INTERPRETAÇÕES CALIGRÁFICAS DAS CANÇÕES

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3 INTERPRETAÇÕES CALIGRÁFICAS DAS CANÇÕES um projeto de KLEITON & KLEDIR curador Luís Augusto Fischer patrocínio apoio culturall produção financiamento

4 DO QUE SÃO FEITAS AS ALMÔNDEGAS Luís Augusto Fischer Fora do eixo Rio São Paulo. Longe demais das capitais. Me perguntaram se eu sou gaúcho, está na cara, repare o meu jeito. Estética do frio. Amigo, boleie a perna, puxe um banco e vá sentando: foi bom você ter chegado, eu tinha que lhe falar um gaúcho apaixonado precisa desabafar. Ah, não sei se o senhor sabe, mas ter nascido longe custa. Custa quando se permanece nesse longe, e custa mais ainda se a gente quiser sair desse longe. Ou melhor, corrijo: se a gente quiser continuar nesse longe mas com direito a sair dele, e vice-versa, se quiser sair para viver em outra parte, noutra lonjura, lá no centro dos acontecimentos, mas com direito de voltar ao longe original. Qual longe? Quão longe? Assunto que podemos ir conversando. Boleie a perna, vamos tomar um mate. Estamos num bar do Bom Fim, em Porto Alegre. Ou estamos na praia de Ipanema, Rio de Janeiro. Ou estamos num bar da Vila Madalena, São Paulo. Estamos onde calhar, não importa: aceite um mate. O assunto aqui é um novo capítulo na vida de uma já calejada dupla de artistas, cantores e compositores, cancionistas para dizer de modo simples e direto. Seus nomes, o senhor já viu na capa, não preciso repetir. Mas digo que são irmãos de sangue, nascidos de mesmo pai e mesma mãe, na mesma cidade longe pra burro. Pelotas, cidade cosmopolita ao sul do Rio Grande do Sul. Tão ao sul que quase não dá para ser mais sul, porque em seguida já vem o Uruguai, acabou o Brasil. A história é longa mas pode ser sumariada assim: música em casa, gosto apurado com aulas de instrumentos, convivência com tango platino e samba brasileiro, mais folclore gauchesco falando de campos e gados, mas tudo isso modulado pelos anos 60 que se traduz em rock n roll estrangeiro e brasileiro, ácido ou romântico, bossa nova, MPB, tropicalismo, black music norte-americana e brasileira, modalidades nascidas em contextos diversos mas todas, rigorosamente todas, conversando entre si e gerando coisas inesperadas e sensacionais. Aí os dois irmãos, junto com amigos, em meados dos anos 70, em Porto Alegre capital do estado, mas ainda longe demais, resolvem acreditar que o bololô sonoro dava pé, agradava e abria caminhos. Ajudaram a inventar um grupo com o críptico nome de Almôndegas. O senhor sabe, eu sei, almôndegas se fazem de mistura. Tem carne moída, tem temperos, tem farinha, e se der liga vai pra frigideira ou o forno. Dizendo de outro modo: tem carne, mas não é churrasco; tem tempero, mas não é forte como se usa na Bahia; tem farinha, mas não é um pão, daqueles que compõem o clássico café da manhã brasileiro. É uma mistura, mas já é outra coisa. Síntese, é o que é. Isso tudo faz tanto tempo... Já dá até para contar a história assim, rapidinho. Mas o que importa é que estamos falando de um processo longo, um verdadeiro movimento da história cultural, daque- les clássicos em que, a cada momento, os protagonistas não tinham a menor clareza sobre o que ia dar e o que não ia dar certo, e portanto não tinham certeza da correção e da precisão de cada tiro que precisavam dar a cada tanto. Mas deu certo, da maneira como as coisas dão certo meio almôndega, que olhando de longe não tem lá uma cara tão atraente, mas provando é satisfação garantida. (Parêntese: um dos dois, ponhamos o nome, o Kledir, é vegetariano, e em homenagem justa a ele devemos lembrar que existe almôndega sem carne. Olha aí, Kledir.) O certo que deu foi os dois irmãos o já nomeado Kledir mais o Kleiton, o do violino, do cabelo crespo, entendeu? saíram pelo mundo brasileiro a cantar, fazendo sucessos com fado, sátira, lirismo, saudade do sul, refrães pregnantes, e um bom humor muito raro, um astral de amizade e gentileza que, pensando bem, representa um naco do melhor que o país tem, de sul a norte. Quantos anos se passaram desde então? Meu Deus, meu deus, muito tempo. Décadas! No meio delas, ocorreram casamentos, filhos, viagens, temporadas em que a dupla se separou, mais shows e discos. Morreu o elepê, veio o cedê, que também se foi dando lugar ao inefável, agora o devedê que convive com outros elepês e cedês, mais a rede mundial e tudo isso alimentado por canções que alimentavam a vida, como sempre ocorre quando a coisa é boa, a mistura dá certo. Almôndega. Não é querer forçar a conta ou dar relevo ao que não tem, mas 2014 representa quarenta anos de arte para os dois. Eu sei, o senhor olha pra eles e não diz, mas são sim quarenta anos de, como se diz, estrada. O endereço habitual dos dois, cada qual com sua família e tal, é Rio de Janeiro, mas eles andam para cima e para baixo, para o oeste e de volta ao leste na geografia do Brasil. E nunca param de lembrar que tudo nasceu longe demais das capitais. Nunca renegam esse pertencimento e nunca deixaram de se entregar ao mundo, numa dialética que, preste atenção, é rara, para gaúchos. Confira comigo no replay. Ao longo do tempo, artistas nascidos no Rio Grande do Sul ou bem permaneciam aqui e eram reconhecidos como gaúchos, ou iam para outra parte (Rio de Janeiro, quase sempre) e perdiam o título de gaúchos. Isso, claro, vista a coisa pela lente de quem ficava no Rio Grande do Sul. Mas havia uma contrapartida maluca, compondo um tipo particular de torcicolo cultural: os que ficavam, ao mesmo tempo em que eram vistos como da casa, não tinham passado pela dura prova de ir lá, no centro cultural do país, e vencer, ser reconhecido como brasileiro, como um dos grandes; na mão oposta, os que tinham ido embora e dado certo por lá, mesmo sem ganhar o carinho dos ressentidos que aqui ficavam, ostentavam a aura dos vencedores. Ponhamos nomes na conversa. Do primeiro time, os ficantes, Mário Quintana, Teixeirinha, Vasco Prado, Nelson Coelho de Castro, Bebeto Alves, Nei Lisboa todos eles artistas de obra de primeira em seus respectivos campos e públicos, todos eles sem o carimbo dos grandes centros, vistos quase como gente da família mas com histórias complicadas de rejeição ou insucesso junto ao mundo externo. Do segundo time, os partintes, Augusto Meyer, Raul Bopp, Carlos Nejar, Elis Regina idem, todos muito bons no que faziam (e fazem), ostentando o tal carimbo, com histórias de sucesso lá fora para contar, mas vistos como gente que renegou o pago. Certo, nada é tão restrito assim, e casos como o de Erico Verissimo e Iberê Camargo, celebrados dentro e fora dos limites da província, estão aí para comprovar. Talvez se possa dizer o mesmo acerca de Lupicínio. Para eles há apreciadores em toda parte. É possível, até provável, que essa esquizofrenia cultural tenha acabado nos tempos atuais, ou ao menos tenha esmaecido fortemente. Escritores das novas gerações tendem a viver essa tensão de modo bem mais leve, tendo antes de si os exemplos bem-sucedidos dos mais experientes Luis Fernando Verissimo e Moacyr Scliar, Lya Luft, Caio Fernando Abreu e João Gilberto Noll; especialmente cancionistas mais recentes experimentam um à-vontade notável no trânsito entre cá e lá. Humberto Gessinger e os Engenheiros do Hawaii, cujo primeiro disco se chamava Longe demais das capitais. As bandas Cachorro Grande e Bidê ou Balde. Adriana Calcanhoto. Antônio Villeroy. Vitor Ramil. Parágrafo para esse último. Irmão mais novo da mesma família em que brotaram Kleiton e Kledir, Vitor não apenas viveu esse processo como formulou um conhecido ensaio sobre ele, a partir da manchete que inventou e que fez carreira a Estética do Frio. Vivendo no Rio na época e experimentando já um relativo sucesso, fruto de seu trabalho e talento, mas inegavelmente caminhando pelas picadas abertas pelos irmãos mais velhos, Vitor se deu conta de que não tinha sentido nem cabimento renegar o Sul, sua arte e suas contingências, para tornar-se outra coisa, que um provinciano pensa como oposta à condição provincial. (Essa outra coisa é ser brasileiro.) Kleiton e Kledir, esse é o nosso ponto. Mais um mate? Estavam postos em relativo sossego os dois irmãos,desfrutando de uma carreira que funciona em toda parte, cantando e recantando Maria Fumaça, Navega coração, Deu pra ti, Fonte da saudade, Vira virou, Paixão, Nem pensar, tantos sucessos acumulados nas ditas quatro décadas de carreira ao lado de novas composições, sem contar os projetos paralelos de um e de outro, sempre acesos e criativos Kleiton fazendo um mestrado em Música em Paris, Kledir publicando livros, para só citar dois exemplos, quando foram mais uma vez mordidos pela inquietação, essa mosca insaciável que atormenta os artistas e os leva para adiante. Mosca que se apresenta sob várias formas e cores, a inquietação que os mordeu conduziu-os a um território que, bem pesadas as coisas, tem com o mundo da canção uma relação de estranheza e intimidade, muito parecida com aquela que há entre o Rio Grande do Sul isolado e o Brasil como um todo conduziu-os ao território da literatura. O senhor pergunta se são mesmo territórios distintos, o da canção e o da criação literária? Tem profunda razão de ser a dúvida. Compartilho dela. Dependendo da distância que se toma para observar o fenômeno, a canção faz parte do reino da literatura, ou ao menos é vizinho. Ambos são artes da palavra, e por aí a literatura e a canção são aparentadas também do teatro, da ópera, da tirinha, das histórias em quadrinhos, tudo isso e mais alguma coisa. Mas não dá pra esquecer que, a despeito dessa afinidade, a canção é simultaneamente uma arte dos sons e ritmos. Ela só existe na medida em que é as duas coisas, equilibra uma na outra, a outra na uma, e vai levando. (A imagem do equilíbro foi formulada por um excelente pensador da canção, Luiz Tatit, por sinal também cancionista.) Kleiton e Kledir se propuseram uma nova viagem, dentro desse território das artes da palavra, ou então, se quisermos, entre duas províncias desse território, a província da canção e a da literatura de livro. Resolveram inventar um percurso novo: não se tratava de pedir letras, poemas, trechos prontos de texto, para escritores e, então, compor melodia, inventar harmonia, propor instrumentos para acompanhar. O que passou pela cabeça dos irmãos era convidar escritores de livros para compor canções junto com eles. Nada óbvio, como se vê. Uma coisa é o carinha pegar um poema, um trecho de texto, e brincar com ele, tentando encontrar aquele equilíbrio entre letra e melodia. Nem era o caso oposto, oferecer uma melodia para os escritores inventarem alguma letra que ali coubesse, que ali se equilibrasse. Essas duas modalidades de composição de canções funcionam, e há casos muito bem sucedidos, no Brasil e fora dele. Mas era outra onda, outro caminho. Os irmãos queriam se acercar de escritores, especificamente escritores gaúchos pela afinidade óbvia, mas também por outro motivo, que adiante explico, para compor com eles. O tempo todo, desde o começo, ao lado de cada um dos escritores convidados. Corte para uma cena concreta. Certo dia, meados de 2013, recebo um recado do Vitor Ramil: o Kledir queria conversar comigo, para um projeto. Sim, claro, passa meus contatos para ele. E tu sabes o que é, de que se trata? Não, o Vitor não sabia. Alguns dias mais tarde, era o inverno ainda, recebo o honroso telefonema anunciado. O Kledir queria uma conversa ao vivo, tinha uma ideia e queria saber se eu topava ajudar. Claro que sim, respondi. E marcamos uma conversa para o mesmo dia; por facilidade geral, numa área de alimentação de um shopping. E lá, enquanto o Kledir comia uma massa (sem carne, que ele não come, já contei), comecei a saber das intenções. Queriam, ele e o

5 Kleiton, que eu os ajudasse na conversa inicial com alguns escritores do Rio Grande do Sul queriam fazer um disco, que seria um dvd e um show e uma turnê, sabe-se lá mais o quê, nesse novo projeto que se abria. Fiz as perguntas que me ocorreram (iam pedir poemas aos escritores? iam levar melodias para eles?), mas mais que tudo saudei a ideia. Ali estava algo realmente original, no mundo das artes da palavra. Mundo que tem já no Brasil uma história respeitável, tanto na canção quanto nas várias modalidades de literatura de livro, mundo no qual, portanto, não se produzem novidades assim no mais. Aqui explico o outro motivo da força dessa ideia. Mas preciso de um tempo para botar de pé a explicação. Mais um mate? Ali está a literatura, no sentido tradicional dessa palavra: os livros, os romances, os leitores, os poemas, etc. Desse lado, o Rio Grande do Sul tem experiência forte e, em termos brasileiros e sul-americanos, bastante profunda. Sem ir muito longe na descrição, veja-se que no estado gaúcho floresceram escritores de excelente qualidade, como Simões Lopes Neto e Erico Verissimo, mas mais que isso costuma existir uma forte ligação entre os escritores, grandes ou não, e o público leitor. Espera, não é óbvio isso: não é toda parte, cá na América do Sul, e particularmente cá no Brasil, que conta com um circuito forte, estável e em constante renovação, em matéria de produção e leitura de autores do próprio estado, da própria região. Por que isso? Literatura, no Rio Grande do Sul, rima com sonho de autonomia: subproduto culto da desejada e derrotada República do Piratini, a cultura letrada entre nós se encarregou de veicular uma variedade de interpretações desse sonho, dessa utopia, que tendo morrido na vida real ganhou a força dos desejos reprimidos, para o bem e para o mal. Rima também com outros fatores. Terra de governos republicanos de certa radicalidade, a palavra escrita tem prestígio na escola. Região fria, é propícia para o recolhimento que dá ensejo à leitura e à reflexão. Província que acolheu imigrantes europeus que prestigiavam a leitura e a escrita, o Rio Grande do Sul vê no escritor, assim como no professor, uma figura de relevo público. Assim, quando Kleiton e Kledir pensaram em se aproximar de escritores com o generoso projeto, estavam fazendo um gesto de reconhecimento dessa antiga força. Mas tem o outro lado. Compor uma canção, tenho convicção disto, implica encontrar o ponto de mediação entre a fala e o canto (estou seguindo os passos do argumento de Luiz Tatit, acima citado). Sem esse ponto, a canção pode existir, claro, mas ela não terá a força da melhor tradição cancional brasileira. Foi justamente o encontro dessa mediação que permitiu a existência de Noel Rosa, de Lupicínio Rodrigues, de Chico Buarque, de Caetano Veloso, de Paulinho da Viola: a gente ouve o que eles compuseram e sabe, intimamente, que ali alguém está cantando uma fala, alguém extraiu da fala familiar alguns elementos-chave, estabilizou-os e, com isso, permitiu que todo mundo reconheça nesse canto a dicção, ou melhor, a entoação da vida. Por isso é que a canção é tão mais significativa quanto mais bem faz essa ponte entre a vida e a arte, entre a arte e a vida. Sendo isso uma verdade geral, como creio, segue-se uma dúvida, antes de voltar ao relato acima suspenso: a fala gaúcha, ou as falas gaúchas, encontraram já seus compositores ideais, tanto quanto, digamos, Noel Rosa encontrou para a fala classe-média carioca, Adoniram Barbosa idem para a fala de pobre paulistano? A resposta nos encaminha para o começo desta já longa conversa: para a fala gaúcha moderna urbana, que envolve algo do mundo rural e do folclore mas já é posterior à Bossa Nova, quem primeiro encontrou o ponto de mediação foram os Almôndegas, e em seguida a dupla Kleiton e Kledir. A nova ideia deles, assim, trazia desde sempre uma força por assim dizer histórica das mais expressivas. Tinha tudo para dar certo. Minha participação na história, assim, foi bastante simples e em todos os momentos muito agradável. Eles tinham um conjunto de escritores já em mente, e eu propus uns nomes de alguns outros, de vez em quando apresentando gente que os dois desconheciam pessoalmente mas de quem conheciam algo da obra. Listei traços da personalidade literária de uma série de escritores, pensando em abrangência: gente mais velha, gente mais nova; gente de escrita mais convencional, gente de ousadia formal; gente dedicada apenas ao mundo urbano contemporâneo, gente que frequenta temas do passado rural. (Ah, sim, esqueci de dizer: na hora zero da conversa toda, o Kledir contou que esse projeto tinha a ver com uma bela história do passado: desde os anos 70, Caio Fernando Abreu e Kledir mantiveram uma boa amizade, que se complementou com uma parceria, envolvendo em seguida o Kleiton, numa canção que leva o nome de Lixo e purpurina. Isso andou por conversas e cartas, por anos, e é a raiz de todo o projeto, agora completado. Foi esse caso que deu ao Kledir a certeza de que escritores de prosa poderiam ser excelentes parceiros em canções. A única pena é que o Caio não está mais aqui para ouvir e curtir.) Minhas sugestões, então, passaram a ser um acréscimo a essa pedra angular, a parceria com o Caio. E assim foi. Fiz contatos iniciais apresentando a ideia aos escritores. Quase todos aceitaram de primeira, mesmo quando reticentes. Em outras palavras, alguns me responderam usando um argumento forte para terem resistência como é que um escritor, no fim das contas um solitário, um praticante de uma arte fria, tramada e depois lida em esfera sempre individual e isolada, poderia se meter na composição de canções, para palco, para a estridência da performance, para o âmbito público que ela respira? O Kleiton e o Kledir, com a humildade dos sábios, entraram em campo, feito esse primeiro contato e estabelecida a hipótese de parceria. E o que aconteceu? Bem um último mate, agora?, o resultado está aqui, neste trabalho, que honra uma longa tradição, aliás, duas, a da literatura e a da canção, inventando uma síntese nova. Os dois irmãos conversaram, perguntaram, propuseram, ofereceram seu comprovado talento para uma aliança toda nova, toda promissora, toda bela. E saiu cada coisa... Luis Fernando Verissimo, Leticia Wierzschowski, Martha Medeiros, Lourenço Cazarré, Daniel Galera, Fabrício Carpinejar, Claudia Tajes, Alcy Cheuiche, Paulo Scott, mais o Caio F., todos e cada um com Kleiton e Kledir. O mundo entra em novos eixos, se espalha em nova geografia, quando a arte funciona. Nova síntese, almôndega inédita. Olha aí. Escuta aí. Coisa de Netuno em Libra Kleiton & Kledir Porto Alegre, anos 70. Caio Fernando Abreu lançando seus primeiros livros. Nós, Kleiton & Kledir, gravando nossos primeiros discos com Almôndegas. Foi nessa época que, entusiasmados, começamos a conversar sobre a ideia de fazer uma música em parceria. A vida nos levou para lugares diferentes, distantes, mas sempre que nos encontrávamos o assunto era o mesmo: E a nossa música? Anos 90. Caio estava lançando Ovelhas Negras e um dos textos do livro falava exatamente sobre o tema que queríamos retratar. Era o toque que faltava. Começamos a esboçar a melodia e Caio se dedicou a reescrever a ideia em forma de letra de música. Fomos trocando figurinhas e finalmente nasceu a canção que tínhamos passado mais de 20 anos tentando fazer. Lixo e Purpurina fala da nossa geração, nós os que nascemos com um trânsito de Netuno no signo de Libra. Uma geração que detonou com todos os tabus de comportamento e sonhou com um mundo de paz e amor. Caio foi embora e por muito tempo guardamos a música com carinho, sem saber muito bem o que fazer com ela. A ideia que surgiu foi este projeto. Com o auxílio luxuoso de Luís Augusto Fischer na curadoria, convidamos escritores contemporâneos - gaúchos como nós - e propusemos a eles o desafio de repetir a experiência do Caio: escrever versos para uma canção. O resultado é surpreendente. E original. Gente da palavra escrita escrevendo palavras para serem ouvidas. O processo foi mais ou menos o mesmo para todos. Um primeiro encontro para entender o gosto musical do escritor. A partir dessa referência, procuramos criar uma música que refletisse isso e enviamos para que escrevesse uma letra. Em geral, na medida em que foram chegando os textos, foi preciso fazer um trabalho de lapidação para poder encaixar as letras na melodia, segundo as regras da canção popular: métrica, prosódia e rima. Processo delicado, pois tínhamos consciência de que estávamos mexendo com pedras preciosas. Surgiram temas variados, personagens raros, histórias únicas. Martha Medeiros, que já foi diagnosticada como portadora de felicidade crônica, escreveu sobre tomar a iniciativa e determinou: É hoje que eu sou feliz!. Claudia Tajes imaginou uma história de amor com começo, meio e fim que durava apenas uma noite. Fabrício Carpinejar inventou um personagem atrapalhado, sufocado por tanta felicidade, cansado de ser feliz. Alcy Cheuiche escreveu versos escancarados em que um pai abençoa a relação de amor de sua filha com outra mulher. Leticia Wierzchowski enxergou seu reflexo no próprio filho, através da paixão comum pela natação. Retratos originais das famílias do nosso tempo. Lourenço Cazarré, pelotense como nós, trouxe à tona lembranças de infância com mistérios, fantasmas, loucos de rua e molecagens sem fim. Histórias que certamente caberiam dentro do bule monstro que ficava pendurado na fachada de uma loja, na esquina da Sete com a Andrade Neves. Paulo Scott escreveu sobre um cara que tenta estabelecer as bases de um novo relacionamento, com os encontros e desencontros que fazem parte do dia a dia. Sua paixão pelo hip-hop transbordou os limites dos versos cantados e surgiu também um texto falado, próprio do ritmo e poesia. Com Daniel Galera foi um pouco diferente. Partimos de alguns esboços musicais que ele havia criado e inventamos uma melodia para um deles, Ventotto Spazzolini da Denti. O título em italiano remetia a um antigo conto que ele havia escrito, em que um casal briga por causa de uma escova de dentes. Na letra, por fim, entrelaçando ainda mais os universos de música e literatura, Galera reconta a história da briga do casal, agora ambientada no verão escaldante de 2014 em Porto Alegre. Luis Fernando Verissimo, por sua vez, entrou por um olho mágico e descobriu que há um outro mundo por trás desse que se vê. Uma viagem lírica, uma revelação, um olhar poético e iluminado sobre as entrelinhas da natureza humana. Alguns autores sugeriram musicarmos poesias que já estavam prontas, mas insistimos com a ideia de que deveriam escrever palavras para serem ouvidas. Foi um enorme desafio. Como diz Verissimo em seu depoimento, escrever letra de música é outra coisa. Somos agradecidos a todos pela coragem e generosidade de aceitarem participar dessa aventura. A contribuição que trouxeram é inestimável. São escritores que dominam com talento a prosa de ficção e abriram mão da segurança para participar de um vôo no escuro, sem rede. Ou melhor, uma rede frágil sustentada por dois guris do interior do Rio Grande que sempre gostaram de ler e cantar. Compor com estes autores que tanto admiramos foi um privilégio. Estamos muito felizes. Caio deve estar sorrindo.

6 lixo e purpurina CAIO FERNANDO ABREU gabriel meave méxico felizes para sempre CLAUDIA TAJES volnei matté brasil olho mágico LUIS FERNANDO VERiSSIMO cláudio gil brasil piscina LETICIA WIERZCHOWSKI alexandre salomon brasil vinte e oito escovas de dente DANIEL GALERA Roberto de Vicq de Cumptich estados unidos pingos nos is MARTHA MEDEIROS fiz com giz juliana zarattini + marina rosso brasil lado a lado alcy cheuiche alejandro paul argentina cansado de ser feliz fabrício carpinejar jaime de albarracín peru mistérios do bule monstro lourenço cazarré joão brandão portugal rochas paulo scott guilherme menga brasil

7 Kleiton Ramil / Kledir Ramil / Caio Fernando Abreu arte Gabriel Meave

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9 arte Volnei Matté Kleiton Ramil / Kledir Ramil / Claudia Tajes

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11 Kleiton Ramil / Kledir Ramil / Luis Fernando Verissimo arte Cláudio Gil

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13 eu sou jovem outra vez o tempo em mim é sempre assim renasce ao sol das manhãs Kleiton Ramil / Kledir Ramil / Leticia Wierzchowski a água em ti renova em mim braços e mãos nas manhãs quando te olho me vejo em ti a água e o tempo fluindo em mim outra vez eu sou jovem outra vez eu inocente vencendo em ti a vida inteira fluindo em mim outra vez arte Alexandre Salomon

14 e na água, na água, na água que dança entre os dedos eu sei que vou e na água, na água, na água o teu riso revela o que eu sei que sou e na água, na água, na água que dança em teu corpo eu sei que vou e na água, na água, na água o teu brilho reflete e eu sei quem sou

15 Kleiton Ramil / Kledir Ramil / Daniel Galera arte Roberto de Vicq de Cumptich

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17 Kleiton Ramil / Kledir Ramil / Martha Medeiros arte Fiz com Giz Juliana Zarattini + Marina Rosso

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19 Kleiton Ramil / Kledir Ramil / Alcy Cheuiche arte Alejandro Paul

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21 Kleiton Ramil / Kledir Ramil / Fabrício Carpinejar arte Jaime de Albarracín

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23 arte João Brandão Kleiton Ramil / Kledir Ramil / Lourenço Cazarré

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25 Kleiton Ramil / Kledir Ramil / Paulo Scott arte Guilherme Menga

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27 Caio Fernando Abreu

28 Luis Fernando Verissimo Claudia Tajes Vou falar não só pelos gaúchos, mas também pelos demais povos: é difícil encontrar um vivente que não tenha alguma ligação com a música dos ilustríssimos Kleiton & Kledir. Pode ser pelo começo inesquecível nos Almôndegas (nome de banda sensacional), pode ser porque, depois que saíram em carreira solo, ou melhor, duplamente solo, os dois nunca mais pararam de criar sucessos. Importante: não sucessos vazios, desses com melodia pobre e letra indigente - como virou moda pelo mundo -, mas música de verdade, trabalhada na letra e na harmonia, coisa cada vez mais rara de se ouvir. Por essas e muitas outras, o convite para participar do projeto Com todas as letras foi uma grande honra. Nunca cometi uma poesia, nada sei de prosódia, minhas rimas são capengas. Tudo isso, claro, até o texto cair nas mãos do Kleiton e do Kledir e virar uma delicadeza para escutar. O processo todo foi bem complicado. Rabiscada a letra, era preciso experimentar, construir, tentar. E dê-lhe desencontros. Quando K&K estavam em Porto Alegre, eu sumia. No fim das contas, os s e telefonemas acabaram substituindo as tardes que deveríamos ter passado juntos e ao vivo. Pela generosa paciência e pela fina parceria, meus mais sinceros aplausos. E de pé. Letra de música não é prosa nem poesia, é outra coisa. Não me perguntem que outra coisa é essa, passei muito tempo depois que o Kledir me pediu uma letra tentando descobrir como se fazia. Consegui, finalmente, mas não sei o que fiz. A experiência só aumentou minha admiração pela dupla K&K e outros letristas como o Vinicius, o Chico, o Aldir Blanc, o Caetano e outros mestres da outra coisa. Poesia pode ser musicada, claro. Em Nova York vi um espetáculo extraordinário, a cantora e atriz Audra McDonald interpretando Billie Holiday e cantando, entre outras músicas, numa imitação perfeita, Strange fruit, canção que nasceu como um poema de protesto contra o racismo no Sul dos Estados Unidos, inspirado na imagem de corpos de negros linchados pendendo de árvores como frutos estranhos. Há outros exemplos de poemas que viraram música, mas acho que a tese se sustenta. Letra é outra coisa. Leticia Wierzchowski Os desafinados também têm um coração Se tivessem me perguntado qual dom eu gostaria de ter, lá na grande repartição das almas ainda não-encarnadas, eu teria dito que gostaria de saber cantar. Durante a adolescência, flertei com a música e, por fim, ganhei um violão dos meus pais. Fiz uns dois anos de aulas, mas o problema todo era que, quando chegava em casa, ao tocar para minha plateia ansiosa, ninguém reconhecia a música. O professor era um hábil diversionista, enganando-me quanto à minha total falta de ouvido e ao meu desafinamento atroz. Aquele mundo charmoso do "um banquinho e um violão" não era mesmo pra mim, e aposentei o instrumento que, anos depois, virou fetiche dos meus filhos pequenos. Depois, comecei a escrever, enveredando pela vida de personagens ficcionais com muito mais afinação do que pelas cordas do meu violão esquecido no quartinho de guardados. Mas sempre admirei o poder de passar uma ideia, um sentimento, com uma letra de música. A precisão cirúrgica de provocar uma emoção em poucos minutos, e o que deve ser a energia de gerar uma emoção coletiva, vendo as pessoas cantarem em coro uma música - nós, escritores, escrevemos na solidão, esperamos meses, talvez anos, que o livro seja publicado, e depois dá-lhe solidão de novo, enquanto o leitor, lá na sua casa inimaginada, lê o nosso livro e experimenta as suas próprias emoções. Tudo exige muito tempo, e muita solidão. E não vou mentir que desgosto... Mas então os guris do K&K vieram com esta ideia de fazer música com escritor. Eles vieram com a sua alegria - não existe baixo astral com esses dois - e foram pacientes com os meus medos, com a minha timidez escorregadia e com as minhas pequenas e inúmeras bobagens - e então, dessas paciências todas, mais um pouco de cloro e tardes de sol, outro tanto de humor e de boas conversas, pois mate não teve, já que sou uma gaúcha de araque, foi que nasceu Piscina.

29 Martha Medeiros O que é que eu posso te dizer? E, antes de levantar-me para escrever a sequência, vi nitidamente o quadro Mademoiselle Outros músicos já adaptaram poemas meus, porém num processo que nunca exigiu grande envolvimento: eu cedia os versos e eles voltavam com a canção pronta. Mas com a dupla dinâmica K&K, logo vi que não seria essa Gachet, um dos últimos pintados por Van Gogh; só que, em lugar de uma jovem, enxerguei duas naquele jardim. O que aconteceu, a seguir, é de total responsabilidade do talento geminado dos meus queridos irmãos. moleza: eles me fizeram colocar a mão na massa, pediram referências dos meus sons preferidos, me estimularam Fabrício Carpinejar Daniel Galera Pouca gente sabe, até porque não faço questão de comentar, mas tentei ser músico antes de escrever. Tinha catorze anos quando comecei a ter aulas de violão clássico e popular, e minha ambição, além de tocar em rodinhas nas viagem de colégio, era compor. Até aprendi a tocar direitinho, mas esbarrei numa dificuldade enorme, e finalmente intransponível, para escrever letras para as minhas músicas. A canção, como a poesia, não estava a meu alcance. Algum tempo depois encontrei minha vocação na prosa de ficção e segui tocando violão apenas como hobby, até esquecer o assunto. a palpitar à vontade durante a adaptação da letra. Moça obediente, segui todas as instruções e acabei recebendo, em troca, momentos que costumam ser incluídos na série me belisca. Entre eles, audições privadas em pleno sofá da minha sala. Os guris cantaram, compuseram e se divertiram com a farra da criação. Show privado. Foi quando a escritora aqui abandonou o papel de coautora e voltou a ser apenas a fã de sempre, aquela que escutava no rádio sucessos como Deu pra ti e Nem pensar e que nem em sonhos imaginava que um dia iria partilhar dessa intimidade, virando amiga dos caras. Pois virei, viramos e outras histórias virão. Este é apenas o primeiro entre muitos pingos nos is que espalharemos por aí. Alcy Cheuiche Nossa canção nasceu após algumas horas de um encontro memorável. Foi aqui onde moro, na parte alta de Porto Alegre, onde um dia giraram os moinhos de vento, que recebi a visita dos irmãos Kleiton e Kledir. A missão: sintonizarmos nosso processo criativo, antes de colocar esse mecanismo misterioso Quando fui convidado para compor com Kleiton e Kledir, fingi que não era nada. Juro, tratei como se não fosse nada. Para evitar colapso nervoso. Fiz de conta que não era a dupla que fez meu coração nos anos 80, quando era adolescente, e que me inspirou a escrever descaradamente de Porto Alegre e jamais disfarçar o "tu" gritado. Tratei como se fosse um convite para correr com um amigo ou para tomar uma cerva num bar qualquer. Algo singelo. Eu evitei transmitir o meu contentamento de piá. Forjei voz de adulto, sério e espaçado, imitando desinteresse. Falseei de tão emocionado. Agüentei bonito até criar a letra com eles. Daí foi um deus me acuda, um deus dará, a admiração virou amizade, dei vexame, falei o que Por isso o convite para compor uma canção em parceria com o em funcionamento. não devia e me emocionei como nunca imaginei. Kleiton e o Kledir me pareceu não apenas uma ideia estimulante, Sem compromisso com nenhum tema, começamos falando da mas uma chance de aprendizado. Eles souberam adaptar o grande exposição dos quadros de Van Gogh no Museu d Orsay (eu método de trabalho aos meus potenciais e limitações. chegara havia poucos dias de Paris) e saboreamos nossa admiração Como ponto de partida, aproveitamos uma pequena pelo pintor. Depois, contei da minha chegada à França, como jovem composição instrumental que gravei no computador em 2003 e o estudante, exatamente no dia em que Edith Piaf morreu. Trocamos tema de um dos meus primeiros contos publicados, "Intimidade". opiniões sobre ela, sua voz e interpretação incomparáveis, e os Rascunhei os primeiros versos, incorporando elementos novos grandes cantores que revelou: Charles Aznavour e Yves Montand. que situavam a situação vivida pelo casal de personagens no Kleiton recordou uma linda canção que compôs em Paris. Kledir escaldante e pós-apocalíptico verão porto-alegrense de A juntou em palavras todas aquelas imagens que nos encantam, letra foi retrabalhada várias vezes. Nos encontros presenciais, abrindo o caminho que iríamos percorrer. Depois, fizemos um selfie desdobramos os acordes e melodias iniciais em algo novo e mais para registrar a alegria de estarmos juntos, e eles me deixaram com complexo, moldado pelo cativante estilo sonoro da dupla. a missão de escrever a letra... Escutar as primeiras versões foi como conhecer um fragmento Na madrugada do dia seguinte, me acordei com os dois perdido de um caminho que eu próprio, sozinho, não pude seguir. primeiros versos que nasciam: Se tu gostas dela, minha bela /

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