VI Seminário Nacional de Saneamento Rural

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1 VI Seminário Nacional de Saneamento Rural MEDIDAS ESTRUTURANTES EM SANEAMENTO COM ENFOQUE PARA O SANEAMENTO RURAL Luiz Roberto Santos Moraes, PhD Professor Titular em Saneamento/ Participante Especial da UFBA João Pessoa, 08/11/2012

2 Questão Por que tem sido hegemônica a alocação de recursos financeiros/ investimentos em saneamento básico nas áreas urbanas e em medidas estruturais (e não em medidas estruturantes)?

3 Estado e definição de política pública Sociedade Política (consenso pela coerção) Sociedade Civil (construção de consenso/lugar de luta pela hegemonia) Estado Por Gramsci

4 Estado e definição de política pública Sociedade Política Burocracia estatal Poderes coercitivos (força militar) Sociedade Civil Por Gramsci

5 Estado e definição de política pública Movimento sindical Movimentos religiosos Populações indígenas Entidades profissionais Representantes de grupos econômicos e corporações Movimento popular Sociedade Civil Sociedade Política Grupos ambientalistas Movimentos da mulher, negro, MST, etc.

6 Estado e definição de política pública Sociedade Política Sociedade Civil Estado Estado Paradigma de sociedade Política pública Gestão

7 Políticas Públicas As políticas públicas são ações governamentais dirigidas a resolver determinadas necessidades públicas. As políticas públicas podem ser sociais (saúde, educação, habitação, saneamento básico, assistência, emprego, renda ou previdência), macroeconômicas (fiscal, monetária, cambial, industrial) ou outras (científica e tecnológica, cultural, agrícola, agrária). Usualmente o ciclo das políticas é concebido como o processo de formulação, implementação, acompanhamento e avaliação (GELINSKI; SEIBEL, 2008).

8 Políticas Públicas O conteúdo ou agenda das políticas públicas dependerá, em primeira instância, da concepção do Estado por parte daqueles que formulam as políticas públicas. O que está em jogo é elucidar quem define o público alvo da política pública (GELINSKI; SIBEL, 2008). Segundo Santos et al. (2007, p.83), formular uma política pública significa definir quem decide o quê, quando, com que consequências e para quem.

9 Visões sobre as políticas públicas e sociais Faleiros (1991) aponta pelos menos cinco vertentes de interpretação, que consideram as políticas públicas e sociais como: Mecanismos de manutenção da força de trabalho (saúde do trabalhador). Conquista dos trabalhadores. Arranjos do bloco do poder (político, econômico, etc.). Doações das elites dominantes (a pobreza é uma realidade dada naturalização da pobreza). Instrumento de garantia dos direitos dos cidadãos.

10 Qual o papel do Estado? O Estado tem um papel político de articular acumulação de capital e legitimar a elite dirigente. O Estado não está acima da sociedade, nem é politicamente autônomo (isolado). O Estado é permeável aos interesses de classes sociais (Estado corrupto, burguês, focalizado, universalista). O entendimento do teor das políticas públicas e sociais passa pela análise da simbiose entre o estatal e o privado, ou entre o Estado e as corporações. A definição das políticas sociais estaria para além das instituições estatais, havendo uma complexa relação entre estatal/público/privado. NÃO É A BUROCRACIA DO ESTADO QUE DEFINE A POLÍTICA PÚBLICA (BERHRING, 2002).

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13 Para que discutir sobre Estado? Perceber que: Para conhecermos um fenômeno, entender a suas disfunções, os seus problemas temos que entender os mecanismos de sua constituição, o seu funcionamento, os seus componentes. O Estado não é neutro e as políticas públicas não são neutras, sendo agenciadas para atender a determinados interesses. Que existe projetos sociais em disputa (Welfare State e neoliberal), sendo que a força hegemônica tem sido a da corporação - o Capital. Permite entender o por que das desigualdades, condição intrínseca ao modo de produção capitalista, e o papel do Estado na adoção de políticas reparadoras para atuar nas externalidades negativas (políticas sociais e compensatórias).

14 Para que discutir sobre Estado? Permite entender por que o saneamento básico foi tratado como medida de proteção à saúde do trabalhador, como infraestrutura e como mercadoria. Possibilita entender por que o saneamento rural não avança no Brasil (Cidade vs. Campo no circuito de capitais e desigualdades). Permite entender por que a operação e a manutenção na área rural é um problema (o foco na obra, nas grandes obras). Possibilita analisar o por que da disseminação da auto-gestão na área rural e o mercado na área urbana.

15 Permite entender que quando se define uma política de saneamento básico está se definindo um projeto político de sociedade, pautado em uma visão social de mundo, em um paradigma de sociedade. Destaca que a política pública não é neutra, que ela é carregada de conteúdo, conceitos, pressupostos, princípios, diretrizes que estão articulados a uma forma de ver o mundo. Como os SAAEs e as CEAEs veem o saneamento básico? Qual o projeto político dos SAAEs e das CEAEs para o saneamento básico? Em qual visão social de mundo esse projeto se sustenta? Sobre quais princípios, pressupostos, diretrizes, os SAAEs e as CEAEs pautam sua atuação? Como e quais os instrumentos de gestão que os SAAEs e as CEAEs utilizam para colocar seu projeto em prática? Tecnoburocrático? Participativo e transparente? Universalista, focalizador, autoritário? Possibilita entender que a definição de política pública passa pela disputa de projetos políticos pelos diversos atores sociais. Como, por exemplo, os SAAEs e as CEAEs veem, entendem e tratam os diferentes projetos?

16 Construção social da PP de Saneamento no Brasil A natureza das ações de saneamento é eminentemente coletiva, constituindo em uma meta social. Em sendo uma meta social, essa medida se situa no plano coletivo, onde os indivíduos, a comunidade e o Estado têm papéis a desempenhar. Dada a sua natureza, o esforço para a sua promoção deve-se dar em vários níveis, envolvendo diversos atores. As ações e serviços de saneamento, além de serem, fundamentalmente, de saúde pública e de proteção ambiental, se constituem em essenciais, direito social do cidadão e dever do Estado (BORJA, 2004).

17 Política pública de saneamento no Brasil O saneamento é uma meta coletiva diante de sua essencialidade à vida humana e à proteção ambiental, o que evidencia o seu caráter público e o dever do Estado na sua promoção, constituindo-se em um direito social integrante de políticas sociais Políticas públicas universais, transparentes, com participação e controle social, sistêmicas, intersetoriais, sob o comando do Estado PARADIGMA PAUTADO NA JUSTIÇA SOCIAL E AMBIENTAL

18 POLÍTICA DE SANEAMENTO é o conjunto de princípios, diretrizes e instrumentos que conformam as aspirações sociais e/ou governamentais no que concerne a regulamentação do planejamento, da execução, da operação, da administração e da avaliação das obras e serviços públicos de saneamento (MORAES, 1994).

19 Constatação Injustiça histórica das políticas de saneamento básico no País com as populações rurais e comunidades tradicionais (indígenas, extrativistas e quilombolas).

20 Determinantes da Situação do Saneamento Rural Falta de prioridade política. Estrutura institucional inadequada. Recursos financeiros: escassos; dispersos; irregulares; e baixa eficiência e efetividade na sua aplicação.

21 O Projeto Nacional de Saneamento Rural (PNRS) uma proposta não implementada

22 Uma proposta não implementada: o PNSR Diretrizes a serem consideradas: - Descentralização e Participação. - Desenvolvimento Institucional. - Especificidades da Área Rural. - Serviços de Saneamento Rural. - Educação e Participação. - Desenvolvimento de Recursos Humanos. - Administração, Operação e Manutenção dos Sistemas. - Financiamento. - Assistência Técnica. - Acompanhamento e Avaliação (IPEA, 1989).

23 Uma proposta não implementada: Estratégia Básica o PNSR Descentralização distribuição de responsabilidades e poder de decisão entre as três esferas de governo e as comunidades organizadas na realização dos processos de planejamento, execução e gestão das ações e serviços.

24 Uma proposta não implementada: o PNSR Participação significa repartição de esforços, responsabilidades, recursos e ações entre governos, comunidades e ONGs para contribuírem efetiva e solidariamente à viabilização dos objetivos perseguidos.

25 Uma proposta não implementada: o PNSR Instrumentos de integração interinstitucional, de apoio político em todos os níveis e de mecanismos de planejamento, de coordenação de programas e ações, de acompanhamento e avaliação de todos os processos (ação integrada, coordenada e eficiente). Soluções técnicas apropriadas ao meio rural.

26 Uma proposta não implementada: o PNSR Serviços de Saneamento Rural - as ações locais devem contemplar o abastecimento de água, disposição de excretas e águas servidas, melhorias sanitárias domiciliares e manejo de resíduos sólidos; - universalidade atender à totalidade da população de cada localidade e à população dispersa;

27 Uma proposta não implementada: o PNSR - uso de tecnologias apropriadas ao meio rural, com simplicidade de construção, de operação, de manutenção e redução de custos, com qualidade sanitária, eficiência, compatibilidade com o meio rural, qualidade dos serviços e aceitação e uso por toda população.

28 Uma proposta não implementada: o PNSR Desenvolvimento de Recursos Humanos: meio para a adequada prestação dos serviços de saneamento rural, a partir de uma ação participativa, permanente, multidisciplinar e integrada ao trabalho normal das comunidades;

29 Uma proposta não implementada: o PNSR desenvolvimento de atividades voltadas para a formação e capacitação de pessoal responsável pelo planejamento, elaboração de projetos, execução, administração, operação, manutenção, acompanhamento, avaliação e apoio técnico de projetos locais de saneamento rural, bem como para a participação e educação comunitária, informação e prestação de assistência técnica em todos os níveis de governo e na comunidade (IPEA, 1989).

30 Uma proposta não implementada: o PNSR A composição dos investimentos projetados considerou subprogramas de apoio (Educação e Participação da Comunidade 5%; Capacitação e Desenvolvimento de Recursos Humanos 7%; Desenvolvimento Institucional 2%; Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico 1,5%; Informação, Documentação e Comunicação 2,5%; Apoio Técnico 2%) e um subprograma de obras (80%) (IPEA, 1989).

31 Lei n o /2007 (LNSB) Estabelece as diretrizes nacionais para o saneamento básico e para a política federal de saneamento básico

32 Lei n o /2007 (LNSB) Art. 19, 8º. Exceto quando regional, o plano de saneamento básico deverá englobar integralmente o território do ente da Federação que o elaborou. Art. 48 A União, no estabelecimento de sua política de saneamento básico, observará as seguintes diretrizes:

33 Lei n o /2007 (LNSB) I prioridade para as ações que promovam a equidade social e territorial no acesso ao saneamento básico; V melhoria da qualidade de vida e das condições ambientais e de saúde pública; VII garantia de meios adequados para o atendimento da população rural dispersa, inclusive mediante a utilização de soluções compatíveis com suas características econômicas e sociais peculiares;

34 Lei n o /2007 (LNSB) Art. 49 São objetivos da Política Federal de Saneamento Básico: II priorizar planos, programas e projetos que visem à implantação e ampliação de serviços e ações de saneamento básico nas áreas ocupadas por populações de baixa renda; IV proporcionar condições adequadas de salubridade ambiental às populações rurais e de pequenos núcleos urbanos isolados;

35 Lei n o /2007 (LNSB) VIII promover o desenvolvimento institucional do saneamento básico, estabelecendo meios para a unidade e articulação das ações dos diferentes agentes, bem como o desenvolvimento de sua organização, capacidade técnica, gerencial, financeira e de recursos humanos, contempladas as especificidades locais;.

36 Lei n o /2007 (LNSB) IX fomentar o desenvolvimento científico e tecnológico, a adoção de tecnologias apropriadas e a difusão dos conhecimentos gerados de interesse para o saneamento básico.

37 Lei Complementar n o 141/2012 Art. 3º.... serão consideradas despesas com ações e serviços públicos de saúde: VI saneamento básico de domicílios ou de pequenas comunidades, desde que seja aprovado pelo Conselho de Saúde do ente da Federação financiador da ação e esteja de acordo com as diretrizes das demais determinações previstas nesta Lei Complementar; VII saneamento básico dos distritos sanitários especiais indígenas e de comunidades de remanescentes de quilombos.

38 PLANEJAMENTO CONTROLE SOCIAL CONTROLE SOCIAL FISCALIZAÇÃO GESTÃO REGULAÇÃO CONTROLE SOCIAL CONTROLE SOCIAL PRESTAÇÃO Funções de gestão dos serviços públicos de saneamento básico

39 Medidas estruturais Compreendem os tradicionais investimentos em obras, com intervenções físicas relevantes nos territórios, para a conformação das infraestruturas físicas de abastecimento de água, esgotamento sanitário, manejo de resíduos sólidos e manejo de águas pluviais (BRASIL, 2011).

40 Medidas estruturantes São aquelas que, além de garantir intervenções para a modernização ou reorganização de sistemas, dão suporte político e gerencial à sustentabilidade da prestação de serviços, suscitando o aperfeiçoamento da gestão. Encontram-se tanto na esfera do aperfeiçoamento da gestão, em todas as suas funções, quanto na da melhoria cotidiana e rotineira da infraestrutura. Parte-se da premissa de que a consolidação das medidas estruturantes trará benefícios duradouros às medidas estruturais, assegurando a eficiência e a sustentação dos investimentos realizados (BRASIL, 2011).

41 Investimento (R$ ou %PIB) / algum componente ou total de investimentos / investimentos federais ou investimentos totiais PLANSAB Evolução temporal dos investimentos em medidas estruturais e estruturantes (BRASIL, 2011) I Histórico II Inercial IV Estabilização Medidas estruturantes Medidas estruturais Total III Reversão UNIVERSALIZAÇÃO Tempo

42 Medidas estruturantes De apoio à gestão. De apoio à prestação dos serviços. De capacitação e assistência técnica. Desenvolvimento científico e tecnológico (BRASIL, 2011).

43 Medidas estruturantes de apoio à gestão Formulação de políticas e elaboração de planos municipais de saneamento básico. Implementação e aperfeiçoamento da regulação e das atividades de fiscalização. Implantação de mecanismos de participação e controle social, incluindo o fomento à capacitação de conselheiros de instâncias de controle social, agentes de saúde, agentes comunitários e lideranças comunitárias.

44 Medidas estruturantes de apoio à gestão Investimentos na recuperação dos prestadores públicos de serviços de saneamento básico. Estudos sobre a implementação de políticas e gestão municipais. Estudos visando a intersetorialidade no nível municipal. Estruturação de consórcios públicos e/ou de parcerias público-público e público-comunitária.

45 Medidas estruturantes de apoio à gestão Implementação do PEAMSS na área rural. Implantação de sistemas de informação. Implantação de sistemas de avaliação e monitorização.

46 Medidas estruturantes de apoio à prestação de serviços Apoio a elaboração de projetos. Preparação para solicitação de financiamento. Sistemas tarifários e de cobrança. Cadastros físicos. Controle de perdas de água e medidas de racionalização e eficiência energética. Proteção de mananciais.

47 Medidas estruturantes de apoio à prestação de serviços Controle da qualidade da água de consumo humano. Revalorização de soluções individuais para o esgotamento sanitário. Medidas para separação de correntes de efluentes. Programas de redução da geração de resíduos sólidos, coleta seletiva e reciclagem.

48 Medidas estruturantes de capacitação e assistência técnica Concebidas para o aporte de assistência técnica para gestores e prestadores. Programa Nacional de Capacitação, nos moldes da Rede Nacional de Capacitação e Extensão Tecnológica em Saneamento Ambiental ReCESA, atendendo também à área rural.

49 Desenvolvimento científico e tecnológico Programa específico de pesquisas em saneamento básico, de forma induzida, convocando as entidades de pesquisa do País a contribuírem nos temas científicos e tecnológicos requeridos para a execução do Plansab e seu Programa de Saneamento Rural. Desenvolvimento de tecnologias apropriadas ao saneamento rural.

50 Para avançarmos no saneamento rural no País urge a necessidade de um trabalho qualificado, interdisciplinar, permanente, institucionalmente fortalecido, baseado em uma concepção que leve em conta as especificidades sociais, culturais, econômicas, geográficas e demográficas das populações e localidades rurais.

51 Fazer saneamento básico na área rural do Brasil de outra forma é possível! Então mãos à obra!

52 Muito obrigado!

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