Garantias Constitucionais do Processo e Eficácia da Sentença Arbitral

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1 Garantias Constitucionais do Processo e Eficácia da Sentença Arbitral José Rogério Cruz e Tucci - Professor Titular da Faculdade de Direito da USP. Ex- Presidente da Comissão de Pós-Graduação da Faculdade de Direito da USP. Assessor ad hoc da FAPESP. Ex-Presidente da AASP. Advogado em São Paulo. Dentre as novidades introduzidas pela denominada Lei da Arbitragem (Lei 9.307/96) destaca-se a equiparação da sentença arbitral à sentença judicial, como, com todas letras, dispõe o art. 31: "A sentença arbitral produz, entre as partes e seus sucessores os mesmos efeitos da sentença proferida pelos órgãos do Poder Judiciário e, sendo condenatória, constitui título executivo". 1 Infere-se, de logo, que o legislador atribuiu natureza publicística ao juízo arbitral, consubstanciado em equivalente jurisdicional, por opção das partes. A despeito de ser instituído por meio de um instrumento negocial de cunho privado(convenção arbitral), o desenrolar do processo de arbitragem é tão jurisdicional quanto aquele que tramita perante a justiça estatal. Nesse sentido, verifica-se que os requisitos estruturais da sentença arbitral são exatamente os mesmos exigidos pela legislação processual civil (art. 458): relatório, motivação (na qual deverão ser examinadas questões de fato e de direito, aludindo expressamente se os árbitros 1. A anterior regulamentação, regrada no CPC, estabelecia que, após o laudo arbitral ser proferido, para que pudesse ser exigido seu cumprimento, ter eficácia e força executiva quando fosse condenatório, seria necessária a confirmação pelo Judiciário, em sede de ação de homologação de laudo arbitral (cf. Selma M. Ferreira Lemes, A sentença arbitral entre as partes e em relação a terceiros, palestra proferida no Curso de Práticas Arbitrais: A arbitragem como meio de solução de conflitos, na AASP, em , e publicada na Revista Consultor Jurídico, ed. de ).

2 julgaram por equidade) e o dispositivo (no qual os árbitros resolverão a matéria que lhes foi submetida e estabelecerão o prazo para cumprimento da decisão) (art. 26 da Lei 9.307/96). Importa também frisar que o procedimento da arbitragem, a teor do art. 21, 2º, deverá ser informado, não só pela imparcialidade e pelo livre convencimento motivado dos árbitros, mas, ainda, pelos princípios do contraditório e do tratamento paritário das partes. Esclarece, a respeito, Humberto Theodoro Júnior que: a garantia do devido processo legal com os consectários do contraditório e da ampla defesa são, modernamente, direitos assegurados no plano constitucional, o mesmo ocorrendo com a exigência de motivação de todas as decisões judiciais (CF, arts. 5º, LIV e LV, e 93, IX). Por isso, qualquer que seja o procedimento a prevalecer no juízo arbitral esses preceitos fundamentais nunca poderão ser descurados pelos árbitros, sob pena de nulidade. A matéria é de ordem pública e não se sujeita à disponibilidade negocial na convenção de arbitragem. Sobre o tema, a lei brasileira é expressa: serão sempre respeitados no procedimento arbitral os princípios do contraditório, da igualdade das partes, da impessoalidade do árbitro e de seu livre convencimento (art. 21, 2º). 2 Para a concretização da arbitragem é exigida uma convenção particular, pela qual as partes concordam em submeter a decisão do litígio a um árbitro. Observa-se, destarte, que a convenção de arbitragem é delimitada, sob o aspecto subjetivo, pelas pessoas que firmam a cláusula compromissória ou o compromisso arbitral. 2. Arbitragem e terceiros litisconsórcio fora do pacto arbitral outras intervenções de terceiros, Revista de direito bancário, v. 14, 2001, p Consulte-se, ainda, Carlos Alberto Carmona, Arbitragem e processo, 2ª ed., n. 2, São Paulo, Atlas, 2004, p ; n. 9, p ; Edoardo Ricci, O contraditório na arbitragem de eqüidade, Lei de arbitragem brasileira, São Paulo, Ed. RT, 2004, p. 149.

3 Como a arbitragem se circunscreve aos limites do contrato celebrado entre as partes e entre estas e o árbitro, sua extensão subjetiva e objetiva não pode manifestar-se senão entre os contratantes. A legitimidade de parte para o procedimento arbitral, por isso, só se estabelece entre os sujeitos contratuais. A única via de legitimação, ativa ou passiva, para quem queira participar, ou seja, chamado a integrar a arbitragem, condiciona-se à própria convenção arbitral. Pouco importa, portanto, seja necessário ou facultativo o litisconsórcio: sua formação só será admissível, de forma cogente, entre os que celebraram a convenção arbitral. 3 Saliente-se, por outro lado, que, proferida a sentença arbitral, não há previsão legal para que seja ela submetida a qualquer reexame. Ela é irrecorrível (art. 18). Excetuando-se a regra do art. 30, que autoriza pedido de correção de erro material ou de esclarecimento acerca de omissão, dúvida ou contradição da sentença arbitral, irrompe ela definitiva. 3. Cf. Theodoro Júnior, Arbitragem e terceiros litisconsórcio fora do pacto arbitral outras intervenções de terceiros, cit., p ; que, complementando o raciocínio, assevera: se todos os que devem ser litisconsortes são aderentes à convenção arbitral, tudo se desenvolverá naturalmente dentro da força contratual. Se, contudo, o terceiro, que se deseja incluir no processo, não firmou o ajuste, sua inserção no litisconsórcio, ainda que necessário, somente se tornará possível se ele consentir em aderir ao compromisso. Havendo, pois, recusa de sua parte, o árbitro não terá força para submetê-lo à relação processual. Se o caso for de litisconsórcio facultativo, o procedimento da arbitragem terá de prosseguir só com as partes vinculadas à convenção arbitral. Se for necessário o litisconsórcio, só restará ao árbitro encerrar o procedimento sem julgamento de mérito, por falta de integração da convenção de arbitragem. Proferirá sentença terminativa na esfera arbitral, para que a lide possa ser resolvida pelo Poder Judiciário. Diante do caráter voluntário da arbitragem, falece à parte e ao árbitro o poder de impor ao terceiro toda e qualquer espécie de arbitragem forçada. Em relação a quem não é parte da convenção, cabe ao árbitro ouvi-lo, mas não convocá-lo a se submeter a um imperium que não existe. V., ainda, em senso análogo, Antonio de Pádua Soubhie Nogueira, Considerações sobre os limites da vinculação da arbitragem (lei 9.307/96): breve análise de pontos controvertidos, Revista dos Tribunais, v. 780, 2000, p ; Joel Dias Figueira Júnior, Arbitragem, jurisdição e execução, São Paulo, Ed. RT, 1999, p. 259.

4 Todavia, o art. 33, também da Lei 9.307/96, possibilita o ajuizamento, pela parte interessada, de ação visando à anulação do ato decisório arbitral, com arrimo num dos fundamentos catalogados no precedente art. 32. Essa demanda poderá ser proposta, perante o Judiciário, no prazo decadencial de 90 dias, a contar do recebimento da notificação da respectiva sentença, devendo ser processada pelas regras do procedimento comum ordinário. Aduza-se que, sendo de sinal condenatório a sentença, o vício que a inquina é passível de ser argüido pela via da impugnação, nos termos dos arts. 33, 3º, da Lei de Arbitragem, e 475-L do Código de Processo Civil, ao ensejo da execução do título executivo (art. 475-N, IV, CPC). Decorrido o lapso de 90 dias, a sentença arbitral torna-se imutável em relação às partes e seus sucessores. 4 A sucessão (universal ou singular) enseja a transferência ao sucessor de todas as posições jurídicas ativas e passivas do sucedido, sendo de ressaltar que, na sucessão inter vivos, o conhecimento da pendência da arbitragem ou da sentença arbitral, pelo sucessor, que por alguma razão não substitui o transmitente no procedimento da arbitragem, é fundamental para que ele fique vinculado à coisa julgada. 5 Tendo-se em vista os limites subjetivos da convenção arbitral não há como se admitir que a imutabilidade do conteúdo decisório da sentença possa atingir terceiros. 4. Examinando o texto legal brasileiro, afirma Edoardo Ricci que: "A sentença arbitral com trânsito em julgado não pode mais ser impugnada. Depois do trânsito em julgado, a imutabilidade de seus efeitos é absoluta, porque não cabe ação rescisória... a celeridade da arbitragem não diz respeito somente ao procedimento, mas também à produção dos efeitos da tutela definitiva, bem como de sua imutabilidade" (Reflexões sobre o art. 33 da lei de arbitragem, Lei de arbitragem brasileira, cit., n. 4, p. 201; Revista de Processo, n. 93, 1999, p ). 5. A exemplo do que ocorre com a alienação da coisa ou do direito litigioso durante ou após a pendência do processo judicial, também no âmbito da arbitragem não se descarta a existência de situação na qual deva ser ressalvada a boa-fé do terceiro adquirente, podendo este furtar-se à eficácia da sentença arbitral por meio dos remédios previstos na Lei 9.307/96.

5 Ressalta, outrossim, Theodoro Júnior que: a jurisprudência brasileira já teve a oportunidade de enfrentar o problema e assentou: a) a convenção arbitral vinculante somente é válida e eficaz em relação às partes contratantes ; e b) em havendo litisconsorte que não subscreveu a convenção arbitral não pode ser constrangido a aderir ao negócio de que não participou. 6 A propósito desse tema, cumpre ainda esclarecer que a sentença arbitral é considerada inválida quando restarem violados o contraditório e a igualdade das partes. É a regra do inc. VIII do art. 32: É nula a sentença arbitral se:... VIII forem desrespeitados os princípios de que trata o art. 21, 2º, desta Lei. 7 Assim, em conclusão, a sentença arbitral que acarrete prejuízo jurídico a um terceiro é passível de ser contestada perante o Poder Judiciário. Afirme-se, de logo, que, sendo condenatória a sentença arbitral, o terceiro que for atingido pela respectiva eficácia, poderá oferecer impugnação (arts. 33, 3º, da Lei 9.307/96, c.c. art. 475-L do CPC) no momento processual em que estiver sofrendo, in concreto, tais efeitos. A ação rescisória, segundo a clara exposição de Flávio Yarshell, não é cabível para desconstituir o julgamento de mérito proferido pelo árbitro, porque os mecanismos de controle jurisdicional deste já se encontram previstos na própria lei especial. Na verdade, é como se a 6. Arbitragem e terceiros litisconsórcio fora do pacto arbitral outras intervenções de terceiros, cit., p V., a respeito, Joel Dias Figueira Júnior, Manual da arbitragem, n. 49, São Paulo, Ed. RT, 1997, p. 186.

6 ação rescisória da sentença arbitral estivesse regulada pelo citado art. 33, a excluir, portanto, o remédio do Código. 8 Não sujeito aos termos da convenção de arbitragem, o terceiro prejudicado legitima-se a demandar a anulação da sentença arbitral, com fundamento no art. 33, 2º, inc. VIII, da Lei de Arbitragem. 8. Ação rescisória: juízos rescindente e rescisório, n. 66, São Paulo, Malheiros, 2005, p Embora não examinando o problema do terceiro no contexto da arbitragem, Flávio Yarshell não afasta a legitimação do Ministério Público, por analogia da regra do art. 487, II, do CPC, para pleitear a desconstituição da sentença arbitral por ato fraudulento, destacando que, em tal hipótese, o que justifica a iniciativa do MP é a fraude à lei, pouco importando decorra ela de colusão referendada por sentença estatal ou não-estatal, observando-se, contudo, o disposto no art. 168 do CC, e especialmente a legitimação outorgada ao MP segundo a regra do art. 129 da Constituição da República, conforme a função institucional desse órgão (p. 207, nt. 7). V., também, inadimitindo a rescisória da sentença arbitral, Paulo Cezar Pinheiro Carneiro, Aspectos processuais da nova lei de arbitragem, Revista Forense, v. 339, 1997, p. 140; Edoardo Ricci, Reflexões sobre o art. 33 da lei de arbitragem, Lei de arbitragem brasileira, cit., n. 4, 201; Revista de Processo, n. 93, 1999, p. 52.

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