Atração de Capitais Estrangeiros e os 7 Cs

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1 Atração de Capitais Estrangeiros e os 7 Cs Fortaleza, 22 de agosto de 2005 Diretor-presidente, JETRO São Paulo É uma grande honra estar aqui hoje, tendo os senhores responsáveis pela atração de investimentos ao Nordeste brasileiro como ouvintes. Desde que assumi as minhas funções no Brasil há 1 ano e 9 meses, tive a oportunidade de palestrar em diversos lugares e sinto-me satisfeito em ter uma platéia interessada como a dos senhores. Trabalho na JETRO há 38 anos. Durante todo esse tempo estive envolvido em quatro tipos de atividades de promoção comercial: promoção à exportação, promoção a investimentos externos de empresas japonesas, promoção à importação e promoção aos investimentos de empresas estrangeiras no Japão. Com base nessa experiência, gostaria de analisar juntamente com os senhores as formas de se atrair empresas estrangeiras. Em primeiro lugar, ao realizar esses 4 tipos de atividades de promoção percebi que o mais árduo deles é indiscutivelmente o de trazer os investimentos externos ao País. Com base em minha experiência, considero esse trabalho três vezes mais difícil do que promover as exportações, pela enorme abrangência de atividades a ser desenvolvida e do amplo leque de pessoas a serem contatadas. Comparado a outros trabalhos de promoção, a atração de investimentos exige que seus encarregados mantenham um estreito relacionamento com as empresas e sejam hábeis em marketing e tenham o senso de um vendedor. 47

2 Além disso, os seguintes 7Cs são imprescindíveis para se efetivar o trabalho de atração de investimentos. São eles: 1) CONSENSO 2) CONHECIMENTO 3) COMPETIÇÃO 4) COMPARAÇÃO 5) COOPERAÇÃO 6) COMUNICAÇÃO 7) CONFIANÇA Passarei a explicar cada um desses itens. 1) Atrair investimentos significa CONSENSO. Historicamente, o Japão nunca se interessou muito em atrair investimentos. A proporção entre os investimentos externos e internos do Japão sempre se manteve em torno de 10 para 1. Tomando como exemplo o ano de 1997, o valor dos investimentos externos realizados pelas empresas japonesas atingiu 53.9 bilhões de dólares, enquanto que o dos investimentos estrangeiros no Japão foi de apenas 5.5 bilhões de dólares. Esse fato foi muito criticado por outros países que enxergavam aí o fechamento do mercado japonês. Entretanto, com o fomento aos investimentos estrangeiros no Japão, gradualmente esses investimentos cresceram, tendendo a um maior equilíbrio entre suas cifras. Em janeiro de 2003, o Primeiro-Ministro Koizumi anunciou seu plano de duplicação dos investimentos estrangeiros no Japão nos 5 anos seguintes. No ano fiscal de 2003, os investimentos de empresas japonesas no exterior totalizaram 36.0 bilhões de dólares, enquanto que os investimentos estrangeiros no Japão somaram 18.7 bilhões de dólares, uma proporção de quase 2 para 1. E, no ano fiscal de 2004, finalmente os investimentos estrangeiros ao Japão de 37.4 bilhões de dólares superaram os investimentos externos, que ficaram em 35.5 bilhões de dólares. 48

3 Esse marco revolucionário foi possível graças ao consenso que envolveu a todos do setor público e privado, empenhados em promover os investimentos estrangeiros no Japão, em reativar a economia japonesa e em gerar mais empregos. É sabido que a exprimeira ministra da Inglaterra, Margareth Thatcher, empenhou-se ao máximo ela própria em promover os investimentos estrangeiros no país. Graças a esses esforços, o país recebeu diversos aportes de investimentos de várias partes do mundo. O significado de CONSENSO aqui abordado remete à necessidade de se aumentar a vontade de todos os setores da sociedade em receber investimentos estrangeiros de braços, desde o presidente, ministros, governadores e todo o setor público até burocratas, entidades, sindicatos de trabalhadores, empresas e cidadãos. Obter esse Consenso é muito mais difícil do que se pensa, pois assim como alguns não vêem os investimentos de estrangeiros com bons olhos, outros têm dificuldades em tomar alguma iniciativa, mesmo compreendendo em tese as vantagens em se receber investimentos estrangeiros. Mesmo que os altos escalões governamentais afirmem serem favoráveis ao capital estrangeiro, quando se depara com situações como excesso de tempo nos trâmites alfandegários, ineficiência burocrática, dificuldade de obtenção de vistos ou falta de solução ao chamado custo Brasil e outras problemáticas, torna-se difícil afirmar que exista um consenso. Há investidores estrangeiros que ficam desapontados com a ineficiência do sistema burocrático brasileiro só de ver a longa fila no setor de imigração do aeroporto internacional de Guarulhos. 2) Atrair investimentos significa CONHECIMENTO. Tomo aqui o exemplo do estrategista militar chinês Sun Tzu, cujas obras podem ser encontradas também em livrarias brasileiras. Uma de suas frases mais famosas é Aquele que conhece o inimigo e a si mesmo, lutará cem batalhas sem perigo de derrota. Os responsáveis na atração de capital estrangeiro devem, antes de tudo, conhecer a si mesmos: o posicionamento do Brasil perante o mundo e a América Latina, como é o 49

4 sistema brasileiro de atração de investimentos, o ambiente de investimentos, os diversos sistemas legais, a situação econômica, bem como o posicionamento de seus estados ou municípios no Brasil, entre outros assuntos. Além disso, é necessário estarem analisando quais setores produtivos pretendem atrair. Conhecer o inimigo significa por um lado, pesquisar sobre as condições econômicas ou a tendência das empresas de setores almejados de países-alvo, entre outros e, por outro lado, conhecer as estratégias de atração de investimentos de países ou estados que sejam seus concorrentes, suas atividades de atração de investimentos, seus ambientes de investimentos, os incentivos concedidos e outros. Ou seja, não basta conhecer a si mesmo e ao inimigo, é muito importante que essa plena compreensão leve à tomada de ação. 3) Atrair investimentos significa COMPETIÇÃO. O primeiro aspecto que chamou a minha atenção ao chegar no Brasil, em se tratando de atração de investimentos, foi a inexistência no País da idéia de competição com outros países. O Brasil é o país campeão da América do Sul, não tendo rivais ao seu redor. A Argentina tem apresentado instabilidade política-econômica e Colômbia, Peru e Venezuela possuem mercados restritos, além de enfrentarem algum tipo de problema político, econômico ou social. O Chile é politicamente estável e sua economia tem registrado alto grau de crescimento duradouro, porém o seu mercado é muito reduzido. O Brasil orgulhava-se em possuir o maior PIB da América Latina, porém, sem se dar conta, foi deixado bem atrás pelo México que, juntamente com os Estados Unidos e Canadá, formou o NAFTA e está envolvido em processo de globalização e severa competição. O México de 100 milhões de habitantes conseguiu ultrapassar o PIB do Brasil, cuja população é de 170 milhões de habitantes. 50

5 Mesmo hoje, muitos altos burocratas brasileiros acreditam que podem simplesmente cruzar os braços, pois o capital estrangeiro aparecerá atraído pelos recursos naturais abundantes e pelo potencial do País. Sem dúvida, o capital estrangeiro irá ingressar, porém, não necessariamente virá capital estrangeiro necessário e suficiente para promover o desenvolvimento sustentado. O Brasil precisa observar mais o mundo. Os reais concorrentes não são os países vizinhos, mas sim a China, a Índia, os países asiáticos, os Estados Unidos e países europeus. Recentemente, as revistas VEJA e EXAME publicaram excelentes artigos sobre Qual o segredo do sucesso do Chile? e Como a Irlanda obteve sucessos na introdução de capital estrangeiro. Atrair investimentos implica em competir e, por isso, é absolutamente necessário conhecer as estratégias adotadas por outros países. Gostaria que muitos oficiais do governo lessem esses artigos para por em prática as medidas que se mostrem viáveis. Um exemplo de como a competição é severa pode ser sentida pelo número de escritórios de entidades relacionadas ao comércio exterior e atração de investimentos de vários países e seus estados localizados em Tóquio. Os Estados Unidos contam com 30 escritórios, a Inglaterra 9, a Alemanha 8, a França e a Espanha 7 cada, a Bélgica 2 e a China, 15 escritórios. Basicamente são dois os trabalhos realizados por esses escritórios: o primeiro é a exportação ao Japão dos produtos fabricados em seus estados e o segundo, é atrair os investimentos das empresas japonesas. Basta ver esses números para compreender o quanto um país batalha para atrair investimentos. Tenho sugerido ao governo estadual de São Paulo a abertura de um escritório do Estado em Tóquio que teria 4 funções: as duas acima mencionadas, a promoção ao turismo e dar apoio à população dekassegui. 4) Atrair investimentos significa COMPARAÇÃO. Ao investirem no exterior, os investidores estrangeiros normalmente escolhem 51

6 como alvo alguns países de uma mesma região, baseando sua decisão final na análise comparativa do ambiente de investimentos, porte do mercado, incentivos, entre outros aspectos. Mesmo quando decidem investir em um determinado país, eles selecionam alguns estados ou municípios como candidatos para, ao final, escolherem um único destino. Dentro do rol de suas atividades, a JETRO faz convites às empresas japonesas para investirem no Brasil, mas o maior obstáculo a isso consiste no fato de ser extremamente difícil obter as informações para efeito de comparação no Brasil. Acredito que uma das razões para essa dificuldade seja a inexistência no Brasil de órgãos específicos para atração de investimentos como em outros países. Praticamente todos os países bem-sucedidos possuem excelentes órgãos de atração de investimentos. Esses órgãos fornecem informações sobre os ambientes de investimentos tanto do país como de seus estados aos potenciais investidores. Além do órgão com atuação em nível nacional, existem os órgãos estaduais de atração que se encarregam em divulgar os seus próprios ambientes de investimentos. Penso que o governo brasileiro deva analisar seriamente o estabelecimento de órgãos para a atração de investimentos. Havendo dificuldades para esse estabelecimento, penso que, ao menos, deva fornecer informações que permitam fazer análises comparativas com os seus pares regionais ou com os países concorrentes em matéria de atração de investimentos, incluindo as vantagens e desvantagens dos ambientes de investimentos no Brasil. Sabemos que as diversas Secretarias de Desenvolvimento dos Estados têm atuado dinamicamente na atração de investimentos. O empenho do Nordeste brasileiro nesta tarefa pode ser sentido também na organização deste seminário. O departamento estadual responsável pela atração de investimentos precisa fazer análises comparativas com os dados de outros estados concorrentes e enfatizar as suas vantagens. Pesquisando os ambientes de investimentos, seus sistemas e tendências dos órgãos de atração de investimentos de estados ou países rivais, irá compreender os seus próprios pontos fortes e fracos. Minimizar as fraquezas é a chave para o sucesso. 52

7 5) Atrair investimentos significa COOPERAÇÃO. As atividades de atração de investimentos levam à cooperação com diversas organizações. Tomando o caso da JETRO como exemplo, temos: 1 Órgãos públicos relacionados à atração de capital estrangeiro (Ministério de Economia, Comércio Exterior e Indústria, Ministério das Finanças, Ministério da Justiça, Ministério dos Negócios Estrangeiros, Ministério da Agricultura, Pesca e Floresta, Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar, Ministério da Administração Pública e outros). 2 Secretarias regionais (províncias, municipalidades). 3 Associações econômicas (Keidanren, Câmara de Comércio e Indústria do Japão, Associações das indústrias por setores produtivos, outros). 4 Órgãos de atração de investimentos e comércio exterior de todo o mundo. (há vários órgãos de atração de investimentos no mundo todo. A JETRO mantém estreito relacionamento com todas essas organizações, pois torna possível trocar opiniões sobre assuntos de interesse comum como a atração de investimentos, além de poder solicitar eventuais colaborações ao se organizar seminários, workshops ou rodadas de negócios nos países em que as mesmas estão localizadas). Exemplo: ATPF (Asia-Pacific Trade Promotion Forum) No caso da Região Nordeste, quando for enviar uma missão ou realizar seminários de atração de investimentos no exterior, é necessário analisar se esse envio será feito por cada Estado ou em conjunto, pois o impacto pode não ser forte somente com um Estado, além de que, não se oferecem alternativas aos empresários do país investidor. O admirável da Região Nordeste é a existência do excelente Banco do Nordeste, que vem procurando atrair os investimentos para a região. Se for estabelecido um órgão federal de atração de investimentos à altura da força do Brasil, os governos estaduais poderiam trabalhar em conjunto e assim desenvolver atividades ainda mais efetivas. 53

8 6) Atrair investimentos significa COMUNICAÇÃO. Entre 1996 e 1999, eu estive na Itália como diretor-presidente do escritório da JETRO Milão. Assim que assumi o meu posto em São Paulo, minhas impressões foram Como o Brasil se parece com a Itália!, Como o Brasil recebeu influência da Itália!. Depois disso, fui procurar os pontos em comum entre Brasil, Itália e Japão. Acabei encontrando dois. O primeiro deles é que, no passado, nenhum dos três países demonstravam muito entusiasmo em atrair investimentos. Neste aspecto, houve modificações recentemente e tanto o Japão como a Itália estão se esforçando ao máximo. O segundo ponto é que não são muito bons em se comunicar. Assim dizendo, penso que algumas pessoas certamente irão contra-argumentar afirmando que isso é até compreensível para os japoneses, mas que os brasileiros e italianos têm alta capacidade de comunicação. Os japoneses não são fluentes em idiomas estrangeiros e também não podemos dizer que sejam hábeis comunicadores. O japonês é por excelência um ótimo aluno, mas não é um bom professor. A Itália é o único país que, no passado, dominou o mundo por duas vezes: durante o Império Romano e na época Renascentista. Talvez por essa razão, os italianos parecem pensar que eles não precisam informar sobre a Itália ao mundo e sim, que os estrangeiros que forem à Itália possam falar sobre a Itália ao mundo. O brasileiro, apesar de ser um povo comunicativo, a meu ver, parecem pensar que, pelo fato de o Brasil ser um imenso país e líder da América Latina, todo o mundo conheça o Brasil. Vou explicar com um exemplo concreto. Digamos, por exemplo, que certo governador envie uma missão ao Japão e a JETRO ou a Embaixada do Brasil no Japão organizem um seminário. Nessa ocasião, o governador e/ou o secretário de desenvolvimento fazem uma apresentação, mas praticamente todos discursam com a premissa de que as empresas japonesas conhecem suficientemente bem o Brasil e o 54

9 Estado em questão. Os ouvintes ficam sem entender absolutamente nada ao ouvir pela primeira vez aquela seqüência de nomes de projetos, nomes de cidades, rios, portos, órgãos governamentais e outros. Eu costumo sempre recomendar aos representantes dos governos estaduais da seguinte forma: Os japoneses não conhecem o Brasil. Sabem apenas que é o país do futebol, café e carnaval. As importações do Brasil representam apenas 0.8% do total das importações japonesas e as exportações japonesas ao Brasil não passam de 0.4% do total da pauta de exportações do Japão. Assim, dirijam-se às empresas japonesas com a premissa de que elas nada sabem sobre o Brasil e o Estado que vocês representam. As pessoas demonstram descontentamento, mas essa é a realidade. Creio que esse fato não mude muito em qualquer país, não só no Japão. Aqui também é importante conhecer o outro. 7) Atrair investimentos significa CONFIANÇA. É de fundamental importância conquistar a confiança dos investidores. Vamos analisar o que é necessário para que o Brasil, na qualidade de mercado receptor, obtenha a confiança dos potenciais investidores estrangeiros. 1 O alto escalão do governo deve emitir constantemente a mensagem de que o capital estrangeiro é bem-vindo. 2 Enviar continuamente missões aos países-alvo. 3 Atender com honestidade os potenciais investidores. 4 Não mudar constantemente os sistemas legais e tributários relacionados aos investimentos. 5 Dar ouvidos às empresas estrangeiras já instaladas no País. Embora a ênfase acabe sempre voltada aos novos investimentos, os investimentos adicionais das empresas já instaladas também são igualmente importantes. Os órgãos de atração de investimentos no mundo que primam pela excelência utilizam-se dessa prática, sem exceção. Reunir-se periodicamente com as câmaras de comércio e indústria dos 55

10 países localizadas em São Paulo para troca de idéias. 6 Ouvir as opiniões de empresas estrangeiras, esforçar para a redução do chamado custo Brasil e buscar resultados concretos. Quando os investidores estrangeiros falam sobre o Brasil, apontam a falta de CONTINUIDADE neste País, como quando se mudar o governo, mudarem as regras e diretrizes ou a interpretação das regras variar conforme o oficial responsável. Para se obter CONFIANÇA, é importante haver CONTINUIDADE. A execução honesta e contínua das atividades acima se resultará na obtenção da confiança dos potenciais investidores. 56

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