SEGURO DE VIDA EM GRUPO Efeitos da Moléstia Preexistente

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1 UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ UNIVALI CENTRO DE EDUCAÇÃO DE SÃO JOSÉ CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE PRÁTICA JURÍDICA SETOR DE MONOGRAFIA SEGURO DE VIDA EM GRUPO Efeitos da Moléstia Preexistente FERNANDA MACHADO PFEILSTICKER SILVA São José/SC, Junho de 2004.

2 UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ UNIVALI CENTRO DE EDUCAÇÃO DE SÃO JOSÉ CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE PRÁTICA JURÍDICA SETOR DE MONOGRAFIA SEGURO DE VIDA EM GRUPO Efeitos da Moléstia Preexistente Monografia apresentada como requisito parcial à obtenção do grau de bacharel em Direito da Universidade do Vale do Itajaí, sob Orientação do Prof. MSc. Márcio Roberto Harger. FERNANDA MACHADO PFEILSTICKER SILVA São José/SC, Junho de 2004.

3 UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ UNIVALI CENTRO DE EDUCAÇÃO DE SÃO JOSÉ CURSO DE DIREITO NÚCLEO DE PRÁTICA JURÍDICA SETOR DE MONOGRAFIA SEGURO DE VIDA EM GRUPO Efeitos da Moléstia Preexistente FERNANDA MACHADO PFEILSTICKER SILVA A presente monografia foi aprovada como requisito para a obtenção do grau de bacharel em Direito na Universidade do Vale do Itajaí UNIVALI, Centro de Educação de São José. Banca Examinadora: Prof. MSc. Márcio Roberto Harger. Prof. Júlio Guilherme Müller Prof. Eduardo Biel

4 DEDICATÓRIA Dedico este trabalho à minha mãe e a meu orientador pela enorme paciência e compreensão; ajudaram-me depositando sua confiança para que eu superasse todos os obstáculos, e assim pudesse desenvolver este trabalho.

5 AGRADECIMENTOS A Deus, no Qual todos, à sua maneira, apóiam-se nos momentos difíceis, e Que nos permitiu atingir nossos objetivos. A meu querido orientador Ildemar Egger Júnior, que foi fundamental para a elaboração e conclusão deste trabalho. O professor Márcio R. Harger que me ajudou na apresentação essencial para o meu sucesso. A meus colegas de trabalho pela ajuda e compreensão. Aos meus pais Mário e Elizabeth, a meu irmão Felipe e a meu namorado Jóchoan pela confiança e motivação.

6 Mais importante e urgente que libertar criaturas humanas de prisões inumanas, é ir a socorro de verdades prisioneiras de sistemas de idéias que as retêm e asfixiam.

7 RESUMO Neste trabalho é abordado, em seus aspectos técnicos, mercadológicos e jurídicos, o contrato de seguro de vida, principalmente na forma de seguro de vida em grupo. Realçamos como se dá sua contratação, desde a aceitação até o pagamento ou a negativa da indenização. O cerne básico apóia-se nos princípios fundamentais que devem ser aplicados nesta modalidade contratual, que são os princípios da pacta sunt servanda e da boa-fé. Ao contratar um seguro de vida na forma coletiva deve-se preencher um cartão-proposta contendo declarações inerentes ao seu estado de saúde, estas devem ser verídicas, leais e feitas com a mais estrita boa-fé por parte do proponente, isto para evitar a negativa do sinistro. Posteriormente, em virtude de omissão ou negligência nas informações prestadas, será constatada a má-fé ao ser declarada a existência de uma moléstia preexistente à contratação do seguro, quando o segurado tinha pleno conhecimento disto. Apresentar-se-á uma enorme disparidade entre o entendimento doutrinário e o entendimento jurisprudencial, onde, este último, em pouquíssimos casos, não se reconhece a má-fé sob o debilitado argumento de que o segurado sempre será a parte mais enfraquecida na relação contratual. Tudo com base na boa-fé para a realização deste negócio jurídico, com enfoque na declaração individual de saúde prestada pelos pretensos segurados. PALAVRAS-CHAVE: SEGURO DE VIDA DOENÇA PREEXISTENTE MÁ-FÉ NEGATIVA DE INDENIZAÇÃO

8 ABSTRACT This work was about technical, marketing and law aspect of life insurance contract, mainly on life insurance on group way. Enhance how happen your contration, ever the acception until the payment or negative of indenization. The core was the fundations principles that should be aplicated, that are the principle of pacta sunt servanda and the good-faith. When contract the life insurance on group should fill out a proposition-card having declarations about your health, that should be truthfull, loyal, and did with the most strict good-faith for the proposer. This to avoid the negative of sinister, after, because the omission or neglect of information futhered. Where will be conclude the bad-faith with the existence of a molest preexistence of insurance contract and the insurer had complete knowlegment about it. Showed a huge diference between the agreement doctrinate and the agreement jurisprudence, where this last one, in a few cases recognize the bad-faith about the lack argument that the insurer always will be the part more lack in the contractual relation. Everything on base of good-faith to realize this legal deal, with hang on the individual declaration of health give by intend insurer.

9 LISTA DE ABREVIATURAS OU SIGLAS Ac. Acórdão Ac. Unân. Acórdão Unânime Apel. Civ. / Ap. Apelação Cível Art. / art. Artigo C. Câmara Câm. Julg. Câmara Julgadora Câm. Civ. Julg. Câmara Cível Julgadora CC / C.Civ. Código Civil Conv. Convocado Dec. Decreto IPA Invalidez Permanente por Acidente IPD Invalidez Permanente por Doença J. / j Julgamento MA Morte Acidental Min. Ministro MN Morte Natural Pág / p. Página Rec. Esp. Recurso Especial Rel. Desig. Relator Designado Rel. Dês. Relator Desembargador RJ Rio de Janeiro RT Revista dos Tribunais S.A. Sociedade Anônima SC Santa Catarina SUSEP Superintendência de Seguros Privados STF Supremo Tribunal Federal STJ Superior Tribunal de Justiça TA. Civ Tribunal de Alçada Cível TJ/SC Tribunal de Justiça de Santa Catarina TJ/PR Tribunal de Justiça do Paraná TJ/MG Tribunal de Justiça de Minas Gerais V.U. Voto Unânime SUMÁRIO

10 RESUMO... vii ABSTRACT... viii LISTA DE ABREVIATURAS OU SIGLAS... ix INTRODUÇÃO SEGURO HISTÓRICO Evolução do Seguro no Mundo Evolução do Seguro no Brasil Atualidades no Mercado Segurador Brasileiro CONTRATO DE SEGURO CONCEITO E GENERALIDADES Relação de Consumo no Contrato de Seguro Características do Contrato de Seguro de Vida SEGURO DE ACIDENTES PESSOAIS SEGURO DE VIDA EM GRUPO Elementos do Contrato de Seguro de Vida em Grupo Cartão-Proposta e Certificado Individual EXAMES E DECLARAÇÕES DE SAÚDE DA ACEITAÇÃO, PRECEITOS E INOVAÇÕES DO MERCADO SEGURADOR Inovações no Mercado Segurador LIQUIDAÇÃO DO SEGURO E AS FORMAS DE EXTINÇÃO DO CONTRATO DE SEGURO DE VIDA FORMA DE LIQUIDAÇÃO DO SEGURO DE VIDA Sinistro como Liquidação da Obrigação EXTINÇÃO DO CONTRATO DE SEGURO PRESCRIÇÃO EFEITOS DA OMISSÃO DE FATOS RELEVANTES NO PREENCHIMENTO DA PROPOSTA DE SEGURO DE VIDA EM GRUPO Omissão do Real Motivo da Aposentadoria Omissão de Moléstia Preexistente PROVA DA MÁ-FÉ E EFEITOS CONTRATUAIS DA BOA-FÉ CONTRATUAL CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANEXOS Cartão-Proposta Política de Aceitação... 64

11 Circular SUSEP 17/ Circular SUSEP 48/ INTRODUÇÃO

12 O contrato de seguro de vida na forma de seguro de vida em grupo e suas principais coberturas como, por exemplo, as coberturas básicas, morte natural e as adicionais IPA e MA. Efetuaremos um estudo doutrinário inerente ao contrato de seguro, enfocando o ponto de vista jurídico e aprofundando o estudo em obras que tratam especificamente do objeto deste trabalho, que é o seguro de vida. O seguro de vida contém uma função social relacionando também a importância da previdência privada, através da forma de pecúlio que tem como objetivo garantir segurança a seus dependentes, no caso de ocorrer sinistro por óbito ou invalidez. Isto mediante pagamento de prêmio, que é feito visando obter segurança para si ou para seus beneficiários. Neste trabalho analisaremos principalmente o contrato de vida em grupo e a influência da moléstia preexistente do segurado no ato da contratação, mais precisamente quando preenche a declaração de saúde, o cartão-proposta. Tratando o princípio da boa-fé, não será permitido que um segurado, sabedor de seu estado de saúde e sem perspectiva de sobrevida, apresente proposta para contratar um seguro omitindo ou negligenciando informações importantes sobre seu estado de saúde. De início faremos uma breve exposição da evolução histórica do seguro no Brasil e no mundo. Em seguida analisaremos como funciona o contrato de seguro de vida, demonstrando alguns conflitos, estruturas e todos os aspectos contratuais. Aludiremos aos aspectos principais do contrato de vida, que são a boa-fé e a pacta sunt sevanda. E como se deve proceder quando for verificada a má intenção do segurado no ato contratual, no tocante ao vício que este proporciona com base em declarações falsas e omissões.

13 Por fim, traremos o entendimento doutrinário e jurisprudencial e suas maiores concordâncias e divergências, analisando, sempre, o instituto da boa-fé que deve ser fundamental não somente no contrato de seguro, porém em todas as formas contratuais. 1 SEGURO 1.1 HISTÓRICO Evolução do Seguro no Mundo A humanidade sempre apresentou a necessidade de proteger sua vida e seu patrimônio, e isto proporcionou enorme possibilidade de desenvolvimento e evolução do seguro. Esta preocupação em proteger principalmente o patrimônio não é recente, diferentemente da proteção à vida, que é um ramo de seguro um pouco mais atual. A necessidade de proteção contra o perigo ou melhor, contra o desconhecido acrescentada da incerteza quanto ao futuro unem-se na possibilidade de perda dos bens e da renda de subsistência familiar. Por volta de a.c., historicamente, os cameleiros da Babilônia, preocupados com as grandes perdas que sofriam quando partiam em caravanas, elaboraram uma forma mutualística de não desamparar um companheiro que porventura tivesse sido prejudicado. Mediante um acordo, deliberaram que as perdas ocorridas durante uma dessas expedições seriam rateadas entre todos os participantes. Desde o século XIII a.c. o seguro segue a tese do compartilhamento.

14 Como garante Silney de Souza: Como o seguro é baseado no compartilhamento ou divisão de riscos, quando se abordam suas origens, comumente recorre-se ao clássico caso dos comerciantes de Babilônia no século XIII a.c. Preocupados com o risco de perda dos camelos na travessia do deserto em direção aos mercados das regiões vizinhas, eles formavam acordos nos quais: quem perdesse um camelo, na travessia pelo deserto, por desaparecimento ou morte, receberia outro, pago pelos demais criadores. (2001, p. 04) Decorrido o tempo e demonstrada a evolução, no século XII a.c. surgiu uma modalidade de seguro chamada Contrato de Dinheiro a Risco Marítimo, que funcionava como um empréstimo bancário nos dias atuais. Um financiador emprestava a um navegador uma quantia de dinheiro equivalente ao valor da embarcação. Se a embarcação não chegasse ao seu destino, o navegador não devolvia o dinheiro. Porém, se a embarcação chegasse ao seu destino, ele deveria devolver o dinheiro e ainda pagar os juros que a este era acrescido. Poucos doutrinadores tratam do seguro em épocas tão remotas; porém, o doutrinador Souza garante que, nesta época, ou melhor, por volta de a.c., ainda na Babilônia, surgiu um código chamado Código de Hamurabi, que previa a segurança no transporte marítimo de carga, e os associados preveniam-se contra grandes tempestades e os possíveis danos que estas pudessem causar. A humanidade, muito antes dos tempos da Babilônia, já desenvolvia, talvez apenas por instinto, um certo senso de conservação de bens e pessoas. A evolução natural foi em busca da vida em grupo. Com o passar do tempo os grupos começaram a se fixar em regiões que lhes proporcionassem segurança e condições de sobrevivência. (Souza 2001, p. 04) A sociedade deparou-se com a realidade e concluiu que os riscos superavam a capacidade humana de preveni-los. Por isso, seriam mais bem enfrentados coletivamente, através de contribuições isoladas, e assim conseguiriam reparar possíveis danos causados por catástrofes naturais, por exemplo.

15 Os seguros marítimos foram primitivamente esboçados no contrato de risco. Havia uma especulação em torno do risco; uma das partes assumia no contrato de compra e venda ou transferia para o mutuante no contrato de dinheiro a risco. Denota-se neste momento a necessidade de conceituar o que é o risco, tão exaustivamente demonstrado nos contratos de seguro em geral, sendo figurado até os contratos atuais. Conforme conceito estabelecido pela FUNENSEG Fundação Escola Nacional de Seguros: Risco é um evento futuro e incerto potencialmente prejudicial aos interesses do segurado. Sua ocorrência acarreta uma diminuição patrimonial, evitável através do contrato de seguro. Considerado objetivamente como um fato danoso, o risco se transforma em sinistro. (Feitosa 1989, p.85) Evidentemente este conceito trata de um ramo específico de seguro, onde provavelmente o bem segurado era de cunho patrimonial. Assim, verifica-se que, para cada tipo ou ramo de seguro, o risco depende diretamente do bem que cada indivíduo pretende segurar, incluindo a vida surgindo, deste modo, o Seguro de Vida. Cabem, então, conceitos mais modernos do que seria o suposto risco assumido pelas seguradoras em prol dos segurados, mediante pagamento de certos valores. Valor este que modernamente é denominado prêmio. O risco representa a possibilidade de um evento inesperado ocorrer, gerando prejuízo ou necessidade econômica ou danos materiais e pessoais. Esse evento incerto, de data incerta, independe da vontade do segurado ou do segurador. Assim o risco deve ser: incerto, aleatório, possível, real, lícito e fortuito. (Souza 2001, p. 27) O seguro de vida não é um dos ramos ditos primitivos da histórica evolução do seguro, tendo em vista que os antigos tinham como prioridade proteger seus patrimônios particulares ou até mesmo comerciais, como fica evidenciado nos tempos da Antiga Grécia. Na Antiga Grécia surgiu o primeiro mercado de seguros de que se tem notícia, com sistema de informações próprio, do qual se beneficiavam banqueiros e comerciantes que, desta forma, tinham referências sobre os mercados mais

16 atrativos, portos seguros, além de outros. Os atenienses eram muito rigorosos na elaboração de contratos: mediante um empréstimo, regulavam a cobertura de todas as viagens que se realizavam e impunham um prêmio de risco superior aos juros, e para calcular esse valor, era necessário um bom conhecimento do navio, rota e carga. (Scussel 1999, p. 12) No Império Romano, por sua vez, como civilização mais importante depois da Grécia, surgiram vários ramos visando ao amparo relacionado a doenças e à velhice dos membros componentes da sociedade e seus familiares. O início se deu no Império Romano, antes mesmo da verdadeira realização do seguro de vida e o de enfermidades, anteriormente citados. Pode-se dizer que a base se deu em virtude das organizações de sociedades funerárias, onde as viúvas dos contratos de empréstimos teriam o direito a receber uma simbólica indenização. A partir disto começaram a desenvolver ou pelo menos, foi onde nasceu um estilo de seguro semelhante ao aplicado na atualidade. O instituto regulado pela Lei Ródia não respeita uma necessidade de segurança (de seguro), mas uma necessidade de justiça, de eqüidade. A tradição romana atribuía ao místico rei Numa Pompílio a criação dos collegia de artesões. Entre as funções de assistência social, a principal era, sem dúvida alguma, o sepultamento dos sócios falecidos, à custa do fundo comum. Excepcionalmente, outorgava, também, pequenos empréstimos. Enfim, por mais que se preocupe, em todas as associações, ainda que apareçam certas notas que remotamente fazem vislumbrar a idéia de seguro, não se pode encontrar a característica essencial deste: o cálculo ou pelo menos estimativa equivalente, para a obtenção exata da compensação das prestações com as contraprestações. Faltando-lhes o princípio técnico, estas instituições não foram mais que simples associações de socorros mútuos. (Povoas 2000, p. 51) Isso ocorria de forma simplificada. Os membros das organizações contribuíam, antecipadamente, para um fundo de reserva que tinha como finalidade o resguardo dos enterros, equiparando-se com o atual Auxílio ou Assistência Funeral, produto oferecido pelas seguradoras que muitas vezes é agregado ao seguro de vida, ou seja, quase sempre ocorre de forma adicional. Outra contribuição importante dos romanos foi a criação de uma tábua de anuidades que considerava a idade e a esperança de vida, em anos, dos membros da collegia. (Scussel 1999, p.12)

17 A forma de cálculo, acima citada, ainda é utilizada como base para delimitar o valor do prêmio a ser pago para fins de seguro. É a importância paga pelo segurado, ou estipulante, à seguradora em troca da transferência do risco a que ele está exposto. Em princípio, o prêmio resulta da aplicação de uma percentagem (taxa) à importância segurada. O prêmio deve corresponder ao preço do risco transferido à seguradora. (http://www.certaseguros.com.br/dicionario/nopr/p.htm) Sem fugir ao sentido originário, na linguagem mercantil, prêmio significa a percentagem, revelada na taxa estipulada, que se paga nos empréstimos em dinheiro (mú tuo) ou nos contratos de seguro. Em verdade, o prêmio, seja no caráter de juros ou como taxa de seguro, apresenta-se como a recompensa que é devida ao mutuante e ao segurador pelos riscos, que correm ou assumem nos respectivos contratos. (De Plácido e Silva 2000, p. 631) No caso de Seguro de Vida, atualmente são considerados alguns aspectos essenciais, como, por exemplo, a idade ou a expectativa de vida, que se demonstra através do estado de saúde em que a pessoa se encontra e que influenciará diretamente no valor a ser pago pelo segurado, na forma ou denominação de prêmio. Houve, com a decadência do Império Romano, uma declinação no florescente mercado de seguro, pois, com as rotas marítimas mercantis, este promissor mercado perdeu a força, porém jamais deixou de existir. Muitos foram os doutrinadores que tentaram historicamente determinar a origem do contrato de seguro. Houve pontos em que se determinou o risco, hoje instituído no contrato de seguro; naquela época era determinado pelo perigo iminente que coexistia nas viagens marítimas. Estes seguros visavam a salvaguardar os produtos comercializados, tranqüilizando os comerciantes e terceiros, tendo em vista a possibilidade de eventuais prejuízos. Na Antigüidade, o mutualismo empregava-se nas diversas organizações, visando a exaltar um esquema de solidariedade e socorro, que tinha a função de socorrer os vizinhos que demonstravam necessidade. Não se encontravam instituições capazes de gerenciar riscos, pois na época não havia conhecimentos matemáticos em que se conseguisse captar as estatísticas que mensurassem o risco e até qual o prejuízo iminente de tais transações. Tentavam, desta

18 forma, convalidar o prejuízo com o sinistro apenas depois que o fato já havia ocorrido. Diferencia-se da atualidade, em que há uma projeção do suposto risco ou prejuízo, sendo cobrado antecipadamente através do prêmio. Na Idade Média, a Igreja exercia todo o seu poder perante os povos influenciando a evolução do seguro, pois jamais passaria em branco uma entidade tão lucrativa. Como meio, talvez indireto, de intervir na suposta evolução histórica, a Igreja proibiu a prática do mutualismo, classificando-o como sacrilégio, pois pregavam que tudo aconteceria em conformidade com a vontade divina, e o homem ou a humanidade não tinha o direito de minorar os danos, pois estes, pregavam, eram para servir de lição para a sociedade. Com a proibição do seguro marítimo pelo Papa Gregório IX, um criativo mecanismo entrou em ação. Os banqueiros passaram a comprar o navio e a carga. Ocorrendo o sinistro (algum acidente ou perda no percurso), os navegadores ficavam com o dinheiro e o banqueiro com o prejuízo. Se, ao contrário, nada acontecesse nem com a carga nem com o navio, o navegador rescindia o contrato de venda, ficando com o bem, mas pagando uma multa (equivalente aos juros sobre o capital cobrado anteriormente à proibição). (Silney 2001, p.05) Em meados de 1234, o Papa Gregório IX deliberou a proibição da negociação do Contrato de Dinheiro a Risco, alegando o maior índice de prejuízo do financiador, uma vez que este perdia o dinheiro quando o navegador perdesse a embarcação. Então, sugeriu que fosse criada uma nova forma de seguro, similar ao anterior, denominada Feliz Destino, na qual o banqueiro se tornava um comprador da embarcação e das mercadorias que estavam sendo transportadas, com previsão de recompra pelo navegador se a embarcação e a mercadoria chegassem no destino sem ter sofrido qualquer prejuízo. No entanto, se a embarcação chegasse a sofrer um sinistro e/ou se a carga se perdesse, o dinheiro que havia sido adiantado pelo banqueiro era retido pelo navegador na forma de indenização do seguro contratado. Os doutrinadores revelam que, na história do seguro, mais precisamente na Antigüidade, o seguro não se resumia apenas na organização comercial, pois procurava desenvolver amparo ou cobertura para situações no âmbito social. Segundo os doutrinadores que traçaram a história do seguro, podemos avaliar que a estrutura técnica da instituição seguradora tem sua evolução a partir da Antigüidade,

19 sendo que não se pode atribuir a infalibilidade. Mesmo porque os romanos deveriam mostrar-se de forma mais evoluída que os povos que os precederam. Por vezes, isto não ocorreu, pois se valiam da mesma estrutura familiar anteriormente utilizada no tempo do Império. Na Idade Média foi quando houve a grande evolução no contrato de seguro, pois as autoridades da época depararam-se com a necessidade de instaurar leis para delimitar parâmetros e resguardar direitos. A maior concentração de negócio sobre seguros verificou-se, a princípio, nas cidades italianas de Pisa, Florença, Gênova e outras. Irradiou-se, posteriormente, sua prática na Espanha, Portugal, Países Baixos e Inglaterra. As primeiras apólices de seguro que se conhecem são: uma de Pisa, datada de 11/07/1385, e outra, de Florença, de 10/07/1397. Suas cláusulas já revelavam uma disciplina jurídica desenvolvida pelos usos e costumes das diferentes praças comerciais. (Alvim 1999, p.28) Entende-se que o seguro Feliz Destino foi um marco para a evolução do ramo securitário no mundo, despertando em todos a grande possibilidade de negócio e rentabilidade que é o seguro. A primeira apólice de seguro, mais especificamente de Seguro Marítimo, fora emitida em Gênova em meados de No século XVII, os empreendimentos econômicos tratavam de montantes consideráveis de capitais; sendo assim, as responsabilidades ultrapassavam a capacidade dos seguradores particulares, demonstrando a necessidade de evolução de parâmetros regulamentadores para o mercado segurador. Por conta disto, o grande abalo ocorrido na instituição de seguro se deu exclusivamente porque esta atividade era exercida por seguradores particulares, que por vezes não dispunham de capital suficiente para garantir a indenização pleiteada, trazendo, deste modo, o insucesso e até mesmo a ruína para alguns investidores. Diante do que pregam os doutrinadores, em meados de 1789 houve a publicação do Código Uniforme de Seguros, que unificava algumas regras no âmbito securitário.

20 Importante seria ressaltar que a evolução matemática atuarial se deu por intermédio da Revolução Industrial, e foi de fundamental importância para o quadro evolutivo do seguro no mundo, aproximando-se enfaticamente da forma atual. Já nos séculos XIX e XX, o seguro começou a se restabelecer, pois começaram a ser desenvolvidas outras modalidades de seguro, como, por exemplo, as que previam cobertura para responsabilidade civil, acidentes pessoais, acidentes e doenças decorrentes do lavor, furto, roubo, entre muitos outros. Existem registros de que a primeira apólice de seguro de vida foi emitida em 1583, em Londres, onde também fora criada a primeira sociedade de Seguro de Vida: The Society of Insurance for Windows and Orphans Sociedade de Seguro de Vida das Viúvas e Órfãos. Nesta época as seguradoras preferiam operar com apenas um determinado ramo de seguro, para facilitar a especialização, a classificação dos riscos e a fiscalização que passou a atuar com maior eficácia. São conhecidos três processos diferentes de fiscalização das seguradoras através do Poder Público. O primeiro destes impunha que as seguradoras publicassem uma série de atos administrativos para que os segurados pudessem tomar conhecimento. Não obtendo o êxito esperado, implantou-se um sistema normativo que submetia a atividade seguradora a normas previstas na regulamentação. Por fim, surgiu o sistema discricionário, em que a lei delegava às autoridades administrativas poderes normativos, permitindo-lhes, desta forma, imediata interferência para adaptar ao mercado as condições exigidas pela situação do momento. Cabe a fiscalização, nos tempos atuais, a dois órgãos essencialmente: a SUSEP Superintendência de Seguros Privados e o CNSP Conselho Nacional de Seguros Privados, que instituem regras através de normatizações e fiscalizam as operadoras de seguros com responsabilidade. Atualmente, os juristas deparam-se com uma imensa fragmentação da legislação sobre seguros, gerando dificuldade de exame pelos interessados, e conseqüentemente ocasionando conflitos de interpretação. Deparamo-nos, assim, basicamente com o Código Civil, que já foi uma evolução tendo em vista que uniu as leis do Código Civil de 1916 e o

21 Código Comercial. Além das leis esparsas e normatizações instituídas pelos órgãos fiscalizadores, por exemplo, SUSEP e CNSP, anteriormente citados. O desenvolvimento experimentado pela legislação de seguro tem revelado a necessidade de tratar de forma orgânica e sistemática todo seu conteúdo. Se nos códigos do século passado o contrato de seguro estava legislado no âmbito do direito comercial, em nosso século se vai acentuando seu tratamento em leis separadas, porque os problemas regulados excedem a legislação de fundo. Paralelamente a esta forma particular de legislar o contrato, aparecem as leis sobre o regime da empresa que vão amadurecendo a idéia de que a relação contratual seja considerada através das entidades que exploram a atividade e do controle estatal criado em todos os países para assegurar os fins do contrato e das empresas. Eis porque se tem sustentado a necessidade de uma lei única, compreensiva do contrato, das empresas e do controle oficial. (Alvim 1999, p. 47) Nos dias de hoje, procura-se estabelecer condições para que as seguradoras mantenham consonância com sua função econômico-social, sem prejuízo de suas operações, visando atender aos interesses da massa segurada Evolução do Seguro no Brasil Há indícios de que no Brasil, por causa da colonização de certo modo precária da Coroa portuguesa, a evolução desta instituição se deu muito mais tarde do que no resto do mundo. Apesar de existirem vestígios anteriores, somente em meados de 1808 houve registro da primeira seguradora no Brasil. A Companhia de Seguros Boa Fé tinha sua sede na Bahia, que era o grande centro de comércio marítimo na época. Posto que o mercado nesta época exigia apenas o seguro de coisas (materiais exportados ou importados através da navegação), os registros demonstram que esta seguradora operava apenas com seguro marítimo. O Código Comercial Brasileiro proibia a forma ou o desenvolvimento do ramo de seguro de vida. Porém, mesmo que indiretamente, havia uma exceção, quando se tratavam de escravos. Como na época os escravos eram tratados como objetos, ou seja, eram bens passíveis de propriedade, surgiu a Cia. De Seguros Mútuos sobre a Vida de Escravos.

22 Houve o primeiro registro, ou a primeira autorização, para uma companhia operar com o ramo vida no Brasil apenas em Nascia a Cia. de Seguros de Vida Tranqüilidade, que operava tanto com seguro de vida de pessoas livres, quanto continuava a operar com a forma já existente anteriormente, que era o seguro de vida para escravos, ainda considerados propriedades e não pessoas livres. Em decorrência de o Brasil ser uma colônia de Portugal, até 1822 (ano em que se tornou independente) todas as companhias de seguros eram subordinadas às regras instituídas pela Casa de Seguros de Lisboa. No que tange à regularização, em 1831 foram extintas as provedorias de seguros das províncias, isentando, desta forma, os seguros de pagamentos de impostos. Após a independência, a Lei n. 556, de 1850, criou o Código Comercial Brasileiro, que passou a disciplinar o seguro marítimo, resultando no surgimento de novas seguradoras. As operações de seguros marítimos foram disciplinadas e implantou-se o seguro de incêndio, de vida e de mortalidade de escravos. Somente uma seguradora, fundada em 1845, a Argos Fluminense realizava terrestres. (Souza 2001, p. 08) Houve uma breve evolução histórica do seguro brasileiro, de forma excepcionalmente rápida, paralelamente ao mercado segurador europeu. Por volta de 1858, houve a primeira autorização para a Seguradora Interesse Público desenvolver e operar com seguros terrestres. Em 1860, foram emitidos dois decretos que obrigavam as seguradoras a fazer um pedido para autorizar seu funcionamento, estabelecendo a análise e aprovação do estatuto e a apresentação periódica de balanços. Já no início do século XX, o crescimento do mercado segurador no Brasil era evidente, e encontravam-se registros de mais de sessenta companhias de seguros. Em meados de 1901, surgiu um dos primeiros órgãos fiscalizadores das companhias de seguros brasileiras, denominado Superintendência Geral de Seguros, diretamente subordinado ao Ministério da Fazenda. Através do Código Civil Brasileiro, que entrou em vigor em 1917, cujo projeto foi desenvolvido por Clóvis Beviláqua, iniciou-se uma regulamentação eficaz para o ramo

23 securitário no Brasil. Foram estabelecidas e definidas as obrigações e os direitos tanto do segurado quanto do segurador, além das normas contratuais básicas, com atenção à regulamentação inerente a seguro terrestre. (...) Na época, os riscos terrestres ainda não eram tão difundidos, sendo marítimo o mais explorado no seguro: por essa razão não havia necessidade de outras normas jurídicas regulamentadoras dos riscos terrestres. Essa fase revelou a expansão do contrato de seguro no Brasil, criando-se seguradora para diversos ramos, tais como: marítimo, terrestre, vida e incêndio, além de outros (como os seguros contra efeitos da falência e acidente do trabalho), com destaque ainda para os ramos da previdência, como por exemplo os fundos e pecúlios. Poucas seguradoras estabelecidas neste período perduraram até hoje, pois nessa época prevaleceu a especulação e exploração contratual, sendo fonte de enriquecimento dos poucos homens que as organizavam. (Scussel 1999, p. 18) Também através do Código Civil, foi ampliada a regulamentação legal que iniciou com as regras referentes ao seguro terrestre e findou com a criação do IRB Instituto de Resseguros do Brasil, por volta de 1939, sendo sua denominação atual IRB Brasil Resseguros S/A. Até 1939, quando foi fundado o Instituto de Resseguros do Brasil (IRB), o resseguro o seguro do seguro era feito quase totalmente no exterior, de forma direta ou por meio de companhias estrangeiras que operavam no Brasil. O objetivo do IRB, que detinha o monopólio do resseguro e dos mecanismos de coseguro repartir o risco com outras seguradoras nacionais por meio da pulverização do risco em resseguro automático e reter no Brasil atividades de resseguro era fortalecer o automático e reter no Brasil atividades de resseguro feitas em outros países. Com apenas nove meses de atuação, o IRB conseguiu reter no Brasil cerca de 90% dos prêmios de resseguro-incêndio praticados o ramo resseguro de incêndio foi o foco inicial do IRB, por responder a cerca de 75% do total de seguros na época. Com o passar do tempo, novos tipos de resseguro foram sendo incorporados pelo IRB, como o aeronáutico, um dos pioneiros em todo o mundo, implantado no Brasil em (Souza 2001, p. 9) Historicamente, houve um grande tropeço do mercado segurador brasileiro, pois começaram a instalar-se no país sociedades de seguros estrangeiras, que passaram a dominar e devastar o mercado nacional. Isto posto, foram evidenciadas as dificuldades das empresas nacionais em competir em igualdade com as estrangeiras, devido à enorme disparidade financeira entre elas.

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