Palavras-chave: dialogia, linguagem,exclusão, poder, zona de indistinção.

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1 Confederación Iberoamericana de Asociaciones Científicas y Académicas de la Comunicación A constituição do sujeito na zona de indistinção: O exercício do poder na animalização do homem Elvair Grossi 1 Resumo: Bakhtin afirma que qualquer que seja o relato ou quando alguém expõe algo, a fala do outro estará presente e disseminada de várias formas, confirmando assim, que todo discurso cita outro discurso. Agamben entende que o sujeito se constitui pela linguagem, nela a consciência existe e se dá a realidade, pois, a linguagem é voz articulada. A partir desses conceitos, analisamos alguns recortes do filme, Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, com a finalidade de compreender o comportamento, as atitudes e a trajetória de vida dos personagens Fabiano e Sinhá Vitória, na constituição do sujeito na zona de indistinção, procuramos apontar a ruptura que existe entre o homem e o cidadão, promovendo assim, a reclusão territorial, tão comum nos dias de hoje. Palavras-chave: dialogia, linguagem,exclusão, poder, zona de indistinção. Abstract: Bakhtin says that whatever the story or when someone exposes something, speaking of the "other" and this will be disseminated in various ways, thus confirming that all discourse cites another discourse. Agamben believes that the subject is constituted through language, conscience exists and it takes the reality, because the language is articulate voice. Based on these concepts, we analyze some excerpts from the film, Vidas Secas, Nelson Pereira dos Santos, in order to understand the behavior, attitudes and way of life of characters Fabiano and Sinhã Vitória, in the constitution of the subject in the zone of indistinction, we tried to point out that the rupture between man and citizen, thus promoting the territorial prison, so common today. Keywords: dialogism, language, exclusion, power, zone of indistinction. 1

2 ELVAIR GROSSI, Mestre e Doutorando em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, professor da graduação e da pós-graduação em literatura, linguística e comunicação, escritor de livros de redação e literatura infantil. Título: A constituição do sujeito na zona de indistinção Subtítulo: O exercício do poder na animalização do homem Introdução Este trabalho tem por objetivo estabelecer um diálogo entre Mikhail Bakhtin e Giorgio Agamben, dois trabalhadores da palavra e exploradores da linguagem, como elemento instituidor das relações e conhecimento dos homens e do mundo. Para Bakhtin(1992), quando alguém relata ou expõe algo, a fala do "outro" estará presente e disseminada de várias formas, mesmo que, enquanto locutor, esse alguém detenha essa fala como elemento particular e individual, confirmando, assim, que todo o discurso cita outro discurso, logo, todo discurso é heterogêneo e o eu do discurso constitui-se, obrigatoriamente, em função do outro, o que define não só a natureza social desse discurso, como as coerções sociais que ele sofre. Para Agamben (2006), é na linguagem e através da linguagem que o homem se constitui como sujeito, ou seja, a única forma de reconhecimento, de relação existencial e de instância de discurso só pode ser identificável por meio da voz que as profere, pois, a palavra está associada à voz e da sua relação com a linguagem. A linguagem humana é a voz da consciência, nela a consciência existe e se dá realidade, porque a linguagem é voz articulada 2

3 A partir dessas premissas, analisamos um recorte: Fabiano e Sinhá Vitória, no filme, Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, a fim de verificar as modalidades: língua oral e escrita e verbo-visual (filme), bem como as relações dialógicas entre interlocutores e discursos, em esferas e lugares diferentes, marcando diferentes significados, como as relações de poder, a constituição do sujeito na zona de indistinção e a figura do refugiado na condição de homo sacer 1, provocando uma ruptura entre homem e cidadão, entre nascimento e nacionalidade, alimentando violentamente a reclusão territorial nos nosso tempos. 3

4 1.Segundo Agamben, o homo sacer é uma obscura figura do direito romano arcaico, desprovido de qualquer poder e submetido ao poder soberano que se apresenta como lei: ele é a lei mas ao mesmo tempo está fora dela. Nessa situação desnudada, desprovida o homo sacer dá-se como vida nua aberta à morte e insacrificável. É, portanto, nos dizeres de Agamben, uma vida sagrada. Mas se essa pessoa for morta por outra, a que mata não é punida, não comete qualquer crime porque o homo sacer encontra-se abandonado pela lei, ou seja, abandonado pelo poder soberano. (2007, p.. 89,90) 1 A constituição do sujeito na zona de indistinção Morin (1996) entende que a constituição do sujeito se dá de forma dicotomizada, a partir de sua individualidade e dependência. Ou seja, segundo nossas leituras, o sujeito tem como fundamento duas faces associadas e inseparáveis: inclusão e exclusão. A exclusão se fundamenta na busca do eu, na consciência da individualidade, como elemento único, central e subjetivo, diretamente relacionada com a inclusão, que se fundamenta na relação com o outro. Assim, o eu não existe de forma isolada, mas se completa com o outro. Ser humano e possuir linguagem e cultura denotam a individualidade, ou seja, a instituição de um ser único, sem plural. Este eu, porém, não pode deixar de levar em consideração o interlocutor e o grupo no qual está inserido. Segundo Agamben (2005), a linguagem de cada um pertence à comunidade com quem convive, fundamentada na experiência e no conhecimento, sendo o homem o sujeito do processo. Nesse sentido, a arte é um movimento, um simulacro da cultura, modo de reconstituição do evento conversacional, representação de uma cultura e da linguagem, um discurso dentro do discurso, com início, desenvolvimento e fim. Como uma história dentro da História, uma modalidade se apropria de outras modalidades escritas, orais e verbo-visuais, como em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, adaptado ao cinema por Nelson Pereira dos Santos. Em um pequeno recorte uma modalidade discursiva apropria-se de outra, com as relações dialógicas e as extensões de significados. O mesmo recorte, em texto escrito, literário, responde ao texto verbo-visual ou fílmico, mostrando as relações dialógicas de sentido, como no capítulo Mudança: Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira 4

5 bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala. (RAMOS, 1983, p.9) O narrador discorre linguisticamente, apresentando um quadro dramático da situação de uma família em busca da sobrevivência no espaço árido. Graciliano não dá a fala aos seus personagens, não há alternância de turnos, muito comum na oralidade, o que mantém uma dinâmica e motiva a interação. No texto, predomina o discurso indireto livre, às vezes, misturando a fala do narrador com a fala do personagem, dada a intimidade entre ambos. O personagem não evoca uma voz, não possui uma linguagem, o tempo é manipulado pelo narrador, o que revela premeditação, ou seja, os movimentos de pessoas fadadas ao insucesso, infelizes, que pode ser entendida apenas como mudança de lugar e não mudança de situação, como anuncia o título Mudança. Segundo Bakhtin (1992): todo enunciado é uma resposta a enunciados anteriores dentro de uma esfera: refuta-os, confirma-os completa-os, supõe-nos conhecidos e, de um modo ou de outro, conta com eles. (p.316) Nessa perspectiva, nenhum texto ou discurso se constrói sozinho, mas a partir de outro. Em Vidas Secas, as imagens, a sucessividade e a estruturalidade das cenas só são possíveis a partir de outro texto, no caso, o texto literário. A linguagem verbal, por meio da imagem, ganha corpo, detalhamento, forma e adjacência, como mostra acena a seguir: 5

6 Nesse recorte o texto verbo-visual é um evento híbrido, com sincretismo de linguagens, sons, cores e cenografia, de extrema importância na constituição do discurso. Sua materialidade dá densidade ao visual e contribui para um efeito de sentido pelas várias linguagens que se interpenetram e se entretecem, assegurando a imitação do real. O enunciador apresenta na cena 1, abertura do texto-filmíco, apenas a imagem, em primeiro plano, da região, a aridez, a agressividade da natureza, o espaço vazio, a ausência de vegetação e verde, um aberto sem referência; na indicação da seta, bem no meio da paisagem, uma vez anunciado o título do filme, começam a surgir a cabeça de Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais velho, o menino mais novo e a cachorra Baleia, que está sempre à frente da comitiva. A família parece brotar da terra, nascendo para aquela região. Como se nasce uma planta, denotando, claramente, no decorrer do texto e filme, o sentido vegetativo dessas pessoas. Por exemplo, é possível perceber que quando Fabiano conversa, sua fala é atravessada por sons guturais, que não fazem sentido algum a não ser pela entonação ou pela gestualidade. Confirmando, que a falta de voz e linguagem é total, ainda na abertura do filme, apenas um ruído se avoluma, muito semelhante ao ranger das rodas de um velho carro de boi. À medida que a cena vai se enquadrando, dando destaque aos retirantes, o volume aumenta. A horizontalidade, tendo um foco de câmera aberto, causa o efeito e sentido de brotar, nascer da terra, o nascer da planta, do vegetal. O deslocamento da família, que se dá a partir da cena 01, é quase imperceptível, além da falta de manifestação da voz e da fala dos personagens, o texto-fílmico também acentua certa condição de silêncio, ou seja, não há trilha sonora musical, apenas a trilha sonora da natureza do sertão, da região do nordeste e tudo que nela se encontra, como por exemplo, o ranger do carro de boi, a chuva, o vento da caatinga, os animais etc. Enaltecendo e valorizando o quadro que se destaca, que se desponta: espaço e a família de retirantes, pois a terra e sua aridez se misturam com as pessoas, motivando a imagem de melancolia e o isolamento dos personagens em relação ao meio ambiente desolador, gerando uma sensação de monotonia e deixando prevalecer apenas uma imagem: a terra e toda a agressividade da natureza. Na sequência das cenas há uma mobilidade, uma dinâmica, uma movimentação, um deslocamento do fundo em direção à frente da tela, ressaltando o caminhar dos persoangens que, 6

7 ao mesmo tempo, vem caracterizar a letidão, a monotonia de vida, uma busca determinada pela vagueza e pela falta de de perpectiva. Tais cenas apontam vários aspectos representativos: a cultura regional, os traços físicos, a postura e forma dos personagens, às quais a imagem dá autenticidade. Fabiano e sua família, em meio à agressividade da natureza, movimentam-se, caminham e gesticulam, incorporando o texto verbal que, agora, além da imagem, tem uma extensão ampla de significados. A câmera, narrador por excelência, mostra uma enunciação importante para sustentar o discurso verbal, no âmbito social, histórico e ideológico. A peregrinação 2 (migração) e a forma como se estrutura o discurso textual e o discurso verbovisual denunciam o estado de miserabilidade e precariedade em que se vivem os retirantes, os excluídos, postos à margem de qualquer sistema social. De acordo com Agamben (2007), tais pessoas não são consideradas socialmente úteis, ou seja, não têm um papel social claramente definido dentro de uma ordem instituída, são apenas entidades biológicas, em um estágio animalesco, vidas nuas ou vidas sacras. Nessas condições, as cenas que se apresentam na abertura do filme, confirmam a zona de indistinção, uma pessoa que é simplesmente posta para fora da jurisdição humana sem ultrapassar a divina (AGAMBEN, 2007, p. 89), uma vida matável e insacrificável, aquele que constitui o conteúdo primeiro do poder soberano ( p.91). Não se trata apenas da animalização do homem, mas também do bando, remetido à própria separação e entregue à mercê de quem o abandona, ao mesmo tempo excluso e incluso, dispensado, abandonado 3 e, simultaneamente, capturado (AGAMBEN, 2007, p.116). A família de Fabiano carrega tanto a insígnia da soberania, de quem a baniu, quanto à expulsão da comunidade. 2. Essa peregrinação, que destacamos, são imagens que representam o movimento de deslocamento e, também, o movimento de busca, de sobrevivência, mas acima de tudo, traduzem a saga dos retirantes, como se estivessem pressionados a fugir, a desocupar a área sob as ordens do poder; legitimando, de forma autêntica, a miséria e o sofrimento, pois, segundo Agamben (2007), A exceção é uma espécie de exclusão. Ela é um caso singular, que é 7

8 excluído da norma geral. Mas o que caracteriza propriamente a exceção é que aquilo que é excluído não está por causa disto, absolutamente fora de relação com a norma; ao contrário, esta se mantém em relação com aquela na forma da suspensão. A norma se aplica à exceção desaplicando-se, retirando-se desta. (p.25) 3. O termo abandono, segundo a perspectiva de Agamben, pode significar a mercê de... ou a seu talante livremente e bandido pode ser entendido como excluído, banido ou aberto a todos, livre. Nota-se que ambos podem representar-se com significados opostos. Diante dessa ambigüidade, os conceitos se aplicam para aqueles que não pertencem a lugar algum, estando livres, como também, para aqueles que foram abandonados, banidos ou excluídos (AGAMBEN, 2007, p. 117). Assim, a regra, suspendendo-se, dá lugar à exceção, a inclusão de Fabiano se dá por sua própria exclusão. A seca é o lugar onde a provação total torna-se regra, as pessoas podem ser assassinadas sem que isso represente crime 4, é o homo sacer. 8

9 4. Assassinar alguém e não representar um crime, é possível, devido à soberania, ou seja, segundo Agamben (2007), soberana é uma esfera na qual se pode matar sem cometer homicídio e sem celebrar um sacrifício, e sacra, isto é, matável e insacrificável, é a vida que foi capturada nesta esfera (p.91). 2 As referências: social e da linguagem Os campos são o espaço de exceção, o território total, onde ocorre o mais completo fechamento e exclusividade, onde a lei é integralmente suspensa. (...) fato e direito se confundem sem resíduos, neles tudo é verdadeiramente possível, move-se em uma zona de indistinção entre externo e interno, exceção e regra, lícito e ilícito, na qual os próprios conceitos de direito subjetivo e de proteção jurídica não fazem mais sentido (...) (AGAMBEN, 2007, p.177) O Estado de exceção inaugura um novo paradigma, no qual a norma torna-se indiscernível da exceção e o campo é, digamos, a estrutura em que o Estado de exceção, em cuja possível decisão se baseia o poder soberano, é realizado normalmente (Agamben, 2007, p.177), como se pode observar na cena 7. ( 7 ) 9

10 Aqui, os retirantes, depois de uma longa jornada, na investida do projeto de sobrevivência, deparam-se com um pequeno retiro abandonado, uma verdadeira zona de exclusão territorial, da qual tomam posse. ( 8 ) 10

11 Posse momentânea, pois, com a chegada do Coronel, representante da Lei, consuma-se a expulsão. A situação se inverte, quando Fabiano declara ser um bom boiadeiro, a serviço do Coronel. Entretanto, a forma de negociação torna-se mais branda, principalmente, quando o oprimido está totalmente a serviço da submissão, à mercê do opressor. No oprimido reside e se manifesta a incomunicabilidade, sua linguagem é totalmente desprovida de quaisquer adjetivos, sem substância linguística, uma linguagem seca, talvez o reflexo do ambiente e característica marcante de quem ali habita. Nos recortes 7 e 8, exclusão territorial indica afastamento dos campos 5 e da atividade ou ocupação humana. Fabiano não está completamente destituído de laços sociais, pois, nas palavras de Agamben, mesmo nesse retiro, trata-se de uma exclusão inclusa. O que significa dizer que, Fabiano, como mostra o recorte 7, para ser abandonado é necessário, primeiramente, pertencer a algum lugar. Esse lugar é o bando, seu lugar de origem. 5. As imagens constituídas nos recortes 7 e 8, denotam uma certa semelhanças aos campos, pois segundo Agamben (2008) O campo é o espaço que se abre quando o estado de exceção começa a tornar-se regra (...) (p.09) Deste modo, o abandonado sempre estará ligado ao bando pela sua exclusão, pois, apesar de ter sido posto fora de seu bando, sempre vai pertencer ao mesmo, estando a mercê do Coronel, da lei, recorte 8, é quem o abandonou ou excluiu, porque aquele, por sua vez, também não pode abrir mão da relação que tem sobre quem baniu. Assim, o abandonado jamais será livre e ao mesmo tempo não pertencerá a lugar nenhum, estando em uma condição de indeterminação quanto a sua relação ao seu bando, a sua origem. Nesse mundo biopolítico, vida nua, contexto pelo qual trafega Fabiano e sua família, Sinhá Vitória é a única personagem que tem racionalidade e consciência de seu estado e condição, como mostra a cena 9 e 10: ( 9 ) 11

12 Fabiano O patrão disse que é 100 mil réis por cabeça... Sinhá Vitória e Fabiano não questionam o valor a ser pago pelo serviço prestado, mas Sinhá Vitória, imediatamente, faz uma avaliação, um orçamento, para achar uma saída para a situação. ( 10 ) Sinhá Vitória É... o dinheiro dá para acertar as conta com patrão... e com a sobra a gente compra o couro para fazer uma cama igualzinha ao do seu Tomais... se precisar a gente gasta de menos. Fabiano...é... a gente gasta de meno Sinhá Vitória... vamo dormi em cama de couro... vamo sê gente... A expressão Vamo sê gente é uma constatação da biopolítica, da vida nua, da exclusão como principal forma de ação política sobre a vida, cujo efeito é a vida desqualificada, animalizada, despojada, exposta à morte. O Coronel (patrão), ao pagar um salário indigno, não comete delito, porque a lei lhe é totalmente indiferente. Essa é a lógica das relações de poder. Na cena em que se dá a relação entre Fabiano e Sinhá Vitória, é possível perceber que Sinhá Vitória, tendo consciência de seu estágio, alimenta um projeto de vida, uma miragem, uma referência social: possuir uma cama de couro, igualzinho ao do seu Tomás. Sinhá Vitória Que fim levou seu Tomás Fabiano Se largou-se como a gente. Será que ele carregou todos os trem junto, a bolandeira garanto que ficou e os livros também... (...) Seu Tomás é que era homem de valia, seu Tomás falava bem, como um dotor... (...) homem de leitura 12

13 Na passagem em que, seu Tomás da Bolandeira é referência para Fabiano, que aspira possuir seus dotes e qualidades, principalmente, o falar e ler muito bem., confirmando a importância da linguagem e legitimando os dizeres de Agambém (2006), o homem se constitui pela linguagem. Já nas palavras de Bakhin (1992), todo sujeito se constitui em relação ao outro, ou seja, mesmo os retirantes, em estado de vida animalizada, vida nua, aspiram por uma nova forma de vida, porém, encurralados pelas forças que representam o Estado, não se constituem como sujeito, residem numa zona de indistinção, uma vez que sua vida fica reduzida ao mínimo biológico, sem qualquer valor ou dignidade. A relação de Fabiano com o Patrão. Patrão Entre... Fabiano Dia... Patrão Sente.. cê qué acertá as conta hoje? Fabiano Após careço de compra.. Patrão Quanto é que eu lhe devo mesmo? Fabiano Bom... é... quer dizer... é... Patrão Panha a caderneta... tá lá na sala em cima da escrivaninha... Fabiano E eu sei... Fabiano Me desculpe, mais tem de meno... Patrão Tá certo... Fabiano O que a mulhé disse é mais... aqui tem erro na conta.. Patrão A diferença é do juro, não lhe emprestei dinheiro todo esse ano... tem erro não.. Fabiano Eu não, mais a mulhé tem miolo, sabe fazê conta... aqui tem de menos... Patrão Sua parte tá i... não tem mais nada para receber... Fabiano Isso não tá certo... só nego não... Patrão Nego não tem nenhum aqui... leve seu dinheiro e se não quiser vai procurar emprego em outro lugar... cabra insolente não trabalha comigo não... Fabiano Bem... bem... não é preciso barulho... foi palavra à toa... me desculpe, foi culpa da mulher patrão... eu não sei lê, a velha me disse é tanto, eu acreditei nela... Patrão Esta bem Fabiano, vá trabalhar... Fabiano Mas noutra não caio não senhor, me desculpe... Nesta relação, observamos que o patrão representa a lei, o poder soberano, vejamos: 13

14 Patrão Nego não tem nenhum aqui... leve seu dinheiro e se não quiser vai procurar emprego em outro lugar... cabra insolente não trabalha comigo não... Nota-se que o patrão nesta passagem, é aquele que decide sobre o estado de exceção, ou seja, pessoa que se põe, ao mesmo tempo, acima e além da lei dos homens para instaurar o regime em que a lei, embora vigente, não possui aplicação, aplica-se em consonância com seu próprio bando, aplica-se desaplicando-se, é a suspensão da ordem jurídica. Vale dizer, segundo Agamben, que não se trata de invalidar a lei, mas aplicá-la desaplicando. Isso legitima que nesta relação, Fabiano e seu Patrão, define-se pelos papéis de opressor e oprimido, pois, mais uma vez, o clímax da negociação ocorre no momento em que Fabiano reconhece a sua condição de oprimido e impotência devido à total miséria física, linguística e intelectual, como também aparece na cena entre o fiscal e Fabiano: Fiscal Pra vender tem que pagar imposto da prefeitura Fabiano Não sei nada de imposto não Fiscal O porco é seu? É pra vender? Então tem que pagar imposto... Fabiano Isso não é porco não... é pedaço de porco... Fiscal Não interessa, se é pra vender tem que pagar imposto seu cabra safado... tá me desacatando. Fabiano Me desculpe seu moço, pensei que poderia me dispo dos meu troço, não sabia desse tal de imposto, não sabia que a prefeitura tinha uma parte do meu cevado... O embate entre o fiscal da Prefeitura e Fabiano revela a supremacia do poder ou, como afirma Agamben, o poder se estabelecendo por um corpo de leis, mecanismo, dispositivos, acionado de acordo com os interesses dos opressores, do poder ou do Estado: é pra vender?... Então tem que pagar imposto. O Estado se manifesta como força e autoridade, o cidadão se aniquila e, sem nenhum histórico, fica reduzido a uma entidade biológica. Assim, os representantes das instituições sociais que oprimem Fabiano - o soldado, corrupto, oportunista e medroso; o dono da fazenda (Coronel ou patrão), exigente, ladrão e opressor e o fiscal da Prefeitura, intolerante e explorador o levam à exclusão, à vida nua e apenas biológica. 14

15 3 Considerações finais Todo texto tem uma esfera de atuação, procede de alguém e destina-se a alguém, pois cada enunciador tem um horizonte social bem definido. Assim, a análise do nosso corpus Vidas Secas, na categoria filme, aponta diferentes formas de constituição, diferentes textos e discursos, todos relacionados e imbricados dialogicamente, onde ocorrem as relações de poder, o embate entre opressor e oprimido, a zona de indistinção, o estado de animalização e a vida nua. Nesse terreno de mobilidade tão contrastante e árido, à luz da teoria de Agamben, vemos um Fabiano, que pode ser apenas um representante do povo, um cidadão brasileiro. Para sua família exposta à morte, excluída, não há nenhuma espécie de resgate. O Soldado Amarelo pode ser apenas um representante do governo, do poder e o patrão, um adminstrador de nossas instituições. Tais forças políticas que habitam as esferas do Estado, em nenhum momento 15

16 cometem crímes ou delitos, pois, mesmo que cometessem, jamais seriam julgadas, eis a figura do homo sacer. O corpus possibilita refletir sobre o dispositivo de poder, a política, a animalização do homem por meio do mais sofisticado dispositivo, máquina ou técnica política, como mostram nossos referenciais teóricos. 4 Referências AGAMBEN, Giorgio. A linguagem e a morte. Trad. Henrique Burigo. Belo Horizonte: Editora UFMG, Estado de Exceção. Trad. Iraci D. Poleti. São Paulo: Boitempo Editorial, (2004).. Homo Sacer: o poder soberano e a Vida Nua I. Trad. Henrique Burigo. Belo Horizonte: Editora UFMG. (2007).. Infância e história: a destruição da experiência e a origem da história. Trad. Henrique Burigo. Belo Horizonte: Ed. UFMG, O que resta de Auschwitz. Trad. Selvino J. Assmann. São Paulo: Boitempo Editorial, Profanações. Trad. de Selvino J. Assmann. São Paulo: Editorial, Boitempo 16

17 BAKHTIN, Mikkhail (Voloshinov). Marxismo e filosofia da linguagem. Tradução Michel Laud e Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Hucitec, Questões de literatura e de estética: A teoria do romance. Tradução Aurora F. Bernardini. São Paulo: Unesp / Hucitec, 1992b.. Estética Martins Fontes, 1992c. da criação verbal. Tradução Maria E. G. Gomes Pereira. São Paulo: FOUCAULT, M. As palavras e as coisas. Tradução de Salma Tannus Muchail. 8. ed. São Paulo: Martins Fontes, LA BOÉTIE, Étienne de. Discurso da servidão voluntária. Trad. Laymert G. Santos. São Paulo: Brasiliense, MORIN, Edgar A noção de sujeito. In: SCHNITMAN, Dora Fried (org.). Novos Paradigmas, cultura e subjetividade. Trad. Jussara Haubert Rodrigues. Porto Alegre: Artes Médicas. (1996). RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 51ª. Ed. Rio de Janeiro: Record, SANTOS, Nelson Pereira. VIDAS SECAS. Brasil: Sino Filmes, filme (103min.), son., color, 35mm. 17

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