenho, ajudaria? 4. Criar um rol de dados para a observação sugerimos as abaixo, porém poderão ser ampliadas. 5. Observar a aula e o desenvolvimento do aluno (quantos dias? Em que situação o comportamento/dificuldade aparece? O que eu fiz? O que o aluno fez? O que os alunos fizeram? O que não foi feito? Foi em sala de aula/ no intervalo? No corredor? Na presença de algum adulto? como você descreveria o humor e moções do aluno nas situações de dificuldade e de sucesso? Ele consegue fazer isso ao ser perguntado? Como os demais alunos se sentem e o que comentam? Alguém propõe alguma idéia para ajudar?); 6. Selecionar fatores a serem investigados e observados: individuais (o que este comportamento/dificuldade do aluno tem haver comigo educador?), coletivos (O que a classe tem haver com este comportamento/dificuldade), da disciplina (Língua Portuguesa, Matemática, é especifica a dificuldade e em outras disciplinas o que acontece? Como cada professor lida com este aluno? O que entendem sobre o que está acontecendo listar idéias dos demais professores e sugestões para lidarem com a situação ); com sua família ( tem algum contato com os pais, quem cuida deste aluno, o que esta acontecendo com os apis, com a família, como lidam com as dificuldades? Tem irmãos maiores/menores? Quantos quais dos elementos poderiam ser apoio para a escola?). Seguir as mesmas linhas investigatórias para a a escola( o que ela está contribuindo? está atendendo o que ele precisa? Aceitam a presença deste aluno? como veio para esta escola? por que? Como professora deste aluno eu o aceito? Quais minhas limitações/ dificuldades/facilidades listar, do que precisaria? listar tudo que fosse ideal depois liste tudo que é possível), no intervalo, nas atividades extra-classe, na educação física, com os amigos, com irmãos ou parentes, estado físico-afetivo-emocional (alimentação, acuidade visual, auditiva, alterações na linguagem, problemas hormonais, vermes, luto, depressão, agressividade, hiperatividade, envolvimento com drogas, violência doméstica, alcoolismo, desamparo familiar, falta de sono, estado de moradia, higiene pessoal, dores de dente, patologias hereditárias, genéticas, adquiridas, traumas, outras possibilidades...); 7. Verificar o prontuário do aluno: a história pessoal, verificar se há relatos anteriores, laudos de algum profissional, educador,... Entrar em contato com o profissional que atendeu ou atende o aluno, podendo ser : por telefone, carta oficial da escola, marcar um dia para o profissional vir a escola se possível, ir até o local aonde está o profissional e ou solicitar algum profissional de apoio. 8. Levantamento da coleta de dados; 9. Organização dos dados, reflexão e discussão com outros educadores ou técnicos sobre os dados coletados; 10. Focalizar comportamentos /dificuldades ocasionais e constantes; 11. Pontos negativos e positivos encontrados na relação educador-aluno; 12. Dados a esclarecer que requeiram mais pesquisa com os pais, cuidadores, vizinhos, outros professores, auxílio da direção, assistente social, Conselho Tutelar, agentes de saúde, coordenador ou técnico da secretaria da educação, etc... 2

3 13. Tomar Conhecimento sobre: o Estatuto da Criança e do Adolescente ECA, Conselho Tutelar (suas atribuições e funções), Procuradoria da Infância e da Juventude (suas atribuições, funções, dique denuncia anônimo, serviços que atendam a criança e ao adolescente); serviços no município ou órgãos que atendam a criança e o adolescente (como procurar ajuda, como encaminhar); ONGs, Terceiro Setor, Universidades, Voluntariados, Instituições, Conselhos Municipais, Conselhos de Categorias Profissionais, enfim todos os serviços que estejam relacionados a crianças e adolescentes, que de alguma forma direta ou indiretamente possam vir contribuir com o professor e a escola. 14. Registrar todos os dados. Os Registros das observações: Poderão ser realizados num diário para este fim, anotando a data, o nome do aluno, a situação, sendo descritas as observações o mais breve possível, para que as idéias, os comportamentos, não sejam deturpados e truncados pelo esquecimento. O tipo de narrativa também é importante, vejamos: narrativa jornalística os fatos são vistos através do olhar do narrador; narrativa analítica decompõem-se os elementos do fato; narrativa etnográfica incide sobre o contexto em que ocorreu a experiência e a observação dos fatos; narrativa terapêutica-criativa na qual tomamos consciência do nosso eu, dos nossos sentimentos e pensamentos em relação ao duplo vinculo eu e o outro; narrativa introspectiva nos interrogarmos sobre o que fizemos, sobre nossa única responsabilidade. A reflexão dos dados leva ao desenvolvimento profissional do professor, a fim de que possa construir sua própria forma de se conhecer, bem como de seus alunos. Esta prática desenvolve novos raciocínios, novas formas de ver a situação, de pensar sobre ela, compreender e só então agir e equacionar os problemas. A prática surge de nossa capacidade de não temer os erros, mas consiste em tomar consciência dos mesmos e tentar novamente de modo diferente. Construir uma prática-pedagógica eficiente requer integração de competências, levar em consideração as Múltiplas Inteligências, a Inteligência Emocional, os estilos cognitivos de aprendizagem. O modelo pedagógico educacional não pode ser mais de fora para dentro, imposto, autoritário, a competência está em ver pelos olhos do aluno, aprender a aprender como o aluno, falar a linguagem que o aluno fala, ouvir como o aluno ouve para depois ir modificando, interferindo a cada aspecto na medida do possível. Passamos vários anos falando das teorias da aprendizagem sempre enfocando o educando: o aluno e as teorias de aprendizagem, os fracassos do aluno, as dificuldades de aprendizagem, os problemas culturais, os métodos, estratégias, didática de ensino, planejamentos, objetivos, avaliações, critérios, como o aluno deve aprender, como devo ensinar, etc... Hoje precisamos questionar quem é o professor, falamos de uma relação com mão dupla, dinâmica. Vamos tentar refletir sobre alguns questionamentos: Por que resolvemos ser professor? Como chegamos a profissão de educador? Quais nossas expectativas?como está nossa formação e investimento profissional? O que significa ser educador/professor? Como nos tornamos professores nos dias de hoje? Como ensinamos? Qual nossa história? O que pensamos sobre educação? Quais são nossas dificuldades e facilidades na prática educacional pedagógica? O que temos pensado como proposta de mudança? Estamos atualizados? 3

4 Como anda nossa auto-estima? Como nos vemos no papel de profissionais da educação? Temos valor? Nos sentimos sendo importante, com valor? Por que um aluno se comporta de uma maneira com um professor e não com outro e vice-versa? Por que um professor tem mais facilidade em uma disciplina ou disciplinas do que outros? Percebemos o quanto nós temos pré-conceitos em relação há alguns alunos? Estamos falando de vínculos afetivos, de relações humanas, de capacitação profissional, ética, direitos humanos, qualidade de vida, valores,.. Notamos que o afeto vem sempre primeiro, só depois a teoria. Poderemos ter a melhor teoria, seremos os melhores profissionais em tese, mas se não estabelecermos vínculos suficientes, confiáveis com o educando nada será possível, nada será aprendido, nada será construído, porque se quer conhecemos a nós mesmos! Uma prática reflexiva permite a interação harmoniosa entre a teoria e a prática, leva a construção de saberes, diminui a distância entre da teoria e a prática, permite a circularidade de informações, questiona, derruba a teorização, mas dá muito trabalho, por isso são poucos que obtem sucesso em sua sala de aula. Para de se lamentar e procuram saídas diferentes, articulação de um conjunto. O professor que acredita que a mudança está somente na suas mãos está ultrapassado, a questão está exatamente na união de todas as mãos, no pensar coletivo. Avaliando os resultados das observações: 1. Abertura do olhar: desejo em ouvir outras opiniões sobre o aluno, levantar possibilidades de intervenção, admitir a possibilidade de estar errando na intervenção, mesmo acreditando que sua pratica é considerada como certa para alguns, talvez para aquele aluno não sirva. 2. Responsabilidade: o aluno deve ser considerado como um todo, não um recorte de uma realidade educacional. Esta atitude implica em responsabilidade, investigação, solicitação de auxilio para entender o que se passa com o aluno e consigo mesmo. Compromete a relação pois esta sendo co-responsável por uma vida humana. Registrar e documentar as tentativas e intervenções realizadas para ajudar o educando. 3. Objetivos Coerentes: saber determinar o que pretende alçar com a intervenção. Precisar de forma clara o que espera com a estratégia de atividade, ou solicitação de ajuda: Para que?, Por que? O que pretende? 4. Predisposição para Mudança: dissolver os preconceitos que envolvem a queixa inicial, podendo ser o comportamento ou a dificuldade do aluno, procurar informa-se a respeito, ter curiosidade, energia, capacidade de renovação, pedir ajuda, lutar para quebrar a rotina massificadora do sistema educacional. 5. Subsídios necessários para ajudar o aluno: traçar as metas de intervenção, solicitar ajuda, encaminhamentos, acompanhar os encaminhamento, fator tempo suficiente estabelecendo intervenções a curto/médio /longo prazo e questionar os resultados possíveis e esperados. A fim de entendermos uma postura antecipatória ou preventiva precisamos reconhecer a validade ética de certas práticas e crenças como meio de restituir ao professor o seu papel de mediador. Por isso a relevância de entender as forças sociais, culturais e políticas que tem vindo a moldar o ensino e que impedem os professores de mudar as praticas enraizadas. Questionando os porquês dos nossos atos e do nosso ser, começaremos a vislumbrar a natureza das forças que nos levam a agir. Só compreendendo a complexidade da sala de aula é que se pode relacionar depois a prática com seus valores educativos. Também devemos atentar para levar em consideração os vários estágios de desenvolvimento humano, que não correspondem às faixas etárias do educando, mas a sua capacidade de lidar com seus afetos e o mundo que o interage. 4

5 Aprender é reconstruir, remodelar, criar, imaginar, integrar o novo no conhecido. Pela reconstrução das nossas crenças, o educador vai alterar sua prática, percebendo que o ensino é uma realidade mutável e que pode ser contestado em sua essência. Acreditamos que a reconstrução da imagem do ensino, presente nas particularidades do professor mais humano, ético, capaz, ganharemos gradualmente mais crédito, mais qualidade na política pública. Aos poucos o pensamento vai se transformando em ação, o mental em manual e o professor em investigador e mediador, assim contribuiremos para uma mudança do panorama escolar, mesmo que seja apenas na minha sala de aula, já é o primeiro passo. Para continuarmos nossa dialética de reflexão encerro deixando estas questões para pensarmos: Que tipo de pessoas a carreira do magistério atrai? Qual é o seu tipo de perfil como educador? E de sua escola? De sua região? Estaríamos falando de vários tipos de educadores? Ou de várias competências? De que instituição escolar estamos falando? Quem a escola representa? Para quem a escola serve? Nenhuma história de vida poderá ser escrita sem a presença de mãos sensíveis e amigas, que se estendam em nosso encontro. *Marina S. Rodrigues Almeida CRP 06/ , Psicóloga Clinica e Educacional, Pedagoga em Educação Especial e Pós-graduada em Psicopedagogia. 5

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