CARTILHA SOBRE RACISMO E INVIOLABILIDADE DE DOMICÍLIO DAS POPULAÇÕES CIGANAS, NÔMADES E DE RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA

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1 Escola Superior Dom Helder Câmara CARTILHA SOBRE RACISMO E INVIOLABILIDADE DE DOMICÍLIO DAS POPULAÇÕES CIGANAS, NÔMADES E DE RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA

2 Introdução A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 trouxe consigo avanços significativos no tratamento das questões relativas aos direitos humanos, todavia, por si só, ela não é capaz de transformar uma realidade social de discriminação e exclusão que é fruto da própria história do país. O Brasil é formado por povos vindos de várias partes do mundo, que chegaram para construir uma sociedade multirracial, todavia, divergências de interesses, diferenças de crenças e conflitos de opiniões decorrentes de posições na ordem econômica, na organização social e política, atitudes, comportamentos e costumes fundados em tradições culturais, conformam um território de disputas permanente, em que pode haver enfrentamentos, pactos ou imposições, tudo a depender da capacidade de diálogo entre as partes. A questão do racismo no Brasil ainda é um tema que traz bastante discussão, uma vez que não são poucos aqueles que defendem não haver qualquer tipo de discriminação na sociedade brasileira, quando, na prática, muitas das vezes, são exatamente estes os primeiros a terem atitudes de intolerância. A necessidade de justiça sócio-racial é o primeiro passo rumo à consolidação democrática, pois é através da compreensão da diferença que será possível o pleno respeito aos direitos humanos. O objetivo da presente cartilha é o de contribuir para a formação e a informação social, tão necessárias em uma sociedade complexa e pluralista como a nossa, para tanto, buscamos trazer breves noções sobre as diferentes etnias minoritárias que fazem parte do Estado brasileiro, demonstrando que suas crenças, modo de vida e concepção de mundo devem ser respeitados, sob pena de grave violação a princípios humanitários e normas penais positivadas no ordenamento jurídico brasileiro.

3 Preconceito e discriminação: diferenciação Preconceito é uma atitude negativa em relação a uma pessoa ou determinado grupo de pessoas, tendo como pressuposto uma comparação social, que toma como ponto positivo de referência o grupo social da pessoa preconceituosa. Discriminação é a forma de manifestação do preconceito, ou seja, sua materialização por meio de atitudes que prejudicam o grupo discriminado.

4 Etnias Minoritárias no Estado Brasileiro: 1. Ciganos e nômades: Há no mundo atualmente 12 milhões de ciganos e eles correspondem à maior minoria sem território do mundo. O Brasil tem a segunda maior população cigana do mundo. Os ciganos foram vítimas de perseguições e discriminações em todo o mundo e durante muito tempo sua cultura e tradições foi considerada de pouco ou nenhum valor, apesar da grande influência que exerceu na história das artes e da moda ocidentais. No Brasil, a cultura cigana é protegida por meio da norma constitucional que prevê a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida a proteção aos locais de culto e suas liturgias

5 Nômades: Não há notícia de povos nômades no Brasil a não ser os ciganos (que já podem ser considerados, em alguns casos, sedentários); Os hábitos nômades foram mantidos por algumas tribos Tuaregues do deserto do Saara.

6 Religiões de Matriz Africana: O candomblé, a Umbanda e o Omolocô são as religiões de matriz africana mais expressivas no Brasil; As religiões de matriz africana são também conhecidas como Comunidades de Terreiro, uma referência aos locais de celebração dos cultos; Somente no Brasil o candomblé tem hoje cerca de 3 milhões de adeptos; Grande parte dos praticantes destas religiões no Brasil pertencem a raça negra, cuja população de afrodescendentes é a segunda maior do mundo, após a Nigéria; Segundo dados colhidos pelo IBGE é possível observar uma relação entre discriminação racial e direitos econômicos, sociais e culturais, uma vez que, dentre outros dados, há o de que entre os 10% de brasileiros mais ricos, o percentual de negros é de 15% e o de brancos de 85%. Enquanto um homem negro vive em média 59,4 anos, um branco vive cerca de 66,1 anos.

7 Legislação Brasileira de Proteção à diversidade Direito à não discriminação Art.3º, CRFB. Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I construir uma sociedade livre, justa e solidária;...; IV promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Art.5º, CRFB. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade. XLII a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei. Art.23, CRFB. É competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios:... X combater as causas da pobreza e dos fatores de marginalização, promovendo a integração social dos setores desfavorecidos. Lei nº /89: Art.20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Pena. De 1 a 3 anos e multa.

8 Racismo: isso é crime! O que é isto? É a discriminação de pessoas por motivos de cor, religião, sexo, crença, situação social ou existencial, raça ou idade. Como ocorre? Ela se manifesta quando, por exemplo, em virtude de crença religiosa ou modo de vida, etnias minoritárias têm suas residências invadidas, sob o argumento de que tendas e moradias precárias não se encaixariam no conceito de domicílio. Ou ainda, quando adeptos a certas crenças são humilhados ou têm seu lugar de oração depredado ou desrespeitado, sob o argumento de serem crenças demoníacas. O que fazer? É muito importante que as pessoas denunciem sempre que forem vítimas de qualquer tipo de discriminação, pois além das normas jurídicas, a própria convivência social exige esse respeito para que possamos experimentar um amadurecimento democrático.

9 Direito de ir e vir: Art.5º, CRFB. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza. XV é livre a locomoção em território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens.

10 Direitos culturais: Art.215, CRFB. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais. 1º. O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório brasileiro. Art.216, CRFB. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: I as formas de expressão; II os modos de criar, fazer e viver; III as criações cientificas, artísticas e tecnológicas. 3º. A lei estabelecerá incentivos para a produção e o conhecimento de bens e valores culturais. 4º. Os danos e ameaças ao patrimônio cultural serão punidos, na forma da lei.

11 Uma das formas de discriminar é não respeitar a diferença, fazendo dela motivo para a invasão e o desrespeito à privacidade alheia.

12 Proteção Jurídica ao Domicílio no Brasil Não importa se brancos, negros, ricos ou pobres, anônimos ou famosos, todos os seres humanos têm um local onde desejam não ter seu sossego perturbado, no qual a intimidade e a privacidade, que são aspectos de sua liberdade individual, assumem uma dimensão superior, mais que em qualquer outro lugar. Este local de recolhimento é o lar, não apenas em seu sentido restrito, mas compreendido como sendo o local que o indivíduo escolheu para sua morada. A Constituição da República de 1988, pilar de sustentação de todo o ordenamento jurídico pátrio, em seu artigo 5º, inciso XI, prescreve que A casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem o consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial. A fim de que não restasse dúvidas acerca da proteção dada ao lar familiar, entendeu por bem o legislador elevar à categoria de crime a invasão ou permanência não autorizada em casa alheia ou em suas dependências, conforme preceitua o artigo 150 do Código Penal Brasileiro, cuja pena pode variar de 1 mês a 2 anos, podendo ser acrescida de um terço caso a invasão tenha sido perpetrada por funcionário público.

13 Conceito de Domicílio para o Direito Penal Brasileiro O parágrafo 4º do artigo 150 do Código Penal Brasileiro já traz o conteúdo do que deve ser compreendido pelo conceito de casa : a) qualquer compartimento habitado; b) aposento ocupado de habitação coletiva; c) compartimento não aberto ao público, onde alguém exerce profissão ou atividade. Deste modo, qualquer lugar em que se habite deve ser considerado como sendo moradia e, portanto, apto para a garantia constitucional e para a reprimenda penal, não sendo necessário que seja fixo ou afixado em determinado local; podendo ser móvel, flutuante ou errante, como um barco, trailler, barracas, quartos de hotéis, orfanatos, vagão de metrô abandonado ou mesmo um abrigo embaixo de um viaduto. A expressão casa recebeu abrangência tal que até mesmo o local onde o ser humano desenvolve sua profissão, atividade ou negócios, terá que contar com o consentimento do proprietário para que ali se ingresse ou permaneça, ressalva se faça em relação às salas de espera ou recepções destes locais, que não se encontram abrangidos pela proteção, uma vez que são abertas ao público em geral.

14 A casa é asilo inviolável

15 Populações Ciganas, Nômades e de Religiões de matriz Africana: proteção jurídico-penal de suas casas É de primordial importância que o processo de formação e informação se paute pela pluralidade cultural e valorização das populações ciganas, nômades, de religiões de matriz africana e demais grupos étnicos, num movimento amplo de educação marcado pelo respeito à diversidade, a fim de proporcionar a consolidação e o amadurecimento das democracias emergentes como a do Brasil. A proteção jurídico-constitucional e penal às casas dos cidadãos se estende de modo amplo, não somente a todo e qualquer tipo de moradia, mas também a todos aqueles que fazem parte da sociedade brasileira, não importando a origem étnica ou cultural. Pelo princípio da universalidade, todos os seres humanos são capazes para receberem a proteção dos direitos fundamentais pelo simples fato de serem pessoas e, portanto, dignas. A história das minorias étnicas no país é permeada por exemplos de abusos por parte de cidadãos comuns e autoridades que, deixando de compreender a diferença, passam a classificá-la como conduta desviada. Assim, a divergência de crença, no modo de compreender a vida e de se organizar socialmente, ao contrário de oportunizar o crescimento social, já significou e ainda significa em alguns casos o ponto inicial para a discriminação. É direito constitucionalmente prescrito, além da inviolabilidade do domicílio, a liberdade de consciência e de crença (art.5º, VI); a garantia de que ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política (art. 5º, VIII), assim como são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas (art. 5º, X).

16 O que é legal na revista de domicílio? As polícias civil, militar e federal, no exercício de suas funções, podem ingressar nas casas dos cidadãos, mediante o respeito a alguns princípios:

17 Toda abordagem policial, ainda que com autorização judicial, deve ser antecedida pela identificação do policial responsável pelo ato; Não constitui crime a entrada ou permanência em casa alheia ou em suas dependências: a) durante o dia, com as observâncias das formalidades legais, para efetuar prisão ou outra diligência; b) a qualquer hora do dia ou da noite, quando algum crime está sendo ali praticado ou na iminência de o ser; O ingresso na casa do cidadão, quando autorizado, não deve se reverter em constrangimento. É assegurada a integridade física e moral, sendo vedados comentários ou atitudes preconceituosas ou discriminatórias; Quando permitido, o procedimento de ingresso na casa do cidadão deve ser feito com presteza e objetividade, não se admitindo perguntas que firam a privacidade ou a vida privada do cidadão; Toda a revista na casa deve ser devidamente acompanhada pelo proprietário; Nenhuma ameaça ou violência pode ser praticada contra os moradores da casa; O uso da força deve ser reservado somente à hipótese de resistência e usada de modo proporcional; Para efeitos da lei penal, considera-se casa qualquer compartimento habitado, podendo variar desde as tradicionais habitações de alvenaria até mesmo barracas de lona ou abrigos embaixo de viadutos e pontes. É também abarcado pelo conceito os locais nos quais o ser humano exerce sua atividade profissional, atividade ou negócio; A prática de ato atentatório aos princípios e garantias do indivíduo constitui abuso de autoridade, crime previsto no artigo 3º e 4º da Lei 4.898/65 e também é causa de aumento de pena para o crime de invasão de domicílio, previsto no artigo 150 do Código Penal Brasileiro.

18 Contra a violação de direitos fundamentais, a melhor arma é a informação!

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