A RECUPERAÇÃO DA PRODUÇÃO DO ALGODÃO NO BRASIL. Joffre Kouri (Embrapa Algodão / Robério F. dos Santos (Embrapa Algodão)

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1 A RECUPERAÇÃO DA PRODUÇÃO DO ALGODÃO NO BRASIL Joffre Kouri (Embrapa Algodão / Robério F. dos Santos (Embrapa Algodão) RESUMO - Graças a incentivos fiscais, ao profissionalismo de grandes produtores e aos investimentos em pesquisas, o agronegócio do algodão no Brasil tem dado sinais de avanços nos últimos anos. Diante das conquista observadas, objetivou-se neste trabalho analisar a recuperação da produção do algodão no Brasil observando sua magnitude, dinâmica e potencialidades. A partir de dados básicos publicados pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (1991 a 2006, 2007) e pela Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) (2006, 2007), além de informações obtidas em levantamento bibliográfico constatou-se que houve uma forte recuperação da produção do algodão no Brasil e que em pouco mais de uma década a cultura do algodão se consolidou na agricultura dos cerrados brasileiros, especialmente das regiões Centro Oeste e Oeste da Bahia. Com a recuperação da produção nacional constatou-se também que o Brasil está no quinto ano de exportações em quantidades significativas de algodão em pluma para o mercado externo. Palavras-chave: cotonicultura brasileira, agricultura dos cerrados. INTRODUÇÃO Durante toda a história do Brasil o algodão se fez presente como uma cultura de exportação, tendo piques de retomadas de crescimento sempre que havia problemas na produção norte-americana, como durante sua Guerra de Independência, sua Guerra de Secessão e durante as grandes Guerras Mundiais (MENDONÇA, 1973; TAKEYA, 1985). Somente a partir de 1890, com o crescimento e consolidação da Indústria têxtil no Brasil, é que a produção nacional se torna firme e crescente, com o algodão assumindo a condição de principal cultura agrícola dos estados nordestinos (TAKEYA, 1985), produzindo de 10 a 20 % de excedentes para exportação e tornando o Brasil um dos principais produtores e exportadores do mundo (BELTRÃO, 1996). A partir da década de 1970, mesmo baseados na pequena agricultura familiar, os estados de São Paulo e Paraná, também, se tornaram importantes produtores de algodão. Essa produção concorria pouco com a existente no Nordeste e a maioria dos casos eram complementares, promovendo o abastecimento regionalizado da demanda têxtil do parque industrial instalado e gerando excedentes exportáveis. O Brasil chegou a ter 3,5 milhões de hectares de algodão plantados na safra 1973/1974, sendo a maior parte cultivada com algodão arbóreo. Dadas as dificuldades ecológicas em que a cultura era cultivada e a falta de adoção de tecnologias apropriadas, a produtividade se situava em torno de 150kg/ha de algodão em caroço, muito baixa e sem competitividade. Destaque-se que na safra 1973/1974, o algodão herbáceo, com maior produtividade, já ocupava uma área de mais de 1,700 mil hectares, produzindo 844 kg/ha de algodão em caroço, com produção total de aproximadamente 522 mil toneladas de algodão em pluma (IBGE, 1977). No Nordeste, o algodão herbáceo foi cultivado em 809,1 mil hectares na safra 1973/1974, ocasião em que a Bahia contribuiu com 37% da área plantada, especialmente na zona produtora da

2 região de Guanambi (IBGE, 1977). Essa produção era feita em moldes tradicionais, no âmbito da agricultura familiar, baseada em pequena escala de produção e baixo padrão tecnológico. Mesmo sendo baixo o padrão tecnológico, o cultivo do algodoeiro no Nordeste sempre teve papel de grande relevância, tanto como cultura de reconhecida adaptabilidade às condições edafoclimáticas da região, como fator fixador de mão-de-obra, gerador de emprego e de matéria prima indispensável ao desenvolvimento regional e nacional. No início da década de 1980, porém, diversos problemas concorreram para provocar uma crise na produção algodoeira no Nordeste, sobressaindo-se o tradicionalismo da estrutura de produção, a incapacidade de convivência com o bicudo (Anthonomus grandis Boheman) e a política agrícola do Governo Federal que inviabilizava economicamente a cultura. O Governo Federal proibiu a exportação de pluma para garantir o abastecimento interno, porém facilitou a importação de fibras subsidiadas do exterior. Havia facilidades creditícias para importação de algodão do exterior, com longos prazos de pagamento. Os preços internos pagos aos produtores caíram e não podiam acompanhar a elevação de custo pelo surgimento da praga emergente, o bicudo. A estrutura de custos da cadeia de produção, com base na agricultura familiar, já não se adequava para a nova realidade da globalização da economia. Assim, foi desmontada a produção de algodão que existia no Nordeste e inviabilizada a cotonicultura familiar no Sudeste. Com o desmantelamento da cadeia produtiva do algodão nessas regiões, o Brasil passou da condição de um dos maiores exportadores de algodão para a de maior importador. Entretanto, a necessidade de uma cultura rentável e de valor agregado compatível financeiramente com a sucessão da soja, transformou os cerrados brasileiros, especialmente no Centro-Oeste e Oeste do Estado da Bahia, na nova fronteira agrícola do país também na produção de algodão. Graças a incentivos fiscais, ao profissionalismo de grandes produtores e aos investimentos em pesquisas, em pouco mais de uma década a cultura do algodão se consolidou na agricultura dos cerrados brasileiros. A analise da recuperação da produção do algodão no Brasil nos últimos anos observando sua magnitude, dinâmica e potencialidades é o objetivo neste trabalho. MATERIAL E MÉTODOS A análise da recuperação da produção do algodão no Brasil foi realizado a partir de dados básicos publicados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (1991 a 2006, 2007) e pela Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) (2006, 2007), além de informações obtidas em levantamento bibliográfico. Recuperação da produção nacional RESULTADOS E DISCUSSÃO Paralelamente à crise que afetou pesadamente as regiões produtoras do Nordeste e Sudeste, a cotonicultura nacional ia sendo redesenhada. Em oposição ao abandono da cultura pelos pequenos e médios produtores das regiões tradicionais, grandes produtores do Centro Oeste e Oeste do Estado da Bahia encontraram no algodão uma alternativa extremamente rentável ao cultivo da soja. Assim, o algodoeiro tornou-se a nova vedete agrícola nacional e transformou os cerrados brasileiros na nova fronteira agrícola do país também na produção de algodão, com base na agricultura empresarial, com altos usos de tecnologia, capital, terras e produtividade, além de qualidade superior ou equivalente aos melhores algodões do mundo.

3 O deslocamento da cotonicultura para os cerrados e a recuperação da produção nacional podem ser considerados integrantes do processo de reformulação produtiva e gerencial, com o objetivo de modernização da atividade e de aumento da competitividade, imposto pela concorrência com a matéria-prima importada após a abertura comercial do início dos anos 90. Analisando-se os dados básicos do IBGE (2002 a 2006, 2007) pode-se constatar a recuperação da produção nacional de algodão ocorrida nos últimos anos. Verifica-se que a área colhida na safra 2002/2003 foi de 714 mil hectares, 6 % inferior a da safra 2001/2002. No entanto, a produção em 2002/2003 atingiu 2,230 milhões de toneladas de algodão em caroço (aproximadamente 892 mil toneladas de pluma), quantidade 3 % maior que a de 2001/2002. Esse resultado positivo no ano agrícola 2002/2003 deveu-se ao aumento de 9 % no rendimento médio das lavouras, que passou de kg por hectare de algodão em caroço na safra anterior para kg. Em 2004, a safra brasileira de algodão em caroço foi de 3,790 milhões de toneladas, superando em cerca de 70 % a safra anterior (aproximadamente 1,415 milhão de toneladas de algodão em pluma, ou seja, 523 mil toneladas a mais). O aumento de produção nessa safra resultou da grande expansão de área cultivada, que passou de 714,2 mil hectares na safra 2002/2003, para 1,146 milhão de hectares na safra 2003/2004 (aumento de 60 %). O rendimento médio também sofreu uma elevação de 6 %, passando de kg/ha para kg/ha. Em 2005, a safra brasileira manteve seus números próximos aos do ano anterior. A área colhida foi de 1,255 milhão de hectares e a produção de algodão em caroço de 3,661 milhões de toneladas (aproximadamente 1,364 milhão de toneladas de pluma). Em 2006, devido a problemas de mercado, houve uma acentuada queda em relação a 2005, tanto na área colhida ( hectares), quanto na produção que atingiu toneladas de algodão em caroço (aproximadamente 1,096 milhão de toneladas de pluma). Em todas essas safras, os principais estados produtores de algodão em áreas de cerrados contribuíram com mais de 80 % do total produzido (IBGE, 2002 a 2006, 2007). A expressividade da recuperação da cotonicultura brasileira fica evidenciada com o aumento do rendimento médio do algodão em caroço que, segundo dados do IBGE (1991 a 2006, 2007) passou de kg/ha em 1997/98 para kg/ha em 2003/04, kg/ha em 2004/2005 (uma pequena queda devido a problemas climáticos) e kg/ha em 2005/2006, considerando-se os principais estados produtores de algodão em áreas de cerrados (MT, GO e BA). Se for analisado o que ocorreu em Mato Grosso, verificar-se-á que o rendimento médio que era de kg/ha em 1990/91 alcançou kg/ha em 2003/04, kg/ha em 2004/2005 e kg/ha em 2005/2006, os maiores registrados para algodão de sequeiro no mundo. Com esses recordes de produção e produtividade alcançados, nos anos de 2004 e 2005, o Brasil se tornou o quinto maior produtor mundial, superando o Uzbequistão e ficando atrás apenas da China, Estado Unidos, Índia e Paquistão. Sua produtividade é a terceira maior do mundo, sendo superado apenas pela Austrália e pela Turquia dentre os grandes produtores, que produzem de 90 a 100 % do algodão em áreas irrigadas. Cerca de 60 % do algodão no mundo são cultivados em condições irrigadas, com potencial para produzir até kg/ha de pluma. O destaque do Brasil se deve à produtividade obtida na região dos Cerrados (superior a kg/ha de pluma) que é a maior do mundo em condições de sequeiro. O sistema de produção recomendado para os cerrados tem menor custo operacional por arroba na colheita e gera produtos de melhor qualidade. A integração produção-descaroçamento (próprio ou arrendado) agrega renda ao produto e permite a negociação direta da venda da fibra com a indústria e a obtenção de financiamento da produção por meio da venda antecipada. As produtividades obtidas são altas, com os melhores produtores colhendo médias superiores a de algodão em caroço, mesmo em condições de sequeiro. As altas produtividades compensam os elevados investimento na produção e o risco climático sempre presente. Cerca de 80 % dos custos são variáveis e, portanto, ajustáveis pela adoção de maior racionalidade no sistema (FERREIRA et al., 2005).

4 Além dos fatores tecnológicos, o bom desempenho da cultura do algodão nos últimos anos deveu-se, também, à melhoria do preço e ao aumento das exportações. O Brasil está no quinto ano de exportações em quantidades significativas de algodão em pluma para o mercado externo, principalmente China e Europa. Em 2002 foram exportadas 110 mil toneladas; no ano de mil; em 2004 os agricultores fecharam contratos para venda de 331 mil toneladas; em 2005 as exportações alcançaram 391 mil toneladas e em 2006 as exportações atingiram 305 mil toneladas (CONAB, 2006, 2007). Essa garantia de mercado foi o fator determinante para o aumento da produção via expansão da área colhida nos cerrados brasileiros. A despeito do deslocamento para os cerrados da produção primária da fibra de algodão, a indústria têxtil, por outro lado, tem se deslocado para o Nordeste. O Nordeste detêm o segundo maior parque industrial têxtil do Brasil, o qual passou a consumir, a partir de 1997, mais de 300 mil toneladas anuais de pluma, especialmente no Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. Na América Latina, apenas o México tem capacidade instalada maior do que a existente no Nordeste do Brasil, a qual vem sendo ampliada com a transferência de novas plantas industriais para essa região em razão do baixo preço da mão-de-obra local. Em Campina Grande, PB está localizada a maior fiadora do mundo, pertencente ao grupo Coteminas, empresa que vem investindo fortemente também no Rio Grande do Norte, Minas Gerais e outros estados. A pluma consumida nessa indústria (mais de 23 mil toneladas só no Rio Grande o Norte) é quase toda proveniente do oeste da Bahia e de outras regiões brasileiras. Vale ressaltar que o transporte dessa matéria-prima até à indústria tem enfrentado transtornos devido às más condições das estradas, às longas distâncias percorridas e ao elevado custo do transporte rodoviário no Brasil (FERREIRA et al., 2005). Com relação à produção primária da fibra de algodão na região Nordeste, o algodoeiro é considerado a mais tradicional das culturas do semi-árido, havendo na região crescentes estoques de conhecimentos e tecnologias desenvolvidas para o seu cultivo, como é o caso do algodão naturalmente colorido, desenvolvido pela Embrapa Algodão e parceiros para atender um nicho de mercado para a agricultura familiar nordestina. A cadeia produtiva do algodão naturalmente colorido ainda está em desenvolvimento, mas as confecções produzidas por pequenos tecelões já são, em sua grande maioria, exportadas para a Europa. Existe uma grande quantidade de produtores tradicionais de algodão que podem ser motivados com políticas para a revitalização da produção do algodão branco e para o atendimento da demanda crescente do algodão naturalmente colorido. É hora, pois, de se adotarem medidas em conjunto com vistas ao fortalecimento de todos os elos da cadeia produtiva do algodão no Nordeste semi-árido e, nesse contexto, devem os agricultores se organizarem em defesa de seus direitos e os governantes adotarem mecanismos de incentivo à produção. O algodão é uma cultura de alta rentabilidade e de imensas possibilidades para o Brasil, tanto para o cultivo de sequeiro como para o irrigado, que poderá avançar paulatinamente e levar o País a ganhar posições entre os quatro maiores produtores de fibras do mundo, hoje representados pela China, EUA, Índia e Paquistão. Isso será factível caso as reduções nos subsídios à produção nos Estados Unidos sejam executadas em concomitância com o determinado pela Organização Mundial do Comércio e a demanda mundial cresça a taxas acima dos 2,49 % a.a., observadas nos últimos cinco anos. A competitividade do algodão e da cadeia têxtil brasileira está entre as melhores do mundo (FERREIRA et al., 2005). CONCLUSÕES Neste trabalho constatou-se que houve uma forte recuperação da produção do algodão no Brasil e que em pouco mais de uma década a cultura consolidou-se na agricultura dos cerrados brasileiros, especialmente das regiões Centro Oeste e Oeste da Bahia. Destacou-se a expressividade da recuperação da cotonicultura brasileira, evidenciada com o aumento do rendimento médio do algodão em caroço que passou de kg/ha em 1997/98 para kg/ha em 2003/04, kg/ha

5 em 2004/2005 e kg/ha em 2005/2006, considerando-se os principais estados produtores de algodão em áreas de cerrados (MT, GO e BA). Verificou-se que, especialmente em Mato Grosso, principal Estado produtor, o rendimento médio que era de kg/ha em 1990/91 alcançou kg/ha em 2003/04, kg/ha em 2004/2005 e kg/ha em 2005/2006, os maiores registrados para algodão de sequeiro no mundo. Com a recuperação da produção nacional constatou-se também que o Brasil está no quinto ano de exportações em quantidades significativas de algodão em pluma para o mercado externo. É hora de avançar e se consolidar no mercado mundial, mantendo e ampliando sua participação, competindo de igual para igual com os grandes fornecedores. Competência, tecnologia, custos competitivos e produto de qualidade o País tem para isso. CONTRIBUIÇÃO PRÁTICA E CIENTÍFICA DO TRABALHO Com este trabalho, pretende-se contribuir para a compreensão da magnitude, dinâmica e potencialidades da produção do algodão no Brasil. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BELTRÃO, N.E. de M. Informações sobre o algodão no Brasil: situação, problemas, perspectivas e possíveis soluções. Campina Grande: CNPA-Embrapa, p (Embrapa-CNPA. Documentos, 48). CONAB (Brasília, DF). Indicadores da agropecuária. Brasília, CONAB. Indicadores da agropecuária. Brasília, Disponível em: Acesso em fev FERREIRA, G.B.; KOURI, J.; FERREIRA, M.M.M. O estado atual do agronegócio do algodão no Brasil: histórico, situação atual e perspectiva de expansão, especialmente no Nordeste. Campina Grande, PB: Embrapa Algodão, p (Embrapa Algodão. Documentos, 143). IBGE. Levantamento Sistemático da Produção Agrícola. Rio de Janeiro, 2002/2006. IBGE. Levantamento Sistemático da Produção Agrícola. Rio de Janeiro, 1991/2006. IBGE. Levantamento Sistemático da Produção Agrícola. Disponível em: Acesso em: fev MENDONÇA, E.R. de. Manual do produtor e do beneficiador do algodão. Brasília: Nacional, p. TAKEYA, D.M. Um outro nordeste: o algodão na economia do Rio Grande do Norte ( ). Fortaleza: BNB/ETENE, p (BNB/ETENE.Documentos do Nordeste, 4).

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