Música e Tema de Pesquisa: Um relato de experiência no Núcleo de Educação da Infância-Colégio de Aplicação/UFRN

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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE ESCOLA DE MÚSICA LICENCIATURA EM MÚSICA JANNIELLY RAYAKE DA SILVA SANTANA Música e Tema de Pesquisa: Um relato de experiência no Núcleo de Educação da Infância-Colégio de Aplicação/UFRN NATAL RN JUN 2015

2 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE ESCOLA DE MÚSICA LICENCIATURA EM MÚSICA JANNIELLY RAYAKE DA SILVA SANTANA Música e Tema de Pesquisa: Um relato de experiência no Núcleo de Educação da Infância-Colégio de Aplicação/UFRN Monografia apresentada ao curso de Licenciatura Plena em Música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte UFRN como requisito parcial para a obtenção do Grau de Licenciada em Música. Orientador: Profa. Ms Carolina Chaves Gomes Coorientador: Everson Ferreira Fernandes NATAL RN JUN 2015

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4 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE ESCOLA DE MÚSICA LICENCIATURA EM MÚSICA JANNIELLY RAYAKE DA SILVA SANTANA Música e Tema de Pesquisa: Um relato de experiência no Núcleo de Educação da Infância-Colégio de Aplicação/UFRN BANCA EXAMINADORA Profa. Ms. Carolina Chaves Gomes Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Orientadora Prof. Everson Ferreira Fernandes Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Coorientador Prof. Valéria Lázaro de Carvalho Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Avaliadora

5 DEDICATÓRIA Dedico este trabalho, primeiramente à Deus que me permitiu o dom da vida, e a minha família e amigos pelo apoio, compreensão e dedicação ao longo do curso. Dedico também as minhas crianças do NEI-CAp/UFRN por todo o amor e carinho que me receberam durante o período de pesquisa.

6 AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente a Deus pelo cuidado e por me permitir tantas coisas boas; Agradeço a minha família aos meus pais e irmãs por sempre respeitar, incentivar e apoiar a minha escolha pela música e pelo ser professor; Aos meus avós, que sempre me disseram para estudar para um dia ser doutora ; À minha irmã Jayanny Rayara, colega de curso e de profissão por toda paciência e ajuda em todos os momentos do curso; Agradeço imensamente à Ivson Martins pela ajuda na correção dos meus textos, me tranquilizar e por sempre me dizer que sou capaz; Minha Orientadora Carolina Chaves Gomes, a quem admiro imensamente, que me apoiou e que tornou esse momento de finalização de curso tão leve e agradável. Não poderia ter escolhido melhor, uma pessoa incrível e inspiradora; Ao meu coorientador Everson Ferreira, que dividiu comigo seus conhecimentos sobre o tema desse trabalho; Maristela Mosca, por mudar minha vida profissionalmente, por ser minha grande inspiração como educadora e como pessoa, por me ajudar e por todo o cuidado que teve comigo e pela honra de tê-la como colega de trabalho; A todos os meus professores e que sempre vou lembrar com carinho, Carolina Chaves Gomes, Isaac Melo, Catarina Shin, Álvaro Barros, Agostinho Lima, Valéria Carvalho, Sueldes Araújo, Rita de Cássia Magalhães, Maria Helena, Amélia Dias Santa Rosa, Carla Santos; Agradeço aos meus queridos amigos CIARTecas, Catarina Shin, Carolina Chaves Gomes, Maristela Mosca, Isaac Melo, Jayanny Rayara, Júlio César, Barbara Mattiuce, Kalinka Cordeiro, Érika Pollyana, Pamela Thais, Sihan Felix, Letícia Damasceno, Flávia Maiara e em especial à Jason Desiderio, meu grande amigo desde os meus primeiros dias na EMUFRN. E a todos os meus colegas de turma, em especial Jaime Gomes e Rosely Soares. Enfim, a todos que fizerem parte dessa trajetória.

7 EPÍGRAFE Sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo ensino. (Paulo Freire) A criança é um grande pesquisador. Se a criança é levada a buscar seu material, a fazer sua elaboração, a se expressar argumentando, a buscar fundamentar o que diz, a fazer uma crítica ao que vê e lê, ela vai amanhecendo como sujeito capaz de uma proposta própria. (Autor desconhecido) O aprendido é aquilo que fica depois que o esquecimento faz o seu trabalho. (Rubens Alves)

8 RESUMO Este trabalho é resultado da minha pesquisa sobre a metodologia do Tema de Pesquisa adotada pelo Núcleo de Educação da Infância-Colégio de Aplicação/UFRN desde a restruturação curricular na década de 80. Como objetivo dessa pesquisa, busquei discutir a construção do Tema de Pesquisa como proposta pedagógica nas aulas de música com crianças do Ensino Fundamental nos anos iniciais no NEI. Essa proposta busca a autonomia da criança dentro da sala de aula através das suas próprias curiosidades e interesses acerca de temas escolhidos por elas, assim tornando as aulas mais prazerosas e fazendo um sentido para os mesmos. Essa pesquisa teve como metodologia a abordagem qualitativa, do tipo pesquisaação. Tendo como instrumentos de construção de dados: planos de aula, diário de campo e fotografias do espaço escolar. Conclui-se que através da metodologia do Tema de Pesquisa a criança poderá vivenciar e aprender de uma forma interdisciplinar aspectos referentes aos elementos musicais, ampliando assim, seu interesse e conhecimento de mundo e pelo mundo. Portanto, essa pesquisa se faz relevante no sentido que professores, especialmente os educadores musicais, possam pensar em outras possibilidades metodológicas para a compreensão da música levando em conta o que a criança já sabe e o que gostaria de saber. Palavras-chave: Tema de Pesquisa. Ensino Fundamental. Núcleo de Educação da Infância NEI-CAp/UFRN.

9 ABSTRACT This work is the result of my research on the methodology of research theme adopted by the Núcleo de Educação da Infância-Colégio de Aplicação/UFRN from the curricular restructuring in the 80s As objective of this research, I tried to discuss the construction of the Research Theme as pedagogical proposal in music classes with children of elementary school in the early years in the NEI. This proposal seeks autonomy of the child in the classroom through their own curiosities and interests on topics chosen by them, thus making the most pleasurable classes and doing a meaning for them. This research was qualitative methodology approach, as action research. With the data construction of instruments: lesson plans, field diary and photos of the school environment. In conclusion, through the Research Theme methodology the child may live and learn in an interdisciplinary way aspects related to musical elements, thus broadening his interest and knowledge of the world and for the world. Therefore, this research is relevant in the sense that teachers, especially music educators, can think of other methodological possibilities for understanding the music taking into account what the child already knows and what he would like to know. Keywords: Research Theme. Elementary School. Núcleo de Educação da Infância-Colégio de Aplicação - NEI-CAp/ UFRN.

10 LISTA DE FIGURAS Figura 1- As diferenças entre os princípios básicos de cada metodologia segundo Pernambuco e Rêgo (2001)...18 Figura 2 - Prédio do NEPI...20 Figura 3 - Portão de acesso ao NEPI...21 Figura 4 - Porta de entrada para o auditório...21 Figura 5 - Interior do auditório...22 Figura 6 - Interior do auditório Palco...22 Figura 7 - Interior do auditório...23 Figura 8 - Interior da sala de aula comum...24 Figura 9 - Interior da sala de aula comum...25 Figura 10 - Distribuição das turmas...26 Figura 11 - Momentos do estágio supervisionado no NEI...31 Figura 12 - Parte dos slides da assembleia Justificativas das turmas sobre o tema...36 Figura 13 - Parte dos slides da assembleia Contagem dos votos...37 Figura 14 - Atividade sobre o tema escolhido Rock n Roll...38 Figura 15 - Apresentação da banda através de slides...42 Figura 16- The Beatles Figura 17 Lugar de origem Figura 18- Formação da banda Figura 19 - Beatlemania Figura 20- Último show Figura 21- The Beatles hoje Figura 22- The Beatles sempre... 45

11 Sumário 1 INTRODUÇÃO REFERENCIAL TEÓRICO O TEMA DE PESQUISA E SUAS CARACTERÍSTICAS O TEMA GERADOR, TEMA DE PESQUISA E PROJETOS DE TRABALHO COMO ESTRATÉGIA PEDAGÓGICA O NÚCLEO DE EDUCAÇÃO DA INFÂNCIA COLÉGIO DE APLICAÇÃO NEI-CAP/UFRN: ASPECTOS HISTÓRICOS E DE INFRAESTRUTURA O TEMA DE PESQUISA NO NEI-CAP/UFRN: OPERACIONALIZAÇÃO DO PROCESSO O ESTÁGIO NO NEI-CAP/UFRN METODOLOGIA APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS A ESCOLHA DO TEMA: ASSEMBLEIA DE ALUNOS DO PLANEJAMENTO, ÀS AULAS E FINALIZAÇÃO DO TEMA: UM PROCESSO REFLEXIVO A CULMINÂNCIA DO TRABALHO CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS ANEXO... 54

12 12 1 INTRODUÇÃO O presente trabalho discorre acerca da metodologia Tema de Pesquisa adotada pelo Núcleo de Educação da Infância-Colégio de Aplicação/UFRN desde a década de 80, quando ocorreu a reestruturação curricular da escola. Essa metodologia, proveniente do Tema Gerador que tem como base teórica a pedagogia de Paulo Freire, e que foi proposto por Sônia Kramer e da Palavra Geradora proposta por Madalena Freire, busca através das experiências de vida e vivências socioculturais das crianças, garantir o acesso a experiências, onde possam expressar ampliar e atualizar suas ideias, conhecimentos e sentimentos (RÊGO e PERNAMBUCO, 2001, p. 4). Assim, para compreensão do conceito de Tema de Pesquisa, abordo três tipos de metodologias de ensino, são elas: Tema de Pesquisa, Tema Gerador e Projetos de Trabalho. Apesar de elas terem origens e bases teóricas diferentes, passam pelos mesmos critérios, como por exemplo, a interdisciplinaridade e conhecimento prévios dos alunos em relação ao tema que é estudado. Como objetivo dessa pesquisa, busquei discutir a construção do Tema de Pesquisa como proposta pedagógica nas aulas de música com crianças do Ensino Fundamental nos anos iniciais no NEI, e como específicos discutir o Tema de Pesquisa enquanto procedimento de ensino e aprendizagem no ensino fundamental, e analisar as contribuições do Tema de Pesquisa em música para o desenvolvimento das crianças do Ensino Fundamental. A questão problema da pesquisa nasceu a partir da minha curiosidade sobre a metodologia adotada pelo NEI-CAp/UFRN, que conheci através da minha atuação como monitora/estagiária nas aulas de música. A partir disso, resolvi abordar como tema do meu trabalho de conclusão de curso essa metodologia, que não é do conhecimento de muitos professores e alunos do curso de Licenciatura em Música da UFRN, mas que possui grande importância nas aulas de música, contribuindo para a autonomia do aluno e sua busca pelo conhecimento. Serão tratados nesse trabalho aspectos relacionados à minha prática como monitora/estagiária, defino assim esse termo por ter realizado as regências do Estágio Supervisionado III na turma do 3º ano B vespertino na mesma época em que atuava como bolsista da professora de música do colégio. Justifico esse trabalho pela importância que a metodologia do Tema de Pesquisa tem para toda comunidade escolar, buscando a interação entre escola e o meio social no qual a

13 13 criança está inserida, trazendo um sentido de mundo para os alunos e fazendo com que os mesmos pensem, decidam e reflitam sobre temas que serão tratados pela escola de uma forma interdisciplinar, tratando a criança como um ser que tem suas opiniões e possibilitando assim que as mesmas pensem, reflitam e modifiquem não só a sua, mas a realidade da comunidade em que está inserida. E ainda No primeiro capítulo, será apresentado o referencial teórico, que trata da definição dos termos utilizados e origens de cada metodologia citada anteriormente. Discorro acerca da história e infraestrutura da escola, como também sobre o Tema de Pesquisa no NEI, nesse ponto, abordo a organização dessa metodologia na escola em questão. Tal organização dividese em três momentos, são eles: Estudo da Realidade, Organização do Conhecimento e Aplicação do conhecimento. Em seguida explico o funcionamento dos estágios supervisionados no Núcleo de Educação da Infância, dando ênfase às atividades comuns aos estagiários de todas as áreas de conhecimento. No segundo capítulo, falo sobre a metodologia utilizada para a realização desse trabalho, que no caso, caracteriza-se como uma pesquisa de natureza aplicada e caráter exploratório-descritivo, pois trata-se de um relato de experiência a partir do estágio supervisionado. Também, caracteriza-se como uma pesquisa-ação, pois essa proposta do Tema de Pesquisa foi utilizada pela primeira vez nas aulas de música e à medida que colhia os dados voltava ao campo para reaplicá-los. No terceiro capítulo, encontra-se a apresentação e análise de dados, onde relato e analiso atividades que aconteceram durante a minha prática como monitora/estagiária utilizando o Tema de Pesquisa como metodologia nas aulas de música. E finalmente, no quarto capítulo, as minhas considerações finais à respeito de todo o meu trabalho e impressões acerca do Tema de Pesquisa como uma proposta de metodologia nas aulas de música.

14 14 2. REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 O TEMA DE PESQUISA E SUAS CARACTERÍSTICAS O Tema Gerador, Tema de Pesquisa e Projetos de Trabalho como estratégia pedagógica O trabalho por Tema de Pesquisa tem inquietado muitos educadores no sentido de que são mais adequadas aquelas metodologias que buscam a autonomia do aluno em sala de aula, ressaltando a importância do seu cotidiano para o aprendizado através da escolha do que ele mais se identifica, conseguindo levar suas experiências para a sala e para que aquilo que está sendo ensinado na escola com o intuito de que faça algum sentido para sua vida. Escolhi apresentar essas três metodologias, Tema de Pesquisa, Tema Gerador e Projetos de Trabalho, por as duas primeiras serem diretamente ligadas à minha prática e ao NEI, e a última por ser diversas vezes confundidas com a prática adotada pelo Colégio. Para definir os termos que serão apresentados posteriormente, me deparei com uma falta de literatura acerca do Tema de Pesquisa, já que essa é uma metodologia particularmente desenvolvida e adota no NEI-CAp/UFRN desde sua reestruturação curricular na década de 80. Sendo assim, essa foi uma forma que o colégio encontrou de [...] articular três dimensões básicas: o conhecimento das áreas de conteúdo que se quer tornar disponível, o contexto sociocultural das crianças, ou suas realidades imediatas, e os aspectos vinculados diretamente à aprendizagem. (RÊGO E PERNAMBUCO, 2001, p. 3). O conceito de Tema de Pesquisa teve como referências para sua construção as propostas de Madalena Freire (1983) com o livro A paixão de conhecer o mundo que conta relatos de sua busca em conhecer o mundo junto com as curiosidades das crianças, bem como a proposta de Sônia Kramer (1992) no livro Com a pré-escola nas mãos no qual aborda o tema de gerador. Com esses trabalhos, o Tema de Pesquisa toma suas primeiras formas e definições. Segundo Rêgo (1999), o tema de pesquisa constitui-se num parâmetro básico da dinâmica pedagógica, afirmando ainda que nem todo assunto será visto como um possível tema de pesquisa. Sendo assim, ela aponta quatro critérios para que os assuntos sejam considerados como tal: - Precisa ser um assunto que gere questionamentos, necessidade de ir em busca de um aprofundamento maior, possibilitando, dessa forma, o diálogo; - Que contribua para uma visão mais ampla da realidade onde o indivíduo está inserido, favorecendo um melhor entendimento do mundo em que vive;

15 15 - Unifique/aglutine conceitos de outras áreas de conhecimento, com a perspectiva de articular-se com outros conhecimentos, podendo ser ampliado para outros temas; - Envolva um componente afetivo ao grupo, para ser significativo, ou seja, que todo o grupo esteja curioso e interessado em saber mais/investigar aquele determinado assunto (RÊGO, 1999, p. 65). Esses quatro critérios nos mostram o que é necessário para que saibamos se um assunto pode ser considerado como Tema de Pesquisa ou não. Por vezes, as crianças apontam um assunto para ser trabalhado na sala de aula, mas que a única justificativa apresentada por elas é: é um assunto legal. Cabendo aos professores, como incentivadores da pesquisa em sala de aula, saber se aquele assunto abrange os critérios citados anteriormente, para que o assunto não seja algo apenas passageiro na vida das crianças e que não tenha acrescentado ou modificado na sua forma de pensar, no seu cotidiano, etc. O Tema de Pesquisa é dividido em três momentos pedagógicos: Estudo da Realidade (ER); Organização do Conhecimento (OC), e; Aplicação do Conhecimento (AC). O primeiro trata do conhecimento que as crianças já possuem anteriormente sobre o assunto, é o momento da fala do outro, de conversar sobre o assunto na roda de conversa. Constitui-se do momento mais informal, por assim dizer, deste processo. O segundo momento caracterizase pela fala do organizador, no qual o professor busca formas e atividades para atender às expectativas das crianças quanto ao tema. E o último momento é uma síntese, uma tomada de consciência, quando as crianças percebem o que aprenderam, alunos e professores, identificando se encontraram respostas para as questões iniciais que propuseram. O Tema Gerador surge com base na pedagogia de Paulo Freire com seu texto Pedagogia do Oprimido e que segundo Rêgo e Pernambuco (2001), teve uma de suas sistematizações elaborada pela equipe que coordenou o Movimento de Reorientação Curricular no Município de São Paulo na década de 90. (RÊGO e PERNAMBUCO, 2001, p. 2). E que ainda, segundo as autoras: Os Temas Geradores foram idealizados como um objeto de estudo que compreende o fazer e o pensar, o agir e o refletir, a teoria e a prática, pressupondo um estudo da realidade, onde emerge uma rede de relações entre situações significativas individualmente, social e histórica. Assim como, uma rede de relações entre situações que orienta a discussão, interpretação e representação dessa realidade [grifo dos autores] (RÊGO e PERNAMBUCO, 2001, p. 2). Já Sônia Kramer (1992) aborda o tema gerador como um eixo condutor do currículo (KRAMER, 1992, p. 50) para as crianças. Ao longo do tempo, diversas nomenclaturas foram

16 16 definindo o Tema de Gerador. Nesse sentido, Kramer (1992) denomina o termo de Tema Gerador como fio condutor do trabalho, definindo-o como: A possibilidade de articular, no trabalho pedagógico, a realidade sociocultural das crianças, o desenvolvimento infantil e os interesses específicos que as crianças manifestam, bem como os conhecimentos acumulados historicamente pela humanidade a que todos têm direito a acesso. Os Temas imprimem, ainda, um clima de trabalho conjunto e de cooperação na medida em que os conhecimentos vão sendo coletivamente construídos, ao mesmo tempo em que são respeitados os interesses individuais e os ritmos diversificados das crianças (KRAMER, 1992, p. 50). Segundo a autora, os temas tidos como tema gerador podem surgir de duas formas: através dos temas cíclicos e/ou gerados pelas crianças, suas famílias, professores e outros profissionais da escola. Os temas cíclicos surgem das datas comemorativas e são anuais: Dia dos Pais, Dia das Mães, Dia do Índio, Festas Juninas, entre outras datas. Mas há também aqueles temas que surgem a partir da influência dos meios de comunicação, como por exemplo, a televisão. Um exemplo de tema poderia ser a Copa do Mundo que não acontece anualmente, mas que contagia e muda a rotina das pessoas durante o período que a mesma acontece. Os temas vêm da escolha das próprias crianças e também da ajuda das famílias e da observação feita pelos professores a partir das atitudes das crianças e conversas na escola. De acordo com Kramer (1992), o tema gerador pode surgir a partir das curiosidades das crianças, como também: das situações do dia-a-dia das crianças e de suas relações umas com as outras (nos jogos e brincadeiras, conversas e trabalhos coletivos); de suas relações com o mundo social (suas famílias, vizinhos, amigos) e com o mundo (animais, vegetais, chuva, vento etc.); de acontecimentos especiais (início das aulas, enchente, eleições etc.); de problemas existentes no seu cotidiano de vida (desemprego, falta de dinheiro, doenças, problemas habitacionais, despejos etc.). (KRAMER, 1992, p ). Muitos temas surgem das conversas durante a roda inicial, que acredito ser um momento muito importante para as crianças, pois é quando elas, questionadas sobre coisas que aconteceram no seu dia, contam algo novo que conheceu ou aconteceu sendo também um momento de grande interação entre as crianças e os professores, tornando-se um período de mais liberdade para que as crianças, como em uma conversa, libertem suas curiosidades, e muitas vezes surgindo desse espaço um novo tema para se pesquisar. Uma outra proposta que se assemelha ao Tema de Pesquisa é a metodologia de Projetos de Trabalho, que, dentre outros, foi idealizado por W. H. Kilpatrick tendo referência

17 17 a pedagogia de John Dewey (RÊGO e PERNAMBUCO, 2001) e que de acordo com Hernandéz: [...] se baseia fundamentalmente numa concepção da globalização entendido como um processo muito mais interno do que externo, no qual as relações entre conteúdos e áreas de conhecimento têm lugar em função das necessidades que traz consigo o fato de resolver problemas que subjazem na aprendizagem (HERNANDÉZ, 2009, p.63). Na metodologia de Projetos de Trabalho, a criança é parte principal, é o centro da aprendizagem, podendo assim trazer o que a mesma já sabe sobre determinado assunto e/ou sua experiência vivida sobre o tema a fim de resolver os problemas que surgem ao abordar determinado assunto. Segundo Sampaio (2012), em um Projeto de Trabalho o professor é um mediador, incentivador e propositor, criando situações que estimulem as crianças no desenvolvimento de suas habilidades, como: refletir, elaborar, pesquisar, aceitar a opinião dos colegas, ser responsáveis e desenvolver sua autonomia. E assim como o Tema de Pesquisa, o trabalho por projetos também tem algumas características para que seja denominado como tal, como cita Sampaio (2012, p. 17): Parte-se de um tema ou de um problema negociado com a turma; Inicia-se um processo de pesquisa; Buscam-se e selecionam-se fontes de informação; São estabelecidos critérios de organização e interpretação das fontes; São recolhidas novas dúvidas e perguntas; Representa-se o processo de elaboração do conhecimento vivido; Recapitula-se (avalia-se) o que se aprendeu; Conecta-se com um novo tema ou problema (SAMPAIO, 2012, p. 17). Assim, a metodologia de projetos de trabalho é uma forma de trazer a criança para a sala no sentido de que, a mesma irá se sentir parte daquele aprendizado, pensando, questionando, tentando junto com a turma e o professor resolver problemas que ele vivencia no seu dia a dia e com isso, o que se aprende na escola acaba fazendo mais sentido para o mesmo. Sabendo da existência de tais metodologias e que as mesmas tem muito em comum, sendo por muitas vezes confundida, já que todas tratam da autonomia dos alunos em sala de aula, da escolha de um tema e do papel de mediador que o professor exerce, elaborei um quadro trazendo os princípios básicos de cada metodologia, como mostra a seguir:

18 18 Tema de Pesquisa o conhecimento das áreas de conteúdos que se quer tornar disponível; o contexto sociocultural das crianças, ou suas realidades imediatas; e os aspectos vinculados diretamente à aprendizagem. Tema Gerador Projetos de Trabalho uma visão de totalidade e abrangência da realidade; a ruptura do conhecimento no nível do senso comum; adota o diálogo como sua essência; exige do educador uma proposta de crítica, de problematização constante, distanciamento, de estar na ação e de se abservar e se criticar nessa ação. aponta para a participação, discutindo no coletivo e exigindo disponibilidade dos educadores. aprendizagem significativa, a partir do que os alunos já sabem; articulação com uma atitude favorável para o conhecimento; previsão de uma estrutura logica e sequencial dos conteudos na ordem que facilite sua aprendizagem; sentido de funcionalidade do que aprender; memorização compreensiva das informações; e avaliação do processo durante toda a aprendizagem. Figura 1: As diferenças entre os princípios básicos de cada metodologia segundo Pernambuco e Rêgo (2001). Fonte: Elaborada pela autora Os princípios básicos das metodologias de tema gerador, tema de pesquisa e projetos de trabalho são bastante semelhantes quanto ao seus objetivos, pois ambas buscam que o educando escolha o que deve estudar, no sentido de trazer para dentro da sala de aula temas de seu cotidiano com o objetivo de resolver os problemas e dúvidas acerca do mesmo, pesquisando, questionando, desenvolvendo seu lado crítico. E em ambas cabe ao professor o papel de mediador durante todo esse processo de resolução dos questionamentos por parte dos alunos, cabendo a ele ser um pesquisador junto com os educando, problematizador, propositor a fim de incentivar a todos os participantes da pesquisa uma visão de mundo cada vez mais crítica.

19 19 Sobre alguns pontos percebi que há algumas poucas diferenças entre as metodologias citadas acima, mas que não alteram sobre seus objetivos: Tema gerador: no momento denominado por estudo da realidade parte de um problema local, da sua comunidade, assim devendo estudar sobre a mesma; Tema de pesquisa: nesse mesmo estudo da realidade os conteúdos surgem do contexto sócio-econômico-cultural-político. (RÊGO e PERNAMBUCO, 2001, p. 4). Assim, para este trabalho utilizarei o termo Tema de Pesquisa sabendo ser este o termo mais utilizado no âmbito da escola, objeto desta investigação, para se referir ao trabalho pedagógico desenvolvido na escola de Ensino Fundamental no qual se desenvolveu esta pesquisa (NEI-CAp/UFRN). Dessa forma, o relato que se segue refere-se ao semestre letivo a partir do qual apresento minhas impressões e avaliações sobre o processo de ensino da música da turma do 3º ano B vespertino, utilizando a abordagem de Tema de Pesquisa, escolhido, discutido, apresentado e organizado pelos alunos e professores da turma.

20 O Núcleo de Educação da Infância Colégio de Aplicação NEI-CAp/UFRN: aspectos históricos e de infraestrutura O Núcleo de Educação da Infância NEI-CAp/UFRN foi criado em 1979, inicialmente criado como Unidade Complementar que recebia crianças a partir dos 3 meses de idade e que eram filhos de funcionários e alunos da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), no mesmo ano foi tida como creche recebendo crianças a partir de 1 ano e 8 meses aos 5 anos e 11 meses e em 2008 as vagas foram ofertadas para a comunidade em geral. Em 2002 foi regulamentado pela Resolução nº 002, de 15 de janeiro de 2002, do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão CONSEPE. Atualmente, funciona como uma Escola de Aplicação, vinculada à Universidade Federal do Rio Grande do Norte/UFRN e ao Centro de Educação - CE, dedicando-se à Educação Infantil (creche e pré-escola) e ao Ensino Fundamental (ciclo de alfabetização). Já em 2013, por meio da Resolução 13/2013, de 18 de outubro de 2013, esta comunidade escolar acolhe as crianças e os servidores da Unidade Educacional Infantil-UEI/UFRN, ampliando assim o seu atendimento (NEI, 2014). O colégio possui uma estrutura que caracteriza-o como de médio porte, contando com ambientes distintos para educação infantil e para o ensino fundamental. O Núcleo de Educação da Infância possui estacionamento para funcionários, pais e visitantes, pátio de recreação, parque, sala da coordenação, sala da secretária, salas de aula, almoxarifado, quadra, copiadora, sala multimídia, copa, cozinha experimental, além de outro prédio anexo denominado Núcleo de Estudos e Pesquisas da Infância (NEPI) que abrange as atividades regulares da escola, bem como atividades de pesquisa, extensão e formação continuada. Figura 2: Prédio do NEPI Fonte: Elaborada pela autora

21 21 Figura 3: Portão de acesso ao NEPI Fonte: Elaborada pela autora Figura 4: Porta de entrada para o auditório Fonte: Elaborado pelo autor As aulas de música acontecem no auditório que tem por nome Maria Carmem Freire Diógenes Rêgo, que fica localizado no Núcleo de Estudos e Pesquisas da Infância (NEPI), prédio de anexo do NEI-CAp/UFRN. É um espaço grande que possui um pequeno palco, um piano e algumas cadeiras inadequadas ao porte físico infantil, essas cadeiras não são utilizadas nas aulas de música, mas sim em eventos que acontecem no local, pois o auditório não é de uso exclusivo das crianças e nem das aulas de música.

22 22 Figura 5: Interior do auditório Fonte: Elaborado pelo autor Figura 6: Interior do auditório Palco Fonte: Elaborado pela autora

23 23 Figura 7: Interior do auditório Fonte: Elaborado pelo autor As aulas de música por algumas vezes acontecem na sala de aula das crianças, que fica no próprio prédio do NEI, a sala tem mobília apropriada para o porte físico das crianças, é bem lúdica e com espaços bem determinados e pensados no desenvolver da criança, como por exemplo, o cantinho dos jogos, faz de conta e o cantinho da leitura. Também na sala ficam expostos os trabalhos de pesquisa das crianças. A sala possui, mesas, cadeiras, estantes, quadro branco, computador, ventiladores, livros e brinquedos.

24 24 Figura 8: Interior da sala de aula comum. Fonte: Elaborada pela autora Na imagem, no lado direito, podem ser observados os quadros com informações, fotos, figuras que as crianças pesquisam sobre o Tema de pesquisa estudado. Em cada sala de aula comum existem dois quadros, um para o turno matutino e outro para o turno vespertino, com o objetivo de fazer com que a criança tenha maior contado com as informações já descobertas sobre o tema e também para quando houver qualquer dúvida sobre o mesmo a criança pode buscar a informação que já pesquisou no quadro, fazendo assim um facilitador para que não esqueçam certas informações acerca do tema.

25 25 Figura 9: Interior da sala de aula comum Fonte: Elaborado pela autora O Corpo Docente é composto atualmente por 74 (setenta e quatro) profissionais sendo: 42 (quarenta e dois) professores efetivos, 13 (treze) professores substitutos, 19 (dezenove) bolsistas, entre eles, uma de música. Os professores tem título de doutor, mestres, especialistas. O corpo discente é constituído por alunos da comunidade, sendo eles da classe baixa, média e alta. A forma de ingresso se dá por sorteio público e toda a comunidade pode se candidatar a vaga. (NEI, 2014). Os alunos tem idade entre 0 e 8 anos e as aulas acontecem nos turnos matutino e vespertino, com as turmas da Educação Infantil e Ensino Fundamental e são distribuídas da seguinte forma:

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