PRECONCEITO E INVISIBILIDADE: UMA ANÁLISE SOBRE QUESTÕES ACERCA DAS HOMOSSEXUALIDADES

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1 PRECONCEITO E INVISIBILIDADE: UMA ANÁLISE SOBRE QUESTÕES ACERCA DAS HOMOSSEXUALIDADES PRADO, Marco Aurélio Máximo & MACHADO, Frederico Viana. Preconceito contra homossexualidades: a hierarquia da invisibilidade. São Paulo. Editora Cortez, 2012, 2ª edição. 147 pp. Gerinaldo da Silva Lima i Introdução O presente trabalho apresenta uma discussão de maneira ampla em torno da sexualidade humana, discorrendo sobre a sua influência em todas as dimensões das nossas vidas, principalmente no que tange a nossa identidade, além do enfoque sobre a experiência social. As sexualidades participam de modo funcional na estruturação e montagem das hierarquias sociais e políticas e estas questões são parte do nosso cotidiano, muitas vezes utilizadas em disputas para o controle social dos indivíduos. O texto se propõe a mobilizar também os leitores para uma reflexão, que parte de informações de uma vasta bibliografia apresentada no livro e que discute temas relacionados às sexualidades e à orientação sexual. A literatura evidencia que é necessário enfrentar o preconceito sexual que tem vitimado principalmente as homossexualidades no cotidiano e repensa esta condução, fazendo o enfrentamento de questões que dizem da sexualidade participando ativamente das decisões políticas. No capítulo 1, os autores afirmam que o lugar da subalternidade ainda é pertencente aos sujeitos homossexuais. Muitas vezes, esta subalternidade é disfarçada, mas quase sempre desvendada e visível, bastando-nos atentar ao fato de que, lamentavelmente em se tratando do Brasil, somos o país que mais mata homossexuais no mundo, mostrando uma lógica perversa e criminosa de prática da superioridade e inferioridade de grupos sociais. No Brasil, não fugindo aos padrões da maioria dos países, a questão da sexualidade perpassa por um histórico de luta política e social, principalmente para enfrentar o 189

2 discurso e a prática heteronormativa que sempre rechaçou historicamente o não heterossexual, mantendo um discurso hegemônico calcado em princípios religiosos e embasado no senso comum, relegando, assim, as sexualidades que estão fora do padrão hétero como negativas, doentias, demonizantes e pecaminosas para, desta forma, suster a heteronormatividade. Conforme esclarece o texto, desde o século XIX e atravessando o XX, os sujeitos homossexuais no Brasil, mesmo com todas as influências ocorridas nos níveis globais ou transnacionais, ainda são subalternizados, marcados, diferenciados, estigmatizados no discurso hegemônico contemporâneo com vistas à manutenção das hierarquias sociais, morais e políticas. Atualmente, quando a mídia tenta promover visibilidade social ou política, apresenta as homossexualidades como forma de espetacularização, em performances caricatas, estereotipadas e alegóricas, dificultando, desta maneira, a discussão em torno de uma agenda política e social que resulte na diminuição da homofobia e do preconceito. Muito claramente, argumentam os autores, que a existência de hierarquias sociais favorecem ao nascimento e a instalação do preconceito, da marca pela diferenciação de grupos que somente reafirmam a subalternização política, social e de identidade homossexual, tentando naturalizar as práticas discriminatórias cotidianas impostas pelas lógicas de poder, sendo preciso, neste sentido, vencer tais questões. Já no capítulo 2, Prado e Machado apresentam argumentos indicando que não há acordo para uma definição sobre a homossexualidade, seja na busca pelo entendimento do conceito ou sobre a questão da prática da sexualidade, embora haja reconhecimento que, nos últimos anos, o tema tem sido discutido nos espaços políticos e, principalmente, tem provocado indignações e inquietações sobre esta questão, visto que não cabe, dentro da perspectiva de entendimento, apenas discussões sobre a prática sexual entre pares, envolvendo, porém, uma gama de questões de ordem cultural, de convicções sociais e no trato coletivo de identidade particular. Aduz ainda o texto que, de maneira tímida, os grupos de militância LGBT têm lutado por espaços dentro da sociedade e, principalmente, nos espaços públicos. Estas lutas têm sido empreendidas a muito custo, tendo como objetivo eliminar a naturalização dos 190

3 discursos e práticas excludentes, aviltantes e que, ora ou outra, tenta manter ou recriar a guetização para homossexuais. A sexualidade possui dimensões que vão além do aspecto fisiológico, pois abarca questões de ordem psicológicas, sociais, econômicas, religiosas, éticas dentre outros fatores. Quanto a homossexualidade, sempre houve um discurso de manutenção da ordem social pautado no olhar da heterossexualidade, privilegiando a heteronormatividade, subsumindo os comportamentos, vivências ou práticas contrárias ao padrão normativo, com o intento de controlar os corpos e os desejos alheios para, assim, manter o poder e a norma heterossexual. Quando se trata do capítulo 3, os autores argumentam que mesmo nas universidades não há coesão ou consenso no que tange à temática homossexual, há, pois, uma visível distinção que, em alguns momentos, é mais ou menos conservadora e que reflete nas epistemologias e metodologias que discorrem sobre o assunto. As pesquisas sobre o tema são mais evidentes a partir dos anos 1970 e se intensificaram nos anos 80, quando fizeram emergir a homossexualidade pelo viés coletivo, social e político e não mais sob o olhar da patologia e do pecado. Os estudo empreendidos a partir deste período focam, sobretudo, na possibilidade de minar as forças opressivas que subjugaram a comunidade homossexual por anos. Os autores pontuam, ainda, sobre a questão do conceito de gênero, enfatizando que é por meio deste que ocorreram as discussões sobre as tomadas de posicionamentos sexuais que ganharam proeminência ante ao patriarcalismo e aos valores estabelecidos pela heteronormatividade. A Teoria Queer, por sua vez, contribuiu significativamente por sua definição teóricometodológica, produzindo e induzindo a produção de um novo olhar, lançando novas perspectivas sobre o tema do gênero e da homossexualidade, mobilizando uma nova reflexão que repensa desde a semântica à questão da identidade sexual, militância, luta política e social com mais engajamento sobre a temática, de modo que seja repensado o caráter naturalista, os rótulos e desconstruindo a heteronormatividade. Sobre o capítulo 4, os autores mostram que há no preconceito social a visível ação de manter a hierarquia de um grupo sobre o outro, marcando esta situação quase sempre 191

4 pelo ódio e a violência, que são utilizados como forma de afirmar a superioridade sobre os homossexuais. O preconceito é utilizado como instrumento de inferiorização social, de afirmação da produção de ideologias que produzem uma prática excludente, com o objetivo de tirar a legitimidade e a luta política, impondo severamente a subordinação hierárquica, pautando-se em moldes heteronormativos. O preconceito permite a manutenção institucional da inferiorização, conservando determinado grupo subjugado ante aos processos de participação e democratização, perfazendo uma ação simples: quanto mais inferiorização, maior a sustentação para a existência de uma superioridade de grupos em relação a outros diversos. No capítulo 5, eles fazem um apanhado histórico sobre as lutas e militância dos movimentos LGBT desde o surgimento e sobre as pautas desenvolvidas, demonstrando os desdobramentos lineares até os dias atuais. A militância LGBT tem se organizado, trazendo ao campo público as questões da homossexualidade para o debate, mobilizando as sociedades para, por meio do diálogo e junto a outras minorias subalternizadas, esquecidas, neutralizadas e vítimas do preconceito que sejam fortalecidas, provocando, assim, maior visibilidade política e social destes grupos, principalmente os homossexuais e as mulheres. Os movimentos sociais são responsáveis por trazer à tona o debate político das questões que as relações de subordinação tendem a afirmar como sendo uma questão meramente cultural. No que tange a problemática da orientação sexual, por séculos esta foi categorizada como questão pontual em espaços reduzidos. A tentativa dos movimentos é justamente promover as questões para além do campo institucional, tornando-as visíveis e conhecidas por seu povo. No Brasil, o maior desafio dos movimentos LGBTs foi, num primeiro momento, construir seus adversários visíveis, identificá-los, tirando-os do esconderijo institucional, pessoal ou político e trazendo para fora. Só assim é possível pensar demandas, lutar contra a invisibilidade política que se perpetua por anos mesmo havendo lutas constantes dos movimentos. 192

5 Nestes termos, com as ações dos movimentos sociais LGBT, houve um reascender das vozes homossexuais, que outrora foram silenciadas na história, subjugadas, violentadas, invisibilizadas e incriminadas, passando a indicar e provocar contornos diferentes para as questões e as demandas, principalmente pelos espaços públicos e pela igualdade, indo de encontro a tudo o que tinha sido sedimentado como norma final e modelos único para seguir na vida e nos padrões sexuais. Por fim, Prado e Machado, deixam claro que não pretendem finalizar a discussão nem torná-la como dada. No que tange ao Brasil, ainda é cedo para afirmar que, de fato, existem avanços no reconhecimento político e social da população homossexual, ainda que existam indicativos positivos e favoráveis. Recomendam que sejam empreendidas pesquisa científicas, com vistas a tornar as temáticas da subalternidade de gênero, raça e sexualidade mais conhecidas e, assim, poder-se agir com maior notoriedade. É preciso continuar lutando contra todo tipo de preconceito, invisibilidade e/ou subalternidade, indo de encontro aos discursos hegemônicos e opressores, denunciando todos os mecanismos que reforçam estas questões que mantêm tais discursos, lutar ainda para que sejam pautadas na política nacional, na vida e na luta cotidiana de cada brasileira, para que, em pouco tempo, tenhamos um cenário favorável ao respeito e à igualdade de sexualidades e de gênero. 193

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