FORMAÇÃO CONTINUADA: MUDANÇAS NA PRÁTICA PEDAGÓGICA NA VIVÊNCIA DE UM PROGRAMA.

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1 FORMAÇÃO CONTINUADA: MUDANÇAS NA PRÁTICA PEDAGÓGICA NA VIVÊNCIA DE UM PROGRAMA. Rosângela de Fátima Cavalcante França* Universidade Federal de Mato Grosso do Sul RESUMO Este texto apresenta de forma resumida os resultados parciais de uma pesquisa, que é parte integrante da dissertação de mestrado intitulada: Formação Continuada: Os caminhos de um processo e as mudanças na prática pedagógica que teve como objetivo geral analisar o processo de formação dos professores que participaram do Programa de Formação de Professores Alfabetizadores Profa, verificando seus efeitos na prática pedagógica e como objetivos específicos: 1) analisar aspectos da prática pedagógica cotidiana, bem como as necessidades/dificuldades intra e extra escolares que os professores enfrentaram para operacionalizar as orientações do Profa; 2) conhecer os aspectos intervenientes vivenciados pelos professores cursistas durante o processo de capacitação; 3) verificar quais os fatores que, de forma positiva ou negativa interferiram na ação dos formadores no decorrer do processo de capacitação. A opção metodológica foi a de uma pesquisa de caráter qualitativo. Foram sujeitos da investigação vinte e três professoras que participaram do Profa e que ainda estavam atuando no primeiro ano do Ensino Fundamental e três formadoras do referido programa, pertencentes a onze escolas da rede estadual do município de Porto Velho / RO, tendo como corte temporal as turmas de 2002 e A investigação deu-se por meio de instrumentos como questionário e entrevista semi-estruturada e gravada. O referencial teórico adotado inclui autores que vêm se dedicando tanto ao debate teórico, quanto ao desenvolvimento de experiências sobre a formação de professores, entre outros autores Nóvoa (1995, 1999), Garcia (1995, 1999), Pérez Gómez (1995), Zeichner (1995), Barbieri (1995), Mizukami (2003). Os resultados parciais apontam que as mudanças foram pontuais e não substitutivas, ou seja, não houve quebra do modelo convencional de alfabetização, para o modelo metodológico de resolução de problemas proposto pelo Profa. Palavras-chave: Programa de Formação de Professores Alfabetizadores; Formação de Professores; Prática Pedagógica. *Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul Linha Educação e Trabalho.

2 536 Introdução Hoje, entende-se que a formação do professor é uma das variáveis que pode concorrer para a melhoria da qualidade do ensino e da aprendizagem. O Ministério de Educação como proponente das políticas públicas de formação, não podendo ficar à margem desse entendimento, criou uma rede de formação continuada, abarcando inúmeros programas e entre esses apresentou em 2001 o Programa de Formação de Professores Alfabetizadores o Profa, formulado pela Secretaria de Educação Fundamental SEF/MEC, buscando implementá-lo por meio de cooperação técnica com as Secretarias de Educação Estaduais e Municipais e outras instituições que apresentassem tal interesse. A proposta do Profa traz em seu bojo características bem diferenciadas do que comumente se costuma verificar em programas de ações formativas, no que diz respeito ao período de realização, local, metodologia, materiais didáticos e a sua dinâmica de organização. A começar pelo período de realização, esta formação, ao invés de ser oferecida como geralmente acontece, ou seja, no início do ano letivo ou ao término dos semestres, teve sua carga horária de 160h desenvolvida anualmente em encontros de três horas de duração e uma hora de trabalho pessoal, durante quarenta semanas. Quanto ao local de realização, a própria escola onde os professores trabalhavam ou em escolas próximas ao seu entorno escolar, serviram de ambiente para a formação. No que tange a metodologia, as atividades foram orientadas por estratégias de resolução de problemas, envolvendo:

3 537 (...) análise de produções de alunos, simulação, planejamento de situações didáticas segundo orientações determinadas, análise de adequação de uma dada atividade considerando um grupo específico de alunos, comparação de atividades em relação aos objetivos previamente definidos e discussão das implicações pedagógicas dos textos teóricos estudados. (PROFA / MANUAL DE APRESENTAÇÃO, 2001, p. 21) Em se tratando dos materiais didáticos, estes foram disponibilizados pelo MEC sob a forma de kits, tanto para os professores cursistas como para os formadores, contendo materiais escritos e trinta programas de vídeo. No que se refere à dinâmica de organização do curso, esse, de uma forma bem sintetizada, foi assim estruturado: Em relação aos formadores, a seleção destes deu-se em parceria da SEF/MEC com a instituição interessada. No caso desta pesquisa, a instituição foi a Seduc/RO, que disponibilizou um coordenador-geral, que teve a incumbência de selecionar os professores para assumir a coordenação dos grupos, como formadores, como também se responsabilizou pela formação destes. Em relação à organização dos módulos, estes totalizavam um montante de três com a seguinte especificação: o Módulo Um abordava conteúdos de fundamentação sobre os processos de aprendizagem da leitura e escrita e a didática de alfabetização. O Módulo Dois era direcionado às situações didáticas de alfabetização; e o Módulo Três tratava de conteúdos de Língua Portuguesa pertinentes ao processo de alfabetização. Os módulos eram

4 538 compostos por unidades, que por sua vez, contavam com cinco atividades propostas para cada encontro do Grupo de Formação de Professores, das quais três eram permanentes (A Leitura Compartilhada; a Rede de Idéias e o Trabalho Pessoal) e as outras duas variavam em torno de temáticas pertinentes ao trabalho pedagógico. Considerando o caráter inovador do Profa, que fugiu ao padrão das formações desenvolvidas sob diferentes denominações como treinamento, reciclagem, qualificação, aperfeiçoamento, etc. e que também procurou articular teoria e prática, passamos a apresentar os resultados parciais desta pesquisa, que procurou responder a seguinte questão geral: em que medida os conhecimentos teórico-metodológicos, referentes à alfabetização, aos quais os professores tiveram acesso durante a capacitação no Programa de Formação de Professores Alfabetizadores, provocaram mudanças em sua prática docente? A pesquisa e os seus resultados parciais Esta pesquisa, de natureza qualitativa foi realizada no primeiro semestre de 2005 em onze escolas da rede pública estadual do município de Porto Velho RO, com vinte e três professoras que participaram da formação do Profa e que na época trabalhavam com turmas de primeira série do ensino fundamental e que ainda continuavam atuando na mesma série, bem como três formadoras que atuaram como coordenadoras de grupos. A escolha de professoras e formadoras como

5 539 sujeitos da pesquisa, objetivou conjugar e confrontar olhares diferenciados sobre o processo de capacitação e operacionalização do Profa. A busca dos dados sobre a realidade investigada foi obtida por intermédio de duas fontes de informações: a primeira foi a aplicação de um questionário com questões fechadas,que tinha como objetivo traçar o perfil das professoras-cursistas e das formadoras, com relação aos seus dados pessoais e profissionais. A segunda foi a realização de uma entrevista semi-estruturada, gravada, na qual buscamos informações sobre o processo de formação vivenciado tanto pelas professoras como pelas formadoras e as mudanças incorporadas no dia-a-dia, na prática docente, transcorrido alguns anos após a formação. A entrevista das professoras foi realizada em profundidade, organizada em torno de dezessete tópicos, abrangendo aspectos como: motivos que levaram as professoras a participar do Profa; expectativas das professoras com relação ao curso; competências construídas durante o curso; fatores que favoreceram e/ou dificultaram o desenvolvimento das competências; conteúdos e metodologias colocados em prática durante a formação; motivos que levaram as professoras a colocar em prática conteúdos e metodologias enquanto estavam no processo de formação; mudanças incorporadas no dia-a-dia em sala de aula após a capacitação; conteúdos que as professoras tiveram dificuldade de compreender durante o curso; aspectos positivos e negativos relacionados à metodologia utilizada no processo de formação; conteúdos que as professoras mais se interessaram; conteúdos que as professoras gostariam que tivessem sido trabalhados; material videográfico do curso e a relação com a realidade da sala de aula das professoras; modelos de aulas que as professoras gostariam que os vídeos tivessem abordado; atividades que mais

6 540 contribuíram para reflexão sobre a pratica pedagógica; opinião sobre as avaliações solicitadas durante o curso; condições de trabalho que dificultaram ou facilitaram as mudanças na prática; contribuição do Profa para a formação das professoras. No que concerne à apresentação deste trabalho, os resultados preliminares da pesquisa correspondem apenas a um tópico constante da investigação, o qual se refere às mudanças incorporadas à prática das professoras. Para efeito de sistematização dos dados optamos por apresentar primeiramente o tópico em torno do qual se deu a investigação e as categorias de análise originadas deste. Em seguida, são explicitados os fragmentos dos discursos dos sujeitos investigados, acompanhados de uma breve compreensão ante as evidências apresentadas. Tópico 1 Mudanças incorporadas no dia-a-dia em sala de aula após a capacitação Categoria 1 Mudanças relacionadas às estratégias didáticas Colocando as crianças para trabalhar em equipe, uma ajudando a outra, tendo aquela interação, eu acho que aprendem bem melhor porque o individualismo ele não favorece muito, então, eu tenho colocado isso muito na minha prática. (Profª G) (...) houve muitas mudanças porque as atividades que são lançadas para os alunos, os desafios, são mais prazerosos, eles fazem com mais atenção, com mais amor. (Profª O)

7 541 Trabalhar sempre em grupo, trabalhar com a realidade do aluno, (...) procurando atividades desafiadoras pras crianças e saber que sempre se aprende ler, lendo. (Profª P) (...) foram as intervenções, que eu não sabia como fazer (...) (Profª Q) As mudanças é que (...) hoje eu faço os agrupamentos, faço atividades diversificadas (...) faço análise também dos textinhos deles que antes eu não fazia, eu só corrigia e pronto. (...) (Profª R) Categoria 2 Mudanças relacionadas ao conhecimento sobre o processo aprendizagem dos alunos (...) eu não digo que mudei totalmente mas foi uma mudança muito grande. Eu aprendi a ver a criança, eu compreendi mais o processo de aprendizagem do aluno. (Profª B) As mudanças é que agora a gente procura trabalhar mesmo é a questão de identificar os níveis e fazer um trabalho diversificado de acordo com cada nível, (...) e buscando sempre tirar do aluno o conhecimento que ele já tem. Respeitar isso no aluno. (Profª S) Categoria 3 Mudanças relacionadas ao trabalho com atividades diversificadas Eu estou trabalhando os contos de fadas, trabalhando as fábulas, trabalhando a nova maneira de estudar a ortografia, confrontando o certo com o errado. Isso eu aplico até hoje. (Profª H) Categoria 4 Mudanças relacionadas à busca de fontes de informações e de recursos

8 542 (...) Esse curso veio me despertar pra eu procurar mais subsídios. De que maneira? Assinando revistas como a Nova escola, Amiguinho,que trazem muitos recursos de leitura pra gente e a minha preocupação é essa. No início do mês eu já procuro adquirir as revistas que possam ser agradáveis às crianças, que possam atrair a atenção pra que elas possam estar aprendendo melhor, ouvindo melhor e participando melhor. (Profª U) Nos discursos das professoras é possível perceber que as mudanças evidenciadas estão circunscritas a aspectos processuais traduzidos na forma de organização das aulas, na maneira de agrupar os alunos, na introdução de novas modalidades de atividades, no modo diferenciado de avaliar os alunos e também mudanças no nível das atitudes na medida em que se percebe que passaram a atuar de forma mais ativa junto aos alunos, bem como a tomar iniciativa na busca de informações e recursos para melhorar o desempenho em sala de aula. Estas mudanças incorporadas pelas professoras corroboram a proposta de modelo de mudança do professor teorizada por Guskey (1986) citado por Garcia (1999, p. 48) que parte do princípio de que as crenças e atitudes dos professores só se modificam se os professores perceberem resultados positivos na aprendizagem dos alunos e foi isso que ocorreu com as professoras pesquisadas, elas puderam constatar resultados qualitativos na aprendizagem dos alunos, ao colocarem em prática durante o curso, algumas inovações apresentadas pelo Profa e ficaram convencidas do seu funcionamento, daí continuarem colocando em prática aquilo que realmente comprovaram dar certo em sala de aula. Tecendo algumas considerações parciais

9 543 Pela análise preliminar dos dados verifica-se, portanto, que o Profa provocou mudanças na prática pedagógica das professoras, porém, essas foram pontuais e não ocorreram de modo uniforme, ou seja, não foram implementadas da mesma forma por todas as professoras. Tais mudanças indicam que as professoras deixaram de: trabalhar com os alunos de forma individual e passaram a trabalhar com agrupamentos heterogêneos produtivos; planejar apenas atividades de alfabetização e passaram a planejar atividades de alfabetização apresentando situações desafiadoras; observar de maneira passiva o desempenho dos alunos realizando suas atividades e passaram a fazer intervenções pedagógicas adequadas; selecionar textos que comumente são utilizados no processo de alfabetização e passaram a selecionar textos diversificados e significativos para os alunos; planejar atividades iguais para todos os alunos da sala e passaram a planejar atividades considerando o nível de conhecimento dos alunos; pensar que os alunos aprendem todos no mesmo ritmo e passaram a compreender as diferenças entre os alunos em termos de suas necessidades e possibilidades; planejar atividades de acordo com o que elas achavam que deveriam ensinar e passaram a levar em conta o conhecimento prévio dos alunos para planejar os que eles poderiam aprender;

10 544 esperar que subsídios necessários à sua prática fossem selecionados por outros profissionais e passaram a ter autonomia buscando fontes de informações adequadas para promover uma aprendizagem de melhor qualidade. Observando essas modificações é inegável que elas indicam que as professoras construíram grande parte das competências pensadas pelo Profa como condição para que os professores alfabetizadores ensinem todos os seus alunos a ler e escrever, (Profa / Documento de Apresentação 2001, p. 17) as quais seriam: encarar os alunos como pessoas que precisam ter sucesso em suas aprendizagens para se desenvolverem pessoalmente e para terem uma imagem positiva de si mesmos, orientando-se por esse pressuposto; desenvolver um trabalho de alfabetização adequado às necessidades de aprendizagem dos alunos, acreditando que todos são capazes de aprender; reconhecer-se como modelo de referência para os alunos: como leitor, com usuário da escrita e como parceiro durante as atividades. utilizar o conhecimento disponível sobre os processos de aprendizagem dos quais depende a alfabetização, para planejar as atividades de leitura e escrita; observar o desempenho dos alunos durante as atividades, bem como as suas interações nas situações de parceria, para fazer intervenções pedagógicas adequadas; planejar atividades de alfabetização desafiadoras, considerando o nível de conhecimento real dos alunos; formar agrupamentos produtivos de alunos, considerando seus conhecimentos e suas características pessoais; selecionar diferentes tipos de texto, que sejam apropriados para o trabalho;

11 545 utilizar instrumentos funcionais de registro do desempenho e da evolução dos alunos, de planejamento e de documentação do trabalho pedagógico; responsabilizar-se pelos resultados obtidos em relação às aprendizagens dos alunos; (PROFA / DOCUMENTO DE APRESENTAÇÃO 2001, p ) Com base nas evidências sobre as mudanças apresentadas, é possível afirmar que essas representam ganhos tanto para as professoras como para os alunos, mas não apontam que houve uma substituição do modelo convencional de alfabetização pelo modelo metodológico de resolução de problemas, proposto pelo Profa. Referências bibliográficas MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO / SECRETARIA DE EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL. Programa de Formação de Professores Alfabetizadores Documento de Apresentação, Brasília, GARCIA, Carlos Marcelo. Formação de Professores: Para uma mudança educativa. Porto: Porto Editora, 1999.

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