CRIANÇAS COM TRANSTORNO DE ANSIEDADE E SUAS POSSIBILIDADES DE APRENDIZAGEM NA ESCOLA POR MEIO DA DESCENTRAÇÃO

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1 CRIANÇAS COM TRANSTORNO DE ANSIEDADE E SUAS POSSIBILIDADES DE APRENDIZAGEM NA ESCOLA POR MEIO DA DESCENTRAÇÃO Geiva Carolina Calsa (DTP/UEM) Telma Cristina Amaral (PG/UEM) Mariana Costa do Nascimento (G/UEM) Minicurso INTRODUÇÃO A ansiedade está presente no comportamento humano desde os tempos mais primitivos e parte de sua natureza ter sentimentos de ameaça, perigo, enfim do que ainda não é conhecido. Todavia a ansiedade passou a ser objeto de distúrbios quando o ser humano colocou-se não a serviço de sua sobrevivência, como fazia antes, mas a serviço de sua existência (MARGIS et al, 2003, p. 1). Os autores definem o transtorno de ansiedade como uma apreensão excessiva de fazer algo, um medo sem explicação e que ocasiona uma tensão desagradável. A diferença entre a ansiedade normal e a patológica é definida por sua intensidade e duração. Estudos vêm mostrando que a ansiedade em excesso pode influenciar negativamente a aprendizagem escolar. Crianças com Transtorno de Ansiedade TA podem apresentar dificuldades em várias áreas de estudo prejudicando especialmente o processo de alfabetização e de numeralização. Estas crianças se esforçam, mas o medo excessivo acaba impedindo a aprendizagem. Tendem a realizar rituais como, por exemplo, a carteira que deve estar arrumada de determinada maneira, caderno no centro, estojo a esquerda e garrafa de água a direita; rituais de limpeza, como o pó da borracha ou os restos de lápis. Além disso, apresentam dificuldade para relacionar-se com outras pessoas e se sentem desmotivadas para a escola, apresentam baixa auto-estima e baixa expectativa em relação ao futuro. Anais da Semana de Pedagogia da UEM. Volume 1, Número 1. Maringá: UEM,

2 De seu lado, a instituição escolar pode ou não colaborar para a redução e controle do nível de ansiedade de seus alunos em condição patológica. Weiss (2010, p. 169) chama a atenção de que situações mal conduzidas na escola podem gerar e exacerbar a condição de ansiedade dos alunos. A autora alerta que a aprendizagem é acompanhada de um nível de ansiedade ótimo a ansiedade paranóica e a ansiedade depressiva, contudo, a ultrapassagem desse limite acarreta prejuízos neste processo. As situações de aprendizagem quando são mal conduzidas são geradoras de um excesso de ansiedade que se torna insuportável para o aluno, chegando à desorganização de sua conduta, o que acarreta o fracasso na produção escolar. A aprendizagem verdadeira exige um nível de ansiedade ótimo, ela sempre se dá acompanhada de uma ansiedade paranóide pelo perigo representado pelo conhecimento novo (o medo ao novo) e da ansiedade depressiva pela perda que se dá ao esquema referencial e certos vínculos que estariam envolvidos na aprendizagem. As dificuldades de aprendizagem podem se iniciar desde a educação infantil e tornarse mais evidentes no ensino fundamental. Cabe à instituição escolar reconhecê-las e encaminhar os alunos para uma avaliação psicoeducacional que possa confirmar ou não as suposições. Entretanto, nem sempre as coisas vêm acontecendo desta maneira e podemos encontrar, ainda hoje, crianças em condições patológicas sem atendimento adequado por parte da escola e da família, bem como crianças medicalizadas inapropriadamente. Esse é o caso do uso indiscriminado de ritalina na infância, registrada no Brasil e em outros países. Diante dessas considerações, o presente mini-curso objetiva apresentar as condições de aprendizagem de uma criança com transtorno de ansiedade e como uma intervenção pedagógica baseada no processo de descentração cognitiva pode vir a contribuir positivamente para sua aprendizagem escolar. O curso envolverá apresentação dos elementos teóricos básicos, estudo de um caso e levantamento de possibilidades de ação por parte da escola, em particular, situações de jogo. TRANSTORNO DE ANSIEDADE E DESCENTRAÇÃO De acordo com vários estudos, o estresse passou a ser o representante emocional da ansiedade, ou seja, trata-se de uma correspondência psíquica dos movimentos que o estresse Anais da Semana de Pedagogia da UEM. Volume 1, Número 1. Maringá: UEM,

3 causa em cada pessoa. O fato de uma situação ser percebida como estressante não depende da circunstância em si mesma, mas do significado atribuído pela pessoa ao evento. Mas de fato, o que é o Transtorno de Ansiedade? De acordo com Margis et al (2003) a ansiedade é manifesta por um sentimento de apreensão e, ainda, [...] de que algo está para acontecer, ela representa um contínuo estado de alerta e uma constante pressa em terminar as coisas que ainda nem começamos. Desse jeito, nosso domingo têm uma apreensão de segundafeira e a pessoa antes de dormir já pensa em tudo que terá de fazer quando o dia amanhecer. É a corrida para não deixar nada para trás, além de nossos concorrentes. É um estado de alarme contínuo e uma prontidão para o que der e vier. Dessa maneira, o transtorno de ansiedade caracteriza-se por essa apreensão excessiva de fazer algo, um medo sem explicação, o que ocasiona uma tensão desagradável. Castilho et al (2000) afirmam que as crianças ansiosas, diferentemente dos adultos podem não reconhecer seus medos, manifestando-se irracionais e exageradas em suas ações. Nessas circunstâncias o medo passa a ser reconhecido como patologia infantil. Margis et al (2003) pontuam que a ansiedade pode ser manifestada em três níveis: neuroendócrino (efeitos da adrenalina), visceral (passa pelo sistema nervoso, provoca reação de vigília ou alarme) e de consciência (por meio de sintomas desagradáveis, como palpitação, inquietação, medo excessivo). Para Melanie Klein (1991) a ansiedade tem sua origem na infância a partir de dois temores básicos: o receio que o bebê sente de que sua mãe tenha sido aniquilada pelos seus próprios impulsos destrutivos; e que nunca mais possa voltar. A primeira é denominada ansiedade neurótica (fonte interna); a segunda, ansiedade objetiva (fonte externa) que se caracteriza como uma dependência excessiva da criança em relação à mãe. No início da vida, o pensamento do bebê está centrado em si mesmo e na mãe. A criança não diferencia o seu eu do ego da mãe. Dessa maneira, o seio da mãe é para o bebê como parte de si mesmo (simbiose). Caso a mãe deixe-o passar fome, por várias vezes, o bebê irá internalizar o mundo externo como seio mau. Anais da Semana de Pedagogia da UEM. Volume 1, Número 1. Maringá: UEM,

4 De acordo com CID-10 (Classificação Internacional de Doenças -10, publicado em 1993), o transtorno de ansiedade é denominado desta maneira em razão da diversidade de sintomas por meio dos quais se manifesta: [...] transtorno é usado por toda classificação, de forma a evitar problemas ainda maiores inerentes ao uso de termos tais como doença ou enfermidade. Transtorno não é um termo exato, porém é usado para indicar a existência de um conjunto de sintomas ou comportamento clinicamente reconhecível associado na maioria dos casos, a sofrimento e interferência com funções pessoais. Conforme o DSM-IV (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), o Transtorno de Ansiedade pode ser subdivido em: Agorafobia; Ataque de Pânico; Transtorno de Pânico sem Agorafobia; Transtorno de Pânico com Agorafobia; Agorafobia sem história de Transtorno de Pânico; Fobia Específica; Fobia Social; Transtorno Obsessivo-Compulsivo; Transtorno de Estresse Pós-traumático; Transtorno de Estresse Agudo; Transtorno de Ansiedade Generalizada; Transtorno de Ansiedade de Separação; Transtorno de Ansiedade devido a uma condição Geral; Transtorno de Ansiedade Induzido por substância. Segundo Castilho et al (2000), nas crianças e adolescentes, os transtornos de ansiedade mais comuns são o Transtorno de Separação, atingindo 4% da população desta faixa etária, o Transtorno de Ansiedade Generalizada por volta de 2,7% a 4,6% e as fobias especificas 2,4% a 3,3%. Crianças com transtorno de ansiedade necessitam de um atendimento especializado, mas consideramos que a escola tem condições de facilitar a aprendizagem desses alunos desde que preparada teoricamente e didaticamente. Desse ponto de vista, os conceitos de centração e descentração sistematizados por Jean Piaget contribuem para que os educadores organizem este tipo de atividades de ensino. Silvia Parrat-Dayan (2007) destaca que o espaço escolar é promotor do encontro entre sujeitos que apresentam diferentes condições e perspectivas acerca de si mesmos, do outro e da realidade. A socialização, nesta direção, é capaz de promover as trocas interindividuais necessárias ao processo de descentração. Segundo Piaget (2005), a cada nova aprendizagem a criança passa por um processo de egocentrismo cognitivo que lhe provoca uma conduta centrada em relação ao meio externo, ou seja, certa confusão entre o eu e o objeto de conhecimento (pessoas, coisas, idéias, valores, Anais da Semana de Pedagogia da UEM. Volume 1, Número 1. Maringá: UEM,

5 etc). Nesta forma de egocentrismo o indivíduo não consegue distinguir seu pensamento como sendo um possível, nem como diferente do pensamento do outro. Flavel (1975, p. 159) comenta que a conduta de centração produz uma distorção no raciocínio do indivíduo, não presta atenção nas transformações pelas quais um estado se converte em outro. No entanto, a interação do indivíduo com o meio social, cultural e natural lhe permite superar gradativamente o egocentrismo inicial em direção a coordenação de diferentes pontos de vista denominado descentração. A partir daí a criança passa a perceber o seu ponto de vista como um dentre outros possíveis. Apoiando-nos nesses estudos podemos afirmar que o desenvolvimento social e intelectual implica descentrar-se, isto é, reconhecer que seu ponto de vista é um possível dentre outros possíveis, [...] desenvolvendo seu ponto de vista intelectual, e a cidadania, do ponto de vista social (FLAVELL, 1975, 159). Um exemplo de atividade que a escola pode promover neste sentido é o jogo de regras. Durante o jogo a criança coloca-se no lugar do outro, e espera sua vez de jogar o que pode facilitar seu movimento interno de descentração cognitiva. CONSIDERAÇÕES FINAIS Estudos mostram que crianças com Transtorno de Ansiedade podem melhorar sua aprendizagem escolar desde que a família e a escola criem condições para tanto. Concluímos que a descentração intelectual pode ser um mecanismo importante neste processo. Cabe a escola repensar seus objetivos e práticas pedagógicas com vistas a atender às demandas de seus alunos, em especial aqueles em condições de inclusão como os portadores de transtorno de ansiedade, para que desenvolvam as habilidades necessárias para a aprendizagem escolar. As instituições escolares tendem a buscar diagnósticos que justifiquem o não-aprender de seus alunos e, nesses casos, as escolas se omitem de sua função social e, muitas vezes, acabam por culpabilizar o individuo por seu fracasso escolar. Mediante essas preocupações, o presente curso busca contribuir para um esclarecimento adequado deste tipo de conduta infantil e apresentar alternativas de ação pedagógica para os educadores em formação e atuantes. Anais da Semana de Pedagogia da UEM. Volume 1, Número 1. Maringá: UEM,

6 REFERÊNCIAS CASTILHO, Ana Regina et al. Transtorno de ansiedade. Rev. Bras. Psiquiatria, São Paulo, v. 20, n. 3, p , dez D ABREU, Lylla Cysne Frota; MARTURANO, Edna Maria. Identificação de problemas de saúde mental associados à queixa escolar segundo o DAWBA. Revista Psico, São Paulo, v. 42, n. 2, p , abr./junh FLAVELL, John H. A psicologia do desenvolvimento de Jean Piaget. São Paulo: Pioneira, p. KLEIN, Melanie. Inveja e gratidão: e outros trabalhos Rio de Janeiro: Imago, MARGIS, Regina et al. Ansiedade. Revista de Psiquiatria, Rio Grande do Sul, v. 25, n.1, s/p., abr Disponível em: Acesso em: 30 de abril de Organização Mundial de Saúde. Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento do CID-10. Descrições clínicas e diretrizes diagnósticas. Porto Alegre: Artes Médicas, PARRAT-DAYAN, Silvia. A discussão como ferramenta para o processo de socialização e para a construção do pensamento In: Educação em Revista, Belo Horizonte, v. 45. p jun PIAGET, Jean. A representação do mundo na Criança. Aparecida: Idéia e Letras, SMITH, Corinne; STRICK, Lisa. Dificuldades de aprendizagem de A a Z: um guia completo para pais e educadores. Porto Alegre: Artmed, 2001, 332p. MARQUES, Tânia Beatriz Iawasko. Do egocentrismo à descentração. Tese de Doutorado Porto Alegre: 2005 WEISS, Maria Lúcia Lemme. A avaliação e a instituição escolar. In: BOSSA, Nadia Aparecida; OLIVEIRA, Vera Barros de (Orgs.) Avaliação psicopedagógica de criança de 7 a 11 anos. Petropólis: Vozes, 2010, p Anais da Semana de Pedagogia da UEM. Volume 1, Número 1. Maringá: UEM,

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