Uma narrativa, uma história e um imaginário. Fernanda Cielo* 1

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1 Uma narrativa, uma história e um imaginário. Fernanda Cielo* 1 Meu nome é Maria Bonita, sou mulher de Vírgulino Ferreira- vulgo Lampiãofaço parte do bando de cangaceiros liderados por meu companheiro. Vou contar uma história sobre a Fernanda, de como ela me descobriu ainda na infância e como isso influenciou a sua decisão de fazer graduação em História. Quando pequena passou na televisão uma mini-série sobre nossa vida no cangaço, a Fernanda se apaixonou e começou a procurar nos livros e em revistas tudo o que estivesse relacionado sobre a história das nossas vidas, tanto a de todo bando quanto de mim, do Lampião e alguns membros do bando como o Corisco e Dadá. E essa busca por detalhes, minúcias vão influenciar mais tarde a Fernanda na escolha de uma profissão. Claro que ela teve outras influências na decisão, mas o que ela tinha era uma vontade aguçada de saber, e para saber precisava perguntar ler, buscar em algum lugar respostas para as suas inquietações. O tempo correu e chegou à hora da Fernanda decidir no vestibular qual profissão seguir, então ela escolheu cursar História, por que assim, poderia dar vazão ao seu lado questionador e aventureiro pelos campos do saber e da imaginação. Tudo foi muito interessante desde o início. A Fernanda e todos os colegas não tinham a noção do que estava por vir, e realmente foram se descobrindo enquanto seres em formação e possíveis formadores. Logo que a Fernanda começou a entrar em contato com os textos, os sentimentos, as emoções, os pensamentos começaram a tomar outras formas, ela não era mais a mesma, e a partir de então estaria sempre em devir. Continuou a nos procurar, mas com outro olhar, um olhar sem verdades absolutas, um olhar aberto para tudo o que pudesse absorver. E quanto mais ela lia, mais os seus 1 Graduada em História Especialista em História do Brasil

2 olhos se resplandeciam e sua alma gozava o prazer da leitura, e mais ela sentia vida correr por suas entranhas. A Fernanda é apaixonada por livros, pelos saberes que uma boa leitura proporciona, pela busca incessante do conhecimento e o desenvolvimento de novas potencialidades que surgem através de desafios que vão aparecendo no percurso da formação. É claro que o sentimento de pertença, de encontro que ela experimentou na graduação foi o resultado de suas intenções e do acaso que vida sempre nos apresenta como possibilidade de realização. No percurso da graduação foi descobrindo tantas coisas que jamais tinha pensado em pensar, era tudo novo e muito cheio de informações, isso fez expandir cada vez mais sua maneira de olhar o mundo, o seu mundo, o mundo dos outros, o nosso mundo. Nessa caminhada começou a se deparar com a questão do estágio, onde o aluno de graduação tem que ter uma breve experiência da docência. O curso de História era licenciatura plena com estágio orientado e logo ela deveria fazer planejamentos, preparar e estudar para dar aulas no ensino fundamental e médio. O que mais me chamou a atenção nessa fase é que a Fernanda não tinha noção do que era uma sala de aula e tudo o que acontece dentro dela enquanto professora. Como aluna era uma coisa, como professora era diferente, pois existe uma responsabilidade coletiva arraigada na figura do professor. Muitas questões começaram a aflorar nos pensamentos dela, como planejar e dar uma aula, como se posicionar, como reagir diante de conflitos, como se relacionar com os alunos, como fazer as aulas serem interessantes, e muitas outras perguntas foram aparecendo no decorrer daqueles dias. O mais interessante de tudo é que ela sabia no seu íntimo que seria uma surpresa, uma experiência que iria mudar sua maneira de pensar e ver a vida, e principalmente que ela iria gostar e se interessar pela profissão. A Fernanda teve a sua formação focada em trabalhar questões que envolvessem os seus alunos de maneira que eles criassem um senso crítico e reflexivo sobre todos os aspectos de suas vidas. A partir dessa formação ela inicia seu estágio no ensino médio, por opção, e se depara com uma turma de repetentes que nem uma professora da escola queria trabalhar. É claro que isso é um rótulo, uma característica de turma que nenhum estagiário gosta de ouvir na sua primeira experiência de docência, mas a Fernanda não

3 se intimidou e decidiu que faria um trabalho em conjunto com os alunos, para que houvesse interação da turma com ela. Todos os conteúdos foram conversados de maneira com que eles sentissem curiosidade e vontade de participar das aulas. Não foi fácil, tudo era decidido entre a turma e ela fazia seminários, discussões, jogos, grenal, viram filme, imagens, gravuras e tantas outras dinâmicas. Os alunos sempre estavam com algum problema particular, e para mantê-los na sala de aula a Fernanda utilizava estes recursos para que eles não dispersassem a atenção e perdessem a oportunidade de pensar, questionar e criticar as questões propostas em aula. Era muito importante para a Fernanda que eles aprendessem a pensar por si mesmos e a fazer escolhas mais acertadas nas suas vidas. O que mais preocupava ela era que todos os alunos detestavam a matéria de história, por experiências ruins passadas com outros professores, falta de entendimento ou de interesse. No início foi um grande desafio, depois com o tempo ela foi aprendendo que as coisas mudam e as opiniões também. E foi o que aconteceu. Os alunos repetentes do fundão foram chegando mais perto, aqueles mais fervorosos, rebeldes e distantes foram se aconchegando nos textos e nas dinâmicas, e assim, cada um do seu jeito foi intensificando a parceria nos estudos da História. Muita coisa mudou naquela sala de aula, a História não era mais uma matéria sem vida e graça, era um momento de pensar, de perguntar, de discutir, de verbalizar, de interagir. A Fernanda quando entrava na sala de aula já não era aquela cheia de indagações sobre a docência, era um ser humano se descobrindo enquanto professor. Foi aprendendo que as dúvidas que tinha eram respondidas ali mesmo em plena aula, no decorrer do estágio, e que não existia outra maneira de experimentar, de arriscar e de criar novas situações senão a prática da docência. Era na sala de aula que as dificuldades, os erros, os acertos, os conflitos e tudo aquilo que ela pensava antes de começar o estágio aconteciam, e era na hora que se resolvia, na tentativa de fazer o melhor. Naquele processo, a Fernanda vai se descobrindo como docente, vai percebendo que a sua escolha fora acertada, e que essas experiências estão envolvendo ela numa transformação como um ser humano responsável não somente pelo seu devir, mas por fazer outras pessoas pensarem sobre si mesmas e sobre os seus devires.

4 No final do estágio a Fernanda ganhou uma festa surpresa dos seus alunos, com doces e salgados, cartazes com dizeres emocionantes, com letras de músicas, poesias, e principalmente com muito carinho e admiração dos alunos. Todos se emocionaram. A Fernanda não esperava aquela manifestação de carinho dos alunos, mas teve a certeza naquele momento de que ela conseguiu mostrar a eles o prazer de pensar, de conhecer, de se abrir para o novo, de trabalhar em conjunto, de interagir, de criar novas possibilidades de aprendizagem, e do respeito à individualidade de cada um. A Fernanda se sentiu realizada naquele dia, entendeu que a docência é feita de pequenas conquistas, que a flexibilidade, a abertura para o outro, a sensibilidade, muito estudo e criatividade são peças fundamentais no desenvolvimento do trabalho em sala de aula. Esta narrativa foi elaborada a partir de leituras sobre o imaginário social e narrativas de formação e tinha como objetivo criá-la através de um personagem que contasse uma história de formação, uma experiência de vida que eu tivesse passado ao longo da minha vida. Para escrever sobre imaginário social e narrativas de formação, utilizei alguns autores como referência teórica para embasar o texto. Esta experiência de estágio possibilitou um nascer, um despertar para o ser professor, para as interações de conhecimentos, de saberes, de experiências e de tudo que o cotidiano nos apresenta. Então, segundo Castoriadis (1982, p.414): Denominamos imaginário social no sentido primário do termo, ou sociedade instituinte, o que no social-histórico é posição, criação, fazer ser. A criação de possibilidades de troca de saberes dentro de uma sala de aula é muito mais interessante quando o professor interage com os seus alunos tentando de alguma forma fazê-los buscar os seus devires, incentivá-los a buscar o conhecimento, tanto interno enquanto sujeito, quanto externo. Os estímulos externos que a sociedade produz nos incita à estimular nossos alunos de maneira que aprendam a andar com consciência pelo mundo.

5 Esta narrativa propõe entender uma experiência de estágio através de um personagem que relata os fatos acontecidos de uma maneira como se o autor estivesse narrando a história. Josso( 2009, p.164), coloca na sua obra que: As experiências relatadas colocam em evidência a enorme diversidade dos contextos, dos registros e dos acontecimentos por meio dos quais emana uma intencionalidade do sujeito Em relação ao sensível, àquilo que nos toca, que nos move diante do outro, podemos perceber que o professor em atuação nesta experiência atua com toda a sua criatividade mas também com a sua sensibilidade, um olhar aberto para o outro para dar e receber conhecimentos e saberes. Esta sensibilidade Maffesoli( 2008, p.284), afirma que: Assim, a ênfase posta sobre a vivência é uma maneira de reconhecer os elementos subjetivos como parte integrante das histórias humanas. O imaginário social e as narrativas de formação são partes um do outro. A formação não existe sem imaginário, sem criação, sem devir, o próprio ato de narrar a sua experiência faz surgir sentimentos, emoções e lembranças guardadas na memória. O ato de escrever e narrar uma experiência reporta o sujeito para sensações, imagens que ficaram marcados e que o ajudaram a se ver como professor em formação, como ser humano em constante busca pelo conhecimento, pelos seus devires, pelos seus sonhos e desejos. Este relato foi uma história criada para contar outra história, um personagem narrando uma experiência formadora de um sujeito entrelaçando o imaginário social através dos detalhes e significações. REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

6 CASTORIADIS, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade.rio de Janeiro:Paz e Terra, MAFFESOLI, Michel. Elogio a razão sensível. Rio de Janeiro:Vozes, JOSSO, Marie Christine. Experiências de vida e formação.rio Grande do Norte: EDUFRN: 2009.

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