DIANA GOMES DOS SANTOS

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1 DIANA GOMES DOS SANTOS A ARTE COMO MEDIADORA NA COMUNICAÇÃO DO AUTISTA: possíveis contribuições para facilitar a comunicação de um autista no contexto da educação formal Instituto Cenecista Fayal de Ensino Superior Itajaí (SC) 2008

2 DIANA GOMES DOS SANTOS A ARTE COMO MEDIADORA NA COMUNICAÇÃO DO AUTISTA: possíveis contribuições para facilitar a comunicação de um autista no contexto da educação formal Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito necessário à obtenção do grau de Bacharel em Pedagogia; do Instituto Cenecista Fayal de Ensino Superior. Orientadora: Professora Nara Marone. Instituto Cenecista Fayal de Ensino Superior Itajaí (SC) 2008

3 A ARTE COMO MEDIADORA NA COMUNICAÇÃO DO AUTISTA: possíveis contribuições para facilitar a comunicação de um autista no contexto da educação formal Este trabalho de conclusão de curso foi julgado aprovado para a obtenção do grau de Bacharel em Pedagogia do Instituto Cenecista Fayal de Ensino Superior IFES. Itajaí, 24 junho de Professor Wilson Reginatto Jr Coordenador de estágio Banca Examinadora Profª Nara Marone Orientadora Profª Dnda. Fernanda Germani de Oliveira Profª Dnda. Márcia Regina Cordeiro Bavaresco

4 EQUIPE TÉCNICA Estagiária Diana Gomes dos Santos Coordenador de estágio Professor Wilson Reginatto Jr Orientador de conteúdo Professora Ms. Nara Regina Marone Orientador de Metodologia Marcello Soares

5 DEDICATÓRIA Para Ana Paula e Denise, minhas irmãs. In memorian.

6 AGRADECIMENTOS Ainda que minha boca estivesse cheia de canto, como o mar; E minha língua, de júbilo, como o bramido de suas ondas; E meus lábios de louvor como a amplidão do firmamento; E meus olhos resplandecessem como o sol e a luz; E meus braços se estendessem como as águias no espaço; E meus pés fossem ligeiros como os dos cervos... Não conseguiria agradecer-te, Adonai, Deus nosso e Deus de nossos pais, nem bendizer Teu Nome sequer em medida infinitesimal pelos benefícios que fizeste a nossos pais E também... a mim. À minha mãe, senhora Maria Dilma, por todo encorajamento, estímulo e exemplo, A meu irmão, Alceu Jr, por seu desprendimento e ajuda, À minha irmã Mirian, e a meu pai, senhor Alceu dos Santos, por todo apoio que deram. LARRAÑAGA, Ignácio. Encontro, manual de oração. Ed definitiva. Oficinas de Oração e Vida. TOV: 1996.

7 RESUMO A presente pesquisa foi desenvolvida na Associação Educacional para o Desenvolvimento do Potencial Humano de Santa Catarina (Humanity), na cidade de Itajaí. Sabendo que o autismo é um padrão de comportamento peculiar caracterizado por comprometimentos nas interações sociais e déficits no desenvolvimento da linguagem, verificou-se a oportunidade de utilizar a arte como mediadora na comunicação do autista, a fim de estimulá-lo a expressar-se artisticamente. Para isso foi feito, em um primeiro momento, um levantamento das Instituições que trabalham com crianças autistas e utilizam a Linguagem das Artes como mediadora no processo empreendido. Em um segundo momento, após a seleção de uma das Instituições, foi feita a coleta de dados por meio de registro contínuo de observação direta do comportamento do participante um aluno autista de sete anos. Após a coleta, os dados foram analisados à luz das teorias de autores e pesquisadores como Kanner (1943), Kaplan (1997) e Talamoni (2005); sendo identificados benefícios como desenvolvimento da fala e diminuição da agressividade. Esta pesquisa contribuiu com a constante (in) formação pessoal e profissional da pesquisadora. Palavras-chave: autista, linguagem, comunicação, arte.

8 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO OBJETIVOS Objetivo geral Objetivos específicos O QUE É AUTISMO? Transtornos Invasivos no desenvolvimento: autismo Comportamentos característicos A CRIANÇA AUTISTA EM AMBIENTES DIVERSOS A criança autista em seu ambiente familiar A criança autista em seu ambiente escolar COMUNICAÇÃO E LINGUAGEM A comunicação e as relações do autista A linguagem do autista A ARTE O ensino de arte A arte enquanto terapia A educação (do) sensível A arte como mediadora na comunicação do autista METODOLOGIA Modalidade da pesquisa Campo de observação Histórico da Associação Educacional Humanity Instrumentos de coletas de dados Procedimentos Participantes Critérios para a análise dos dados RESULTADOS CONSIDERAÇÕES FINAIS... 37

9 10. REFERÊNCIAS ANEXOS... 41

10 9 1. INTRODUÇÃO Autismo é o nome dado a um padrão de comportamento peculiar caracterizado por comprometimentos persistentes nas interações sociais recíprocas, além de déficits e desvios no desenvolvimento da linguagem. Uma característica muito marcante no autismo é a dificuldade na comunicação, pois o desenvolvimento da linguagem e o comportamento esperados, não se desenvolvem adequadamente ou são perdidos no início da infância. O psiquiatra Leo Kanner (1943), foi quem descreveu o autismo pela primeira vez, e publicou um artigo intitulado Distúrbios autísticos do contato afetivo. O autismo, na época, era considerado uma forma incomum e precoce de esquizofrenia. Atualmente sabe-se que o autismo está distinto das psicoses. Pessoas com este padrão de comportamento são consideradas excêntricas podendo levar uma vida considerada normal desde que haja respeito e compreensão da parte dos que convivem com ela. Gary Mesilov, diretor da divisão Teacch 1 (Treatment and Education of Autistic and Related Comunication Handicapped Children), diz que o autismo funciona como se fosse uma cultura diferente já que afeta no indivíduo a forma como ele come, se veste, ocupa seus momentos de lazer etc. Para contribuir com o desenvolvimento de um autista respeitando seu tempo e limitações não é necessário oferecer-lhe muito, basta-lhe uma vida simples, ordenada e tranqüila, o que lhe é essencial. Sabe-se que a arte é um tipo particular de conhecimento, onde o produto criado pelo artista propicia um tipo de comunicação, a forma artística fala por si mesma. A arte é capaz de estruturar e organizar o mundo respondendo aos desafios que dele emanam; é um produto que expressa as representações imaginárias das distintas culturas, que se renovam através dos tempos (BRASIL, 1997). 1 Trata-se de uma série de procedimentos e técnicas, desenvolvidas para ajudar o autista a atuar na sociedade; aplicáveis a todos os portadores de distúrbios abrangentes do desenvolvimento, independente das particularidades do indivíduo em questão.

11 10 Tendo em vista que a dificuldade na comunicação é uma das características mais marcantes no autismo; considerando o autismo como um certo tipo de cultura e reconhecendo a arte como um como um modo de comunicação, expressão e um objeto de conhecimento capaz de expressar representações imaginárias de culturas distintas; propõe-se utilizar o conhecimento artístico como uma forma de linguagem entre o autista e o mundo social, facilitando sua comunicação e conseqüente interação com a sociedade. Além disto, este transtorno de desenvolvimento ainda é cercado por mitos e pouco compreendido inclusive por médicos, o que torna pertinente o objeto de estudo desta pesquisa. Sabendo-se que as maiores dificuldades no autista são a comunicação e o convívio social, e entendendo a arte como uma forma de comunicação e expressão, ousa-se questionar: Como a arte pode contribuir na comunicação de um autista e em seu relacionamento com a sociedade? A presente pesquisa, desenvolvida na Associação Educacional para o Desenvolvimento do Potencial Humano Humanity, vem ao encontro das dúvidas e questionamentos, da pesquisadora, quanto às dificuldades no relacionamento e na comunicação de pessoas autistas e, quiçá, quebrar paradigmas préestabelecidos pela sociedade.

12 11 2. OBJETIVOS 2.1. Objetivo geral: Identificar em uma criança autista qual a arte que demonstra maior interesse e como é capaz de estimulá-la a expressar sua percepção, imaginação, emoção, sensibilidade e reflexão Objetivos específicos: Perscrutar, no município de Itajaí, uma Instituição que trabalhe com a linguagem das artes como mediadora na relação autista / sociedade. Entender como a produção e fruição em artes contribuem para o bom relacionamento da criança autista com a sociedade e vice-versa.

13 12 3. O QUE É AUTISMO? 3.1. Transtornos invasivos no desenvolvimento: autismo Autismo é um nome dado a um padrão de comportamento, produzido de forma complexa, como um resultado final de uma longa seqüência de causas (KATHRYN, 1996). Segundo Kaplan (1997), são transtornos evolutivos comportamentais invasivos no desenvolvimento. Descrito pela primeira vez em 1943 por Leo Kanner, psiquiatra infantil austríaco, radicado nos Estados Unidos da América. Este transtorno de desenvolvimento, que atinge uma em cada mil crianças nascidas na maioria meninos, em uma proporção de quatro portadores do sexo masculino para cada mulher ainda é cercado por mitos e pouco compreendido, inclusive por médicos (TALAMONI, 2005). Em 1943, Kanner descreveu onze crianças com um padrão de comportamento peculiar em comum que compreendia muitos diferentes aspectos. Kanner (1943), considerou que tais características definiam uma síndrome específica, completamente distinta de outras perturbações infantis e decidiu designá-las de autismo infantil precoce. Um ano após o trabalho de Kanner, Hans Asperger, psiquiatra australiano, escreveu sobre um grupo de adolescentes que eram extravagantes em seus relacionamentos sociais; tinham falta de empatia com os demais; revelavam memória mecânica, mas pobre compreensão de idéias abstratas, referiu-se a estas características, entre outras, como psicopatia autística, atualmente conhecida como Síndrome de Asperger. Para Kathryn (1996), o diagnóstico precoce e apropriado é o primeiro passo crucial no sentido de assegurar um melhor futuro para crianças autistas, pois, crianças com transtornos autísticos possuem relacionamentos perturbados, ou seja, uma capacidade perturbada de se relacionar afetando todas as áreas de desempenho, aprendizado e comportamento; enquanto o processo natural de maturação pode provocar progressos, o déficit básico jamais é totalmente curável. Porém, ninguém pode estar sempre certo de um diagnóstico tão difícil,

14 13 especialmente um que não pode ser confirmado por um teste clínico exclusivo. O autismo é um grande nivelador, e somente aqueles que convivem com o autista tornam-se os melhores entendedores do assunto. Algumas vezes a criança autista parece ter um olhar vivo, direto, e o desejo do contato físico o que confunde observadores que não são familiarizados com o espectro total do distúrbio autístico (KATHRYN, 1996). Os sinais típicos do transtorno variam bastante, uma vez que há vários graus de autismo. Cerca de 70% a 80% dos casos, os portadores também possuem diagnóstico de retardo mental. Em geral, os autistas têm dificuldades de relacionamento interpessoal o que inclui uma aversão a contatos e manifestações de carinho atraso significativo ou ausência da linguagem verbal, mímica e gestual, podem parecer surdos e apáticos, não respondem a estímulos, não costumam olhar nos olhos dos interlocutores, dificilmente manifestam expressões faciais das emoções. Além de comportamentos repetitivos e estereotipados, são rígidos e inflexíveis, uma mudança na rotina pode perturbálos. Possuem interesses restritos. Algumas crianças têm fixação em determinados assuntos, como cálculos, música, calendários ou animais pré-históricos, têm vasto conhecimento sobre o assunto. Podem aparentar compreensão em assuntos altamente complexos e dificuldade na compreensão de assuntos mais simples (TALAMONI, 2005). Um dos grandes mitos associados ao autismo até bem pouco tempo estava relacionado às origens do problema. Até a década de 1970, médicos e cientistas achavam que a culpa pelo transtorno de desenvolvimento na criança era da mãe, provavelmente por sua rigidez na educação. Hoje, já se sabe que as razões são várias, muitas desconhecidas, embora a maioria seja genética. Entre os fatores externos que podem desencadear o autismo estão as doenças infecciosas da gravidez, como a rubéola, a sífilis e a toxoplasmose, e as infecções no cérebro, como a meningite. Todos esses fatores provocam alterações nas células cerebrais. As causas, portanto, são biológicas e não emocionais (TALAMONI, 2005).

15 14 Os transtornos invasivos no desenvolvimento (TID) são associados a diversas síndromes, os mais conhecidos são: Síndrome de Asperger; Síndrome de Angelman; Síndrome do X Frágil; Síndrome de Landau Kleffner; Síndrome Rett; Síndrome de Prader-Willi. Todas estas síndromes apresentam características semelhantes sendo muitas vezes confundidas até mesmo por médicos (ASSOCIAÇÃO, 1989). A Síndrome de Asperger, por exemplo, é considerado o autismo de melhor prognóstico. Portadores dessa síndrome possuem as mesmas dificuldades de comunicação, interação social e uso da imaginação do autista típico. Porém, não apresentam retardo mental, que é muito comum na maioria dos autistas, nem mesmo qualquer atraso significativo de desenvolvimento de fala ou cognitivo. Por isso, alguns chegam a levar uma vida bastante próxima do que é dito normal, sendo consideradas pessoas excêntricas. Um exemplo desse diagnóstico mais leve de autismo é o da autora Temple Grandin, uma professora assistente de ciências animais da Universidade do Colorado nos EUA, que é uma das maiores especialistas do mundo no projeto de instalações de criação e abate de gado. Escreve artigos, leciona, viaja e profere palestras em congressos em todo o mundo (TALAMONI, 2005). Uma pergunta pertinente gira em torno deste transtorno: autismo tem cura? É importante atentar ao fato de que autismo não é uma doença, portanto, não existe cura. Porém, existem tratamentos que incluem medicamentos específicos e técnicas pedagógicas especializadas.

16 Comportamentos característicos Kaplan (1997), deixa claro que o autismo só pode ser diagnosticado por um médico neuropediatra ou por um psiquiatra especializado em autismo. Porém, como já foi mencionado anteriormente, o quanto antes for diagnosticado o autismo em uma criança, maiores serão os resultados do tratamento. E ainda que não haja cura, posto que não é uma doença, a relevância de um diagnóstico precoce faz-se necessário para que as crianças autistas recebam, o quanto antes, a ajuda necessária para se adaptarem ao meio social. Quanto mais nova a criança, maior sua plasticidade neuronal. Os pequenos estão muito mais abertos e sensíveis, respondendo mais prontamente a qualquer estimulação por parte das pessoas e do meio ambiente. Portanto, conhecer as características de comportamentos autísticos não capacita qualquer indivíduo que seja para diagnosticar o autismo, mas ajuda a despertar as suspeitas necessárias para que se procure o profissional capacitado para tal diagnóstico e, conseqüentemente, começar o tratamento necessário e adequado. Se o tratamento e a atenção forem adequados e constantes, os autistas podem chegar bem próximos de um relacionamento considerado normal, podendo surpreender os amigos e até mesmo seus familiares (TALAMONI, 2005). Apresentam-se então as principais características do transtorno autista: dificuldades para desenvolver relações de companheirismo e socialização; não procuram dividir satisfações, interesses e realizações com outras pessoas; demonstram indiferença emocional e social; ausência de perigo; resistência ao contato físico e à afetividade; hiperatividade física; comportamento agressivo; comportamento ritualista e agregado a rotinas de vida anormais; apego a objetos estranhos e padrão de brincadeiras estereotipadas;

17 16 marcante lesão na comunicação; atraso ou ausência de desenvolvimento de linguagem oral ou através de gestos e mímicas; diminuição da habilidade de iniciar e manter uma conversa com outras pessoas, quando apresentam fala; ausência quanto à compreensão da linguagem falada; fala tardia, e quando esta ocorre, percebe-se ecolalia repetição mecânica de palavras ou frases inabilidade de usar termos abstratos. Os sintomas variam amplamente e se manifestam de diversas maneiras, dependendo do nível desde o mais baixo ao mais alto grau de comprometimento, (ASSOCIAÇÃO, 1989). 4. A CRIANÇA AUTISTA EM AMBIENTES DIVERSOS 4.1. A criança autista em seu ambiente familiar Muitos trabalhos escritos de profissionais do campo e a atual literatura clínica, sugerem que pais de famílias de indivíduos autistas estão sob estress geralmente por longo período de tempo, afirmam Belgin e Poewerriand (1996) em sua dissertação. Alguns pesquisadores descobriram que pais de crianças autistas relataram níveis mais altos de estress do que crianças com outras deficiências (síndrome de down por exemplo), pois a criança autista aparenta ser fisicamente normal e muitas vezes atraente, porém, a natureza e o grau de deficiência são ambíguos, o que torna difícil para a família desenvolver uma expectativa realista em relação às capacidades e potencialidades da criança (BELGIN & POEWERRIAND, 1996).

18 17 No que diz respeito aos sentimentos relacionados ao convívio com o irmão, a análise das entrevistas realizadas por Gomes, Zanchettin e Bosa (2004) revelou sentimentos de raiva, pena choque e vergonha relacionados ao jeito do irmão. Tais sentimentos são provocados por diversas situações como comportamentos imaturos e de risco, agressividade e auto-agressão, dificuldade de compreender os desejos e necessidades do irmão, tarefa de cuidar do irmão e preocupações como futuro do mesmo (GOMES; ZANCHETTIN; BOSA, 2004, p. 180). Mas é no ambiente familiar, segundo Kathryn (1996), que se deve começar a ajuda para a criança autista, justamente pelo fato de causar tantos estresses à sua família. Pois, para que esta situação diminua a criança precisa da ajuda de todos e, principalmente da ajuda dos seus. Kathryn (1996), sugere que se inicie, logo nos primeiros anos, certas restrições, pois, muito do que fazem na idade de dois anos, não será aceitável quando já estiverem com vinte, por exemplo, pois, na medida em que crescem, são impedidos de continuarem a fazer, em situação e lugares não habituais, o que sempre lhes foi permitido fazerem em casa, com isto muitos jovens autistas ficam confusos (KATHRYN, 1996, p. 48) A criança autista em seu ambiente escolar Geralmente o ambiente escolar é o primeiro ambiente social que uma criança começa a freqüentar, seja ela autista ou não. Kathryn (1996), sugere que uma forma de perceber uma criança autista é observá-la em companhia de outras crianças da mesma idade e ouvir aqueles que convivem com ela diariamente, descobriria-se que, se a criança é autista as demais saberiam que ela é uma criança diferente. Uma classe escolar pode ser, por tanto, o local mais conveniente para observar crianças suspeitas de autismo. Segundo Gauderer (1998), o trabalho educacional da criança autista dependerá da instituição e turma na qual está inserida, pois as situações serão diversas em turma de crianças autistas e naquelas turmas onde uma só criança é

19 18 autista. As crianças autistas precisam receber uma educação especial diária oferecida por profissionais bem qualificados que conheçam e compreendam bem o autismo. O primeiro passo da abordagem educacional para as crianças autistas será colocá-las em situações em que elas possam concentrar-se nas tarefas a mão, e esqueçam daquelas sensações de medos e obsessões que as mantêm continuamente distraídas, ensinando-as a explorar o ambiente e torná-las produtivas no seu aprendizado tornando-as mais ativas e independentes (GAUDERER, 1998). A abordagem da criança autista em um estabelecimento educacional variará de acordo com a natureza da instituição. Evidentemente o trabalho com uma turma de crianças autistas envolve situações diversas do que é feito com uma turma em que apenas uma criança é autista (KATHRYN, 1996 p. 61). Diante disto nota-se a relevância de uma educação específica direcionada à criança portadora de autismo paralelamente a educação formal. Em tempos onde a inclusão está em voga, concordar, e até mesmo sugerir uma educação especifica para o autista, pode parecer um ato de exclusão. Porém, é preciso atentar ao fato de que para que haja a inclusão destas crianças no ensino regular, são necessários o preparo dos professores e uma estrutura adequada nas escolas para atenderem a tais crianças, além do preparo da própria criança autista para interagir bem no ambiente em que será inserido, como sugere Luis Alberto Silva, presidente da Associação Nacional das APAES de Florianópolis, em sua entrevista com Bevilacqua (2005). Não adianta simplesmente jogá-las em uma sala de aula onde o professor, despreparado, propõe atividades diferentes para seu aluno diferente, isto sim é um ato excludente. Por maiores que sejam as dificuldades de um aluno, ele tem o direito de realizar as mesmas atividades que os outros alunos de sua turma, as dificuldades aparecerão independente de o aluno ser ou não autista (BEVILACQUA, 2005). Além disso, o autismo é um transtorno no comportamento, o que faz com que os objetivos sejam diferenciados, onde o principal é aproximar as crianças autistas do mundo social e a sociedade das crianças autistas, ou seja, ajudá-las

20 19 a viverem em sociedade procurando mantê-las junto a outras crianças, sendo que esta é a maior dificuldade no autista, um ambiente familiar saudável também é imprescindível (KATHRYN, 1996). Coll (1995) defende que os procedimentos da educação de um autista, devem basear-se em um conhecimento minucioso das leis de aprendizagem, buscando promovê-la em condições naturais de interação e não somente em contextos educacionais condutuais. Então, é preciso sim uma educação específica para o autista, mas que esta seja paralela à educação regular formal, pois se a dificuldade do autista é a interação social é exatamente isto que deve ser trabalhado, não o privando do contato com os outros mas ajudando-o a conviver em sociedade. E sempre respeitando sua individualidade. Faz-se necessário, diante de tantas situações mencionadas, apontar um método/programa, que possa atender e contribuir para o bom desenvolvimento de um autista; para que o professor, ao deparar-se com um aluno autista, saiba como proceder com esta criança tão especial. O MétodoTeacch 2, visa exatamente o que acaba de ser proposto; visa à estruturação e organização do autista, para que este, por sua vez, possa conviver bem e em sua sociedade (PROGRAMA TEACCH, 2003). Este método originado em 1996 nos Estados Unidos da América; na Universidade da Carolina do Norte, Escola de Medicina, Divisão de Psiquiatria; pelo Doutor Eric Schopler e colaboradores tem como princípio associar técnicas comportamentais ao estudo da psicolingüística. A psicoterapia comportamental está clara na ênfase dada à estrutura, na especificação de repertórios condutuais básicos, suas condições e conseqüências e na aquisição de comportamentos com uso de reforçadores. Quanto à psicolingüística, evidencia-se nas categorias de comunicação propostas e utilizadas pela metodologia; e na importância à escolha de objetivos compatíveis com a idade cronológica da pessoa com autismo (PROGRAMA TEACCH, 2003). 2 Tratamento e Educação para Autistas e Crianças com Deficiências Relacionadas à Comunicação (Treatment and Education of Autistic and Related Comunication Handicapped Children).

21 20 Este método desenvolveu maneiras de ajudar indivíduos autistas a atuar na sociedade e cultura que os cercam, tendo como base alguns princípios: 1) Pontos fortes e interessantes: todo autista possui pontos fortes e interessantes que podem se tornar mais funcionais para ele. Por exemplo: aqueles que são atentos a detalhes visuais, são ensinados habilidades de combinar, selecionar e diferenciar que podem ser usadas em situações da vida cotidiana. 2) Avaliação Contínua e Cuidadosa: todo autista tem o potencial para desenvolver habilidades melhores, de progredir. Desde a criança com déficit cognitivo elevado, até o indivíduo altamente funcional. Todos têm falhas e todos têm potencial para progredir. O Teacch começa o processo de desenvolvimento observando a abordagem dos alunos com relação a materiais e atividades diferentes e em quantidade diferentes. Presta-se muita atenção na comunicação, autocuidado, habilidades vocacionais e de recreação. Então se prioriza as necessidades e estabelecem-se os objetivos. 3) Ajuda para entender significados: pois todos têm limitações no entendimento do significado, portanto não se pode esquecer da necessidade constante de o aluno ter um guia para ambientes confusos e de difícil interpretação. 4) Desobediência resultante da falta de entendimento: a maioria de seus comportamentos é devido à dificuldade de entendimento. Regras podem ser muito abstratas ou vagas e a desobediência raramente é um conceito útil no autismo. 5) Colaboração dos pais: É importante incorporar os desejos e estilos de vida da família do aluno ao programa educacional.

22 21 Um ponto de vista importantíssimo no Teacch é a estrutura visual: ensinar os alunos com métodos visuais para capitalizar sua aptidão visual, além de tornar a atividade mais significativa. O método teacch tem por fundamento a socialização dos indivíduos (PROGRAMA TEACCH, 2003). 5. COMUNICAÇÃO E LINGUAGEM 5.1. A comunicação e as relações do autista Uma característica muito marcante no autismo é a dificuldade na comunicação. Fator muito relevante, em se tratando de relações, (neste caso relações escolares), pois é necessário que o professor consiga comunicar-se com seu aluno, para que, conseqüentemente haja a educação. Um bom ponto de partida, para uma possível ajuda, é o princípio de que tudo o que uma criança autista precisa fazer e saber terá que ser ensinado, o que se ensina é o que a criança aprende. A forma com que o mundo relaciona-se com a criança autista pode ser melhorada ensinando a ela tantas delicadezas sociais quanto possível (KATHRYN, 1996). A faixa etária entre os seis e os doze anos, é considerada por especialistas, o período mais tranqüilo na vida de um autista, pois, em geral, os mais violentos ataques de raiva e hiperatividade já passaram e o ressurgimento de frustrações hormonais da adolescência, ainda virão. É neste período, freqüentemente, que aprendem a interagir socialmente, apesar de serem vistas como intencionalmente retiradas da vida social. Mas, a realidade é que têm pouca idéia de se relacionarem com os outros e, portanto, pouca escolha nesta questão. Kathryn (1996), afirma ainda, que algumas vezes os problemas de crianças autistas brilhantes não são aparentes até que elas estejam no ambiente mais flexível que é exigido adaptar-se aos padrões dos outros. Não se beneficiarão da presença de outras crianças simplesmente colocando-as entre as demais, mas podem obter

23 22 substanciais benefícios se a interação é propositadamente planejada. Porém, necessitam de ajuda em tolerar e entender o comportamento social dos outros, especialmente no que se relacione, diretamente, com elas A linguagem do autista Sabe-se que a linguagem é um dos meios utilizados para comunicar idéias e sentimentos, e a linguagem no autismo é descrita como uma incapacidade em usar a comunicação interativa (ESTUDOS LINGÜÍSTICOS, 2008), ou seja, segundo Kanner (1943), a linguagem do autista não possui a função de comunicar uma mensagem à outra pessoa. Segundo Kaplan (1997), 50% de todas as crianças autistas jamais apresentam um discurso proveitoso. Porém, algumas podem demonstrar uma fascinação por letras e números e aprenderem a ler sozinhas, muitas vezes, surpreendentemente bem, entretanto, lêem sem qualquer compreensão. Enquanto Kathryn (1996) afirma que, havendo ou não a fala, o grau em que a criança seja capaz de compreender é importante e pode conduzi-la a um ensino direto. Pois raramente uma criança autista entende tudo o que é dito a ela. Déficits e desvios amplos no desenvolvimento da linguagem estão entre os principais critérios diagnósticos do transtorno autista. As crianças autistas não são simplesmente relutantes para falar, e suas anormalidades de linguagem não se devem a uma falta de motivação. Tanto um desvio quanto um atraso na linguagem são características do distúrbio autista (KAPLAN, 1997,p. 981). Baseado nisto, nota-se que, a criança que atingiu a idade de três anos, sem nunca ter chegado a falar cresce com ansiedade. A criança que inicialmente falava e então perdeu por completo o uso da palavra, vai também causar preocupações. Porém, há crianças cujas dificuldades de comunicação são menos óbvias e, portanto, uma vez mais um diagnóstico apropriado pode ser protelado, (Kathryn, 1996).

24 23 Kaplan (1997), relata ainda que crianças autistas fazem pouco uso do significado em suas memórias e processos de pensamentos, quando estes aprendem a conversar fluentemente, carecem de competência social, e suas conversações não se caracterizam por intercâmbio de respostas recíprocas. Contrastando com crianças ditas normais que entendem muita coisa antes mesmo de aprender a falar, os autistas verbais geralmente dizem mais do que entendem, a linguagem dá-se por meio de ecolalia (repetição automática das palavras ouvidas) ou com frases estereotipadas sem qualquer relação com o contexto. Kanner (1943) aborda este fato no contexto mais amplo do sintoma denominando fala ecolálica e relata que crianças por ele acompanhadas repetiam como um papagaio tudo o que lhe havia sido dito, naquele momento ecolalia imediata ou em momentos anteriores ecolalia diferida. A esse respeito, chega a afirmar que a conversa dessas crianças é um eco de tudo o que já se lhe pôde ser dito, registrando a limitação, ou mesmo a ausência da produção de frases espontâneas. 6. A ARTE 6.1. O ensino de arte A arte é um tipo particular de conhecimento, onde o produto criado pelo artista propicia um tipo de comunicação, a forma artística fala por si mesma (BRASIL,1996). Para o ensino de Arte, Diaz (2007), acredita que é preciso trabalhar seriamente, em adequação com o contexto, buscando conhecer a realidade. Enquanto educador, é preciso ler incessantemente, estudar sobre métodos, como se constrói o conhecimento, estudar sobre a vida e obra dos artistas, movimentos artísticos, acompanhar a produção cultural de sua cidade, país e mundo. Saber usar com adequação os materiais, estabelecer pontes do conhecimento com as

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