Martin Heidegger, La Question de la Technique, in Essais et Conférences, Paris, Éd. Gallimard,

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1 1 PREFÁCIO O objectivo destas páginas é o de apresentar, de maneira acessível e resumida, as principais técnicas da comunicação e da informação, que constituem, em conjunto, um dos domínios que mais directamente têm contribuído para as mudanças que, ao longo das últimas décadas, têm interferido, de maneira por vezes inesperada, na nossa experiência do mundo. Tratando-se, no entanto, de um domínio particularmente complexo e muitas vezes confuso, senti necessidade de começar por esclarecer algumas questões prévias acerca dos objectivos específicos deste livro. Os especialistas não encontrarão provavelmente nestas páginas grandes novidades. De facto, não pretendi escrever uma obra original, mas compilar, num texto seguido, todo um conjunto de dados e de reflexões indispensáveis para a compreensão das transformações técnicas mais importantes que têm ocorrido, nas últimas décadas, no domínio da informação. As mudanças mais recentes inserem-se, no entanto, na continuidade de um longo percurso que senti também necessidade de descrever brevemente, de maneira a melhor situá-las no seu contexto alargado. Pelo facto de esses dados e de essas reflexões estarem dispersos por inúmeras obras de difícil acesso para a maioria das pessoas, nem sempre é possível obter a visão de conjunto indispensável à compreensão da globalidade e do sentido das transformações, que, sem por vezes nos darmos conta, afectam de maneira decisiva a nossa vida quotidiana. É essa visão de conjunto que, neste livro, pretendi formular e oferecer aos leitores mais atentos e interessados. 11

2 Admito facilmente que o tratamento de cada uma das técnicas da comunicação e da informação que são apresentadas neste livro é muito parcial. De facto, os limites impostos à dimensão deste livro, assim como a diversidade e a complexidade das técnicas e das questões apresentadas, impunham escolhas, muitas vezes drásticas, que tentei ponderar. A leitura deste livro não substitui, por conseguinte, a consulta de trabalhos mais especializados e complementares, para os quais o leitor é remetido, no final de cada capítulo. Essa consulta poderá ajudar o leitor a situar com mais precisão e desenvolvimento as questões aqui abordadas. Mas este livro levanta questões sobre as quais não poderei deixar de me demorar um pouco mais. O leitor poderá, com toda a razão, considerar redutora a abordagem histórica das técnicas da comunicação e da informação que aqui proponho. De facto, a comunicação não é uma questão técnica, entendida como um mero conjunto de dispositivos. Não é apenas um conjunto de instrumentos de que lançamos mão para atingirmos determinados objectivos. É, antes, uma dimensão fundamental e constitutiva da própria experiência humana. Compreende a interacção, tanto dos indivíduos como das comunidades humanas, com o mundo natural, com os outros homens e com as outras comunidades humanas, interacção indispensável para a própria sobrevivência, quer do ser humano, considerado como indivíduo ou como espécie, quer das comunidades culturais. Seria, no entanto, uma concepção idealista, igualmente redutora, o esquecimento da dimensão técnica da comunicação. Como sublinhava Heidegger, «a essência da técnica não é nada de técnico» l, e Simondon insistiu na natureza transductiva da relação entre o homem e a técnica, isto é, na indissociabilidade da relação do humano com a dimensão técnica, na recíproca relação constitutiva destes dois termos 2. Como teremos ocasião de mostrar, a técnica é o devir do homem, a realização e a exteriorização da sua própria natureza, a maneira como o homem, pelo facto de existir como um ser dotado de consciência da sua historicidade, da sua finitude e da sua mortalidade, empreende a realização de substitutos artificiais que sobrevivem à sua própria existência temporal. 1 Martin Heidegger, La Question de la Technique, in Essais et Conférences, Paris, Éd. Gallimard, Cf. Gilbert Simondon, Du Mode d Existence des Objets Techniques, Paris, Éd. Aubier-Montaigne, 1994, 2. a ed. 12

3 Tal como qualquer outra dimensão da experiência, também o domínio da comunicação possui, por conseguinte, a sua própria tecnicidade, entendida como conjunto dos modos de fazer próprios a cada cultura, inventados e apropriados, ao longo da História, pelas sucessivas gerações 3. É, por isso, com inteira legitimidade, que proponho aqui uma abordagem histórica da dimensão técnica da comunicação, entendida no sentido que, no próximo capítulo, me esforçarei por esclarecer. Antes, porém, de definir o que entendo aqui por técnicas da comunicação e da informação, desejaria ainda mostrar que, ao aceitar a realização deste trabalho, estava plenamente consciente dos desafios e dos riscos que ele envolve. As dificuldades começam logo com a própria delimitação do âmbito do trabalho. Pela sua natureza fundadora, a comunicação não se reduz a um conjunto de objectos ou de práticas bem delimitados e diferenciados: abarca todos os domínios de interacção do homem com as diferentes dimensões da experiência, tanto do mundo natural como do mundo da sociabilidade. Compreende, portanto, os domínios da linguagem e da gestualidade, assim como os diversos dispositivos técnicos inventados, ao longo da História, pelas diferentes culturas. Por técnicas da comunicação devemos, portanto, entender mais uma perspectiva do humano do que um objecto da experiência claramente delimitado. A delimitação do âmbito deste trabalho torna-se ainda mais complexa se tivermos em conta que cada uma das técnicas da comunicação e da informação contamina e é contaminada pelas outras, dando origem a modalidades complexas de comunicação. Poderíamos ser levados a pensar que esta contaminação se dá apenas nos mais modernos dispositivos técnicos da informação multimédia, nos quais intervêm, em simultâneo, o grafismo, o discurso verbal, a escrita, a imagem, a fotografia, o cinema, a televisão, a informática. Mas, se nos lembrarmos de que o próprio discurso oral, que os homens utilizaram, desde sempre, espontaneamente, nas relações que estabelecem diariamente com os seus semelhantes, é ele próprio constituído por uma complexa simbiose de linguagem verbal, de gestualidade, 3 Acerca desta noção de «modos de fazer», ver nomeadamente Michel de Certeau, L Invention du Quotidien, vol. 1. Arts de Faire, Paris, Union Générale d Éditions, 1980 (trad. portuguesa: Artes de Fazer. A Invenção do Quotidiano, Petrópolis, Ed. Vozes, 1984). 13

4 de imagens mentais, teremos de admitir que a contaminação entre diferentes modalidades de comunicação não é uma realidade recente nem uma excepção, mas a regra dos processos de interacção comunicacional de todos os tempos e de todas as culturas. Perante a riqueza e a complexidade dos processos comunicacionais, tive que fazer escolhas e, como sempre, escolher é selec cionar, eliminar, simplificar. Como a propósito de qualquer empreendimento humano, e muito especialmente acerca deste, alguns leitores terão, por conseguinte, toda a legitimidade para considerar as escolhas que fiz como injustas e redutoras. É por isso que não pretendi deixar aqui uma visão definitiva, esperando apenas que aquela que aqui deixo esboçada mereça que outros trabalhos, a partir de outros horizontes, a complementem e critiquem. Este livro é sobre técnicas da informação e da comunicação, termos que adquiriram nos últimos anos diversos sentidos, alguns deles contraditórios. Embora, na linguagem corrente, comunicação e informação sejam muitas vezes termos utilizados como sinónimos, designam realidades efectivamente diferentes, como facilmente poderemos averiguar. Assim, por exemplo, no «Bom dia!» que dirigimos a um vizinho ou a um familiar existe um autêntico e indiscutível acto de comunicação, a que damos o nome de saudação. E, no entanto, não se pode dizer que se trate de um acto de informação. Mas imaginemos que nos conseguimos pôr de acordo acerca da distinção entre o âmbito da comunicação e o âmbito da informação, dizendo, por um lado, que por informação se entende a transmissão de um saber entre alguém que é suposto possuí-lo e alguém que é suposto ignorá-lo e, por outro lado, que por comunicação se entende qualquer processo de estabelecimento de uma interacção social. Nem por isso as dificuldades desaparecem. Muitos processos de interacção social são actos complexos que possuem tanto um valor comunicacional como um valor informativo. O termo «informação» pode designar, ora um processo de transmissão de mensagens entre os membros de uma comunidade, ora as técnicas industriais de difusão de mensagens de massa no seio das sociedades modernas, ora um processo de tratamento informático de dados. No primeiro caso, as técnicas da informação existem desde os primórdios da humanidade, ao passo que, na segunda acepção, só passaram a existir na época moderna, e, na terceira acepção, só apareceram na segunda metade do século xx. 14

5 «Comunicação» não é um termo menos equívoco, sendo usado igualmente numa grande multiplicidade de sentidos. É algumas vezes utilizado para designar os processos através dos quais os seres vivos estabelecem com o meio ambiente relações de troca que lhes permitem manter e restabelecer o seu próprio equilíbrio, outras vezes tem o sentido das trocas de experiências entre homens que pertencem a uma mesma comunidade, outras vezes ainda designa os processos utilizados por uma comunidade humana para a criação, a inculcação, a manutenção e o restabelecimento de um conjunto de valores e de normas comuns, com vista à definição e à preservação da sua própria identidade. De acordo com a primeira acepção, a comunicação é abordada pela ecologia; na segunda acepção, é objecto de estudo das ciências da linguagem; e, na terceira acepção, é estudada pela antropologia cultural e pelos especialistas das instituições. Convém, portanto, esclarecer em que sentido vou tomar, neste trabalho, os termos «comunicação» e «informação». Nas páginas seguintes, por comunicação compreenderei o conjunto dos processos de interacção pelos quais os homens trocam entre si e põem em comum a sua experiência do mundo, utilizando sobretudo a linguagem. A informação compreenderá os diferentes processos utilizados para a transmissão de saberes. Mas, mesmo depois de clarificado o sentido e o âmbito dos termos «comunicação» e «informação», nem por isso a nossa tarefa fica completamente isenta de riscos e de dificuldades. Dado que os homens trocam entre si uma grande variedade e multiplicidade de experiências e utilizam uma grande variedade de linguagens, como seleccionar as informações e as linguagens mais significativas? De entre os variados processos de transmissão da informação, quais são os mais importantes, que deveremos reter e apresentar? Que saberes circulam através dos processos de informação? A resposta a estas questões pressupõe escolhas e implica inevitavelmente consequências que têm a ver com a nossa maneira particular de considerar a nossa experiência do mundo. Os domínios da informação e da comunicação têm vindo a ser recentemente objecto de profundas transformações, o que também está na origem de dificuldades. Se a comunicação e a informação das sociedades tradicionais são processos relativamente estruturados e indissociáveis, as transformações técnicas que têm vindo a ocorrer no mundo contemporâneo acarretaram uma progressiva autonomia 15

6 do domínio da informação em relação aos processos comunicacionais. Tornaram-se assim particularmente difíceis de estudar, uma vez que ainda não podemos contar com o longo trabalho da sedimentação que o tempo vai realizando e que se traduz na sua perspectivação e na decantação dos aspectos mais relevantes. De facto, o tempo não só ajuda a perspectivar a nossa experiência do mundo, pondo em relevo aquilo que é verdadeiramente importante e relativizando aquilo que acabará por não ter a mesma importância, mas também define retrospectivamente o sentido dos acontecimentos passados. Deste modo, num domínio marcado por inúmeras invenções recentes, como é o da informação, corremos o risco de pôr em relevo aspectos que o futuro acabará por secundarizar e esquecer outros que se revelarão fundamentais. Corremos ainda o risco de interpretar de maneira errada ou deturpada fenómenos que ainda não desvendaram completamente o seu sentido. A nossa época é caracterizada por um rápido desenvolvimento das técnicas da informação, o que tem contribuído para profundas transformações da nossa experiência, alterando não só a nossa percepção do mundo natural e do mundo das relações sociais, mas também os ritmos da nossa própria vida individual e colectiva. As transformações que, nos últimos cem anos, têm vindo a ocorrer no domínio da informação parecem incidir principalmente sobre aspectos técnicos. Mas a sua intervenção mais fundamental incide sobre as visões do mundo, acarretando mudanças, tanto nos domínios da política e da percepção da realidade como dos valores éticos e estéticos, levando inevitavelmente à redefinição das maneiras de organizar a vida colectiva, das normas, dos valores e do gosto. Pelo facto de serem ainda relativamente recentes, as técnicas da informação mediática são ainda relativamente pouco incorporadas na nossa experiência, prestando-se por isso a atitudes contraditórias pouco serenas, porque insuficientemente reflectidas. Às atitudes entusiásticas e tecnocráticas dos que encaram os recentes dispositivos mediáticos como a solução para os problemas da humanidade, contrapõem-se as atitudes tecnófobas dos que vêem na sua omnipresença uma arma mortífera e a fonte de todos os malefícios das sociedades contemporâneas. No fundo, tanto a atitude «integrada» dos primeiros como a atitude «apocalíptica» dos segundos, para utilizarmos a distinção consagrada por Umberto Eco 4, estão irmanadas pela 4 Ver Umberto Eco, Apocalípticos e Integrados, Lisboa, Ed. Difel,

7 mesma lógica redutora e primária do estranhamento perante o desconhecido que Gilbert Simondon assimilou a uma espécie de xenofobismo 5. Com este livro, pretendo contribuir para a ultrapassagem destas visões redutoras, propondo antes uma via de discernimento, a partir da consideração das actuais transformações tecnológicas como produto do engenho humano, à semelhança dos empreendimentos civilizacionais do passado. Pretendi consagrar o próximo capítulo à formulação dos princípios que visam a ultrapassagem destas visões redutoras e nortear a via de discernimento aqui proposta. O leitor apressado que esteja mais interessado em tomar contacto com as mais recentes técnicas da informação poderá começar a sua abordagem pela leitura dos capítulos 4 e 5, ler em seguida o Capítulo 2, onde encontrará a fundamentação filosófica e antropológica da experiência técnica, e o Capítulo 3, onde são apresentadas as principais técnicas da linguagem, terminando a sua leitura pela Conclusão, para uma visão de conjunto das questões suscitadas pelas mais recentes transformações tecnológicas. 5 Ver Gilbert Simondon, Du Mode d Existence des Objets Techniques, Paris, Éd. Aubier-Montaigne, 1994, 2.ª ed. 17

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