ESTUDO SOBRE VIVÊNCIA DO LUTO EM ADOLESCENTES E SUA MANIFESTAÇÃO EM DECORRÊNCIA DO TÉRMINO DE UM RELACIONAMENTO AMOROSO

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1 ESTUDO SOBRE VIVÊNCIA DO LUTO EM ADOLESCENTES E SUA MANIFESTAÇÃO EM DECORRÊNCIA DO TÉRMINO DE UM RELACIONAMENTO AMOROSO Autoras: Tânia Regina Goia; Maria Luísa Louro de Castro Valente Instituição: Universidade Estadual Paulista Faculdade de Ciências e Letras, Campus de Assis País: Brasil Eixo e área temática: Psicologia/La Niñez y Adolescencia en los bordes, los bordes de la Niñez y Adolescencia

2 Objetivos O objetivo do trabalho é compreender o sentido do luto na vida adolescente e como é sentido o luto pelo fim de um relacionamento e, identificar a influência familiar na vida do adolescente que acaba de passar por uma perda amorosa. À guisa de conclusão, gostaria de acrescentar que, diante dos aspectos aqui levantados, poder-se-ia pensar que, ser adolescente é muito bom, pois é bom sonhar e desejar, se apaixonar e sentir prazer em cada conquista ou reconfortar-se no fracasso da mesma. È muito bom amar e ser amado. Tropeçar e se levantar várias vezes, errar e se corrigir imediatamente e com isso ir aprendendo a conviver com as falhas. Amor é algo de ordem do imprevisível, nunca se sabe ao certo quando vai acontecer. No entanto, no mundo contemporâneo, onde as mudanças são rápidas e bruscas, não há o tempo necessário para que este discurso possa se tecer e se constituir enquanto prática amorosa. Sendo assim, conviver com o luto é uma crise que atinge não só o adolescente, mas envolve também toda a família. O adolescente manifesta o luto como resposta à quebra de um vínculo afetivo e vivenciar a dor é uma condição indispensável para o início do processo de luto. Entretanto, a perda e o luto alteram de diferentes maneiras o sistema familiar, no qual muitas vezes, não há o apoio da família para com o adolescente enlutado. Concluindo, é necessário que a família esteja presente no desenvolvimento do adolescente, englobando suas diferenças e mudanças pessoais, que possa estar ao lado apoiando-o e ajudando a superar todas as dificuldades surgidas nesta fase da vida. Adolescência O tema da adolescência não foi muito discutido por Freud, mas atualmente, é um assunto que vem apresentando um crescente espaço e chamado a atenção de diversos autores, constituindo-se pouco a pouco, como um campo de grande interesse para a Psicanálise. Entrar neste mundo dos adultos que é tanto desejado pelos adolescentes, é também muito temido, pois significa a perda definitiva da sua condição de criança. Segundo Aberastury (Aberastury; Knobel, 1981) este período é flutuante entre uma

3 dependência e uma independência extrema, cheio de contradições, confuso, ambivalente, doloroso, caracterizado por fricções com o meio familiar e social. A perda da identidade de criança implica na busca de uma nova identidade, que vai se construir num plano consciente e inconsciente. Pode-se dizer que a adolescência dura quase uma década, aproximadamente dos 12 ou 13 anos até o início dos 20 anos. Não há definição clara para seu ponto de início ou fim. Apontamos que, poderia ser aplicada ao processo adolescente a analogia de Freud (1924) que usou com referência a superação do Complexo de Édipo, ressaltando que ele chega ao fim por motivos filogenéticos, que assim como os dentes de leite caem quando os dentes permanentes começam a pressioná-los, também é chegada a sua hora. Mas Freud (1924) também examinou de igual importância, os determinantes ontogenéticos. As razões e as maneiras pelas quais a adolescência chega ao fim revelam que os aspectos psicológicos são os únicos em termos dos quais se pode definir a fase da adolescência (Blos, 1985). Adolescência X Relacionamento Amoroso Podemos destacar que não só os adolescentes, mas todos nós temos o desejo de amar e ser amado, e, portanto, reafirmamos que o adolescente vive essa fase com grande intensidade devido às várias mudanças que está ocorrendo com o mesmo. Ao analisarmos esta fase da adolescência, percebemos que é aí que ocorre o início de experiências amorosas, do sentir atração pelo outro, de se envolver afetivamente, de planejar e estruturar projetos a dois; sendo, portanto, o amor apaixonado na adolescência vivido com grande intensidade. Porém, há um fenômeno presente entre os adolescentes: o ficar, que vai se caracterizar por envolvimentos afetivos de brevindade e descartabilidade, em que o compromisso com o outro não é duradouro. Ao mesmo tempo em que o adolescente vive esse momento de forma arrebatador, apaixonado; também passa por esse momento de fluidez, como é citado por Bauman (2004) em sua obra Amor Líquido que é uma marca do comportamento na atualidade. De acordo com Blos (1985) a semelhança física ou mental com o pai e a mãe vai ser um determinante para a primeira escolha do objeto do amor heterossexual. Esses amores não são relações maduras, mas apenas rudimentos quando do deslocamento, que só se transformarão no amor maduro com a resolução progressiva do complexo de Édipo renascido.

4 Podemos observar com freqüência e facilidade, na adolescência, como o fato de apaixonar-se ou de conseguir um(a) namorado(a) traz à tona uma notável ascendência dos traços masculinos e femininos. Essa modificação significa que as tendências estranhas ao sexo foram concedidas ao outro sexo, e podem dessa forma ser partilhadas na posse mútua dos parceiros. Freud vai considerar o amor como uma idealização. A escolha amorosa seria marcada, então, pela divisão da libido entre o eu e o objeto, implicando uma supervalorização do eu ou do objeto e sendo denominada, respectivamente, narcisista e analítica (mais tarde, ligada à identificação e à idealização). Acrescenta que a paixão é justamente a alienação do desejo no objeto. Ou seja: o sujeito ama para ser amado. Família X Adolescente Pode-se dizer que a fase da adolescência apresenta um grande impacto na vida familiar. É necessário ressaltar que o processo de adolescência não afeta apenas os indivíduos que estão passando por este período, mas também as pessoas que convivem diretamente com os mesmos, principalmente a família. Como é citado por Osório (1989) o modelo que os pais oferecem hoje aos filhos adolescentes é o de caráter frio, narcisista, pouco afetivo, voltado para o culto transitório, do efêmero, e para a busca obsessiva do status material. O que alguns pais não entendem é que sem rebeldia e sem contestação não há adolescência normal. Muitas perturbações do adolescente são apenas reações adaptativas normais para as circunstâncias e o momento considerado de sua evolução ontogenética. Pode-se dizer que durante a fase da adolescência dos filhos, os pais também passam a rever sua própria adolescência e os aspectos que podem ser resgatados de uma juventude ainda presente diante de si. Eles experimentam aqui um novo período de transição, que Luisi; Filho (1997) vão batizar de Segunda Adolescência. Do ponto de vista intrapsíquico, Osório (1989) vai dizer que o comportamento dos pais diante de seus filhos adolescentes é determinado pelo grau de resolução de seus conflitos edípicos, ou seja, pelo modo como aqueles, por sua vez, se relacionaram com seus próprios pais. Relações pós-modernas Vivemos numa sociedade pós-moderna, na qual é cada vez mais freqüente o sentimento e a queixa de dificuldades de relacionamentos na vida das pessoas. A queixa comum é sentir-se só mesmo que acompanhado. De acordo com Bauman (1998) a modernidade é a impossibilidade de permanecer fixo.

5 Diariamente vivemos com a consciência cada vez maior de que não podemos tampouco confiar. Os relacionamentos estão se tornando um relacionamento sem compromisso, com nenhuma obrigação, que duram apenas enquanto houver uma satisfação para um dos parceiros, mostrando que se vive numa época de miséria afetiva, sendo cada vez mais superficiais os encontros amorosos. Atualmente, pensando nas relações amorosas, as pessoas apaixonam-se e desapaixonam-se, com a maior facilidade. A durabilidade deste sentimento pode ser de no mínimo uma noite apenas. Vai depender se a relação será estável ou não. Bauman (2004), afirma essa tese quando diz que as pessoas, ao mesmo tempo, buscam estreitarem-se os laços e mantê-los frouxos. O desejo é que eles sejam leves e frouxos, colocando em dúvida os relacionamentos duradouros, apontando também a facilidade de se prender e desprender de uma relação. Não se fixa um compromisso. O relacionamento amoroso entre adolescentes, de acordo com Londero (2006), o primeiro amor é vivido com toda intensidade que merece, com muitos risos, lágrimas, ciúmes, namoro no portão, com direito as brigas e reconciliações que só aumentam a paixão e principalmente a ilusão de que esse amor é mais forte do que tudo e que pode durar para sempre. É, então, que se torna possível aprender na carne que a realidade não é bem assim, que existem inúmeros caminhos que podem ser percorridos e que podem separar até aqueles que se amam. O destino separa, outras experiências pedem para serem vividas, surgem outras sensações, outras possibilidades e o início do conflito: viver um amor ou se abrir para todas as outras possibilidades que a vida pode oferecer? Conhecer mais, experimentar mais ou continuar se refletindo naquele olhar? Porém, de certa forma, quando fazemos a escolha do objeto amado, procuramos no outro o que eu sou, o que eu fui ou o que gostaria de ser, isso inconscientemente. Freud (1914) revela como uma captura narcísica. Sendo assim, a cultura narcísica vai se apresentar nas relações amorosas, durante o tempo que o indivíduo querer o outro para confirmar seu narcisismo, buscando manter as relações frágeis e com durabilidade até que seja satisfatório enquanto houver interesse por parte de um ou dos mesmos. Luto Freud (1915/1975) em seu ensaio O Luto e a Melancolia discute as semelhanças e diferenças entre os mesmos. O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante. Confiamos em que seja

6 superado após certo lapso de tempo, e julgamos inútil ou mesmo prejudicial qualquer interferência em relação a ele, sendo o luto um dos processos de maiores desafios ao equilíbrio do psiquismo. Algumas pessoas reagem a isso com um quadro de melancolia, provavelmente a uma predisposição patológica. Bowlby (1962), diz que a perda pode se tornar uma provação, tanto para quem a enfrenta como para os circunstantes, que muitas vezes não sabem o que fazer para consolar uma pessoa enlutada. Segundo Freud (1915/1975), o processo de luto, se realiza por meio do teste da realidade que ao revelar que o objeto amado não existe mais, passa a exigir que toda a libido seja retirada de suas ligações com aquele objeto. Essa exigência provoca uma oposição compreensível é fato notório que as pessoas nunca abandonam de bom grado uma posição libidinal, nem mesmo, na realidade, quando um substituto já lhes acena. Quando o trabalho do luto se conclui, o ego fica outra vez livre e desinibido. Nada existe de inconsciente a respeito da perda, e é o mundo que se torna pobre e vazio. Esse processo envolve sofrimento e dor e feito muito lentamente. Porém, o luto desaparece após certo tempo, sem deixar quaisquer vestígios de grandes alterações. É um processo extremamente prolongado e gradual. O clássico estudo de Lindermann (1944) confirmou a necessidade apontada por Freud, em 1917, de que, para concluir o trabalho de luto, a libido deve ser retirada do objeto perdido e transferida para um novo objeto (Bromberg, 2000). Considerando que a adolescência é um fator de risco para o luto, verifica-se que, à semelhança do que acontece na sociedade, a família não tem desempenhado a contento o papel de fonte de suporte para o adolescente enlutado (Bromberg, 2000). O mesmo se pode dizer da escola, particularmente dos professores, que não estão preparados para lidar, nem prática e nem emocionalmente com a questão do luto (Pincus, 1989).

7 Referência Bibliográfica Aberastury, A., Knobel, M. Adolescência Normal: Um enfoque psicanalítico. Porto Alegre: Artes Médicas, p. Bauman, Z. O mal-estar da pós modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., Bauman. Z. Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Tradução: Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, p. Blos, P. Adolescência: uma interpretação psicanalítica. São Paulo: Liv. Martins Fontes, Bromberg, M. H. P. F. A Psicoterapia em situações de perdas e lutos. Editora Livro Pleno. Campinas. SP, Freud, S. (1980). Luto e melancolia (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol.14). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1917 [1915]), p Osório, L. C. Adolescente Hoje. Porto Alegre: Artes Médicas, Luisi, L. V. V.; Filho, R. C. A família em fase adolescente. In: Cerveny, C. M. O. Berthoud, C. M. E. e Col. Família e Ciclo Vital: nossa realidade em pesquisa.. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997, p Londero, S. M. Tecendo vias pelas quais o amor se fala: cartografias dos discursos amorosos na atualidade. Dissertação de Mestrado em Psicologia. Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Assis, Pincus, L. A família e a morte: Como enfrentar o luto (F. Murad, Trad). Rio de Janeiro: Paz e Terra. (Original publicado em 1974), 1989.

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