CINCO OBSERVAÇÕES SOBRE UMA RESENHA

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1 CRÔNICAS E CONTROVÉRSIAS Neste número, a seção Crônicas e Controvérsias apresenta dois textos: o primeiro, de Sírio Possenti, acerca da resenha do livro de Alice Krieg- -Planque A noção de fórmula em análise do discurso: quadro teórico e metodológico, assinada por Eduardo Alves Rodrigues e Gabriel Leopoldino dos Santos e publicada no número 25 da Revista; o segundo, a resposta dos autores da resenha à crítica de Possenti. Como política da revista, no caso de comentário sobre texto publicado por ela, o autor é convidado a dar sua posição, se quiser, sobre os comentários feitos. A publicação conjunta dos dois textos possibilita ao leitor a exposição a um franco debate de ideias, inscrito no campo da Análise de Discurso. CINCO OBSERVAÇÕES SOBRE UMA RESENHA Sírio Possenti Unicamp / CNPq / FEsTA Eduardo Alves Rodrigues e Gabriel Leopoldino dos Santos publicaram uma resenha de A noção de fórmula em Análise do Discurso: quadro teórico e metodológico, São Paulo, Parábola Editorial, 2010, no número 25 desta Revista Línguas e Instrumentos Lingüísticos. Duas observações são obrigatórias: a primeira é que não se trata de resenha laudatória, como tem sido a quase totalidade delas; a segunda é que a apresentação da obra é competente, o que não é nada banal (sei bem que obter esse resultado não é fácil; tentei fazer uma apresentação do livro em uma espécie de conferência de duas horas, e quase tudo ficou na sombra; em outra ocasião, dediquei 18 horas de um curso de pós- -graduação a sua leitura, e tenho certeza de ter ficado devendo). Apesar da boa apresentação da obra, pareceu-me que o final da resenha merece alguns comentários. Para facilitar pelo menos a minha tarefa, talvez também a do leitor, cito o referido trecho, em itálico, dividido em cinco partes, que, em seguida, comento. Nesse trabalho, como mostramos, Krieg-Planque dá pouca visibilidade às suas próprias análises, àquelas que encontramos em sua tese de doutorado, bem como no livro dela decorrente. 149

2 Quem leu a apresentação do livro deve ter descoberto que, originalmente, tratava-se de parte da tese, uma tentativa de definição do conceito que estaria no centro do trabalho posterior. Não cabia, evidentemente, tratar de seu próprio trabalho, a ser feito. Mas qualquer um pode fazer isso, e verificar se a autora foi coerente, se a concepção de fórmula apresentada funciona, se é levada em conta etc. (como numa banca, digamos). É a prova dos nove, é quando a cobra fuma. Um comentário que talvez valha a pena fazer: a autora publicou sua tese em forma de livro, mas excluiu sua introdução sobre a questão linguística fundamental. É de se perguntar se lá, como aqui, analistas de corpora basicamente textuais fazem o possível para fugir da língua, para contorná-la, se lá também acham essas coisas chatas (aparentemente, sim); tudo indica que apostam numa suposta transparência ou então se refugiam em outros domínios, imagens, por exemplo. 150 Nesse percurso, em que ela procura sistematizar um quadro teórico-metodológico que sustente a análise do que ela denomina fórmula, no âmbito dos discursos constitutivos do espaço público, a ênfase é sobre os discursos produzidos sobre a materialidade linguística, em suas múltiplas formas. Podemos perguntar se o domínio da fórmula é estritamente linguístico, uma vez compreendida como um fenômeno discursivo. Noutras palavras, parece-nos razoável justificar a necessidade de se pesquisar fórmulas que ganham circulação e que significam o social e o espaço público tendo como suporte a imagem, o som, enfim, outras materialidades significantes. Minha posição vai francamente na direção contrária à da sugestão. Não é porque a fórmula teria um papel relevante na Análise do Discurso (não a esgota, não é o corpus definitivo etc., mas teria um papel relevante) tese da autora, que, então, deve haver fórmulas por toda a parte e materializadas nas mais diversas semioses. É muito difícil que outro signo ou combinação de signos possa ser incluído entre as fórmulas (assim como eles não têm sílabas, para exagerar um pouco). Basta pensar, por exemplo, na tese de que a fórmula prototípica seria uma nominalização (como globalização) ou uma nominalização seguida de qualificação (como purificação étnica). Como fotografar ou filmar ou pintar esse fenômeno? ( Diga isso numa imagem, provocaria Millôr). Deve haver clichês em alguma outra semiose (praias com coqueiro), cenas validadas, como propostas por Maingueneau, provavelmente (Vênus saindo das águas retomada em fotos e filmes). Fórmulas? Jamais. Há especificidades em cada semiose. A língua, obviamente, tem as

3 delas, do fonema à frase, passando pela sílaba, entre outras unidades. Metáforas são relevantes e esclarecedoras (sintaxe narrativa, gramática do cinema), mas não devem servir para tornar ralos os conceitos. Não há formulas pintadas, assim como não há fotogramas falados. Talvez seja para evitar usos abusivos que Krieg-Planque propõe aproximações que permitem compreender a natureza do conceito (sentidos religioso e sagrado, jurídico, matemático etc.), assim como propõe claras distinções (topoi, aforismos, p. ex.), exatamente para evitar uma rarefação abusiva. Há fotos que circulam, que todos levam em conta e interpretam de maneira diferente? Certamente. Mas dizer que, então, e por isso, são fórmulas é como dizer que bom dia é um chiste, porque, afinal, é breve. Faça-se, no entanto, a hipótese de que há fórmulas cuja materialidade não seja linguística. Pois que sejam propostas, descritas, que seu funcionamento seja mostrado. Ao trabalho! Não há razão para esperar que a tarefa caiba a Krieg-Planque. Além disso, a leitura do trabalho instigante de Krieg-Planque nos coloca uma falta: a história. Pensada como um fenômeno discursivo, a fórmula, nesse trabalho pelo menos, é definida substancialmente em relação ao que a autora denomina atores sociais atuantes no espaço público e ao uso que esses atores fazem ou permitem das fórmulas. Primeiro, minha estranheza tem a ver com a sintaxe ( nos coloca uma falta ) - sou um sexagenário. Estranho ainda mais, no entanto, que se possa sentir esta falta depois da leitura do livro. Não há uma linha nele que não esteja explicitamente ligada à história seja à da AD, seja à dos fatos considerados. Não há exemplo comentado ou brevemente analisado que não esteja prenhe de história. Trate-se de análises invocadas como predecessoras, trate-se das breves análises cujo objetivo não é esgotar o dado, mas mostrar em que medida se caracteriza pelos traços postulados como definidores do conceito, os casos são sempre situados na conjuntura específica. É óbvio que as análises não são exaustivas (exaustiva será, talvez, a da fórmula que é objeto de sua tese; raros trabalhos são tão minuciosos, aliás). Mas acho que vislumbro a causa da estranheza. Não é a história que faz falta, é uma declaração ritual de que o trabalho se inscreve numa vertente que a considera crucialmente. A declaração tem sido comum em muitos trabalhos que iniciam com esse mantra, nos quais, depois, as consequências não aparecem, infelizmente. Em vez de fazer uma declaração ou de expressar uma adesão (mas também isso ocorre, e em relativa abundância, embora não segundo fórmulas consagradas), Krieg- 151

4 -Planque faz o trabalho. Parafraseando Camões, é melhor fazê-lo sem dizer do que dizê-lo sem fazer. 152 Metodologicamente, a autora não explicita de forma suficiente em que medida esses usos são ou não historicamente determinados, ou seja, em que medida as condições de produção dessas fórmulas permitem certos usos e não outros, independentemente da vontade e do controle desses atores sociais. A leitura, com isso, nos faz perguntar pelo efeito do político sobre o modo como a fórmula significa o espaço público. Não se trata de uma questão metodológica. É uma questão teórica fundamental. E que não está de forma alguma ausente. Sugiro uma (re) leitura do livro. Linha por linha. Pode-se perceber (é como se tem analisado, frequentemente) que, para cada caso, se explicitam os atores que estão agindo em cada posicionamento e de que lugares vêm as diversas interpretações. Talvez baste, para convencer-se disso, considerar o caso em que enunciadores bem determinados resistiram à enunciação de certa palavra (negociação), enquanto os que estavam do outro lado pressionaram exatamente para que ela, aquela palavra exata (e não qualquer outra, equivalente ), fosse proferida. No que foram bem sucedidos. O que mostra, aliás, que há circunstâncias em que os enunciadores sabem muito bem que devem ou que não devem proferir certas palavras (em sua temível materialidade ). Os analistas não são os únicos a ter alguma consciência em relação a elas. Há, ainda, um ponto em que a leitura do trabalho de Krieg-Planque é produtiva à reflexão: ao compreender a fórmula como um conjunto de formulações e, ao mesmo tempo, dado seu caráter de referente social, como signo partilhado por todos, estaria a autora postulando a fórmula como o lugar do sentido o lugar da questão do debate? É um pouco estranho que esta pergunta surja no final de um resumo bem feito do livro (os sentidos não são literais, é verdade, mas Pêcheux insiste tanto nesta tese quanto combate as tentações de ceder a uma pragmática insensível às particularidades da língua ). O que faz o artigo definido em o lugar do sentido e em o lugar da questão do debate (aliás, não deveria ser simplesmente o lugar do debate?)? Como se pode imaginar que o livro sugira que a fórmula seja o lugar do sentido? Tentarei responder, pensando ser fiel ao livro: a fórmula não é nenhuma das duas coisas, segundo a autora. A pergunta não faz justiça ao

5 livro. O que a obra propõe é que a fórmula é um lugar que condensa discursos (daí seu importante papel metodológico) e debates, polêmicas, tensões entre discursos, ligados a diferentes formações discursivas. Isto é, que muitas disputas interdiscursivas visando ao controle do sentido se fazem visivelmente em torno destes elementos salientes cuja frequência é proporcional ao calor e à extensão do debate. Aliás, as fórmulas são tornadas salientes pelos próprios debates, quando não resultam exatamente deles (olha a história aí, gente!). Certamente não se pode esperar que um texto nos ofereça seus sentidos. Mas também não é legítimo dar-lhe os nossos (ou, usurariamente, só os nossos). Isto é tão verdade que grande número de trabalhos em AD continua girando em torno de palavras e/ou de pequenos enunciados. Haveria ganhos, me pareceu quando conheci o texto de Krieg-Planque (refiro- -me a este, teórico, mas há outros, um publicado no número 22 desta mesma revista) se tais dados fossem considerados fórmulas e analisados como tais, isto é, que determinadas propriedades e, principalmente, certos funcionamentos fossem levados explicitamente em conta. Finalmente: o texto em questão não se apresenta como a nova verdade. Não ameaça ninguém embora talvez provoque, especialmente pela exigência de explicitude, vale dizer, de análise. Mas é só uma tese entre outras, cuja avaliação se pode fazer em confronto com as outras e à qual se adere ou não quando se pretende fazer a análise de um certo tipo de corpus. 153

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