Comissão Parlamentar de Saúde. Audição da Ordem dos Farmacêuticos

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1 Comissão Parlamentar de Saúde Audição da Ordem dos Farmacêuticos Sessão de 17 de Janeiro de 2012 Intervenção inicial do Bastonário Carlos Maurício Barbosa Senhora Presidente da Comissão Parlamentar de Saúde, Senhoras e Senhores Deputados, Com a mais elevada consideração, gostaria de começar por cumprimentar V.Exas e realçar a importância que atribuímos à nossa presença nesta Comissão Parlamentar, por todas as razões, e sobretudo porque temos plena consciência de quanto dependemos do Poder Legislativo, para a prossecução dos fins e da missão da Ordem dos Farmacêuticos, em prol da saúde dos portugueses. Entendo que todos temos o dever de, continuamente, recriar um melhor sistema de saúde, colocando o cidadão no centro dos nossos objectivos e prioridades. Da parte da Ordem dos Farmacêuticos, Senhoras e Senhores Deputados, o Parlamento poderá contar com posições fundamentadas, construtivas e oportunas, que sempre defenderemos, em nome da Ordem, com a lealdade e a firmeza que o espírito de diálogo e o sentido de responsabilidade impõem. 1

2 Posição da Ordem dos Farmacêuticos sobre a Prescrição de medicamentos por DCI A Ordem dos Farmacêuticos defende há vários anos a instituição da obrigatoriedade da prescrição de medicamentos pela Denominação Comum Internacional (DCI) das substâncias activas que contêm. Porque considera que é uma medida estrutural e de grande alcance económico para os portugueses, para o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e para as finanças públicas. A prescrição por DCI promove a transparência na prescrição médica e cultiva o empowerment dos doentes na sua livre escolha entre medicamentos equivalentes. E a instituição plena da prescrição por DCI muito contribuirá para a promoção dos medicamentos genéricos em Portugal, com todas as vantagens económicas, quer para os cidadãos, quer para o País, que daí advêm. Esta é, aliás, a prática habitual nos hospitais. Apenas no ambulatório têm sido colocadas reservas quanto à sua adopção, a meu ver indevidas e infundadas. Surpreendentemente, nunca chegou a ocorrer a plena aplicação prática da medida no ambulatório, seja por divergências políticas, por instabilidades de governo, por erros de forma ou por pressões externas conservadoras do status quo. Mas, obviamente, a instituição da prescrição e dispensa de medicamentos por DCI em Portugal é inevitável. Mais cedo ou mais tarde terá de acontecer. Temos, sucessivamente, adiado a questão, sabendo todos que é inevitável. Até mesmo os que a tentam contrariar, usando os mais variados expedientes, sabem bem que a estão a contrariar apenas durante mais algum tempo. Têm um sucesso efémero que, todavia, se alonga talvez até para além das suas melhores expectativas. 2

3 Mas, lamentavelmente, uma coisa já é certa. Os sucessivos adiamentos da instituição plena da prescrição por DCI em muito têm penalizado o País e os cidadãos, impossibilitando muitas vezes o acesso do doente ao medicamento mais barato. Após mais de 20 anos repletos de declarações de intenções e não obstante o facto de esta medida, invariavelmente, ter feito parte dos programas eleitorais dos partidos políticos e também dos programas dos sucessivos governos, tem sido prejudicada por muita timidez na sua implementação. Sendo uma medida que gera unanimidade entre os partidos, paradoxalmente a sua aplicação plena tem sido sucessivamente adiada. Tem faltado a decisão política, pois as bases técnico-científicas estão asseguradas. Isto mesmo é garantido pelos especialistas e pelas autoridades reguladoras. E não se actuando na raiz do problema, foi-se adoptando medidas circunstanciais e casuísticas. Nos últimos 10 anos, foram tomadas 56 medidas legislativas de promoção dos medicamentos genéricos mas os resultados são muito modestos. Agora é a própria troika que afirma que Portugal tem de aumentar fortemente a quota de medicamentos genéricos, encontrando-se este objectivo inscrito no memorando de entendimento. Finalmente, parece que agora estão reunidas condições para a efectiva implementação da medida. Em consonância com o programa do actual Governo, que preconiza consagrar como regra a prescrição por DCI, conforme o estipulado no Memorando de Entendimento, em Outubro passado o Ministro da Saúde levou a cabo, com grande determinação, um processo de diálogo que deu origem à proposta de Lei apresentada pelo Governo à Assembleia da Republica e que esta aprovou na generalidade. Também os partidos da oposição apresentaram projectos de Lei sobre a matéria, de igual modo aprovados na generalidade. Mais uma vez ficou claro o elevado grau de consenso da medida. Da nossa parte, Senhora Presidente e Senhores Deputados, esperamos que seja desta vez que, em definitivo, é instituída em Portugal a obrigatoriedade da prescrição de medicamentos pela DCI, em toda a sua plenitude. 3

4 Nos pareceres que a Ordem dos Farmacêuticos emitiu sobre a proposta de Lei do Governo realçamos positivamente o facto de esta consagrar a liberdade de opção do doente quanto ao seu medicamento (num leque de bioequivalência), para o que contará, naturalmente, com o apoio e o aconselhamento do seu farmacêutico. Sempre com base na prescrição médica. Obviamente. Entendemos que a acessibilidade ao medicamento pode e deve melhorar com o reforço do poder de intervenção dos farmacêuticos e do poder de decisão dos doentes. Os farmacêuticos têm conhecimento, competência técnico-cientifica, proximidade da população e obrigações deontológicas que lhes permitem apresentar ao doente as diferentes possibilidades que existem para concretizar a decisão farmacoterapêutica do médico. O doente deve ter a possibilidade de escolher entre medicamentos bioequivalentes e, se assim o entender, poupar dinheiro. Por isso mesmo, defendemos, tal como figura na proposta de Lei do Governo, que: as farmácias devem ter sempre disponíveis para venda no mínimo três medicamentos com a mesma substância activa, forma farmacêutica e dosagem, de entre os que correspondem aos cinco preços mais baixos de cada grupo homogéneo e que no acto de dispensa de medicamentos, o farmacêutico, ou o seu colaborador devidamente habilitado, deve informar o utente da existência de medicamentos genéricos com a mesma substância activa, forma farmacêutica, apresentação e dosagem do medicamento prescrito, comparticipados pelo SNS e sobre aquele que tem o preço mais baixo disponível no mercado. E defendemos também que: o utente tem direito a optar por qualquer medicamento com a mesma substância activa, forma farmacêutica e dosagem constante da prescrição médica. E, por fim, que: o exercício de opção [pelo doente] pode ocorrer se o medicamento prescrito tiver preço superior ao preço de referência e implica que o doente assine a receita médica. 4

5 Após a prescrição médica, o farmacêutico é um elemento de continuidade no processo farmacoterapêutico, apoiando o doente em todas as vertentes relacionadas com o uso dos medicamentos, sejam genéricos ou de marca. Desde logo, promovendo a adesão do doente à terapêutica. E, neste domínio, assume especial importância o apoio na escolha entre medicamentos bioequivalentes, tendo em conta, entre outros aspectos, o preço dos diferentes medicamentos existentes no mercado. No momento da dispensa, o farmacêutico presta ao doente todas as informações sobre o medicamento, com o objectivo de promover a sua correcta utilização e uso racional e contribuir para que sejam alcançados os outcomes (resultados) clínicos desejados. O sistema em que temos vivido, em que alguns médicos, através de uma simples cruz, bloqueiam as receitas, impedindo os cidadãos e o Estado de usufruir dos benefícios dos genéricos, não é aceitável, já que é desprovido de qualquer fundamento técnico-científico. Obviamente que o médico poderá, em casos concretos, prescrever um determinado medicamento de marca, julgo mesmo que deverá ter essa possibilidade, mas se, e só se, houver razões de natureza clínica para o efeito, devendo escrever as justificações na receita. Mas serão sempre situações de excepção a regra deve ser a prescrição por DCI, tal como figura no programa do Governo e na sua proposta de Lei. Devemos caminhar para um modelo em que não faça sentido falar em substituição de medicamentos. No momento da consulta, o médico toma uma decisão farmacoterapêutica, que inscreve na receita. Subsequentemente, essa sua decisão é materializada na farmácia através da dispensa de um medicamento, efectuada em total concordância com a receita médica. Entendemos que cabe ao doente, contando com o apoio técnico-científico do farmacêutico, tomar a decisão sobre a escolha do seu medicamento, à luz do princípio da bioequivalência. 5

6 Em matéria de qualidade, segurança e eficácia dos medicamentos e, por conseguinte, também dos genéricos, nunca é demais referir que Portugal integra o sistema europeu de avaliação e supervisão de medicamentos, que é um sistema robusto, rigoroso e exigente e que permite que as autoridades a Agência Europeia do Medicamento, no contexto europeu, e o Infarmed, no contexto nacional garantam aos cidadãos e aos profissionais de saúde a qualidade, segurança e eficácia de todos os medicamentos e, no caso dos genéricos, garantam ainda a sua bioequivalência. Somente por desconhecimento do relevantíssimo papel do Infarmed nesta matéria ou por motivos relacionados com interesses obscuros e não declarados ou por má-fé é que se pode levantar suspeições. Colocar em dúvida esta garantia técnica é, por si só, uma grave irresponsabilidade, porque fere o âmago reputacional de todo o sistema de saúde. É minar a confiança relativamente ao trabalho de peritos nacionais e internacionais, médicos e farmacêuticos, que têm a enorme incumbência de assegurar aos cidadãos que os medicamentos que estão no mercado têm qualidade e são seguros e eficazes. A prescrição de medicamentos por DCI, e não por marca comercial, para além de ser a mais adequada no plano técnico-científico e ser recomendada pela Organização Mundial de Saúde, constitui, como já referi, um factor determinante na promoção dos medicamentos genéricos, permitindo gerar grandes poupanças. Os medicamentos genéricos constituem uma ferramenta importante, e até mesmo indispensável, em qualquer sistema de saúde, como sucede em inúmeros países desenvolvidos, permitindo poupanças muito significativas, quer ao Estado, quer aos doentes, favorecendo a acessibilidade dos doentes aos medicamentos e propiciando melhores condições de sustentabilidade ao SNS. Uma vez que os recursos económicos são escassos, é evidente a necessidade de se promover, cada vez mais, a sua gestão racional. 6

7 E os recursos libertados pela utilização de medicamentes genéricos poderão, em grande parte, ser susceptíveis de uma realocação para permitir o acesso dos doentes às inovações terapêuticas (por exemplo, na área do cancro), que, de um modo geral, são dispendiosas. E também para o investimento em tecnologias de diagnóstico e para a implementação de campanhas de prevenção da doença e promoção de estilos de vida saudáveis, em que os farmacêuticos desempenham um papel insubstituível. Contrariamente a algumas correntes de pensamento, entendemos que a existência de medicamentos genéricos é perfeitamente compatível com a investigação e o desenvolvimento de novos medicamentos. A actual quota de mercado dos medicamentos genéricos em Portugal é ainda modesta, quando comparada com os valores verificados noutros Estados-membros da UE e nos EUA. Em prol dos famílias portugueses, que, em termos relativos, assumem os maiores encargos com medicamentos na UE, e também em prol da sustentabilidade do SNS, devem ser adoptadas medidas estruturais, e não meramente conjunturais, que promovam efectivamente o acesso aos medicamentos genéricos. Com toda a certeza, a prescrição obrigatória dos medicamentos por DCI virá dar um novo impulso aos medicamentos genéricos no nosso país. Muito obrigado Senhor Presidente e Senhoras e Senhores Deputados pelo tempo que me foi concedido e pela atenção que me foi prestada. Tenho agora muito gosto em responder às questões que V.Exas entenderam colocar. 7

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