O PAPEL DA PROVA NA AFERIÇÃO DO RESPONSÁVEL POR ACIDENTE DE TRÂNSITO

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1 O PAPEL DA PROVA NA AFERIÇÃO DO RESPONSÁVEL POR ACIDENTE DE TRÂNSITO Por Fernando Oliva Palma 1) Introdução Os acidentes de trânsito, hoje em dia, constituem um dos principais motivos do elevado número de processos ajuizados perante o Poder Judiciário. Tal fato, todavia, não surpreende. Os incidentes envolvendo veículos entre si ou veículos e pedestres, além de serem corriqueiros nas zonas urbanas, têm como forte empecilho a identificação ou, às vezes, a assunção do real responsável pelo evento. A grande problemática, em verdade, ocorre quando a solução do caso concreto passa pela aplicação do instituto da responsabilidade civil extracontratual (ou aquiliana). Primeiro, porque diferentemente da responsabilidade contratual, que se configura quando verificada a inobservância de um dever jurídico presente em contrato, nesta espécie a responsabilização ocorre quando o dever jurídico violado consta na lei logo, a sua fonte é muito mais ampla. Segundo, porque ora a identificação do responsável requererá a existência do elemento culpa e eis aqui o cerne do problema, ora será configurada com a mera constatação dos elementos tradicionais da responsabilidade civil, a saber: ato ilícito, dano e nexo causal entre ambos. 1 1 FILHO, Sergio Cavalieri. Programa de Responsabilidade Civil. 9ª ed. rev. e ampl. São Paulo: Atlas, 2010, pgs

2 2) Das obrigações de trânsito dos pedestres e condutores O Código de Trânsito Brasileiro é a lei ordinária que enumera os deveres jurídicos a serem cumpridos pelos pedestres e pelos condutores de veículos. O descumprimento de algumas dessas obrigações legais caracterizará a ilicitude do ato praticado, o que, uma vez verificado o dano, o nexo causal e, dependendo do caso, a culpa, ensejará a responsabilização civil do infrator. No que tange aos pedestres, os seus principais deveres são: i) utilizar sempre a faixa ou passagem a eles destinadas, quando estas existirem a uma distância de até cinquenta metros, adotando as devidas precauções quanto à visibilidade, distância e velocidade dos veículos; ii) inexistindo faixa ou passagem, atravessar a via sem sentido perpendicular ao seu eixo; iii) obedecer às indicações das luzes onde houver semáforo regulando a travessia; e iv) inexistindo luzes regulando a travessia, aguardar que o semáforo destinado aos veículos ou o agente de trânsito interrompa o fluxo. 2 Quanto aos condutores, as suas obrigações são mais numerosas: i) certificar-se de que o veículo e seus equipamentos de uso obrigatório estão em perfeitas condições, bem como que conta com o combustível suficiente para chegar ao local de destino; ii) ter total domínio do veículo, conduzindo-o com atenção e cuidado; iii) utilizar o cinto de segurança (tanto o condutor como todos os passageiros); iv) respeitar a sinalização semafórica; v) antes de executar qualquer manobra, certificarse de que poderá fazê-lo sem colocar em risco o trânsito local, considerando a sua posição, direção e velocidade; vi) respeitar os limites de velocidade estabelecidos; e vii) guardar distância lateral e frontal entre o seu e os demais veículos, observando, para tanto, a velocidade e as condições do local, da circulação, do veículo e climáticas; entre outras. 3 2 BRASIL. Lei nº 9.503, de 23 de setembro de Arts. 68 a BRASIL. Lei nº 9.503, de 23 de setembro de Arts. 27; 28; 29, II; 34; 61; 65; 208 e

3 3) Da responsabilidade objetiva Nos casos em que a lei dispensa a comprovação da culpa (responsabilidade objetiva), a identificação do responsável é normalmente mais simples. Basta a demonstração de que houve a infringência de um dever jurídico, o dano, bem como que este foi ocasionado em virtude da inobservância legal (nexo causal). Exemplo clássico é a responsabilidade dos entes públicos pelos danos causados pelos seus agentes (art. 37, 6º, da Constituição Federal 4 ). Sabe-se que cabe ao Poder Público, dentre outras atribuições, manter os locais públicos em condições de assegurar a integridade física e o bem-estar de todos os cidadãos. 3.1) Responsabilização do Município pela manutenção das vias públicas No caso das vias públicas, tal dever incumbe ao Município. Sendo assim, caso o Poder Municipal deixe as vias em más condições de uso e, em decorrência disso, um cidadão venha a sofrer um dano devidamente demonstrado, a responsabilização do Município competente independerá da comprovação de culpa dos seus agentes. No julgamento da Apelação Cível nº , a 11ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul manteve a condenação imposta pelo juiz de primeiro grau ao Município de Santa Maria. Na ocasião, o Magistrado havia condenado o Município ao pagamento de indenização a título de danos materiais e morais em favor de ciclista que, ao passar sobre um buraco existente em via pública, teria caído e sofrido diversas lesões. Ressaltaram os Desembargadores, por sua vez, que uma vez 4 Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte: (...) 6º - As pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado prestadoras de serviços públicos responderão pelos danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros, assegurado o direito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou culpa. 3

4 configurados os elementos necessários para a responsabilização do Município (ato ilícito, nexo causal e dano), somente mediante a comprovação de uma das excludentes de ilicitude ou do nexo causal (culpa exclusiva da vítima, culpa de terceiro, caso fortuito ou força maior) o dever de indenizar poderia ser afastado (art. 333, II, CPC), o que não ocorreu. 4) Da responsabilidade subjetiva Já nos casos em que a culpa é elemento essencial à imputação da responsabilidade, o trâmite processual passa por um estágio probatório diferente. O julgador, além de identificar a ilegalidade, deve verificar se o ato foi praticado culposamente. Caso o autor não comprove a culpa do réu, a sua ação estará fadada ao insucesso (art. 333, I, CPC). 4.1) Importância da prova em casos de atropelamento A título exemplificativo, consideremos o caso de atropelamento de pedestre por um veículo de transporte coletivo no momento em que atravessava um corredor de ônibus existente em uma movimentada avenida do Município de Porto Alegre, discutido no processo tombado sob o nº 001/ , distribuído perante a Vara Cível do Foro Regional do Partenon da Comarca de Porto Alegre 5. Nos autos da referida ação, tanto em primeira como em segunda instância os Magistrados reconheceram a impossibilidade de imputar qualquer responsabilidade ao motorista do ônibus envolvido. Segundo afirmaram os Desembargadores da 11ª 5 Inobstante o juiz de primeiro grau tenha aplicado a teoria da responsabilidade civil subjetiva e os Desembargadores não tenham se manifestado sobre a espécie de responsabilidade aplicável ao caso concreto, o entendimento majoritário é no sentido de que a responsabilidade das concessionárias de serviço público é objetiva, inclusive quando a parte lesada é terceiro não usuário do serviço. No presente caso, no entanto, a aplicação da responsabilidade objetiva não traria consequências práticas diferentes, eis que a prova acerca da culpa exclusiva da vítima rompe o nexo de causalidade e, assim, afasta qualquer possibilidade de condenação. 4

5 Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul 6, das cinco testemunhas arroladas (duas pela parte autora e três pela parte ré), três teriam prestado depoimento uníssono no sentido de que a vítima teria atravessado o corredor de ônibus fora da faixa de segurança e em meio a outros coletivos que circulavam pelo local na ocasião, ao passo que as outras duas, embora tivessem relatado que o pedestre teria realizado a travessia sobre a faixa de segurança, apresentaram contradições no decorrer das suas narrativas sobre detalhes importantes do acontecimento. Dessa maneira, entenderam que a prova testemunhal produzida pela parte ré teria sido mais robusta e convincente do que a produzida pela parte autora. Por esta razão, concluíram que o pedestre não teria cumprido com o seu dever de cautela ao atravessar a via. Em razão da inexistência da faixa de segurança no local em que cruzou o corredor, deveria o autor, antes de ingressar sobre a pista, ter se certificado de que o fluxo de veículos lhe era favorável para tanto, em estrita consonância com o que dispõe o art. 69, III, a, do Código de Trânsito Brasileiro. Não o fazendo, acabou sendo o culpado único e exclusivo pelo acidente o que rompe o nexo causal e elide o dever de indenizar, já que o condutor do coletivo restou totalmente impossibilitado de evitar o choque. 4.2) Importância da prova em casos de colisão entre veículos Noutro caso, dessa vez atinente à colisão entre um automóvel e uma motocicleta, novamente a prova testemunhal foi determinante para o desfecho do processo. Nos autos da ação nº 004/ , da 1ª Vara Cível da Comarca de Bagé, o juiz reconheceu o dever de indenizar do réu, condutor de um Ford Fiesta, ao atingir o autor, condutor da moto, no cruzamento de duas vias em Bagé/RS. A sentença foi mantida em segundo grau 7. 6 Apelação Cível nº Apelação Cível nº , 12ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. 5

6 Inobstante o requerido estivesse trafegando pela via preferencial do cruzamento, o depoimento da testemunha, que presenciou o fato, revelou que o mesmo transitava em alta velocidade e com os faróis apagados. Tendo em vista que já havia anoitecido, o motociclista, que se deslocava pela via transversal, ficou impedido de visualizar a aproximação do automóvel, de modo que adentrou no cruzamento acreditando que o fluxo estaria livre. Assim, acabou sendo fortemente colhido pelo veículo do réu, vindo a sofrer diversas lesões e tendo de ser submetido a tratamento cirúrgico. Desse modo, indiscutível a infringência, por parte do réu, aos artigos 40, I, 218 e 250, I, a 8, do Código de Trânsito Brasileiro, os quais determinam aos condutores que trafeguem em velocidade compatível com os limites estipulados para cada via, bem como que mantenham as luzes de farol acesas quando estiverem dirigindo durante o período noturno. Dessa maneira, restou devidamente comprovada a culpa do condutor do automóvel, vez que a colisão certamente não teria ocorrido se o mesmo tivesse cumprido com as regras de trânsito supramencionadas. 8 Art. 40. O uso de luzes em veículo obedecerá às seguintes determinações: I o condutor manterá acesos os faróis do veículo, utilizando luz baixa, durante a noite e durante o dia nos túneis providos de iluminação pública; (...). Art Transitar em velocidade superior à máxima permitida para o local, medida por instrumento ou equipamento hábil, em rodovias, vias de trânsito rápido, vias arteriais e demais vias: I - quando a velocidade for superior à máxima em até 20% (vinte por cento): Infração média; Penalidade - multa; II - quando a velocidade for superior à máxima em mais de 20% (vinte por cento) até 50% (cinquenta por cento): Infração - grave; Penalidade - multa; III - quando a velocidade for superior à máxima em mais de 50% (cinquenta por cento): Infração - gravíssima; Penalidade - multa [3 (três) vezes], suspensão imediata do direito de dirigir e apreensão do documento de habilitação. Art Quando o veículo estiver em movimento: I deixar de manter acesa a luz baixa: a) durante a noite; (...) Infração média; Pena multa. 6

7 Conclusões Em suma, a identificação da natureza de responsabilidade civil aplicável determinará a forma de apreciação da demanda. No que tange à fonte obrigacional, ora a prova deverá demonstrar a infringência de um dever contratual (responsabilidade contratual), ora de um dever legal (responsabilidade extracontratual); quanto à aferição de culpa, ora esta será totalmente dispensável (responsabilidade objetiva), ora a configuração da responsabilidade estará diretamente condicionada à sua cabal comprovação (responsabilidade subjetiva). Além disso, a aplicação de uma ou outra espécie de responsabilidade quanto à aferição de culpa tem reflexo considerável no âmbito do processo, mais precisamente no que diz respeito ao ônus probatório de cada parte. Analisando-se o caso sob o prisma da responsabilidade objetiva, o réu, para eximir-se do dever de indenizar, terá o ônus de comprovar uma excludente de ilicitude ou do nexo causal (art. 333, II, CPC), dentre os quais, neste último caso, encontram-se a culpa exclusiva da vítima e a culpa de terceiro. Sob o prisma da responsabilidade subjetiva, por outro lado, o ônus probante quanto à culpa caberá, inicialmente, ao autor (art. 333, I, CPC), já que esta se fará elemento indispensável para a configuração da responsabilidade. 7

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