ESCOLA DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DO MINIJO CURSO DE DIREITO CADEIRA OPCIONAL RECURSOS E PROCESSOS ESPECIAIS ANO LECTIVO º ANO 2º SEMESTRE

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1 ESCOLA DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DO MINIJO CURSO DE DIREITO CADEIRA OPCIONAL RECURSOS E PROCESSOS ESPECIAIS ANO LECTIVO º ANO 2º SEMESTRE 6 de Junho de 2006 Nome: N.º Leia atentamente as questões que se seguem e, só depois, responda às mesmas de forma objectiva, clara e concisa fazendo, sempre, referência a todos os preceitos legais que justificam as respostas. O tribunal de Braga proferiu, em 31 de Março de 2006 no processo nº 1111/05 que correu termos no 2º Juízo Cível, a seguinte sentença no âmbito da acção declarativa que Filipe instaurou contra José e Frederico: A acção é julgada provada e procedente e, em consequência, declarado resolvido o contrato de arrendamento comercial celebrado entre aquele e José e Frederico em Maio de 2000, em virtude de o mesmo se encontrar encerrado, consecutivamente, há mais de um ano, condenando, estes últimos, a entregar o locado a Filipe, no prazo de 30 dias a contar do trânsito em julgado da sentença, devoluto de pessoas e bens. Julga-se, ainda, parcialmente procedente o pedido reconvencional deduzido pelos RR, condenando o A. a pagar aos RR. a quantia de que foi o valor de benfeitorias apurado em sede instrutória. 1. Sabendo que o valor do pedido reconvencional deduzido pelos RR. foi de 8.500,00, tomando em consideração as regras processuais que conduzem ao valor do pedido principal daquela acção, bem como as várias decisões desfavoráveis contidas nas diversas partes da sentença proferida e admitindo que, quer Filipe, quer o José e Frederico pedem aos seus respectivos mandatários para interpor recurso, apure se os mesmos são admissíveis. (3 valores) - No caso sub iudice, a acção principal é uma acção de resolução de um contrato de arrendamento comercial, com fundamento no disposto na alínea h) do n.º 1 do art. 57.º do RAU 1

2 e na alínea d) do n.º 2 do art º do Cc (redacção dada pela Lei n.º 6/2006, de 27 de Fevereiro, com entrada em vigor no dia 28 de Junho de 2006); - As decisões judiciais são impugnáveis por meio de recursos (art. 676.º CPC); - Tipos de recursos: recursos ordinários e recursos extraordinários; - Pretendendo as partes impugnar uma sentença que julgou do mérito da causa, deve ser interposto um recurso de apelação (arts. 691.º e ss CPC); - Análise dos pressupostos específicos dos recursos: i) Recorribilidade (art. 678.º CPC): - Em regra, apenas é admissível a interposição do recurso quando o valor da acção excede a alçada da 1.ª instância (art. 24.º da LOFTJ) e, além disso, se verifique a regra da sucumbência, ou seja, a parte vencida tem de decair em valor superior a metade da alçada da 1.ª instância; - Nas acções de despejo, o valor da acção é determinado pelo critério previsto no n.º 1 do art. 307.º CPC ( 550,00 x 12 meses = 6.600) - Sendo deduzida reconvenção, o valor de pedido formulado pelo réu soma-se ao valor do pedido deduzido pelo autor, sendo que este aumento de valor só produz efeitos no que respeita aos actos e termos posteriores à reconvenção ou à intervenção; - Tendo os réus deduzido um pedido reconvencional no valor de 8.500, o valor da acção, após a dedução desse pedido na respectiva contestação, passou a ser de ,00. - Nos termos dos arts. 460.º a 462.º CPC + 24.º da LOFTJ, esta acção, tendo em conta o seu valor, seguiu, inicialmente, forma sumária, mas, após a dedução do pedido reconvencional, passou a seguir forma ordinária (art. 308.º, n.º 3 CPC); - Assim, uma vez que o valor da acção excede a alçada do tribunal da 1.ª instância e se verifica a regra da sucumbência (art. 678.º, n.º 1 CPC), esta decisão judicial é passível de impugnação através de recurso. 2

3 - No caso em apreço, não é aplicável a regra especial prevista no n.º 5 do art. 678.º CPC, uma vez que não está em causa um contrato de arrendamento para habitação, mas sim um contrato de arrendamento comercial; - Todavia, nos termos do n.º 1 do art. 57.º do RAU (Do arrendamento urbano em geral), a acção de despejo admite sempre recurso para a Relação, independentemente do valor da causa. ii) Tempestividade (art. 685.º, n.º 1 CPC): - O recurso deve ser interposto no prazo de 10 dias a contar da notificação da decisão objecto de impugnação. iii) Legitimidade ad recursum (art. 680.º CPC) - O recurso, em regra, pode ser interposto pela parte que tenha ficado vencida na causa (art. 680.º, n.º 1 CPC); Assim: - Filipe pode recorrer através de um recurso de apelação porque a decisão é recorrível (art. 678.º, n.º 1 CPC e 57.º, n.º 1 RAU), ficou vencido quanto ao pedido reconvencional (pagamento de 6.000) e deve interpor o recurso de apelação no prazo de 10 dias a contar da notificação da sentença; - José e Frederico podem também interpor um recurso de apelação uma vez que a decisão é recorrível dado que excede a alçada da 1.ª instância e se verifica a regra da sucumbência (art. 678.º, n.º 1 CPC), têm legitimidade dado que ficaram vencidos totalmente em relação ao pedido principal e parcialmente quanto ao pedido reconvencional (art. 680.º, n.º 1 CPC) e devem interpor o recurso no prazo de 10 dias a contar da notificação da sentença (art. 685.º, n.º 1 CPC). 3

4 2. Em caso afirmativo, elabore, no espaço que se segue, a peça processual de interposição do recurso de Frederico e José. (2 valores) Proc. n.º 1111/05 2.º Juízo Cível Exmo. Sr. Juiz de Direito do Tribunal Judicial da Comarca de Braga Frederico e José, na acção com processo comum ordinário que lhes move Filipe, não podendo conformar-se com a douta sentença proferida nestes autos, dela pretendem interpor recurso para o Tribunal da Relação de Guimarães. Por estarem em tempo e possuírem legitimidade, requerem seja admitido o presente recurso, que é de apelação (art. 691.º CPC), com efeito suspensivo [art. 57.º, n.º 2 RAU] e com subida nos próprios autos. JUNTA: Documento comprovativo da notificação ao mandatário do apelado e duplicados legais. 3. Sabendo que, tanto o autor como os réus foram notificados daquela sentença por carta registada em 3 de Abril de 2006, determine o último dia do prazo, sem multa, para recorrer. (2 valores) - Prazo peremptório para interposição do recurso: 10 dias (art. 685.º CPC); - Notificação por via postal registada (art. 254.º, n.º 1 do CPC); - A notificação por via postal registada presume-se feita no 3.º dia após o registo, mas, não sendo este um dia útil, o seu termo transfere-se para o 1.º dia útil seguinte; - O 3.º dia após o registo é o dia 6 de Abril (5.ª feira); - Art. 279.º, b) Cc o dia em que ocorre o evento não se conta, pelo que o prazo para a interposição do recurso começa a correr no primeiro dia seguinte (estando em curso um período de férias judiciais, o prazo começa a correr no dia 7 de Abril; - Art. 144.º, n.º 1 o prazo conta-se de forma contínua, suspendendo-se nas férias judiciais (art. 12.º da LOFTJ), salvo quando esteja em causa um procedimento urgente ou um prazo superior a 6 meses; - Art. 12.º da LOFTJ: as ferias judiciais decorrem desde Domingo de Ramos a 2.ª Feira de Páscoa, ou seja, desde 9 a 17 de Abril; - O prazo suspende-se no dia 9 de Abril e recomeça a contar no dia 18 de Abril; 4

5 - O prazo, sem multa, termina no dia 25 de Abril (5.ª feira) - Uma vez que dia 25 de Abril é feriado, o termo do prazo transfere-se para o primeiro dia útil seguinte, ou seja, para o dia 26 de Abril (6.ª feira). 4. Alteraria parte da resposta dada à questão nº 1 se a sentença tivesse condenado o A. A pagar aos RR. o valor de 5.000,00 de benfeitorias? Justifique. (2 valores) - Os réus deduziram um pedido reconvencional no valor de 8.500,00, tendo o tribunal judicial de Braga julgado esse pedido parcialmente procedente e, em consequência, condenado Filipe no pagamento de 5.000; - Assim, os réus, quanto ao pedido reconvencional, ficaram vencidos em 3.500,00; - Na questão 1., os réus podiam interpor recurso apenas quanto à procedência do pedido principal (despejo do locado), e não quanto ao decaimento parcial no pedido reconvencional; - No caso em concreto, passa a ser admissível a interposição de um recurso de apelação quanto ao decaimento no pedido reconvencional, uma vez que o valor da acção é superior à alçada da comarca e, por outro lado, verifica-se a regra da sucumbência, ou seja, os réus ficaram vencidos ( 3500) em mais de metade do valor da alçada da 1.ª instância ( 3.740,98); - Assim, estando em causa uma decisão final sobre o mérito da causa, pode este decaimento ser apreciado juntamente com o recurso de apelação, com efeito suspensivo e subida imediata e nos próprios autos interposto da sentença final (arts. 691.º e ss CPC) 5. Partindo da hipótese vertida na questão anterior considere que os RR. interpuseram recurso da parte da sentença que declarou resolvido o contrato de arrendamento e que os condenou a entregar o locado ao A., no último dia da multa para o efeito. Poderá o A., ainda, recorrer da sentença que o condenou a pagar 5000 euros aos RR. a título de benfeitorias? Corno e dentro de que prazo? (1,5 valor) - Os réus interpuseram recurso de apelação de parte da sentença que julgou do mérito da causa (arts. 691.º e ss CPC); - O objecto do recurso foi delimitado objectivamente pelos réus quanto a uma das decisões da sentença (art. 684.º, n.º 2 do CPC); 5

6 - Ambas as partes ficaram vencidas na causa: o autor quanto à condenação parcial no pedido de indemnização pelas benfeitorias realizadas e os réus pela condenação no despejo e pelo decaimento parcial em relação ao pedido de indemnização pelas benfeitorias realizadas; - Ficando ambas as partes vencidas, qualquer uma delas pode interpor um recurso (independente) de apelação (arts. 691.º e ss CPC); - No caso em concreto, uma vez que os réus interpuseram o recurso de apelação no último dia de multa, sendo que o autor se conformou com o desfecho da lide, este poderá ainda reagir pela interposição de um recurso subordinado; - Distinção entre recurso principal e recurso subordinado; - O recurso subordinado pode ser interposto no prazo de 10 dias a contar da notificação do despacho que admitiu o recurso dos réus apelantes (art. 682.º, n.º 2 CPC); CPC). - Dependência do recurso subordinado em relação ao recurso principal (art. 692.º, n.º 3 6. Em virtude do recurso interposto pelos RR., terá a sentença proferida adquirido eficácia? Justifique. (1,5 valor) - Efeitos extraprocessuais das decisões judiciais: efeito suspensivo e efeito devolutivo; - Possibilidade de execução provisória das decisões judiciais objecto de recurso com efeito meramente devolutivo; CPC); - O recurso de apelação, em regra, tem efeito meramente devolutivo (art. 692.º, n.º 1 - No caso em concreto, não se aplica a regra especial prevista na alínea b) do n.º 2 do art. 692.º do CPC, uma vez que não está em causa um contrato de arrendamento urbano para habitação; - Todavia, nos termos do n.º 2 do art. 57.º do RAU, a apelação interposta de sentença que decrete o despejo tem efeito suspensivo; 6

7 - Tendo o recurso de apelação efeito suspensivo, a sentença não pode ainda ser executada enquanto o tribunal superior não se pronunciar sobre o recurso dela interposto. 7. Imagine, agora, que Filipe não apresentou alegações no recurso interposto na questão anterior. Quid iuris? (2 valores) - Sendo admitido o recurso de apelação, o recorrente deve apresentar as suas alegações no prazo de 30 dias a contar da notificação do despacho de recebimento do recurso (arts. 690.º, n.º 1 e 698.º, n.º 2 CPC); - Não sendo apresentadas as alegações por Filipe (o qual interpôs um recurso subordinado), o recurso deve ser julgado deserto (art. 690.º, n.º 3 CPC); - Sendo este um recurso subordinado em relação ao recurso principal, a deserção deste recurso subordinado não afecta a apreciação do recurso principal; - Apenas se o recurso principal ficasse deserto, tal situação prejudicaria a apreciação do recurso subordinado (o recurso subordinado caduca), uma vez que este depende daquele (art. 682.º, n.º 3 CPC). 8. Terão os RR. à sua disposição algum expediente processual que lhes permita diferir a eficácia da decisão recorrida? Elabore o requerimento que tenha por fim atingir este objectivo dos RR. (2 valores) - Em regra, o recurso de apelação tem efeito meramente devolutivo (art. 692.º, n.º 1 CPC), ou seja, a decisão impugnada pode ser executada enquanto o recurso é (paralelamente) apreciado; - No caso e concreto, o recurso de apelação tem efeito suspensivo por força do n.º 2 do art. 57.º do RAU; - Todavia, se este recurso tivesse efeito meramente devolutivo, os réus poderiam requerer, na interposição do recurso, que a apelação tivesse efeito suspensivo, desde que; 1) alegassem que a execução da sentença lhes causaria um prejuízo considerável (ex. necessidade de remoção do estabelecimento comercial, com os inerentes prejuízos em virtude da cessação da sua actividade); 7

8 2) se oferecessem para prestar caução (ficando a atribuição ao recurso de efeito suspensivo condicionada à respectiva prestação de caução no prazo fixado pelo tribunal). 9. Considere, agora, durante o julgamento, Filipe havia sido condenado pelo tribunal a pagar uma multa pela apresentação tardia de um documento e, não se conformando com aquela decisão, dela interpôs em tempo o respectivo recurso. Determine o tipo de recurso que terá sido interposto por Filipe, bem como o seu modo de subida e efeitos. (2 valores) - No caso em concreto, Filipe pretende interpor recurso de uma decisão judicial que o condenou no pagamento de uma multa em virtude da apresentação tardia de um documento (art. 523.º, n.º 2 do CPC); - Esta decisão não julgou do mérito da causa (trata-se de uma questão processual); - Assim, não é possível interpor um recurso de apelação; - Os recursos de agravo são interpostos das decisões de que não se possa apelar (carácter subsidiário ou residual dos recursos de agravo) art. 733.º CPC; - O recurso de agravo tem efeito suspensivo [art. 740.º, n.º 2, b) CPC] e sobe a final (de modo diferido) com o primeiro recurso que haja de subir imediatamente uma vez que não se verifica nenhuma das situações previstas no art. 734.º CPC [art. 735.º, n.º 1 CPC]. 10. Ainda tomando em consideração a hipótese precedente, admita ainda que a sentença final deu total vencimento de causa a Filipe e, não tendo considerado provadas as benfeitorias alegadas pelos RR., declarou totalmente improcedente a reconvenção por estes deduzida. Determine os efeitos que esta decisão terá no recurso interposto por Filipe ao qual se refere a questão anterior. (2 valores) - Tendo a acção proposta por Filipe sido julgada totalmente procedente, Filipe não poderá interpor recurso da sentença final, uma vez que não ficou vencido (art. 680.º, n.º 1, a contrario); - Tendo os réus ficado vencidos na acção, estes poderão interpor recurso de apelação desta sentença, sendo que, se o fizerem, o recurso de agravo entretanto interposto por Filipe subirá com o recurso de apelação interposto pelos réus (art. 735.º, n.º 1 do CPC); 8

9 - Ainda que os réus não interponham recurso de apelação da sentença final, o recurso de agravo entretanto interposto fica, em regra, sem efeito, salvo se tiver interesse para o agravante (Filipe) independentemente daquela decisão; - Assim, verificando-se o interesse do agravante nesse recurso, o recurso de agravo subirá depois da sentença final transitar em julgado (art. 677.º CPC), desde que o agravante o requeira no prazo de 10 dias (art. 735.º, n.º 2, 2.ª parte CPC). Tempo: 2 horas e tolerância de 15 minutos 9

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