A EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL NO ESPAÇO ESCOLAR: SABER, SABOR E SAÚDE

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1 UNIJUÍ UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU EM EDUCAÇÃO NAS CIÊNCIAS ROSEMERI AQUILLA A EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL NO ESPAÇO ESCOLAR: SABER, SABOR E SAÚDE Ijuí (RS) 2011

2 1 ROSEMERI AQUILLA A EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL NO ESPAÇO ESCOLAR: SABER, SABOR E SAÚDE Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação Stricto Sensu em Educação nas Ciências Mestrado, da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ), como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Educação nas Ciências. Orientador: Doutor José Pedro Boufleuer Ijuí (RS), 2011

3 2 A concepção de conhecimento não só incide e se reflete em tudo o que se ensina e se aprende (que poderíamos chamar de conhecimento na educação), mas também em tudo o que intervém como fundamentação, organização e orientação desse ensinar e aprender, ou dessa prática educativa (que distinguiríamos como conhecimento da educação). (BOUFLEUER, 2001, p. 71).

4 3 AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus, fonte de minha inspiração, que me acalentou em todos os momentos difíceis. Acredito, confiante nele, que esta obra, resultado de tanto esforço, trará benefícios a todos que a lerem, será instrumento de propagação da tão importante Educação Alimentar, e proporcionará uma vida mais saudável e isenta de patologias às realidades escolares que a instituírem. A todos os pesquisadores e estudiosos com quem busquei aprender e interagir segundo seus saberes, os quais me inspiraram por contribuir e acreditar em uma Educação inovadora, todos citados no final deste estudo. Ao meu orientador José Pedro Boufleuer, a quem admiro pela sua trajetória na Educação. Muito obrigada por compartilhar comigo seus saberes, sempre com paciência e dedicação, disposto a ouvir, ajudar e interagir no resultado desta produção. Também, pela competência em sinalizar os melhores caminhos a seguir, pela confiança depositada que me estimulou a investigar um tema pouco estudado e pela oportunidade de saborear os resultados deste trabalho, incentivando ainda mais minha paixão pelo estudo da Educação Alimentar. À prefeitura de Catuípe/RS, pelo apoio e pela compreensão quanto à importância desta pesquisa para o avanço da Educação Alimentar em nossas escolas e em nossa comunidade. Aos membros da comunidade escolar de Horizontina e Pinheirinho do Vale/RS, por proporcionarem uma gama de informações valiosas para a realização e construção deste estudo. À minha família que esteve em todos os momentos me incentivando, em especial à minha mãe e ao meu esposo. Enfim, agradeço a todos que de alguma forma me auxiliaram na produção desta articulação entre educação e nutrição, na promoção de uma vida saudável e na formação de saberes e seres.

5 4 RESUMO A dissertação assume o pressuposto de que a escola, enquanto espaço de formação humana, pode também desenvolver uma prática de Educação Alimentar. Após a apresentação da questão da Segurança e Insegurança Alimentar e Nutricional, a pesquisa aborda aspectos relativos à legislação sobre o assunto e às influências da mídia no consumo alimentar. Em seguida é traçado o histórico do Programa Nacional de Alimentação Escolar e se discutem questões relativas à Educação Alimentar a partir das potencialidades pedagógicas da hora da merenda. Tendo como referência essas tematizações, a pesquisa apresenta e discorre sobre dois modelos gaúchos de gestão escolar que realizam práticas pedagógicas inovadoras relacionadas à Alimentação Escolar, que são os modelos adotados nos municípios de Horizontina e Pinheirinho do Vale, ambos localizados no Estado do Rio Grande do Sul. A busca de dados ocorreu em escolas de Educação Infantil, de Ensino Fundamental e de Educação Especial desses municípios, em que foi entrevistada parte da comunidade escolar (pais, professores, conselheiros da alimentação escolar, merendeiras, nutricionistas), perfazendo um total de 41 pessoas. Nesses espaços pesquisados a Educação Alimentar aparece em atividades práticas como o cultivo de horta escolar, encenações teatrais, contação de histórias, oficinas de culinária, dentre outras. Dentre os projetos pedagógicos das escolas se destacam os da merenda pedagógica, da avaliação nutricional e o da capacitação da comunidade escolar para a boa alimentação. Como contribuição deste estudo tem-se a demonstração de que resultados positivos no âmbito da educação alimentar requerem planejamento das escolas sobre o tema, programa adequado de aquisição de alimentos, alimentos, supervisão e orientações adequadas e estabelecimento de vínculos entre a cultura familiar e as ações de formação no âmbito da escola. Por fim, constata-se a importância de que qualquer atividade prática de educação alimentar seja acompanhada de uma explicitação das razões de uma alimentação saudável. Palavras-chave: Educação para a saúde. Educação alimentar e nutricional. Alimentação escolar. Formação humana.

6 5 ABSTRACT The dissertation takes the assumption that the school as an area of human development, can also develop a practice of Nutrition Education. After the presentation the issue of Security and Insecurity Nutrition and Food research addresses aspects of the legislation on the subject and media influences on food intake. It is then traced the history of the National School Feeding and raising questions regarding Nutrition Education from the educational potential of the lunch hour. With reference thematizations these, the study presents and discusses two models of school management gauchos who perform teaching practices related to school feeding, which are the models adopted in the municipalities of Horizontina and Pinheirinho do Vale, both located in Rio Grande do South The search data occurred in preschools, elementary schools and municipalities of Special Education, who was interviewed on the part of the school community (parents, teachers, counselors, school meals, cooks, nutritionists), a total of 41 people. In these spaces surveyed Food Education appears in practical activities such as growing school garden, theatrical performances, storytelling, cooking workshops, among others. Among the educational projects in schools to highlight the teaching of meals, nutritional assessment and training of the school community for good food. As a contribution of this study is to demonstrate that positive results in the context of nutrition education in schools requires planning on the subject, an appropriate program to buy food, adequate supervision and guidance and establishment of links between the family culture and training initiatives within the school. Finally, there is the importance of practical activity that any food education is accompanied by an explanation of the reasons for a healthy diet. Keywords: Health education. Food and nutrition education. School feeding. Human Formation.

7 6 LISTA DE FIGURAS Figura 1: Total de participantes da pesquisa por faixa etária no município de Horizontina, RS Figura 2: Total de participantes da pesquisa por faixa etária no município de Pinheirinho do Vale, RS Figura 3: Total da comunidade escolar de Horizontina, participante da pesquisa, por segmento/ Figura 4: Total da comunidade escolar de Pinheirinho do Vale, participante da pesquisa, por segmento/ Figura 5: Aula em que os alunos preparam a bolacha caseira aprendendo as letras do alfabeto, Horizontina/RS Figura 6: Cultivo da horta escolar nas escolas de Pinheirinho do Vale/RS Figura 7: Exemplo de Merenda Pedagógica e sistema em que os alunos se servem nas escolas de Horizontina/RS Figura 8: Exemplo da avaliação nutricional que é realizada nas escolas de Pinheirinho do Vale/RS Figura 9: Cultivo da horta escolar por alunos de Horizontina/RS Figura 10: Capacitação com um especialista sobre preparação da merenda pedagógica em que estão participando merendeiras Figura 11: Capacitação sobre produção de alimentos saudáveis em que estão participando merendeiras e pais... 80

8 7 LISTA DE MAPAS Mapa 1: Mapa 2: Mapa 3: Mapa 4: Mapa 5: O que é Educação Alimentar para os professores de Horizontina, RS? O que é Educação Alimentar para os professores de Pinheirinho do Vale, RS? O que é Educação Alimentar para os que trabalham diretamente com a alimentação escolar e o Comales, de Horizontina, RS? O que é Educação Alimentar para os que trabalham diretamente com alimentação escolar e o Comales, de Pinheirinho do Vale, RS?. 68 O que é Educação Alimentar para os pais de Pinheirinho do Vale, RS?... 68

9 8 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS APAE Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais CAE Conselho de Alimentação Escolar COMALES Conselho Municipal de Alimentação Escolar CNA Comissão Nacional de Alimentação CONSEA Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional DHAA Direito Humano à Alimentação Adequada. EAN Educação Alimentar e Nutricional EJA Educação de Jovens e Adultos EMATER Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural FAE Fundação de Assistência ao Estudante FAO Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação FIAN Rede de Ação e Informação pelo Direito a se Alimentar FNDE Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação LDB Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional LOSAN Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional MEC Ministério da Educação e Cultura OMS Organização Mundial da Saúde PCNs Parâmetros Curriculares Nacionais PNAE Programa Nacional de Alimentação Escolar PNAN Política Nacional de Alimentação e Nutrição PNAD Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios PNDS Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde POF Pesquisa de Orçamentos Familiares SA Segurança Alimentar SENAR Serviço Nacional de Aprendizagem Rural SISAN Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional SMEC Secretaria Municipal de Educação e Cultura SUS Sistema Único de Saúde

10 9 SUMÁRIO INTRODUÇÃO SEGURANÇA E INSEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL Segurança Alimentar: legislação e seu contexto atual Insegurança Alimentar Mídia: informando e influenciando o consumo alimentar A PRÁTICA DA EDUCAÇÃO ALIMENTAR: A HORA DA MERENDA O desenvolver histórico do Programa Nacional de Alimentação Escolar O sabor da Alimentação Escolar, significados e representações culturais A Educação Alimentar como tema transversal A EDUCAÇÃO ALIMENTAR NO CONTEXTO ESCOLAR O percurso metodológico Conhecendo os espaços em que foi realizada a pesquisa Ações de Educação Alimentar desenvolvidas e a sua compreensão por parte das comunidades escolares Ouvindo as vozes da comunidade escolar: os resultados e a importância da inclusão da Educação Alimentar As práticas de Educação Alimentar e a sua articulação com demais saberes escolares Atividades de educação permanente em alimentação, saúde e educação para toda a comunidade escolar...76 CONSIDERAÇÕES FINAIS...81 REFERÊNCIAS...83 OBRAS CONSULTADAS...88 ANEXOS...90

11 10 INTRODUÇÃO Inicialmente, cabe indicar um conjunto de questões que se referem ao surgimento deste trabalho, ou seja, como se desenvolveu, quais as reflexões suscitadas e os resultados alcançados. Assim, é importante referir a minha trajetória, entendendo, consequentemente, a escolha deste tema e o caminho percorrido pelo estudo. Ao chegar ao Mestrado em Educação nas Ciências constatei que muito havia para ser pesquisado. Foram dias, meses e anos de estudo, em que passei a dedicar cada momento a leituras e pesquisas, intercalando o tempo com o trabalho, onde cumpro 40 horas semanais. O universo acadêmico me angustiava e, ao mesmo tempo, me incentivava. As indagações que surgiam e a busca incansável pela compreensão dos assuntos trabalhados nos componentes curriculares me fizeram aprender muito e expandir minhas leituras e saberes. Nesse sentido, aprendendo e partindo da experiência profissional adquirida na trajetória do Serviço Público, executado junto às escolas e, em especial, na Política da Educação Alimentar onde o nutricionista desempenha papel fundamental como responsável pela merenda e como promotor de saúde algumas questões do cotidiano vêm me inquietando. Uma delas é que atualmente poucos municípios do Estado do Rio Grande do Sul consideram o espaço escolar rico para a construção humana em todos os sentidos e, portanto, para a prática de Educação Alimentar. Um dos desafios que a Educação Escolar enfrenta na atualidade é a definição do real papel educativo das escolas, no sentido de saber se faz parte das suas tarefas oportunizar uma formação humana em geral, isto é, preparar para a vida em todas as suas dimensões. Considerando que o aluno está sob os cuidados da escola por longos anos, espera-se que esta procure desenvolver todas as suas dimensões fundamentais, permitindo que ele incorpore novas percepções, aprenda novos sentidos, novos modos de fazer, de agir e de interagir, partindo da vivência de cada um e do coletivo. Na sociedade atual, dada à diversidade e a complexidade das informações

12 11 que são disseminadas pela escola, algumas representam necessidade instantânea de serem trabalhadas, constituindo-se verdadeiros desafios educacionais, como por exemplo, introduzir o trabalho de Educação Alimentar e Nutricional (EAN), abordando o tema da alimentação saudável como parte do processo educacional no Espaço Escolar. Um dos aspectos importantes a serem desenvolvidos nesta perspectiva ampliada das tarefas da escola é o da Alimentação Saudável, o que implica considerar a escola como espaço fundamental e privilegiado em que os alunos têm uma educação alimentar, fazendo parte de seu processo de formação humana. Isso inclui decifrar a realidade da Educação Alimentar apresentada nas escolas, incentivando a exploração de todos os espaços por ela oportunizados para a aprendizagem da saúde e de outros saberes que as desafiam. A alimentação equilibrada e balanceada é um dos fatores fundamentais para a eutrofia 1 e para o bom desenvolvimento físico, psíquico e social das pessoas. A alimentação adequada refere-se ao padrão alimentar adequado às necessidades biológicas e sociais dos indivíduos e de acordo com as fases do curso da vida. Para ser adequada a alimentação deve embasar-se em práticas alimentares culturalmente referenciadas; valorizar o consumo de alimentos saudáveis regionais (como legumes, frutas e verduras); observar a qualidade e a quantidade dos alimentos nas refeições; e considerar os aspectos comportamentais e afetivos relacionados a essas práticas. Uma alimentação que não cumpre com essas condições pode resultar, por exemplo, em aumento de peso 2 (BRASIL, 2007). e/ou em deficiências de vitaminas e minerais A saúde alimentar pode também vir a ser comprometida pela desnutrição ou por doenças que levam ao mau aproveitamento dos alimentos ingeridos, resultando em inadequação quantitativa da energia de que o corpo necessita. Observe-se que a desnutrição é um problema que tem como consequência o crescimento e o desenvolvimento deficiente, maior vulnerabilidade a doenças infecciosas, redução da capacidade de raciocínio, problemas de ordem motora, entre outros (MONDINI; MONTEIRO, 1998, p. 30). 1 Eutrofia nutrição de boa qualidade. 2 A expressão peso aqui, refere-se ao peso de uma pessoa, deve ser citada, portanto como peso da massa corporal.

13 12 Outro fato preocupante relacionado ao estado nutricional de crianças diz respeito aos índices de aumento de sobrepeso e obesidade na população infantil do Brasil e também do mundo. Modificou-se radicalmente o quadro da situação nutricional no país pela transição de um quadro de desnutrição 3 infantil grave para uma epidemia de obesidade, que vem se acentuando significativamente e suscitando a criação de políticas públicas de saúde voltadas para o controle do peso corporal (SALOMONS; RECH; LOCH, 2007, p. 248). A própria definição de Obesidade Doença na qual o excesso de gordura corporal se acumulou a tal ponto que a saúde pode ser afetada (Organização Mundial de Saúde, OMS) demonstra a preocupação com as possíveis consequências do acúmulo de tecido adiposo no organismo. De fato, esta é uma doença universal de prevalência crescente e que vem adquirindo proporções epidêmicas, sendo um dos principais problemas de saúde pública da sociedade moderna (LOPES, 2006). Comprovando essa modificação do quadro nutricional, os resultados são da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) , realizada pelo IBGE, em parceria com o Ministério da Saúde, que comprovou que em 2009, uma em cada três crianças de 5 a 9 anos estava acima do peso recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Pode-se verificar que o excesso de peso e a obesidade são encontrados com grande frequência a partir de 5 anos de idade, em todos os grupos de renda e em todas as regiões brasileiras. Ainda segundo este estudo, a parcela dos meninos e rapazes de 10 a 19 anos de idade com excesso de peso da massa corporal passou de 3,7% ( ) para 21,7% ( ). Já entre as meninas e moças o crescimento do excesso foi de 7,6% para 19,4%, respectivamente nos anos especificados. Também o excesso de peso da massa corporal em homens adultos saltou de 18,5% para 50,1% e ultrapassou, em , o das mulheres, que foi de 28,7% para 48%. A POF revelou um salto no número de crianças de 5 a 9 anos com excesso de peso da massa corporal ao longo de 34 anos: em , 34,8% dos meninos estavam com o peso acima da faixa considerada saudável pela OMS. Em 1989, este 3 Tanto o estado de desnutrição, como sobrepeso e obesidade caracterizam um quadro de má nutrição.

14 13 índice era de 15%, contra 10,9% em Observou-se padrão semelhante nas meninas, que de 8,6% na década de 70 passaram para 11,9% no final dos anos 80 e chegaram aos 32% em O que preocupa nesses índices é o aparecimento de patologias associadas provocadas pelo excesso ou pela falta de alimentos. Esta realidade direciona a investigação para a amenização desses danos, incentivando as práticas de Educação Alimentar para o início da vida, prosseguindo nas séries iniciais e seguindo, gradualmente, ao avançar da idade, na intenção de introduzir nas crianças e jovens hábitos saudáveis, duradouros e promissores. Apesar dessas constatações, observa-se que muitas escolas não se preocupam com a saúde nutricional de seus alunos e em oportunizar, pela alimentação escolar, um espaço de aprendizagem permanente e interdisciplinar. Por que não trabalhar a Educação em Saúde por meio de atividades pedagógicas práticas que partam da realidade do aluno, respeitando sempre sua condição socioeconômica e sua cultura alimentar? Talvez a argumentação de Boufleuer (2001, p. 59) nos ajude a responder esta pergunta quando afirma que: a educação constitui uma interação que precisa ser coordenada e que suas tarefas de ensino e aprendizagem se relacionam, em grandes linhas, com a reprodução dos componentes simbólicos do mundo da vida: a cultura, a sociedade e a personalidade. É nesse sentido que entendemos que as tarefas de ensino e aprendizagem se relacionam com o mundo da vida e que as atividades pedagógicas exercidas na escola devem partir da realidade do aluno. Os dados aqui apresentados visam a despertar para a urgência de incluir a Educação Alimentar nas escolas. Complementando a importância do tema abordado e da importância de preparar o espaço escolar para a realização do trabalho de Educação Alimentar e Nutricional, cabe mencionar matéria da Revista do Conselho Federal de Nutricionistas, (nº33, de janeiro-abril/2011), intitulada Alimentação saudável ganha reforço nas escolas". Esta matéria refere a Lei da Cantina Saudável, que, aliada à Lei de junho de 2009, deveria garantir alimentação saudável aos alunos matriculados na rede de educação básica do Brasil.Infelizmente a Lei da Cantina

15 14 Saudável, que proíbe a venda de frituras, guloseimas, alimentos gordurosos e muito calóricos nas cantinas e lanchonetes das escolas municipais e particulares, em regra, não é cumprida, vigorando apenas em poucos estados brasileiros. Se fosse respeitada esta lei, nenhuma escola venderia em suas cantinas esses alimentos nocivos à saúde dos escolares. Nos estados em que esta lei vigora, como, Paraná e Minas Gerais, e nas cidades de Florianópilis (SC), Rio de Janeiro (RJ), Ribeirão Preto (SP) e dentre outras, há relatos de que ela tem sido um importante instrumento de promoção da saúde dos escolares, segundo reportagem dessa Revista. Acreditamos que mediante uma Educação Alimentar nas escolas seja possível chegar a essa desejada Segurança Alimentar e Nutricional. Enquanto processo recíproco, criativo e interativo de ensino e aprendizagem entre duas ou mais pessoas, a educação escolar pode ampliar o acesso à informação sobre saúde e nutrição. No âmbito das escolas, a começar pelo planejamento pedagógico, passando pelas atividades em sala de aula, e chegando aos diferentes momentos de recreação, ou mesmo às atividades extramuros, é possível proporcionar aprendizagens que favoreçam uma nova postura em relação ao ato de comer. Ao mesmo tempo, é importante valorizar individualmente e em grupo o prazer da alimentação e estimular uma relação equilibrada com os alimentos e com os diversos saberes do currículo escolar. Marques (2002, p. 7) enfatiza que: As reformas da educação nas últimas décadas foram articuladas a partir de pressupostos que direcionaram as atividades de ensino para inserção no mundo do trabalho. Este movimento deve ser repensado, estabelecendo-se novas alternativas para a educação. Alternativas que reforcem, entre outros aspectos, a capacitação para a vida autônoma, para o exercício da cidadania e da dignidade, para a participação na vida política do país e para o desenvolvimento e o aperfeiçoamento das manifestações culturais em suas diversas formas. Nesse contexto, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, 2005, p.11), Segurança Alimentar existe quando todas as pessoas, em todos os momentos, têm acesso físico e econômico a uma alimentação que seja suficiente, segura, nutritiva e que atenda a necessidades nutricionais e preferências alimentares de modo a propiciar vida ativa e saudável.

16 15 A pesquisa em questão consiste em um estudo sobre a Alimentação Escolar como uma prática pedagógica a partir de duas experiências que foram escolhidas em virtude de sua trajetória destacada pelo Prêmio Gestão Eficiente em Alimentação Escolar, realidades que estão implicadas com a tematização da Educação Alimentar na escola, e na busca por oportunizar escolhas para uma vida saudável. Nesse sentido, é importante conhecer o Prêmio Gestão Eficiente em Alimentação Escolar, o qual foi criado com o objetivo de avaliar, classificar e divulgar as prefeituras do Brasil que realizam a gestão da alimentação escolar com qualidade. Tem o intuito de disseminar estas boas práticas para que sejam conhecidas e adotadas por outros gestores. O lançamento do prêmio aconteceu em Os municípios que receberam este prêmio foram avaliados a partir dos indicadores quantitativos, que consideram aspectos financeiros, como a complementação municipal em relação ao recurso total para o PNAE; os indicadores nutricionais, que analisam o número, a qualidade e a quantidade de refeições servidas por aluno, número de alunos por nutricionista, número de refeições por merendeira, número de escolas com refeitório, frequência de cursos de Educação Alimentar para alunos e capacitação para merendeiros, dias de atendimento com oferta de Alimentação Escolar, impactos do Programa na economia local; os indicadores do desenvolvimento local, que visam aos recursos gastos com produtores locais em relação ao total de recursos; e, ainda, pelo indicador da atuação do Conselho de Alimentação Escolar, que refere o número de reuniões do CAE e a forma de escolha do representante da sociedade civil. Este estudo procura analisar ainda, e de forma mais específica, os indicadores qualitativos apresentados, que envolvem os projetos desenvolvidos e outras iniciativas devidamente anexadas ao formulário de inscrição. Os dois indicadores quanti e qualitativos, classificam os que consideram os melhores, que agora serão analisados no que tange a práticas de Educação Alimentar envolvendo toda a comunidade escolar, como os alunos, pais, serventes e merendeiras, direção e professores e Conselho de Alimentação Escolar, compilando todas as atividades que envolvam um saber a ser trabalhado, uma iniciativa de educar para a alimentação saudável.

17 16 Pretende-se responder à questão: como essas duas realidades inscrevem a educação alimentar nas suas rotinas, envolvendo as práticas pedagógicas? Ainda, pretende-se elucidar a forma como este trabalho é desenvolvido no dia-a-dia e os efeitos dessas práticas, as possíveis alternativas para que esse trabalho se desenvolva de forma interdisciplinar, articulado com o todo do trabalho da escola, uma vez que a alimentação nutre o corpo, mas também tem a ver com a convivência e permite a interligação de diferentes saberes. De acordo com Freire (2005, p. 98), ensinar exige compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo e, diante disso, entendemos que aprendemos e nos (re)construímos nas relações que estabelecemos com nossos semelhantes ao longo de nossa vida. A prática da merenda escolar nas escolas carrega significados, marca as diferenças. Aqui no Brasil existe um diferencial: as nossas escolas públicas fornecem de forma gratuita a merenda, o que não acontece nas escolas particulares do país. Para a consecução dos objetivos deste estudo apresentamos, no primeiro capítulo, o conceito de Segurança e de Insegurança Alimentar. Em relação à Segurança Alimentar apresentamos a legislação e seu contexto na atualidade. No que tange à Insegurança Alimentar abordamos a influência da mídia no consumo alimentar de crianças, adolescentes e adultos. No segundo capítulo apresentamos uma reflexão sobre a significativa oportunidade da prática da Educação Alimentar: a hora da merenda e o desenvolver histórico do Programa Nacional de Alimentação Escolar. Propomos, nesse sentido, uma reflexão sobre o sabor da Alimentação Escolar, seus significados e representações culturais. Por fim, investigamos o significado da Educação Alimentar como tema transversal. No terceiro capítulo apresentamos a Educação Alimentar no contexto escolar, a metodologia utilizada na pesquisa e conhecemos os espaços em que a mesma foi realizada. Relatamos as atividades de Educação Alimentar praticadas nas escolas investigadas e o que estas entendem por Educação Alimentar. Abrimos espaço para as vozes das comunidades escolares investigadas e analisamos os resultados obtidos pelas práticas de Educação Alimentar, bem como sua importância no

18 17 conjunto do trabalho da escola. Considerações acerca da educação permanente em alimentação e saúde para toda a comunidade escolar encerram o capítulo. Para finalizar, seguem as considerações finais a que se chegou com a realização do trabalho, as referências utilizadas e que fundamentam a dissertação, e os anexos, os quais ilustram e complementam o estudo.

19 18 1 SEGURANÇA E INSEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL São os dados relativos à situação nutricional da população brasileira, em especial de crianças e adolescentes que frequentam instituições educacionais, que instigam à reflexão sobre as possibilidades de uma educação alimentar articulada com o conjunto do trabalho formativo das escolas. Há índices alarmantes relativos à obesidade, a doenças derivadas do descontrole alimentar, como o diabetes melittus, que chamam a atenção para consequências irremediáveis à saúde da população, caso a questão não seja enfrentada com a seriedade que exige. Para o início de nosso percurso investigativo tratamos, no presente capítulo, do tema da Segurança e da Insegurança Alimentar e Nutricional, orientando-nos a partir da recente e importante Lei n , de 15/9/2006 Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional - LOSAN. O proposto no âmbito desta lei, confrontado com a real situação alimentar e nutricional da população brasileira, especialmente a escolar, certamente indicará o quanto ainda há para ser feito. 1.1 Segurança Alimentar: legislação e seu contexto atual Pode-se dizer que o conceito de Segurança Alimentar surgiu a partir da Segunda Grande Guerra, com mais da metade da Europa devastada e sem condições de produzir o seu próprio alimento. Esse conceito leva em conta três aspectos principais: quantidade, qualidade e regularidade no acesso aos alimentos. O conceito de segurança alimentar e nutricional é fruto de um processo de construção coletiva e vem sendo ampliado no decorrer dos últimos anos, principalmente a partir das duas últimas Conferências Mundiais sobre Alimentação 4, podendo ser assim expresso: Segurança alimentar e nutricional consiste em garantir a todos condições de acesso a alimentos básicos seguros e de qualidade, em quantidade suficiente, de modo permanente e sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, com base em práticas alimentares saudáveis, contribuindo assim para uma existência digna em um contexto de desenvolvimento integral da pessoa humana. (CONTI; VALENTE, 2002, p 48). 4 Conferências Mundiais sobre Alimentação: Cúpulas Mundiais sobre Alimentação realizadas em Roma, em 1996 e 2002 (ONU/FAO).

20 19 No Brasil, a I Conferência Nacional de Alimentação e Nutrição, realizada em 1986, agregou um componente importante a este conceito, afirmando que a alimentação é um direito de cidadania, enquanto o Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA) 5 agregou-lhe a dimensão da nutrição e da utilização biológica do alimento. A partir daquele contexto passou-se a trabalhar na elaboração e proposição de políticas estratégicas de intervenção no campo da segurança alimentar e nutricional. Conhecer os pontos principais da Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional (Lei nº /2006) permitirá esclarecer questões como a Segurança Alimentar e indicará os desafios do que seria uma possível prática de Educação Alimentar. O art. 1 o da Lei em foco estabelece as definições, os princípios, as diretrizes, os objetivos e a composição do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN). Tal sistema deverá ser assegurado por meio do poder público, com a participação da sociedade civil organizada, cabendo a ele formular e instituir políticas, planos, programas e ações que assegurem o direito humano à alimentação adequada. Como proposto pela Lei, todos os cidadãos têm o direito garantido à alimentação adequada do ponto de vista nutricional e higiênico. O evidente não cumprimento deste princípio traz a urgência de se buscar alternativas para a sua efetivação mediante políticas, planos, enfim, formas de assegurar este direito a toda população. Já o art. 2 o estabelece que a alimentação adequada é direito fundamental do ser humano, inerente à dignidade da pessoa humana e indispensável à realização dos direitos consagrados na Constituição da República Federativa do Brasil (CF/88), devendo o poder público adotar as políticas e ações que se façam necessárias para promover e garantir a Segurança Alimentar e Nutricional da população. Confrontando o disposto na legislação com a realidade da população verifica-se o descumprimento de um princípio constitucional. E mais uma vez pode-se indicar a necessidade de políticas e ações que cumpram o estabelecido na lei. De que forma, porém, o poder 5 O CONSEA foi criado pelo presidente Itamar Franco, em 1990, extinto pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1995, e recriado pelo presidente Lula, em 2003.

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