Excelentíssimo Senhor Ministro Marco Aurélio Mello, demais autoridades presentes, Senhoras e Senhores:

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1 Brasília, 26 de novembro de Excelentíssimo Senhor Ministro Marco Aurélio Mello, demais autoridades presentes, Senhoras e Senhores: Conectas Direitos Humanos i vem trazer a esta Audiência Pública sobre o Programa Mais Médicos a perspectiva global dos Direitos Humanos. A nosso juízo, ela foi praticamente esquecida no debate nacional, embora nos pareça decisiva para aferir a constitucionalidade do Programa Mais Médicos. Abordarei aqui três vertentes do assunto: o direito humano de migrar, o imperativo do direito à saúde e os princípios constitucionais das relações internacionais do Brasil. Nossa primeira questão é: por que aqui no Brasil este tipo de litígio não surgiu antes? Desde os anos 1970, a literatura especializada estuda o fenômeno da migração internacional de médicos e enfermeiras, especialmente sua motivação para buscar trabalho no exterior ii. A Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE, que é uma espécie de clube dos países desenvolvidos, estima que 10,7% das enfermeiras e 18,2% dos médicos que trabalham em 24 de seus Estados-membros iii são estrangeiros iv. No Reino Unido, os médicos estrangeiros seriam 37,7%; nos Estados Unidos, 24,4%. Grande parte destes profissionais viria da África e da Ásia. Esse fenômeno, também conhecido como Brain Drain ou como fuga de capital humano, agrava a carência de profissionais da saúde nos países mais pobres. A assimetria da distribuição dos profissionais da saúde no Brasil, portanto faz parte de um fenômeno global. Em nosso país, porém, ele ainda se manifesta modestamente. Do total de médicos com registro profissional ativo no Brasil, apenas são estrangeiros, representando, portanto, menos de 0,62% do total de médicos em atividade em nosso território v.

2 Por outro lado, não é novidade que há anos gestores estrangeiros vêm ao Brasil reunirse com profissionais de saúde brasileiros a fim de recrutá-los para trabalhar no exterior. Exemplo disso é a intensa política de recrutamento de médicos e de enfermeiras promovida pela região canadense do Québec vi. De fato, a Organização Mundial da Saúde, a OMS estima que o déficit de profissionais da saúde hoje, no mundo, alcance a cifra de 7,2 milhões vii. Tamanho é o vulto do fenômeno que em maio de 2010 a Assembleia Mundial da Saúde, órgão máximo da OMS, adotou o Código Global de Práticas de Recrutamento de Recursos Humanos, com o objetivo de estabelecer ou melhorar o quadro jurídico e institucional dos seus 194 Estados-membros no que se refere ao recrutamento internacional de pessoal de saúde. Ora, a opinião pública brasileira desconhece quase inteiramente esta dimensão global do litígio. O Brasil testemunhou, nos últimos meses, um debate rude, cruamente polarizado, do tipo que pouco contribui em nosso modo de ver para a consolidação da democracia e do Estado de Direito em nosso país. Adianto que, por esta razão, Conectas Direitos Humanos não tomará posição contrária ou favorável aos aspectos técnicos do Programa Mais Médicos. O que está em discussão nesta Egrégia Corte é a constitucionalidade de tal Programa. Consideramos um dano irreparável à saúde pública brasileira que um programa deste tipo seja encaixado à fórceps na clivagem partidária da situação versus oposição. Também alertamos para as tentativas de disseminação em solo brasileiro de uma das piores chagas da humanidade que é a xenofobia. Por isto, Conectas recusa qualquer abordagem binária ou simplista, e chama a atenção para a aguda complexidade do tema. Excelentíssimo Senhor Ministro Marco Aurélio Mello, demais autoridades presentes Senhoras e Senhores: após cuidadosa consulta a atores sociais e a especialistas adeptos das mais diversas posições a respeito do Programa Mais Médicos amadurecemos a

3 convicção de que três elementos são imprescindíveis à análise da sua constitucionalidade. Trata-se: - da compreensão do fenômeno da mobilidade humana; - do imperativo de dar efetividade ao direito à saúde no Brasil; - e dos princípios que regem a nossa cooperação internacional. Em primeiríssimo plano, trago à baila a mobilidade humana, que constitui um dos maiores desafios globais do século XXI, especialmente para o Direito. Porque migrar é um direito humano, jamais cansemos de repeti-lo. Em virtude do artigo XIII.2 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, toda pessoa tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar. O caput do artigo 5º da Constituição Federal brasileira assegura que Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade. Portanto, os juristas devem desconfiar daqueles que tratam as migrações como um problema, um temor ou uma desordem. Migrar é parte da experiência humana. O povoamento do território brasileiro, entre tantos outros exemplos, é fruto desta ousadia. Aliás, crescente ousadia. Segundo a Organização das Nações Unidas, a ONU em 1995, 100 milhões de pessoas viviam fora do país em que nasceram, o que representava, na época, cerca de 1,8% da população total do planeta. Neste ano de 2013, este número se elevou a cerca de 232 milhões de pessoas, ou seja, em torno de 3% da população mundial. Isto significa que um em cada 33 seres humanos vive fora do país em que nasceu. Mas muito além da dimensão quantitativa, as migrações internacionais são causadas por, e também são capazes de causar, transformações profundas nas dinâmicas de vida, tanto individuais como coletivas.

4 Os países chamados de emergentes paulatinamente vão tomando o lugar da Europa e dos Estados Unidos como destino principal de migração. Neste sentido, poderíamos dizer ao Brasil: - bem-vindo aos desafios de países emergentes ou desenvolvidos; - e adeus à adolescência em matéria de relações internacionais. Enquanto 130 milhões de pessoas partem do Sul em direção ao Norte, mais de 110 milhões vêm do Norte rumo ao Sul, ou transitam entre países do Sul. A massa dos migrantes internacionais é de trabalhadores, que viajam com ou sem suas famílias em busca de emprego e de uma vida digna. Não se sabe o que é pior: se as políticas migratórias restritivas dos países do Norte ou a ausência de política migratória nos Estados do Sul. Ambas engendram uma dimensão adicional de vulnerabilidade aos trabalhadores migrantes que se veem privados dos direitos mais elementares. No Brasil, ainda vige o Estatuto do Estrangeiro do regime militar, a Lei de 1980, que limita inclusive os direitos políticos dos migrantes, tornando remota qualquer possibilidade de exercício de cidadania. Daí a importância da Convenção Internacional sobre a Proteção dos Direitos de todos os Trabalhadores Migrantes e de seus Familiares, aprovada pela Assembleia Geral da ONU, em 18/12/1990, que estabelece normas de tratamento igualitário entre trabalhadores nacionais e estrangeiros e atribui direitos humanos fundamentais a todos os trabalhadores migrantes, sejam eles considerados em situação migratória regular ou não. O Brasil assinou esta Convenção, mas sua aprovação inexplicavelmente se arrasta há anos no Congresso Nacional. Assim, em qualquer país do mundo, as regras sobre o acesso a cargos públicos e o debate sobre a revalidação de diplomas e títulos, não podem representar um retrocesso na luta pelo reconhecimento do direito de migrar. Nenhum mecanismo de revalidação de diplomas ou de controle do exercício profissional poderá ser considerado conforme à Constituição Federal brasileira e aos tratados internacionais ratificados pelo Brasil caso ele institua um óbice ilegítimo ao direito de migrar que beneficia todo e qualquer ser

5 humano, inclusive os profissionais da saúde. A lógica do mercado não pode suplantar a dos direitos humanos. Também nos cabe cerrar fileiras na luta pela efetividade do direito à saúde. Segundo o artigo 196 da Constituição Federal, a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. Esta norma constitucional específica sobre saúde pública, é que deve perfazer o parâmetro da constitucionalidade do Programa Mais Médicos. Para realização deste comando constitucional, a Constituição Federal outorgou ao povo brasileiro um de seus maiores acervos: o Sistema Único de Saúde, o SUS, regulado pela Lei n. 8080, de 19/09/1990. Em virtude do Art. 198, inciso III, da Constituição Federal, a participação social é uma diretriz deste Sistema. O Brasil possui uma profícua experiência das Conferências e Conselhos de Saúde, instituídos pela Lei n. 8142, de 28/12/1990. Logo, é preciso mover estas engrenagens participativas, e consultar especialmente a população usuária do SUS não apenas sobre o Programa Mais Médicos mas sobre a saúde pública em seu conjunto. Ao dar voz aos milhões de brasileiros que vivem o SUS em seu cotidiano, os Poderes da República descobririam que o nosso sistema de saúde está ameaçado, não por médicos estrangeiros, mas há muito tempo pelas elites brasileiras. Sob tal prisma, o Programa Mais Médicos é pouco. Trata-se de um programa emergencial. Reivindicamos soluções estruturais e duradouras. O SUS não sobreviverá sem a criação de carreiras públicas de saúde dignamente remuneradas e racionalmente estruturadas; sem recursos tecnológicos, sem pesados investimentos, sem uma corajosa e inadiável devassa no mercado dos planos de saúde. À guisa de conclusão, a Conectas Direitos Humanos evoca os princípios que devem reger nossa cooperação internacional, consagrados pelo artigo 4 da Constituição Federal. Destacamos especialmente o inciso II, que assegura a prevalência dos direitos

6 humanos nas relações internacionais do Brasil. Neste sentido, entre os aspectos mais polêmicos do Programa Mais Médicos encontra-se o termo de cooperação entre o Brasil e a Organização Panamericana da Saúde, a OPAS. Alertamos para o fato de que o Brasil deve dotar-se de garantias de que os direitos humanos arrolados em nossa Constituição Federal sejam devidamente respeitados no âmbito de todos os compromissos internacionais que subscreve. Por outro lado, não podemos deixar de mencionar as obrigações do Brasil em relação ao direito dos refugiados. São preocupantes os rumores de que o Estado brasileiro recusaria a acolhida a estrangeiros recrutados no âmbito do Programa Mais Médicos que aqui solicitassem refúgio. Sublinhamos que o direito, tanto o internacional como o interno, o impede taxativamente de recusar tal estatuto àqueles que, independentemente de sua nacionalidade, atendam às condições estipuladas pela Lei nº 9.474/97, em particular o fundado temor à perseguição política. Excelentíssimo Senhor Ministro Marco Aurelio Mello, demais autoridades presentes, Senhoras e Senhores: a Conectas Direitos Humanos espera ter contribuído por meio desta brevíssima exposição para uma compreensão do Programa Mais Médicos à altura do complexo mundo em que vivemos, e do lugar que o Brasil nele pretende ocupar. Muito obrigada. i Conectas agradece o auxílio da Professora Deisy Ventura, especialista em saúde e migração ii Por exemplo, Mejia A. Migration of physicians and nurses: a worldwide picture. International journal of Epidemiology. 1978; 7 (3): iii Hoje a OCDE tem 34 membros. O estudo foi feito em 24 Estados, tabela ao final. iv Organisation for Economic Cooperation and Development. International Migration Outlook part III: Immigrant Health Workers in OECD Countries in the Broader Context of Highly Skilled Migration. 2007, available in v Demografia Médica no Brasil, v. 2 / Coordenação de Mário Scheffer; Equipe de pesquisa: Alex Cassenote, Aureliano Biancarelli. São Paulo: Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo: Conselho Federal de Medicina, 2013.http://www.cremesp.org.br/pdfs/DemografiaMedicaBrasilVol2.pdf vi Canadá busca no Brasil profissionais que estão em falta no Quebec, O Globo, 2011,

7 vii Dados apresentados pela OMS no III Fórum Global de Recursos Humanos para a Saúde, ocorrido em Recife, em 10/11/2013.

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