Lurdes Cró (1), Lívia Andreucci (2), Rosa Gomes (2), Natália Abrantes (2), Anabela Pereira (2), Kenneth Merrell (3)

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1 AVALIAÇÃO DA SAÚDE MENTAL ATRAVÉS DO PKBS-2: UM ESTUDO COM CRIANÇAS BRASILEIRAS E PORTUGUESAS Lurdes Cró (1), Lívia Andreucci (2), Rosa Gomes (2), Natália Abrantes (2), Anabela Pereira (2), Kenneth Merrell (3) 1-Universidade de Aveiro; 2-Instituto Politécnico de Coimbra;3-University of Oregon INTRODUÇÃO A saúde mental é um dos assuntos que mais têm sido abordados pela sociedade moderna. Quotidianamente vemos nos meios de comunicação social abordagens sobre medicamentos que poderão auxiliar no tratamento da depressão e na melhoria da qualidade de vida física e mental. Tais problemas têm sido mais referidos ao nível dos adultos. Contudo, actualmente, o número de crianças e adolescentes que apresentam sintomas internalizados de depressão e ansiedade são preocupantes. De acordo com Faust(2006), o Departamento Americano de Saúde e Serviços Humanos (United States Department of Health and Human Services [DHHS] (1999), estima que entre 10 e 15 milhões de crianças e adolescentes experimentarão sintomas depressivos em alguma fase do seu desenvolvimento. O tratamento destas perturbações e a sua prevenção são já realidades introduzidas nas escolas. Merecem particular relevo os programas de prevenção e intervenção precoce para que crianças e adolescentes tenham sucesso académico e pessoal, e saibam lidar com o stress, a ansiedade e as adversidades da vida (Dias & Pereira, 2007). Um dos exemplos para a faixa de idade das crianças em idade pré-escolar é o Programa Strong Start Pré K (Merrell, 2009) e Programa Strong Start K2 (Merrel, 2007). O presente trabalho tem por objectivo comparar as aptidões sociais e problemas de comportamento de crianças brasileiras e portuguesas em idade pré-escolar através do PKBS-2 (PKBS 2: Preschool and Kindergarten Behavior Scales 2ª edição). MÉTODO Participantes Neste estudo participaram 110 crianças brasileiras, 52,7% do sexo feminino e 47,3% do sexo masculino, com idades compreendidas entre os 3 e os 6 anos que frequentam uma Instituição privada de educação pré-escolar inserida numa ONG (Organização Não-Governamental) e 110 crianças portuguesas do sexo feminino (60,9%) e do sexo masculino (39,1%), com idades compreendidas entre os 3 e os 6 anos, que frequentam a educação pré-escolar em Instituições públicas (60,9%) e Instituições Particulares de Solidariedade Social -IPSS (39,1%). Os educadores brasileiros que participaram no preenchimento do questionário têm, em média, 36 anos de idade (M = 36,64; DP = 7,50) e têm em média 6 anos de tempo de serviço (M = 6,77; DP = 3,73). Os educadores portugueses têm idades compreendidas entre os 21 e os 40

2 anos (M= 25,28; DP=7,19). Instrumentos de avaliação O instrumento de avaliação utilizado neste estudo foi o Preschool and Kindergarten Behavior Scale PKBS-2, 2ª Edição (Merrell, 2002). É constituído por 76 itens que abordam questões comportamentais e emocionais em crianças dos 3 aos 6 anos. Foi traduzido e adaptado para a língua portuguesa por Gomes, Pereira & Merrell (2009), com permissão do autor. Este instrumento tipo Likert engloba a «Escala de Aptidões Sociais» (EAS), com 34 itens, que procuram avaliar os comportamentos sociais e emocionais das crianças que frequentam o jardim-de-infância e a «Escala de Problemas de Comportamento» (EPC), com 42 itens, que avaliam os comportamentos problemáticos ao nível social e emocional. O Alfa de Cronbach, referente às duas escalas varia entre.96 e.97 e para as subescalas varia entre de.81 a.95., apresentando assim, uma alta consistência interna. A análise factorial considerada foi a utilizada nos estudos desenvolvidos por Merrell (2002), que apresentavam os seguintes factores na EAS: Factor A1, Cooperação Social, com 12 itens (2, 7, 10, 12, 16, 22, 23, 25, 28, 29, 30 e 32) e explica 40% da variância, Factor A2, Interacção Social, com 11 itens (5, 14, 15, 17, 19, 20, 21, 24, 27, 33, e 34) e explica 10% da variância e o Factor A3 Autonomia Social, com 11 itens (1, 3, 4, 6, 8, 9, 11, 13, 18, 26 e 31) e explica 10% da variância. Na EPC os factores estão distribuídos por problemas de comportamento externalizantes (PC E) e problemas de comportamento internalizantes (PC I). Os problemas de comportamento externalizantes, são: o Factor B1, auto-centrado/explosivo, com 11 itens (7, 8, 10, 13, 19, 22, 31, 32, 35, 37 e 41) e explica 53% da variância, Factor B2, Problemas de Atenção/Actividade Excessiva, com 8 itens (1, 6, 14, 15, 16, 20, 25 e 39) e explica 6% da variância e o Factor B3, Anti-social/Agressividade, com 8 itens (3, 11, 21, 26, 29, 34, 40 e 42) e explica 5% da variância. Os problemas de comportamento internalizantes, são: o Factor B4, Evitamento Social, com 7 itens (4, 12, 17, 27, 28, 30 e 33) e explica 42% da variância e o Factor B5, Ansiedade/Problemas Somáticos, com 8 itens (2, 5, 9, 18, 23, 24, 36 e 38) e explica 9% da variância. Procedimentos A recolha da amostra decorreu durante o segundo trimestre de 2009, através de questionários de auto-preenchimento, anónimos e confidenciais. Os questionários foram preenchidos por educadores de infância, quer na amostra brasileira quer na amostra portuguesa, que aplicaram o PKBS-2 ao seu grupo, avaliando cada uma das crianças,

3 em cada um dos itens. Esta avaliação deveria reflectir as suas observações a respeito do comportamento da criança, nos últimos 3 meses. As questões éticas foram respeitadas, a participação foi voluntária e cada questionário era acompanhado de carta explicativa dos objectivos, das condições da pesquisa, sendo assegurada a confidencialidade e anonimato dos dados. Utilizamos para a análise dos dados o programa estatístico SPSS (Statistical Package for Social Sciences), versão 16.0, para MS Windows. RESULTADOS Os resultados do PKBS-2 evidenciam que as 110 crianças brasileiras frequentam Instituição Privada (52,7%), têm idades compreendidas entre os 36 e os 72 meses (M = 59,38; DP =12,06), em que 40,0% das crianças têm 72 meses, 26,4% têm entre 51 a 60 meses, 24,6% têm entre 44 e 50 meses e 9,0% têm entre 36 e 40 meses. Outra das variáveis em análise foi o tempo de frequência no jardim-de-infância, variando entre 6 e 42 meses (M= 28,25; DP= 13,39). O Educador brasileiro que aplicou o instrumento tem uma prática educativa de 6 anos (M = 6,77; DP = 3,73) e o registo das observações foi elaborado no espaço educativo/sala (100%). TABELA 1 Comparação entre Brasil e Portugal: Idade da criança e Tempo de frequência A m o stra B ras ile ira A m o stra P ortug u e sa N m ín im o m áx im o M D P N m ínim o m áx im o M D P Id ad e (m e ses) , , , ,0 0 T em p o freq uênc ia d o JI (m eses) , , , ,3 0 As 110 crianças que compõem a amostra portuguesa frequentam Instituições de Educação de Infância Públicas (60,9%) e Particulares de Solidariedade Social IPSS (39,1%), com idades compreendidas entre os 36 e os 75 meses (M = 54,23; DP = 11,00). A análise das idades mostra que 7,3% das crianças têm entre 75 e 72 meses, 12,7% tem entre 69 e 62 meses, 36,4% tem entre 60 e 52 meses, 24,5% tem entre 48 e

4 45 meses e 16,4% tem entre 38 e 36 meses. Outra das variáveis em análise foi o tempo de frequência do jardim-de-infância, variando entre 1 mês e 44 meses (M= 19,22; DP= 12,30), em que 57,3% das crianças frequentam-no há pelo menos 12 meses, 22,0% frequentam-no entre 12 e 24 meses, 17,4% frequentam-no entre 24 a 36 meses e ainda encontramos 3,4% de criança que frequentam o jardim-de-infância há 44 meses. Os dados mostram ainda que o Educador português que aplicou o instrumento tem uma prática educativa de 4 anos (M = 4,82; DP = 7,90) e o registo das observações foi elaborado no espaço educativo/sala (18,2%) e no jardim-de-infância (81,8%). Quando comparados os factores da Escala de Aptidões Sociais foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre os dois países. Relativamente à Cooperação Social os dados indicam que foram as crianças portuguesas que tiveram valores médios mais elevados (M = 30,34; DP = 5,78; t = 7,28; gl = 218; p =.000). A Escala de Problemas de Comportamento revela também diferenças estatisticamente significativas entre os países em estudo. Contudo, foram as crianças Brasileiras que apresentaram valores médios mais elevados, quer no factor Auto-centrado/Explosivo (M = 16,35; DP = 6,50; t = -6,82; gl = 208; p =.000), quer no factor Ansiedade/Problemas Somáticos (M = 12,52; DP = 3,68; t = -10,20; gl = 218; p =.000).do PC E e do PC I respectivamente. DISCUSSÃO Os resultados deste estudo com a aplicação do PKBS, ainda que exploratório, demonstram que no que concerne às aptidões sociais das crianças portuguesas, quando comparadas com as brasileiras, as primeiras apresentam melhores índices nas aptidões sociais. Quanto aos problemas comportamentais, poderemos verificar que são as crianças brasileiras as que apresentam resultados mais elevados, indicadores de maiores problemas naquela amostra. Contudo ambos os resultados apresentados deverão ser interpretados com reservas e lidos com alguma precaução, visto ser um estudo preliminar, onde não puderam ser controladas as variáveis parasitas, bem como o facto de as amostras brasileiras terem sido recolhidas numa comunidade de ONG, não sendo representativo da realidade brasileira. Ao comparar os dois países constatamos que as crianças portuguesas que frequentam a educação pré-escolar apresentam comportamentos sociais e emocionais mais ajustados, enquanto as crianças brasileiras que frequentam o mesmo nível de ensino, revelam ter comportamentos problemáticos ao nível social e emocional. Tais resultados podem ser explicados pelos contextos sócio-culturais onde as amostras foram recolhidas: as crianças portuguesas vivem em zonas urbanas, expostas a menos factores de risco, têm famílias melhor estruturadas quer do ponto de vista social, emocional e económico e passam por menos

5 necessidades. As crianças brasileiras, por seu lado, são provenientes de famílias socioeconómicas e culturalmente desfavorecidas, vivem na zona periférica de uma cidade do interior do estado de São Paulo e são quotidianamente expostas a factores de risco e às adversidades. Frequentam um Centro de Atendimento Comunitário mantido por uma ONG no período da manhã e a escola à tarde. Tais resultados na amostra brasileira vêm de encontro aos resultados obtidos anteriormente por Andreucci (2009), que demonstram a necessidade de intervenção junto das crianças brasileiras dessa comunidade, especificamente ao nível de programas de aprendizagem social e emocional para saberem lidar com as adversidades, controlar os seus níveis de ansiedade, auto-conceito, auto-estima, resiliência e saúde mental, a fim de terem uma melhor qualidade de vida e bem-estar, geradores de sucesso pessoal e escolar. Bibliografia Andreucci, L.; Pereira, A., Cró, M., Rocha, A., Ferreira, C., Loureiro, L., Oliveira, P., Pereira, T. (2009). Promoção da Resiliência em crianças: Programa Strong Start.. In Bonito, J. (Coord.), Educação para a Saúde no Século XXI: Teorias, Modelos e Práticas. Actas do II Congresso Nacional para a Educação da Saúde (pp ). Évora: Universidade de Évora. Andreucci, L.; Pereira, A., Cró, M., Rocha, A., (2009). Resiliência: Estudo Comparativo entre Portugal e Brasil. Actas do I Congresso Luso-Brasileiro de Psicologia da Saúde (pp ). Faro: Universidade do Algarve. Dias, I & Pereira, A (2007) Promover competências no ensino superior -o caso da educação de infância. In Actas do IX Congresso da Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação Educação para o sucesso: políticas e actores. Funchal: SPCE (CD Rom) Faust, J. (2006).Preventing depression and anxiety: An evaluation of a socialemotional curriculum. Unpublished education specialist project, Whitewater: University of Wisconsin. Gomes, R; Pereira, A; Merrell, K. (2009). Avaliação Sócio -Emocional: Estudo exploratório do PKBS-2 de Merrell aplicado a crianças portuguesas em idade pré escolar. In Silva, Bento D.; Almeida, Leandro S.; Barca, Alfonso & Peralbo, Manuel (org.). Actas do X Congresso Internacional Galego-Português de Psicopedagogia. pp Braga: Universidade do Minho. Merrell, K.; Whitcomb, S. & Parisi, D. (2009). Strong Start Pre K: A social and emotional learning curriculum. Pre K. Baltimore: Paul H.Brookes Publishing. Merrell, K.; Parisi, D. & Whitcomb, S.(2007). Strong Start-Grade K 2: A social and emotional learning curriculum. Baltimore: Paul H. Brookes Publishing. Merrell, K. W. (2002). Preschool and Kindergarten Behavior Scales, Second Edition. Austin, TX:PRO-ED.

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