Poder Judiciário JUSTIÇA FEDERAL Seção Judiciária do Paraná 1ª TURMA RECURSAL JUÍZO B

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1 JUIZADO ESPECIAL (PROCESSO ELETRÔNICO) Nº /PR RELATORA : Juíza Narendra Borges Morales RECORRENTE : KANAYO TAKII NITTA E JULIANE NITTA RECORRIDO : INSTITUTO NACIONAL DO SEGURO SOCIAL INSS VOTO Trata-se de recurso da parte autora contra sentença que julgou improcedente o pedido de concessão de pensão por morte porque a última contribuição previdenciária do falecido ocorreu em 05/2005 e, na data do óbito (26/07/2009), já havia sido perdida a qualidade de segurado, não sendo possível o recolhimento post mortem pelos dependentes. Alega a recorrente que o falecido trabalhava como motorista autônomo e prestou serviços para a Empreiteira Fortunato Ltda. no período de 25/04/2009 a 24/05/2009, a qual teria efetuado o pagamento do frete mediante o desconto de 11% relativo à contribuição previdenciária devida ao INSS, sem repassá-la a autarquia oportunamente. Em razão disso, pede o reconhecimento da qualidade de segurado e a concessão do benefício, pois entende que não pode ser prejudicada pelo descumprimento de obrigações legais por parte da empresa tomadora dos serviços e pela falta de fiscalização da autarquia. Razões de voto 1. Da qualidade de segurado do falecido. Assiste razão à recorrente. Conforme consta da certidão de óbito juntada com a inicial, o falecido trabalhava como motorista autônomo e prestou, no período próximo ao óbito, serviços de fretes para a Empreiteira Fortunato Ltda, conforme se verifica pelo Recibo de pagamento a Autônomo RPA (evento 1, OUT29). Existem outros recibos da mesma natureza demonstrando que essa era a atividade que o falecido desempenhava desde longa data, conforme documentos relativos aos anos de 1978, 1985, 2005 e 2007 (evento 1, OUT30 a 33). O Recibo de Pagamento a Autônomo - RPA emitido por aquela empreiteira comprova que o falecido prestou serviços de transporte de material entre 25/04/2009 e 24/05/2009 e recebeu como contraprestação, no mês de junho/2009, a quantia bruta de R$ 794,85, dos quais foram descontados 11% de INSS, com indicação da inscrição do falecido perante o RGPS nº [ZOD /FBK] 1/5

2 O INSS não contestou a veracidade desse documento, de modo que, no contexto dos autos, deve ser considerado prova idônea das atividades e das remunerações que o falecido exercia e recebeu no período imediatamente anterior ao falecimento. É certo que a jurisprudência das Turmas de Uniformização já se pacificou no sentido de que, se na época do óbito não havia condição de segurado e nem direito adquirido a qualquer aposentadoria, a realização de contribuição post mortem não dá direito à concessão de pensão por morte aos dependentes (TNU: PEDILEF nº /ES, Rel. Juíza Fed. Jacqueline Michels Bilhalva, DJ e PEDILEF nº /PR, Rel. Juíza Fed. Joana Carolina L. Pereira). Entretanto, o caso não versa sobre a possibilidade de recolhimento de contribuições post mortem pelos dependentes do contribuinte individual, mas sobre a manutenção da qualidade de segurado em razão de não ser obrigação legal do próprio segurado o recolhimento das contribuições previdenciárias, em razão do regime legal de contribuições estabelecido após a Lei /2003, de 8 de maio de Afirma o INSS que o segurado contribuinte individual é obrigado a recolher sua contribuição por iniciativa própria, de acordo com o art. 30, II, da Lei 8.212/91, de modo que, se não o fizer, perde a qualidade de segurado após o decurso dos prazos do art. 15 da Lei 8.213/91. O raciocínio é correto quando o segurado é contratado para prestar serviços por outro contribuinte individual equiparado a empresa ou por produtor rural pessoa física ou por missão diplomática e repartição consular de carreira estrangeiras, pois, nestes casos, incide a norma de exceção do 3º do art. 4º da Lei /03, também prevista no art. 216, II, do Decreto 3.048/99. Entretanto, quando a contratação do contribuinte individual se dá por empresa, conforme estabelece o art. 4º, caput, da Lei /03 e o art. 216, I, a e b, do Decreto 3.048/99, a responsabilidade pela arrecadação e pelo recolhimento da contribuição previdenciária devida pelo próprio segurado passou a ser da própria empresa, sem prejuízo das contribuições que estão a seu cargo. Lei /03 Art. 4º Fica a empresa obrigada a arrecadar a contribuição do segurado contribuinte individual a seu serviço, descontando-a da respectiva remuneração, e a recolher o valor arrecadado juntamente com a contribuição a seu cargo até o dia [ZOD /FBK] 2/5

3 (vinte) do mês seguinte ao da competência, ou até o dia útil imediatamente anterior se não houver expediente bancário naquele dia. (Redação dada pela Lei nº , de 2009). 3º O disposto neste artigo não se aplica ao contribuinte individual, quando contratado por outro contribuinte individual equiparado a empresa ou por produtor rural pessoa física ou por missão diplomática e repartição consular de carreira estrangeiras, e nem ao brasileiro civil que trabalha no exterior para organismo oficial internacional do qual o Brasil é membro efetivo. Art. 5º O contribuinte individual a que se refere o art. 4º é obrigado a complementar, diretamente, a contribuição até o valor mínimo mensal do salário-de-contribuição, quando as remunerações recebidas no mês, por serviços prestados a pessoas jurídicas, forem inferiores a este. Decreto 3.048/99 Art A arrecadação e o recolhimento das contribuições e de outras importâncias devidas à seguridade social, observado o que a respeito dispuserem o Instituto Nacional do Seguro Social e a Secretaria da Receita Federal, obedecem às seguintes normas gerais: I - a empresa é obrigada a: a) arrecadar a contribuição do segurado empregado, do trabalhador avulso e do contribuinte individual a seu serviço, descontando-a da respectiva remuneração; (Redação dada pelo Decreto nº 4.729, de 2003) b) recolher o produto arrecadado na forma da alínea a e as contribuições a seu cargo incidentes sobre as remunerações pagas, devidas ou creditadas, a qualquer título, inclusive adiantamentos decorrentes de reajuste salarial, acordo ou convenção coletiva, aos segurados empregado, contribuinte individual e trabalhador avulso a seu serviço, e sobre o valor bruto da nota fiscal ou fatura de serviço, relativo a serviços que lhe tenham sido prestados por cooperados, por intermédio de cooperativas de trabalho, até o dia vinte do mês seguinte àquele a que se referirem as remunerações, bem como as importâncias retidas na forma do art. 219, até o dia vinte do mês seguinte àquele da emissão da nota fiscal ou fatura, antecipando-se o vencimento para o dia útil imediatamente anterior quando não houver expediente bancário no dia vinte; (Redação dada pelo Decreto nº 6.722, de 2008). Nesses casos, em que o contribuinte individual está a serviço de empresa, ela é obrigada a lhe fornecer comprovante do pagamento do serviço prestado e consignar, além dos valores da remuneração e do desconto feito, o número da inscrição do segurado perante o INSS (art. 216, XII, Decreto 3.048/99). O desconto, nesses casos, deve ser feito à alíquota de 11% quando se tratar de empresas em geral ou de 20% quando se tratar de entidade beneficente de assistência social isenta das contribuições sociais patronais (art. 216, 26, Decreto 3.048/99) [ZOD /FBK] 3/5

4 No caso, os requisitos citados foram cumpridos pela empresa Empreiteira Fortunato Ltda, tomadora dos serviços, porque, conforme já mencionado, consta dos autos o Recibo de Pagamento a Autônomo - RPA por ela emitido, no qual estão indicados todos os dados exigidos pelo regulamento (remuneração de R$ 794,85; desconto previdenciário de 11% e número de inscrição no INSS nº ). Mas, a despeito dos descontos efetuados na remuneração, ao se consultar o CNIS do segurado pelo número da inscrição constante no RPA, percebe-se que não houve o recolhimento da contribuição previdenciária pela empresa (evento12, PROCADM2, página 12), o que, entretanto, não prejudica seus direitos perante a Previdência Social, nem o de seus dependentes, porque o desconto de contribuição e de consignação legalmente autorizadas sempre se presume feito oportuna e regularmente pela empresa a isso obrigada, não lhe sendo lícito alegar omissão para se eximir do recolhimento, ficando diretamente responsável pela importância que deixou de receber ou arrecadou em desacordo a lei (art. 33, 5º, Lei 8.212/91 e art. 216, 5º, Decreto 3.048/99). Como a remuneração recebida pelo segurado (R$ 794,85) estava acima do limite mínimo do salário-de-contribuição vigente à época (R$ 465,00), não havia necessidade de que ele próprio complementasse a contribuição devida no mês, segundo determina o art. 216, 27 e 28, Decreto 3.048/99, permanecendo a responsabilidade exclusiva da empresa. Portanto, comprovada a filiação do segurado falecido ao RGPS no mês de junho de 2009, bem como a responsabilidade da empresa pelo recolhimento da contribuição previdenciária devida, deve ser reconhecida a qualidade de segurado na data do óbito (26/07/2009) e o direito dos dependentes ao recebimento da pensão por morte. 2. Efeitos financeiros da concessão Considerando que o requerimento administrativo foi feito apenas em 12/11/2009, após 30 dias do óbito, o benefício é devido às duas autoras desde essa data, nos termos do art. 74, I, da Lei 8.213/91. Ao contrário do que foi pedido na inicial, a autora JULIANE NITTA não tem direito ao benefício desde o óbito, pois já contava com 16 anos naquela data. A fim de evitar questionamentos acerca deste posicionamento, esclareço que tanto o art. 79 quanto o art. 103 da Lei 8.213/91, ao excepcionar a aplicação do prazo prescricional aos menores, incapazes e ausentes, determinam a observância da lei, ou [ZOD /FBK] 4/5

5 seja, das normas constantes no Código Civil. Como a autora JULIANE NITTA era relativamente capaz para exercer os atos da vida civil na data do óbiro, não se lhe aplica o disposto no art. 198, I, CC. 3. Dispositivo Ante o exposto, voto por DAR PROVIMENTO AO RECURSO, para reformar a sentença e julgar parcialmente procedente o pedido e condenar o INSS à conceder o benefício de pensão por morte às autoras, pagando-lhes as prestações vencidas desde a DER (12/11/2009). A atualização monetária das parcelas vencidas, a contar dos respectivos vencimentos, deverá ser feita pelo IGP-DI (de 05/1996 a 03/2006 artigo 10 da Lei 9.711/98) e pelo INPC (de 04/2006 a 06/2009 artigo 31 da Lei /03). Nesses períodos, os juros de mora devem ser fixados à taxa de 1% ao mês, a contar da citação. A partir de 07/2009, para fins de atualização monetária e juros de mora, haverá a incidência uma única vez, até o efetivo pagamento, dos índices oficiais de remuneração básica e juros aplicados à caderneta de poupança (art. 1-F da Lei 9.494/97, com redação dada pela Lei /2009). Sem honorários. Narendra Borges Morales Juíza Federal Relatora [ZOD /FBK] 5/5

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