ESTÁTUAS DE POETAS QUE AMARAM O RECIFE

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1 Poetas que amaram o Recife ganham estátuas Rua da Aurora Rua do Sol Praça Maciel Pinheiro Praça da Independência Declarar o amor pela cidade e seus recantos foi a inspiração de poetas como Manuel Bandeira, que em seu poema Evocação do Recife fala de locais como a Rua do Sol, a Rua da Aurora e o Rio Capibaribe. Para homenagear aqueles que enaltecem a Veneza Brasileira, a Prefeitura do Recife, em parceria com o Banco do Brasil e a Emlurb, lançou o projeto Circuito da Poesia - Cantos do Recife. Dividido em duas etapas, o Circuito da Poesia instalará estátuas de concreto em tamanho real de dez artistas em locais estratégicos. Na primeira fase, os homenageados serão João Cabral de Melo Neto, Capiba, Carlos Pena Filho, Manuel Bandeira e Clarice Lispector. Questionado sobre o critério utilizado para a seleção dos poetas, o prefeito da cidade do Recife, João Paulo, lembrou da importância dos dez escolhidos. Recife é uma cidade com inúmeros artistas. Porém, esses dez dão um panorama geral da cultura da nossa cidade. Além dos cinco já citados, serão homenageados na segunda fase Antônio Maria, Chico Science, Luiz Gonzaga, Ascenso Ferreira e Solano Trindade. A escolha dos locais onde as esculturas serão colocadas foi especialmente pensada para que, assim, tivesse alguma relação afetiva com o artista em questão. No caso de Clarice Lispector, por exemplo, a estátua será instalada na Praça Maciel Pinheiro, onde a poetisa passou parte de sua infância. Uma outra preocupação é no que se refere à interatividade das obras com o público. Cada poeta será representado de maneira que o visitante possa interagir com a estátua. João Cabral de Melo Neto estará sentado em um banco de praça, assim, quem quiser poderá sentar ao seu lado, tirar fotos ou até mesmo conversar", disse Demétrio Albuquerque, o escultor responsável pela execução das esculturas, que já assinou outra obra pública: o monumento Tortura Nunca Mais. ESCULTURAS - O poeta modernista Manoel Bandeira está, na escultura, sentado ao lado de um portal de onde observa a paisagem do rio Capibaribe e as pontes do Palácio do Campo das Princesas. Na Rua da Aurora, o poeta Manuel Bandeira descansa num banco, parece que pensa na vida, com a mão esquerda segurando a cabeça e a perna esquerda apoiada na direita. Fica perto do Ginásio Pernambucano, nas imediações da Rua da União, onde ficava a casa do avô do poeta, citada em Evocação do Recife. Em pose com ar pensativo, ele lê trechos do poema Evocação do Recife. As inovações literárias do Modernismo de 22, e mais especificamente da poesia de Bandeira, serão representado no portal. A escultura que apresenta João Cabral de Melo Neto traz o escritor sentado em um banco de praça em um gesto contemplativo, com um dos seus livros no colo. Um cachorro dormindo nos pés de Cabral representa uma alusão à obra O Cão sem Plumas. Na Rua da Aurora (em frente ao Teatro Arraial), o poeta contempla o Capibaribe que ele tão bem descreveu em seus versos. Carlos Pena Filho está sentado à mesa, em que se encontram bancos e copos. A escultura é uma referência ao famoso poema O Chope que imortalizou o escritor. Na Praça da Independência, sentado à mesa, com dois bancos vazios, é como se convidasse o povo para um dedo de prosa. A figura da consagrada literata ucraniniana Clarice Lispector é apresentada sentada numa cadeira, de frente para uma mesa pequena em que se encontra uma máquina de escrever. A autora de Laços de Família segura uma xícara de café. A peça trará um clima de intimidade e casualidade no momento de criação. A infância de Clarice na Praça Maciel Pinheiro também é evocada na escultura. Capiba está em pé num balcão antigo. A figura tenta relembrar os velhos carnavais. A tentativa do escultor é provocar interatividade com o público, já que se pode subir no balcão e assistir ao carnaval passar na Rua do Sol. O compositor de frevo Capiba surge de pé, acenando para a cidade, na Rua do Sol. Ele gostava desse lugar, foi uma boa escolha, diz Maria José da Silva, Zezita, a viúva. Recife em poesia Paola Araújo Uma constatação: alguns dos maiores poetas e compositores brasileiros são pernambucanos. E, para recifenses e turistas não deixarem de perceber esse detalhe, onze esculturas, em tamanho real de artistas pernambucanos (com exceção da escritora Clarice Lispector, que nasceu na Ucrânia, mas foi criada no Estado) estão espalhadas pelo centro da cidade. Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Capiba, Antônio Maria, Clarice, Mauro Mota, Carlos Pena Filho, Ascenço Ferreira, Joaquim Cardoso, Salomão Trindade e Luiz Gonzaga convidam os transeuntes a um passeio pelo Recife da prosa, poesia e música. O projeto Circuito da Poesia, da Prefeitura do Recife em parceria com a Fundação Banco do Brasil, chama a atenção para mais esse potencial turístico. O escultor Demetrio Albuquerque, responsável pelas estátuas, caprichou nos detalhes. A idéia é fugir da homenagem convencional, com esculturas de busto, ressalta Demetrio. Para começar, a editoria de Turismo da Folha resolveu dividir o passeio. Ponte Maurício de Nassau (Joaquim cardozo); Praça da Independência (Carlos Pena Filho); Pátio de São Pedro (Francisco Solano Trindade); Casa da Cultura (Luiz Gonzaga); Praça Maciel Pinheiro (Clarisse Lispector); Rua da Aurora (Manuel Bandeira); Rua do Sol (Capiba);

2 Pátio do Sebo (Mauro Mota); Cais da Alfândega (Ascenso Ferreira); Rua da Moeda (Chico Science); Rua do Bom Jesus (Antônio Maria); Rua da Aurora (João Cabral de Melo Neto); Cristina Dias O rio de João Cabral Num dos poemas mais famosos, O Cão sem Plumas, o escritor fala sobre o Rio Capibaribe. Do outro lado do rio, na Rua do Sol, o mais famoso compositor do frevo do País, Capiba. Madeira que Cupim não Rói, É Frevo Meu Bem e É de Amargar são algumas de suas composições, que podem ser definidas como hinos da grandiosa festa. Hoje, a imagem do maestro de alegria está próximo aos Correios, que nos dias de folia é ponto de concentração da multidão agitada. No sábado de Zé Pereira, uma multidão se espremendo passa por lá, sem reclamar do calor e do empurra-empurra, atrás do Galo da Madrugada. Nos dias comuns, o movimento também é grande devido ao comércio, vigoroso nessa parte do Centro do Recife. O compositor nasceu em Surubim, formou-se em Direito - profissão que nuca exerceu, e na década de 70 inaugurou, com Ariano Suassuna, o Movimento Armorial. Musicou várias peças do amigo e escreveu Sem Lei Nem Rei, título do romance de Maximiano Campos. O samba A Mesma Rosa Amarela e o maracatu Verde Mar de Navegar são mostras da versatilidade do artista. Romântico moderno À beira do rio, na Rua da Aurora, João Cabral de Melo Neto lê seu poema O Cão sem Plumas, dedicado ao Capibaribe: Aquele rio está na memória como um cão vivo dentro de uma sala.... O mesmo Capibaribe está em Morte e Vida Severina, servindo de guia para o retirante nordestino, fugitivo da seca. Avesso a entrevistas e homenagens, declarou certa vez: Nenhum nordestino é indiferente ao meio em que vive, em que se criou. Em seus poemas, o Sertão nordestino e a Zona da Mata dividiam as atenções do poeta que em suas poesias passeia pelas ruas do Recife e Olinda, pelos seus casarões históricos e as águas do mar e de seus rios Beberibe e Capibaribe. Nas proximidades da escultura, encontramos o Tribunal de Justiça, o Palácio do Campo das Princesas e o Teatro de Santa Izabel, em volta da Praça da República, formada por três jardins com palmeiras imperiais e um baobá. Próximo está a Capela Dourada. Maestro da alegria Capiba na Rua do So Seguindo pela Imperatriz, chega-se à Aurora de Manuel Bandeira, autor de Evocação ao Recife. A estátua do poeta está à beira do Rio Capibaribe, próximo do prédio da Assembléia Legislativa, na Rua da União, onde passou sua infância. Na Rua Mamede Simões, ao lado do prédio histórico, você pode comer ou fazer um lanche no restaurante Central (atenção à radiola de ficha no local). A Aurora é também a rua do Teatro Arraial, do Museu da Imagem e do Som, do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam) e do, ainda desativado, Cinema São Luiz. A hora da estrela Manuel Bandeira em estátua Carlos Drummond de Andrade definia Clarice Lispector como um mistério. Foi aqui que a ucraniana, naturalizada brasileira, aprendeu a ler e deu seus primeiros passos no universo literário escrevendo sua primeira peça: Pobre Menina Rica. E como citar Clarice sem lembrar de sua Macabéia, personagem do livro A

3 Hora da Estrela? Tentando desvendar um pouco do universo da escritora, vamos ao Centro do Recife, na Praça Maciel Pinheiro, onde ela morou na infância. Hoje, sua casa é um sobrado laranja, bem em frente à praça, onde já funcionou uma casa de móveis. O ponto de partida, na verdade, pode ser a Conde da Boa Vista, onde está o Shopping Boa Vista, com cinemas, praça de alimentação e lojas variadas. A praça está localizada no final da Rua do Hospício, onde encontramos o Teatro do Parque (que funciona também como cinema, aliás a entrada é baratinha, apenas R$1,00). mesmo bairro fica a Praça do Carmo, na Avenida Dantas Barreto, onde está a Basílica do Carmo, que teve sua construção iniciada em 1687 e concluída 80 anos depois. Nela acontece, anualmente, a festa da padroeira do Recife, Nossa Senhora do Carmo, no dia 16 de julho. Entre os livros Na Praça do Sebo está a imagem de Mauro Mota Na Praça Maciel Pinheiro, encontramos a escritora Clarice Lispector REI DO BAIÃO Os temas nordestinos estão descritos na poesia de Mauro Mota, como em Boletim sentimental da guerra do Recife, parte do primeiro livro Elegias. A escultura do jornalista está na Praça do Sebo, na Rua da Roda, no Bairro de Santo Antônio. O local abriga diversos espaços informais de comercialização de livros que viraram redutos de boêmios e apaixonados por literatura, como Mauro Mota. Discos de vinil e revistas também são encontrados com facilidade no local. Poeta, professor, cronista e memorialista, Mota foi diretor do Arquivo Público, que fica pertinho, na Rua do Imperador, e membro da Fundação Joaquim Nabuco. O boêmio Ascenso Em suas canções, Luiz Gonzaga falou sobre dificuldades de seu povo Devidamente equipada com sua sanfona, chapéu de couro e lenço de papel, a imagem de Luiz Gonzaga recebe os passageiros e visitantes da Estação Ferroviária do Recife, no bairro de Santo Antônio. Cantando as dores e amores do nordestino em suas viagens pelo mundo, seu Lua, como ficou conhecido em todo País, simboliza o que há de melhor em nossa música. Entre as várias composições do Rei do Baião, não podemos deixar de destacar Asa Branca, Assum Preto, Paraíba e Vozes da Seca. Para embarcar em uma viagem pelo tempo, o turista pode aproveitar para visitar o Museu do Trem, na Avenida Rio Capibaribe. No Poeta convida a um passeio pelo Rio Capibaribe Órfão aos 13 anos, Ascenso Ferreira nasceu no município de Palmares, onde publicou seu primeiro soneto, intitulado Flor Fenecida. A imagem do escritor, no Cais da Alfândega, convida turistas e passantes a parar e contemplar a beleza do Capibaribe. O local foi escolhido por causa do prédio do Restaurante Gambrinus (em reforma), que era freqüentado por ele e muitos outros boêmios. Em frente está o Shopping Paço

4 Alfândega e a Livraria Cultura. No Paço, além de fazer compras, o turista pode degustar várias opções gastronômicas. Continuando a excursão, você pode dar uma passada na Rua da Moeda e fazer uma parada em um dos bares: Novo Pina, Casa da Moeda, Mangá ou no Restaurante Villa Vecchia. Bom de papo Em seu livro O Coronel de Macambira, usando figuras do folclore local, Joaquim Cardozo faz uma sátira a exploração do homem do campo pelos coronéis e proprietários rurais. Já em Os demônios de Deus, o poeta usa elementos do pastoril para contar sua história. Seja em prosa ou em versos, o Nordeste está retratado em toda a obra de Cardozo. A imagem do poeta, que esse ano completaria 110 anos, está na Ponte Maurício de Nassau, que liga os bairros de Santo Antônio e do Recife Antigo. No Cais do Apolo, lado esquerdo, está o Teatro Hemilo Borba Filho, e na rua paralela, o Teatro Apolo. O revolucionário O boêmio Antônio Maria está na Rua do Bom Jesus De bem com a vida, Antônio Maria não perdia o bom humor por nada. Cardíaco, foi proibido pelo médico de comer costela e feijoada, seus pratos favoritos. No segundo enfarte, declarou em tom de deboche: Com você, por mais incrível que pareça, Antônio Maria, brasileiro, cansado, 43 anos, cardisplicente. Profissão: esperança. Bom de papo e de copo, é na Rua do Bom Jesus que a figura do cronista, compositor, radialista e entrevistador observa o movimento no bairro do Recife Antigo, que nos dias de folia é passarela para o desfile de blocos líricos. Manhã de Carnaval é um dos frevos canções que embalam os saudosos. Bares e restaurantes estão espalhados no Bom Jesus. Nela está o prédio onde funcionou a primeira Sinagoga das Américas, a Zur Israel. O domingo é dia de passear com a família, curtir uma das apresentações musicais (gratuitas) e comprar artesanato na feirinha. No Bairro do Recife, ainda temos o Marco Zero, a Torre Malakoff e a Praça do Arsenal. Poeta centenário Joaquim Cardozo está na ponte Maurício de Nassau Estátua de Solano Trindade No Pátio de São Pedro, no bairro de São José, está a estátua de Solano Trindade. Freqüentador assíduo do local, o poeta foi o fundador da Frente Negra Pernambucana, e fez parte do Centro de Cultura Afrobrasileiro, ambos criados com o objetivo de divulgar os intelectuais e artistas negros. Recentemente, o Pátio de São Pedro passou por uma reforma: o casario secular restaurado e a Igreja de São Pedro dos Clérigos ganhou iluminação especial. Nas noites de terça-feira acontece a Terça Negra. O projeto da Prefeitura do Recife abre espaço para apresentações culturais e shows de artistas ligados à cultura negra. No mesmo bairro está o Mercado de São José, o mais antigo prédio préfabricado em ferro no Brasil. Cantadores, emboladores e literatura de cordel são figuras comuns no local. Além de encontrar artesanato, frutas, verduras e comidas típicas, nos 46 pavilhões, o visitante pode levar para casa uma série de ervas medicinais. Segundo os vendedores, cada especiaria serve para um mal determinado. Apaixonado pelo Recife

5 Em seu Guia Prático da Cidade do Recife, Carlos Pena Filho registrou todo seu encanto pelo Recife. Renomado músico, ele é autor de canções de sucesso, como A mesma Rosa Amarela, incorporada ao movimento da Bossa Nova, na voz de Maysa. Na Praça da Independência, em frente ao prédio do antigo Diário de Pernambuco, está a imagem do poeta. A escultura de Demétrio Albuquerque foi inspirada no poema O Chope, e os versos no extinto Bar Savoy (Avenida Guararapes), reduto de literatos e boêmios da época: Na avenida Guararapes, o Recife vai marchando. O bairro de Santo Antônio, tanto se foi transformando. Que, agora, às cinco da tarde, mais se assemelha a um festim. Confira obras criadas pelos homenageados no Circuito de Poesia» Testamento (Manuel Bandeira) O que não tenho e desejo É que melhor me enriquece. Tive uns dinheiros - perdi-os... Tive amores - esqueci-os. Mas no maior desespero Rezei: ganhei essa prece. Vi terras da minha terra. Por outras terras andei. Mas o que ficou marcado No meu olhar fatigado, Foram terras que inventei. Gosto muito de crianças: Não tive um filho de meu. Um filho!... Não foi de jeito... Mas trago dentro do peito Meu filho que não nasceu. Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã. Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio. Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto vôo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou - o tempo da cozinheira dar um grito - e em breve estava no terraço do vizinho, de onde, em outro vôo desajeitado, alcançou um telhado. Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de uma chaminé. O dono da casa, lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de almoçar, vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da galinha: em pulos cautelosos alcançou o telhado onde esta, hesitante e trêmula, escolhia com urgência outro rumo. A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça. O rapaz, porém, era um caçador adormecido. E por mais ínfima que fosse a presa o grito de conquista havia soado. Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre. Criou-me, desde eu menino Para arquiteto meu pai. Foi-se-me um dia a saúde... Fiz-me arquiteto? Não pude! Sou poeta menor, perdoai! Não faço versos de guerra. Não faço porque não sei. Mas num torpedo-suicida Darei de bom grado a vida Na luta em que não lutei! (29 de janeiro de 1943) Poesia extraída do livro "Antologia Poética - Manuel Bandeira", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 2001, pág. 126.» Uma Galinha (Clarice Lispector) Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se poderia contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma. Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a. Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos. Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, parecia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou, respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu

6 coração, tão pequeno num prato, solevava e abaixava as penas, enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desvencilhar-se do acontecimento, despregou-se do chão e saiu aos gritos: - Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! ela quer o nosso bem! Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre, nem triste, não era nada, era uma galinha. O que não sugeria nenhum sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão: - Se você mandar matar esta galinha, nunca mais comerei galinha na minha vida! - Eu também! jurou a menina com ardor. A mãe, cansada, deu de ombros. Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai, de vez em quando, ainda se lembrava: "E dizer que a obriguei a correr naquele estado!" - Rio de Janeiro, 1998, pág. 30.» Morte e Vida Severina (Trecho) (João Cabrail de Melo neto)... E não há melhor resposta que o espetáculo da vida: vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida, ver a fábrica que ela mesma, teimosamente, se fabrica, vê-la brotar como há pouco em nova vida explodida; mesmo quando é assim pequena a explosão, como a ocorrida; mesmo quando é uma explosão como a de há pouco, franzina; mesmo quando é a explosão de uma vida severina."» Soneto do Desmantelo Azul (Carlos Pena Filho) Então, pintei de azul os meus sapatos por não poder de azul pintar as ruas, depois, vesti meus gestos insensatos e colori as minhas mãos e as tuas, Para extinguir em nós o azul ausente e aprisionar no azul as coisas gratas, enfim, nós derramamos simplesmente azul sobre os vestidos e as gravatas. A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a do sobressalto. Mas, quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem, resquícios da grande fuga - e circulava pelo ladrilho, o corpo avançando atrás da cabeça, pausado como num campo, embora a pequena cabeça a traísse: mexendose rápida e vibrátil, com o velho susto de sua espécie já mecanizado. Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara contra o ar à beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos enchia os pulmões com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado às fêmeas cantar, ela não cantaria mas ficaria muito mais contente. Embora nem nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando milho - era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada no começo dos séculos. Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaramse anos. Texto extraído do livro "Laços de Família", Editora Rocco E afogados em nós, nem nos lembramos que no excesso que havia em nosso espaço pudesse haver de azul também cansaço. E perdidos de azul nos contemplamos e vimos que entre nós nascia um sul vertiginosamente azul. Azul.» (Capiba) Tu és para mim A senhora do Engenho Em sonhos te vejo És tudo que eu tenho Quanta tristeza, sinto no peito Só em pensar Que o meu sonho está desfeito Te lembras ainda daquele São João? As minhas palavras Caíram bem dentro do teu coração Tu me olhavas, com emoção E sem querer Pus minha mão em tua mão

7 Tu sentes saudades de tudo bem sei

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