A aplicação do Registro Geral de Imóveis: alguns objetivos e hipóteses de uma pesquisa em andamento. Pedro Parga Rodrigues *

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1 A aplicação do Registro Geral de Imóveis: alguns objetivos e hipóteses de uma pesquisa em andamento. Pedro Parga Rodrigues * RESUMO: Trata-se da apresentação do tema da pesquisa que estou desenvolvendo no curso de doutorado, qual seja, os debates sobre a ideia de propriedade ocorridos entre frações da classe senhorial durante a construção, aplicação e a interpretação da Lei Hipotecária de 1864 número A referida norma criava o Registro Geral de Imóveis (RGI), no qual deveriam ser transcritos os contratos de transferência dominiais para que eles passassem a valer contra terceiros. O acordo estabelecido entre o comprador e o vendedor servia apenas para provar a existência da negociação, pendendo ainda de sua transcrição no RGI para a transferência dominial se concretizar. Mas, segundo a Lei 1.237, o registro não servia de prova de propriedade para o adquirente, mantendo o domínio salvo para o seu real dono. A elaboração, aplicação e a interpretação desses dispositivos foram ricas em debates sobre a propriedade. PALAVRAS-CHAVE: Propriedade; Brasil Império; Lei Hipotecária de ABSTRACT: It is about my grad research s subject. I'm studying the discusses about property that was happening at same time different groups of the slaveholder class were creating, reading and using Brazilian Mortgage Law from KEY-WORD: Property; Imperial Brazil; 1864 Brazilian Mortgage Law Introdução Trata-se da apresentação do tema da pesquisa que comecei a desenvolver no curso de doutorado em 2011: os debates sobre a ideia de propriedade ocorridos entre frações da classe senhorial durante a construção, aplicação e a interpretação da Lei Hipotecária de * Doutorando no Programa de Pós graduação da Universidade Federal Fluminense. 1

2 Temos trabalhado em temas relacionados a Lei Hipotecária de 1864 desde o mestrado, mas agora trazemos novas problemáticas que merecem ser consideradas em nossas pesquisas. Durante o mestrado e em pesquisas realizadas após a conclusão deste, temos trabalhado com os debates sobre a ideia de propriedade presentes na construção e interpretação da Lei Hipotecária 1.237, de 1864 (RODRIGUES, 2009). Tratava-se, principalmente de entender as divergências existentes no Estado, em sentido ampliado 1, sobre as noções de domínio manifestadas no processo de institucionalização do Registro Geral de Imóveis, no qual deveriam ser matriculadas as alienações de propriedade e as hipotecas sobre imóveis 2. Apresentamos na dissertação algumas das diferentes propostas elaboradas por integrantes das frações da classe senhorial sobre os modelos do registro das transferências de patrimônios entre vivos e das hipotecas imobiliárias a ser instituídos. Alguns fazendeiros, com empreendimentos mais diversificados, dentre eles Luís Peixoto de Lacerda Werneck, cafeicultor do sul fluminense e comerciante, defendiam que a transcrição 3 do contrato de compra e venda de propriedade imóvel e a inscrição das hipotecas no Registro Geral de Imóveis não deveriam ser obrigatórias. Criticavam, sobretudo, o estabelecimento da coerção da matrícula das hipotecas neste registro público e a obrigatoriedade da individualização dos bens imóveis dados em garantia para estes negócios 4. Tais novidades eram deletérias para empréstimos tradicionais, realizados por estes fazendeiros-negociantes ou parentes deles, nos quais emprestavam com garantia em todos os bens do devedor, sejam eles, presentes ou futuros. Em alguns desses negócios era fornecido dinheiro para a compra de escravos, com 1 Antônio Gramsci (GRAMSCI, Antônio, 1976.) propõe uma noção ampliada de estado, no qual este passa a ser entendido como o somatório da sociedade civil e política, ao invés de ser restringido unicamente a burocracia ou a uma classe política. Para ele, as decisões políticas não podem ser entendidas como produtos de uma base econômica, mas também não podem ser compreendidas como resultados das ações dos indivíduos que atuam na sociedade política. Elas são produtos dos conflitos entre as classes sociais, que se realizam tanto na sociedade civil através da construção de um senso comum no qual uma classe ou uma fração desta detêm a hegemonia, quanto na sociedade política. 2 O Registro Geral de imóveis foi instituído pela Lei Hipotecária de 1864 e o seu regulamento de A transcrição é a matrícula do contrato de compra e venda de imóveis no Registro de Imóveis. É uma formalidade que garante a publicidade para as transferências dominiais. 4 O nome técnico dado no campo do Direito para a individualização dos imóveis dados em garantia de uma hipoteca é especialização. Este princípio jurídico, característico dos Códigos Civis oitocentistas, tem como objetivo dar conhecimento para os credores sobre quais bens estão servindo de garantia para outros empréstimos. Assim, os bancos poderiam emprestar com mais segurança seu capital, sabendo que o bem dado em garantia não teria sido gravado anteriormente por outra hipoteca e, assim, os credores teriam preferência na hora de arrematar o imóvel do devedor inadimplente. Este princípio prescinde do fim das hipotecas gerais, uma forma de empréstimo tradicional garantido por todos os bens do devedor, sejam eles presentes ou futuros. Uma vez que os bens deixados em garantia devem ser individualizados, a hipoteca não pode recair sobre todos os bens daquele a quem se destina o empréstimo. 2

3 pretensão de pagamento para o momento da colheita. Os frutos pendentes da lavoura eram utilizados para saudar essas dívidas. Segundo Muaze (MUAZE, 2006: 195), (...) o que estava em jogo não eram os lucros em si (...) (MUAZE, 2006: 195), mas o fortalecimento da (...) posição de senhor de terras e de homens buscando a reafirmação de um ideal aristocrático e a legitimação de uma hierarquização social excludente. (MUAZE, 2006: 195). Para fazendeiros como Luís Peixoto de Lacerda Werneck, deveriam ser criadas associações comerciais voltadas para o empréstimo de dinheiro à lavoura. Os contratos realizados com base em imóveis feitos por estas instituições não precisariam de matrículas no Registro Geral de Imóveis e valeriam como prova de propriedade. O fazendeiro-negociante não via ou não desejava ver - que as incertezas dos limites territoriais e dos títulos dominiais no oitocentos viravam complicações para o contrato de compra e venda servir de prova de propriedade absoluta do adquirente. Junto aos seus consortes, deixava de lado a possibilidade dos contratos serem utilizados como garantia para alguém que comprasse a propriedade de um vendedor, cujo domínio era incerto, e, por isso, de fato não possuía a totalidade do domínio em transferência. Esses potentados rurais se silenciavam diante das incertezas dominiais, e produziam um pensamento acerca da realidade em que viviam, segundo o qual a grande propriedade era uma regra, e os homens livres pobres só podiam ser enxergados como agregados sem direito a terra. Outros fazendeiros - como Barreto Pedroso de Resende, por exemplo - desejavam a substituição das antigas formas tradicionais de empréstimos pelos dinheiros oferecidos de formas impessoais pelos Bancos. Segundo Stein, as casas bancárias começavam a surgir no sul fluminense no início da segunda metade do XIX, substituindo os comissários e outros agentes, envolvidos em outras formas de empréstimos (STEIN, 1961). O crédito hipotecário, baseado em imóveis, era para esses fazendeiros mais arraigados a lavoura, uma oportunidade para escapar da intermediação dos comissários e dos fazendeiros-negociantes. Sendo independentes desses fornecedores de crédito tradicionais, obteriam capitais com longo prazo e juro módico. Não precisariam comprometer os frutos pendentes da lavoura como garantias. Sem a obrigação de venderem ou transferirem sua produção para esses intermediários, poderiam, então, vendê-la mais caro. Para estes lavradores de médio porte, sobretudo, os que 3

4 vinham buscando novas formas de empréstimos, diante do declínio da produção, o registro público das alienações de propriedades e hipotecas era imprescindível 5. Isto garantiria publicidade às operações realizadas com imóveis e tornaria as negociações mais seguras para os bancos, favorecendo empréstimos aos fazendeiros. Ainda que esses potentados rurais menos abastados não concordassem com os fazendeiros-negociantes sobre qual documento provaria a ocorrência da alienação dominial ou da hipoteca, ambos eram concordes que este deveria implicar em prova de propriedade para os adquirentes de imóveis ou credores de hipotecas cujas dividas não fossem saudadas por seus devedores. Em outras palavras, discordavam se seria necessária a matrícula no Registro Geral de Imóveis ou se bastava o contrato entre as partes contratantes, mas ambos pretendiam dar capacidade de comprovação para essas negociações; Ignoravam, em seus discursos, as dificuldades de identificar os limites territoriais dos domínios daquela época. O silêncio sobre as incertezas dominiais, sobre a existência dos pequenos posseiros e das posses de escravos, reduzindo-os a meros agregados, fazia parte do habitus 6 predominante entre os potentados rurais das duas primeiras décadas do Segundo Reinado. No pensar da fração dos senhores de escravos mais envolvidos com os assuntos da fazenda, (...) coisas e pessoas aparecem apenas como expressão da vontade dele (...) (CHALHOUB, 2003: 26) e, assim, concebiam seus iguais como (...) controladores de uma espécie de economia de concessão e favores (...) (CHALHOUB, 2003: 26). Nesta forma de refletir sobre a realidade rural, não haveria apossamento realizado sem o consentimento dos grandes possuidores. Assim, os pequenos posseiros eram apreendidos por esses potentados locais como invasores. Ignorando as ocupações e cultivos de quem não fosse seus agregados, esses senhores de escravos não enxergavam problema em dar ao contrato de compra e venda, ou a sua 5 Não pretendemos dizer que a decadência atingiu todos os produtores de café desta época, mas a crise da cafeicultura afetava a produção de alguns potentados rurais envolvidos nesta atividade. Sobre isso ver: MUAZE, idem, O termo Habitus, criado por Pierre Bourdieu, é o (...) sistema das disposições, socialmente constituídas que, enquanto estruturas estruturadas e estruturantes, constituem o princípio gerador e unificador do conjunto de práticas e das ideologias características de um grupo de agentes (...). (BOURDIEU, Pierre. Economia das trocas simbólicas. Perspectiva: São Paulo, p 191). Trata-se de uma forma de conceber as práticas e ideologias de um grupo sem cair no erro de (...) dissolver a originalidade criadora reduzindo-a as suas condições sociais de produção (...) (BOURDIEU, Idem, p. 185) ou, ao contrário, de conceber o comportamento individual de forma unicamente individualista. Este conceito é, portanto, plenamente compatível com a relação dialética entre indivíduo e sociedade proposta por Karl Marx e utilizada por intelectuais marxistas que questionaram o estruturalismo althuseriano, tais como Thonpson. 4

5 transcrição, valor comprobatório quanto ao domínio dos adquirentes. Os potentados rurais silenciavam sobre as posses que não fossem feitas por si ou por seus comodatários e, assim, pareciam não enxergar limites para institucionalizar o modelo de transmissão ligado a ideia de propriedade absoluta na Lei Hipotecária de Eles propunham, na prática, uma forma de institucionalização da grilagem, na qual a transferência de domínio possibilitaria ao adquirente provar ter domínio pleno de uma extensão sobre a qual existiam conflitos, posses de terceiros e terras potencialmente públicas 7, ou seja, na qual do domínio de quem transferia a terra era incerto ou até mesmo inexistente. Alguns Estadistas Imperiais 8 discordavam que essas formalidades pudessem servir como prova de domínio para os adquirentes, mas outros acabavam por se aproximar dos interesses dos fazendeiros. Para os primeiros, a matrícula no Registro Geral de Imóveis deveria ser obrigatória. Entretanto, criticavam a ideia, segundo a qual, a transcrição do contrato de compra e venda pudesse ter um caráter comprobatório. Segundo Augusto Teixeira de Freitas, renomado jurisconsulto do Império, caso o governo aceitasse essa proposição dos potentados, estaria abrindo brechas para grilagem. Ele e outros intelectuais apontavam as incertezas dos limites territoriais, a precariedade dos títulos, o costume da posse, a existência da usucapião e a forma como os terratenentes se relacionaram como o registro paroquial de terras, como impedimentos para a proposta dos fazendeiros de garantir para transcrição um peso maior do que a presunção de domínio. Já os segundos, mais afeitos aos interesses de potentados rurais do sul fluminense, dispensavam a necessidade do registro público e pensavam que o contrato poderia agregar valor comprobatório. 7 Utilizo aqui o termo propriedades potencialmente públicas devido à dificuldade de se distinguir as propriedades públicas das privadas na época. A menção a noção de potencialidade serve para deixar clara a dificuldade de saber se o eram de fato. 8 A definição de Estadistas Imperiais foi proposta por Ricardo Salles (SALLES, Ricardo. E o Vale era o escravo. Vassouras - Século XIX. Senhores e escravos no coração do Império. Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 2008.). Ao trabalhar os debates sobre a Lei do Ventre Livre no conselho de estado, o autor relaciona a diferença entre os defensores da reforma e os seus opositores a forma diferenciada de experimentar a crise da escravidão entre os estadistas e os fazendeiros. Os primeiros (...) tinham como foco os interesses gerais do Estado, e não os dos grupos e localidades particulares, ainda que, em momento algum, perdessem esses últimos de vista. (SALLES, p 52) Assim, entre eles havia a noção de que a escravidão estava fadada ao fracasso. O seu conhecimento sobre a revolução no Haiti, sobre as revoltas escravas no Império e sobre outros acontecimentos ocorridos em outros países, tendiam a propor reformas na escravidão. Enquanto os fazendeiros, mais ligados ao dia à dia da fazenda tenderam mais a oposição a reforma. 5

6 Na dissertação apresentamos os debates sobre a propriedade presentes nas discussões relacionadas a promulgação da Lei Hipotecária de Mas as possibilidades de estudos acerca da interpretação da lei que deu origem ao Registro Geral de Imóveis são ricas e pouquíssimo exploradas pelos historiadores. Portanto, agora, nos ocupamos mais sobre a aplicação da norma e sobre o trabalho jurisprudencial sobre a mesma. Aqui falaremos um pouco da nossa pesquisa em torno da aplicação, deixando para falar sobre o debate acerca de sua interpretação em um trabalho futuro. A aplicação Em 1876, o juiz do município de Itajaí em Santa Catarina chamado Manoel Martins Torres comentou a aplicação da Lei Hipotecária de 1864 nessa localidade, dizendo: Em princípios de 1873, quando (...) tivemos de organizar a estatística judiciária do anno anterior desta comarca de Itajahy, oito annos da publicação da lei [de 1864], deixamos de remetter o mapa relativo ás transcripções de immoveis por não constar uma só do livro respectivo, que se achava em branco; quando pelos livros de notas, verificamos que, desde a época da promulgação da lei até aquella data, muitos contractos de transmissões de imóveis entre vivos (além dos particulares) tiveram lugar; faltando, portanto, á todos esses contractos a solenidade importante e garantidora da transcripção, de cuja data, taes contractos, perfeitos e acabados entre as partes contractantes ou seus herdeiros, principiam a operar seus effeitos a respeito de terceiros. (TORRES, 1876: VIII) Em seu texto, o magistrado dizia não existirem até o início de 1873 transcrições no Registro Geral de Imóveis do município de sua jurisdição. Passados oito anos da promulgação da Lei Hipotecária, a obrigatoriedade de transcrever os contratos de compra e venda ainda não eram cumpridas. O motivo não era nenhuma ausência de alienações de propriedade, pois o número de escrituras de compra e venda presentes nos livros de nota daquela comarca contrastavam com as páginas em branco do RGI. Assim, embora tivessem ocorrido transmissões de imóveis entre vivos, os dispositivos da reforma hipotecária de 1864 segundo 6

7 os quais os contratos de compra e venda só passavam a ser perfeitos após a transcrição estavam sendo deixados de lado. Segundo o o juiz de Itajaí, isso não ocorria somente nessa localidade. Escrevera em seu livro, (...) sou informado de que em muitos municípios o livro n. 4 para esse fim destinado, ainda se acha em branco! (TORRES, 1876: VIII). Assim, não era somente em Itajaí a dificuldade em se aplicar a norma jurídica. Em outro trecho de seus escritos, o autor vai ainda mais longe, dizendo que a norma era mal utilizada na maior parte das províncias do Império. Em suas palavras, A Lei n de 24 de setembro de 1864 ( ) e o decreto n de 26 de Abril de 1865 ( ), apesar de longa existência, ainda não são bem e fielmente executados na maior parte dos municípios do Império. (TORRES, 1876: VIII). No entanto, não podemos deduzir que essa era a realidade de todo o território brasileiro. Utilizando Relatórios do Ministério da Justiça pudemos montar a tabela abaixo, contendo o número de transcrições de e inscrições, em alguns anos ainda dizendo quantos foram os imóveis transcritos provenientes das áreas rurais e urbanas: Transcrição Inscrição de hipotecas Imóveis urbanos Imóveis rurais Total Imóveis urbanos Imóveis rurais Total FONTE: Relatório do Ministério da Justiça, Podemos perceber um crescimento, ainda que não seja linear das transcrições e inscrições matriculadas no RGI entre 1866 e Mas antes de tudo, fica claro o fato do registro ter sido utilizado, ainda que isso não seja verdade para todas as localidades. Assim, fica claro que o estudo da legislação deverá ter uma conotação local. Assim, caso o tema, realmente gere interesse em outros pesquisadores, será possível perguntar as fontes: a) As 7

8 transcrições foram realizadas nessa ou naquela localidade? b) Qual o grupo social daqueles que se preocuparam em matricular suas alienações? c) Quais as razões da omissão ou de realizar a transcrição, em cada caso? d) Qual o contraste entre o número de transcrições e de escrituras de contra e venda para cada localidade? Essas e outras perguntas podem ser realizadas para diferentes localidades. Em nossa pesquisa, elencamos dois municípios: Itajaí e o Rio de Janeiro. Dependendo da disponibilidade, facilidade ou dificuldade de acesso à documentação, estudaremos um caso ou outro, ou até mesmo os dois. O contraste entre o número de escrituras e alienações transcritas no RGI, nos ajudará a pensar sobre a seguinte hipótese: Enquanto a Lei de 1864 exigia com que fossem bem definidas as dimensões dos imóveis alienados, o costume entre os fazendeiros e outros agentes sociais era descrever de forma imprecisa os bens alienados. Ao estudar bens inventariados em Alegrete, Rio Grande do Sul, Graciela Bonassa Garcia (GARCIA, 2010) percebeu a presença dessa lógica de mercado ligada aos interesses de grande parte dos potentados rurais. Estudou os bens inventariados nesta localidade e percebeu que 22% dos imóveis legados e/ou comercializados tinham escrito após a descrição o termo mais ou menos (GARCIA, 2010: 84). Possuíam dizeres semelhantes a meia quadra de sesmarias mais ou menos. A ausência de uma extensão precisa das terras legadas podia trazer consigo, segundo a autora, uma estratégia. Em suas palavras, A imprecisão pode também ser uma estratégia para ampliação de domínios sobre as terras vizinhas ou devolutas. O Recorrente mais ou menos incluído após a informação de uma aproximada extensão da terra pode ser mais do que o desconhecimento de sua área. Pode sugerir opção por não limitar a propriedade a uma extensão precisa. (GARCIA, 2010: 88) Segundo Graciela, a precária ou inexistente informação da extensão da terra inventariada não foi nem ao menos questionada pelos herdeiros, credores ou membros do judiciário (GARCIA, 2010: 84). O que nos permite pensar o grau de legitimidade e/ou 8

9 aceitação deste costume na localidade por ela estudada ou por alguns agentes sociais do período. De acordo com a historiadora, isto não acontecia, entretanto, no tocante as outras mercadorias. Ela demonstra como a erva-mate, os tecidos e o açúcar, por exemplo, eram pesados ou medidos com precisão na hora da venda. A forma como uma mesma pessoa da Campanha gaucha podia comprar ou vender uma propriedade imóvel sem se importar com a ausência das informações sobre a sua área, contrastavam com a precisão com que lidavam com as medidas de outros bens (GARCIA, 2010: 85). Assim, nesta época, o sistema métrico é aplicado seletivamente pelos habitantes da Campanha (GARCIA, 2010: 85). Essa falta de preocupação com limites precisos para a propriedade territorial também podia ser encontrada no estado do Rio de Janeiro do século XIX. Em 1867, em Maricá, o Comendador Joaquim Antônio Fernandes Pinheiro e alguns parentes vendiam (...) partes da terra (...) (ARQUIVO NACIONAL. Livro de Notas n 250. Folha p 466.) de uma fazenda que declaravam ser sua, compreendendo entre (...) setecentos a oitocentos braças da guarita mais ou menos (...) (ARQUIVO NACIONAL. Livro de Notas n 250. Folha p 466.). O tabelião Fialho Junqueira que passou a escritura de compra e venda (...) de umas terras na fazenda (...) no livro de notas não pareceu ter demonstrado quaisquer reações negativas quanto a falta de precisão na descrição do objeto dessa alienação. O comprador Vicente Ferraz também não desistiu de comprar o imóvel. Essa e outras alienações imprecisas foram coetâneas de escrituras de compra e venda e anúncios nos classificados de jornais nas quais a propriedade era bem delimitada. Em 1867, Agostinho Pinto de Miranda Leão Lins e sua mulher Dona maria Júlia Leão Lins venderam um terreno a João Manuel com ( ) termos de oito braças de um terreno na rua lateral com vinte nove datas de fundos (...) (ARQUIVO NACIONAL. Livro de Notas n p 97.). Assim, podemos pensar na existência de diferentes formas de se relacionar com os imóveis na segunda metade do XIX. Essas diferentes formas de se relacionar com a propriedade estavam ligadas a lógicas de mercados distintas. Retornando a nossa pesquisa, precisaríamos nos perguntar: 1) Qual era a posição em sociedade daqueles que descreviam de forma imprecisa os domínios nas escrituras no Rio de Janeiro e em Itajaí? 2) Essas pessoas transcreveram essas seus contratos ou sua estratégia foi 9

10 deixar de produzir uma documentação na qual o domínio deveria ser mais bem definido? 3) O que podemos dizer de quem buscava descrever precisamente as terras alienadas? 4) Comparando com o conhecimento que temos do número de transcrições no território nacional, foram realizadas muitas ou poucas transcrições em cada município estudado? 5) Como esses dados se relacionam com o contexto de conflito agrário de cada localidade? Já pudemos perceber que alguns estadistas imperiais questionavam a subutilização de alguns dispositivos da norma em determinadas localidades. Ao avançarmos na nossa pesquisa, poderemos ter mais subsídios para pensar o contexto dessas críticas. Assim, possivelmente saberemos se os conflitos sobre a ideia de propriedade e lógica de mercado também estiveram presentes, ainda que em novos, na aplicação da Lei Hipotecária de BIBIOGRAFIA; ARQUIVO NACIONAL. Livro de Notas n BOURDIEU, Pierre. Economia das trocas simbólicas. Perspectiva: São Paulo, A economia das trocas lingüísticas. EDUSP: São Paulo, BRASIL. Relatórios do Ministério da Justiça CARVALHO, José Murilo. Teatro das sombras. Civilização brasileira, Rio de Janeiro, CHALHOUB, Sidney. Machado de Assis Historiador. Cia das Letras: São Paulo, CONGOST, Rosa. Tierras, leyes, historia: estudos sobre La gran oba de la propriedad. Barcelona: Critica, FREITAS, Augusto Teixeira de. Consolidação das Leis Civis. 2ª ed. Mais aumentada. Typ Universal de Laemmert: Rio de Janeiro

11 GARCIA, Lysippo. O registro de imóveis. Livraria Francisco Alves: Rio de Janeiro, GARCIA, Graciela Bonassa. Terra, Trabalho e propriedade: A estrutura agrária da Campanha rio-grandense nas décadas finais do período imperial ( ). Tese de doutorado. PPGH- UFF. Niterói, GROSSI, Paolo. A propriedade e as propriedades na oficina do Historiador. IN: História da propriedade & Outros Ensaios. Renovar: Rio de Janeiro, MATTOS, Ilmar Rohloff. O tempo Saquarema. Rio de Janeiro: Acess, MOTTA, Márcia Menendes. Teixeira de Freitas: da posse e do direito de possuir. IN: Revista da Faculdade de Direito de Campos. Ano VI, n 7, dezembro Nas fronteiras do poder: conflitos e direito à terra no Brasil do século XIX. Vício de leitura: Rio de Janeiro, MUAZE, Mariana de Aguiar F. O Império do Retrato: família, riqueza e representação social no Brasil Oitocentista ( ). [Tese UFF]: Niterói, NEEDELS, Jeffrey D. Formação dos partidos políticos no Brasil da Regência a conciliação ( ). IN: Almanack braziliense. São Paulo, n o 10, novembro, The party of order. The Conservatives, the State, and Slavery in the Brazilian Monarchy, Stanford: Stanford University Press, SMITH, Roberto. A propriedade da terra e transição: estudo da formação da propriedade privada e transição para o capitalismo no Brasil. Brasiliense: São Paulo, STEIN, Stanley J. Grandeza e decadência do Café no vale do Paraíba. Brasiliense: São Paulo,

12 TORRES, Manoel Martins. Lei Hypothecaria: Lei n de 24 de setembro de 1864 e Decreto n 3453 de 26 de Abril de 1865, completamente annotada. Editor A. A. da Cruz: Rio de Janeiro, RODRIGUES, Pedro Parga. O Império das leis e a jurisprudência sobre a propriedade. [dissertação do PPGH-Unirio]: Rio de Janeiro, SALLES, Ricardo. Nostalgia Imperial: A formação da identidade nacional no Brasil do Segundo Reinado. Rio de Janeiro: Topbooks, E o Vale era o escravo. Vassouras - Século XIX. Senhores e escravos no coração do Império. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, VARELA, Laura Beck. Das Sesmarias à propriedade moderna: um estudo de história do direito brasileiro. Renovar: Rio de Janeiro,

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