Língua portuguesa: ultrapassar fronteiras, juntar culturas

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1 A PESQUISA SOBRE A REESCRITA DE TEXTOS Raquel Salek FIAD 1 RESUMO: Este trabalho, que se caracteriza como uma meta-pesquisa, tematiza as pesquisas sobre aquisição da escrita com foco na reescrita e tem como objetivo apresentar um levantamento inicial dessa produção acadêmica desenvolvida no Brasil nas três últimas décadas. Sem pretender discutir aqui a diversidade de concepções para o termo reescrita, apenas esclareço que, entendo-a como alguma manifestação presente na superfície textual (que pode ser entendida como uma marca deixada pelo escrevente) que revela uma retomada do texto pelo seu autor. Sabemos que o olhar para as escritas pode ser deslocado do produto para o processo de produção e é esse olhar que orienta as pesquisas que vêm analisando produções escritas de aprendizes, com enfoque na análise da reescrita. Considerando que, nas práticas de escrita em contextos educacionais, a reescrita ainda é um procedimento pouco freqüente, decorre que o interesse pela pesquisa sobre a reescrita em textos de aprendizes é relativamente recente no Brasil. Neste trabalho serão consideradas as pesquisas que analisam a reescrita apenas em contexto escolar, admitindo, no entanto, que os dados analisados nessas pesquisas podem ser tanto considerados espontâneos, ou seja, sem uma interferência explícita de um leitor que não seja o próprio escrevente, como também resultado de interferência explícita do professor ou de outros leitores. Os resultados deste trabalho pretendem apontar o tipo de reflexão que vem sendo feita sobre a reescrita, considerada parte da escrita de textos, de modo a contribuir para uma revisão das práticas escolares de escrita. PALAVRAS-CHAVE: práticas de escrita, reescrita, meta-pesquisa Falar a respeito da pesquisa sobre reescrita de textos no contexto brasileiro é reconstruir um pouco de uma história de pesquisas na qual estou inserida. Recuperar essa história é recuperar um pouco do trabalho que alguns pesquisadores brasileiros vêm desenvolvendo nas últimas décadas. Vejo-me no meio dessa história, que é bastante recente no contexto acadêmico brasileiro, movida por questões do campo acadêmico e também por questões provenientes do ensino de língua nas escolas e tento 1 Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem, Departamento de Linguística Aplicada, Avenida Júlio de Mesquita 249/91, , Campinas, São Paulo, Brasil, 1

2 entender um pouco, ao traçar este percurso de pesquisas, como esse campo de pesquisas foi se constituindo no Brasil. Inicio conceituando o que entendo por reescrita, conceito relativamente amplo, presente em diferentes abordagens de escrita. Desnecessário dizer, de antemão, que esta discussão se insere em uma discussão mais ampla de estudos sobre a escrita, sua aquisição, seu ensino. Em seguida, caracterizo o tipo de estudo aqui realizado e o tipo de estudos que tomo como exemplares de pesquisas sobre reescrita. Depois, recupero o percurso desse campo de estudos nos contextos francês e brasileiro pela proximidade que vejo entre ambos. Esse percurso me leva a propor uma relação forte entre a pesquisa sobre reescrita e a prática escolar de reescrita, que vejo como uma relação entre dois domínios institucionais. O conceito reescrita admite várias interpretações mas, para este trabalho, trago duas delas: a primeira delas remete ao trabalho que é realizado pelo autor do texto, quando retorna sobre seu próprio escrito e realiza algumas operações com a linguagem, que fazem com que o texto se modifique em vários aspectos possíveis; a segunda interpretação implica em reconhecer que todo texto é uma reescrita, na medida em que sempre que enunciamos algo estamos, de alguma forma, retomando o que outros já enunciaram. Nessa interpretação, o outro sempre está no discurso: escrever é sempre reescrever. Fica claro, então, que a segunda interpretação é tão ampla que implicaria em, para os propósitos deste trabalho, todas as pesquisas sobre escrita serem consideradas como pesquisas sobre reescrita, o que o tornaria sem sentido. Fico com a primeira concepção. Esta remete ao processo, ao trabalho presente na escrita e pode ser caracterizada como alguma manifestação presente na superfície textual (que pode ser 2

3 entendida como uma marca deixada pelo escrevente) que revela uma retomada do texto pelo seu autor. Esta concepção está baseada no que apresentam Fabre & Capeau (1996), estudiosos de reescrita em textos de crianças, no contexto francês. Para realizar este estudo, caracterizado como uma metapesquisa, limitei-me a considerar exclusivamente a pesquisa sobre a reescrita em textos de crianças e jovens, durante o processo de ensino de língua materna, no contexto escolar. Isso significa que não estou incluindo estudos sobre reescrita em outros textos, como é o caso dos manuscritos literários, mas falarei sobre esse tipo de pesquisa mais adiante, pois há alguma relação entre ambas. O que pretendo apontar são tendências possíveis de serem observadas no conjunto dessa produção acadêmica feita no Brasil nas três últimas décadas. Essas tendências serão apontadas a partir das bases teóricas que orientam os estudos realizados. Tendo diferentes abordagens teóricas, podemos dizer que há alguns pontos em comum nas pesquisas sobre reescrita: - elas pressupõem uma concepção de escrita como processo, seja esse processo entendido mais com base em teorias psicológicas ou lingüísticas/enunciativas; - fazem questões sobre o processo da escrita e sobre as conseqüências do processo para o ensino de escrita : o que é escrever? Quais são os componentes regulares de uma produção escrita? como as crianças aprendem a escrever? Como desenvolver o saber-escrever? Como ajudar no processo de ensino? Portanto, os estudos que são tomados como material para as considerações que teço aqui têm as características acima delineadas. 3

4 Para entender as tendências esboçadas nos estudos brasileiros, recorro a uma breve história da constituição da reescrita de textos como objeto de pesquisa no contexto francês. Com base em Pino & Zaluar (2007), que contextualizam o aparecimento da crítica genética na França e no Brasil, e em Fabre-Cols (2002), que contextualiza a relação entre os estudos da crítica genética e os estudos sobre reescrita de textos escolares na França, apresento um percurso de construção da pesquisa sobre reescrita de textos nos dois países, caracterizando esse percurso como uma construção na qual está clara a relação entre o contexto acadêmico e o contexto escolar. No final dos anos 60, com a crise do estruturalismo, a crítica genética surge propondo um olhar para os manuscritos literários de maneira diferente do olhar da filologia, que buscava as origens de um texto. Nesse momento, os manuscritos escapam às estruturas, pois a proposta é que os manuscritos sejam portadores de um movimento, do processo de criação. Com isso, a crítica genética traz à tona um material de arquivo que tinha sido menosprezado como objeto de conhecimento durante o estruturalismo e é de grande importância para a política cultural francesa (PINO & ZALUAR, 2007, p. 12). Os manuscritos literários são monumentos literários e estão inseridos na história do país. Em 1982, é criado, por um grupo de pesquisadores de manuscritos literários, o Institut de Textes et Manuscrits Modernes (ITEM), ligado ao Centro Nacional da Pesquisa Científica da França (CNRS). Nesse instituto, há vários grupos de pesquisadores organizados em torno dos acervos dos grandes escritores franceses e pode ser considerado, hoje, o grande centro de estudos sobre manuscritos literários do mundo. Fabre-Cols (2002), ao fazer uma breve retrospectiva sobre as pesquisas sobre escrita na França, aponta que os estudos sobre a gênese dos manuscritos literários 4

5 levaram-na, nos anos 80, a pensar que, para os estudantes, assim como para os escritores consagrados, escrever não é apenas uma questão de saberes lingüísticos, mas também de desejo, de projeto e de negociações. Desse modo, as pesquisas do ITEM puderam ser reinterpretadas pela didática das línguas e possibilitaram a Fabre-Cols e muitos pesquisadores francófonos interpretar as marcas presentes nos textos escolares na perspectiva enunciativa. Ao lado desse movimento científico, pode-se observar, na década de 90, uma reforma do ensino na qual é perceptível transposição dos avanços da crítica genética: do produto ao processo. Essa mudança de perspectiva a respeito do ensino da escrita na França teve alguns pontos básicos: o reconhecimento da escrita como um trabalho; a reescrita passou a ser entendida como um objetivo (aprender a escrever é aprender a reescrever) e instrumento de ensino, de intervenção; a avaliação dos textos passou a considerar o processo e não apenas o produto final; escrever e reescrever passaram a ser considerados como dois aspectos da mesma atividade. Aos poucos, os documentos oficiais começaram a reconhecer a escrita como um trabalho. Um exemplo disso é um dos textos oficiais escrito em 1992 que preconiza a reescrita como instrumento para a melhora das produções escolares. Desde então, a reescrita e os rascunhos estão presentes nos debates sobre ensino da escrita. As pesquisas em lingüística e em didática, bem como os textos institucionais legitimaram os rascunhos e pré-textos como testemunhos de processos e como objetos de estudo e de intervenção para professor e aluno. Ao lado do apoio teórico advindo da crítica genética, a reescrita de textos no contexto escolar fundamenta-se nas teorias da enunciação, que consideram a língua como um fenômeno social, uma forma de ação, de interação entre sujeitos. Essa 5

6 concepção de língua admite que, ao falar e também ao escrever, os sujeitos constroem uma interlocução em que o trabalho com a língua está sempre presente. Desse modo, entende-se a língua não como um sistema previamente construído, do qual os sujeitos se apropriam nas diferentes situações de interação, mas sim como um sistema que prevê recursos lingüísticos que são explorados indefinidamente nas interações. Uma grande contribuição das teorias da enunciação e da crítica genética transpostas a produções triviais foi a representação da escrita como trabalho e, consequentemente, a negação da ideologia do dom. Um terceiro apoio teórico às pesquisas sobre reescrita vem dos modelos psicolingüísticos, dos quais se destaca a contribuição de Hayes e Flower (1980). Esses modelos permitiram que fossem considerados os momentos da produção da escrita, a dificuldade e o tempo necessário para sua realização e, conseqüentemente, a importância das situações didáticas. Contribuíram também para afirmar que a escrita não é resultado de inspiração e que não há uma fórmula mágica que possibilite a sua concretização. No contexto brasileiro as pesquisas sobre reescrita de textos de escolares são recentes e sua existência é resultado de um percurso que entrelaça, assim como na França, mudanças na perspectiva teórica em relação à escrita, por um lado, e mudanças em propostas didáticas, por outro. no Brasil são: As bases teóricas que permitiram o desenvolvimento de pesquisas sobre reescrita - o modelo psicolingüístico de Hayes e Flower (1980), representado pelo trabalho pioneiro de Kato (1986) que, ao adaptar esse modelo, elaborou a primeira abordagem psicolingüística sobre a escrita, no país; 6

7 - a abordagem sócio-interacionista baseada em Vygotsky, em que é ressaltada a dimensão reflexiva do ato de escrever, representada pelo trabalho de Rafael de Góes (1993); - a lingüística da enunciação associada à crítica genética, passando pelos trabalhos de Fabre-Cols, representada pelos trabalhos de Abaurre, Fiad e Mayrink-Sabinson (1997); - a associação de conhecimentos vindos de cinco campos de conhecimento: Educação, Análise do Discurso, Teoria da Enunciação, Crítica Genética e Psicanálise, representada pelos trabalhos do Grupo de Pesquisa Escritura, Texto & Criação (ET&C) onde se destacam os trabalhos de Calil (2007, 1998). Todas essas tendências teóricas de estudos sobre reescrita toma como dados para suas análises textos produzidos por crianças e jovens em contexto escolar os chamados manuscritos escolares por algumas dessas tendências, ou seja, por aquelas que têm algum vínculo com os estudos da crítica genética e transpõem, para o estudo de textos de aprendizes da escrita, uma abordagem vinda dos estudos da crítica genética. Nesses trabalhos, está implícito o fato de que existem manuscritos escolares e que eles podem ser analisados em uma perspectiva que revele o trabalho que esses aprendizes estão realizando com a linguagem. Ou seja, as pesquisas sobre manuscritos escolares são realizadas somente se, no contexto escolar, forem produzidos os textos que alimentam, de diferentes modos, as pesquisas. Com base no estudo de Gomes-Santos (2004), sugiro que se possa afirmar que há uma relação entre dois domínios institucionais: o domínio da teorização acadêmicocientífica e o domínio da normatização oficial do ensino de língua portuguesa. Considerando que o primeiro relaciona-se ao saber acadêmico produzido no espaço universitário, ou seja, ao conjunto de práticas que ordenam determinados saberes 7

8 segundo a especificação de aportes teóricos e correntes disciplinares e o segundo refere-se ao conjunto de práticas oficiais de regulação do sistema de ensino efetivadas pela instância estatal (GOMES-SANTOS, 2004, p. xiii), ouso retomar aqui a elaboração de Gomes-Santos, com base no que já apontei (FIAD, 2000) a respeito da prática escolar de reescrita no contexto escolar brasileiro. Sabe-se que, desde os anos 80, no contexto brasileiro, a prática de análise lingüística foi proposta, em documentos oficiais sobre o ensino de português, como uma atividade que permite a realização da reescrita no contexto escolar. Mesmo sabendo que as práticas escolares não são necessariamente uma resposta ao que os documentos propõem, pode-se supor que há algum diálogo entre os documentos oficiais e as práticas escolares de escrita. O que estou propondo é que a pesquisa sobre reescrita em manuscritos escolares no contexto brasileiro tem uma forte relação com as propostas oficiais que sugeriram, recomendaram, propuseram a prática de reescrita no contexto escolar. Não diria que uma depende da outra, mas sim que uma alimenta a outra e que as mudanças existentes em uma afetam, de algum modo, a outra. Referências bibliográficas ABAURRE, M.B.; FIAD, R. S.; MAYRINK-SABINSON, M. L. Cenas de aquisição da escrita. O sujeito e o trabalho com o texto. Campinas, SP: ALB/Mercado de Letras, CALIL, E. Autoria: a criança e a escrita de historias inventadas. Maceió: Edufal, (org.) Trilhas da autoria: leitura, autoria e ensino. São Paulo: Cortez, FABRE-COLS, C. Réecrire à l école et au collège. De l analyse des brouillons à l écriture accompagnée. ESF éditeur, FABRE, Claudine; CAPPEAU, Paul. Pour une dynamique de l apprentissage: lecture/écriture/réécritures. Em: Études de Linguistique Appliquée 101, Paris: Didier 8

9 Érudition, FIAD, R. S. - Uma prática de escrita sob análise. Didáctica da Língua e da Literatura, Actas do V Congresso Internacional de Didáctica da Língua e da Literatura. vol.ii. Coimbra, Portugal, Livraria Almedina, GOMES-SANTOS, S. A questão do gênero no Brasil: teorização acadêmico-científica e normatização oficial. Tese de doutorado, Unicamp/IEL, HAYES, J.-R.; FLOWER, L.S.. Identifying the organization of writing processes. The dynamics of composing. Em: GREGG, L.W.; STEINBERG, E.R. (eds.). Cognitive processes in writing. Hillsdale, New Jersey, KATO, Mary A., No mundo da escrita: Uma perspectiva psicolingüística. SP: Editora Ática, 5ª edição, PINO, C.a.; ZULAR, R.; Escrever sobre escrever. Uma introdução crítica à crítica genética. São Paulo: WMF Martins Fontes,

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