Seu Alcides conta sua experiência com tecnologias de captação de água de chuva para a convivência com o semiárido

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1 Seu Alcides conta sua experiência com tecnologias de captação de água de chuva para a convivência com o semiárido Introdução Alcides Peixinho Nascimento 1 Alaíde Régia Sena Nery de Oliveira 2 Fabrício Conceição 3 Johann Gnadlinger 4 Alcides Peixinho Nascimento (58), Seu Alcides, agricultor da comunidade de Ouricuri, e sua esposa Raimunda de Souza Nascimento, acerca de 24 km de Uauá, Município no Sertão da Bahia, foram uns dos primeiros a experimentar tecnologias apropriadas de convivência com o Semiárido, a partir de instrumentos, práticas e aprendizados como a utilização adequada das tecnologias de captação de água da chuva. Além disso, Seu Alcides iniciou o plantio de mandacaru, um dos mais conhecidos cactos presentes na caatinga e usados como forragem animal, e de outras espécies nativas. Seu Alcides também faz parte do fundo de pasto da comunidade de Ouricuri, onde cria seu rebanho de cabras. A partir da frase Deus deixou a seca para a gente descansar e não para sofrer, Seu Alcides demonstra com empolgação tudo que construiu em sua propriedade a partir dos aprendizados sobre a convivência com o clima. Com sabedoria popular, ele conta a sua história de vida e sua interação com a natureza. Não é difícil observar a preocupação do agricultor com as questões ambientais ao olhar a sua propriedade que contém uma área de oito hectares onde 50% dela é de área preservada da caatinga. Uma história de aprendizagens Aos 13 anos de idade, seu Alcides começou a trabalhar como diarista em propriedades rurais que não eram a dele. Na época, ele sonhava em sair para trabalhar fora da sua região. Assim como muitos, eu estava sendo conduzido por essa história de ir para São Paulo para adquirir melhoria de vida, revela. Ele trabalhou na construtora Mineração Caraíba, no Distrito de Pilar, Município de Jaguarari, BA. Aos poucos Seu Alcides foi percebendo que não era aquilo que ele queria. Eu achei que deveria voltar para casa e dar continuidade ao trabalho na área rural, vi que a roça é o meu lugar, é aqui que eu me sinto bem, ressalta o agricultor. Esse sentimento foi reafirmado no momento em que os trabalhos do IRPAA Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada começaram a chegar ao Município de Uauá desenvolvendo atividades 1 Proprietário rural, Comunidade de Ouricuri, Uauá, BA 2 Pedagoga e Comunicadora Social, IRPAA, 3 Técnico em agropecuária, IRPAA, 4 Environmental Manager, IRPAA,

2 junto com os técnicos e com a paróquia. Assim, foi iniciada a procura por pessoas nas comunidades para auxiliar nas ações voltadas a convivência com o Semiárido. Na ocasião, Seu Alcides já participava do grupo de animação de sua comunidade, e naquele momento ele foi convidado a participar de alguns cursos no IRPAA. A partir de então, começou a ajudar no trabalho desenvolvido em sua localidade. O agricultor complementa dizendo que no curso que participou no IRPAA em março de 1996 teve a oportunidade de vivenciar coisas que poderiam fazer parte de sua realidade. Foi no IRPAA que eu encontrei o que eu queria, me senti comprometido com as necessidades e realidade de minha região e também do mundo, expressa. Outra revelação é que desde pequeno, Seu Alcides já desenvolvia algumas práticas de convivência com o Semiárido. Ele menciona que a partir dos oito anos de idade já tentava fazer barragens de pedras nos rios, buracos na terra e outros exemplos para armazenamento de água da chuva. Seu Alcides conta enfaticamente o modo como o seu comportamento foi modificado depois da formação no IRPAA. Ele instalou um medidor de chuva na propriedade e menciona (Figura 1) que a família e a comunidade achavam seu comportamento estranho ao querer por em prática todo o aprendizado que havia vivenciado e construído no curso. Eu queria mudar tudo na mesma semana. Inicialmente Seu Alcides modificou o seu comportamento com relação as queimadas, de modo que não ateava mais fogo nos trabalhos em sua roça, sendo também contra o desmatamento da caatinga. Para o fortalecimento da conscientização de se conviver bem no local onde mora, atualmente Seu Alcides conta também com tecnologias de captação de água da chuva em sua propriedade, tais como cisterna de consumo humano, cisternas de produção, barreiro de produção e outras aguadas. Todas elas utilizadas de forma racional e adequada. Primeiro é preciso saber o que é Figura 1: Medidor de chuva na propriedade Figura 2: Barreiro trincheira com água na seca a água e como é construída essa aguada, qual é o tipo de aguada, como é que é construída essa aguada, ver a importância que ela tem no meio ambiente e a sua localização, é preciso saber em que eu quero investir essa água, aponta. O agricultor ressalta o planejamento necessário para o plantio mencionando a necessidade de saber quanto a plantação vai precisar em água, para

3 assim utilizar bem as aguadas de produção. Por toda a sua experiência de vida e de produção, Seu Alcides revela também que seria mais difícil conviver no período da seca atual (na roça dele choveu 120 mm na estação chuvosa entre novembro de 2011 e maio de 2012), se não fossem os aprendizados relacionados a convivência com o Semiárido que hoje dispõe, e se não utilizasse as tecnologias de captação de água da chuva. Hoje a gente tem que valorizar cada gota d água que cai na terra ou no reservatório. Cada gota de água tem o seu valor. Então, a chuva não acontece por acaso. Tudo que Deus nos dá tem seus valores. Então o homem tem que aprender a viver com todas essas riquezas, esses bens que Deus nos oferece. Hoje com as aguadas que se tem na família, as aguadas na propriedade, que a gente precisa buscar a forma de administrar a água com qualidade, reforça o agricultor que conta de modo detalhado a história de cada tecnologia de armazenamento de água da chuva que dispõe em sua propriedade. Cisterna de consumo humano Construída em 2006, a cisterna de consumo humano que seu Alcides dispõe, fica ao lado de sua casa. Assim, contendo 10 mil litros, após a sua instalação muita coisa mudou em sua rotina, a começar pela facilidade em obter a água para a família que antes só poderia ser adquirida num barreiro com 500 metros de distância de sua residência. Seu Alcides conta que ás vezes era necessário fazer dez viagens por dia. Hoje nós consideramos uma riqueza termos a água do lado da casa, revela o produtor rural enfatizando que essa cisterna sustenta a família durante o ano. Ele lembra a importância que tem o fato de não esquecer alguns cuidados básicos com a cisterna, como é o caso de, ao chover, deixar a primeira água da chuva limpar o telhado para só depois começar a captar essa água, que será, então, potável. Essa água é só para o consumo humano mesmo, não é pra lavar roupa, nem dá para os animais, lembra seu Alcides. Cisterna de Filtro Com empolgação, Seu Alcides descreve um pouco uma das tecnologias que dispõem em sua propriedade, a qual ele nomeia como cisterna de filtro. No momento que está chovendo, enche esse buraco e água faz a filtração subterrânea, então ela mantém a terra úmida, afirma. Essa é uma tecnologia que ele mesmo desenvolveu mediante sua curiosidade. Tecnologia que faz as plantas se manterem vivas em alguns terrenos como é o caso das fruteiras, a exemplo da goiaba, da pinha, da manga e outras. Barreiro tradicional A propriedade de Seu Alcides também conta, há dez anos, com um pequeno barreiro que foi construído por ele mesmo sem ajuda de fora. A água da chuva captada é conduzida numa valeta que, de certo modo, filtra a água por meio de cerca viva e uma pequena barreira de pedras antes

4 de cair no barreiro. Assim a enxurrada não provoca erosão, nem leva sujeira. A tecnologia auxilia Seu Alcides no plantio de hortaliças e demais culturas como mandioca, maracujá, coco e banana. De modo a não agredir a natureza. Quando falamos em barreiro de produção, a nossa intenção realmente é produzir bem e aproveitando o máximo a água, enfatiza Seu Alcides. Barreiro Trincheira Seu Alcides conta que no Município de Uauá foram construídos 30 barreiros trincheira, todos no mesmo formato do que se encontra em sua propriedade, ou seja, com a metragem de 30 metros de comprimento, cinco de largura e quatro de profundidade. Quando ele está cheio são 600 mil litros de água. Esse tipo de barreiro (profundo e estreito) é importante porque evita que a água evapore por causa do alto índice de evaporação. Essa tecnologia apresenta muitas vantagens quando comparadas as aguadas rasas e largas cuja água evapora mais depressa. Assim, no barreiro trincheira a água que seria evaporada pode ser aproveitada para os animais e plantio de fruteiras. Neste ano de seca, uma chuva de 22 mm em 22 de maio encheu o barreiro com 80 cm de água (Figura 2), o que garante água para o seu rebanho para pelo menos dois meses e meio (Depois o rebanho tem que buscar a água de uma adutora mais distante que vai de Caraíba para Uauá). Seu Alcides menciona como outra vantagem desse tipo de aguadas, o aproveitamento da sujeira do barreiro, que é a lama do fundo, na plantação onde pode ser utilizado como adubo, auxiliando na fertilidade das plantas, bem como na recuperação dos solos. Cisterna de enxurrada e cisterna de calçadão A cisterna enxurrada da propriedade de Seu Alcides, com capacidade de 52 mil litros, construída em 2008, ajuda em diversas atividades agrícolas. Mesmo com a escassez de chuva esse ano, ela tem água (Figura 3 e 4). Essa tecnologia vem auxiliando na construção de canteiros, bem como na irrigação de culturas como o feijão, a bananeira, a melancia e a mandioca. É interessante Figura 3: Cisterna de enxurrada Figura 4: Nível de água na cisterna de enxurrada destacar também que utilizando o plantio consorciado das espécies de plantas, a água é mais

5 aproveitada, de maneira que em um berço apenas podem ser plantadas a bananeira e o feijão, por exemplo. Desde 2010, Seu Alcides conta também com a cisterna calçadão de 52 mil litros, uma tecnologia que em anos com chuva normal auxilia o produtor no plantio e na criação de animais. Mandacaru, cabeça de frade e palma seguram água da chuva nos troncos e garantem a alimentação do rebanho A necessidade de cultivo de plantas na propriedade surgiu devido aos longos períodos de estiagem, época em que pode faltar comida para os animais que necessitam de uma complementação alimentar mais rica. Percebendo que o mandacaru atende a essa necessidade e que é encontrado facilmente na região e sem nenhum custo, seu Alcides deu início a uma plantação. O plantio de mandacaru representa sua maior reserva de alimentação do rebanho (Figura 5). A primeira plantação foi no ano de 1996, com 60 mudas. Foi uma fase experimental que deu tão certo que a família até hoje continua apostando nesse tipo de cultura. Na propriedade existem aproximadamente 2000 (dois mil) pés distribuídos em um só hectare. Incentivado pelo IRPAA, Seu Alcides resolveu plantar além do mandacaru, outra forragens como cabeça de frade (Figura 6) e palma. Três cabeças de frade ou seis folhas de palma são suficientes para uma cabra se alimentar durante o dia, diz seu Alcides. O mais novo experimento iniciado com o apoio da EMBRAPA Semiárido tem sido o cultivo de uma espécie de mandacaru sem espinhos. Esse tipo, plantado em qualquer época do ano desde que seja em área irrigada, enquanto que as espécies nativas não precisam de irrigação. Figura 5: Plantação de mandacaru Figura 6: Plantação de coroa de frade Feno Ainda na propriedade, a família armazena o feno feito principalmente de capim, palha de milho,

6 ramas de mandioca e outras forragens nativas. Todo o feno armazenado na época das chuvas torna-se uma riqueza que garante a alimentação e a produtividade da criação durante a seca. O feno dos anos anteriores ajuda a alimentar o rebanho no ano de seca de Conclusão A família de Seu Alcides tornou-se um exemplo para as outras famílias da comunidade de Ouricuri e toda a região de Uauá, pela experiência pioneira na captação de água de chuva para o uso das famílias, para os animais e para a plantação. Pela produção de forragens nativas, especialmente os cactos, que atendem as necessidades da criação, Seu Alcides não precisa comprar rações nos armazéns da cidade. A roça da família é muito visitada porque serve como um laboratório de experiência quando se trata de tecnologias de captação de água de chuva e de plantio de forragem a base de mandacaru e outros cactos típicos da caatinga. Essas tecnologias mostram um novo jeito de garantir a permanência dos agricultores e agricultoras em sua terra de forma digna, produzindo o suficiente para o consumo da família e ao mesmo tempo melhorando a vida, com o aumento de sua produção e de sua renda familiar, sem precisar sair para outros lugares em busca de alternativas distantes de sua realidade. Fotos: Figura 1: Johann Gnadlinger Figuras 2 a 6: Fabrício Conceição

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