INTEGRAÇÃO DO CONE SUL: A INSERÇÃO REGIONAL NA ORDEM GLOBAL 2

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1 INTEGRAÇÃO DO CONE SUL: A INSERÇÃO REGIONAL NA ORDEM GLOBAL 2

2 INTEGRAÇÃO DO CONE SUL: A INSERÇÃO REGIONAL NA ORDEM GLOBAL HAROLDO LOGUERCIO CARVALHO * A nova ordem internacional que emergiu com o fim da Guerra Fria trouxe à tona um conjunto de problemas de natureza econômica e comercial que vinham sendo mascarados desde o final da Segunda Guerra Mundial. A ideologização dos conflitos políticos na ordem bipolar serviu como salvaguarda de políticas protecionistas que impediram a constituição de um mercado desrregulamentado. Para os países latino-americanos, em especial a Argentina e o Brasil, tal situação engendrou uma situação singular, pois de economias essencialmente agrícolas na primeira metade do século XX, puderam impulsionar suas estratégias de desenvolvimento industrial tendo no Estado o principal agente empreendedor. Esse fator possibilitou um incremento do mercado interno na medida em que, a própria configuração de um projeto urbano-industrial garantia a permanência de um financiamento interno responsável pela dinamização do setor. É bem verdade que os projetos desenvolvimentistas não tiveram uma postura xenófoba ao capital estrangeiro, mas, ao confrontarem suas possibilidades com as disputas ideológicas, foi possível manter um certo grau de barganha diante de uma linha mais política que comercial levada a efeito, principalmente pelos Estados Unidos da América, dado o caráter estratégico de sua política hemisférica. Os governos que administraram esse modelo de Estado tiveram que orientar suas diplomacias no sentido de que qualquer colaboração com os Estados Unidos deveria transcender a mera afinidade ou solidariedade continental e transformar-se em auxílio direto na busca pelos insumos para a modernização econômica, tida como única forma de superar os obstáculos históricos ao desenvolvimento. Isso quer dizer que vários mecanismos foram posto em execução com maior ou menor sucesso. O modelo de substituição de importações introduzido ainda na primeira metade do século XX foi incrementado e permaneceu como um dos eixos centrais, mas não foi o único. Investimentos diretos e atração de indústrias estrangeiras para instalarem-se internamente também desempenharam um papel importante na constituição dos atuais parques industriais da América Latina. Em realidade, o modelo desenvolvimentista foi, como nos coloca Amado Cervo 1, uma criação particular da América Latina, se bem que com resultados diferenciados, e representou um passo decisivo em busca da maioridade política e econômica da região em face ao modelo de liberalismo para fora que caracterizou a região ao longo do século XIX e primeiras décadas do século XX. Ao permitir a ampliação * Prof. do PPGH da UPF. 2

3 para produtos industrializados na composição da lista de produtos exportáveis, o desenvolvimentismo associou o crescimento interno com maior equilíbrio na pauta externa. A idéia de um Estado dotado de um claro objetivo industrializante foi projetada no âmbito da Comissão Econômica para a América Latina Cepal, ainda no final da década de O modelo teórico preconizado pela Cepal estruturava-se em dois aspectos fundamentais, o primeiro era o papel do Estado enquanto planejador, fomentador de políticas industrializantes, uma vez que as relações centro-periferia eram tidas como as responsáveis pelo crescente emprobrecimento regional ao transferir, de forma desigual, renda para o centro. Outro aspecto dizia respeito à operacionalização das políticas industriais. Para tanto, optou-se pelo modelo substitutivo e com mecanismos protecionistas do mercado e da produção industrial local. O corpo de idéias desenvolvido pela Cepal passaria a ter uma importância fundamental nas discussões sobre os projetos econômicos para a América Latina. Centrados no desenvolvimentismo, os cepalinos, especialmente a partir dos estudos do economista argentino Raúl Prebisch, estabeleceram uma ruptura com os critérios uniformizantes para a análise econômica mundial levada a efeito pela teoria neoclássica. Segundo afirmavam, o sistema capitalista mundial estaria dividido em economias centrais e periféricas. As relações entre essas duas esferas acabavam gerando uma transferência de renda da periferia para o centro, na medida em que a importação de bens manufaturados, com alto valor agregado, e exportação de produtos primários depreciavam os termos de troca em prejuízo da periferia. Daí a necessidade de políticas estatais fomentadoras do desenvolvimento industrial. Entretanto, ao lado dessa orientação industrialista, havia também a necessidade de constituição de integrações regionais, pois na perspectiva cepalina, a formação de um mercado comum além de fortalecer a região como um todo pelo incremento comercial regional, ampliaria a capacidade produtiva com vistas aos mercados extrazona pela redução dos custos dados pela economia de escala 2. A título de exemplo cabe citar que na década de 1950 a pauta de exportações da América Latina estava constituída em sua maior parte por alimentos, matérias-primas agrícolas e minerais, enquanto as importações somente de máquinas e equipamentos, fora outros insumos, como químicos, aços e demais semimanufaturas, representavam em torno de 70 % do total. O papel desempenhado pelo modelo desenvolvimentista no Brasil pode ser ilustrado por alguns dados do comércio exterior nas últimas décadas do século XX. Na composição das exportações brasileiras segundo a intensidade de fatores, temos os seguintes indicadores: (em percentual) 1 CERVO, Amado Luiz. Relações internacionais da América Latina: velhos e novos paradigmas. Brasília: IBRI, Em 1959 as Nações Unidas publicaram um profundo estudo sobre as necessidades e perspectivas de um mercado comum latino-americano. Naciones Unidas. El mercado comum latino americano. México,

4 Ano Recursos naturais Trabalho Capital Tecnologia ,7 25,4 26,6 26,5 10,1 13,4 15,7 14,4 30,3 45,6 44,7 43,7 17,5 19,6 21,9 25,8 Fonte: GONÇALVEZ, Reinaldo. O Brasil e o comércio contemporâneo. São Paulo: Contexto, Esses dados dão uma idéia do quanto foi importante o estímulo à industrialização visto que ao longo da segunda metade do século XX até o presente, temos o aumento crescente da demanda mundial por manufaturados que muitas vezes deixaram de ser prioridade das exportações dos países centrais, abrindo espaço para economias industriais emergentes como é o caso de alguns dos maiores países da América Latina, como Brasil, Argentina e México. No entanto, é preciso que compreendamos que esse processo não foi linear nem ocorreu de forma similar na região. Do ponto de vista da condução do modelo desenvolvimentista, a questão da hegemonia regional esteve presente nas preocupações, por exemplo, dos governos do Brasil e da Argentina. Uma vez que o desenvolvimento industrial levado a efeito por regimes autoritários, populistas ou ditaduras de fato, sempre tiveram na questão da segurança um dos suportes teóricos para a legitimidade da busca pela autonomia. Ocorre que nesse aspecto, ao contrário do jogo de barganha feito durante a Segunda Guerra Mundial, era o poder econômico e político exercido pelos Estados Unidos que se beneficiavam da disputa regional por desenvolvimento, evidentemente que um desenvolvimento associado e dependente. Assim, o que assistimos ao longo dos governos militares que foram instaurados na região, em geral com apoio explícito norte-americano, foi a adoção de políticas regionais conflitivas visando a obtenção de maiores vantagens nas relações bilaterais com a potência do Norte. Essa realidade perdurou até a crise do petróleo na década de 1970, quando as fontes de financiamento externo para o desenvolvimento regional foram se esgotando e, a pressão das economias centrais deu-se no sentido de ampliar a transferência de renda da periferia para o centro, a chamada crise da dívida do início dos anos A conjuntura internacional somente iria alterar-se substantivamente ao final desta década com o colapso soviético e o fim da Guerra Fria, quando a Revolução Científica Tecnológica aliada ao incremento da globalização reorientaram os rumos do capitalismo mundial, reservando para o centro as principais vantagens comparativas. Restava, pois, a economias industriais periféricas a perspectiva de ampliarem o seu próprio relacionamento comercial com vistas a manter um mínimo de crescimento aliado a uma possibilidade de ampliação do poder de barganha no mundo globalizado-regionalizado. As novas orientações da política e da economia mundiais acabaram reduzindo as possibilidades da gestão interna dos Estados nacionais no sentido de que os mecanismos de crescimento passam a ser 4

5 determinados pelo que ocorre no mundo. A partir da década de 1990, essa situação ficou mais evidente e acabou influenciando as políticas dos Estados latino-americanos de uma forma que até então não se havia percebido claramente. Os modelos de política econômica não foram adotados de modo uniforme, mas visavam ao mesmo objetivo: a inserção competitiva no mercado mundial. A abertura das economias induziu a mudanças de percepções sobre a capacidade de crescimento e transformou também a natureza das idéias políticas no continente. O tradicional nacionalismo cedeu lugar a um novo liberalismo e os Estados tenderam a buscar adaptar-se a essa nova situação. As implicações da nova conjuntura favoreceram a aproximação e a busca de ampliação das relações entre Estados, que podem representar ganhos de produtividade em face de uma disputa internacional mais acirrada. A busca da integração econômica acaba também influenciando outros aspectos das relações entre Estados e populações, que se pautam, por um novo pragmatismo de resultados, indispensável por garantir a estabilidade geral das sociedades envolvidas. Os dados a seguir são ilustrativos, em termos da economia brasileira, dos resultados obtidos por essa estratégia. Exportações brasileiras por fator agregado. Blocos econômicos e países selecionados US$ milhões FOB Bloco Prod. Básicos Prod. Semi-manufaturados Produtos manufaturados Total geral Valor Part.% Valor Part.% Valor Part.% Valor Part.% UE , , , ,0 ALCA , , , ,0 ALADI 892 7, , , ,0 Mercosul 438 6, , , ,0 México 109 5,8 71 3, , ,0 CAN 99 3,9 63 2, , ,0 EUA 827 5, , , ,0 Canadá 81 14, , , ,0 Fonte: Sistema de Estatísticas de Comércio Exterior EXIDATA/CNI A ordem internacional globalizada mudou muito rapidamente a estrutura e os fluxos do comércio mundial, cuja característica mais marcante é a formação dos blocos, uma vez que cada país precisa encontrar o espaço que melhor corresponda a suas possibilidades e que traga como contrapartida uma participação vantajosa no jogo global. O caminho percorrido pela integração latino-americana, em geral, e pela do Cone Sul, em particular, têm demonstrado que as estratégias apontam para resultados, senão totalmente favoráveis, pelo menos adequados aos propósitos gerais que motivaram o incremento do processo. Exportações intrazonais ( ) (% do total das exportações) 5

6 Acordo MERCOSUL CAN ALADI MCCA Am. Latina e 8,9 4,1 10,8 12,4 13,3 11,1 6,2 13,6 11,3 15,6 14,3 7,8 14,4 11,5 16,4 18,5 9,7 16,3 14,0 18,4 19,3 10,1 16,7 14,0 18,8 20,5 11,9 16,9 16,1 19,0 22,7 10,4 17,0 16,2 18,5 Caribe Fonte: CEPAL, Panorama de la inserción internacional de América Latina y del Caribe, 1997, p Em realidade, desde a década de 1990 a América Latina, de modo geral, tem apresentado indicadores de complementaridade econômica que reforçam a posição estratégica de aprofundamento horizontal dos processos integrativos pautados nos pressupostos de uma economia global cada vez mais interdependente. Assim, podemos entender o crescente interesse dos investidores estrangeiros na região, que, mesmo em determinados momentos mantendo a característica financeira especulativa, vão além, pois, entre 1990 e 1996, por exemplo, o fluxo de investimento diretos estrangeiros (IDE) passou de milhões de dólares para milhões, cifra que superou um máximo histórico de 85 milhões em De fato, nesse período, a América Latina atraiu 31 % de investimentos dirigidos a países em vias de desenvolvimento 3. Por fim, o projeto de integração do Cone Sul têm adquirido na atualidade uma dimensão que extrapola o próprio Mercosul, pois a importância relativa que a integração tem tipo para o desenvolvimento regional tem atraído outros países para sua órbita. Se os resultados comerciais e econômicos ainda por serem construídos, do ponto de vista político o projeto integracionista mostra-se cada vez mais como principal alternativa de inclusão regional na ordem econômica global. 3 CARVALHO, Haroldo Loguercio. A trama da integração: soberania e identidade do Cone Sul. Passo Fundo: Ediupf,

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