Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Revitalização urbana e turismo: o caso do centro histórico de Chaves

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1 Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro Revitalização urbana e turismo: o caso do centro histórico de Chaves Dissertação de Mestrado em Turismo Nome do candidato Elisabeth Carvalhal Gomes Orientadora Profª Doutora Veronique Nelly Paul Marie Joukes Composição do Júri: Prof. Doutor Carlos Peixeira Marques Prof. Doutor Anastássios Perdiscoúlis Profª Doutora Veronique Nelly Paul Marie Joukes Vila Real, janeiro 2014

2 Declaro, para os devidos efeitos, que as ideias apresentadas nesta tese são da minha responsabilidade pessoal.

3 À minha filha Marta, meu raio de luz. Ao meu marido, o meu apoio. À minha mãe, pelo incentivo. E por fim, à memória do meu querido pai. I

4 AGRADECIMENTOS Esta tese é o resultado de muito trabalho e esforço, que só se tornou possível graças ao apoio de muita gente, com quem pude contar e que seria impossível não recordar. Em primeiro lugar, quero expressar um agradecimento muito especial à Profª Doutora Veronique Joukes, pela sua orientação científica, recomendações e, sobretudo, pela disponibilidade sempre demonstrada. Agradeço à minha família, principalmente ao meu marido e à minha mãe, pelo carinho, apoio e palavras de ânimo, sempre nos momentos certos, que muito me encorajaram a não desistir e em particular à minha filha por existir. À minha colega e amiga Ana Paula que sempre me apoiou em tudo e encorajou, com palavras de ânimo e sempre tão prestável. À minha colega Ana, pelos seus conselhos sábios. Aos funcionários da gráfica da UTAD, em especial à D. Rosária, pelo seu lado humano e simpatia e à D. Teresuca, por ter esperado! À Arquiteta Sofia Costa Gomes, do Município de Chaves, por me facultar as intervenções dos oradores intervenientes no workshop sobre reabilitação urbana que teve lugar em Chaves, no dia 19 de abril de Ao Dr. Daniel Miranda, Consultor Coordenador da Quaternaire Portugal por me facultar as imagens da autoria da Quaternaire, elaboradas no âmbito do Masterplan e imagens retiradas do Plano de Pormenor de Salvaguarda do centro histórico de Chaves (da propriedade do Município de Chaves). E, por fim, aos meus colegas e amigos da ACISAT, às meninas do GAP da Câmara Municipal de Chaves e a todas aquelas pessoas que de alguma forma me ajudaram. II

5 RESUMO Nos últimos anos temos assistido a um crescimento assinalável da pertinência das questões relacionadas com a sustentabilidade territorial das cidades e dos seus centros históricos, para as quais se tem procurado soluções e modelos muito variados de promoção do desenvolvimento. Esta procura de novas formas de intervenção passa pela utilização de novas ferramentas e instrumentos, pela construção de novos enquadramentos legais e institucionais. A revitalização é um elemento do desenvolvimento sustentável dos centros históricos, que procura uma forma de melhorar a qualidade de vida, com vista a solucionar os problemas urbanos referentes ao desenvolvimento. A reabilitação urbana dos centros históricos remete-nos para o turismo enquanto setor de atividade com maior possibilidade de inserção nestes espaços. A reabilitação é um fator essencial da dinamização do turismo, porque só uma cidade que se renova pode ambicionar atrair mais visitantes (CCDR-N, Vida Imobiliaria, 2013). Palavras-chave Centro histórico, revitalização, urbanismo, turismo III

6 ABSTRACT In recent years we have witnessed a remarkable growth of the relevance of the issues related to territorial sustainability of cities and their historical centers, for which it has sought solutions and varied models for promoting development. This search for new forms of intervention involves the use of new tools and instruments for the construction of new legal and institutional frameworks. Revitalization is an element of sustainable development of historic centers, looking for a way to improve the quality of life, in order to solve the problems related to urban development. Urban rehabilitation of historic centers brings us to tourism as a sector of activity with the greatest possibility of inserting these spaces. Rehabilitation is a key factor in boosting tourism, because only a city that renews ambition can attract more visitors (CCDR-N, Imobiliaria Life, 2013). Keywords Historic center, revitalization, urban planning, tourism IV

7 ÍNDICE GERAL AGRADECIMENTOS... RESUMO... ÍNDICE GERAL... ÍNDICES... ÍNDICE DE FIGURAS... II III V VII VII ÍNDICE DE GRÁFICOS... VIII ÍNDICE DE ESQUEMAS... VIII ÍNDICE DE TABELAS... VIII ÍNDICE DE QUADROS... VIII LISTA DE SIGLAS... XI INTRODUÇÃO... 1 METODOLOGIA O processo de investigação... 5 Metodologia... PARTE I REVISÃO BIBLIOGRÁFICA CAPÍTULO 1 CICLO DE VIDA DAS CIDADES A Cidade A ascensão Declínio A problemática da regeneração/revitalização CAPÍTULO 2 INTERVENÇÕES EM CENTROS URBANOS/ HISTÓRICOS Centro histórico Políticas e estratégias de intervenção Políticas e estratégias de intervenção em Portugal CAPÍTULO 3 INSTRUMENTOS DE GESTÃO E REVITALIZAÇÃO O planeamento enquanto instrumento de gestão e revitalização O marketing enquanto ferramenta de gestão e revitalização CAPÍTULO 4 O TURISMO: ESTRATÉGIA E INTERVENÇÃO E DESENVOLVIMENTO A vocação turística dos centros históricos e a turistificação V

8 4.2. A preservação e conservação do património Planeamento e desenvolvimento turístico do centro histórico A necessidade de gerir a atividade turística nas cidades monumentais PARTE II ESTUDO DE CASO CAPÍTULO 5 - EXERCÍCIO DE BENCHMARKING O modelo americano O modelo inglês O modelo espanhol CAPITULO 6 CARATERIZAÇÃO DO CENTRO HISTÓRICO DE CHAVES Breve enquadramento Caraterização histórica Caraterização da oferta turística Acessibilidade, estacionamento, transportes e circulação pedonal Caraterização da área objeto de estudo A revitalização do centro histórico de Chaves CAPÍTULO 7. ANÁLISE EMPÍRICA DO CENTRO HISTÓRICO DE CHAVES Análise empírica do centro histórico de Chaves Análise empírica da oferta Análise empírica da procura Análise empírica ao turismo CAPÍTULO 8. CONCLUSÕES BIBLIOGRAFIA VI

9 ÍNDICE DE FIGURAS Figura 1 Dimensões de intervenção da revitalização urbana Figura 2 Vantagens da reabilitação urbana Figura 3 Esquema de modelo de estratégia possível num processo de revitalização Figura 4 Faseamento do processo de planeamento estratégico Figura 5 Componentes da gestão estratégica territorial Figura 6 Marketing e planeamento estratégico Figura 7 ADN territorial Figura 8 Dimensões do conceito de marketing territorial Figura 9 Articulação entre marketing e estratégia de desenvolvimento Figura 10 A abordagem operacional do marketing de cidades Figura 11 Percurso metodológico do marketing de cidades Figura 12 O turismo pós-moderno e pós-fordista Figura 13 Áreas funcionais da cidade turística e histórica Figura 14 Princípios e valores do turismo sustentável Figura 15 Componentes para o sucesso do centro da cidade Figura 16 Possibilidade de estrutura de gestão (TCM) Figura 17 Fatores que influenciam os 4 A s da matriz Figura 18 Mapa atual das freguesias do concelho de Chaves Figura 19 Concelhos da NUT III Alto Trás-os-Montes Figura 20 Marca Sabores de Chaves Figura 21 Delimitação do centro histórico de Chaves Figuras 22 e 23 Evolução da morfologia urbana e património classificado Figuras 24 e 25 Estado de conservação do edificado Figuras 26 e 27 Uso atual predominante e ocupação total do edifício Figura 28 Termas Medicinais Romanas de Chave Figuras 29 e 30 Delimitação da ARU do centro histórico de Chaves VII

10 Figura 31 Subsistemas internos da ARU de Chaves Figura 32 Unidades de Intervenção Prioritárias (UIP) ÍNDICE DE GRÁFICOS Gráfico 1 - Sexo dos empresários Gráfico 2 Local de residência ÍNDICE DE ESQUEMAS Esquema 1 Processo de investigação... 6 Esquema 2 Revitalização e turismo ÍNDICE DE TABELAS Tabela 1 - Idade Tabela 2 Nacionalidade Tabela 3 Tempo de permanência em Chaves Tabela 4 O mais apreciado em Chaves Tabela 5 Gastos efetuados nas últimas 24 horas Tabela 6 Montantes de dinheiro gasto Tabela 7 Atividades mais apreciadas pelos turistas ÍNDICE DE QUADROS Quadro 1 Principais problemas dos centros históricos Quadro 2 Motivações que conduzem a intervenções em centros urbanos Quadro 3 Percurso do desenvolvimento urbano sustentável VIII

11 Quadro 4 Componentes do programa Polis e suas caraterísticas Quadro 5 Definições de marketing territorial/ marketing de cidades Quadro 6 Mercados alvo do marketing de cidades Quadro 7 Serviços incluídos nos clusters de visita dos centros históricos Quadro 8 Fatores que facilitam o desenvolvimento de oportunidades Quadro 9 Documentos internacionais sobre proteção e preservação do património Quadro 10 Modelo de interação entre regeneração dos centros históricos e turismo Quadro 11 Impactos turísticos no centro histórico e seus condicionantes Quadro 12 Síntese de oportunidades e riscos gerados pelo turismo no desenvolvimento Quadro 13 Principais benefícios dos BID Quadro 14 Resumo do modelo de gestão americano Quadro 15 Principais vertentes contempladas pelos TCM Quadro 16 Caraterísticas das principais parcerias para a gestão do centro das cidades Quadro 17 Resumo do modelo de gestão inglês Quadro 18 Resumo do modelo de gestão espanhol Quadro 19 Caraterização territorial do concelho Quadro 20 Planos e projetos para a revitalização urbana Quadro 21 Distribuição dos investimentos PROCOM / URBCOM Quadro 22 Distribuição dos estabelecimentos pelas ruas da A.I Quadro 23 Problemas apontados pelo comércio tradicional Quadro 24 Faixa etária Quadro 25 Nível de escolaridade Quadro 26 Formação profissional dos empresários do comércio local Quadro 27 Local de residência Quadro 28 Estrutura dos estabelecimentos comerciais do centro histórico Quadro 29 Tempo de exploração da atividade comercial Quadro 30 Recurso a serviços externos IX

12 Quadro 31 Frequência com que renova a montra Quadro 32 Três pontos fortes da política comercial Quadro 33 Evolução das vendas Quadro 34 Três aspetos que mais desagradam no centro histórico Quadro 35 Principais dificuldades dos empresários Quadro 36 Medidas a tomar pelo comércio Quadro 37 Último investimento realizado Quadro 38 Natureza dos investimentos Quadro 39 Caraterização dos clientes Quadro 40 Proveniência dos clientes Quadro 41 Pontos fortes do comércio Quadro 42 Pontos fracos do comércio Quadro 43 Sugestões apontadas aos problemas do comércio Quadro 44 Motivo da visita ao centro Quadro 45 Ruas percorridas no centro histórico Quadro 46 Principais atributos do centro histórico Quadro 47 Aspetos negativos do centro histórico Quadro 48 O que mais agrada ou desagrada no comércio urbano Quadro 49 O que mais agrada ou desagrada nas grandes superfícies Quadro 50 Sugestões apontadas à problemática da revitalização do centro histórico Quadro 51 Principais potencialidades do centro histórico de Chaves X

13 LISTA DE SIGLAS ACISAT ADN A.I. AMCV ARU ATCM BID CCA CCE CE DGEMN DGOTDU EFTC EU FNCV GATAT GTL ICOMOS IHRU INE IMI IMT IPHAN IVA MN Associação Empresarial do Alto Tâmega Ácido desoxirribonucleico Área de Intervenção Association du Management de Centre Ville Área de Reabilitação Urbana Association of the Town Center Management Business Improvement Districts Centro comercial a céu aberto Comunicação da Comunidade Europeia Comunidade Europeia Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais Direção Geral do Ordenamento do Território e Desenvolvimento Urbano European Federation of Town Centre União Europeia Fédération Nacionale des Centre Ville Gabinete de Apoio Técnico Local Gabinete Técnicos Locais International Council on Monuments and Sites Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana Instituto Nacional de Estatística Imposto municipal sobre imóveis Imposto municipal sobre as transacções onerosas de imóveis Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional Brasileiro Imposto sobre o valor acrescentado Monumento Nacional MODCOM Sistema de Incentivos a Projetos de Modernização do Comércio XI

14 MPS NO OMT ORU OWHC PDM PEUC PNDES PROCOM QCA RECRIA Main Street Program Noroeste Organização Mundial de Turismo Operação de Reabilitação Urbana Organization of World Heritage Cities Plano Diretor Municipal Projetos especiais de urbanismo comercial Plano Nacional do Desenvolvimento Económico e Social Programa de apoio à modernização do comércio Quadro Comunitário de Apoio Regime especial de comparticipação na recuperação de imóveis arrendados REHABITA Regime de apoio à recuperação habitacional em áreas antigas RJRU SAD SE SIPA UAC UCDR EU URBCOM UIP UNESCO Regime Jurídico de Reabilitação Urbana Special Assessment Districts Sudoeste Sistema de Informação para o Património Arquitetónico Unidade de Acompanhamento e Coordenação Unidade comercial de dimensão relevante União Europeia Projetos de Urbanismo Comercial Unidades de Intervenção Prioritárias Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura XII

15 Introdução INTRODUÇÃO Os centros das cidades, locais privilegiados outrora, vivenciam hoje vários problemas, que vão desde o físico, habitacional, social, cultural e económico. A degradação e o envelhecimento dos centros históricos têm levado ao abandono da habitação e esta contínua degradação tem provocado a desertificação do coração da cidade que, a manter-se, pode ser irremediável. A desertificação das áreas históricas urbanas é a principal causa desse facto. Hoje, o centro histórico vê-se transformado em periferia, surgem novos centros enquanto os tradicionais se vêem envelhecer. Os habitantes que povoam o centro histórico já não são habitantes permanentes. A cidade deixou de ser um lugar para viver, transformando-se num lugar para produzir e consumir (Ander-Egg, 2000:40). Trata-se da realidade do urbano sem vida urbana. Mas, o centro histórico não consiste apenas no desenho de ruas e arquiteturas, edificações e monumentos, não é somente infraestrutura e edificado. É muito mais que isso, é um bem cultural que acumula e recria tradições, costumes, formas de relação, é memória de seus habitantes. Perante isto, por todo o mundo procura-se o renascimento dos centros históricos a partir da revitalização dessas áreas centrais através da reutilização do seu património físico. O processo de revitalização dos centros históricos como espaços privilegiados em termos de recursos de património histórico-cultural passa a ser prioridade como forma de combater o declínio. Pensa-se que a preservação física do património é a maneira de se conseguir a qualidade de vida perdida e regenerar a cidade. Este conceito de revitalização é atualmente muito aplicado no âmbito urbanístico, patrimonial, social, económico, entre outros, porque é transversal às várias dimensões dos saberes e de caráter abrangente, o que permite a inter-relação entre as diversas áreas temáticas (Gachineiro, 2011). A regeneração/revitalização urbana passa assim a assumir-se como um elemento de desenvolvimento sustentável das cidades, uma abordagem integrada que visa melhorar a qualidade de vida (Henriques, 2003). Do ponto de vista económico, a reabilitação urbana dos centros históricos remetenos para o turismo. A cidade histórica com valores turísticos pode ser gerida segundo diferentes filosofias e estratégias de planeamento e gestão no contexto das políticas de 1

16 Introdução reabilitação urbana, com implicações diretas no desenvolvimento do turismo sustentável destes espaços. A capacidade de influenciar a estrutura socioeconómica e territorial da cidade é a que faz do turismo a peça fundamental de qualquer planeamento estratégico urbano, pelo que o desenvolvimento das cidades monumentais não pode ser entendido sem uma planificação e gestão das atividades turísticas (Bernier, 2003). Considerando o conjunto alargado de fatores que marca hoje o contexto territorial no qual as cidades se inserem, o planeamento estratégico e o marketing territorial assumem-se como relevantes para dotar a gestão urbana de abordagens e instrumentos que permitam responder aos desafios do turismo (Alves, 2007). Desta problemática da revitalização do centro histórico nasce a escolha do tema. Conhecedores dos problemas com que se debate o centro histórico de Chaves, procurámos com esta investigação estudar as medidas que têm sido levadas a cabo com vista a combater a sua desertificação, procurando refletir e dar uma resposta às diversas incertezas que giram em torno do desenvolvimento desta cidade. Neste contexto, a escolha desta temática prende-se com o crescente interesse que se tem sentido pelo centro das cidades, que resulta de uma consciencialização cada vez mais forte do papel crucial que ocupam nos processos de desenvolvimento. O centro é a área que normalmente cria nos visitantes as primeiras impressões sobre a cidade. Com o presente trabalho procurámos abordar os aspetos que estiveram e estão na base do declínio dos centros urbanos, e que, por isso, potenciam uma intervenção nestas áreas. Dada a importância crescente da temática da gestão e da revitalização dos centros urbanos e dos seus contributos para o desenvolvimento turístico das cidades, torna-se pertinente, em termos académicos, ampliar mais o conhecimento sobre esta matéria. A investigação desta problemática será uma mais-valia na obtenção de novos conhecimentos, que por sua vez permitirão a adoção de novas estratégias de regeneração e reabilitação urbana que irão ser delineadas nesta dissertação. Neste contexto, o trabalho de pesquisa a desenvolver teve como principais objetivos da investigação: 1. Conhecer a evolução das principais doutrinas de reabilitação e revitalização até à atualidade, identificando um conjunto de diretrizes estratégicas e consensuais de revitalização; 2. Analisar e descrever a importância da revitalização e da gestão urbana em matéria de desenvolvimento turístico; 2

17 Introdução 3. Avaliar o impacto a nível turístico das diferentes estratégias e ferramentas que têm vindo a ser adotadas para a reabilitação/regeneração do centro histórico de Chaves. O trabalho de investigação foi desenhado através de um processo planeado, que consistiu em projetar o trabalho investigativo através de uma estrutura lógica. Dessa estrutura nasce esta dissertação, que se divide em duas partes: a revisão bibliográfica e o estudo de caso. A primeira parte, de âmbito mais teórico, está organizada em quatro capítulos: ciclo de vida das cidades; intervenção em centros urbanos/ históricos; instrumentos de gestão e revitalização; turismo: estratégia de intervenção e desenvolvimento do centro histórico. A segunda parte possui mais quatro capítulos: exercício de benchmarking; a caraterização do centro histórico de Chaves; a análise e interpretação dos resultados da investigação e as conclusões, que constituem a parte prática da dissertação. No primeiro capítulo procurámos refletir o ciclo pelo qual foram passando as cidades ao longo do tempo: a ascensão, o declínio e a tentativa de regeneração. O segundo capítulo abordou a evolução histórica e as diferentes intervenções que foram sendo realizadas sucessivamente no centro das cidades. O terceiro capítulo aponta o planeamento e o marketing como instrumentos de gestão e revitalização do centro histórico. O capítulo quatro faz referência ao turismo como estratégia de intervenção para o desenvolvimento. A segunda parte deste trabalho começa com um exercício benchmarking (capítulo cinco), onde são analisados três modelos de gestão do centro urbano - o caso americano, o caso inglês e o espanhol. O sexto capítulo é o estudo de caso do centro histórico de Chaves. Nele parte-se de uma caraterização genérica, passando a uma análise pormenorizada da área objeto de estudo (o centro histórico de Chaves) e da revitalização que lhe esteve e continua a estar associada. O sétimo capítulo consiste na análise, discussão e interpretação de dados estatísticos de quatro estudos feitos por instituições locais, resultado de inquéritos aplicados a comerciantes, população local e turistas. A última parte deste trabalho compõe-se da conclusão, que consiste na redação dos contributos originados por esta investigação e nas considerações finais, sendo apontadas algumas sugestões. 3

18 Metodologia METODOLOGIA INTRODUÇÃO A metodologia é um conjunto de procedimentos e regras com vista a produzir conhecimento. É a maneira de se aceder ao problema, um desenho do estudo. As técnicas de investigação são os procedimentos operativos e os instrumentos para produzir dados. A investigação, por sua vez, é um conjunto de fases, de atuações sucessivas na busca de uma resposta a uma situação apresentada como sendo a problemática (Ander- Egg, 2000:21). É um processo que, utilizando o método científico, permite obter novos conhecimentos no campo da realidade social (Ander-Egg, 2000:26). A investigação em turismo deve ser levada a cabo sob uma perspetiva multidisciplinar, caráter este que se tem revelado problemático, nomeadamente no aprofundar de determinados campos específicos, causando mesmo certas dificuldades nos instrumentos de medição e na definição das variáveis utilizadas na investigação. Por outro lado, o facto de ser um setor caraterizado por pequenas e médias empresas e fortemente influenciado pela procura torna difícil a medição da sua atividade (OMT, 2001:4). Em turismo, a pesquisa consiste na formulação de perguntas, a recolha sistemática de informação no sentido de responder a essas perguntas, a organização e análise de dados com o objetivo de obter padrões de comportamento, relações e tendências que ajudem à compreensão do sistema, à tomada de decisões e à construção de previsões que abarquem vários cenários futuros (OMT, 2001:3). A OMT no seu documento Apuntes de Metodologia de la Investigacíon en Turismo reconhece a existência de dois tipos distintos de investigação: a investigação básica e a investigação aplicada. A investigação básica geradora de conhecimento através desenvolvimentos teóricos que permitem descobrir, inventariar e projetar situações na área do turismo, em benefício da competitividade do setor. Por seu lado, a investigação aplicada, ou seja, a base de ação antes da tomada de decisão, constitui um processo de concretização das ideias nascidas noutros locais. Existem diferentes tipos de investigação: os estudos exploratórios, os estudos descritivos e os estudos explicativos. No âmbito desta investigação iremos empreender um estudo exploratório, que se caracteriza pelo desenvolvimento, esclarecimento e modificação de ideias e conceitos. 4

19 Metodologia 1. O PROCESSO DE INVESTIGAÇÃO Uma investigação pressupõe um processo planeado, em que se sabe aquilo que se procura, utilizando métodos, técnicas e procedimentos adequados. Este processo consiste em projetar o trabalho investigativo através de uma estrutura lógica de decisões, de modo a orientar o trabalho de investigação (Quivy, 1998). O processo de investigação em turismo consiste num conjunto de métodos empíricoexperimentais, procedimentos, técnicas e estratégias para obter um conhecimento científico, técnico e prático da realidade turística. Dentro do modelo geral de investigação existem várias formas de focar os processos de investigação, mas aceita-se de forma generalizada, uma sequência de etapas (OMT, 2001:5). O método consiste, por sua vez, na forma concreta de se organizar a pesquisa, é um conjunto de princípios que orientam a seleção do objeto de estudo, a formação dos conceitos apropriados e as hipóteses; é o caminho que deve seguir a nossa investigação, ou seja, o procedimento que se utilizará (Ander-Egg, 2000:21). Para a tomada de decisão acerca do caminho a percorrer na investigação a levar a cabo, é essencial reconhecer claramente o problema em questão, para que posteriormente seja recolhida a informação já disponível no assunto e reconhecida qual a lacuna existente, optando por uma determinada abordagem de recolha. A informação deverá ser tratada objetivamente para ser utilizada na ocasião de tomar decisões. A investigação deve ser bem desenhada, pertinente e concentrando-se num problema cuidadosamente definido (Veal, 1997:2, cit. Batista, 2008). Após a consulta de diversos autores, Tuckman (1994); Ryan (1995); Quivy (1998); Ander-Egg (2000); OMT (2001) e os respetivos processos de investigação propostos, considera-se que o modelo sugerido por Quivy é o que melhor se adequa à investigação em questão. A presente investigação percorreu assim um conjunto de fases, uma série de momentos (conforme esquema 1), que se articularam entre si e que serão seguidamente descritos. Fase 1 A escolha do tema Quanto à escolha do tema, e uma vez selecionado o assunto que vamos investigar, é preciso afunilá-lo, circunscrevê-lo mediante critérios espaciais, temporais e da população, que nos permitirão melhor delimitar a questão. Um primeiro critério é o espacial (Gil, 2004:162) uma vez que por ser a pesquisa em ciências sociais eminentemente empírica, é preciso delimitar o local da observação, ou seja 5

20 Metodologia o local onde o fenómeno em estudo ocorre, tratando-se neste caso do centro histórico de Chaves. Outro critério é o da delimitação temporal (GIL, 2004:162), isto é, o período em que o fenómeno a ser estudado será circunscrito, sendo que nesta pesquisa procuraremos evidenciar o tempo diacrónico, recuando até ao ano de 1987, data do primeiro documento sobre reabilitação urbana de Chaves (Protocolo celebrado entre a Câmara Municipal de Chaves e ACISAT para a revitalização do centro histórico de Chaves). Por último temos o critério da delimitação da população, que consiste na definição de quem será o objeto da pesquisa. Neste estudo a população dependerá, obviamente, da área de conhecimento na qual se insere e no propósito da pesquisa, que é a cidade de Chaves. Esquema 1 Processo de investigação Fase 1 Escolha do tema Fase 2 Pergunta de partida Fase 3 Exploração Leituras Fase 4 Problemática Fase 5 Construção do modelo de análise Etapa 6 Observação Etapa 7 Análise das informações Etapa 8 Conclusões Fonte: Adaptado de Quivy (1998) 6

21 Metodologia Diante estes critérios, tratámos então de definir o nosso campo de observação, visando elaborar uma pesquisa que assentará sobre um tema consistente e preciso., que procurará expressar aquilo que queremos investigar na forma de uma frase/título: Fase 2 A pergunta de partida REVITALIZAÇÃO URBANA E TURISMO: O CASO DO CENTRO HISTÓRICO DE CHAVES Relativamente à pergunta de partida, o problema de investigação deve exprimir-se numa interrogação clara e precisa acerca dos fenómenos que se pretende examinar e compreender em mais detalhe (Quivy, 2003:32; Fortin, 2003:51, cit. Batista, 2008). A pergunta de partida revela-se o fio condutor da investigação (Quivy, 2003:44) o ponto de partida (Fortin, 2003:48), para o conhecimento da realidade questionada. A questão levantada deve possuir uma dimensão viável e realista, só assim é possível empreender um estudo mais rigoroso. Apresentar diversas variáveis englobando um horizonte muito vasto, torna a investigação inviável do ponto de vista do seu contributo para o conhecimento da área em questão (Gil, 1994:54; Quivy, 2003:44). Neste sentido, o nosso projeto foi inicialmente formulado sob a forma de uma pergunta, da qual partimos. Procurámos formular uma pergunta que fosse o fio condutor de todo o nosso processo de investigação, simultaneamente clara, concisa, pertinente e realista. Assim, como ponto de partida formulámos a seguinte pergunta: EM QUE MEDIDA A GESTÃO URBANA E A REVITALIZAÇÃO DO CENTRO HISTÓRICO PODEM CONTRIBUIR PARA O DESENVOLVIMENTO TURÍSTICO? Esta pergunta base levou-nos à formulação das seguintes perguntas secundárias: Devemos revitalizar a cidade apenas na vertente da requalificação das ruas ou devemos reabilitá-la no que se refere ao revivalismo do património cultural, intangível devolvendo a memória e a identidade? Será que a recuperação física do património e as políticas de conservação, só por si contribuem para o desenvolvimento turístico? Será possível um desenvolvimento turístico sustentável da cidade a partir do património? Devemos promover o nosso património como recurso turístico, gerando assim um produto, o produto patrimonial oferecido para o desenvolvimento turístico ou pelo contrário preservar o património como recurso frágil e não renovável? 7

22 Metodologia Devemos utilizar o património como eixo de desenvolvimento turístico da cidade? A gestão do centro urbano poderá ou não ser a estratégia de intervenção adequada nesse processo de revitalização? Pode ou não ser considerada como estratégia de revitalização de um centro histórico e impulsionadora de desenvolvimento? Fase 3 A exploração A terceira fase consiste na fase exploratória, que se reduz às leituras, seleção de textos, resumos e comparações. Na fase da exploração foram descodificados os discursos, através de uma atitude de escuta e de abertura. Procurou-se assegurar a qualidade de problematização, conhecendo as diferentes problemáticas possíveis, elucidando os seus pressupostos, comparando-os e refletindo nas suas implicações metodológicas (Quivy & Campenhoudt, 2003:49 e 89), fundamentando as ideias, apoiando a investigação delineada. A pertinência deste estudo foi-se revelando à medida que esta etapa do processo de investigação avançou. Da evolução da revisão de literatura foram nascendo novas questões e as que já existiam foram sendo modificadas. Empreendemos uma abordagem diversificada, mas tendo como fio condutor a pergunta de partida. As áreas urbanas, a regeneração urbana, a problemática da revitalização, a implementação de estratégias e instrumentos de intervenção, o planeamento turístico, o marketing de cidades e a gestão urbana são as temáticas fulcrais desta investigação. Optou-se por recorrer a documentos, cujas abordagens fossem suficientemente diversificadas e que contivessem elementos de análise e interpretação e não meramente a apresentação de dados (Quivy & Campenhoudt, 2003:52). Fase 4 A problemática Quanto à formulação do problema (o quê?, para quê?), que consiste em determinar o que se pretende investigar e a sua finalidade, foi estabelecida toda uma problemática prévia que é a recuperação do centro histórico, ou seja a recuperação do património históricocultural, em que o marco mais amplo da investigação é o problema da revitalização desse património e o planeamento turístico; depois trata-se da necessidade da comunicação/promoção do património com a finalidade de se atingir um desenvolvimento turístico. Fase 5 Construção de um modelo de análise 8

23 Metodologia Quanto à construção do modelo de análise, procurámos desenhar o modelo da nossa investigação, construindo hipóteses e conceitos com vista à elaboração do marco ou enquadramento teórico. Assim, propusemo-nos verificar a seguintes suposições: A revitalização/ regeneração/ reabilitação do centro histórico de Chaves pode contribuir para o seu desenvolvimento turístico. A revitalização/regeneração urbana constitui-se como um elemento do desenvolvimento regional/local, uma vez que sem regeneração/revitalização as cidades perdem o seu potencial e competitividade no contexto espacial, que as integra. Neste sentido, a questão era saber se a recuperação do património como recurso turístico permite ou não converter o centro histórico em destino de turismo, contribuindo assim para o desenvolvimento da cidade. Fase 6 A observação A observação consiste na fase metodológica. Assim, em função do modelo teórico definido foi necessário selecionar os métodos de pesquisa no sentido de responder de forma eficaz ao problema de pesquisa. Estes passaram pela recolha de dados preexistentes: dados secundários (revisão da literatura) e pela recolha de dados primários. A pesquisa primária pode ser quantitativa ou qualitativa, sendo que neste caso optou-se pela utilização simultânea dos dois métodos, com vista a permitir uma complementaridade na recolha de dados. Ao escolhermos uma abordagem quantitativa procurou-se recolher dados numéricos que nos forneceram conhecimentos objetivos sobre a realidade em estudo. No entanto, por acharmos que os fenómenos não deveriam ser observados unicamente sob uma perspectiva quantitativa, existindo todo um contexto que condiciona os comportamentos e que por isso deve ser tida em conta, foi também considerada a abordagem qualitativa na recolha de dados, que consistiu na interpretação de comportamentos, permitindo abordagens mais subjetivas. Para a redução das limitações e a maximização dos benefícios de ambos os métodos é fundamental empreender uma estratégia de combinação e comparação de diferentes métodos e perspetivas no interior dum mesmo estudo (Fortin, 2003:322 e 326, cit. Batista, 2008). O conceito de triangulação consiste na conciliação dos métodos qualitativos e quantitativos com vista a aumentar a qualidade dos dados recolhidos e a tirar conclusões válidas e fiáveis de um determinado fenómeno. No âmbito desta investigação pretende-se, mais do que confirmar os resultados, obter um conhecimento mais profundo da realidade em estudo, desta forma, considera-se relevante a utilização da triangulação de dados e métodos. 9

24 Metodologia A abordagem metodológica de investigação que nos pareceu adequada foi o estudo de caso, por procurarmos compreender, explorar e descrever acontecimentos em contextos complexos, como é o da revitalização do centro histórico de Chaves, no qual estão simultaneamente envolvidos diversos fatores a ter em conta. Segundo Ponte (2006:2), o estudo de caso é uma investigação que se assume como particularística, isto é, que se debruça deliberadamente sobre uma situação específica que se supõe ser única ou especial, pelo menos em certos aspetos, procurando descobrir o que há nela de mais essencial e caraterístico e, desse modo, contribuir para a compreensão global de um certo fenómeno de interesse. Benbasat et al. (1987) consideram que um estudo de caso deve possuir as seguintes características: Fenómeno observado no seu ambiente natural; Dados recolhidos utilizando diversos meios (Observações diretas e indiretas, entrevistas, questionários, registos de áudio e vídeo, diários, cartas, entre outros); Uma ou mais entidades (pessoa, grupo, organização) são analisadas; A complexidade da unidade é estudada aprofundadamente; Pesquisa dirigida aos estágios de exploração, classificação e desenvolvimento de hipóteses do processo de construção do conhecimento; Não são utilizados formas experimentais de controlo ou manipulação; O investigador não precisa especificar antecipadamente o conjunto de variáveis dependentes e independentes; Os resultados dependem fortemente do poder de integração do investigador; Podem ser feitas mudanças na selecção do caso ou dos métodos de recolha de dados à medida que o investigador desenvolve novas hipóteses; Pesquisa envolvida com as questões "como?" e "porquê?", ao contrário de o quê? e quantos? Quanto aos métodos de recolha de dados considerou-se a análise de dados documentais e os inquéritos utilizados em estudos preexistentes sobre a realidade em estudo. Quanto a esta matéria considerou-se inútil consagrar grandes recursos para 10

25 Metodologia recolher aquilo que já existe, ainda que a apresentação dos dados possa não ser totalmente adequada e deva sofrer algumas adaptações (Quivy, 1998:201). Fase 7 A análise das informações Quanto à análise das informações, resumiu-se à interpretação e discussão dos resultados da investigação, averiguando se as informações recolhidas respondem assim à pergunta de partida. O objetivo desta fase é, portanto, a verificação empírica. Esta análise compreendeu três subfases: primeiro a descrição e preparação dos dados necessários para testar as hipóteses; a análise das relações entre as variáveis e a comparação dos resultados observados com os esperados a partir da hipótese. Esta é a fase da análise empírica sobre centro histórico de Chaves; baseia-se nos indicadores estatísticos recolhidos de quatro estudos efetuados através da realização de inquéritos por questionário aos comerciantes, consumidores e turistas do centro histórico, nos anos de 1998, 2004, 2008 e O primeiro estudo consistiu numa caraterização do comércio a retalho efetuada em 1998, pela empresa Bússola, no âmbito do Estudo Global dos Projetos de Urbanismo Comercial, encomendada pela Câmara Municipal e pela ACISAT, representando uma amostra composta por 243 lojistas da A.I. A análise de 2004 é referente a uma investigação apresentada na UTAD, para obtenção do grau de licenciatura em Recreação, Lazer e Turismo, tendo sido aplicados inquéritos a 100 comerciantes da zona histórica, 100 inquéritos à população local e 101 a turistas. Os estudos de 2008 e 2011 foram realizados pela Associação para a Promoção do Centro Urbano de Chaves ProCentro, tendo por base uma amostra aleatória de 112 casas comerciais das principais ruas da A.I. e a de 2011 consistiu na análise de 100 inquéritos aplicados ao comércio local da referida área e outros 100 inquéritos aplicados ao consumidor. Fase 8 Conclusões Por fim, no que se refere às conclusões, consistiram na redação do conteúdo da análise, baseando-se numa retrospetiva das linhas seguidas durante o enquadramento teórico, sendo posteriormente apresentados os contributos para o conhecimento originados pelo projeto de investigação e finalmente as considerações finais. 11

26 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades PARTE I REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 12

27 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades CAPÍTULO 1 CICLO DE VIDA DAS CIDADES Para muitos as cidades assemelham-se a organismos vivos e, como tal, nascem, morrem e desaparecem. Ou seja, nascem a partir de um conjunto de atividades que se concentram num determinado território que depois crescem e geram necessidades de segurança, de infraestruturas básicas, de equipamentos de apoio, etc., cuja satisfação supõe uma lógica de organização espacial de urbanismo e planeamento (Henriques, 2003: 140). INTRODUÇÃO Com base numa vasta fundamentação bibliográfica procede-se neste capítulo a uma sistematização da evolução do ciclo de vida das cidades, desde a ascensão, ao declínio e regeneração. Delineando o estudo num alargado enquadramento teórico, interpretam-se e justificam-se os conceitos de cidade, urbanização, periferia urbana, renovação, regeneração e revitalização, através da citação de autores e obras bibliográficas de referência, cujos conteúdos fundamentam o entendimento do tema. As cidades e os centros urbanos, à semelhança dos organismos vivos e dos produtos, nascem, crescem e morrem. Para analisarmos as várias fases do desenvolvimento das cidades foram abordados os vários elementos que estão na origem da evolução e declínio da cidade industrial e os fatores regeneradores conducentes à cidade metrópole e cidade global. A evolução das cidades pode ser comparada com os seres vivos, uma vez que passam por períodos de crescimento, estagnação e, eventualmente, de declínio e morte ou rejuvenescimento. Um local poderá possuir uma dinâmica elevada, estagnada ou em decadência. Ao longo de décadas inúmeras áreas urbanas entraram em declínio sendo transformadas em espaços degradados, sem vida pública, chamando a atenção para a necessidade da elaboração de intervenções de revitalização urbana com vista a devolver a vida ao espaço urbano. A partir de 1990, as grandes cidades passaram a buscar o renascimento dos seus centros urbanos, a partir da revitalização das suas áreas centrais através da reutilização dos patrimónios (físico, social e económico), à procura de um renascer económico, social e cultural das áreas centrais decadentes e subutilizadas A CIDADE O crescimento urbano do nosso século demonstra-nos que a sociedade industrial e pós industrial é urbana. Mais de dois terços da população europeia vive em áreas urbanas 13

28 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades atualmente (UE, 2011). A terra tornou-se um planeta urbano devido à urbanização galopante. Estima-se que em 2030 aproximadamente 61% da população mundial residirá em centros urbanos (Henriques, 2003). No entanto, são vários os problemas observados nas cidades que têm suscitado inúmeros debates e o envolvimento de académicos, de políticos, de organizações e de cidadãos em geral. As transformações a nível económico, social, cultural e políticas, ocorridas nas últimas décadas, além de terem conferido novos contornos às geografias regionais, aceleraram a reorganização dos tecidos, dos modos de vida e das vivências urbanas, evidenciando a importância das cidades na afirmação da competitividade e inovação dos territórios onde se integram motivo pelo qual passaram a ocupar um lugar de destaque na agenda das políticas públicas com enfoque territorial (Jacinto, 2012:5). A cidade, sendo a maior realização do homem em sociedade, é o produto mais complexo e variado da nossa herança histórica. Responde às necessidades de cada época ou conjuntura histórica. O velho e o novo, o tradicional e o moderno combinam-se, pois as urbes estão esculpidas em pedra. Nas pedras está escrita a história de cada cidade, algumas das quais souberam transmitir a sua mensagem e são um livro aberto para mostrar o seu passado, cultura e folclore, tanto a seus habitantes como a seus hóspedes. A história da cidade pode ser considerada história da humanidade. A cidade vem da antiguidade e corresponde a entidades tão variadas quanto as sociedades que a constituíram: cidade-estado grega ou o centro administrativo do Império Romano, que se extinguiram na baixa Idade Média para ressurgirem na forma de burgo; cidade feudal; e após nova metamorfose dissolverem-se na aglomeração urbana contemporânea (Deák, 1991:1). As cidades são produto das sociedades que as construíram fisicamente e edificaram culturalmente, num processo contínuo e intemporal. Constituem-se como um legado das sociedades passadas e uma plataforma para as vindouras, sendo um espaço de transição por excelência (Sebastião, 2010:10). Como paisagens culturais, as cidades são realidades dinâmicas e complexas. Na paisagem urbana estão em interrelação elementos do meio ambiente, heranças da história, forças económicas, progressos técnicos, tensões sociais, modos de vida de seus habitantes e também as aspirações e desejos dos cidadãos (Chico, F. 2008). 14

29 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades São vários os parâmetros que definem a cidade. Podemos defini-la desde o ponto de vista morfológico, se atendermos ao estilo dos seus prédios, ou da distribuição territorial, se nos ocuparmos dos seus espaços, do ponto de vista económico, se nos referirmos aos valores que repostam as suas atividades empresariais (empregos, produtividade, etc.), de um ponto de vista funcional, se atendermos aos seus usos, e sociológico, se estivermos a referir o perfil dos seus habitantes. ( ). Todos estes parâmetros têm sido alterados nos últimos tempos e permanecem numa constante mudança, o que nos obriga a adequar o nosso modus operandi na hora de atuar sobre eles (Chico, F. 2008:22). A palavra cidade sobrevive através das idades, modos de produção e formas de sociedade, mas o seu significado corresponde a entidades inteiramente diferentes segundo a época (Deák, 1991:1). O termo cidade pode ser definido de várias formas. Pode referir-se a uma determinada unidade administrativa ou a uma densidade populacional. Convém fazer a distinção entre vilas (towns) e cidades (cities). As primeiras, de menores dimensões, representam entre e habitantes, enquanto que as cidades são maiores, acima de habitantes. A cidade pode também referir-se de forma mais genérica a perceções de um modo de vida urbano e a caraterísticas culturais ou sociais específicas, bem como a locais funcionais de atividade e trocas económicas (UE, 2011:1). O termo cidade pode ainda referir-se a duas realidades diferentes: a cidade de jure, ou seja a cidade administrativa, e a cidade de facto, ou seja a aglomeração socioeconómica mais alargada (UE, 2011:1). A cidade administrativa corresponde à cidade histórica com um centro de cidade bem definido. A cidade de facto, por sua vez, equivale às realidades físicas ou socioeconómicas aportadas pela definição morfológica ou funcional (UE, 2011). São evidentes as semelhanças entre urbano e cidade, embora tenhamos a perceção de que a natureza heterogénea, imaterial, complexa e viva da cidade é difícil de ser abarcada, na íntegra, por qualquer abordagem analítica (Henriques, 2003:33). Isto porque a cidade é uma realidade em mudança e qualquer representação que dela se faça tende a ser uma representação passageira, instantânea, provisória. o urbano é um fenómeno sócio-espacial complexo que, além das vertentes sócio-espacial e sócio-temporal, encerra ainda uma dupla dimensão: a cidade não se resume exclusivamente a uma única dimensão espacial, o intraurbano, constitui-se através das interações com espaços que lhe são exteriores, com o território envolvente, gera fluxos com outros centros urbanos que apontam para um quadro de relações interurbanas (Gama, 2012:83). O espaço urbano pode ser definido relativamente ao espaço rural pelas atividades que o caraterizam, em que se concentram atividades de produção industrial e serviços, 15

30 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades enquanto predominam no espaço rural as atividades agropecuárias e algumas outras funções. A ausência de uma definição harmonizada de cidade e da sua área funcional constitui um obstáculo à análise das cidades. Neste sentido, a Comissão Europeia e a OCDE desenvolveram conjuntamente uma definição de cidade relativamente simples e harmonizada, baseada numa densidade mínima e no número de habitantes: A cidade está constituída por um ou vários municípios; No mínimo metade dos residentes da cidade vive num centro urbano; Um centro urbano tem, pelo menos, habitantes, com uma densidade mínima de 150 habitantes por km 2. A Comissão Europeia, no Livro Verde do Ambiente Urbano (CE, 1990:5), salientava alguns problemas na definição da cidade e dos seus subúrbios, devido às múltiplas ambiguidades que envolve a sua natureza e considerava que se deve conceber cidade como: centro rico de história e tradições, de atividades e comércio, onde vive a maior parte da população ( ), uma aglomeração mais ou menos regular de edifícios e vias públicas, onde as pessoas podem viver e trabalhar, e também onde há muitas atividades sociais, culturais, e tem pelo menos 1000 residentes. Esta última definição tem subjacentes critérios associados ao número de habitantes, tipo de atividades desenvolvidas por esses mesmos habitantes, nível de concentração das suas habitações, entre outros. Esta noção deixa também implícitas várias dinâmicas no espaço, nomeadamente a económica, social, cultural e política. No que se refere à dinâmica das cidades, segundo Henriques (2003), não poderemos deixar de salientar que a dinâmica impulsiona para o desenvolvimento ou estagnação. A cidade não pode ser dissociada do número de fatores e atores intervenientes, quer se trate de influências invisíveis, físicas ou de fatores macroeconómicos, quer se trate de atores administrativos privados ou públicos. A cidade está para além de toda a perspetiva geográfica, económica, sociológica ou histórica porque ela nasce da interação entre os indivíduos, o que impede qualquer definição estática ou descritiva. Tratando-se de uma comunidade viva, ela é de grande mobilidade, uma vez que escapa a qualquer permanência (Lopes, 2012). Devido à inexistência de uma definição absoluta para definir cidade, é necessário recorrer a mais do que um ou dois critérios. Cabe, no entanto, ter em atenção critérios de 16

31 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades ordem demográfica, económica, social, política, geográfica (topográfica), mental ou religiosa, entre outros. Porém, o que representa uma cidade pode variar entre países com maior ou menor dimensão populacional, independentemente dos critérios avançados para definir cidade. Em muitos casos uma cidade pequena próxima de uma grande pode constituir-se como parte integrante de outra cidade, podendo assim variar de acordo com a área em que se insere. Os traços mais evidentes das cidades variam de acordo com a dimensão, a densidade e as diferenças funcionais das cidades, uma vez que algumas das caraterísticas das cidades, enquanto fatores determinantes da natureza da vida urbana, são mais significativas do que outras. Daí que os traços referidos sejam importantes permitindo assinalar não apenas as caraterísticas essenciais das cidades, mas também identificar aquilo em que se distinguem. A Association of Town Centre Management define as cidades e vilas como locais que combinam uma série de usos numa área delimitada, incluindo animação, educação, serviços públicos, saúde, lazer, emprego, habitação e comércio (2006). Não existe a nível internacional um consenso sobre os critérios que devem ser utilizados para definir um aglomerado como cidade. Em Portugal, a atribuição dessa categoria é da competência da Assembleia da República, mediante a aplicação da Lei nº 11/82, de 2 de junho. Os critérios mais utilizados para definir cidade são os critérios demográficos, que estabelecem o número mínimo de habitantes a partir do qual uma aglomeração é considerada cidade; funcionais, que têm a ver com as diferentes atividades de um aglomerado e mistos, que consistem na associação dos dois anteriores. Uma vila só pode ser elevada à categoria de cidade quando conte com um número de eleitores, em aglomerado populacional contínuo, superior a 8000 (Lei nº11/82, de 2 de junho). O Dicionário da Língua Portuguesa define cidade como meio geográfico e social caraterizado por uma forte concentração populacional que cria uma rede orgânica de troca de serviços (administrativos, comerciais, profissionais, educacionais e culturais). Embora a definição não seja precisa, o termo cidade ou urbe, derivado do latim civitate, consiste numa área urbanizada, caraterizada por critérios variados, os quais incluem população, densidade populacional ou estatuto legal. A cidade designa uma dada entidade político-administrativa urbanizada, uma formação urbana ou um aglomerado humano. Também pode ser entendida como o lugar que concentra oferta de serviços culturais, religiosos, de infraestruras ou consumo (Benévolo, 2006). 17

32 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades A cidade é toda a sede de município, aglomerado, que de acordo com a ONU possui pelo menos 10 mil habitantes, envolvendo caraterísticas sociais, económicas e culturais num mesmo ambiente. Uma Área Morfológica Urbana (AMU) representa a continuidade do espaço construído com um nível de densidade definido. Uma Área Funcional Urbana (AFU) pode ser descrita pela sua bacia de emprego e pelos seus padrões de mobilidade em matéria de deslocação pendular («casa-trabalho») e inclui o sistema urbano mais alargado de aglomerados populacionais vizinhos que são altamente dependentes em termos económicos e sociais de um grande centro urbano (UE, 2011:1) A ASCENSÃO Os agregados humanos evoluíram desde a ocupação das cavernas naturais até formar os sistemas altamente complexos e estruturados que são as cidades que hoje conhecemos (Craveiro, 2011:1). Durante séculos a cidade foi considerada uma referência primordial das distintas culturas e objeto de curiosidade de quantos a visitavam, quer por motivos de comércio, culturais ou simplesmente ócio. A história das cidades remete-nos a períodos longínquos da antiguidade, sendo que as primeiras cidades teriam surgido entre quinze a cinco mil anos atrás. O nascimento das cidades perde-se na história. Acreditamos que as primeiras tenham surgido à volta dos vales férteis da Mesopotânia, cujas populações terão começado a desenvolver atividades ligadas ao comércio. A grande maioria das cidades da antiguidade eram de pequenas dimensões, não contendo mais do que dez mil habitantes, sendo exceções Atenas, com 200 a 300 mil habitantes e Roma ou Alexandria, que superavam já um milhão de habitantes. Alguns elementos essenciais, que caraterizam hoje as cidades, já eram conhecidos nas cidades gregas e romanas, tais como a rua, lugar de circulação de pessoas e de comércio de bens e a praça, enquanto lugar de encontro, de acontecimentos, de manifestação da vida urbana e comunitária (Lamas, 1993:102, cit. Pereira, 2008). Mas, não é nossa intenção aprofundar aqui conhecimentos sobre a evolução histórica das cidades, mesmo em articulação com o respetivo modo de produção, a qual nos conduziria a um recuar no tempo até ao período das cidades míticas (como por exemplo Jerusalém). A nossa preocupação circunscreve-se à deteção de alguns elementos que estão na origem da ascensão e declínio da cidade industrial e dos elementos regeneradores conducentes à cidade metrópole e cidade global. 18

33 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades Da polis grega aos espaços metropolitanos atuais tem-se expressado de mil formas os modos de convivência humana, deixando nela impressa as distintas culturas e os ideais, trabalhos e misérias de povos e governantes. Em Portugal a história da cidade pode recuar até aos castros de origem celta nos topos das colinas, habitados por pastores e agricultores. Alguns destes locais, estrategicamente importantes, viriam a ser as bases para a fundação de cidades romanas, após o século II a. C. Essas marcas de planeamento urbano romano são ainda evidentes nalgumas cidades, como é o caso, entre outras, de Beja, Santarém ou Chaves. No entanto, segundo Freire Chico (2008:13), o período compreendido entre o fim do séc. XI e todo o séc. XII é o que podemos denominar de fase do nascimento da cidade europeia por excelência, aquele no qual se produz a maior proliferação de urbes ao longo da geografia europeia. As causas do florescimento das cidades são múltiplas, bem como variadas são as teorias que explicam este fenómeno. As primeiras cidades medievais passavam por antigas fundações romanas que se tinham convertido em lugar de residência de nobres, príncipes e hierarquias eclesiásticas. Em redor delas juntavam-se agricultores, artesãos e mercadores encarregados de abastecer de bens e serviços aquele novo espaço. Os senhores ofereciam a segurança e a proteção que era necessária para a transformação da matéria-prima e a elaboração dos bens de consumo ao auto-abastecimento. Digamos pois que estes primeiros exemplos de cidades eram pequenas praças-fortes, destinadas a satisfazer as necessidades e procuras de uma economia doméstica fechada e restrita (Chico, 2008:13). As cidades convertem-se em pontos de atração e investimento, o que se traduz num exponencial crescimento simultaneamente territorial e demográfico. Este desenvolvimento fica a dever-se ao ressurgimento do comércio e ao aparecimento de uma sociedade burguesa, empenhada em lutar contra os senhores feudais, reivindicando o direito da administração, criando condições para uma maior independência das cidades (Goitia, 2003, cit. Batista, 2008). Surge um novo conceito de cidade, delineando-se um novo desenho, feito de diferenças, de contrastes, de imperfeições, que pela importância que teve na constituição do espaço urbano ainda hoje é observável nas cidades europeias. As muralhas faziam parte do espaço medieval e delimitavam o traçado das cidades, caraterizando a sua forma e imagem. Quando a população cresceu, a alta densidade populacional tornou-se um grave problema; aparecem os subúrbios, havendo lugar à expansão da muralha para um perímetro mais alargado. 19

34 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades A rua e a praça eram elementos fundamentais do espaço urbano medieval, onde se concentravam os edifícios mais relevantes da organização da cidade, constituindo os locais privilegiados onde a comunidade se reunia, onde ocorriam cerimónias, mercados e onde peões e tráfego se deslocavam. Eram espaços de encontro, onde ocorriam assembleias populares, festas, representações ou touradas. Na rua Direita localizavam-se muitas vezes os estabelecimentos comerciais mais importantes (Sebastião, 2010). Com o Renascimento as cidades europeias não sofrem alterações profundas, continuando a ser o espaço privilegiado onde a opinião pública se manifestava. A praça continua a ser um espaço público relevante e a concentrar os principais edifícios da cidade, adquirindo, no entanto um valor funcional, político-social e também o máximo valor simbólico e artístico (Lamas, 1993:176, cit. Batista, 2008:21). A partir do séc. XVI o urbanismo prospera e surgem as grandes cidades. A estrutura urbana é alterada, dando lugar à cidade barroca, espaço de movimento e dinamismo, com passeios públicos, alamedas, avenidas, parques e jardins. Mas é no século XIX, com a Revolução Industrial, que as cidades crescem de forma exponencial, tornando-se grandes centros industriais mudando drasticamente a paisagem urbana. A cidade deixa de ser um espaço delimitado e fortificado, alastra-se para fora dos perímetros urbanos, invadindo o campo. As profundas mudanças económicas derivadas do processo de industrialização implicaram a transformação vertiginosa da trama urbana. Dá-se um crescimento acelerado e desmedido da população, aliado à descida da taxa de mortalidade e a elevados índices de natalidade, fenómenos esses que tiveram origem numa alimentação mais abundante e variada e na melhoria das condições higiénico sanitárias da população (Chico, 2008:16). No século XIX ocorre um crescimento exponencial da população europeia, que passa a registar 400 milhões de habitantes. Este fenómeno teve origem na descida da taxa de mortalidade, especialmente a infantil, depois de se erradicarem as principais epidemias que tinham assolado os países europeus, em combinação com elevados índices de natalidade. Em paralelo a estes acontecimentos, os avanços tecnológicos dos transportes (com a máquina a vapor, locomotiva e caminho de ferro) e a mecanização introduzida na indústria (têxtil, siderúrgica e metalúrgica) conduzem à necessidade de incorporação de grandes quantidades de mão-de-obra. Esta crescente necessidade de força de trabalho na incipiente indústria urbana e a introdução de novas técnicas de produção agrícola marcaram a chamada revolução 20

35 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades agrícola, conduzindo a uma menor dependência da mão-de-obra nas zonas rurais. Todo este panorama desencadeou um abrupto processo de êxodo rural, caraterizado pela migração do campo para a cidade. Até à Revolução Industrial, as funções das cidades eram basicamente comerciais, religiosas e administrativas e sempre estiveram subordinadas à economia rural devido ao predomínio das atividades primárias na economia. Com a industrialização as cidades passam a concentrar as atividades industriais, comerciais e financeiras, passando a comandar o meio rural e atrair populações rurais, com reflexos no espaço geográfico das cidades. Foi o crescimento das indústrias, no século XIX e na primeira metade do século XX, que constituiu a causa de crescimento de grande parte das cidades e da difusão do termo de cidade industrial e de idade industrial. Podemos mesmo afirmar que o século XX é o século da urbanização, caraterizado pelo predomínio da cidade sobre o campo. A Revolução Industrial teve como palco a área urbana, sendo que a fábrica foi sempre considerada um fenómeno necessariamente urbano: Ela exige, em sua proximidade, a presença de um grande número de trabalhadores. O seu grande volume de produção requer serviços de infra estrutura (transportes, armazenamento, energia, etc.), que constituem o cerne da moderna economia urbana. Quando a fábrica não surge já na cidade, é a cidade que se forma em volta dela (Singer, 1977:24-25, cit. Bordo, 2005). As sociedades foram assim urbanizando à medida que crescia a industrialização. Acreditava-se que o verdadeiro motor do sistema económico deveria basear-se no crescimento industrial. As primeiras máquinas exigiam grande quantidade de trabalhadores vivendo próximos das fábricas e, para a comercialização dos produtos industrializados, eram necessários os estabelecimentos comerciais, que são típicos do meio urbano. Também a infra-estrutura criada para atender aos interesses de algumas fábricas, como abertura de estradas, ruas, fornecimento de energia, água encanada, meios de comunicação, atraiu novas indústrias para as cidades, aumentando a concentração de pessoas no espaço urbano (Bordo, 2005:2-3). Até meados do século XX o fenómeno da urbanização processou-se lentamente e circunscrevia-se apenas aos chamados países desenvolvidos, para depois se generalizar, espalhando-se por toda a superfície da terra. Mas é sobretudo a partir de 1950 que a urbanização se intensifica, graças ao crescimento da industrialização. Em Portugal o surto industrial divide-se em três fases: a primeira de 1950 até 1965; a segunda, a partir de 1965 e a terceira, desde 1968 até Este incremento industrial 21

36 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades traduziu-se, inevitavelmente, em modificações sociais, registando-se um crescimento do setor terciário e uma urbanização progressiva. Em 1970, mais de três quartos da população portuguesa vivia nas cidades. Aproximadamente metade dessa população vivia em cidades com mais de habitantes. No terceiro quartel do século passado, viveu-se, em Portugal, o fenómeno que caraterizara a generalidade da Europa no séc. XIX. As cidades entre Braga e Setúbal, onde se concentravam as maiores indústrias e serviços, crescem, considerando que aumentaram os seus efetivos populacionais, particularmente nas periferias (Oliveira, 2010:2). Da cidade industrial à cidade metrópole, assiste-se a uma especialização funcional e social dos espaços. As cidades passam a exercer um grande protagonismo no cenário mundial, a estarem conetadas entre si e a absorver o espaço envolvente. Surgem extensas áreas urbanizadas constituídas por uma grande cidade e pelas áreas urbanas envolventes (os subúrbios), onde são desenvolvidas relações de interdependência e complementaridade, o que aumenta o dinamismo, competitividade, e influência dessas áreas à escala regional, nacional e internacional a nível económico, político e cultural, entre outros. Mas é a partir da segunda metade do século XX que as cidades expandem os seus limites físicos sobre a área rural, atingindo níveis não previstos e absorvem completamente o espaço rural, através do crescimento urbano. Como consequência, dissemina-se um novo modelo de cidade dispersa, havendo cada vez mais dificuldade em delimitar o urbano do rural, a identidade da cidade altera-se, bem como o modo de vida e a sua organização social e económica, levando consequentemente a uma invasão e/ou integração do espaço rural pelo urbano. O planeta passa a ser cada vez mais urbano, surgem grandes pólos formando uma rede de regiões mais dinâmicas, as chamadas cidades globais, que exercem um grande protagonismo no cenário mundial, conetadas entre si, funcionando como uma espécie de absorventes do espaço envolvente. É neste contexto que assumem importância os conceitos de peri urbano ou áreas periurbanas 1. Estamos perante um mundo de cidades num enorme arquipélago megapolitano mundial, tendo a mundialização dado um grande impulso à urbanização, porque a cidade é a concentração de sinergias, a acumulação de fatores num mesmo local (Dollfus, 1998: 28-29, cit. Jacinto, 2012:13). As cidades adquirem maior importância em termos europeus e nacionais na segunda 1 Áreas periurbanas são aquelas que se localizam para além dos subúrbios de uma cidade. Correspondem a um espaço onde as atividades rurais e urbanas se misturam, dificultando a determinação dos limites físicos e sociais do espaço urbano e do rural, resultando da implantação dispersa do povoamento urbano em meio rural. Aqui o tecido urbano surge de forma descontínua, a atividade agrícola é instável e assiste-se à implantação de indústrias e de alguns serviços. (In Infopédia. Porto Editora. Porto Disponível em Consultado em ). 22

37 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades metade dos anos 90, testemunhada pelas inúmeras iniciativas, programas e recursos financeiros que têm vindo a proliferar. Atualmente as cidades deparam-se com um duplo desafio: aumentar a competitividade satisfazendo simultaneamente determinados requisitos de ordem social e ambiental (Jacinto, 2012:13). Consideradas, os novos motores da economia global, as cidades beneficiaram do decréscimo das barreiras comerciais entre países, da criação de acordos, da formação de alianças e da desregulamentação dos mercados (Brotchie et al., 1995:1, cit. Batista, 2008). A vantagem competitiva das cidades, reside hoje a nível local; sendo certo que para serem bem-sucedidas é necessário que desenvolvam os chamados três C s, que consistem em três aspetos essenciais, ou seja, Competências, Conetividade e Conceitos, aspetos estes que deverão ser desenvolvidos na Comunidade e assim surge um quarto C (Sherman, 1997:111, cit. Batista, 2008). As cidades revelam-se hoje como centros de inovação, geradoras de criatividade e talento, sendo consideradas a base para a nova economia do conhecimento O DECLÍNIO A mudança estrutural do espaço urbano trouxe à tona a problemática das áreas degradadas e da necessidade de intervir nas áreas centrais dos centros urbanos tradicionais. Segundo Vargas e Castilho (2006:2), a preocupação com a deterioração e degradação dos centros urbanos faz parte do pensamento na América do Norte e na Europa desde a década de Mas, falar de intervenções em áreas deterioradas implica, por um lado, refletir sobre o conceito de deterioração urbana ou declínio urbano e, por outro, abordar o tema da intervenção. Deterioração e degradação urbana são dois conceitos frequentemente associados à perda da função de centro, dano ou ruína das estruturas físicas, bem como à desvalorização das atividades económicas. Deteriorar equivale a estragar, piorar, enquanto que degradação é sinónimo de desvalorização, abatimento, desmoronamento. A deterioração/degradação intensificou-se após 1950 devido ao crescimento do espaço urbano. Amplia-se a concorrência de novos locais mais interessantes para viver, enquanto que os tradicionais centros ficam congestionados pela intensidade das suas atividades. Assiste-se simultaneamente à saída de instituições públicas geradoras de fluxos, substituída por atividades de menor rentabilidade e à redução dos serviços de limpeza e segurança públicas (Balsas, 2000; Vargas, 2000). 23

38 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades Ora, o declínio das cidades, quer da Europa quer da América, coincidiu com um período de instabilidade económico-social que apelava a um debate sobre o futuro das cidades: a questão era se elas deveriam e poderiam ser salvas (Judd e Parkinson, 1990, cit. Henriques, 2003:35). Na segunda metade do século XX, assistimos ao desenvolvimento de forças de descentralização dos centros históricos, que alteram profundamente a composição e as funções dessas áreas das cidades, começando a emergir preocupações relacionadas com o destino e com a sua eventual morte anunciada. De um lado da polémica estavam os que defendiam que determinadas cidades seriam conduzidas para o declínio devido à impossibilidade de contrariar a lógica das forças de mercado coincidente com situações de degradação. Do outro lado, estavam aqueles que consideravam inaceitável o abandono de uma política que conduzisse à reconversão e reabilitação/dinamização dos centros urbanos (Henriques, 2003). A evolução das cidades configurou-se desde a segunda guerra mundial num movimento composto por quatro grandes fases: 1) urbanização (crescimento das grandes cidades de localização central); 2) extensão suburbana/suburbanização (continuação do crescimento das grandes cidades mas concentrado em áreas periurbanas); 3) desurbanização (com a perda de população em toda a zona urbana alargada); 4) reurbanização/revitalização (retoma do crescimento demográfico das cidades) (Borg, 1991, cit. Henriques, 2003). É de referir, no entanto, que o crescimento das cidades não é feito sem crises nem períodos de necessário reajustamento, sob pena do próprio processo de expansão da cidade ficar em causa. Por exemplo, durante a década de 70 vigorou um período de crise e rutura nas sociedades ocidentais que correspondeu a uma crise estrutural do capitalismo fordista, acelerada por perturbações no domínio energético, e a uma mudança no modo de regulação. Esta crise conduziu à designada crise urbana ou ao declínio urbano, havendo a necessidade de intervenções. Nos últimos decénios, os processos de urbanização sofrem grandes alterações, deixando os limites das cidades de ser definidos e visíveis. A cidade alarga-se e difunde-se no território envolvente. O campo circundante perde as suas caraterísticas específicas e a continuidade dos espaços naturais ou agrícolas é interrompida pelas urbanizações. Coincidindo com os intensos processos de suburbanização, ocorre, em simultâneo, o desenvolvimento dos transportes, fomentando a separação entre o local de trabalho e o de residência. Este modelo acabou por acarretar graves problemas às áreas urbanas, pela 24

39 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades insustentabilidade de um maior consumo do solo e pelo abandono dos centros históricos das cidades, deixando-os degradados e envelhecidos (Cavém, 2007:16, cit. Sebastião, 2010). A partir dos anos 50, as cidades são confrontadas com a explosão do fenómeno de suburbanização, que desfaz o anterior modelo de cidade. As metrópoles e as cidades alongaram-se, novas morfologias urbanas surgiram, novas centralidades periféricas apareceram. A cidade perdeu a sua centralidade radial e o urbano espairou-se (Marques, 2005: 41, cit. Sebastião, 2010). Apesar de todas estas mudanças, o declínio das zonas históricas das cidades só se faz sentir com maior intensidade a partir dos anos 70, quando o progresso da tecnologia, dos transportes e comunicações acarreta importantes alterações na organização económica e social e, portanto, também nos modos de produção e de apropriação do território, na estrutura das cidades (Salgueiro, 1999:226). Estas transformações caraterísticas da cidade pós-industrial levaram ao declínio do centro histórico tradicional das cidades e à emergência de novas centralidades nas periferias das cidades. Surgem novos padrões de urbanização, mais variados e territorialmente mais extensos, favorecendo novas formas de dispersão, que vêm retirar a hegemonia dos tradicionais centros históricos das cidades, que se encontram congestionados e com um parque edificado envelhecido. Sucede a degradação da qualidade urbanística dos centros históricos, dos espaços mais nobres das cidades, com especial enfoque na atividade comercial, em virtude de esta se desenrolar na rua, como explicamos a seguir, alastrandose depois a outros setores. O uso excessivo do automóvel acarretou um efeito duplamente negativo para estes núcleos históricos, por um lado, facilitou o acesso à habitação nas periferias das cidades na medida em que aproximou distâncias, por outro, invadiu uma zona que não estava pronta nem desenhada para assumir de forma maciça este novo elemento (Chico, 2008:35). Toda esta saturação retirou espaço para o convívio, para o uso pedonal e, consequentemente, por muito que se queira pensar o contrário, para a atividade comercial (Chico, 2008:35). Estas condições foram aproveitadas pelos grandes formatos comerciais que são agora as mecas do ócio e do lazer, os lugares de encontro, divertimento e, é claro, de abastecimento e consumo (Chico, 2008:35). As ruas dos centros históricos, outrora quase exclusivamente pedonais, passam a ser tomadas por veículos, expulsando os habitantes das mesmas. O contraste resultante da emergência da periferia urbana, desenhada para responder às novas necessidades, põe em causa a malha urbana dos núcleos históricos, na 25

40 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades medida em que a esvazia de conteúdo, principalmente quando num primeiro momento os novos espaços se dotam de todas as vantagens da modernidade e do progresso tecnológico, em detrimento do antigo recanto histórico que passa a ser residual (Sebastião, 2010). Assistimos a mudanças sociodemográficas nas décadas recentes, que levaram a um movimento da população para fora das áreas urbanas velhas, existindo razões várias e muito complexas para esses movimentos, mas que em resumo incluem a disponibilidade de habitação barata e mais atrativa nas periferias. Aliado às condições precárias do arrendamento nos centros históricos, estão intimamente relacionadas as rendas baixas e o fraco poder de compra dos inquilinos, o que contribui para a degradação do edificado, que chega muitas vezes ao estado de ruína (Cavém, 2007, cit. Sebastião, 2010). A par das novas centralidades que emergem para além do perímetro urbano, começam a manifestar-se outros problemas nos centros históricos, que se prendem com a fuga da população para a periferia, o abandono e a consequente deterioração do parque habitacional, perda de competitividade das áreas centrais das aglomerações urbanas, preteridas pelas novas atividades de serviços e de comércio qualificado, em favor de localizações periféricas e semiperiféricas beneficiadas pelas modernas acessibilidades. Ao invés, em muitas antigas periferias encontra-se a pequena indústria, por vezes desenvolvese também o pequeno comércio, e onde existam áreas centrais qualificáveis, com alguma respiração em termos de espaço e de acessos e um bom sistema de mobilidade, podemos assistir à criação de um novo centro urbano (Balsas, 2002). Todos estes problemas levam a que a vida nos centros históricos seja dificultada pela inexistência de comércio, serviços de proximidade, jardins, estacionamento. O próprio despovoamento progressivo, o baixo poder de compra dos residentes e a concorrência com as grandes superfícies, levaram ao desaparecimento do comércio dito tradicional, que com frequência foi substituído por estabelecimentos de diversão noturna, desencadeando por vezes processos que afetam a tranquilidade das áreas afetadas (Salgueiro, 2005:269). Sintetizando, a maioria dos problemas com que se debatem os centros históricos estão relacionados com o desenvolvimento da cidade e com distintos fatores (sociais, políticos, económicos, tecnológicos e culturais). A perda de população é, sem dúvida, um dos piores problemas com que se debate a maioria dos centros históricos. Este esvaziar demográfico tem sido acompanhado pelo envelhecimento da população residente no centro histórico. Segundo Martínez (2001) a população residente é, na maioria dos casos, composta por pensionistas, reformados, viúvos, e portanto, de rendimentos baixos. O mau estado de conservação dos edifícios, é sem dúvida um dos problemas mais graves dos 26

41 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades centros históricos, o velho não é apreciado enquanto que o novo está muitas vezes associado ao progresso. Segundo o mesmo autor e resumindo o que explicámos em parágrafos anteriores, os principais problemas com que se debatem os centros históricos são os que apresentamos no quadro que se segue: Quadro 1 Principais problemas dos centros históricos: População e estrutura social Perda de efetivos Esvaziar demográfico Envelhecimento da população residente Saída de instituições públicas Usos do solo Edifícios e habitação Tráfico Escassez de zonas verdes Envelhecimento e degradação dos Crescimento do setor imóveis terciário Aumento de casas Transformação vazias e em ruínas qualitativa e quantitativa Substituição dos do comércio edifícios Desaparecimento do uso residenciais por residencial escritórios Suburbanização Novas centralidades nas periferias Fonte: Adaptado de Martínez, Problemas de estacionamento Congestão Poluição Contaminação acústica Desequilíbrio entre trânsito pedonal e motorizado Vargas afirma que algumas das causas e efeitos do declínio dos centros históricos têm origens internas e outras externas (Villaça, s.d; Vargas, 1992, cit. Vargas, 2006). Como causas de origem interna estariam o congestionamento de atividades, que por sua vez conduz ao congestionamento de trânsito, poluição do ar, poluição visual, escassez de áreas, falta de estacionamentos, intervenções inadequadas. Como causas de origem externa deveria ser destacada a concorrência de outras áreas da cidade derivada essencialmente da expansão urbana. Como efeitos da deterioração estariam o abandono/desocupação das edificações, pelo uso residencial, pelas instituições públicas, pelo comércio e serviços mais qualificados e apropriação indevida dos espaços públicos. Não obstante a sua riqueza patrimonial, os centros históricos passaram a converterse em áreas onde se localizava o maior número de edifícios em ruína e uma população com profundos problemas sociais. Fernando Manuel Rocha Pinto (1984:18) descreve o centro histórico de noite como uma enorme carcaça vazia, onde quase metia medo entrar, um deserto de lojas fechadas que lentamente vai diminuindo de intensidade luminosa até à quase escuridão e morte. Tal como o museu na hora de fecho. A terciarização descontrolada tinha expulso a habitação para zonas periféricas, para fora do coração da cidade, o que levou a um esvaziamento desta zona da cidade de habitantes permanentes. 27

42 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades Segundo Margarida Pereira (1999) aquilo que caraterizava os centros da cidade era fundamentalmente: [Uma] oferta comercial pouco diversificada e desajustada à procura atual; a estética antiquada e pouco cuidada dos estabelecimentos por desleixo dos seus proprietários; sujidade das ruas; falta de segurança em especial à noite e fim-desemana; horários desadaptados às necessidades do consumidor e falta de estacionamento (Pereira, 1999:105). As zonas centrais das cidades tinham perdido parte do fascínio que outrora exerciam sobre os residentes, consumidores e turistas e, pelos efeitos daí advindos, uma boa parte do seu atrativo. Era necessário recuperar a imagem através da promoção. Existiam naturalmente outras causas internas, tais como a formação profissional insuficiente dos profissionais do comércio, a ameaça das UCDR s (Unidades Comerciais de Dimensões Relevantes), horários de funcionamento dos estabelecimentos comerciais. Barreta (1999) refere que hoje os centros urbanos continuam a debater-se com problemas de envelhecimento da população, incremento da mobilidade, movimento da população urbana em direção à periferia, novas centralidades, fenómenos de desertificação, insegurança, espaços públicos pouco convidativos (degradação do edificado, preservação deficiente do património histórico-cultural, iluminação, mobiliário urbano desadequado, etc.). Muitas são as cidades históricas e os centros históricos que continuam a estar associadas a sintomas de degradação e decadência, agravados ao longo de décadas pelo esquecimento e fuga da população. De ano para ano, a degradação, o envelhecimento e o abandono das habitações classificadas como pertencentes aos centros históricos são mais notórios. O centro histórico continua transformado, em termos funcionais, naquilo que era para nós, ainda há alguns anos, a periferia caraterística. O conceito de centro e periferia tem hoje de se adaptar à realidade, que nos mostra que, os centros urbanos atuais tendem a estabelecer-se nas áreas bem fornecidas de transportes e de empregos nos serviços ou em indústrias modernas, quando complementados com comércio atrativo e condições de segurança medianas. Os centros tornados periferias estão cada vez mais onde os transportes não vão, onde o comércio se deixa ultrapassar e não consegue atrair as quantidades mínimas de clientes que justificam a manutenção das melhores lojas, onde as pessoas deixam de habitar por ausência de serviços, de segurança, de condições de habitabilidade e ambiente urbano. Já no decorrer da década de 80, com o início do processo de reestruturação da economia, verifica-se uma paragem do declínio económico num número significativo de 28

43 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades cidades da Europa e da América e estabelece-se, em paralelo, o início do processo de reconstrução de inúmeras cidades. De facto, ao contrário do que sucedeu durante o período de crise dos anos 70, as tendências centrífugas originadas em particular a partir das grandes metrópoles com a desurbanização (saída de atividades e residentes para cidades de média dimensão e mesmo espaços rurais), ocupam agora um peso relativamente menor face às tendências de sentido oposto: a (grande) cidade torna-se de novo atrativa, inicia-se em muitos casos uma fase de re-urbanização, re-metropolização, em suma, a cidade está de regresso. A partir dos anos 90, as grandes cidades passaram a buscar o renascimento dos seus centros urbanos, a partir da revitalização das suas áreas centrais através da reutilização dos patrimónios (físico, social e económico), à procura de um renascer económico, social e cultural das áreas centrais decadentes e subutilizadas. Assim, nas cidades da Europa ocidental e da América do Norte, a década de 90 ficou marcada pelo retorno às intervenções de requalificação dos centros das cidades. Depois de 70 e 80 terem sido marcados pelo crescimento das periferias e pelos movimentos centrífugos de suburbanização, nos últimos 25 anos observou-se o interesse generalizado da população, dos agentes económicos e das autoridades públicas pelos centros das cidades, enquanto locais aprazíveis para viver, trabalhar e comprar. Este interesse crescente pelo centro das cidades resulta de uma consciencialização cada vez mais forte do papel crucial que os centros das cidades têm enquanto locais privilegiados no panorama económico, social, cultural, histórico e de organização política e territorial (Balsas, 2002). Urge a necessidade de encontrar soluções que resolvam os problemas destes núcleos, de revitalizar o centro histórico da cidades, promovendo-se a retenção dos habitantes e a atração de novos residentes, tentando conter a fuga de população, diversificar a base económica, captar e incentivar o estabelecimento de novas atividades, valorizar e qualificar o espaço público, tornando-o mais atrativo e reforçar a preservação do património histórico e arquitetónico existente. Delgado (2003:357) refere que as intervenções urbanísticas passam a trabalhar diferentes modalidades de re : requalificação, reutilização, revalorização, refuncionalização, recuperação. Apesar da expansão da cidade ser frequentemente considerada um fenómeno natural e indispensável ao seu desenvolvimento, passa a sentir-se necessidade de pôr um fim ao crescimento incontrolável das periferias urbanas e ao ciclo económico que o fomenta, reconhecendo-se simultaneamente que as intervenções nos centros históricos 29

44 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades podem ser a solução para uma forma alternativa de desenvolvimento urbano (Cavem, 2007:17, cit. Sebastião, 2010). Este processo de reconstrução económica conduziu a que na atualidade o campo de discussão se centre menos em questionar se determinadas cidades antigas vão ou não sobreviver e mais em refletir sobre as circunstâncias que possibilitarão às ditas cidades a adaptação às mudanças da economia mundial A PROBLEMÁTICA DA REGENERAÇÃO/ REVITALIZAÇÃO A regeneração e a revitalização são políticas urbanas relativamente recentes relacionadas com a recuperação e/ou transformação positiva das áreas centrais das cidades, nas suas dimensões físicas, sociais, económicas, funcionais, ambientais, culturais e políticas (Balsas, 2002). O prefixo re indica para trás, algo que repete o já existente com uma nova forma, isto é, um movimento de volta. Esse prefixo foi aplicado na nomenclatura de projetos de intervenções urbanas, voltadas para a preservação do ambiente construído ao longo de várias décadas. Começamos por fazer uma resenha histórica da problemática do fenómeno da revitalização do centro urbano. Trata-se de uma proposta de clarificação conceitual em torno do conceito regeneração/revitalização urbana. No pós-guerra uma das reações ante a destruição massiva das cidades foi, segundo Martínez (2001), a cultura da recuperação urbana, levantada em algumas conferências internacionais por algumas vozes a favor da defesa do património histórico-arquitetónico e social dos centros históricos. Trata-se de uma nova sensibilização que, segundo o autor, impulsa uma série de experiências de revitalização. O pós-guerra desenvolveu-se como o período que antecedeu a conceção da revitalização urbana, tal como hoje a conhecemos (Moura, Guerra, Seixas e Freitas, 2006:15). Uma das primeiras referências à salvaguarda dos núcleos históricos das cidades foi a implementação de uma política de salvaguarda do centro histórico na cidade de Assiz, na Itália, em 1957 (Henriques, 2003:227), com vista à preservação das suas caraterísticas histórico-arquitetónicas. Em França, em 1962 surgem medidas de proteção dos núcleos antigos com a promulgação da célebre lei dos setores salvaguardados, a qual veio a instituir a criação de perímetros nas áreas históricas das cidades sujeitos a restrições no 30

45 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades licenciamento de obras com o intuito de evitar intervenções que pudessem ser descaraterizantes para esses núcleos (Henriques, 2003:227). No entanto, o conceito de revitalização urbana, propriamente dito, surgiu pela primeira vez no final da década de 60 do século XX em Inglaterra, com a necessidade de renovar e revitalizar as zonas de construção massiva do pós-guerra e as zonas de declínio industrial e portuário. Após a segunda grande guerra existiu um crescente número de construções e operações urbanísticas, era necessário retomar a vida nas grandes capitais europeias com a intenção de restabelecer a economia numa sociedade marcada pelo fascismo recente (Januzzi, 2007:147, cit. Pereira & Serdoura, 2010). De facto, foi nos anos 60 que se marcou o impulso inicial das políticas de salvaguarda dos centros históricos, tendo como origem a necessidade de conter a renovação que alastrava rápida e indiferentemente pelas cidades europeias (Cavém, 2007:21, cit. Sebastião, 2010). A partir desta altura há um reconhecimento do valor histórico e cultural, postura essa, que indica uma atitude crítica das anteriores práticas de demolição de extensas áreas da cidade para fins de substituição de usos e edificações. As denominações dos planos urbanísticos passam a estar sempre acompanhados do prefixo re reabilitação, revitalização, entre outros. É assim variada a terminologia aplicada às práticas urbanas, pelo que importa analisar a alteração do seu significado e conceitos. Para tal, torna-se necessário recuar no tempo e estudar algumas cartas patrimoniais que foram introduzindo os vários termos relativos às práticas urbanísticas. Apesar de cada país utilizar uma terminologia própria, observa-se uma tentativa de universalização da nomenclatura e dos próprios projetos que as acompanham. O primeiro conceito a surgir foi o da renovação, própria dos ideais modernistas, implícitos na Carta de Atenas (Congrès International d Architecture Moderne CIAM, 1933, cit. IPHAN et al., 1995), a qual influenciou várias gerações de urbanistas. Este conceito, de renovação urbana, está marcado pela ideia da demolição e substituição por uma nova construção do edificado, com caraterísticas diferentes ao nível da morfologia e tipologia, em resultado das novas atividades económicas (Moura et al., 2006; Tavares, 2008). A cidade evolui e é marcada por mudanças urbanas a vários níveis, conduzindo a novos usos adaptados às necessidades dos seus vários interlocutores. As zonas centrais são recuperadas por atividades económicas terciárias de ponta (escritórios de grandes 31

46 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades multinacionais e setor financeiro), o que levou à expulsão da função residencial e a uma progressiva periferização. A renovação urbana atua ao nível da substituição dos tecidos antigos do edificado e dos espaços públicos para dar lugar a um conjunto de novos edifícios e avenidas. Apenas se posicionam no centro das cidades os principais edifícios de instituições de âmbito nacional e são preservados os monumentos e pontos de interesse que reforçam a imagem dos valores e poder do Estado. Essas mudanças abrangiam 3 dimensões básicas: desde logo, a dimensão morfológica que condicionou decisivamente a forma da cidade e o seu aspeto físico, dos seus edifícios e redes viárias. Depois, a dimensão funcional, com a substituição das atividades económicas por outras de maior dimensão e capacidade financeira, fazendo desaparecer o pequeno comércio tradicional. Por último, a dimensão social com as implicações sociológicas decorrentes da substituição de residentes ou visitantes por outros com níveis de rendimento ou instrução social diferentes e que escolhem viver no centro (Tavares,2008:16). A renovação urbana foi, durante muito tempo, o mecanismo de intervenção proposto para adaptar o tecido histórico às necessidades económicas, sociais ou políticas do momento. Rotterdam e Stuttgart são exemplos de uma renovação total do centro urbano e histórico. O pressuposto era, de que a renovação destas áreas, uma vez que canalizava investimentos para o tecido físico, poderia contribuir para quebrar o ciclo vicioso em que se inscreviam. Estas ações no tecido físico, entre as quais se salientam as de conservação, pretendiam atrair, indiretamente, investimento que pudesse suportar os negócios e as condições de vida dos residentes. No entanto, o que se verificou foi que as operações de renovação urbana não foram capazes de atuar positivamente sobre muitos dos problemas dos centros históricos e urbanos (Henriques, 2003). Nos anos que se seguiram à década de 1930, várias organizações internacionais elaboram cartas na tentativa de construir critérios para solucionar problemas relacionados com a preservação e conservação. Mas é sobretudo no período pós-guerra, com a reconstrução das cidades europeias, que são revistos os paradigmas consagrados até então nos princípios ditados pelo urbanismo modernista (Vasconcelho & Mello, 2009). É com a Carta de Veneza (1964) que a era das demolições começa a chegar ao fim e o tecido urbano passa a ser valorizado. Este documento ampliou o conceito de monumento histórico, que se estende a todo o conjunto representativo, mesmo modesto, testemunho do passado, de evoluções, civilizações ou acontecimentos históricos. Sucedemse ações integradas que visam recuperar a atividade económica, a regeneração física dos 32

47 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades imóveis e fixação da população. Surgem vários termos com significados semelhantes: reabilitação, revitalização, valorização. Não são só os edifícios monumentais, os elementos arquitetónicos (religiosos e civis), que merecem ser preservados, mas os edifícios de todas as classes sociais. A definição de centro implica a presença de uma cidade de diversidade étnica, portadora de processos históricos conflituosos, com milhares de anos de existência em permanente contradição (Marcuse, 1998, cit. Vargas & Castilho, 2009:2). Todas as edificações de todas as classes sociais fazem parte da história e merecem ser preservadas, não apenas os edifícios monumentais (Marcuse, 1998, cit. Vargas & Castilho, 2009). O termo reabilitação é um dos aspetos fundamentais da conservação, substituindo, no texto da Convenção da Unesco, de 1972, o termo restauração, aplicado em arquitetura e no urbanismo. Enquanto a renovação fazia uso de modelos de substituição do tecido edificado e do tecido social e económico a reabilitação utilizava uma nova metodologia, a da habilitação, isto é, a readaptação do tecido urbano degradado. A reabilitação não representa a destruição do tecido, mas a sua habilitação, a readaptação a novas situações em termos de funcionalidade urbana. Trata-se de readequar o tecido urbano degradado, dando ênfase ao seu carácter residencial, no qual geralmente se fazem duas intervenções complementares: no edificado (habitabilidade, qualidade da habitação, serviços e instalações, e isolamento térmico e acústico), implicando não somente a reabilitação dos edifícios habitacionais, como a dos outros edifícios, incluindo mesmo a construção de equipamentos. Além disso, a reabilitação urbana não implica uma intervenção igual em todos os edifícios, podendo implicar a demolição de alguns, o restauro estrito de outros, a construção de novos, etc., do mesmo modo que reabilitar um edifício pode implicar a demolição de alguns elementos e a construção de novos; na paisagem urbana (elementos de visibilidade, fachadas, espaços de transição como o espaço público contíguo ao residencial), na medida em que as intervenções de reabilitação surgem muitas vezes associadas a atuações de melhoramento do espaço público ou revitalização do mesmo (Moura et al., 2006:18-19). A Carta Italiana do Restauro (1972) definiu como uma das principais ações a levar a cabo nos centros históricos a reestruturação urbanística. É abordada a relação entre o território, a cidade e o centro histórico, do ponto de vista funcional, tecnológico e de uso. Começou-se a empregar o termo da regeneração, em que se compara o tecido urbano ao da pele, sem rompê-lo. Era a ideologia da recuperação, associada ao modelo neoliberal, em que se procurou dar uma nova vida e saúde ao tecido urbano, pautado na privatização de áreas públicas e na gestão através de parcerias público-privadas. Pela primeira vez surgem projetos dirigidos pelo setor público, cujo principal objetivo consistia em solucionar os problemas urbanos existentes através de operações de 33

48 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades revitalização urbana. O setor público criava as condições necessárias para que o privado interviesse, resultando assim numa parceria entre as duas partes. Numa segunda fase, o setor público passa a assumir uma postura mais intervencionista, tendo como principal objetivo as medidas de resolução dos problemas físicos do aglomerado urbano, sem ter, no entanto, em consideração os aspetos sociais e culturais da população. Com a evolução dos tempos evolui também o conceito de revitalização urbana, em resposta às novas necessidades, sendo necessárias novas estratégias de intervenção (Pereira e Serdoura, 2010). Os anos 70 marcam o começo de uma nova era, pois constituem um marco importante no sentido de uma melhoria qualitativa das intervenções na malha urbana dos núcleos históricos. A ideia de valorização dos centros históricos e da sua integração na cidade contemporânea é introduzida pelo Plano de Bolonha 2, que perspetivava o centro histórico como uma componente integrante do todo urbano (Henriques, 2003:228) e tinha como objetivo conservar a integridade física deste núcleo, mas também valorizar as condições de vida das populações locais, tendo sido uma política do património que pela primeira vez reveste objetivos sociais, garantido uma integração mais plena da cidade histórica na cidade contemporânea, da qual aquela deveria continuar a ser uma parte válida (Henriques, 2003:229). Esta estratégia juntava ao restauro dos monumentos e ao arranjo dos espaços públicos outras medidas como a melhoria das condições de habitabilidade e a dinamização do comércio e serviços, no sentido de se combater a tendência de abandono do centro histórico, agravada no decurso dos anos 60 com o acentuar da suburbanização e deslocalização do emprego para áreas novas da cidade. Nos anos 70 surgem questões que decorrem da urgência de inverter a tendência de abandono das áreas centrais da cidade. Numa tentativa de diminuir as consequências sociais envereda-se pela aplicação de medidas de recuperação e reabilitação nos centros históricos das cidades. Os centros históricos das cidades começam de novo a ganhar importância (Cavém, 2007:25, cit. Sebastião, 2010). Todas estas preocupações traduzem-se na elaboração de importantes documentos que preconizam estes novos princípios 3. (2) O Plano de Bolonha foi um instrumento que preconizava, por um lado restaurar e conservar o centro da cidade e por outro, soluções para os problemas da habitação. Baseou-se na reabilitação e revitalização urbana, deixando de tratar o património como um problema do cenário urbano, passando a tratá-lo como um bem cultural e coletivo. Baseou-se na utilização de fundos públicos para reconstrução de unidades habitacionais, bem como na integração do centro no contexto económico e social do território, dotando-o de equipamentos modernos (Flores, 2003). (3) Em 1972, em Paris, é criada a Recomendação sobre a Proteção do Património Mundial, Cultural e Natural, salientando-se a necessidade de se evitar a degradação ou desaparecimento de um bem cultural e natural, uma vez que constitui o empobrecimento nefasto do património de todos os povos (Recomendação de Paris sobre a Proteção do Património Mundial, Cultural e Natural, 1972). Em 1975, o Conselho da Europa elaborou a Carta Europeia do Património Arquitetónico, a qual 34

49 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades Com o Novo Urbanismo 4 surgem novos conceitos associados à preservação, salvaguarda e à intervenção nos núcleos históricos: reabilitação, revitalização, requalificação, entre outros. Procura-se redirecionar uma parte do crescimento urbano para o centro das cidades; reorganizar o espaço edificado, de forma a tornar o tecido urbano mais compacto e funcionalmente mais completo. O anterior conceito de renovação urbana estava marcado pela ideia da demolição do edificado e consequente substituição por construções novas, geralmente com caraterísticas morfológicas e tipologias diferentes, sendo direcionadas a novas atividades de conformidade com o processo de mudança. A reabilitação, por sua vez, já não representava a destruição do tecido, mas a sua habilitação. Consiste em readaptar o tecido urbano degradado através de duas intervenções complementares: - no edificado (habitabilidade, qualidade da habitação, serviços e instalações, e isolamento térmico e acústico), implicando não somente a reabilitação dos edifícios, incluindo mesmo a construção de equipamentos ( ); - na paisagem urbana (elementos de visibilidade, fachadas, espaços de transição com o espaço público contíguo ao residencial), na medida em que as intervenções de reabilitação surgem muitas vezes associadas a atuações de melhoramento do espaço publico ou revitalização do mesmo. É dado especial cuidado no processo de reabilitação, metodologias, equipa, parcerias e participação. Este processo pode facilitar algumas etapas complexas da reabilitação, como o realojamento provisório das populações residentes ou os acordos com os proprietários (Moura et al., 2006:9). Em 1995 surge um novo documento, a Carta de Lisboa, que nomeia os diferentes tipos de intervenção direcionados para os temas urbanos e apresenta o conceito de reabilitação como estratégia de gestão urbana: considera que o património arquitetónico é a expressão insubstituível da riqueza e da diversidade de cultura europeia (Carta Europeia do Património Arquitetónico, 1975:2). Ainda em 1975, a Declaração de Amesterdão defende que o património compreende não só os edifícios isolados e respetivas envolventes, mas também os centros históricos e as aldeias tradicionais, que apresentem um interesse histórico ou cultural e a conservação do património arquitetónico deve ser encarada como um dos principais objetivos do planeamento urbano e ordenamento do território. No que respeita à reabilitação dos centros históricos, salienta que esta deveria ser elaborada sem modificar significativamente a estrutura social dos residentes Este documento defende a reabilitação integrada e salienta a importância da componente social (Declaração de Amesterdão, 1975). Em 1976 é produzida em Nairobi a Recomendação sobre a salvaguarda dos conjuntos históricos e da sua função na vida contemporânea, frente à uniformização e despersonalização das cidades provocadas pelo urbanismo contemporâneo, sendo aqui reconhecido que a conservação dos conjuntos históricos é de extrema relevância para preservar a dimensão cultural e identitária das populações, e, como tal, a salvaguarda destes testemunhos e a sua integração na vida contemporânea deverá constituir um elemento fundamental do planeamento urbano e ordenamento do território. A Recomendação de Nairobi defende ainda a revitalização dos núcleos históricos das cidades, mantendo o comércio e as atividades tradicionais (Recomendação de Nairobi, 1976). (4) O Novo Urbanismo é um movimento que surge nos Estados Unidos da América em 1980, que defende os padrões utilizados no planeamento urbano das cidades antes da ascensão e proeminência do automóvel. Defende a criação de vias especialmente desenvolvidas para pedestres; cidades que contenham casas residenciais, comércio, entretenimento, escolas, infraestruturas básicas, etc. capazes de substituir a intensificação do transporte individual por redes de transportes sustentáveis e coletivas. O objetivo deste movimento consiste em organizar sistemas regionais articulando áreas urbanizadas centrais; recuperar a qualidade de vida e melhorar o relacionamento entre o homem e a cidade, num desenvolvimento sustentável de longo prazo (Carta do Novo Urbanismo, 1996). 35

50 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades Reabilitação urbana é uma estratégia de gestão urbana que procura requalificar a cidade existente através de intervenções múltiplas destinadas a valorizar as potencialidades sociais, económicas e funcionais, a fim de melhorar a qualidade de vida das populações residentes; isso exige o melhoramento das condições físicas do parque construído pela sua reabilitação e instalação de equipamentos, infra-estruturas, espaços públicos, mantendo a identidade e as caraterísticas da área da cidade a que dizem respeito; revitalização urbana engloba operações destinadas a relançar a vida económica e social de uma parte da cidade em decadência. Esta noção, próxima da reabilitação urbana, aplica-se a todas as zonas da cidade sem ou com identidade e caraterísticas marcadas (Carta de Lisboa, 1995:2) A Carta de Lisboa procurava melhorar as condições de vida nos centros históricos, através da conservação e preservação dos edifícios, que constituíam um dos instrumentos desse objetivo, consagrando o homem como principal preocupação da reabilitação urbana (Carta de Lisboa, 1995). Este princípio aplicava-se essencialmente às áreas antigas degradadas, nas quais se procurava manter os residentes. Pode também ser caraterizada como uma nova cultura, ou seja, uma nova forma de construir a cidade, promovendo a sua gestão social (Gonçalves, 2002:45). Eram apontados os seguintes objetivos: Desenvolvimento das atividades locais, intervindo nas infraestruturas e equipamentos, melhorando as condições de vida dos habitantes; Reforço da vitalidade das áreas de intervenção; Fixação da população no centro, desenvolvendo atividades terciárias na periferia; Inversão da tendência de degradação, devolvendo a dignidade das áreas de intervenção; Descoberta das especificidades da área objeto de intervenção, valorizando a identidade local (Gonçalves, 2002). A reabilitação urbana é um processo integrado sobre uma área que se pretende manter ou salvaguardar (Salgueiro, 1992:390, cit. Gonçalves, 2002:47). As medidas aplicadas pela reabilitação urbana estão integradas na política de requalificação da cidade, cuja finalidade consiste em melhorar a qualidade de vida das populações residentes, nomeadamente na melhoria das condições físicas das edificações, dos equipamentos, infraestruturas e espaços públicos (Appleton, 1992, cit. Gonçalves, 2002). A reabilitação integrada constitui um contributo inovador para a preservação e vivificação do património cultural das cidades, tanto na vertente do edificado como do tecido social, que o habita e lhe assegura a identidade (Carta de Lisboa, 1995:5). Em 1998 a CE adotou a comunicação Desenvolvimento Urbano Sustentável na União Europeia: um Quadro de Ação, onde, no que se refere ao ambiente construído, são 36

51 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades apontados como objetivos a atingir pela União Europeia, a reabilitação das áreas urbanas degradadas e a melhoria da qualidade do ambiente construído. Este documento sublinha a necessidade das ações de reabilitação urbana se tornarem numa componente essencial das políticas locais de planeamento, devendo ser realizadas de forma integrada. O património e o desenvolvimento cultural são apontados como fatores cruciais para o crescimento económico e vitalidade das cidades. A reabilitação dos núcleos urbanos históricos é hoje assumida como um dos pilares na economia de usos e ocupações do solo, na rentabilização do espaço construído e na dotação de bens de utilidade pública equipamentos e infra-estruturas. Por outro lado, a reabilitação urbana é uma atividade geradora de emprego nas áreas da conservação e turismo e uma fonte de receita para as cidades que se tornam destinos mais atrativos (Moura et al., 2006:20). Em 2001, a Resolução do Concelho da União Europeia sobre a qualidade arquitetónica em ambientes rurais e urbanos sublinha a importância da defesa da cultura e do património, dando indicações no sentido de que a dimensão cultural e a qualidade do tratamento físico do espaço sejam tidas em conta nas políticas europeias de coesão. No mesmo ano o Sexto Programa de Ação em Matéria do Ambiente da CE refere que deve ser promovida a reabilitação urbana em detrimento da construção em locais novos. A reabilitação dos núcleos históricos assume uma grande importância a longo prazo na defesa do património que deixamos às gerações futuras. O património edificado é um recurso insubstituível, pelo que a sua destruição é um dano irreversível. Por outro lado, a reabilitação é uma alternativa à urbanização extensiva e ao consumo desnecessário de recursos não renováveis. Não sendo uma mera operação física de reparação de edifícios, o processo de reabilitação urbana pressupõe a existência de vários atores: Habitantes, cujo comportamento e expetativas são importantes contemplar, de modo a obter um efeito sustentado; Associações locais e agentes culturais, que devem ser considerados assessores privilegiados da operação; Atividades económicas, que é imprescindível recuperar através de elementos de reativação económica; Governo e autarquias, responsáveis pela implementação das normas de reabilitação urbana que deverão contemplar bonificações e incentivos a favor da reabilitação de forma a combater a tendência de abandono. 37

52 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades Um outro termo, o da requalificação urbana, surge mais tarde referindo-se a intervenções abrangentes nas cidades. No entanto, rapidamente passa a sinónimo das políticas de intervenção urbanística do edificado antigo. Funciona como instrumento para a melhoria das condições de vida das populações, promovendo a construção e a renovação de equipamentos e infraestruturas e valorização do espaço público, introduzindo, ao contrário das anteriores medidas, políticas de centralidade urbana. Embora não se afaste dos objetivos prosseguidos pelas terminologias anteriores, introduz a promoção de medidas de dinamização social e económica, esquecidas pelas anteriores operações sobre o edificado. A requalificação urbana procura a (re)introdução de qualidades de acessibilidade ou centralidade a uma determinada área urbana e mudanças ao nível económico, cultural, paisagístico e social. 2008). Tem um caráter mobilizador, acelerador e estratégico 5 (Moura et al., 2006; Tavares, Mobilizador porque pretende coordenar e articular atuações para a construção de novos cenários que sejam o resultado da vontade de todos. Acelerador no sentido de provocar a mudança e promover objetivos cuja sustentabilidade seja assegurada através de políticas estruturais com preocupações de integração social. Estratégico porque voltada para o estabelecimento de novos padrões de organização e utilização do território (Tavares, 2008:21). Os principais objetivos da requalificação urbana eram a integração social e dar novos usos a espaços com funcionalidades ultrapassadas, esperando-se que dessas intervenções resultasse uma resposta às novas preocupações das cidades. Valorizar o território procura melhorar o cenário, reintegrando todos os elementos cénicos, fazendo reanimar os espaços, incentivando atores para a criação de um novo guião para a cidade (Tavares, 2008: 22). A requalificação urbana tem aplicação em áreas com funções diferentes da habitacional, abrangendo operações que visam tornar a dar uma atividade adaptada ao local objeto de intervenção (Gonçalves, 2002). Assim, o conceito de recuperação urbana foi sofrendo alterações ao longo das últimas décadas de acordo com as estratégias de atuação. Na realidade, redimensionar um conceito integrado de intervenção tem sido o principal propósito de cada uma das políticas. A revitalização urbana é então herdeira das políticas de intervenção urbana anteriormente referidas. No entanto, os diferentes modelos de intervenção não são claramente distintos e são raramente indissociáveis na intervenção face ao território. (5) Como exemplo temos as experiências de reintrodução de atividades logísticas e terciárias em Ranstaad/ Holanda; a Área da Nova Centralidade de Barcelona, antes e depois dos Jogos Olímpicos; Bilbao, Londres ou Newcastle (Moura e tal., 2006:20). 38

53 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades A revitalização urbana integra os conceitos já apresentados e é fruto de experiências em diversas cidades realizadas durante quase um século. Os diferentes modelos de intervenção, nem sempre claramente distintos, apelavam a intervenções mais físicas que integradoras. Mas também a forma de gestão dos processos nem sempre corresponderam às expetativas que faziam prever, frequentemente conflituais e sem o recurso a mecanismos de participação e concertação que começaram a dar os primeiros passos apenas na década de 90. Questiona-se o conteúdo (demasiado físico) das operações e também as formas de gestão: processos burocratizados, sem participação pública e frequentemente conflituais. A revitalização assenta na implementação de um processo de planeamento estratégico, cujo propósito consiste em integrar as diferentes dimensões de intervenção, nomeadamente parcerias, recursos e funções urbanas. Nesse contexto, a revitalização, intervém a médio e longo prazo, de forma relacional, assumindo e promovendo os vínculos entre territórios, atividades e pessoas. Procura-se garantir a sustentabilidade a diferentes níveis, mas em interdependência no desenho da intervenção ou na sua implementação, como: 1. A performance económica e financeira (economic viabilit); 2. A sustentabilidade física e ambiental (environmental responsibility); e 3. A coesão social e cultural (social and cultural equity) (Moura et al., 2006:22). Figura 1 - Dimensões de intervenção da Revitalização Urbana Fonte: Moura et al.,

54 Capítulo 1 -Ciclo de Vida das Cidades A revitalização urbana consiste num processo de intervenção sustentável, que articula as oportunidades, as vantagens competitivas e um urbano cada vez mais globalizado, de expressão localizada (Moura et al., 2006:22). Atua de forma integrada sobre um grande número de domínios e dimensões de intervenção, intervindo na melhoria da qualidade do ambiente urbano e das condições socioeconómicas ou na vida de um determinado território (ver figura 1). Como conclusão, podemos afirmar que a revitalização urbana passa a ser entendida como a melhoria da componente física, socioeconómica, cultural, histórica e política do centro das cidades (Balsas, 2002:19). O objetivo principal passa a ser o de aumentar ou melhorar a habitabilidade e a sustentabilidade da comunidade local através da atração e aumento das oportunidades de emprego, comércio, recreio e lazer e da garantia de mais e melhores serviços de apoio aos diferentes grupos sociais que aí residem, trabalham, fazem compras ou simplesmente visitam as áreas centrais das cidades. De facto, enquanto processo integrador, a revitalização urbana tem como objetivo principal: trazer (de novo) vida à cidade. Falamos, então, em conceitos de atratividade ou dinâmicas perdidas que desenvolvem um projeto orgânico de planeamento. Um projeto complexo em que os instrumentos de revitalização abrangem muitas vertentes. A abordagem da revitalização urbana surge como uma evolução das noções de renovação, reabilitação ou requalificação. 40

55 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos CAPÍTULO 2 INTERVENÇÕES EM CENTROS URBANOS/ HISTÓRICOS La búsqueda de un futuro termina siempre com la reconquista de un passado. Octavio Paz INTRODUÇÃO Interessa-nos, no presente capítulo, colocar o nosso enfoque no centro tradicional da cidade, o denominado centro histórico, pois nele estará centrado o nosso estudo de caso, importando agora clarificar a sua noção. Este capítulo permitirá, não só, observar a pluralidade de olhares que são habitualmente lançados sobre os centros históricos, mas também, a amplitude de problemáticas e temas que suscitaram e continuam a suscitar, os vários caminhos para os compreender e, consequentemente, a definição de estratégias que respondam aos desafios com que se deparam atualmente. Tendo presente a diversidade de intervenções realizadas nos centros das cidades ao longo de várias décadas, procuraremos rever a evolução dos discursos e das práticas, das políticas e dos instrumentos de intervenção e o apoio ao desenvolvimento urbano que foram sendo aplicados. O ponto de partida para a presente reflexão aponta para a ideia de que é fundamental delinear estratégias e formas de ação que viabilizem a afirmação sólida e sustentável do centro da cidade, assente no tecido económico aí instalado CENTRO HISTÓRICO Os centros históricos têm sido alvo de intervenções que procuram a sua revalorização e inúmeros são os organismos internacionais (a UNESCO 6, o ICOMOS 7 são exemplos) que valorizam estes conjuntos urbanos, classificando-os regularmente como património mundial. (6) UNESCO é a sigla da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura. Foi fundada após o fim da Segunda Guerra Mundial, com o objetivo de contribuir para a paz e segurança no mundo, através da educação, da ciência, da cultura e das comunicações. A sede da Unesco fica em Paris, em França, e atua em 112 países (http://unesdoc.unesco.org/images/0014/001473/147330por.pdf). (7) ICOMOS é uma organização civil internacional, o International Council on Monuments and Sites Conselho Internacional de Monumentos e Sítios, ligada à UNESCO, tendo como uma de suas atribuições o aconselhamento no que se refere aos bens que receberão classificação de Património Cultural da Humanidade. O ICOMOS foi criado em 1964, durante o II Congresso Internacional de Arquitetos, em Veneza, ocasião em que foi escrita a declaração internacional de princípios norteadores de todas as ações de restauro - "Carta de Veneza. Atualmente, com 7500 associados em cerca de 110 países, organizados em Comités Nacionais, nos cinco continentes, o ICOMOS INTERNATIONAL é administrado por uma Secretaria Executiva sediada em Paris. (http://www.icomos.org/fr/) 41

56 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos No decorrer da história, os centros das cidades têm recebido múltiplas adjetivações: centro histórico, centro de negócios, centro tradicional, centro de mercado, centro principal ou, simplesmente, centro (Vargas & Castilho, 2009:2). Identificados como o lugar mais dinâmico da vida urbana, pelo fluxo de pessoas, veículos, mercadorias e atividades terciárias, os centros das cidades foram transformados no referencial simbólico das cidades (Vargas & Castilho, 2009:1). Assumem-se como espaços urbanos muito identificáveis, de alta qualidade representativa, cheios de elementos emblemáticos e a cidade, como tal, com todos os seus atributos, reconhece-se no centro: o nome, a identidade, a representação, os monumentos, a integração coletiva, a qualidade urbana (Bohigas, 1998: 203, cit. Sebastião, 2010:21). O centro histórico constitui assim um eixo gravitacional. Os centros históricos, aliados a uma riqueza de recursos culturais, são tradutores de uma forte identidade consolidada ao longo da sua história, constituindo-se como lugares de património e de concentração de inúmeras dinâmicas, sendo inquestionável a necessidade de salvaguardar e valorizar esses antigos núcleos das cidades. Têm vindo a suscitar o crescente interesse dos turistas na sua procura por produtos heterogéneos, uma vez que pelas suas funções integram importantes elementos definidores da imagem e do reforço da identidade da cidade a que pertencem (Henriques, 2003). Hoje, os centros históricos coincidem geralmente com o centro das cidades, constituindo o chamado coração da cidade. O centro histórico é a chamada cidade intramuro traçada pela cintura de muralhas existentes nas cidades, é a chamada área nobre da cidade. A cidade, enquanto centro histórico, mais do que um facto social, constitui um facto autêntico, um facto histórico, é o produto da história, sendo ao mesmo tempo autora dessa história. É então inquestionável que o centro histórico de uma cidade é por definição um lugar central relativamente à restante área construída, sendo definido pelo seu poder de atração sobre os habitantes e turistas, como foco polarizador da vida económica e social. Este núcleo corresponde assim ao centro funcional tradicional das cidades, o qual apesar de ter perdido alguma atratividade, tendo-se tornado menos acessível que outras áreas novas, permanecerá sempre como a parte antiga da cidade, e isso explica que o elemento mais marcante de um centro histórico na atualidade seja a sua imagem simbólica (Cavém, 2007:16, cit. Sebastião, 2010). 42

57 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos O centro histórico é a área em que as funções se sobrepõem e sobretudo o lugar em que se desenrolam as atividades vistas como sendo particularmente importantes, aquelas que se situam ao nível hierárquico mais elevado, para além de ser o lugar simbólico por excelência, o da história e da memória coletiva (Rémy e Voyé, 2004:92). De acordo com o Plano de Preservação de Sítio Histórico Urbano do IPHAN Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional brasileiro, segundo cada caso, a área urbana de interesse patrimonial ou zona histórica da cidade, pode corresponder a: 1. Cidade histórica: sítio urbano que compreende a área-sede do município. 2. Centro histórico: sítio urbano localizado na área central da área-sede do município, seja em termos geográficos, seja em termos funcionais e históricos, configurando-se em centro tradicional. 3. Conjunto histórico: sítio urbano que se configura num fragmento do tecido urbano da área-sede do município ou sítio urbano que contenha monumentos de interesse para a preservação (IPHAN, 2003). Segundo Martínez (2001), podemos caraterizar os centros históricos de acordo com três critérios, a saber: 1. Desde o ponto de vista morfológico, representa o que em termos urbanísticos denominamos de estrutura de espaços em relação à periferia. 2. Se tivermos em conta as tipologias construtivas, o centro histórico resulta ser um espaço muito rico e diversificado. As diferentes sociedades que por ele passaram ao longo da história deixaram a sua marca. 3. O centro histórico, apesar de possuir uma menor vitalidade funcional, tem função residencial, comercial, administrativa, financeira, cultural, religiosa ou lúdica. É um espaço multifuncional. Apesar da delimitação do centro histórico não ser linear, esta é facilitada no caso das pequenas cidades, que se tenham expandido pouco ou onde o desenvolvimento moderno é periférico e, mais difícil no caso das cidades grandes, formadas por períodos históricos múltiplos, e onde os conjuntos urbanos do século XIX podem ser legitimamente considerados como históricos (Cavém, 2007:15, cit. Sebastião, 2010). Os núcleos históricos são uma parte integrante do centro urbano antigo das cidades, constituindo-se como conjuntos urbanos com interesse histórico, cuja homogeneidade permite considerá-los como representativos de valores culturais, nomeadamente históricos, arquitetónicos, urbanísticos ou simplesmente afetivos, cuja memória importa preservar (DGOTDU, 2005:129, cit. Sebastião, 2010). Para além desta importância de cariz patrimonial mais física, o centro histórico de uma aglomeração urbana faz parte da memória coletiva de uma cidade, sendo que esta 43

58 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos memória coletiva constitui um quadro de referência fundamental para o equilíbrio psicológico necessário para reagir às mudanças que constantemente se prefiguram nas nossas cidades (Salgueiro, 1999:388). Segundo Teresa Barata Salgueiro, desde as pequenas aglomerações urbanas da antiguidade às atuais metrópoles globais, as cidades concentraram sempre importantes funções sociais, económicas, patrimoniais, habitacionais e cívicas, que se constituíram sempre como o motor da vida urbana, cujo eixo gravitacional estava nos centros históricos, a área mais central da cidade (Salgueiro, 2005). De facto, a ideia de cidade esteve sempre associada à de concentração. O termo concentração traz subentendida a noção de centro como sendo o "objeto" mais ou menos concreto que melhor o identifica. Cidades são centros, na medida em que são fundamentalmente pontos de convergência, lugares onde naturalmente se localizam e se buscam as coisas do homem (Vargas, B. 2000:21). Ao longo dos tempos os centros foram a imagem das cidades, reveladores da identidade urbana. É aí que estão concentradas as várias funções urbanas onde as pessoas vivem, trabalham, fazem compras e se divertem, relaxam e aprendem (Landry et al., 1996: 8, cit. Batista, 2008:15). Os centros são o coração da cidade, o motor dotado de uma forte carga simbólica, de maior acessibilidade, onde estão localizadas atividades várias, tais como escritórios, serviços e lojas (Schiller, 1994; Domingues, 2003, cit. Batista, 2008). Os centros históricos, para além de serem as partes mais antigas da cidade, constituem-se como uma sucessão de testemunhos de várias épocas, monumento que traz vivo o passado, nos dá a dimensão temporal com a sequência dos factos que estruturam as identidades (Salgueiro, 2005:259). O centro histórico pode ser definido como o núcleo da cidade (ou centro urbano menor), construído antes da época industrial, o local onde se concentra o património monumental e o edificado mais antigo. É aí que se podem reconhecer os bens históricos e artísticos, de maior valor estético e arquitetónico, representativos da cultura e do passado histórico. Há 50 anos atrás a cidade e o seu centro histórico identificavam-se como sendo a mesma realidade. Não podemos dizer o mesmo a partir dos anos 70 e muito menos hoje, em pleno século XXI, em que os centros históricos, apesar da sua riqueza patrimonial, passaram a converter-se em áreas onde se localizam o maior número de edifícios em ruínas. 44

59 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos Não podemos, no entanto, identificar o centro histórico com centro urbano, embora aquele esteja integrado neste. O centro urbano define-se basicamente pelo número, densidade e qualidade de funções de todo o tipo que acolhe, especialmente aquelas relacionadas com o setor terciário. A centralidade atribuída deriva das suas funções e não da sua localização relativa; deriva também da acessibilidade e esta é diretamente dependente do sistema de transportes e de redes de comunicações. O centro urbano é uma porção do espaço com caraterísticas de uso e ocupação excecionais em relação às demais que com ela compõem uma estrutura urbana e a sua existência é um fenómeno quase universal na formação e organização das cidades. Mesmo em pequenos povoados, essa diferenciação espacial básica, que determina a existência de um núcleo em contraponto ao restante verifica-se com maior ou menor clareza. O conjunto formado pela praça, a igreja, o estabelecimento comercial mais antigo e melhor suprido, palco das festas e reuniões populares, constituem o que inevitavelmente será chamado de centro, mesmo que, não se localize na posição geometricamente central. À noção de centro urbano como local de encontro, descanso, abastecimento e lugar de trocas comerciais, estão associadas outras atividades urbanas, como a religiosa, a de lazer, a política, a cultural, as atividades financeiras e as de comando. Trata-se de uma visão funcional de centro ligada aos conceitos de centros principais, subcentros, centros regionais, centros locais, definidos pelos tipos de atividades oferecidas e pelos seus raios de influência (Vargas, 1985, cit. Vargas & Castilho, 2009:2). Voltando para os centros históricos, estes constituem o elemento central do espaço urbano. São o espaço onde se deu início à cidade, o espaço privilegiado de onde ela partiu em direção aos espaços circundantes. São locais historicamente eleitos para a localização de diversas instituições públicas e religiosas e o seu significado muitas vezes extrapola os limites da própria cidade (Tavares, 2008). Quando as áreas urbanas se expandem de modo espontâneo e planeado, a noção de centro começa a diluir-se, surgindo uma rede de subcentros, que concorre diretamente com o centro principal. Este processo foi responsável pela aceleração da degradação dos centros urbanos. Os centros históricos para além de serem as partes mais antigas da cidade, constituem-se como uma sucessão de testemunhos de várias épocas, monumento que nos traz vivo o passado, nos dá a dimensão temporal com a sequência dos factos que estruturam as identidades. São a memória da cidade. Para todos aqueles que estão alheios à cultura livresca, a cidade antiga é o único testemunho inteligível e tangível da história (Salgueiro, 2005:259). 45

60 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos Esses espaços, centro histórico e centro urbano, raramente coincidem com a cidade geográfica entendida como forma de ocupação dos solos e entidade individualizada com certa dimensão e densidade onde se desenrola um conjunto de atividades várias ligadas ao modo de vida dos habitantes (Henriques, 2003). O centro histórico de uma cidade é, regra geral, a área mais antiga que se tornou progressivamente o centro da cidade moderna, e que coincide normalmente com o núcleo de origem do aglomerado, de onde irradiaram outras áreas urbanas sedimentadas pelo tempo, conferindo assim a esta zona uma caraterística própria cuja delimitação deve implicar todo um conjunto de regras tendentes à conservação e valorização (DGOTDU, 2005, cit. Sebastião, 2010). No entanto, muitos destes centros históricos vivenciam, na atualidade, problemas de naturezas várias, aliados a situações de degradação a níveis que vão do físico, habitacional, social ao económico, entre outros, indutores de declínio. Em conclusão, podemos afirmar que o setor público, fundamentalmente a partir de meados dos anos 70, tem-se destacado na tentativa da inversão da situação de degradação em que muitos centros históricos caíram através de processos de revitalização, recuperando essas zonas centrais como locais de património, que podem ser verificados através de processos de intervenção levados a cabo ao longo de várias décadas POLÍTICAS E ESTRATÉGIAS DE INTERVENÇÃO Reconhecendo a importância dos projetos de intervenção para o centro, procuraremos neste ponto entender o processo de evolução de tais projetos ao longo do tempo, partindo do período pós-guerra até ao presente e suas repercussões no resgate dos valores daquela área. Tratando-se de um fenómeno mundial / global, procuraremos apresentar exemplos que vão além das fronteiras europeias. Desde meados da década de 1960 a revitalização dos centros tornou-se o principal alvo das políticas urbanas, face aos problemas que essas áreas enfrentavam. Os centros poderiam possuir uma dinâmica elevada, estagnada ou em declínio. Os projetos urbanos com nomenclatura acompanhada do prefixo re como, revitalização, reabilitação, renovação, requalificação tinham como finalidade a recuperação das áreas construídas degradadas que se tornaram obsoletas e abandonadas ou subutilizadas. Tais áreas, que já foram importantes e valorizadas noutros períodos da história, continham edificações e infraestruturas relevantes, merecedoras de ser reconsideradas (Albrecht, 2008). 46

61 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos O início dos diferentes tipos de projetos de desenvolvimento urbano ficou marcado nos anos de 1970 e 1980, nos EUA. A Europa é também assinalada por uma forte política urbana desde 1978, que se inicia em Inglaterra (Law, 1993: 23, cit. Balsas, 2002). Os inúmeros estudos, discussões públicas, documentos, Cartas e Livros Verdes, elaborados a nível europeu sobre diversas problemáticas urbanas ( ), acabaram por plasmar compromissos e orientações que os Estados membros da União Europeia, duma forma ou de outra, acabam por assumir no desenho das respetivas políticas de cidades (Jacinto, 2012:5). A partir dos anos 90 a importância da revitalização urbana generalizava-se por todo o mundo, sendo reconhecidos os benefícios da manutenção e melhoria das áreas urbanas. Defendia-se o incentivo de políticas urbanas de reabilitação integrada que visassem a criação ou recriação de cidades e vilas, devendo ser proporcionado um ambiente atrativo aos seus habitantes, dotando-o de áreas de infraestruturas sociais, comerciais e de lazer, incrementando por esta via a qualidade de vida das populações. Recuperar o centro, mais do que melhorar a imagem da cidade, perpetuando a sua história, passava a basear-se na criação de um espírito de comunidade e pertença, o que passou a significar: promover a reutilização de seus edifícios e a consequente valorização do património construído; otimizar o uso da infraestrutura estabelecida; dinamizar o comércio com o qual tem uma relação de origem; gerar novos empregos. Em suma, implementar ações em busca da atração de investimentos, de moradores, de usuários e de turistas que dinamizem a economia urbana e contribuam para melhoria da qualidade de vida, valorizando também a gestão urbana que executa a intervenção (Vargas & Castilho, 2009:5). Mas falar de revitalização e da problemática da intervenção em centros urbanos implica recuar ao século XX e em especial, à época após a Segunda Guerra Mundial, altura em que se assiste à discussão sobre a vida urbana e a atividade nos centros urbanos. A literatura relativa a este tema permite-nos adotar uma delimitação cronológica que divide os processos de intervenção em centros urbanos em três grandes períodos, fomentados por diferentes motivações que apresentamos no quadro abaixo referenciado. Essas três etapas consistem na renovação urbana urban renewal, que é o período relativo às décadas de 1950 e 1960; no período da preservação urbana, nas décadas de 1970 e 1990; e na reinvenção urbana, que surge de 1980 até aos dias de hoje. O primeiro período dos processos de intervenção urbana é o período da renovação urbana, que decorreu entre os anos de 1950 e Durante este período, a ideologia do urbanismo do Movimento Moderno unia-se à prática da reconstrução do pós-guerra. Segundo Del Rio (1990:19, cit. Albrecht, 2008), a política de renovação urbana, do 47

62 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos pensamento modernista, visava a reposição completa de grandes áreas do tecido urbano consolidado, principalmente aquelas dos antigos centros que, se não haviam sido bombardeados, eram considerados deteriorados ou em decadência. Vivia-se a era das demolições (Vargas & Castilho, 2006:7). O novo assume a preferência e o processo de intervenção em áreas urbanas caraterizava-se pelo pressuposto de demolir e construir para renovar. O processo de intervenção nas cidades norte-americanas na década de 1950, mais conhecido como renovação urbana, esteve condicionado à demolição de áreas consideráveis e à reconstrução do tecido urbano. Surgem torres de escritórios corporativos e de apartamentos para as classes de maior renda nas áreas destinadas à reconstrução. Outra estratégia de recuperação dos centros baseou-se no conceito de uso exclusivamente pedonal das ruas comerciais. Cerca de cinquenta cidades tentaram assim recuperar o comércio, no período entre 1957 e 1962, fechando as ruas ao trânsito automóvel (Vargas & Castilho, 2009). O sucesso dos shopping centers nos subúrbios faz surgir um novo conceito de shoppings instalados nas zonas centrais como forma de atrair o público de volta ao centro. Um outro impacto nas áreas urbanas foi provocado pela expulsão dos residentes substituídos por estratos sociais de alta renda, dando início ao chamado processo de gentrifigação 8 ou revalorização nas áreas degradadas, processo pelo qual os pobres são sumariamente removidos para uma região mais distante e abandonada ( ) (Rykwert, 2004: , cit. Albrecht, 2008). Na Europa, em contrapartida, as intervenções urbanas estão mais voltadas para a resolução de problemas de congestionamento e para a reconstrução do pós-guerra, principalmente dos espaços públicos, que passam a ser supervalorizados. Destinar o espaço para o uso público nas cidades europeias foi um aspeto fundamental para consolidar o que restava do património urbano e para que houvesse preocupação com a sua preservação (Balsas, 2000). Já a fase da preservação urbana de 1970 a 1990 é caraterizada pela negação do movimento anterior, conhecido por modernismo. Os projetos do período de 1970 a 1990 incluem a preservação e a restauração de edifícios históricos. São restauradas antigas estruturas industriais, estações de trem, armazéns, merca- (8) Definição de Gentrification: termo que designa o fenómeno de substituição de populações de rendas inferiores por populações de rendas superiores induzida pela valorização imobiliária e/ou simbólica de porções urbanas consideradas de interesse artístico e histórico (Rykwert, 2004:331, cit. Albrecht, 2008:20). 48

63 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos dos e teatros, introduzindo nesses espaços o comércio e os serviços (Vargas & Castilho, 2009:16). Por volta de 1970 surgem projetos que apelam à preservação e valorização do património construído, que começam a marcar presença nos planos de revitalização. As intervenções em áreas centrais, passam a enfatizar o carácter histórico do local principalmente através do reuso e recuperação dos edifícios antigos. O principal uso a que se destinou grande parte dos edifícios recuperados foi comercial ou para serviços. (Albrecht, 2008:22). Nesta nova fase a preservação dos edifícios históricos é incorporada nos projetos de reestruturação das atividades dos centros. Privilegia-se manifestamente a preservação urbana, que passa a estar presente nos discursos da elite cultural, da população local e da população em geral (Vargas & Castilho, 2009:17). Este período esteve centrado na defesa do património histórico e arquitetónico como elemento fundamental da identidade e cidadania, na valorização da memória e no discurso de que os centros das cidades seriam as partes essenciais da vida urbana capazes de gerar orgulho cívico. Refira-se que é nesta altura que surgem também documentos e legislação de salvaguarda dos centros históricos e algumas organizações ampliam a sua preocupação com a preservação à escala mundial; tal é o caso da UNESCO. As áreas históricas passam a ser reconhecidas como parte integrante do património e relacionadas com o planeamento urbano, no sentido de salvaguardar a vida e a integridade da sociedade. Todas as estratégias e instrumentos implementados para a recuperação das áreas urbanas centrais, são fundamentados na preservação do património histórico cultural, agindo como embriões de uma nova era dos processos de intervenção, direcionados ao desenvolvimento urbano local. Após a migração da população para os subúrbios, aliciada pela ideia de residir junto à natureza, era necessário mudar a imagem preconcebida do centro. Colocava-se a questão de como atrair a população para o centro. As estratégias adotadas sintetizam-se assim em três ações fundamentais: - A intervenção física através de projetos arquitetónicos, sendo considerável o encanto das grandes obras arquitetónicas sobre os indivíduos; - As políticas urbanas são estabelecidas para promover a legitimação necessária à implementação de ações; 49

64 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos - A implementação de programas de gestão compartilhada, que envolviam empresas, comissões de cidadãos e gestores (Vargas & Castilho, 2006 e 2009; Albrecht, 2008). A intervenção física carateriza-se pelos empreendimentos levados a cabo através dos projetos arquitetónicos, com vista à preservação histórica e arquitetónica. Nos Estados Unidos, por exemplo, são construídos os shopping centres, que procuraram incorporar o comércio local, componente orgânico da cidade, e funcionaram como elemento catalisador do próprio processo de recuperação urbana. Outros empreendimentos de uso misto surgiram, reforçando a importância e o fascínio que exercem as obras arquitetónicas sobre os indivíduos. Em França, a construção de obras de caráter público marca o diferencial de uma nova linguagem, em que são utilizados novos materiais, tal é o caso do Centro Pompidou, construído em 1974, do Grande Arco de La Défense, em 1983, as pirâmides do Louvre e o Museu d Orsay, em 1986 e o Parque de La Villette, iniciado em O programa básico dos empreendimentos deste período está marcado pela associação de museus, cinemas, teatros, livrarias, bares e lugares de compras (shopping centres), que passaram a integrar esses novos espaços, deixando de ser para uso exclusivo de exposições contemplativas, determinando a fase do universo simbólico da cultura. Na Europa conseguiu-se manter a continuidade no campo das políticas urbanas. Houve intervenções a vários níveis, principalmente no comércio da zona central da cidade, na habitação de baixa renda, no sistema de transportes, nos espaços públicos e ambiente urbano, pedonização e estacionamentos. Como estratégias para conter a deterioração das áreas urbanas centrais implementaram-se políticas de auxílio e subsídios aos pequenos comerciantes. Os centros históricos são promovidos como locais privilegiados para pedestres e ciclistas (Balsas, 2000; Vargas & Castilho, 2009). Nos Estados Unidos, o declínio económico do centro das cidades é tão grave que se reconhece que a decadência económica do centro das cidades americanas é um dos problemas mais graves que afetam o país e aquele que requer uma atenção mais imediata. Na década de 1970 surgem organizações de ruas inteiras ou distritos, que marcam o início da implementação de programas de gestão compartilhada e do relacionamento entre os vários interlocutores do centro da cidade, nomeadamente gestores urbanos, comissões de cidadãos, empreendedores e pequenos proprietários. Entre as principais estratégias de intervenção são de destacar a criação dos Business Improvement Districts BID 9 ou Áreas de Desenvolvimento Económico, e a implantação do The Main Street Program MSP 10 ou o Programa da Rua Central, que serão por nós aprofundados no capítulo 5 desta dissertação (Porterl, 1997, cit. Balsas, 2002:46). 50

65 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos No período compreendido entre os anos de 1970 e 1990 surgem debates sobre os diferentes tipos e propósitos de intervenção urbana, predominando quatro discussões distintas: a primeira, sobre a privatização dos espaços públicos através de parcerias público privadas; a segunda sobre o comércio e os serviços, defendidos por muitos como catalisadores das principais estratégias de recuperação das áreas centrais; a terceira sobre a criação de novos cenários, os chamados não lugares ou parques temáticos; e a última sobre o entendimento do que é histórico caraterizado pelo congelamento do passado como fundamento das políticas de preservação (Balsas, 2000). Sucede a fase da reinvenção urbana, entre 1980 e 2000, em que, com a globalização, muda o conceito de cidade, que de destino final e permanência passa a ser considerado lugar de fluxos. De lugar de produção passa-se a lugar do consumo. O território transforma-se em mercadoria para ser consumida por cidadãos de renda elevada, investidores e turistas (Carrion, 1998, cit. Vargas & Castilho, 2009:32). Na década de 80 os investimentos das cidades são concentrados em áreas consideradas estratégicas, das quais se destacam os centros históricos. As políticas passam a estar fortemente associadas à revitalização económica, devido à enorme urgência que as cidades tinham em encontrar alternativas para a sua base económica. Nessa data, os problemas do declínio do centro das cidades são considerados nos dois lados do oceano Atlântico. Quadro 2 Motivações que conduzem a intervenções em centros urbanos Referência e identidade: resgate histórico/cultural História urbana Unicidade da identidade/ sentido de lugar e sociabilidade única Reaproveitamento económico Mudanças nos padrões sociodemográficos: ajustes sociais Conveniência dos deslocamentos Distribuição e abastecimento (9) Papel essencial dos centros quanto à identidade e à referência de seus cidadãos e visitantes, O centro é o lugar onde se encontram fragmentos da história da cidade Carater singular dos centros urbanos em relação aos subcentros mais recentes devido à variedade de atividades, não encontrada noutros lugares Aproveitamento da infraestrutura existente (sistema viário, saneamento básico, energia, telefone, transporte coletivo, equipamentos sociais e culturais). Retorno da habitação para as zonas centrais, devido ao aumento da expetativa de vida; redução do número de componentes da família; inserção da mulher no mercado de trabalho, entre outros. A diminuição de deslocamentos diários moradia-trabalho, uma vez que o centro é responsável por um número significativo de postos de trabalho. Os centros ainda retêm parte da distribuição de bens e serviços. Fonte: adaptado de Vargas & Castilho (2009:6). Estima-se que existem 1500 BID s espalhados pelos Estados Unidos, dos quais cerca de 500 foram constituídos em entidades autónomas. A cidade de Nova York possui mais de 40 BID s, entre os quais o mais conhecido é o do Times Square, criado em 1990, contando em 2000 com um orçamento de US$ 7 milhões (Balsas, 2000). (10) O MSP iniciou as suas atividades com 3 projetos piloto, contando hoje com mais de 1500 comunidades que aderiram ao programa em 40 estados norte-americanos. (Balsas, 2000: 56). 51

66 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos Entre os anos de 1980 e 2000 a cidade passou a ser pensada como um empreendimento a ser gerido, mediante a adoção de princípios de planeamento estratégico e o uso de um eficiente instrumento: o marketing de cidades. Assume-se a gestão urbana como uma política de governação e elemento catalisador do grande projeto urbanístico. O capital imobiliário e o poder público local tornaram-se grandes parceiros nesse processo. O primeiro foi capaz de criar localizações privilegiadas e induzir à demanda por intermédio da oferta. O segundo buscou a valorização positiva da imagem da cidade para a captação de investimentos externos destinados ao desenvolvimento da economia urbana. Juntos, adotaram o planeamento de mercado e introduziram as técnicas de marketing (city marketing) (Vargas & Castilho, 2009:32). Estamos perante um mundo de cidades num enorme arquipélago megapolitano mundial, tendo a mundialização dado um grande impulso à urbanização, porque a cidade é a concentração de sinergias, a acumulação de fatores num mesmo local (Dollfus, 1998: 28-29, cit. Jacinto, 2012:13). As cidades deparam-se com um duplo desafio: aumentar a competitividade satisfazendo simultaneamente determinados requisitos de ordem social e ambiental (Jacinto, 2012:13). Adquirem maior importância em termos europeus e nacionais na segunda metade dos anos 90, testemunhada pelas inúmeras iniciativas, programas e recursos financeiros que têm vindo a proliferar. O objetivo de se recuperar a base económica das cidades para gerar emprego e renda passa para a esfera local, deixando de ser preocupação do poder central. Surgem as parcerias público-privadas a fim de ser reconstruído ou reinventado o ambiente construído. Intensificam-se os projetos arquitetónicos e urbanísticos. Muda a dimensão dos projetos, o foco de intervenção, a forma de gestão e a propagação desses feitos decorrentes da sua ampla e intensa divulgação, conduzindo a uma proliferação de grupos e associações que passaram a envolver-se nessas intervenções (Vargas & Castilho, 2009:33). Na Europa, a revitalização do centro das cidades aumenta de importância desde o início dos anos 90, principalmente devido às possibilidades que o planeamento comercial e a gestão do centro das cidades oferecem para a criação e manutenção de cidades aprazíveis e habitáveis. No Reino Unido, por exemplo, os Town Centre Management Schemes 11 (mecanismos de Gestão do Centro da Cidade) e a matriz dos 4 A s Acessibilidade, Atração, Animação/Beleza Local e Ação estão a ser utilizados desde então para identificar (11) O sucesso dos TCM foi tão grande que em 9 anos de sete centros passou-se a 300 TCM s (ATCM, 1999). 52

67 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos os problemas e as potencialidades dos centros, e para propor instrumentos de gestão dessas mesmas áreas centrais das cidades. O facto de estes mecanismos serem baseados em parcerias voluntárias entre o setor público e o setor privado leva a que haja a necessidade de se encontrar modos de financiamento sustentáveis para a sua existência e desenvolvimento futuro (Balsas, 2002:67). A questão das parcerias surge como resultado de uma cooperação, que implica os privados nas políticas e investimentos públicos. As novas organizações e parcerias para a revitalização do centro das cidades devem estar cada vez mais próximas do modelo encontrado para o sucesso dos centros comerciais privados, onde termos como eficiência e eficácia dão corpo à gestão estratégica na aplicação e coordenação dos recursos (Barreta, 2009:116) Generalizava-se um pouco por toda a Europa e Estados Unidos da América a ideia de que uma das respostas estratégicas possíveis para os centros das cidades estaria no comércio, dito tradicional, transformando os núcleos urbanos centrais em centros comerciais abertos ou ao ar livre, tirando assim partido das aglomerações comerciais existentes nesses núcleos. Este conceito de centro comercial aberto (CCA) 12 foi amplamente usado pelas entidades governamentais, associações e próprios comerciantes, só que com diferentes perspetivas e alcances. Os centros das cidades eram assim muitas vezes comparados aos centros comerciais. Foram-se estruturando associações nos diversos países da Europa para organizar os centros urbanos. Em 1996 é criada a Federação Europeia de Centros de Cidade (European Federation of Town Centre EFTC), com o objetivo de proteger e manter a viabilidade e vitalidade dos centros urbanos europeus. Outras associações operam nos países europeus, tal é o caso da Association du Management de Centre Ville (AMCV), na Bélgica; da Fédération Nationale des Centre Ville (FNCV), em França; ForNya Stadskarnan, na Suécia; Programas de Orientación para los Equipamientos Comerciales de la Generalitat de Catalunya e Medodología de Trabajo para la Revitalización Comercial de los Cascos Hitóricos de la Consejería de Industria, Comercio Y Turismo de la Junta de Castilla y Léon, na Espanha. Outras ações complementares têm vindo a ser levadas a cabo nas áreas urbanas centrais. Na Noruega, Alemanha, França, Bélgica, Escócia, Japão e em Singapura as (12) Agrupamento espacial de estabelecimentos comerciais em espaço urbano delimitado, em geral nos denominados centros históricos das cidades, que apresentam uma imagem uniforme em termos de oferta global da área mediante: prestação comum de serviços, cumprimento de um mesmo horário, uso de um logótipo, implantação de mobiliário urbano que a identifique e distinga, prestação conjunta e integrada de actividades de ócio/lazer e animação cultural, etc. (Barreta, 2009). 53

68 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos políticas estão inclinadas a apoiar as comunidades locais, por meio de assistência técnica, empréstimos pessoais e estímulo à aposentação (Lee, 1999, cit. Vargas & Castilho, 2009). A recuperação do centro no Japão esteve ligada ao comércio independente, à cultura local, trabalho familiar e à promoção de eventos e festividades das áreas centrais. Na América Latina, a partir da década de 1990 defende-se o retorno das atividades funcionais ao centro das cidades. Exemplo dessa preocupação é a institucionalização, em 1997, de uma rede de cidades da América Latina e do Caribe com centros históricos em processo de recuperação: São Paulo, Quito, Buenos Aires, Lima, Bogotá, Havana, Rio de Janeiro, Salvador, São José e São Salvador, com vista a revalorizar os centros (Vargas & Castilho, 2009). Na cidade do México criou-se uma entidade privada, o Fideicomiso Centro Histórico de la Ciudad de México, cujo principal objetivo é a gestão do centro histórico a partir da valorização do património. Em 2011 essa entidade cria o Plan Integral de Manejo del Centro Histórico , que assinala um conjunto de estratégias onde são estabelecidas pautas gerais de uso, preservação e gestão dos centros históricos, monumentos, edificações, espaço público e instituições 13. Na cidade de São Paulo, no Brasil, é criada em 1991 a Associação Viva o Centro, com representantes da sociedade civil, instituições financeiras, comércio, profissionais liberais e outros especialistas, que tem vindo a desenvolver, desde então, os princípios do Main Street Program. É criado um programa denominado de Ações Locais, com vista a consciencializar a população sobre a importância de valorizar o centro. Numa outra vertente da reabilitação e na opinião dos defensores dos projetos urbanísticos de grandes proporções, os centros urbanos passam a ser considerados catalisadores do processo de recuperação urbana, sendo o paradigma das intervenções, sem dúvida, a cidade de Barcelona, que inspirou intervenções em inúmeras outras cidades do mundo inteiro. A regeneração passa a ser um instrumento de política urbana amplamente reconhecida por inúmeros países do mundo e pela União Europeia, que passa a influenciar a forma como são conduzidos os projetos de reabilitação no espaço comunitário. Os vários programas de regeneração que foram surgindo e implementados pelos países da União Europeia são exemplo da crescente relevância que o bem-estar económico, social e físico das cidades detêm atualmente (Fraser, 2003:30). (13) 54

69 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos O desenvolvimento de políticas de regeneração passa a estar associado à melhoria da habitabilidade da comunidade local. Atraindo e aumentando as ofertas de emprego, comércio, recreio e de lazer, procura-se manter e desenvolver os serviços de apoio tendo em atenção os vários utilizadores dos centros urbanos (Balsas, 2002:19). Procura-se incrementar a qualidade de vida das populações através da reabilitação integrada, melhorando-se o ambiente construído, favorecendo infra estruturas sociais, comerciais e de lazer, entre outras. As especificidades do centro tradicional da cidade e a diversidade de usos que encerra são as caraterísticas necessárias para a promoção de uma estratégia de regeneração. O centro tem que fazer prova da sua atratividade face a novas procuras, nomeadamente por parte de investidores privados e, sobretudo, não perder duas das suas caraterísticas principais: a identidade e a diversidade de usos (Domingues, 2003:25, cit. Batista, 2008). Não existe nenhuma fórmula ideal para uma revitalização bem sucedida. De acordo com Doratli a correta identificação das caraterísticas particulares e o dinamismo de cada local são, no entanto, os aspetos necessários para o sucesso da implementação de projetos de revitalização (Doratli, 2005: ; Batista, 2008). Figura 2 - Vantagens da reabilitação urbana Contribui para a valorização dos edifícios existentes através da sua reutilização Alternativa à destruição do património arquitetónico Promove a oferta de comércio variado Contribui para a preservação da identidade local Reabilitação Urbana Aumenta as oportunidades de emprego Inverte os processos de obsolescência Previne o declínio melhorando a imagem urbana Contribui para a criação da imagem positiva da cidade, atraindo visitantes, residentes e investidores Adaptado de Balsas (2002:19); Pickard (2001:275) e DCMS (2004:37), cit. Batista (2008) 55

70 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos A reabilitação deve ser muito bem ponderada e as ações a levar a cabo implicam uma escolha criteriosa dos modos e técnicas de intervenção, de acordo com o tipo de edifício a reabilitar e o conjunto do edificado onde está inserido (Lopes, 2012), sendo claras as suas vantagens (ver figura 2). Foi sempre mais simples intervir no chamado ambiente físico, no edificado, seja através de políticas de demolição de áreas degradadas, de espaços abandonados ou decadentes, ou de políticas de regeneração económica, em que são promovidos novos investimentos em infraestruturas. O caminho mais fácil para se renovar a cidade é, sem dúvida, o da recuperação do património arquitetónico. O problema surge à posteriori, como dar vida a estes espaços? Sem conteúdos, que são as pessoas, o betão não vale de nada. E as cidades sem pessoas morrem. É neste aspeto que os atores e as políticas continuam a falhar (Alves, 2012:81). A regeneração, no entanto, não se restringe unicamente à reabilitação física, compreendendo outros aspetos essenciais dos centros urbanos. Só fará sentido, no ambiente urbano, uma estratégia global e multisetorial de intervenção, que passe simultaneamente por uma revitalização económica, social e ambiental (Balsas, 2002:37; Couch, 2003:209 e Urban Task Force, 2005:141, cit. Batista, 2008). Os ambientes urbanos caraterizados por edifícios devolutos poderão estar sujeitos a processos de intervenção que levem à sua conservação e consolidação ou ainda à reconversão, ou seja, a adaptação dos edifícios a novos usos e funções. Em termos económicos, deve estar prevista a reestruturação funcional que poderá acontecer, através de uma alteração da ocupação com novos usos das edificações e introdução de novas atividades em substituição das atuais. Pode todavia ainda ocorrer uma regeneração funcional, através da manutenção das atividades atuais que, transformadas, se tornam mais rentáveis e eficientes (Doratli, 2005:760). Todo o processo de regeneração deverá começar por um correto diagnóstico da área de intervenção, nomeadamente dos atributos e dimensões obsoletas que caraterizam esse espaço, bem como dos problemas físicos, funcionais, de imagem e de localização (Doratli, 2005:753). A melhoria da qualidade de vida das populações é um dos objetivos fundamentais da regeneração, pelo que é de capital importância o seu envolvimento em todo o processo. Através da participação da comunidade local, promove-se um sentimento de pertença, confiança e empenhamento cívico. 56

71 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos A partir dos anos 90 as políticas de coesão e os programas de desenvolvimento da União Europeia apontam para a necessidade de prestar uma atenção particular às cidades e regiões urbanas como territórios, devido aos problemas que apresentam e às condições geográficas, tendo em conta as preocupações ambientais e a sustentabilidade, conceitos inscritos no Relatório Brundtland (1987), na Conferência da Terra (Rio, 1992) e subsequentes Cartas sobre Cidades Europeias Sustentáveis (Alborg, 1994 e, mais recentemente, Leipzig, 2007). Nos anos 90 são implementadas por toda a Europa as iniciativas comunitárias como estratégias europeias para enfrentar os desequilíbrios e promover a coesão territorial, que vigorarão até ao final do III Quadro Comunitário de Apoio (2006). Tais iniciativas inspiram-se em novas abordagens do desenvolvimento local, privilegiando o aproveitamento dos recursos endógenos, a subsidiariedade e a participação, as novas modalidades de governação de programas e de gestão de projetos (Jacinto, 2012:20-23), disponibilizando os seguintes meios financeiros canalizados para vários domínios: Iniciativa LEADER (Liaison Entre Action de Développemente de l Économie Rurale); Programa INTERREG, para as zonas fronteiriças, nomeadamente, no apoio de estratégias conjuntas de cooperação transfronteiriças; EQUAL, que visou promover a empregabilidade e igualdade de oportunidades; Iniciativa comunitária URBAN, que decorreu entre , através da qual foram implementados inúmeros projetos nos espaços urbanos europeus. As iniciativas comunitárias URBAN I ( ) e URBAN II ( ) 14 prosseguem uma abordagem integrada, centrada em investimentos materiais e imateriais, pautados essencialmente no reforço da prosperidade económica e regeneração das áreas urbanas, para obter sustentabilidade local e global (UE, 2011:8). No atual período de programação ( ) são vários os programas regionais e nacionais de apoio, materiais e intangíveis, destinados às cidades europeias e ao desenvolvimento urbano: URBACT II, que visa o intercâmbio de boas práticas e a criação de redes de peritos no domínio do planeamento urbano; Urban Audit, que fornece dados estatísticos sobre demografia, habitação, atividade económica, rendimentos, qualificações, infra-estruturas, turismo, entre outros. Iniciativa JESSICA Joint European Support for Sustainable Investment in City Áreas, que resultou da colaboração da Comissão Europeia com o Banco de Desenvolvimento do Conselho da Europa, destinando-se a apoiar o investimento sustentável nas zonas urbanas; RURBAN, que consiste numa parceria para o desenvolvimento urbano-rural sustentável. (14) URBAN I ( ) e URBAN II ( ) eram duas Iniciativas Comunitárias do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) centradas no desenvolvimento sustentável integrado dos distritos urbanos desfavorecidos. 57

72 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos O percurso do desenvolvimento urbano sustentável está assinalado por dois momentos que, por sua vez marcam dois períodos fundamentais, assinalados por documentos de referência da Comissão Europeia: o período compreendido entre 1998 e 2007, que desce do nível regional ao de cidade e o pós 2008, em que tenta recuperar-se a ideia de pólos de desenvolvimento, no sentido de se propagar o resultado positivo obtido na cidade ao entorno regional. Apresenta-se em seguida (no quadro 3) uma síntese dos documentos da Comissão Europeia mencionados Quadro 3 Percurso do desenvolvimento urbano sustentável Desenvolvimento Urbano Sustentável na União Europeia: um quadro de ação (Comunicação da Comissão Europeia 605, de 28 de outubro de 1998) 15 A política de coesão e as cidades: contribuição das cidades e das aglomerações para o crescimento e o emprego nas regiões. (Comunicação da Comissão Europeia 385, de 13 de julho de 2006) 16 Carta de Leipzig sobre as Cidades Europeias Sustentáveis, adotada na reunião informal dos Ministros responsáveis pelo Desenvolvimento Urbano e Coesão Territorial, em 24 e 25 de maio de 2007, em Leipzig 17 É definido um quadro de ação para o desenvolvimento urbano durável na União Europeia, apelando-se a uma melhor coordenação e orientação das ações comunitárias dirigidas a problemas urbanos; abordagem zona a zona em relação à regeneração de zonas urbanas desfavorecidas e à cooperação intersetorial a favor das cidades. É apontada a importância das cidades e os pressupostos do desenvolvimento urbano sustentável para : cidades atrativas com acessibilidade e mobilidade, infraestruturas, entre outros; economia do conhecimento, apoio à inovação e espírito empresarial; resolução do paradoxo das cidades de possuírem mais emprego e simultaneamente um índice elevado de desemprego; melhorar a governação através duma abordagem integrada do desenvolvimento urbano sustentável. É assumido o compromisso de recorrer ao instrumento de desenvolvimento urbano integrado e às respetivas estruturas de governação territorial equilibrada baseada numa estrutura urbana policêntrica europeia. Deverão ser definidos os objetivos de desenvolvimento concretos para a zona urbana e uma visão para a cidade, bem como estratégias de ação para reforço da competitividade das cidades. Fonte: adaptado de Alves, (2012) O grande desafio da requalificação das cidades continua em saber como combater a desertificação do centro histórico das cidades, fixando pessoas, através da habitação e do emprego. A requalificação tem de assentar em estratégias de vivificação tornando as cidades em lugares com vida, em vez de se estimular a especulação imobiliária e financeira (Alves, 2012:81). Com o Livro Verde sobre a Coesão Territorial Europeia (2008) e a Agenda Territorial da União Europeia 2020 (2011) foram desenhadas as bases das políticas regionais e urbanas que irão vigorar no próximo período de programação ( ). (15) (16) (17) (18) Miscigenação consiste na mistura de raças, de povos e de diferentes etnias. 58

73 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos Os processos e dinâmicas urbanas emergentes nas últimas décadas obrigaram a rever conceitos, renovar os discursos sobre a cidade e a conhecer novas estratégias de desenvolvimento urbano. Cremos que chegou o tempo da centralidade regressar ao centro histórico ( ), contrapondo uma polaridade alargada e coesa a uma cidade policêntrica e especializada (Lopes, 2012:63). Tempo de intervir metodicamente no centro histórico, estabelecendo metodologias e critérios que, de vez, impossibilitem a destruição, o fachadismo, a musealização, a especialização social e física, a monofuncionalidade; tempo de aproveitar as possibilidades estratégicas de desenhar cenários de futuro, definindo vocações, identificando oportunidades, planeando, promovendo a adesão efetiva, a pluralidade social. Intervir no centro histórico e na cidade consolidada, enquanto prioridade significa potenciar as mais valias da sua urbanidade que se vai perdendo, promover a fixação e miscigenação da população (Lopes, N. R., 2012:63) POLÍTICAS E ESTRATÉGIAS DE INTERVENÇÃO URBANA EM PORTUGAL Em contraste com todas as teorias formuladas depois da segunda Guerra Mundial e brevemente referenciadas no capítulo anterior, em Portugal, os processos de urbanização foram responsáveis pela degradação e esvaziamento de muitos centros históricos e pelo aumento e desorganização, física e funcional, das periferias. Até fins de 1960 as políticas públicas urbanas eram relativamente incipientes. No entanto, já durante o Estado Novo ( ), com Duarte Pacheco como Ministro, houve uma certa atividade em termos de planeamento urbanístico, tendo sido valorizados os espaços emblemáticos de inúmeras cidades portuguesas. Essas preocupações urbanísticas só virão a ser verdadeiramente assumidas pelo Estado quando o III Plano de Fomento ( ) dedicou todo um capítulo ao Planeamento Regional, traduzindo o arranque da política regional em Portugal (Jacinto, 2012). São definidas orientações e objetivos que ainda hoje podem ser subscritos na íntegra, nomeadamente: o equilíbrio da rede urbana, com a finalidade de dotar as populações de equipamentos socioeconómicos mínimos, concentrados a distâncias razoáveis; a expansão descentralizada da indústria e dos serviços concretizada pela utilização dos pólos de crescimento (Caetano, 2008:14, cit. Jacinto, 2012). As políticas urbanas estavam fundamentalmente orientadas para o ordenamento durante a fase embrionária do planeamento regional em Portugal, passando as cidades a serem consideradas como indispensáveis para assegurar os equilíbrios espaciais, reduzir assimetrias e promover a coesão do território (Jacinto, 2012). 59

74 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos A partir de meados de 1960, a administração pública deixa de deter o monopólio da urbanização, havendo lugar a uma fase de estabilização do solo no que concerne ao direito do urbanismo e da construção. Passa-se, gradualmente, à abertura à iniciativa privada regulada pelos municípios e caraterizada simultaneamente pela falta de instrumentos de gestão do território, sendo que os Planos Diretores Municipais só são aprovados muitos anos depois. Nos anos 70 iniciou-se em Portugal um movimento de construção das cinturas urbanas da cidade, tendo contribuído para esse facto um conjunto de condições muito favoráveis, a saber: uma política urbanística que passou a estar desligada da política do ordenamento do território, mobilidade interna e terciarização do setor produtivo (Tavares, 2008). Em 1979 surgem os Planos Diretores Municipais, contudo, a sua concretização só teria lugar no final da década de 90. Nesta altura a lei das finanças locais concede aos municípios, a Sisa (Imposto de transmissão aplicável a transações de propriedades imobiliárias) e a Contribuição autárquica, impostos resultantes da atividade imobiliária que vêm agravar ainda mais a pressão urbanística. Este conjunto de medidas funcionou apenas como um incentivo à construção nova. A falta de incentivos à reabilitação teve como consequência o desmoronamento de muitos edifícios nos centros históricos e a desagregação do sistema social a eles associado. As operações de licenciamento favoreceram a construção nova, em vez de se centralizarem para as intervenções de reabilitação ou de conservação. As intervenções em zonas históricas passam também a estar sujeitas a encargos à realização de pesquisas arqueológicas, tendo como resultado, o abandono desses imóveis por parte dos proprietários. Em 1980, com mais de uma década de atraso relativamente às demais cidades europeias, pode assistir-se em Portugal às primeiras experiências em reabilitação urbana 19. A necessidade de manter a população no centro das cidades perante a atratividade das coroas periurbanas, é um dos fatores que determina a promoção de uma nova política de intervenção urbanística (Tavares, 2008:16). As experiências da Ribeira do Porto, Évora e Guimarães foram pioneiras na criação de instrumentos específicos para a reabilitação das respetivas áreas de intervenção. Sendo a política da reabilitação urbana um tema recente em Portugal, são pouco ex- (19) Algumas experiências na zona ribeirinha do Porto nos anos 70 não são enquadráveis no processo de reabilitação urbana como agora definimos. 60

75 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos pressivas as experiências nesse domínio. Os indicadores estatísticos demonstram que em média a reabilitação urbana na Europa representa cerca de 33% da produção do setor da construção civil e estima-se que em Portugal este número não seja superior a 10% (Tavares, 2008:33). Um contributo importante para o desencadear de operações de intervenção planeadas foi o dos Gabinetes Técnicos Locais (GTL s) 20 sendo precursores das futuras sociedades de reabilitação urbana. As operações de reabilitação inverteram um quadro de degradação que caraterizava o edificado e o espaço público e a maioria das experiências acabou por ter um peso significativo na dimensão física da reabilitação, dissociada de intervenções no tecido económico e social, caraterísticas daquilo a que mais tarde se denominou de revitalização urbana. A estratégia da reabilitação tinha agora como principal preocupação reabilitar sem provocar processos de expulsão dos habitantes e substituição destes por outras camadas sociais. Quando um território é reabilitado cria-se uma nova centralidade fomentando alterações tanto na dimensão económica como no que se refere à dimensão cultural e social. A valorização do património começa, no entanto, pela vertente social ainda antes da intervenção no edificado, invertendo todo o conceito que marcou a fase da renovação urbana (Tavares, 2008:20). Mas foi com a adesão à EU que a política urbana portuguesa conheceu um incremento (1986), beneficiando dos fundos estruturais que proporcionaram recursos financeiros, bem como da participação no debate europeu, que visa a construção da coesão económica, social e territorial, no qual as cidades estavam, e continuam a estar, no centro das atenções (Jacinto, 2012). As intervenções urbanas em Portugal foram protagonizadas por vários programas e projetos, suportados por recursos nacionais ou comunitários, ligados à revitalização e requalificação das áreas urbanas degradadas, dos quais merecem destaque: REHABITA (Regime de Apoio à Recuperação Habitacional em Áreas Urbanas Antigas) (1996); RECRIA (Regime Especial de Comparticipação na Recuperação de Imóveis Arrendados) (1986); (20) A criação de GT s em 1985 ocorreu em 37 cidades portuguesas (Tavares, 2008). 61

76 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos PROCOM (Programa Operacional para o Comércio, ), passando a designarse URBCOM (no III QCA, ), que, para além de requalificar os espaços públicos urbanos e ruas comerciais, procurava contrariar a tendência de abandono do comércio tradicional nos centros históricos, com medidas direcionadas a estimular a atividade comercial; EXPO 98, que consistiu num projeto de requalificação urbana e ambiental do Parque das Nações, associada à realização da Exposição Mundial, que teve lugar em Lisboa, em 1998; Programa POLIS ( ), que visa a melhoria da qualidade dos espaços públicos, o reforço da atratividade e competitividade das cidades e sustentabilidade ambiental; MODCOM (Sistema de Incentivos a Projetos de Modernização do Comércio), com início em 2006, preconiza a modernização e a revitalização da atividade comercial, em especial, em centros urbanos de comércio com predomínio do comércio independente de proximidade. São projetos de promoção comercial dos centros urbanos que visam através das suas ações, a animação, dinamização e divulgação comercial dos centros urbanos. UAC (Unidade de Acompanhamento e Coordenação, que embora previstas em 2004 apenas foram criadas em 2006), que visavam essencialmente o acompanhamento e gestão das áreas de intervenção dos projetos de Urbanismo Comercial, com vista à melhoria da competitividade dos centros urbanos e à dinamização do comércio e serviços aí localizados; Programa Polis (Programa de requalificação urbana e valorização ambiental de cidades, 2007); Política de Cidades POLIS XXI ( ), com particular relevo em quatro tipos de intervenção, financiadas no âmbito dos Programas Operacionais Regionais do QREN: parcerias para a regeneração urbana; redes urbanas para a competitividade e a inovação; ações inovadoras para o desenvolvimento urbano; equipamentos estruturantes do sistema urbano nacional (Jacinto, 2012:20-23). Nos fins da década de 90, os temas do ambiente urbano e da sustentabilidade das cidades estavam na ordem do dia, tendo surgido com maior ênfase sobretudo após a conferência do Rio em 1992, da publicação do Livro Verde do Ambiente Urbano (CCE, 1990) e do 5º Programa de Ambiente da Comissão Europeia (CCE, 1993). Todas estas questões conduziram à necessidade de se estabelecerem novas políticas de intervenção a nível local, orientadas para a articulação entre a proteção e valorização ambiental do território e o ordenamento urbano, numa ótica de desenvolvimento sustentável. O Plano Nacional do Desenvolvimento Económico e Social (PNDES) propõe uma visão estratégica, traçando o caminho a percorrer, que deveria assentar na inserção geoeconómica, ordenamento do território e sistema urbano ( ) (Reflexão sobre o PNEDS, 1998), de cujas linhas estratégicas fazia parte a requalificação do espaço urbano e dos meios de vida em geral, que dava especial atenção aos problemas da suburbanização e das periferias urbanas. Eram assim reforçadas ações prioritárias no domínio urbano. As cidades passam a ser vistas como elementos centrais na estratégia de planeamento, importando a qualidade da sua organização, dos espaços públicos e dos territórios que lhes são próximos. Estava em causa uma forte aposta na requalificação dos meios onde se vive e onde se estabelece a vida coletiva. Tais objetivos traduziram-se no reforço das estruturas verdes urbanas; melhoria dos transportes públicos e restrição do 62

77 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos trânsito; cumprimento dos valores-limite previstos para emissões atmosféricas e sonoras, bem como da importância a dedicar ao património cultural. A estrutura do programa Polis assentava em quatro componentes, que implicavam intervenções a diferentes níveis, como consta do quadro 4. Quadro 4 - Componentes do programa Polis e suas caraterísticas Componente 1 Operações integradas de requalificação urbana e valorização ambiental Componente 2 Intervenções em cidades com áreas classificadas como património mundial pela UNESCO Componente 3 Valorização urbanística e ambiental em áreas de realojamento Componente 4 Medidas complementares para melhorar as condições urbanísticas e ambientais das cidades Intervenções integradas e multifacetadas, com uma escala significativa, tendo contribuído para a revitalização de cidades com importância estratégica no sistema urbano nacional. Intervenções nas cidades de Angra do Heroísmo, Évora, Guimarães, Sintra e Porto, com objetivo de melhorar a qualidade do ambiente urbano. Intervenções nos espaços públicos envolventes das habitações construídas no âmbito de processos de realojamento. Iniciativas que visavam a restrição do uso do automóvel nos centros urbanos; estímulo do uso dos transportes públicos; sistemas de recolha de lixo, reutilização de água; consciencialização ambiental da população; outras ações de melhoria das condições urbanísticas e ambientais. Adaptado de Correia et al. (2000) No seu conjunto, foram desenvolvidas 40 intervenções em 39 cidades, distribuídas pelo continente e ilhas, das quais fez parte a cidade de Chaves. A concretização da estratégia desenhada para cada cidade fez-se tendo por base uma parceria entre as entidades locais e centrais, que resultaram na criação de sociedades anónimas tendo como acionistas o Estado e o Município respetivo. O Plano Estratégico da Intervenção assumia-se como objeto social da sociedade Polis que foi extinta automaticamente após o período definido para a conclusão do projeto. Em associação com as operações de reabilitação e renovação urbana, foi reconhecido o papel do comércio e dos serviços na revitalização das áreas em declínio dos centros históricos do nosso país, que passam a ter maior importância no planeamento e na gestão urbanística. Pensa-se que o rejuvenescimento da atividade económica será fundamental para fazer reviver a tradição de centro de comércio das cidades, dada a perda do protagonismo que outrora deteve, tendo sido implementadas políticas de urbanismo comercial. Procurava-se o desenvolvimento de políticas específicas para o comércio, ameaçado pelas mudanças a que estava sujeito em resultado da introdução de novos formatos comerciais, as chamadas grandes superfícies. A problemática do comércio estava fortemente associada à evolução da relação cidade-comércio, em que a perda de fulgor em favor de outros atrativos comerciais e lúdicos 63

78 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos afastaram as pessoas do centro das cidades, confrontando o velho e o novo comércio, a velha e a nova cidade (Barreta, J., 2009:104). Em 1998 o Ministério da Economia cria um programa de apoio à revitalização dos centros históricos ou dos centros das cidades tradicionais. O objetivo era melhorar a situação do comércio, da cidade e a qualidade de vida dos cidadãos. Como tal, os projetos de urbanismo comercial, subsidiados através dos programas PROCOM/ URBCOM 21, foram estratégias atempadas para tentar parar o declínio comercial e urbano no centro das cidades portuguesas. Apesar dos estudos globais destes projetos terem sido bastante amplos nas suas propostas de revitalização, baixos níveis de adesão por parte dos comerciantes locais e dificuldades de coordenação da sua implementação levaram a concluir pela necessidade de se encontrarem outros mecanismos inovadores capazes de promoverem a revivência dos centros, e ao mesmo tempo aumentar as colaborações efetivas e parcerias entre os agentes económicos e as autoridades locais. O urbanismo comercial refere-se à integração do comércio com o ordenamento do território no planeamento do crescimento e transformação urbana, na dupla vertente das orientações sobre o desenvolvimento da atividade comercial, por um lado, e uso do comércio como instrumento de ação urbanística, por outro (Salgueiro, 1996, cit. Barreta, 2009:116). Os PEUC (Projetos Especiais de Urbanismo Comercial), formulados em 1998 visavam a modernização das atividades económicas do comércio e de alguns serviços, a qualificação do espaço público envolvente e a promoção da área de intervenção. Foram definidas políticas/ medidas que pretendiam articular o ordenamento do espaço urbano e a sua adaptação para um adequado desenvolvimento das atividades comerciais do ócio/lazer, que contemplavam, para além da modernização do comércio, a pedonização, a sinalética e o mobiliário urbano. Eram visadas duas vertentes, a requalificação e dinamização das estruturas comerciais, por um lado e a revitalização do espaço urbano, por outro. A desejada articulação das diferentes vertentes envolvidas constituía-se como um dos pilares essenciais (21) Os programas PROCOM/URBCOM desenvolveram-se nas zonas históricas das cidades portuguesas. Consistiram nos projetos de urbanismo comercial, que se resumiram em intervenções a 3 níveis diferentes: investimentos públicos, por parte das Câmaras Municipais; investimentos privados, realizados pelos comerciantes e animação comercial, através das associações de comerciantes (estas fases decorreram de 1999 até 2005 em Chaves). Com efeito, foi ao abrigo do II Quadro Comunitário de Apoio, com o PROCOM, na sua vertente dos Projectos Especiais de Urbanismo Comercial, prevista na alínea a), do n.º 1, do art. 26º do DL 184/94, de 01/07, (Programa de Apoio à Modernização do Comércio) que se materializou a preocupação de apoiar projetos de dinamização das estruturas comerciais associados à recuperação ou revitalização do tecido urbano. No âmbito do III QCA é implementado o URBCOM (Projectos de Urbanismo Comercial), regulamentado através da Portaria n.º 317-B/2000, de 31/05. (22) A encomenda de estudos globais dos projetos de urbanismo comercial foi possível com os recursos financeiros disponíveis nos projetos PROCOM/URBCOM, que consistiram em levantamentos e estratégias de intervenção realizadas por empresas de consultoria em todas as cidades do país que apresentaram candidaturas a este tipo de projetos. Em Chaves este estudo esteve a cargo da empresa Bússola (Estudo Global de Urbanismo Comercial de Chaves).

79 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos uma vez que, concorrendo para objetivos comuns, os investimentos a concretizar assumiam um evidente caráter de complementaridade nos espaços comerciais (estabelecimentos), no espaço público (área de intervenção, normalmente o centro histórico e/ou a baixa ) e na dinamização/animação/promoção, sendo que, posteriormente, a aposta teria de passar forçosamente pela gestão comum do novo espaço comercial, resultante da implementação/execução do Projeto (Barreta, 2009:116). Revelava-se já a necessidade de serem desenvolvidas parcerias. Prova dessa intenção foi a disponibilização de apoios específicos para as UAC 23, contempladas no URBCOM, que constituíam o embrião das unidades de gestão de centro urbano. A questão que se colocava era a de delinear estratégias e formas de ação que viabilizassem a afirmação sólida e sustentável do centro da cidade, assente no tecido económico aí instalado. Tratava-se de analisar a cidade enquanto sistema de organização económica. Neste contexto e como é visível em muitos países e um pouco por todo o mundo, são criados em Portugal modelos de gestão dos centros urbanos. O aparecimento das organizações e/ou modelos de gestão do centro das cidades deve-se às mudanças registadas em muitos centros de cidades, em resultado da necessidade de diversificar as economias locais, passando a incluir atividades de recreio, lazer e cultura, em complemento das atividadades residenciais, de comércio a retalho e de serviços, de forma a despertar de novo o interesse dos visitantes. Procurava-se que essas organizações, que surgem sob a forma de parcerias público privadas, fossem auto sustentáveis e empreendedoras o suficiente no sentido de tornar o centro da cidade num local atrativo, dinâmico, competitivo e viável do ponto de vista económico. Carlos Balsas (1999), baseando-se em experiências internacionais que adotam um modelo económico baseado em recursos financeiros sustentáveis, defendia que a gestão integrada dos centros urbanos era crucial para o futuro sustentável das cidades portuguesas, constituindo-se como o principal fator de sucesso para a revitalização das cidades. Em 2004, a Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP) e a Direção (23) UAC Unidade de Acompanhamento e Coordenação, previstas na Portaria n.º 188/2004, de 26 de fevereiro, que aprovou o Regulamento de Execução do Sistema de Incentivos a Projetos de Urbanismo Comercial (URBCOM), o qual prevê na sua alínea d), do n.º1, do art. 3º, as Unidades de Acompanhamento e Coordenação. As UAC destinam-se a ser promovidas por iniciativa das estruturas associativas, e terão como objetivo essencial o acompanhamento e gestão do projeto de urbanismo comercial da área de intervenção. 65

80 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos das Atividades Económicas (DGAE) estabelecem uma parceria tendente a desenhar um modelo de intervenção e revitalização dos centros das cidades. Através dos projetos de urbanismo comercial o governo central por intermédio da DGAE (antiga DGCC Direção Geral do Comércio e da Concorrência), introduziu o conceito de centro comercial a céu aberto (CCA) como uma estratégia de política económica, através da criação de unidades de gestão UAC. As unidades de gestão de centro urbano eram o resultado de uma parceria entre as câmaras municipais e as associações de comércio e serviços, tendo a sua génese nos já referidos, projetos nacionais PROCOM e URBCOM. O exemplo de um elevado número de experiências similares em diversos países, como a Espanha e o Reino Unido, nomeadamente, tinham servido de incentivo e de diferencial para o arranque da iniciativa. As UAC prosseguiam dois tipos de objetivos: Objetivos estratégicos: tornar mais competitivo e dinâmico o comércio e serviços dos espaços urbanos, em especial localizados nos centros históricos; Objetivos complementares: requalificar e reanimar os centros das cidades de Portugal tornando-os lugares com reforçado poder de atratividade, fazendo emergir uma imagem diferenciadora assente numa cultura identitária própria. O trabalho era desenvolvido a três níveis: 1. Ações que visavam atrair mais pessoas para a área de intervenção da unidade de gestão, combatendo a perda de centralidade, sendo exemplos a organização de atividades promocionais e de animação dos centros históricos; 2. Ações que ajudavam os agentes económicos a melhorar os serviços e conhecer melhor o mercado potencial, constituindo exemplos a elaboração de estudos de mercado; 3. Ações que fomentavam a melhoria do ambiente urbano na área de intervenção, tornando-o mais aprazível, constituindo exemplos a aquisição de mupis 24 e sinalética urbana (em Chaves). Ao assumir que o comércio como atividade económica instalada e predominante no centro de cidade deve funcionar como um catalisador da revitalização socioeconómica desses núcleos, emerge a necessidade estratégica de encontrar soluções para a sua dinamização e revitalização enquanto unidades económicas que se apresentam e se constituem como um Centro Comercial a Céu Aberto. A gestão integrada do conjunto, para além de uma necessidade, é uma lacuna desde há muito sentida, pelo que também se revela crucial para a desejada viabilização económica dos centros das cidades, apostando em modelos de gestão já adotados e implementados com sucesso além fronteiras (Barreta, 2009:117). (24) Estruturas publicitárias e/ou mobiliário urbano iluminado para fins publicitários. Foram adquiridas 10 mupis em Chaves, destinados à publicidade do comércio local, que têm vindo a ser explorados desde

81 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos A experiência resultante das medidas dos projetos de urbanismo comercial, tanto a nível do PROCOM do QCA II, como do sucessor URBCOM, do QCA III, deixou clara a realidade vivida, bem como as lacunas das políticas públicas direcionadas para o setor do comércio a retalho em contexto urbano, que procuravam adaptar os métodos e técnicas de gestão adotados na gestão dos centros comerciais. Na opinião de Barreta (2009), apesar dos esforços evidenciados no sentido de sensibilizar e mobilizar as partes potencialmente envolvidas, a experiência de Portugal, no que se refere à criação de centros comerciais a céu aberto, é ainda algo incipiente. Foi, de facto um tema que sempre esteve subjacente nos PEUC (seja na fase de arranque, seja durante a sua implementação), no entanto, o que é facto é que tal necessidade, ou seja, a gestão integrada do projeto, e dos seus resultados, nunca terá sido percecionada da forma mais correta pelos promotores dos projetos (câmaras municipais e associações comerciais), numa clara falta de visão global e estratégica da problemática do comércio a retalho em contexto urbano e nos benefícios que poderia trazer para o centro da cidade. Segundo Carlos Balsas (2002), a principal diferença entre a situação estrangeira e a realidade nacional reside no facto de que no estrangeiro há uma maior preocupação de envolvimento e participação dos proprietários e comerciantes locais no financiamento e na angariação de fundos para a realização de ações que conduzam a benefícios mútuos. Em Portugal, a mentalidade fortemente instalada a nível privado e público da dependência dos subsídios tem resultado em atitudes de alguma passividade e falta de colaboração que limitam os investimentos dos atores urbanos (agentes económicos e autarquias locais) mais interessados nos benefícios dessa mesma revitalização comercial. Por outro lado, é também importante referir que esta lógica continuada de dependência de subsídios públicos, cria falsas expetativas em relação à possibilidade de auto sustentação dos investimentos agora realizados (Balsas, 2002:144). O impacto destes aspetos negativos tem conseguido sobrepor-se ao valor histórico e patrimonial, muitas vezes mal cuidado, dando uma má imagem da cidade. Para além destes aspetos, o mesmo autor diz que há a apontar ainda a falta de uma gestão profissional intersetorial do centro da cidade, que se traduz na inexistência de estruturas formais capazes de gerir de modo eficiente o destino do centro das cidades. Do ponto de vista da intervenção global e agora realçando caraterísticas positivas dos programas PROCOM e URBCOM apresentam um grande potencial, que lhes advém de três factores principais conjugação integrada (reflete-se numa intervenção, tanto na estrutura edificada como no sistema de espaços (públicos), cumplicidade setorial (revela-se necessária uma grande sintonia e 67

82 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos interdependência entre o setor privado, o associativo e o público) e a convergência urbana (o seu bom desenvolvimento realiza-se pela intervenção nas estruturas físicas (edifícios e espaços públicos) e nas estruturas empresariais (gestão dos estabelecimentos, formação dos comerciantes e funcionários), proporcionando-se assim uma intervenção que abarca as noções de urbano e urbanidade (Balula & Carvalho, 2001, cit. Barreta, 2009). Na maioria dos países estrangeiros, a figura do gestor do centro da cidade existe já desde o início dos anos 90. Em Portugal parece ainda haver algumas dúvidas sobre a sua necessidade e sobre as suas possíveis competências. De acordo com Cachinho (2002), levantam-se muitas dúvidas quanto à capacidade dos modelos de gestão integrada, adotados para o centro urbano, solucionarem os problemas dos centros das cidades, no entanto, são claros os níveis de adesão alcançados, tanto a nível do PROCOM (com cerca de 130 centros urbanos intervencionados), como do URBCOM (com mais de 50). Se por um lado alguns comerciantes foram capazes de realizar melhoramentos nos seus estabelecimentos, muitas autarquias conseguiram também requalificar fisicamente, no seu todo ou em parte, o centro das suas cidades. Por outro lado é de mencionar também o facto das autarquias colocarem a revitalização no centro como uma prioridade da agenda política. A revitalização urbana assume-se como elemento de desenvolvimento sustentável das cidades, ou seja, como uma abordagem que visa melhorar a qualidade de vida, solucionar problemas urbanos referentes a domínios vários que vão desde a reabilitação física das cidades a aspetos referentes ao desenvolvimento económico, social, cultural, ambiental, segurança, habitacional e urbanístico (Henriques, 2003:244). A regeneração urbana constitui-se igualmente como um elemento do desenvolvimento regional/local uma vez que sem revitalização as cidades perdem o seu potencial e competitividade no contexto espacial que as integra. O papel competitivo das cidades como pólos de desenvolvimento é tido em consideração no âmbito do contexto nacional e internacional, pelo que o processo em causa supõe sempre uma abordagem estratégica à escala urbana, assente num forte compromisso interlocutores locais, nomeadamente entidades públicas e cidadãos (Henriques, 2003:244). No âmbito da regeneração da cidade destaca-se o processo de revitalização dos centros históricos, como áreas privilegiadas em termos de recursos de património históricocultural. Ou seja, a reabilitação urbana no âmbito da revitalização, assume-se, para Aguiar, Cabrita e Appleton (1997, cit. Henriques, 2003:245) como um processo de recuperação e beneficiação geral de áreas urbanas degradadas (históricas ou não) nos seus vários 68

83 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos aspectos do físico ao morfológico, à revitalização sócio-económica e funcional assumese como uma política de intervenção na cidade relativamente inovadora e com um passado ainda muito recente. De acordo com o Eng.º Luís Braga da Cruz (1990) a política de reabilitação não pode ser desenquadrada da política global do ordenamento do território ou seja: Recuperar o espaço urbano é reutilizá-lo nas funções que o moldaram ao longo do tempo, é valorizar a cidade muito além da sua glorificação económica. É particularmente importante não deixar que o parque construído seja desnaturado, acautelando contra as investidas do crescimento anárquico dos centros das cidades, preservando, enfim, os valores necessários à vida urbana das populações. A partir deste século, também a lei portuguesa tem reconhecido a reabilitação urbana como prioridade, assumindo-se como componente indispensável da política das cidades e da política da habitação. Nela têm convergindo os objetivos de requalificação e revitalização das cidades, em particular das suas áreas mais degradadas, procurando-se um funcionamento mais sustentável e harmonioso desses núcleos urbanos (Decreto-Lei n.º 307/2009, de 23 de outubro). As intervenções de reabilitação urbana são estruturadas com base em dois conceitos fundamentais: o conceito de área de reabilitação urbana, delimitada pelo município que tem como efeito determinar a parcela territorial que justifica uma intervenção integrada, e o conceito de operação de reabilitação urbana, correspondente à estruturação das intervenções a efetuar no interior da respetiva área de reabilitação urbana. Pela primeira vez procurou-se regular os procedimentos a que deve obedecer a definição de áreas a submeter à reabilitação urbana, bem como a programação e o planeamento das intervenções a realizar, sendo determinados os objetivos e a estratégia da intervenção. Em 2012 são aprovadas novas medidas destinadas a agilizar e a dinamizar a reabilitação urbana, através da Lei n.º 32/2012, de 14 de agosto. A reabilitação urbana em áreas autorizadas é promovida pelos municípios, resultando da aprovação da delimitação de áreas de reabilitação urbana e da operação de reabilitação urbana a desenvolver nas áreas delimitadas (Artigo 7º da Lei n.º 32/2012). Segundo a Diretora da Delegação do Porto do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, Luísa Aparício (2013), a reabilitação passa a ser considerada um desígnio nacional, permitindo: A recuperação física de áreas urbanas e ativos imobiliários degradados; A dinamização dos centros históricos; O estímulo das atividades económicas; A inclusão social das famílias e cidadãos económica e socialmente desfavorecidos; 69

84 Capítulo 2 Intervenções em centros urbanos A sustentabilidade económica e ambiental. Com a aprovação das denominadas ARU (Áreas de Reabilitação Urbana), o município fica obrigado a definir os benefícios fiscais de natureza municipal a conceder como incentivo à realização de operações urbanísticas, nomeadamente: isenção do Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI) e Imposto Municipal sobre as Transmissões Onerosas de Imóveis (IMT), aplicação da taxa reduzida de Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA) às empreitadas de reabilitação de imóveis ou espaços públicos; dedução à coleta dos encargos com a reabilitação (Aparício, 2013, Políticas de Reabilitação e Regeneração Urbana). Para além destes incentivos fiscais surge também o novo programa de reabilitação urbana Reabilitar para Arrendar, criado pelo Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), cujo prazo de apresentação de candidaturas decorreu de 5 de abril a 6 de junho de 2013, destinando-se a municípios, empresas municipais e sociedades de reabilitação urbana. Para além deste programa e dos benefícios fiscais anteriormente descritos, a nova lei do arrendamento (Lei n.º 31/2012, de 14 de Agosto) surge como mais um fator de promoção da reabilitação urbana, através de um conjunto de medidas destinadas a dinamizar o mercado de arrendamento urbano (Aparício, 2013). O conjunto de medidas acima descritas permite concluir que também em Portugal, embora com um certo atraso em comparação à Europa (e a certas zonas a nível mundial), o esforço para formular políticas e estratégias de intervenção urbana foi crescendo até à atualidade. 70

85 Capítulo 3 Instrumentos de gestão e revitalização CAPÍTULO 3 INSTRUMENTOS DE GESTÃO E REVITALIZAÇÃO INTRODUÇÃO A gestão urbana está hoje marcada por um conjunto de abordagens e instrumentos que permitem responder ao crescente número de desafios a que estão sujeitas as cidades: Novas formas de governança, em que de um modelo de government passou-se a um modelo de governance, ou seja, do modelo onde a administração decide sozinha transitou-se a um outro modelo em que para além da administração há um envolvimento de um leque alargado de outros agentes relevantes nos processos de decisão; Mobilização da comunidade para uma visão partilhada do futuro da cidade; Forte competitividade territorial (elevada concorrência para atrair novos investimentos, residentes, turistas e visitantes, entre outros) que conduz à necessidade das cidades potenciarem os seus recursos. A gestão urbana terá de articular uma visão mais abrangente de governança, devendo ser menos burocrática, mais participada e transparente, procurando disponibilizar os melhores fatores de competitividade e de bem-estar aos atuais e/ou potenciais utilizadores da cidade. Neste sentido, o planeamento estratégico revela-se fundamental para que a comunidade desenvolva uma visão partilhada de médio/longo prazo, bem como um processo de interação e de participação social orientado para a definição e prossecução de objetivos comuns. Por outro lado, o marketing territorial consiste numa filosofia de gestão urbana que coloca os utilizadores da cidade (residentes, turistas, empresas, organizações, trabalhadores, visitantes, etc.) no centro da estratégia competitiva, o que significa adotar uma clara orientação para o cliente e, portanto, sintonizar a oferta com a procura de funções urbanas, gerando valor. Ambos instrumentos são considerados de estratégicos para a prossecução de uma gestão urbana competitiva. 71

86 Capítulo 3 Instrumentos de gestão e revitalização 3.1. O PLANEAMENTO ENQUANTO INSTRUMENTO DE GESTÃO E REVITALIZAÇÃO A intervenção nos centros históricos pressupõe, não apenas uma avaliação do valor histórico e patrimonial, mas também o caráter funcional das áreas em relação à estrutura urbana, tornando-se necessária uma intervenção sustentada (Vargas & Castilho, 2009). A revitalização urbana assenta na implementação de um processo de planeamento estratégico, capaz de reconhecer, manter e introduzir valores de forma cumulativa e sinergética. Intervém a médio e longo prazo, de forma relacional, assumindo e promovendo os vínculos entre territórios, atividades e pessoas. Visa garantir uma operação sustentável, a níveis diferenciados, mas em interdependência no desenho da intervenção ou a sua implementação, como: 1. A performance económica e financeira ( economic viability ); 2. A sustentabilidade física e ambiental ( environmental responsibility ); 3. A coesão social e cultural ( social and cultural equity ) (Moura et al., 2006:21). O conceito de revitalização urbana deve ser entendido como uma estratégia e um processo: desenvolve estratégias e promove um processo com caráter de inclusão e inserção, capaz de fomentar iniciativas, projetos e atuações de caráter transversal e setorial, sendo um instrumento de gestão coletiva do território. O modelo de estratégia de revitalização deve iniciar-se com a definição de um cenário de chegada, uma visão, isto é, uma imagem do que se pretende que a área venha a ser após o processo de revitalização (definido para um horizonte alargado de 10 a 20 anos). Um projeto de cidade formula uma ambição global, partilhada pelo conjunto de atores urbanos, na forma da visão de um futuro desejado a longo prazo. Essa visão é desenvolvida de forma a tornar-se operacional em linhas estratégicas ou domínios prioritários de ação, que assentam em objetivos quantitativos (Alves, 2007). As cidades constituem os elementos organizadores e de suporte da economia mundial. As que não logram articular-se no sistema de fluxos (de informação, de capitais, mercadorias e pessoas) a nível mundial, continental ou regional, ficam marginalizadas dos processos de desenvolvimento (Esteve, 2003:183). A importância dos espaços centrais das cidades é resultante do valor simbólico e económico, gerado a partir dos fluxos de pessoas que se direcionam para destinos turísticos para conhecer o património cultural edificado das cidades. O património físico apresentado nos centros históricos, praças, edifícios e monumentos pode ser constituído por estes como 72

87 Capítulo 3 Instrumentos de gestão e revitalização elementos principais ou agregadores de valor na oferta de roteiros turísticos em determinada localidade. Neste contexto é indiscutível a necessidade de intervenção e gestão da organização territorial do espaço urbano, motivado pelo crescimento/desenvolvimento urbano do nosso século. Emerge a importância do planeamento urbano, onde o planeamento turístico é um dos seus componentes, entendido como um ato de gestão de interesses múltiplos. Por outro lado, o crescimento/desenvolvimento do turismo, na sua vertente urbana, conduziu à necessidade de toda a intervenção na cidade, o tomar em consideração (Henriques, 2003:227). De igual modo, a aplicação dos princípios de desenvolvimento sustentável ao centro histórico subentendem o planeamento e a elaboração de estratégias. As cidades, ao definirem a sua estratégia, podem seguir diferentes vias. Uma dessas vias é o plano estratégico, o qual consiste num instrumento que define a estratégia de intervenção, que deverá ser entendido não como um ritual metodológico mas sim como um processo flexível, destinado a dotar a cidade de uma estratégia consistente, que proporcione notoriedade e singularidade à cidade, num compromisso por parte dos atores locais com capacidade de transformar o território urbano (Esteve, 2003:185). No entender de Alves (2007:11) o planeamento consiste num processo através do qual se estabelece uma visão para o futuro, se define uma estratégia, um conjunto de objetivos de médio/longo prazo e se identificam as ações a empreender para os atingir. Trata-se de uma ferramenta de gestão que ajuda a focalizar os recursos e energias para materialização dos objetivos. Planeamento urbano significa planear com uma componente espacial ou geográfica. As abordagens de planeamento têm as suas raízes no planeamento das cidades (town planning), planeamento do uso dos solos (land use planning) e desenho (design) arquitetural e paisagístico (architectural/landscape desing). Tem também origem, nomeadamente o planeamento urbano, na arquitetura e engenharia da saúde pública (public health engeneering) que data da evolução do poder municipal (administração pública local) (Henriques, 2003:228). O planeamento urbano assume-se como a expressão de controlo administrativo sobre a organização da cidade, constituindo um aspeto fundamental das cidades de hoje. Assume um importante papel na promoção e condução do desenvolvimento, proporcionando a inventariação das condições existentes, dos problemas mais relevantes, das potencialidades que possam garantir a dinamização pretendida, a estruturação de um quadro articulado de ações a desenvolver, em coordenação com os agentes envolvidos e 73

88 Capítulo 3 Instrumentos de gestão e revitalização com as estratégias que mais de adequam à prossecução dos objetivos fundamentais de um processo de desenvolvimento (Page, 1995, cit. Henriques, 2003: 229). O planeamento estratégico territorial consiste numa forma de gerir a mudança e de criar o melhor futuro para um território. Trata-se de um processo criativo que estabelece as bases para uma ação integrada a longo prazo, cria um sistema contínuo de tomada de decisões, identifica linhas de ação específicas, formula indicadores de acompanhamento dos resultados e envolve agentes sociais e económicos locais ao longo de todo o processo (Guell, 1997: 54, cit. Alves, 2007). Constitui um método para melhorar a capacidade de governança e sustentabilidade. O planeamento estratégico consiste num processo gerador de mudanças e descobridor das vias de futuro mais promissoras para os centros urbanos, que conduz à determinação das forças, das fraquezas, das ameaças e das oportunidades. Está relacionado com a formulação de uma direção global de ações e a gestão estratégica, assumindo-se como: Um processo de interação política, social, cultural; Um processo político e pedagógico de diálogo, participação, persuasão e contratualização; Um processo e um conjunto de instrumentos de apoio às decisões que devem ser tomadas hoje; Um processo de prospetiva de tendências; Um processo não reativo mas próativo (Henriques, 2003:232). Para Esteve (2003) são claras as vantagens da elaboração de um Plano Estratégico, que deverão comportar os seguintes resultados: 1. Identificação de uma estratégia clara, consistente e estável, com capacidade de dar um maior protagonismo à cidade, conduzindo-a ao desenvolvimento económico e social, melhorando a sua posição competitiva no sistema de cidades. 2. Desenvolvimento de uma parceria público-privada entre os principais atores urbanos, incumbidos do desenvolvimento de uma estratégia conjunta. Essa articulação dos principais atores locais levará a um compromisso social. 3. Favorecer um processo de participação dos cidadãos, capaz de impulsionar uma cultura de cidade, os seus reptos, as suas oportunidades, facilitando uma colaboração de todos no processo conjunto de hacer ciudad (construir a cidade). 74

89 Capítulo 3 Instrumentos de gestão e revitalização 4. Dispor de uma estratégia global ou integral da cidade (económica, social, cultural, ambiental, territorial) e não somente física, como é o caso de cidades que apenas dispõem de planos urbanísticos (Esteve, 2003:198). Um outro pressuposto está relacionado com a necessidade de desenvolver um processo de planeamento integrado, multidimensional, de modo a criar simultaneamente na cidade espaços para viver, trabalhar e para o lazer ( live+work+play ) utilizando e promovendo ligações entre territórios, atividades e pessoas (Moura et al., 2006): Desenvolvimento de estratégias participadas e integradas capazes de afetar as diversas dimensões que afetam a cidade (meio físico e ambiental, problemas económicos, sociais); Reabilitação física, social e cultural do território; Promoção de uma economia social local ou urbana (coesão social, atores sociais) e do empreendedorismo; e Implementação de planos de revitalização de médio e longo prazo, capazes de estimular e consolidar a intervenção. Após a definição da estratégia, devem ocorrer simultaneamente o planeamento da ação e a mobilização de recursos, tendo em conta a prioridade dos objetivos mensuráveis, as condições preexistentes, as abordagens e métodos escolhidos e as responsabilidades previstas dos atores. A estratégia deverá ter tradução num Plano de Revitalização, que consiste num plano detalhado para atingir os objetivos mensuráveis, com os recursos disponíveis num dado prazo de tempo. O Plano de Revitalização deverá ser estrategicamente fragmentado em peças operacionais de menor escala (programas operacionais, projetos e ações) que darão resposta a objetivos específicos (Moura et al., 2006:27), por nós referido na figura abaixo reproduzida. Deve ainda ser metodologicamente orientado, com objetivos e metas mensuráveis e apresentar diferentes modelos de intervenção, monitorização e avaliação. Figura 3 - Esquema de modelo de estratégia possível num processo de revitalização Programas operacionais Cenário de chegada Estratégia Planeamento de ação Mobilização de recursos Plano de ação Projetos Ações Fonte: Moura et al.,(2006:27). Este documento estratégico de revitalização (Plano) pressupõe ainda: 75

90 Capítulo 3 Instrumentos de gestão e revitalização A relação entre a estratégia apresentada para a área e as estratégias existentes a outras escalas (cidade/região/país); Os valores chave e princípios gerais a seguir por todos os objetivos mensuráveis coerentes entre si; relação existente entre as metas, os objetivos e o contexto; A definição de abordagens e métodos concertados para atingir os objetivos; A clarificação dos compromissos, responsabilidades e recursos que cada um dos atores acordou aplicar no processo de revitalização (em especial das autoridades públicas); e A descrição geral do processo a longo prazo; cronograma; programas oeracionais, projetos e ações isoladas que no seu conjunto darão resposta integral aos objetivos (Moura et al., 2006:27). O planeamento é uma atividade eminentemente política, e por isso, deverá ser estratégico e integrador, orientado para a ação, proativo e contínuo. Planear já não é mais a mera feitura dos planos, mas antes o assumir da flexibilidade e dinamismo que acompanham as crescentes complexidades e mutações dos nossos dias (Gunn, 1988, cit. Henriques, 2003:205). Figura 4 - Faseamento do processo de planeamento estratégico Organização Análise e diagnóstico Formulação da estratégia Definição do plano de ação Implementação e monitorização Gestão, coordenação e comunicação do plano estratégico Fonte: Alves, (2007:15). Segundo a figura anterior, são cinco as fases do processo de planeamento estratégico: a organização, análise e diagnóstico, formulação da estratégia, definição do plano de ação e implementação e monitorização, que passamos a explicar: A organização consiste na tomada de decisões relevantes no que respeita à liderança do processo, à realização do trabalho técnico, à dinamização e processo de participação e, finalmente, à comunicação. O diagnóstico é a etapa inicial, o ponto de partida e solidez de todo o processo. Deve estar orientado para os dados que explicam os fatores-chave do território (pessoas e qualidade de vida, território, acessibilidade, ambiente e sustentabilidade, economia, cultura e identidade). Exige-se maior cuidado ao nível do rigor técnico, grau de aprofundamento e procedimento científico (DGOTDU, 1996:51; cit. Alves, 2007). A formulação da estratégia consiste na definição do modelo de território que a comunidade deseja para o futuro, e na forma de o conseguir alcançar. 76

91 Capítulo 3 Instrumentos de gestão e revitalização Uma vez desenvolvidas as estratégias propostas, devem as mesmas ser traduzidas em programas específicos através de um conjunto de ações. A implementação do plano consiste na execução do mesmo e a monitorização consiste na avaliação face aos objetivos traçados, feita através de um conjunto de indicadores que permitem acompanhar o desenvolvimento do plano. Segundo Esteve (1999:167), o processo de planeamento estratégico possibilita que as cidades disponham de um projeto integrado e participado, com uma visão possível e objetivos concretos, determinados pelos seus cidadãos. E é na dinâmica de relacionamento e colaboração entre os atores urbanos que cada vez mais assenta o êxito dos planos estratégicos, pois é com base nessa dinâmica que se consegue atualmente liderar a gestão global das cidades (Alves, 2007:52). A cooperação entre os atores urbanos é hoje uma condição necessária para se fazer uma gestão estratégica dos territórios (ver figura seguinte). Figura 5 - Componentes da gestão estratégica territorial GESTÃO RELACIONAL ESTRATÉGIA + = TERRITORIAL GESTÃO ESTRATÉGICA Fonte: Esteve (2001) Como síntese, podemos afirmar que encontramos, subjacente a esta abordagem, um novo modelo de desenvolvimento e de governança que implica o conjunto da cidade, que se rege por critérios de sustentabilidade, e em que a criatividade e a capacidade de inovação das pessoas, empresas e instituições será, cada vez mais, uma fonte de geração de valor acrescentado urbano e, portanto, de atratividade (Alves, 2003:52) O MARKETING ENQUANTO FERRAMENTA DE GESTÃO E REVITALIZAÇÃO O marketing de cidades constitui uma área de aplicação do marketing relativamente recente mas de vital importância para a sustentabilidade das cidades e regiões. O marketing enquanto instrumento de gestão desempenha um papel indispensável no desenvolvimento urbano. A transformação dos centros históricos em locais atrativos para viver, trabalhar, 77

92 Capítulo 3 Instrumentos de gestão e revitalização investir e visitar passa pelo ênfase nas oportunidades da área e pela captação de investimentos (Batista, 2008:44). Os processos de reabilitação dos centros históricos devem, por isso, ter em atenção a adoção de estratégias orientadas para o mercado e para a reestruturação da própria imagem. O poder que tem uma cidade para atrair pessoas e atividades determina a sua capacidade competitiva. As cidades vêem-se obrigadas a conseguir contextos favoráveis à competitividade, promovendo a sua oferta territorial. As cidades necessitam de desenvolver uma gestão eficaz que lhes permita atrair novas empresas e reter as já existentes, atrair novos residentes, ativar o turismo, realizar eventos com relevância em escalas mais alargadas, envolver os seus próprios residentes no desenvolvimento da cidade e exercer influência no cenário regional, nacional e internacional (Friedmann, 2003:5, cit. Alves, 2007). Verifica-se uma exigência crescente para uma abordagem estratégica à gestão urbana. Essa gestão urbana deveria assentar, não só no passado, mas em princípios de natureza empresarial, ser estratégica e orientada para o mercado (Van den Berg & Braun, 1999, cit. Alves, 2007). Consiste num novo formato de gestão urbana, que permitirá às cidades melhorar a sua qualidade global, posição competitiva e responder às necessidades dos seus diferentes utilizadores (residentes, investidores, trabalhadores, estudantes, turistas e visitantes) (Elizagarate, 2003:43, cit. Alves, 2007). Trata-se de realizar uma gestão urbana mais respeitadora da identidade e da vocação dos sistemas locais, valorizando as potencialidades das cidades. Neste contexto o marketing assume-se como essencial para as cidades e é hoje uma componente básica na gestão de espaços urbanos, procurando potenciar a cidade no seu conjunto, através da melhoria dos serviços, melhoria da imagem da cidade, organização das funções de acolhimento em equipamentos e atividades (Martinez, 2003). É um guia útil de orientação para a cidade que permitirá identificar oportunidades adequadas aos recursos, capacidades e competências, ajustadas aos diferentes públicos, criando valor. A aplicação do marketing ao planeamento estratégico das cidades proporciona um conjunto de instrumentos que permitem quantificar e avaliar os seus recursos, bem como identificar as orientações que devem adotar para satisfazer as necessidades dos seus diversos utilizadores (Alves, 2007:55). Esta abordagem do marketing, conforme figura 6, deve situar-se no início do processo de planeamento estratégico das cidades, pois permite: 78

93 Capítulo 3 Instrumentos de gestão e revitalização Escolher a proposta de valor adequada aos diferentes públicos; Criação de valor na cidade (o que é a cidade perspetiva estática; o que quer ser perspetiva dinâmica); Comunicação interna e externa do valor oferecido pela cidade (Alves, 2007:54). Figura 6 - Marketing e planeamento estratégico Plano estratégico da cidade Onde estamos Para onde vamos Orientação para o mercado Satisfação das necessidades dos públicos O marketing estratégico aplicado à Gestão Urbana Marketing de cidades A cidade como produto Fonte: Alves (2007), adaptado de Elizagarate (2003). O planeamento do marketing tem início quando um grupo de cidadãos com diversas funções e interesses na urbe se reúne e identifica os problemas e as suas causas. Em seguida desenvolve-se uma visão de longo prazo assente nas potencialidades, oportunidades e recursos, para depois ser implementado um plano de ação que envolva vários níveis de investimento e transformação (Kotler, Haider e Rein, 1999: 19-20, cit. Batista, 2008). Procura-se influenciar o sucesso do local mediante a satisfação e atração dos seus potenciais mercados. Os diferentes targets devem ser tidos em conta pelas estratégias do marketing e vão desde os habitantes, trabalhadores e empresas aos turistas, visitantes e àqueles que encontram no espaço urbano um local de lazer e uma série de serviços, como a educação, a saúde, a cultura ou o comércio. O marketing será bem sucedido sempre que os vários públicos encontrem respostas às suas expetativas no local, o que compreende as seguintes atividades: Mix apropriado às caraterísticas e serviços da comunidade; 79

94 Capítulo 3 Instrumentos de gestão e revitalização Criação de incentivos dirigidos aos atuais e potenciais compradores e utilizadores de bens e serviços; Fornecimento de bens e serviços de forma acessível e eficiente; Promoção dos valores e imagem do local para que os vários públicos percebam as vantagens distintivas (Kotler, Haider e Rein, 1999: 18, cit. Batista, 2008). Tal como um produto, as caraterísticas da cidade são um instrumento para competir e diferenciar-se de outras cidades, com as quais pode estar em competição para atrair clientes, projetando, simultaneamente, a sua imagem e identidade. Ora, a identidade das cidades afigura-se como a envolvente histórica, os valores e os aspetos que definem a cidade, pelo que está, por um lado, intimamente relacionada com o património histórico e a cultura e, por outro, com a visão dos públicos alvo, acerca do que é verdadeiramente identidade (Elizagarate, 2008, cit. Barroso, 2010). A identidade está hoje ligada ao potencial do lugar e a imagem constitui o centro da sua atratividade. As cidades são cada vez mais conhecidas pelas capacidades que afirmam possuir e pelas representações que fazem de si, sendo por isso importante a gestão da imagem, através da qual as cidades revelam as oportunidades que podem oferecer (Alves, 2007:55). É de capital importância que a cidade encontre essa identidade, o chamado espírito do lugar, o seu ADN territorial, isto é, os seus elementos de distinção, que a tornam única, inimitável e reconhecida pelo mercado e a partir dos quais se poderá diferenciar e obter uma vantagem competitiva sustentável (ver figura 7). É então importante identificar os atributos, recursos naturais e ambientais, bem como outros ativos relacionados, potenciadores de valor e que, por isso, devem ser fortalecidos e desenvolvidos para sustentar o crescimento da cidade e assim projetar a sua imagem, quer ao nível interno, quer a nível externo (Barroso, 2010:13). A qualidade de vida, os atributos atuais e potenciais que os cidadãos gostariam de encontrar na cidade para viverem são outro aspeto relacionado com a identidade das cidades. Estes atributos ou caraterísticas devem estar vinculados com a cultura, com os fatores económicos e os estilos de vida (Barroso, 2010). A identidade das cidades deve gerar um posicionamento competitivo, diferenciador e reforçador dos atrativos da cidade, tanto para os seus públicos internos, como externos, o que só é possível mediante a construção de uma identidade clara, forte, rica e efetiva (Barroso, 2010:13-14). 80

95 Capítulo 3 Instrumentos de gestão e revitalização Figura 7 - ADN territorial Território Caraterísticas do lugar Produtos/ Funções Pessoas Fonte: Alves (2007), adaptado de Yellow Road (2007). Surge assim um novo conceito de cidade ligado à introdução da identidade nos campos concetuais do marketing de cidades. Esta nova conceção baseia-se no património histórico e na identidade cultural, pelo que novos acontecimentos culturais de caráter nacional e internacional devem ser projetados, como por exemplo por museus, galerias de arte, exposições, concertos musicais, espetáculos teatrais, ópera, dança e festivais cinematográficos, entre outros, enquanto se regeneram também as atividades comerciais tradicionais, isto é, as feiras, mercados medievais e produção de produtos de origem, que no seu conjunto, permitem conceber a cidade como um destino atrativo e diferente dos demais, enriquecendo simultaneamente, a sua perceção relativamente a outras cidades (Barroso, 2010:14). Quadro 5 - Definições de marketing territorial/ marketing de cidades AUTOR(ES) Ashworth & Voodg (1988) Kotler et al. (1993) Gold & Ward (1994) Van den Berg et al. (1999) Carli (1999) DEFINIÇÃO O marketing de cidades descreve formas através das quais as cidades podem melhorar a sua posição competitiva no mercado ( ). O marketing de cidades pode então ser descrito como um processo através do qual as atividades urbanas se relacionam com as procuras de consumidores-alvo, de forma a maximizar o funcionamento económico e social eficiente do território em causa, de acordo com os seus objetivos. O marketing territorial terá sucesso quando os stakeholders, como os cidadãos, trabalhadores e empresas, encontram satisfação na sua comunidade, e quando os visitantes, novos negócios e investidores conseguem satisfazer as suas expetativas. O marketing territorial significa conceber o território de forma a satisfazer as necessidades dos seus mercados-alvo. A promoção territorial é a utilização consciente de publicidade e do marketing para comunicar imagens seletivas de áreas geográficas específicas a audiências-alvo. O marketing urbano consiste no conjunto de atividades destinadas a otimizar o ajustamento da oferta de funções urbanas à sua procura por parte dos residentes, empresas, turistas e visitantes. Desta forma, o marketing urbano é simultaneamente um princípio de gestão bem como um conjunto de ferramentas. O marketing do território é uma função que contribui para o desenvolvimento equilibrado do território, através da conceção e 81

96 Capítulo 3 Instrumentos de gestão e revitalização Valdani e Ancarani (2000) Cidrais (2001) Latusi (2002) implementação de uma interpretação das caraterísticas da oferta que satisfaça segmentos da procura atual e potencial. Esta satisfação realiza-se através da criação de um valor líquido positivo. A análise dos objetivos dos stakeholders e dos mercados dirigida a construir, manter e reforçar trocas vantajosas entre os diferentes agentes (marketing territorial interno) e com os públicos externos de referência (marketing territorial externo), com o fim último de aumentar o valor do território e a sua atratividade, ativando um círculo virtuoso de satisfação/atratividade/ valor. Análise, planificação, execução e controlo de processos concebidos pelos atores de um território, de modo mais ou menos concentrado e institucionalizado, que visa, por um lado, responder às necessidades e expetativas das pessoas e das entidades e, por outro, melhorar a qualidade e a competitividade global de uma cidade (e o território adjacente) no seu ambiente concorrencial. O marketing territorial baseia-se na aplicação dos conceitos e dos instrumentos operacionais de uma função empresarial a um contexto particular, constituído por uma área geográfica. Fonte: Alves (2007), adaptado de Gilodi (2004). O marketing territorial apresenta-se segundo duas abordagens que representam, por sua vez, duas componentes, a estratégica e a componente operacional. Essas abordagens, apontadas na figura que se segue (figura 8), são as seguintes: Abordagem de desenvolvimento (pensar e planear o território), centrada nas condições de desenvolvimento do território, procura qualificar a oferta territorial, com vista a satisfazer os vários segmentos da procura e assim gerar valor; Abordagem de comunicação (vender o território), centrada na difusão de imagens e na gestão da informação (Alves, 2007:59). Figura 8 - Dimensões do conceito de marketing territorial Marketing territorial interno SATISFAÇÃO Stakeholders Marketing territorial externo COMPETITIVIDADE ATRATIVIDADE Utilizadores Mercados Fonte: Alves (2007), adaptado de Ancarani (1996). O marketing estratégico aplicado à cidade requer que se trabalhe a comunidade local, permitindo que esta satisfaça as necessidades do seu público alvo. Essa satisfação será obtida quando os visitantes, residentes, negociadores e investidores atingirem as expetativas desejadas (Kotler, et. al., 1993, cit. Barroso, 2010). As cidades devem reforçar a capacidade de adaptação ao mercado, aproveitando as oportunidades de forma a manter a 82

97 Capítulo 3 Instrumentos de gestão e revitalização vitalidade, conduzindo, por sua vez, à satisfação das necessidades dos seus mercadosalvo: visitantes e turistas; residentes e trabalhadores; negócios e indústrias e mercados de exportação (Kotler, et al., 1993, cit. Barroso, 2010). Podemos assim definir marketing de cidades como um conjunto de competências e/ou ferramentas de gestão, através das quais é possível: Compreender a oportunidade competitiva de uma cidade; Definir uma estratégia competitiva eficaz com base nessa oportunidade e nos interesses dos diversos stakeholders envolvidos; Realizar as intervenções necessárias para implementar as orientações estratégicas definidas, estimulando a atuação; Comunicar com os atuais e potenciais utilizadores da cidade (Caroli, 1999, cit. Alves, 2007). As cidades devem ser capazes de responder, de forma adequada, às necessidades e perspetivas dos diferentes públicos (ver quadro 6). Quadro 6 - Mercados alvo do marketing de cidades. 1. Visitantes e turistas 2. Residentes e Trabalhadores Visitantes de negócios (que participam em feiras, reuniões e convenções, compradores Profissionais liberais (cientistas, médicos, etc.) e vendedores) Trabalhadores especializados Turistas e viajantes Pessoas ricas Investidores Empreendedores Trabalhadores não especializados 3. Negócios e Indústrias 4. Mercados de Exportação Industria pesada Outras localidades dentro dos mercados Indústria ligeira (montagem, empresas locais prestadoras de serviços, etc.) Mercados internacionais Empreendedores Fonte: Adaptado de Moreira & Silva (2007) e Kotler et al. (1993) Os objetivos do marketing de cidades devem ser estabelecidos tendo em conta o respetivo contexto urbano, a sua macro envolvente territorial e o respetivo processo de desenvolvimento socio económico. Por outro lado, a estratégia de marketing de uma cidade, do ponto de vista metodológico, deve estar subordinada aos objetivos de desenvolvimento sustentável assumidos pelas entidades responsáveis pela respetiva gestão territorial (Alves, 2007:62). Os objetivos de desenvolvimento estão na origem dos objetivos de marketing que forem fixados, derivando de uma visão de futuro para a cidade. A estratégia de marketing tem assim como referência de fundo essa visão (ver figura seguinte). 83

98 Capítulo 3 Instrumentos de gestão e revitalização O marketing de cidades favorece as condições que permitem extrair os recursos mais adequados para o processo de desenvolvimento, contribuindo dessa forma para a competitividade e atratividade das áreas urbanas. Figura 9 - Articulação entre marketing e estratégia de desenvolvimento VISÃO para a cidade Objetivos de desenvolvimento Fonte: Alves (2007). Objetivos de marketing da cidade Nestes termos, o objetivo estratégico do marketing de cidades consiste em criar as condições para a melhor relação entre a oferta urbana e os diversos segmentos da sua procura. Para realizar esta finalidade geral, tornam-se fundamentais duas tarefas, concretamente: Desenvolver uma chave de leitura da cidade, em função da satisfação das exigências da sua procura atual e potencial; Caraterizar e atrair os componentes da procura que são portadoras de recursos adaptados/ajustados ao processo de desenvolvimento sustentado da cidade (Alves, 2007: 64). Figura 10 - A abordagem operacional do marketing de cidades Criar condições para melhor fruição da cidade Componentes operacionais do marketing Comunicar os fatores de atratividade da cidade Fonte: Alves (2007). De acordo a figura 10, acima apresentada, o marketing de cidades está centrado no desenvolvimento das condições necessárias para materializar as componentes estratégicas, e são elas: criar melhores condições de utilização da cidade, intervindo, por um lado, sobre o produto território, neste caso o produto cidade e, por outro lado, no apoio aos utilizadores da cidade, nomeadamente na fixação de empresas na cidade. A comunicação dos fatores de atratividade da cidade consiste em dar a conhecer aos atuais e a potenciais utilizadores da cidade os seus pontos fortes, através da difusão do posicionamento estratégico pretendido e/ou na realização de ações direcionadas a divulgar as oportunidades que representa a cidade. 84

99 Capítulo 3 Instrumentos de gestão e revitalização Apresenta-se, de seguida o percurso metodológico a ser adotado na definição de uma estratégia de marketing para as cidades, que consiste num roteiro/ resumo de operacionalização. No marketing de cidades, o diagnóstico territorial constitui a primeira fase do processo de formulação da estratégia. Com efeito, devemos começar por conhecer detalhadamente o território objeto de estudo, para, a partir daqui traçar as linhas de orientação estratégica (ver figura seguinte). Assim, as componentes do diagnóstico no marketing de cidades são as referidas na figura 11, que passamos a descrever: Componentes do território: análise dos elementos materiais e imateriais que caraterizam uma cidade, destacando-se a vocação. É a compreensão da identidade da cidade, determinada pela vocação, a identificação dos elementos de diferenciação através dos pontos fortes, pontos fracos e competências centrais; Oferta territorial concorrente: identificação dos concorrentes e espaços de mercado ainda não ocupados; Segmentos da procura: diferentes tipologias de procura da cidade (interna e externa); Posicionamento: é a forma como é percebida a cidade pelos diferentes públicos. Figura 11 - Percurso metodológico do marketing de cidades DIAGNÓSTICO ESTRATÉGIA POLÍTICA OPERACIONAL Componentes do território Ações sobre a oferta territorial Oferta territorial concorrente Segmentos da procura Ações de promoção Segmentos da procura Posicionamento Ações relativas à organização Posicionamento Ações de comunicação Fonte: Adaptado de Caroli (1999). 85

100 Capítulo 3 Instrumentos de gestão e revitalização Concluído o diagnóstico, é possível formular a estratégia de marketing, através do desenvolvimento de um projeto de oferta que pode ser direcionado para duas vertentes diferentes: Oferta urbana fundamentada na vocação da cidade; Oferta urbana baseada numa inovação radical. Em síntese, o marketing operacional constitui o suporte e materialização das decisões de segmentação, posicionamento e de estratégia face à vocação da cidade (Elizagarate, 2003:161). A operacionalização da estratégia de marketing desenvolve-se através de quatro áreas de intervenção, que constituem os instrumentos operacionais do marketing-mix territorial: 1. Intervenções sobre o produto território (ações que visam adequar, modificar ou inovar a oferta da cidade), incide em dois domínios: Desenvolvimento de projetos inovadores; Realização de grandes eventos. 2. A promoção, centrada fundamentalmente na atração de investimentos, organizações e pessoas, através das seguintes ações: Criação e gestão de contactos com a procura potencial; Assistência técnica à tomada de decisões. 3. Organização, que consiste na coordenação dos diferentes atores/ agentes que controlam as diversas componentes da oferta da cidade (autarquia, associação empresarial, grupos culturais, associações de cidadãos, clubes desportivos, instituições de apoio social, etc.). 4. A comunicação: serve para transmitir ao público-alvo o posicionamento e as vantagens competitivas da cidade. É o suporte necessário das estratégias que permitem alcançar os objetivos de marketing fixados (Elizagarate, 2003: ). Pode ser interna (dirigida aos públicos internos: residentes, empresas locais, trabalhadores, estudantes, investidores, entidades, etc.), cujo objetivo principal consiste em reforçar a auto-imagem ou externa (dirigida a públicos externos: turistas e visitantes, empresas externas, investidores externos, etc.), cujos objetivos consistem em captar a atenção desses públicos para a cidade e reforçar o posicionamento competitivo (Elizagarate, 2003:174). 86

101 Capítulo 4 O turismo: estratégia de intervenção e desenvolvimento do centro histórico CAPÍTULO 4 O TURISMO: ESTRATÉGIA DE INTERVENÇÃO E DESENVOLVIMENTO DO CENTRO HISTÓRICO INTRODUÇÃO O papel do turismo no desenvolvimento urbano de cidades históricas e/ou monumentais pode contemplar-se desde perspetivas diversas. Neste capítulo vamos contemplá-lo sobretudo como fator de desenvolvimento urbano integral, isto é, como experiência integrada, capaz de induzir uma nova dinâmica de crescimento das cidades. Trata-se de um novo modelo de desenvolvimento assente em critérios de sustentabilidade, que implica a cidade como um todo. Nas cidades históricas a planificação turística, urbanística e do património cultural não podem continuar a ser ignoradas. São três pilares básicos para lograr uma recuperação urbana integrada e um turismo sustentável (Cortez, 2001). Torna-se essencial repensar o desenvolvimento sustentável turístico do centro histórico, de uma forma integrada e abrangente, contextualizado quer em termos setoriais (turismo), quer em termos espaciais (da cidade e dos seus centros históricos) (Henriques, 2003). Sendo sinónimo do uso dos recursos ao longo do tempo, a conservação deverá fazer parte do planeamento do turismo sustentável. O conceito de conservação deve estar assim articulado com conceitos de reabilitação e renovação. De facto, através da conservação, os recursos mais importantes para o turismo são mantidos no espaço urbano num contexto de sustentabilidade. Torna-se então essencial que as políticas urbanas das cidades históricas definam estratégias de conservação, dinamização e gestão do património urbanístico e arquitetónico. Essas políticas deveriam ir mais além dos aspetos relacionados com o espaço público, regulação do tráfico e estacionamento. Neste capítulo abordaremos várias teorias que estipulam como os centros históricos podem ser geridos no sentido de respeitar os princípios de sustentabilidade e preservação do património, com o fim de se tornarem, entre outros, em destino turístico apelativo. 87

102 Capítulo 4 O turismo: estratégia de intervenção e desenvolvimento do centro histórico 4.1. A VOCAÇÃO TURÍSTICA DOS CENTROS HISTÓRICOS E A TURISTIFICAÇÃO Numa breve abordagem teórica ao conceito de turismo urbano, este pode ser entendido como a prática que os turistas têm em visitar cidades e utilizar os seus serviços e funções (Page, 1995:9, cit. Pereiro, 2009:288). Sobrevém como uma forma de urbanização orientada para o consumo de bens, de serviços e de lazer. O turismo aparece, assim, como uma resposta aos processos de pós-industrialização, intensificados nos anos 1990 em toda a Europa (Pereiro, 2009:288). De facto, o turismo acompanhou a cidade no decurso da sua evolução ao longo dos tempos e todos os processos de intervenção aos quais esteve sujeita. Foi, por isso, fundamental compreender o significado da intervenção (não turística) no espaço urbano ao longo da história, descrito em capítulos anteriores, de forma a percebermos o uso turístico da cidade. Do fim da cidade anunciado com o processo de suburbanização, passou-se a partir dos anos de 1980 e 1990, a um regresso ao centro. Do esvaziamento e fuga para a periferia, caraterísticos do efeito donut passou-se para a recuperação dos centros das cidades, caraterizada pelos processos de intervenção e políticas de reabilitação urbana. A cidade revitaliza-se e ganha de novo vida (Pereiro, 2009:288). A cidade torna-se de novo atrativa, inicia-se em muitos casos uma fase de reurbanização, remetropolização, em suma, a cidade está de regresso (Batista, 2003:36). O turismo começa a afirmar-se enquanto componente central no sistema mundial das cidades, integrando-se num processo dinâmico que vai do fordismo para o pósfordismo, do desenvolvimento industrial para uma forma informal no modo de desenvolvimento, do modernismo para o modernismo radical, da modernidade para a pósmodernidade, e da internacionalização para a globalização (Henriques, 2003:36). As cidades passam a assumir um significativo valor económico e sociocultural, justificado pelas funções que oferecem tanto a residentes, como a visitantes. São reestruturadas como centros de consumo, como destinos turísticos. Entre 1980 e 1990 reconhece-se que o turismo urbano é um fenómeno em crescimento, com reflexos na requalificação e valorização funcional da cidade. É assumido como um eixo estratégico de uma política de gestão urbana que se deve propor e combinar com uma oferta competitiva visando ir ao encontro das expetativas dos visitantes e contribuir 88

103 Capítulo 4 O turismo: estratégia de intervenção e desenvolvimento do centro histórico para o desenvolvimento da cidade e do bem-estar dos seus habitantes (Henriques, 2003:39). Figura 12 - O turismo pós-moderno e pós-fordista Turistas: Evoluíram do Sun lust para o Sun plus. Mudanças demográficas. Turistas experientes. Independentes. Valorizam a qualidade. Maior nível educacional. Mudança de valores. Mudança de estilos de vida. Versatilidade de gostos. Procura intensa de novos produtos. Busca a autenticidade da cultura local e ou a híper realidade. Distinção exigida pela cultura do consumo da nova classe média. Globalização do espaço turístico e generalização do olhar do turista. Produto Diferenciado. Segmentos específicos (super segementos). Nichos de mercado. Pacotes complexos resultantes de uma engenharia de produtos flexíveis. Produto mosaico. Produto por medida de massas. Fatores de desenvolvimento Liberalização do espaço aéreo. Pressões a favor da defesa do ambiente. Proteção dos direitos dos consumidores. Flexibilização do gozo de férias. Desencanto dos países receptores de turismo com os custos e os benefícios do turismo de massas. Novo Turismo Amigo do Ambiente. Sensível à cultura e ao património criativo. Espaço turístico: Evolução dos conceitos de planeamento (participado, estratégico e para o desenvolvimento sustentável). Complexidade do planeamento turístico. Evolução do conceito de ciclo de vida do produto. Turismo sustentável. Compromisso entre o Planeamento Estratégico e Desenvolvimento Sustentável. Reabilitação dos espaços turísticos tradicionais. Novo Urbanismo e Turismo. Fonte: Ferreira (2003:131) Utilização das Novas Tecnologias Sistemas de informação. Sistemas de decisão global. Sistemas de reservas por computador. Internet. Adoção generalizada por todo o setor turístico das novas tecnologias. Tecnologias que comunicam entre si. Produção/Gestão Global e Local. Inovação. Redes. Integração diagonal. Produção flexível. Subcontratação. Super segmentação centrada no consumidor. Procura de nichos. Integração do marketing com o desenvolvimento do produto. Montagem complexa do pacote turístico. Fidelização do cliente, através da qualidade. Importância do capital humano e da sua formação. Trata-se do novo turismo, amigo do ambiente, sensível à cultura e ao património criativo (figura 12). O turismo é favorecido pelos processos de revitalização dos centros históricos das cidades, pelo património e urbanismo neles existentes, que passam a marcar o interesse dos consumidores, pela oportunidade de lá fazerem compras e de encontrarem animação. De facto, está a assumir-se que as cidades constituem um tipo de destino turístico cada vez mais importante. Caraterizadas por população elevada, por serem pontos focais de comércio, indústria, finanças, serviços de saúde, educação, governos, cultura, religião, por serem pontos nevrálgicos na rede de transportes, entre outros aspetos, oferecem uma variedade de experiências que captam um número significativo de visitantes. Desde indivíduos motivados para visitar familiares e amigos até indivíduos motivados por negócios, cultura, etc. (Henriques, 2003:39). Aumenta assim a tendência de viajar para as cidades. Estas são atrações turísticas por excelência, e a razão da visita a estes espaços prende-se com o grande número de 89

104 Capítulo 4 O turismo: estratégia de intervenção e desenvolvimento do centro histórico oportunidades culturais e de lazer que podem ser desenvolvidas pelos visitantes. O turismo urbano é considerado um segmento em expansão (Ferreira, 2003). A zona mais visitada das cidades é, regra geral, a mais antiga, a chamada cidade velha, o casco histórico, que tem sabido manter as suas múltiplas funções e serviços através de processos de regeneração urbana. Nos nossos dias, a cidade histórica depende das práticas dos turistas. Embora a motivação principal dos visitantes que se deslocam à cidade seja a de visitar as suas atrações e recursos em termos turísticos, acabam por utilizar restaurantes, lojas de recordações e outros serviços. Integrando o núcleo das motivações para a deslocação, o turismo necessita assim de atrações para se desenvolver, justificando, por si só, a existência de transportes, de instalações, de serviços ou de sistemas de informação. Apesar de poderem usufruir de toda a gama de serviços e produtos da cidade, as instalações mais utilizadas pelo turismo podem ser agrupadas em três categorias: alojamento; restauração e atrações diferentes (Ashworth, 1990:63; 2000:60-65, cit. Ferreira, 2003). Há, no entanto, um conjunto de elementos que exercem um efeito de sedução sobre os turistas, adicionando valor à experiência turística. Neles estão incluídos, para além dos monumentos e complexos com significado histórico e patrimonial, os museus, eventos, teatros, pubs, restaurantes, mercados de rua e lojas (Jansen Verbekke, 1998:98, cit. Ferreira, 2003). Num contexto do novo paradigma urbano, em que os centros históricos abandonados ou degradados têm vindo a ser objeto de operações de regeneração, os recursos culturais e patrimoniais foram transformados em atrações turísticas, através de parcerias, sensíveis aos vários interesses em jogo. Muitos locais antes considerados desinteressantes transformaram-se em centros de grande atração, verdadeiras capitais do turismo porque, para fins turísticos e de lazer, qualquer cidade pode ser uma cidade histórica, desde que exista o saber e a experiência para captar os fluxos de visitantes e melhorar a qualidade de vida dos seus residentes (Ferreira, 2003: ). Quadro 7- Serviços incluídos nos "clusters" de visita dos centros históricos 1 - Os serviços fornecidos diretamente aos clientes individuais, normalmente na presença do consumidor, que incluem clusters relacionados com atividades de compras de lazer, artes/artesanato/antiguidades, restauração e serviços pessoais públicos e privados. 2 - Serviços ao cliente indiretos e impessoais. 3 - Serviços na área da cultura, das artes, do entretenimento. 4 - Função residencial. Fonte: Ferreira (2003), adaptado de Ashworth e Tunbridge, (1990: ). 90

105 Capítulo 4 O turismo: estratégia de intervenção e desenvolvimento do centro histórico Os serviços prestados aos clientes, face a face, nas cidades turísticas e históricas, são tão apreciados pelos residentes como pelos turistas, conforme referimos no quadro 7. Estes locais estão localizados no centro da cidade, em muitos casos, numa área de compras pedonal, que tende a ser objeto de promoção sistemática. Quando os turistas efetuam as suas compras de lazer, também valorizam, tal como os residentes, a história do local, a pequena dimensão das lojas do centro, os percursos pedonais que facilitam os fluxos constantes de pessoas (ver figura 13). Figura 13 - Áreas funcionais da cidade turística e histórica Utilizadores (Procura) Residente na cidade Residente na área da cidade Experiência lúdica Visitante de conferência Trabalho local Ligações Funcionais Utilizadores (Recursos) Monumentos históricos Museus Galerias Teatros Salas de concerto Clubs noturnos Cafés Restaurantes Lojas Escritórios A cidade histórica A cidade cultural A cidade de vida noturna A cidade das compras Fonte: Adaptado de Batista (2008) e Henriques (2003). A cidade turística A relação com a história é transmitida aos objetos adquiridos, como obras de arte, peças de artesanato e antiguidades, na medida em que, por norma, são relacionadas com atmosfera do centro histórico e possuem elementos que denotam, a sua origem. A atmosfera do local é associada à tradição, à longevidade e ao bom gosto, e a sentimentos de estabilidade, confiança e continuidade que se transferem do edifício para o ocupante (Ferreira, 2003:243). O turista é um grande consumidor de bens e serviços, a sua presença dinamiza os diversos setores da vida da cidade, gera riqueza e emprego e introduz novas modalidades de consumo e usos do solo urbano (restaurantes, hotéis, comércio turístico, estacionamentos, etc.). Potencia, em primeiro lugar, o desenvolvimento de ramos de atividade que cobrem diretamente as necessidades de consumo dos visitantes (hotelaria, 91

106 Capítulo 4 O turismo: estratégia de intervenção e desenvolvimento do centro histórico restauração, comércio e serviços de ócio e recreio) e impulsa, também o desenvolvimento de oportunidades (previstas no quadro 8) e de outros setores de atividade ao ter um importante efeito multiplicador (Martín, 1998). Neste sentido, o turismo de cidade constitui uma prática vinculada ao excursionismo, funcionalmente diferente do turismo residencial de férias estivais caraterístico do âmbito litoral. Em suma, trata-se de um turismo de curta duração que tende a polarizar-se nas cidades e que converte o património cultural em objeto de consumo (Vaquero, 2003). Quadro 8 - Fatores que facilitam o desenvolvimento de oportunidades Acessibilidade à área de destino. Possibilidade de escolha de uma gama muito diversificada de atividades que vão ao encontro das preferências dos turistas. Combinação de atividades dentro dos limites dos seus orçamentos temporais. Desenho de cidade de modo a transformar as redes de percursos que os ligam em zonas interessantes e bem cuidadas. Sinergia funcional entre as várias facilities urbanas. As cidades sempre foram vistas segundo duas perspetivas: como geradoras de fluxos turísticos (emissoras) e, ao mesmo tempo, recetoras de turismo e turistas (Pereiro, 2009:288). Porém, a partir de 1970 as cidades deixaram de ser apenas pólos emissores de turistas, passando o turismo a converter-se no caminho para a inversão do declínio das cidades (Henriques, 2003:38-39; Pereiro, 2009:288; Pinheiro & Santos, 2012). A partir do momento em que as cidades ganham a potencialidade de não deixar fugir os seus habitantes como também de atrair visitantes estão criados os alicerces para se constituírem enquanto destinos turísticos. É o encontro do prazer na cidade (Henriques, 2003:43). Segundo Cruz (2005), a relação entre o turismo e o centro urbano pode, do ponto de vista espacial, ocorrer por três situações distintas, em que o urbano antecede o turismo, a urbanização acontece simultaneamente ao turismo ou o turismo antecede a urbanização. A incorporação do turismo nos espaços urbanos, quando não ocorre de forma espontânea, pode ser promovida a partir de políticas e projetos de turismo direcionados para uma função turística (Cruz, 2005). Fonte: Ferreira, 2003:215. A relação entre turismo e espaço urbano traduz-se fundamentalmente na indiscutível capacidade que tem o turismo de (re)organizar o conteúdo dos territórios à sua conveniência, no intuito de criar as condições para que o mesmo possa acontecer (Pinheiro & Santos, 2012:277). O turismo tem o espaço como o seu principal objeto de consumo, atuando dinamicamente no processo de (re)produção espacial. 92

107 Capítulo 4 O turismo: estratégia de intervenção e desenvolvimento do centro histórico Muitos exemplos existem na Europa e por todo o mundo da conquista do espaço urbano pelo turismo, ligados à reconversão das frentes ribeirinhas, nos últimos anos (Boston, Baltimore, S. Francisco, Londres, Glasgow, Roterdão, Génova, Berlin, Barcelona, Bilbau, Lisboa, entre outras cidades), onde foram localizadas novas atividades e nova paisagem. Nesses espaços onde se erguiam armazéns semiarruinados, gruas, terminais de mercadorias e estabelecimentos industriais que sobreviviam com dificuldade, encontram-se hoje hotéis e residências de qualidade, lojas de comércio especializado, vastas áreas de restauração, salas de espetáculo e museus (Henriques, 2003:43). As medidas de reutilização de antigas áreas industriais e equipamentos (prisões, quartéis, hospitais, centrais termoelétricas, estações de caminho de ferro, ), entretanto tornados obsoletos, constituem aquilo que se pode denominar de turistificação da cidade, isto é, a apropriação do espaço urbano pelo turismo. A turistificação urbana alarga o valor do património a novos elementos e áreas da cidade, entretanto valorizadas por novos usos (Henriques, 2003:44). O turismo promove a urbanização turística, que visa a adequação das localidades para a procura de um turismo globalizado (Sánchez, 2010; Cruz, 2005; Pinheiro & Santos, 2012). A relação entre urbanismo e turismo conduz-nos, por sua vez, a dois modelos distintos, sendo eles: as cidades turísticas e cidades com turistas. O primeiro modelo consiste em orientar o espaço cidade única e exclusivamente para a atividade turística, subordinando os habitantes locais aos interesses do turismo, consiste num processo de turistização, monofuncionalização, monumentalização da cidade, em que os estabelecimentos comerciais são convertidos em lojas só para visitantes. Já uma cidade com turistas consiste num modelo multifuncional, onde não existe excessiva dependência do turismo, integrando-o como uma atividade mais da cidade. O objetivo central consiste em tornar a cidade habitável, atraindo turistas que irão colaborar nesse sentido (Pereiro, 2009:288). Segundo Zaratiegui, a cidade turística representa uma forma de olharmos para nós mesmos, o que permitirá enfrentar-nos aos desafios económicos, sociais e políticos com que nos deparamos. Este conceito, através da união entre turismo e património, possibilita mostrar aquilo que somos, não só para atrairmos turistas, mas também para atrair novos negócios, evitar a perda do peso demográfico, permitir o crescimento de novos modelos económicos (culturais, educativos ), resumindo, é uma forma de estar no mercado (Zaratiegui, 2003). É importante retermos o duplo sentido deste conceito a partir do significado de cada uma das palavras que o compõem: cidade para o cidadão local e 93

108 Capítulo 4 O turismo: estratégia de intervenção e desenvolvimento do centro histórico turística para o visitante. Não podemos imaginar a cidade exclusivamente para o turista, ou ao contrário. Em nossa opinião, tal como Zaratiegui já o afirmou (2003:84) este tipo de cidade ou o é para ambos ou não o será. É indubitável hoje a necessidade do crescimento exponencial da importância do turismo para o futuro de muitas cidades (Martínez, 2003). O conceito de cidade turística é um estádio ao qual muitas cidades aspiram chegar para afrontar um mundo como o atual, onde a velocidade da informação, a extensão da mesma, a competência para estar na primeira linha, não só para atrair turistas, requer uma cultura clara e bem sustentada no seu património e na sua história e uma infraestrutura humana bem sólida. Para Henriques (2003), o conceito de cidade turística é também uma metodologia de trabalho que implica, sobretudo, fórmulas de tratamento dos objetivos patrimoniais (base do produto turístico), e que vai ter incidência tanto na atração do público visitante como do público local. Neste contexto assistimos, em suma, à emergência do turismo na agenda económica de muitas cidades. Há muitas razões para tal incluindo a necessidade de substituir indústrias tradicionais, a pressão do desenvolvimento económico por parte do governo central, os efeitos de novas formas de governo urbano (Tyler, 1998, cit. Henriques, 2003:43). A procura do desenvolvimento socioeconómico aliado à necessidade de valorizar, preservar e conservar o património edificado dos centros urbanos tem vindo a promover a (re)adequação destes para fins turísticos, ou seja, a turistificação. Tal medida é fundamentada nos discursos políticos que tratam o turismo como um setor promotor do desenvolvimento das cidades (Bertoncello, 2010, cit. Pinheiro & Santos, 2012) A PRESERVAÇÃO E CONSERVAÇÃO DO PATRIMÓNIO Preservar significa proteger, resguardar, evitar que alguma coisa seja atingida por alguma outra que lhe possa ocasionar dano. Conservar significa manter, guardar para que haja uma permanência no tempo. Desde que guardar é diferente de resguardar, preservar o património implica mantê-lo estático e intocado, ao passo que conservar implica integrá-lo no dinamismo do processo cultural (Barreto, 2001:15). Parte integrante do espaço urbano é o seu ambiente físico, nomeadamente as caraterísticas e elementos arquiteturais, como o layout das ruas ou o mobiliário urbano, os jardins ou o património arquitetónico (Batista, 2008:32). O reconhecimento destes elementos é o ponto de partida para a conservação física dos centros históricos, que são 94

109 Capítulo 4 O turismo: estratégia de intervenção e desenvolvimento do centro histórico parte relevante no processo de revitalização e preservação, bem como do sentimento de pertença e identidade do local. A preservação do património surge da Antiguidade Clássica para a Idade Média, comportando a sua conservação, nomeadamente na reutilização de monumentos, considerados como bens disponíveis que passavam a ser utilizados para outras funções. Mas é na época Renascentista que surgem as primeiras leis de proteção de monumentos e as intervenções tiveram uma abrangência mais global. No século XIX as medidas de planeamento urbano passam a ser caraterizadas por medidas de preservação (Maitland, 2006:1264, cit. Batista, 2008). Com o século XX surge uma cultura de recuperação do património histórico e cultural, a tomada de consciência de que é necessário salvaguardar os bens culturais e os centros históricos. Segue-se um quadro com os documentos internacionais sobre proteção e conservação do património. Desta listagem explicaremos aquelas cartas e recomendações que consideram de alguma forma os centros históricos. Quadro 9 - Documentos internacionais sobre proteção e conservação do património 1931 Carta de Atenas 1954 Convenção de Haya: convénio internacional para a protecção dos bens culturais em caso de conflito armado 1964 Carta de Veneza: II Congresso Internacional de Arquitetos e Técnicos de Monumentos Históricos - ICOMOS Conferência realizada em Washington que deu origem à Fundação do Património Mundial 1972 Convenção para a Proteção do Património Mundial, Cultural e Natural UNESCO 1975 Carta Europeia do Património Arquitetónico Conselho da Europa 1976 Recomendação sobre a Salvaguarda dos Conjuntos Históricos e sua Função na Vida Contemporânea Colóquio sobre a Preservação dos Centros Históricos ante o Crescimento das Cidades Contemporâneas, realizado 1981 Carta de Florença sobre a Salvaguarda de Jardins Históricos ICOMOS 1985 Convenção para a Salvaguarda do Património Arquitetónico da Europa, em Granada Conselho da Europa 1986 Carta Internacional para a Conservação das cidades históricas, assinada em Toledo ICOMOS 1987 Carta Internacional par a Salvaguarda das Cidades Históricas ICOMOS 1990 Carta Internacional sobre a Proteção e a Gestão do Património Arqueológico ICOMOS 1991 Recomendação nº R (91) 13 sobre a Proteção do Património Arquitetónico do Século XX Conselho da Europa 1992 Convenção Europeia para a Proteção do Património Arqueológico (revista) Conselho da Europa 1994 Carta de Lisboa sobre a Reabilitação Urbana Integrada 1º Encontro Luso-Brasileiro de Reabilitação Urbana 1997 Convenção Europeia Para a Proteção do Património Arqueológico (Revista) Convenção de Malta 1999 Carta sobre o Património Construído Vernáculo ICOMOS 2000 Carta de Cracóvia sobre os Princípios para a Conservação e Restauro do Património Construído Conferência Internacional sobre Conservação 2001 Convenção para a Proteção do Património Cultural Subaquático UNESCO 2002 Declaração de Budapeste sobre o Património Mundial UNESCO 2005 Convenção de Faro Conselho da Europa 95

110 Capítulo 4 O turismo: estratégia de intervenção e desenvolvimento do centro histórico 2009 Declaração de Viena 2009 Carta de Bruxelas 2010 Orientações Técnicas para Aplicação do Património Mundial 2012 Republicação da Convenção para a Proteção do Património Cultural Subaquático UNESCO Fonte: Elaboração própria, a partir de A Carta de Atenas, assinada em 1931, foi o primeiro documento de caráter internacional a expor os princípios sobre a conservação e restauração. No art.º 7º, a Carta recomendava já o respeito pelo caráter e fisionomia da cidade, sempre que se procedesse à construção de novos edifícios, devendo ser respeitadas as caraterísticas pitorescas. Esta tomada de consciência do respeito pelo entorno do monumento supõe já um ponto de partida para o posterior desenvolvimento da proteção dos centros históricos (Carta de Atenas, 1931). A partir da Carta de Atenas foram publicados vários documentos internacionais, de índole orientador (cartas, recomendações ou resoluções) ou de caráter obrigatório (convenções que são aprovadas pelos governos), com aplicação a nível nacional, continental ou mundial, abarcando os monumentos e obras de arte, mas também os conjuntos, cidades e sítios históricos. A Segunda Guerra Mundial provocou a destruição de inúmeros monumentos que ficaram completamente demolidos ou em estado de ruína, que necessitavam de serem reconstruídos. A criação da Organização das Nações Unidas potenciará a colaboração entre países e a realização de inúmeros congressos com vista ao estudo do estado de conservação dos monumentos. Daí o levantamento de vozes a favor da defesa do património histórico arquitetónico e social dos centros históricos. Em meados dos anos 60 estabelecem-se os princípios da conservação urbana, no âmbito da era moderna da conservação. Esta inicia-se com dois grandes acontecimentos: a criação do ICOMOS International Council on Monuments and Sites e a Carta de Veneza (1964). A publicação da Carta de Veneza, pelo ICOMOS vem alargar o conceito de conservação até ai existente e ampliar a noção de património arquitetónico, sendo ainda hoje um documento de referência (Aguiar, Cabrita e Appleton, 1997:11-13, cit. Henriques 2003, Ferreira, 2003 e Batista, 2008). Surge assim, nos anos 60, o conceito de património mundial, desenvolvido pelas primeiras campanhas internacionais levadas a cabo pela UNESCO. Estas campanhas 96

111 Capítulo 4 O turismo: estratégia de intervenção e desenvolvimento do centro histórico também contribuíram para que o ICOMOS e a UNESCO compilem informação sobre conservação em cartas internacionais, convenções e recomendações. Segundo o Guia da Organization of World Heritage Cities (OWHC, 1996) é possível delimitar oito princípios relativos à conservação urbana, derivados dos referidos documentos: Identificar as caraterísticas/atributos que dão importância a determinado lugar urbano e asseguram a existência de uma base para desenvolver os meios apropriados de proteção e intervenção; Utilizar um processo sistemático de inventário, investigação e avaliação, para assegurar que os lugares urbanos são avaliados de forma consistente por standards comuns; Considerar os resultados da avaliação de determinado lugar, no âmbito de um plano de conservação identificador dos níveis de proteção requeridos por lugares específicos; Integrar objetivos de conservação do património com outros objetivos de desenvolvimento económico e social no planeamento da conservação; Envolver, desde o início, a comunidade no planeamento da conservação, através da ênfase em programas educacionais e de formação profissional sobre a conservação e através de convocar a participação pública; Assegurar que as diferentes alternativas com impactos nos lugares históricos urbanos (detentores de valores patrimoniais e sociais assim como de valores de mercado tradicionais) sejam avaliadas financeiramente; Encorajar os governos nacionais e regionais a utilizarem os meios legais e financeiros disponíveis para a prossecução de um clima positivo de conservação ao nível local e a apropriarem-se de medidas administrativo-financeiras; Reconhecer que cada problema de conservação é único, requerente de abordagens compatíveis com os valores e circunstancias especiais associadas ao lugar em causa (Henriques, 2003: ). Como já referimos, a partir dos anos 70 e 80, era evidente a ineficácia dos projetos de reabilitação que contemplavam unicamente os aspetos físicos. Surgem assim novos planos de reabilitação urbana, passando as intervenções a ser mais abrangentes, contemplando também a recuperação social e económica. As ações passam a ser devidamente programadas com o objetivo de melhorar a qualidade de vida da população residente (Batista, 2008:33). O potencial da revitalização do património passa a ter um reconhecimento crescente não só em termos culturais mas também em termos económicos e inúmeros países passam a desenvolver programas concertados no âmbito da conservação, reparação, restauro, regeneração e gestão de ambientes históricos. Em 1972, a Conferência Geral da UNESCO, realizada em Paris, aprovou a Convenção sobre a proteção do património mundial, com a finalidade de incentivar a preservação de bens culturais e naturais considerados significativos para a humanidade, considerando o património no seu duplo aspeto: cultural e natural. Segundo esta convenção, é dever de cada Estado identificar, proteger, conservar, reabilitar e transmitir às gerações futuras o património cultural e natural (Convenção sobre a proteção do Património Mundial, art.º 4º, 1972). Este documento foi, segundo Hernández (2003), um dos mais significativos 97

112 Capítulo 4 O turismo: estratégia de intervenção e desenvolvimento do centro histórico até ao momento, pois estabelece os requisitos necessários para que determinados bens culturais possam ser declarados como património mundial. Em dezembro de 1974 durante o I Seminário Interamericano sobre Experiências na Conservação e Restauração do Património Monumental é elaborado um documento, a Resolução de São Domingos, no qual se recomenda a salvação dos centros históricos, que devia fazer parte de uma política de habitação, para que nela se levem em conta os potenciais recursos que tais centros podem oferecer. Afirma-se também a necessidade da contribuição para a conservação e valorização dos centros históricos, por parte da iniciativa pública e privada. A 26 de setembro de 1975 é publicada a Carta Europeia do Património Arquitetónico pelo Comité de Ministros do Conselho da Europa. Este documento vem reconhecer o património europeu como expressão da riqueza e diversidade da cultura europeia, devendo ser considerado como herança comum de todos os povos, sendo necessário para a sua conservação a solidariedade de todos os Estados membros. Esta carta apresenta pela primeira vez um património constituído não somente pelos nossos monumentos mais importantes, mas também pelos conjuntos que constituem as nossas cidades e nossos povos tradicionais em seu entorno natural ou construído (princípio 1). Até à década de 80 o património cultural era visto como uma pesada carga devido ao caráter espiritual e cultural, herdado de gerações passadas, que pouco ou nada contribuía para as receitas da cidade e que, pelo contrário necessitava de enormes quantidades de dinheiro para o seu restauro. A partir dos anos 80 despertou-se para uma nova sensibilidade relativamente à forma de conceber o património cultural que, sem renunciar ao seu caráter espiritual e histórico, começa a ser visto como fonte de riqueza e desenvolvimento económico para a comunidade (Hernández, 2003:267). O Conselho da Europa passa a preocupar-se com a proteção do património arquitetónico e ambiental. O tema base a ser estudado pelas distintas cidades europeias começa a ser o renascimento da cidade e a melhoria de vida urbana. A partir de então as políticas preocupam-se com a reabilitação de edifícios e bairros antigos, de equipamentos sociais, culturais e educativos. Vários Estados começam a estabelecer as primeiras normas protetoras do património e a criar instituições para conservar os bens móveis. Dá-se assim origem a um modo de gestão do património. Em 1986 é elaborada a Carta Internacional para a Conservação das Cidades Históricas durante a reunião que teve lugar em setembro pelo Conselho Internacional de 98

113 Capítulo 4 O turismo: estratégia de intervenção e desenvolvimento do centro histórico Monumentos e Sítios (ICOMOS), na cidade de Toledo. Segundo a Carta de Toledo o fenómeno urbanístico é a expressão material da diversidade das sociedades ao longo da sua história e portanto, as cidades históricas, sejam grandes ou pequenas, bem como as áreas urbanas históricas, com os seus centros ou bairros, constituem a expressão dos valores próprios das civilizações urbanas tradicionais. Este documento refere ainda que urge tomar consciência da necessidade de conservar os bens históricos, uma vez que constituem a memória dos povos (ICOMOS, Carta Internacional para a Conservação das Cidades Históricas, 1986). Em 1987, o ICOMOS redigiu, na cidade de Washington, a Carta Internacional para a Salvaguarda das Cidades Históricas ou Carta de Washington 25, que recomenda que a salvaguarda das cidades e bairros históricos deve, para ser eficaz, fazer parte integrante de uma política coerente de desenvolvimento económico e social, e ser considerada nos planos de ordenamento e de urbanismo ( ). (ICOMOS, Carta Internacional para a Salvaguarda das Cidades Históricas, 1987). Resumindo, nas duas últimas décadas do século XX verificou-se a nível internacional um despertar da consciência cidadã relativamente ao património, tendo vindo a colaborar na sua conservação e valorização. Em Portugal, a primeira noção da necessidade de observar a guarda de edifícios antigos surge no século XVIII, com o primeiro diploma que abrange a vertente patrimonial que para além de alargar o conjunto de bens a preservar, proíbe a destruição de qualquer edifício, punindo os infratores (Batista, 2001:7). As áreas urbanas nunca foram olhadas como um todo, nem foram objeto de uma estratégia de reabilitação concertada, tendo-se assistido apenas a iniciativas isoladas que tiveram como alvo alguns monumentos e edifícios de maior valor histórico. As ações de reabilitação tinham como mote a preservação da traça primitiva, ignorando o processo de evolução dos próprios espaços urbanos (Batista, 2008:34). A reabilitação urbana em Portugal esteve na origem da falta de instrumentos que interviessem globalmente. Por outro lado, medidas como o congelamento de rendas de imóveis arrendados tornaram impossível o investimento, contribuindo assim para a degradação do espaço habitacional urbano (Aguiar, Cabrita, Appleton, 1997: 36, cit. Henriques, 2003). O alargamento do conceito de reabilitação e revitalização foi mais evidente a partir (25) A Carta de Toledo foi aprovada em Toledo, em reunião que decorreu de 7 a 9 de Setembro de 1986, sendo o texto posteriormente ratificado pelo ICOMOS em Washington, em Outubro de

114 Capítulo 4 O turismo: estratégia de intervenção e desenvolvimento do centro histórico da década de 70 e é marcado pela publicação de legislação exclusiva em Portugal, pelo lançamento de programas de reabilitação específicos e pelo surgimento de um planeamento urbanístico pautado pelos Planos Diretores Municipais e pelos Planos de Pormenor. Em 1985 surge o Programa de Reabilitação Urbana, transformado em Programa de Recuperação de Áreas Degradadas (que mais tarde conduziu à criação de Gabinetes Técnicos Locais e de Gabinetes de Centro Histórico) e o Programa de Qualificação de Áreas de Uso Público que permitem que as autarquias locais recorram a apoio especializado no âmbito da definição de políticas de salvaguarda urbana (Ferreira, 1999:120; Batista, 2008:33-34). Concluímos que em Portugal, seguindo os parâmetros internacionais, cada vez mais atenção é dispensada à conservação e preservação do património nos centros históricos. Um tipo de turismo que tira diretamente proveito desta situação é, sem dúvida, o turismo cultural PLANEAMENTO E DESENVOLVIMENTO TURÍSTICO DO CENTRO HISTÓRICO O turismo consiste num dos principais vetores de recuperação urbana (Troitiño, 2000). O turista patrimonial é equiparado ao viajante romântico da primeira metade do séc. XIX. São visitantes cultos e com um elevado poder aquisitivo, e extremamente sensíveis ao património, aos valores que representa, à sua conservação e recuperação. Por isso deve-se apostar no turismo como um vetor de dinamização urbana em sentido amplo (Vaquero, 2003). O turista é um consumidor que consome erres (recuperação, reabilitação, re- criação) e cidades históricas (Delgado, 2000; De la Calle Vaquero, 2002, cit. Pereiro, 2009:288). O turismo cultural urbano estará então ligado ao urbanismo dos três r, traduzido em projetos de revitalização para as áreas mais degradadas da cidade. O turista urbano-cultural é, segundo Manuel Delgado, um recurso fundamental do qual depende em grande medida a prosperidade dessas cidades para as quais se trata de atrair, tanto o visitante eventual como o investidor que escolhe esse cenário para investir ( ) (Delgado, 2003:357). O fenómeno turístico está intimamente relacionado com o desenvolvimento económico a que inúmeras áreas urbanas estão a assistir. 100

115 Capítulo 4 O turismo: estratégia de intervenção e desenvolvimento do centro histórico A aplicação dos princípios do desenvolvimento ao centro histórico subentende, por sua vez, o planeamento e a elaboração de estratégias. O planeamento das áreas centrais das cidades implica o estudo das condições do presente, as perspetivas futuras e a tomada de decisões a partir da informação sobre as diversas variáveis que intervêm no processo turístico, isto é, implica uma estratégia de âmbito local. A estratégia é aqui entendida como o meio de atingir um fim desejado, através do plano estratégico, que consiste num instrumento de gestão, uma espécie de processo metodológico, que estabelece uma visão para o futuro, define um conjunto de objetivos de médio/longo prazo e identifica as ações a empreender para os atingir. O turismo constitui um pilar importante para a economia de muitas cidades históricas, tendo contribuído para se porem em marcha importantes processos de reabilitação arquitetónica e de recuperação urbana. Os processos de intervenção urbana para o turismo recebem várias denominações, entre elas, a de requalificação e revitalização urbana. Segundo Paes (2010:14), estes processos evidenciam-se como mudança formal, funcional e simbólica na produção do espaço urbano e poderiam ser denominados como refuncionalização, posto que a maioria destes tem como objetivo a (re)inserção de funções nos espaços eleitos (cit. Pinheiro & Santos, 2012). Quadro 10 - Modelo de interação entre regeneração dos centros históricos e turismo Regeneração dos centros históricos Modelo de Regeneração Desenvolvimento do turismo cultural Modelo de desenvolvimento do turismo Tipo de planeamento escolhido (estatal ou parceria entre o setor público e privado) Influência da ideologia dominante (intervenções de índole liberal ou de cariz social) Modelo de regeneração seguido (liderado pela reposição da imagem, pela cultura ou pelo turismo) Processo de regeneração do centro histórico Relação entre a reposição da diversidade funcional e da preservação da identidade local Intervenções para diversificar a função residencial Normas de preservação e salvaguarda do património do centro histórico Tipo de interpretação do centro histórico adotado Normas de gestão do trânsito Tipo de planeamento turístico (centrado no estado ou em parcerias) Influência da ideologia dominante (intervencionismo, papel facilitador, não intervencionista) Importância atribuída aos recursos culturais urbanos. Conhecimento dos novos modelos de procura turística Processo de desenvolvimento do produto turístico cultural Regras de transformação do património em atração turística Desenvolvimento do complexo ACE (Artes, Cultura e Entretenimento) e sua função como atração turística Conhecimento do modo de formação dos clusters turísticos (atrações e outros serviços) Conhecimentos da forma como os turistas gerem os seus orçamentos temporais de visita ( tourists time budgets ) Processo de formação dos bairros culturais em centros históricos Objetivos da política comum europeia para a cultura, para o turismo e para o desenvolvimento regional Objetivos da política regional e local para a cultura, para o turismo e para o desenvolvimento regional Objetivos da criação do bairro cultural (vocacionado para a cultura ou para o turismo) Modelo de planeamento e gestão do bairro cultural Fonte: Ferreira, (2003:159). Gestão de fluxos turísticos no centro histórico Intervenções ao nível do volume Intervenções ao nível dos impactos Regulação da frequência 101

116 Capítulo 4 O turismo: estratégia de intervenção e desenvolvimento do centro histórico O quadro que supra mencionado evidencia claramente a interação existente entre centros históricos e turismo. A intervenção no turismo urbano deverá assentar não apenas no planeamento e gestão do turismo mas mais contextualizadamente no planeamento e gestão da cidade (Henriques, 2003:205). Cabe, no entanto, referir que o planeamento aplicado ao turismo raramente está dedicado única e exclusivamente ao turismo; pelo contrário, o planeamento turístico envolve todo um conjunto de considerações económicas, sociais e ambientais que refletem a diversidade de fatores que influenciam o desenvolvimento do setor (Henriques, 2003:205) nas cidades. Na opinião de Miguel Angel Troitiño (2003) para darmos uma resposta adequada, é preciso que as nossas cidades históricas estejam bem organizadas em termos urbanísticos, meio ambiente, oferta cultural, rotas e itinerários pedonais e equipamentos e infraestruturas turísticas. A revitalização urbana não se limita ao objetivo da melhoria da qualidade de vida e do espaço urbano local, é muito mais que isso, uma vez que grande parte dos projetos de revitalização apresentam-se também como um dos instrumentos inseridos no planeamento urbano para concretizar políticas como o marketing de cidade e o planeamento estratégico. No caso do planeamento e gestão do turismo urbano, a estratégia visa essencialmente atingir três grandes objetivos: Assegurar a conservação dos recursos turísticos com valor; Melhorar as experiências dos visitantes que interagem com os recursos turísticos; Maximizar os retornos económicos, sociais e ambientais a ser usufruídos pelos agentes da comunidade anfitriã (Hall & MacArthur, 1998, cit. Henriques, 2003:233). Aplicado ao turismo, o planeamento ocorre sob uma variedade de formas ( desenvolvimento, infraestruturas, uso do solo e dos recursos, organização, recursos humanos, promoção e marketing ), sistemas ou estruturas ( diferentes governos, organizações quase e não governamentais ), dimensões ou escalas ( internacional, transnacional, regional, local e de lugar ) e em diferentes períodos ou tempos ( para desenvolvimento, implementação, avaliação e o atingir satisfatório dos objetivos de planeamento ) (Hall, 2000; Page & Hall, 2003, cit. Henriques, 2003:207). Somente através da planificação turística é possível gerir um modelo de desenvolvimento turístico que implique todos os setores turísticos tanto privados como públicos. Neste sentido, no entender de Castrillo (2003:177) as administrações públicas devem assumir uma função de liderança, seja a nível local ou regional, para a planificação 102

117 Capítulo 4 O turismo: estratégia de intervenção e desenvolvimento do centro histórico do desenvolvimento turístico com participação de todos os setores da sociedade e na procura de se alcançar objetivos de sustentabilidade. Este novo modelo de desenvolvimento turístico deve garantir a eficiência do setor em termos económicos e preservar a identidade da sociedade sobre a que se fundamenta, gerindo a boa gestão dos recursos em proveito da geração futura. Tudo isto conduz à necessidade de considerar de forma integrada e a longo prazo a evolução do turismo nas cidades históricas, e de introduzir uma gestão orientada a aproveitar as suas possibilidades e a minimizar os impactos não desejáveis. Dita gestão, com objetivos distintos em cada fase do desenvolvimento turístico, implica medidas orientadas a incidir sobre a oferta e/ou sobre a procura. Em fases iniciais dominarão atuações orientadas a valorizar a oferta e a atrair a procura. Em fases maduras podem ter importância as ações orientadas para a qualificação, inovação, racionalização, diversificação e compatibilização, evitando qualquer tendência a ultrapassar certos limites. Em fase de declínio é preciso abordar medidas orientadas principalmente a recuperar um equilíbrio compatível com os limites (Palazuelo, 2003). Figura 14 - Princípios e valores do turismo sustentável Metas sociais Metas económicas Benefícios para a comunidade Participação Planeamento Educação Saúde Emprego Satisfação do visitante Valores da comunidade assentes na economia Benefícios económicos para residentes locais e outros agentes Indústria viável economicamente Empresas viáveis economicamente Equidade e conservação Turismo sustentável Integração económico ambiental Manutenção ou expansão da biodiversidade Benefícios provenientes dos recursos Degradação mínima dos recursos Aceitação dos valores dos recursos Delimitação da procura e oferta Design adaptativo Equidade intergeracional Metas ambientais Fonte: Henriques, 2003:

118 Capítulo 4 O turismo: estratégia de intervenção e desenvolvimento do centro histórico Em Espanha, diz o citado autor, destacam-se algumas cidades que, como Santiago de Compostela, Gerona e Salamanca, desenvolveram ideias e propostas interessantes em torno da incorporação da temática turística como eixo do desenvolvimento urbano, pondo em prática uma gestão integrada. Torna-se assim necessário, segundo Palazuelo (2003:423) orientar o produto cidade histórica para que se maximizem os seguintes fatores: sustentabilidade e a duração da estância dos visitantes; um bom equilíbrio dos fluxos turístico-patrimoniais, culturais, meio urbano e entorno local. De acordo com os princípios do desenvolvimento sustentável o planeamento e gestão dos espaços turísticos deve resultar de uma parceria público/privada. A gestão participada, enquanto co-responsabilização dos atores locais para o desenvolvimento sustentável, assume-se como um fator de sucesso nas políticas locais de desenvolvimento sustentável (Henriques, 2003:224). As autoridades locais devem, assim, implicar os seus habitantes e os agentes socioeconómicos nos diversos domínios da gestão local. O desenvolvimento turístico no contexto da sustentabilidade deve estar integrado num processo de planeamento mais abrangente, envolvendo metas/objetivos económicos, sociais e ambientais (ver figura 14). A adoção de um modelo de desenvolvimento do turismo sustentável deve pressupor, na aceção de Donaire (1998), seis princípios básicos, nomeadamente, planeamento, integração, abertura, participação, durabilidade e viabilidade: Turismo planeado na medida em que implica o estudo detalhado das condições do presente, as perspetivas futuras e a tomada de decisões; Turismo integrado, uma vez que a oferta turística deve ser o resultado dos recursos locais; Turismo aberto na medida em que o turismo sustentável é essencialmente uma estratégia de âmbito local; Turismo dimensionado no tempo e no espaço. A dimensão temporal implica a redução da sazonalidade. A dimensão espacial implica determinar a capacidade de carga do território e limitar a afluência de turistas às caraterísticas físicas do espaço; Turismo participativo, pois exige a participação de todos os agentes que intervêm no processo turístico; 104

119 Capítulo 4 O turismo: estratégia de intervenção e desenvolvimento do centro histórico Turismo duradouro. O turismo não pretende apenas assentar no crescimento de curto prazo da procura, mas também nos efeitos de médio e longo prazo derivados do modelo turístico adotado. O turismo sustentável procura integrar o crescimento económico com a preservação do meio ambiente e a identidade local, que são os princípios ativos do desenvolvimento turístico. Este novo modelo de desenvolvimento para as cidades, que deve reger-se por critérios de sustentabilidade, deverá implicar a cidade como um todo. As políticas públicas deverão ser geridas com qualidade e ser capazes de articular a cooperação de todos os atores implicados, de forma a atingir uma participação ativa e responsável por parte dos cidadãos. As cidades veem-se obrigadas a definir uma estratégia de qualificação dos seus recursos humanos, de infraestruturas de serviços, para adquirir a singularidade e notoriedade suficientes nos diferentes subsistemas de cidades às quais pertencem ou se inscrevem, alcançando a suficiente competitividade e capacidade de projeção para atrair novos fluxos e/ou aumentar a sua capacidade de direção ou organização dos mesmos (Esteve, 2003:183). Esteve (2003) faz referência a uma série de fatores que, em sua opinião, determinam o desenvolvimento económico: Formação de recursos humanos; Investigação e desenvolvimento tecnológico; Infraestruturas de acessibilidade externa: telecomunicações; estradas; porto; aeroporto; caminhos-de-ferro; etc.; Infraestruturas de mobilidade interna: circulação; transportes públicos e privados; estacionamento; Indústria, Produção; Comércio e distribuição; Turismo; Ordenamento do território, etc. Em resumo, estamos perante um novo desafio, o de adequar as cidades históricas à função turística, integrando-a harmoniosamente para que se converta em aliada da recuperação urbana. O desenvolvimento turístico nas cidades sustentáveis deveria ser não somente um desejo, senão uma estratégia explícita, necessária para tornar o turismo um marco de compatibilidade com o património, com o meio ambiente, com a sociedade e, também, com a economia (Troitiño, 1998). 105

120 Capítulo 4 O turismo: estratégia de intervenção e desenvolvimento do centro histórico As estratégias turísticas devem integrar-se no conjunto das políticas urbanas, criando condições que permitam compatibilizar a curto e médio prazo a preservação do património cultural e a sua rentabilização económica. A união entre património e turismo permite pensar as cidades monumentais desde um ponto de vista estratégico (Troitiño, 2003) A NECESSIDADE DE GERIR A ATIVIDADE TURÍSTICA NAS CIDADES MONUMENTAIS A importância das oportunidades oferecidas pelo turismo para a revitalização das cidades históricas é inquestionável. O turismo pode contribuir para o desenvolvimento local das cidades ditas históricas. No entanto, começa a detetar-se em certas cidades históricas o transbordar da atividade turística produzido principalmente por: Fases de crescimento rápido, modalidades turísticas pouco compatíveis com a realidade preexistente e/ou excessiva intensidade da atividade turística (Palazuelo, 2003). O transbordar turístico pode acabar repercutindo-se sobre o conjunto do sistema urbano, no que se refere ao meio físico, meio ambiente, espaço urbano e evolução socioeconómica e cultural, podendo chegar mesmo a ameaçar as próprias bases do desenvolvimento local, a médio prazo. Relativamente à sustentabilidade do desenvolvimento local, inclusive turístico, pode falar-se de uma série de limites de câmbio aceitáveis em relação à deterioração patrimonial, físico e ambiental, perda do atrativo turístico e à vulnerabilidade do desenvolvimento social a largo prazo. Martínez (2003) defende que deve procurar-se a valorização das funções que sustentam a cidade e reforça a necessidade de uma visão integrada e dinâmica dos problemas, bem longe da mera conservação passiva que prevalece ainda em muitos casos no planeamento turístico. A reutilização turística do património cultural brinda oportunidades novas para a recuperação urbana, mas há que ser conscientes que o património é frágil e não renovável. Há necessidade de controlo e gestão local dos recursos. O controlo dos processos de turistificação, musealização, e movimento funcional, bem como a preservação física do património, estão muito relacionados com a gestão dos fluxos de visitantes, através da qual pode planear-se a utilização turística do espaço. A diversificação da utilização do espaço implica, em situações de saturação, a descongestão 106

121 Capítulo 4 O turismo: estratégia de intervenção e desenvolvimento do centro histórico dos espaços mais procurados e, em situações de subutilização, a canalização dos fluxos de visitantes por todo o espaço disponível beneficiando os próprios recursos patrimoniais (proteção frente ao uso abusivo de determinados elementos), mas também para o visitante (melhoria da qualidade da sua experiência turística) (Hernández Garcia, 2003). A sobrecarga turística incide a dois níveis: por um lado pode chegar a deteriorar fisicamente os elementos patrimoniais e por em perigo a sua conservação, e por outro lado repercute também sobre a qualidade da experiência do visitante. Neste sentido, um número excessivo de visitantes a um espaço reduzido conduz a sensações de congestão, deteriorando a própria experiência turística. Desta forma, a organização do uso público converte-se num objetivo prioritário da gestão turística do conjunto monumental e pode chegar a retirar determinadas funções (de culto nas catedrais, de investigação nos museus, etc.). A nível urbano, em câmbio, os riscos inerentes a processos de saturação turística devem ser medidos desde outros parâmetros, pois o dano sobre o património está relacionado com a modificação da estrutura socioeconómica e funcional do espaço sobre o que se desenvolve a atividade turística: processos de turistificação e museificação. A saturação e massificação turística conduzem à perda de qualidade da experiência da visita a um destino massificado, provocando o deteriorar da imagem e qualidade global do destino e, portanto, a perda da popularidade turística (Hernández Garcia, 2003:338). Por um lado dá-se a atração de visitantes, a canalização para o património local e por outro a restrição e controlo da visita pública nos locais turísticos massificados. Os estudos de capacidade de carga ou acolhimento turístico têm sido instrumentos utilizados para dar resposta aos problemas de afluência massiva de visitantes em espaços recreativos e para racionalizar o uso abusivo e a deterioração dos recursos. A capacidade de acolhimento como elemento da sustentabilidade implica uma gestão do turismo, na qual os níveis de atividade e desenvolvimento turístico se mantêm dentro de limites assumidos como aceitáveis. Pode ser definida como o número máximo de visitantes que pode conter um determinado destino turístico. Pode e devem estabelecer-se estratégias de gestão que permitam controlar os impactos e os câmbios que introduz o turismo mantendo-os dentro de parâmetros aceitáveis (apontados no quadro 11). Os objetivos básicos para uma correta gestão dos fluxos de visitantes são os seguintes: 107

122 Capítulo 4 O turismo: estratégia de intervenção e desenvolvimento do centro histórico Proteção dos conjuntos patrimoniais mais saturados através da diversificação do uso turístico do espaço; Valorização de espaços patrimoniais sem uso turístico para alargar a estada dos visitantes (nas cidades) e/ou descongestionar os pontos problemáticos; Criação de infraestruturas de acolhimento para os visitantes e melhoria dos serviços que estes utilizam (informação, serviços de restauração, zonas de estacionamento, etc.); Aumento da satisfação dos visitantes relativamente à qualidade da visita turística (Hernández Garcia, 2003:339). Quadro 11 - Impactos turísticos no centro histórico e seus condicionantes Impactos do turismo no centro histórico Desgaste devido ao uso Nível de congestionamento das ruas Tipos de lojas Problemas de estacionamento Novas utilizações para edifícios antigos Criação de riqueza Conflitos entre peões e veículos no centro histórico Congestão Intimidação Atrasos Ruído Mudança da utilização do solo nos centros históricos Pressão para o aumento do número de escritórios Pressão para a construção de hotéis Declínio da população residente Perda de lojas de conveniência Ausência de vida à noite Perda de zonas ajardinadas Pisos superiores vagos Danos nos edifícios classificados Emissões provindas do tráfego de veículos automóveis Vibração Pressão turística Pressão provinda de conversões não apropriadas Falta de manutenção Perda de carácter e de cenário da cidade Crescimento recente dos subúrbios Ocupação dos espaços verdes Obstrução da linha do horizonte Mau tratamento da cidade Impacto na cintura verde Cidade abarrotada Distorção do mercado de habitação Indicadores Número de visitantes Número de lojas para turistas Intensidade da frustração dos residentes Percentagem de lugares nos parques de estacionamento do centro da cidade Nível de congestionamento do tráfego Número de edifícios históricos para uso turístico Número de empregos atribuídos ao turismo Número de acidentes Quantidade de peões Níveis de ruído Número de residentes Número de escritórios desocupados Número de licenças para construção Intensidade do congestionamento devido ao tráfego Percentagem do aumento do preço das rendas Número de pessoas assaltadas à noite Número de edifícios desclassificados Número de edifícios em risco Percentagem do aumento do preço das rendas Volume de tráfego Grau de eficácia da regulação dos fluxos turísticos Quantidade de graffiti Distância do centro às zonas rurais Densidade de área construída compacta Percentagem de espaço aberto por área construída Aumento da perda da visibilidade da linha do horizonte Intensidade da satisfação dos residentes Percentagem de novas construções Aumento da perda de espaço dentro da cidade Nível dos preços dos terrenos para novas construções Aumento do preço das habitações Percentagem de nova construção Fonte: Ferreira, 2003:167. Desde o âmbito da oferta turística, as estratégias de gestão de fluxos de visitantes baseiam-se em medidas que favoreçam um eficaz controlo dos recursos turísticos e no incremento da eficiência dos sistemas de transporte. São medidas fundamentalmente 108

123 Capítulo 4 O turismo: estratégia de intervenção e desenvolvimento do centro histórico encaminhadas a dar resposta às necessidades do aumento da oferta no tempo e no espaço com o objetivo de assegurar um grau óptimo de utilização dos recursos. Neste sentido, o papel da informação é crucial. Os turistas devem estar informados sobre as rotas alternativas que existem para realizar a visita, as vantagens de visitar a cidade ou determinado conjunto monumental em períodos de baixa afluência, os meios de transporte alternativos que existem para aceder à cidade, etc. (Henriques, 2003). Os aspetos mais negativos do turismo, provenientes da animação noturna, da congestão do tráfego e das dificuldades de estacionamento, podem ser resolvidos ou amenizados através do planeamento local e de medidas de gestão urbana e de fluxos turísticos (ver quadro 11). A colaboração entre os departamentos do património e do turismo pode garantir que as funções de identidade não sejam afetadas pela sua transformação em atração turística e facilitar o conhecimento do modo como os turistas usufruem os clusters de atrações. Uma solução consiste em implementar um programa de marketing interno, dirigido aos residentes mais insatisfeitos; reconhecer os problemas relacionados com a limpeza, o tráfego, e o crime, procurando revolvê-los; desenvolver um sistema de monitorização dos impactos e dos níveis de apoio da população local para com as políticas de turismo, que permita a recolha e a confrontação de dados comparativos longitudinais; conduzir um processo de avaliação das políticas desenvolvidas; publicitar as vantagens do turismo de modo a melhorar a sua imagem junto da população local (Ferreira, 2003). Este conjunto de ações facilita o envolvimento da população, de forma constante, na promoção e gestão urbana. Ajuda ainda a reposicionar a cidade histórica, de forma criativa, como uma experiência autêntica e viva. É comum, atualmente, os planeadores urbanos utilizarem o turismo como um meio de revitalização/regeneração urbana. A preocupação com a revitalização/regeneração da cidade histórica ou dos centros históricos é um fator que estreitou as relações entre o turismo, o património e os elementos arquitetónicos. Os gestores turísticos deveriam ser envolvidos, desde o início, na elaboração dos planos de preservação e salvaguarda do património, juntamente com os gestores do património e os responsáveis pelos gabinetes de preservação e valorização do património (Ferreira, 2003:222). 109

124 Capítulo 4 O turismo: estratégia de intervenção e desenvolvimento do centro histórico Concluímos com uma síntese das oportunidades e dos riscos que podem ser gerados pelo turismo no desenvolvimento dos centros históricos, apresentada no quadro que se segue (quadro 12). Quadro 12 - Síntese de oportunidades e riscos gerados pelo turismo no desenvolvimento dos centros históricos PRINCIPAIS ÁREAS E FATORES URBANOS AFETADOS PELA ATIVIDADE TURÍSTICA ÁREAS FATORES MAIS SENSÍVEIS PRINCIPAIS OPORTUNIDADES GERADAS PELO TURISMO LOCALMENTE INTEGRADO PRINCIPAIS RISCOS E IMPACTOS NÃO DESEJÁVEIS PELO ULTRAPASSAR DA CAPACIDADE DE CARGA DO SISTEMA URBANO RISCOS/ÁREA PRINCIPAIS RISCOS GLOBAIS PRINCIPAIS AGENTES IMPLICADOS Património e espaço urbano Desenvolvimento sócio cultural Local Meio ambiente urbano Desenvolvimento sócioeconómico local - Património mais visitado; - Certas zonas da trama urbana; -Acessibilidade e mobilidade geral na cidade. - Valores culturais e identidade local. - Recursos naturais escassos. - Atividades económicas tradicionais; - Equilíbrio da estrutura económica; - Eficiência económica; - Localização de atividades e população. - Valorização do património cultural local; - Possibilidade de recuperação do património local; - Oportunidade de melhorar a paisagem urbana; - Oportunidade de melhorar a trama e infra-estruturas urbanas. - Aumento de actividades e serviços culturais acessíveis à população local; - Incremento de oportunidade de enriquecimento e intercambio cultural - Estímulos para desenvolver melhorias ambientais na cidade. - Desenvolvimento de um setor económico multiplicador da economia local; - Modernização empresarial; - Existência de recursos e agentes para o desenvolvimento económico; - Emprego. - Dano do património mais visitado; - Congestão e deterioro da acessibilidade urbana; - Perda do atrativo turístico; - Deterioro da qualidade de vida local; - Necessidade de investimentos públicos. - Ameaça de dissolução da identidade cultural local - Consumo de recursos naturais escassos; - Aumento de resíduos e poluição urbana; - Perda do atrativo turístico; - Deterioro da qualidade de vida - Desaparecimento de atividades económicas tradicionais; - Perigo de dependência excessiva do turismo; - Inflação, perda de competitividade económica; - Encarecimento do nível de vida; - Deslocalização da população; - Necessidade de recursos públicos para remediar e reconstruir o património local. Fonte: Palazuelo (2003:420). - Deterioro do património cultural local; - Deterioro do meio físico, da qualidade do espaço e da paisagem urbana; - Deterioro do funcionamento geral da cidade (congestão, acessibilidade); - Crise dos valores culturais e locais; - Deterioro do meio ambiente, aumento da poluição; - Perda do atrativo turístico; - Perda da qualidade de vida e incremento de tensões sociais (aumento do nível de vida, segregação sócio-urbanística; - Desequilíbrio, perigo da excessiva dependência do turismo; - Perda relativa da competitividade do desenvolvimento socioeconómico local; - Incremento dos investimentos públicos destinados a paliar a degradação produzida. Administrações locais e regionais Sociedade local Empresários turísticos Turistas Organismos relacionados com a salvaguarda do património cultural 110

125 Capítulo 5. Exercício de Benchmarking PARTE II ESTUDO DE CASO 111

126 Capítulo 5. Exercício de Benchmarking CAPÍTULO 5. EXERCÍCIO DE BENCHMARKING INTRODUÇÃO O problema da crise das zonas centro das cidades é um problema comum à Europa e EUA. As administrações têm vindo a traçar estratégias tendentes a inverter o processo de deterioração dessas zonas. O estudo das experiências que se seguem visa a possibilidade de extrair experiências e elementos que possam ajudar a configurar um modelo de atuação para a nossa realidade. Procurámos, através deste exercício de benchmarking, comparar os procedimentos e níveis de desempenho de outras realidades, no intuito de identificar potenciais melhorias e analisar as boas práticas identificadas. Realizou-se uma comparação dinâmica entre performances de diferentes territórios com vista a adquirir aprendizagem, partilha de informação com aqueles que são considerados como os melhores exemplos. Procurou-se comparar os elementos específicos de desempenho dos territórios estudados, analisando, comparando e identificando oportunidades para realizar melhorias e a exequibilidade das mesmas. O processo de benchmarking é um instrumento poderoso, que permite identificar lacunas, quer de performance, quer ao nível de procedimentos, identificando o potencial de melhoria que o território pode explorar. Os Estados Unidos da América, o Reino Unido e a Espanha são os países objeto do estudo que se segue. O objetivo deste capítulo é assim efetuar uma análise da experiência estrangeira destes três casos e demonstrar os efeitos que representam na revitalização urbana, que é feita sobretudo através de três áreas complementares e cada vez mais interdependentes: a revitalização urbana, as parcerias público privadas e a gestão dos centros das cidades e extrapolar as vantagens estruturais para a nossa realidade O MODELO AMERICANO O modelo de gestão aplicado nos Estados Unidos da América consiste num modelo muito singular e de grande projeção, diferente do que se promove nas cidades europeias. Este modelo surgiu no final dos anos setenta, com a situação de degradação das áreas tradicionais de comércio, em muito afetadas pela expansão comercial para a periferia, 112

127 Capítulo 5. Exercício de Benchmarking dando origem aos gabinetes denominados de Special Assessment Districts (SAD), uma espécie de primeira versão dos Business Improvement Districts (BID). Os BID, cuja tradução significa Áreas de Desenvolvimento Económico e os Main Street Program (MSP), Programa de Rua Central, são os dois exemplos a merecer referência, pela relevância prática que têm assumido, ao nível de modelos de gestão de centros urbanos nos Estados Unidos. Quanto aos primeiros, consistem em organizações semi privadas, sem fins lucrativos, legitimadas para definir e cobrar uma taxa aos proprietários de imóveis comerciais, de uma determinada área, com o propósito de prestar, em contrapartida, um conjunto de serviços complementares àqueles que são assegurados habitualmente pela administração pública (local). Consistem num importante meio para a revitalização dos centros urbanos, que atua como um instrumento financeiro que, permitindo o fornecimento de um conjunto de serviços complementares à atividade empresarial, resulta da cobrança de um imposto ou taxa sobre os proprietários comerciais. O BID carateriza-se pela obtenção de recursos através da tributação extra sobre imóveis valorizados aquando do processo de intervenção, estratégia bem aceite pelos proprietários que assim vêem diretamente reconhecido o valor da propriedade pelo meio que a rodeia (Balsas, 2002). Enquanto que os BID têm por objetivo garantir um mecanismo através do qual os proprietários podem contribuir financeiramente para serviços adicionais nas áreas públicas que circundam os seus edifícios, o The Main Street Program tem por objetivo principal auxiliar as comunidades locais a desenvolverem a estratégia de revitalização comercial integrada que estimule o desenvolvimento económico num contexto de preservação histórica. O objetivo último do Programa da rua central é a criação de um espaço agradável e atrativo que estimule os visitantes a voltarem ao centro (Balsas, 2002:65). A International Downtown Association (IDA) 25 reconhece as seguintes atividades principais dos BID s: planeamento estratégico; realização de pesquisas sobre a área de intervenção; procura e obtenção de recursos financeiros; regulamentação dos espaços públicos e do desenho urbano; intervenção física nas fachadas, passeios e praças públicas; manutenção e limpeza; segurança; contratação de guias; serviços de inclusão social; promoção de eventos e campanhas publicitárias; gestão de estacionamento e transportes privados (Balsas, 2000). (25) A International Downtown Association foi fundada em 1954, com o objetivo de incentivar a melhoria dos centros urbanos das cidades. Realiza estudos e fornece serviços de orientação técnica às organizações associadas. 113

128 Capítulo 5. Exercício de Benchmarking Importa realçar que os BID são um importante meio para a revitalização dos centros urbanos que, atuando como um instrumento financeiro, permitem o fornecimento de um conjunto de serviços complementares à atividade empresarial, conforme se pode comprovar da leitura do quadro 13. Os fundos obtidos são canalizados para melhorar serviços básicos ao público e vão desde o mobiliário urbano, iluminação pública, espaços verdes, limpeza de ruas e das fachadas, a segurança e o estacionamento, incentivos ao desenvolvimento económico ou utilização comum de serviços e campanhas de marketing. Quadro 13 - Principais benefícios dos BID Recrutamento de pessoal de segurança; SERVIÇOS PUBLICOS ADICIONAIS Limpeza e manutenção de parques e outros espaços públicos; Limpeza de passeios; OUTROS SERVIÇOS Remoção de neve; Publicidade, promoções e anúncios; Captação de investimentos Tomada de posições coletivas; DEFESA DOS INTERESSES DO CENTRO Desenvolvimento e promoção de posições de consenso; Monitorização/acompanhamento dos serviços públicos; Publicidade conjunta; COOPERAÇÃO Financiamento de serviços; Apoio a necessidades específicas; FINANCIAMENTO Possibilidade de contrair empréstimos para financiar melhoramentos no espaço público; INVESTIGAÇÃO E DESENVOLVIMENTO Recolha e análise de dados demográficos e económicos; Monitorização de progresso; Estabelecer e rever objectivos; Conceber programas de desenvolvimento plurianuais. Fonte: Adaptado de Barreta, (2009:127). O MSP consiste num programa nacional, criado pelo National Trust for Historic Preservation, em 1977, para a melhoria do aspeto dos centros históricos e comerciais das cidades e ao mesmo tempo criar auto sustentabilidade económica, com vista a prescindir dos recursos públicos. Baseado em parcerias, este programa atua em quatro grandes áreas fundamentais, adaptando-se com facilidade às necessidades e às oportunidades locais: reestruturação económica; coordenação da associação junto dos diversos atores locais; planeamento; promoção, divulgação e desenho urbano. É outro tipo de modelo de gestão, baseado numa visão mais próxima do desenvolvimento integrado, em que a comunidade pode implementar a sua própria estratégia de revitalização, baseada em quatro áreas principais: reestruturação económica, organização, promoção e design (Barreta, 2009:123). 114

129 Capítulo 5. Exercício de Benchmarking O objetivo consiste em criar um espaço agradável e atrativo que estimule os visitantes a voltar ao centro, recorrendo a diversas formas e meios de fomentar a compra, o lazer e a permanência, usufruindo do espaço e das condições que o mesmo tem para oferecer (Barreta, 2009:123). Os MPS assentam em moldes distintos dos BID, são responsáveis pela definição da estratégia de intervenção a implementar, pela angariação de financiamentos e coordenação e participação de voluntários. Dispõem de uma estrutura jurídico organizacional adequada a cada realidade, com representantes locais que constituem o conselho de administração; um conselho executivo; um gestor de programa e quatro grupos de trabalho. Procurava-se fortalecer a economia local atraindo novos investimentos, promover a área central, considerada de área de intervenção, por intermédio da história, da melhoria urbana e de projetos de recuperação e preservação do património (Balsas, 2000; Vargas, & Castilho, 2009). Segundo Loescher (2000), os princípios fundamentais na implementação de uma gestão de centro urbano nos Estados Unidos, são cinco: 1. Entender o centro mais como um meio de vida do que como um centro de negócios, ordenando por ordem de prioridade os interesses da comunidade. 2. Apelar ao sentido de pertença dos residentes, entendendo que os seus valores culturais e identitários não estão só nos prédios mas também na existência das pequenas lojas com tradição. 3. Implementar um processo que chegue à raiz dos problemas e que não fique só em aspetos de lavagem de imagem. 4. Garantir os recursos financeiros. Estes são fundamentais, devendo estar bem orçamentados e ter procedências diversas de forma a garantir uma equipa de trabalho devidamente dimensionada às necessidades do BID a que se refere. 5. Não subordinar o funcionamento e a estabilidade do projeto à cor política. O pacto publico privado deve garantir que a gestão do centro se sobrepõe às mudanças partidárias (cit. Chico, 2007:88). O desenvolvimento comercial nos Estados Unidos passa atualmente pelo retorno ao centro da cidade. O principal objetivo dos formatos de gestão implementados é o contexto urbano ou citadino, denominado pelos americanos de sense of place. De destacar, entre as novas soluções urbanísticas, os destinos comerciais, que conjugam, num mesmo quarteirão, áreas de recreio e lazer, restaurantes, lojas de retalho especializado, lojas alimentares e unidades residenciais (Barreta, 2002:20). Esta tendência deve-se à relevância que tem o comércio local para a habitabilidade do centro das cidades. As ruas principais de muitas cidades que outrora estavam vazias e em decadência urbana, estão hoje a ser revitalizadas e ocupadas com negócios lucrativos com capacidade de atração de muitos consumidores, residentes e visitantes. Várias cadeias de lojas, como por exemplo a GAP e Banana Republic estão a regressar às ruas principais dos centros das 115

130 Capítulo 5. Exercício de Benchmarking cidades. Vários são os motivos, desde o facto de as rendas serem mais baixas e sem os encargos adicionais dos centros comerciais (como custos com manutenção, segurança e outros serviços comuns), à identidade urbana da localização no centro da cidade. Quadro 14 - Resumo do modelo de gestão americano Forma jurídica Estrutura orgânica Financiamento Entidade semi privada sem fins lucrativos: BID s eram cooperativas de comércio Composta por uma Junta Diretiva na qual estão representadas tanto a parte privada como a pública. As principais funções da Junta são: fixar objetivos, controlar a execução das atividades e colocar em funcionamento o gabinete técnico, com a figura do gerente; O MSP é composto por um conselho de administração com representantes locais (conselho executivo, gestor do programa e 4 grupos de trabalho vocacionados para: reestruturação económica, organização, promoção e desgin. Cobram um imposto obrigatório aos proprietários dos imóveis da sua área, garantindo o financiamento da instituição e a viabilidade do projeto; Geram recursos através da prestação de serviços; MSP: a comunidade implementa a sua própria estratégia de revitalização, angaria fundos e coordena Fonte: Adaptado de Barreta (2009; Chico (2007) e Balsas (2002) 5.2. O MODELO INGLÊS Foi o modelo inglês de gestão dos centros comerciais fechados dos inícios da década de 80 do passado século que inspirou a administração pública na resolução dos problemas dos centros de cidades na Inglaterra. As primeiras experiências de gestão de espaços urbanos tiveram início nos condomínios onde os proprietários e empresários geriam de modo comum o espaço comercial (Chico, 2007). A primeira experiência de gestão público privada surgiu na cidade de Redbridge em 1986, através de um modelo de gerência de centro urbano que tinha por base a implementação de ações de promoção e desenvolvimento da área central da cidade, tendo sido posteriormente imitado por muitas outras cidades inglesas. Os objetivos assumidos pela política de planificação do modelo inglês eram os seguintes: Fomentar e manter a vitalidade do centro da cidade e sua viabilidade; Centrados no benefício que supõe para o consumidor o efeito proximidade do comércio de retalho, propor modelos alternativos de transporte; Manter um comércio retalhista eficiente e concorrente; 116

131 Capítulo 5. Exercício de Benchmarking Garantir a diversidade comercial e de serviços própria dos centros das cidades (Chico, 2007: 89). A iniciativa partiu do setor público, nos finas dos anos 80 e começo dos anos 90, através da criação dos Town Centre Management (gestores de centro urbano), que consistia num gabinete técnico sem personalidade jurídica própria mantendo-se por meio de acordos com a administração local, o que gera uma forte dependência desta. Os TCM estão focalizados em estratégias de coordenação de recursos para se atingir um objetivo comum. Visam uma resposta integrada a pressões competitivas que envolvem o desenvolvimento, a gestão e a promoção de áreas públicas e privadas nos centros das cidades, com benefícios para todos os intervenientes. Assume a modalidade de parceria público-privado, incumbida do melhoramento geral do centro urbano, do marketing local e/ou organização de campanhas de promoção (Barreta, 2009). ESTRATÉGIA AMBIENTE ACESSO SEGURANÇA COMÉRCIO PROMOÇÃO Quadro 15 - Principais Vertentes contempladas pelos TCM Definir o problema e formular um plano de ação Melhorar o ambiente das ruas e a fachada das lojas Boa sinalização, bons estacionamentos e bons transportes públicos Policiamento e integração de habitação em áreas comerciais Promoção do comércio e satisfação do consumidor Marketing de cidade Fonte: Comércio, Cidade e Projetos de Urbanismo Comercial (Barreta, 2007) As linhas gerais de atuação são delineadas no sentido de complementar os serviços das entidades/autoridades locais, regenerar e reabilitar o centro da cidade e aumentar a sua vitalidade comercial. A ação dos TCM está centrada em torno da gestão, que assume três tarefas essenciais: a definição de um plano de atuação onde são traçadas as prioridades; a coordenação e a facilitação do diálogo e comunicação. Na Inglaterra a política visava a redução do financiamento do Estado. Os Town Center Management (TCM) transformam-se assim na política de destaque nas cidades da Europa Ocidental. Baseados na filosofia da gestão comercial centralizada dos centros urbanos, procuram melhorar o ambiente construído, a acessibilidade e sinalização, a segurança, incentivar o uso residencial e a promoção do comércio local. Nasce a figura de gestor, auxiliado por um conselho de administração que é constituído pelos parceiros e um conselho consultivo de suporte técnico. 117

132 Capítulo 5. Exercício de Benchmarking Figura 15- Componentes para o Sucesso do Centro da Cidade Fonte: Barreta, 2009; Town Centre Management: Opportunities and Challenges (Final Report, June, 2006) No fim do ano de 1991 surge a Association of the Town Center Managemet (ATCM), que presta assistência técnica aos seus membros, por meio da realização de conferências e seminários, formação profissional, certificação e pesquisa sobre áreas críticas. Esta consiste numa ferramenta para a troca de experiências e formação dos gestores de grande utilidade. Assim, a maior parte das intervenções preocupa-se não só em manter as áreas comerciais e os espaços públicos atrativos e agradáveis (abordagem do espaço físico), mas também em desenvolver estratégias bem geridas, financiadas e promovidas (abordagem organizacional) (Barreta, 2009). Surge pela primeira vez na Europa a preocupação e a consciencialização da importância da revitalização urbana associada a programas de regeneração urbana, que incluem a área comercial e a constituição de parcerias para a sua revitalização urbanocomercial. Neste sentido, a revitalização urbana passa a ser feita sobretudo através do estabelecimento de parcerias, pois considera-se que apenas uma atuação concertada dos diferentes atores urbanos pode manter os esforços conducentes à requalificação de sucesso das áreas centrais das cidades. Por último, só uma boa gestão continuada dessas áreas permite manter o sucesso atingido (Balsas, 2002:18). No Reino Unido, há o consenso político de que só através de uma parceria multissetorial é essencial para implementar programas de regeneração urbana. 118

133 Capítulo 5. Exercício de Benchmarking Figura 16 - Possibilidade de Estrutura de Gestão (TCM) Fonte: Small Retail and Town Centre Managemet Scheme: Theory and reality from UK and USA (Hallsworth, A.; Parker, C.; Stefaniak, A.C., cit. Barreta, 2009:129) Figura 17 - Fatores que influenciam os 4 A s da Matriz ACESSIBILIDADE Circulação automóvel e estacionamento; Transportes públicos; Cargas/ Descargas; Peões e ciclistas; Utilizadores com necessidades especiais. ATRAÇÃO Arte, cultura e lazer; Comércio a retalho; Espaços de Negócios; Serviços; Habitação. ANIMAÇÃO Imagem da cidade; Ambiente urbano; Espaço público; Espaço privado. AÇÃO Promoção; Capacidade Organizativa; Gestão; Recursos. Fonte: Adaptado de Comércio, Cidade e Projetos de Urbanismo Comercial, Barreta,

134 Capítulo 5. Exercício de Benchmarking A revitalização urbana passa a compreender a melhoria da componente física, socioeconómica, cultural, histórica e política do centro das cidades. A finalidade consiste no aumento ou melhoria da habitabilidade e contribuir para a sustentabilidade da comunidade local através da atração e aumento das oportunidades de emprego, comércio, recreio e lazer e da garantia de mais e melhores serviços de apoio aos diferentes grupos sociais que residem, trabalham, fazem compras ou simplesmente visitam as áreas centrais das cidades (Balsas, 2002:19). A questão da revitalização do centro das cidades inglesas baseia-se numa matriz, denominada de Matriz dos 4 A s, a qual se define por 4 áreas essenciais para o sucesso do processo de revitalização: acessibilidade, atração, animação e ação (ver figura 17). O estudo Vital and Viable Town Centres: Meeting the Challenge que divulgou a matriz dos 4A's, dá a conhecer um conjunto de ensinamentos e caraterísticas das parcerias público privadas para a revitalização e gestão do centro das cidades no Reino Unido: continuidade, confiança, comunicação, responsabilidade e capacidade (conforme quadro 16). Continuidade Confiança Comunicação Responsabilidade Capacidade Quadro 16 - Caraterísticas das parcerias para a gestão do centro das cidades Uma vez que se trata de resolver problemas complexos que resultaram por vezes de muitos anos de inacção Porque trabalhar em grupo e atingir objetivos comuns envolve mais do que o simples assinar da proposta de colaboração É importante saber que é responsável por determinada tarefa e para isso é necessário uma comunicação efetiva entre as parcerias Quando os parceiros em questão se sentem responsáveis por um determinado programa de trabalhos não abandonam a parceria sem que os resultados esperados sejam alcançados Assim que os primeiros investimentos dão resultados práticos, os parceiros estão prontos para legitimar as suas ações e avançar para projetos mais arrojados Fonte: Balsas (2002) Um grupo composto por 70 gerentes de centro urbano elabora, em 1993, um documento denominado de Planning Policy Guidance Note 6, o qual passa a servir de plano diretor das intervenções realizadas em núcleos urbanos, a partir de então. Eram estabelecidas as seguintes linhas de trabalho: Planificação prévia para dinamização do centro das cidades; Promoção de um bom desenho urbano incluindo dotações de estacionamentos atrativos e com segurança; Desenvolvimento e manutenção de usos importantes do centro; Impulsionar a gerência de centro urbano e desenvolvimento de standards de serviços para melhorar a qualidade para os usuários do centro; Fomentar o envolvimento de investidores privados por meio de parcerias que participem junto da administração local num processo de planificação amplo do centro da cidade. 120

135 Capítulo 5. Exercício de Benchmarking A vitalidade e viabilidade do centro ver-se-ão melhoradas por meio de uma direção e promoção eficiente. Nesse sentido, é recomendável a eleição de um gerente de centro urbano que permita o desenvolvimento de vínculos entre iniciativas público-privadas (Chico, 2007: 90). Segue-se, um quadro resumo do modelo inglês (quadro 17). Quadro 17 - Resumo do modelo de gestão inglês Forma jurídica Estrutura orgânica Financiamento Não tem personalidade jurídica própria, mantendose por meio de acordos pontuais; Iniciativa que parte do setor público, embora não tenha participação direta na estrutura orgânica do gabinete; Parceria público privada incumbida da melhoria geral do centro urbano, que complementa os serviços das entidades/ autoridades locai, que procura reabilitar o centro da cidade e aumentar a vitalidade comercial. Há uma espécie de descentralização dos recursos desde o Estado até às autoridades locais. Algumas cidades negoceiam fórmulas alternativas de financiamento com entidades privadas, que garantam maiores recursos. Entre as formas de atrair capital privado estão a emissão de bónus, os incentivos fiscais e as subvenções dos juros dos empréstimos bancários. Fonte: Adaptado de Barreta (2009; Chico (2007) e Balsas (2002) 5.3. O MODELO ESPANHOL Em Espanha os modelos de intervenção no espaço urbano tiveram origem em problemas semelhantes aos que conduziram à criação dos dois modelos de gestão anteriores, nomeadamente, a degradação progressiva dos centros das cidades e do seu tecido comercial. Na década de 90, no seguimento da celebração de diversos congressos e encontros de entidades comerciais e organismos da administração pública, as Câmaras de Comércio e Indústria espanholas, reunidas na cidade de Toledo, aprovam a chamada Declaração de Toledo, que contempla o que Molinillo Jiménez (2002, cit. Chico, 2007:92), denomina de princípios gerais da estratégia de reabilitação/revitalização comercial dos centros urbanos, em especial os de caráter histórico, que são os que se seguem e que convergem com a filosofia de pacto público privado: Subordinar as atuações para garantir a conservação do património histórico; Resolver o problema da integração dos centros históricos na cidade, clarificando o seu papel e potenciando os seus valores de centralidade e representatividade histórica; Compatibilizar a renovação e modernização urbana com a manutenção e recuperação dos valores públicos dos cascos históricos, a personalização racional de áreas concretas, a conversão de espaços públicos em áreas de convivência e desenvolvimento social e o fomento do retorno e consolidação da população residente, entre outras; 121

136 Capítulo 5. Exercício de Benchmarking Formular em termos económicos realistas e com o consenso social as intervenções e normas necessárias para atingir estes objetivos; Reconciliar a atividade urbanística e a comercial através de um instrumento operativo e globalizador; Conseguir um quadro de aceitação de compromissos públicos e privados para promover a revitalização dos centros históricos envolvendo todos os coletivos que aí operam num projeto de ação conjunta (Molinillo, 2002, cit. Chico, 2007:93). Por trás desta declaração estava a chamada Declaração de Málaga, assinada em Torremolinos (Málaga) em 1999, que incluía dezanove propostas de atuação, de entre as quais destacamos: a promoção de instituições de gestão integrada dos centros urbanos, nomeadamente as gerências de centro de cidade que impliquem as técnicas dos centros comerciais de forma a promover a publicitação e o marketing do centro urbano, estabelecer linhas de financiamento por parte das administrações envolvidas e diversos planos quer aos coletivos de associados, quer aos comerciantes, quer aos residentes, com o objetivo da melhoria geral do espaço urbano (Chico, 2007:93). O tema da gestão dos centros urbanos em Espanha surge quase sempre associado à questão dos centros comerciais abertos (CCA), como uma boa prática conducente à revitalização dos centros urbanos. Os processos de gestão de espaços urbanos adotaram assim o formato de CCA como filosofia de atuação nos princípios de revitalização, entendido como uma organização do comércio e dos serviços retalhistas do espaço urbano duma cidade dentro duma planificação urbana e comercial (Chico, 2007: 95). São agrupamentos de estabelecimentos comerciais em espaço urbano, com imagem uniforme, em termos de oferta global da área, mediante: prestação comum de serviços; cumprimento de um mesmo horário; uso de um logótipo; prestação conjunta e integrada de atividades de ócio, lazer e animação, entre outros. Constituem objetivos deste tipo de estruturas: reforço do espírito de cooperação entre os comerciantes; envolver autarquias e associações empresariais; melhoria da utilização do estacionamento; reforço das zonas pedonais cuidadosamente arranjadas; criação de zonas de ócio (esplanadas, zonas verdes, parques infantis, praças públicas, etc.); reforço da segurança; melhoria das condições de limpeza e higiene e todas as medidas que pretendem dar corpo a duas ideias fundamentais: recuperar a clientela perdida, nomeadamente, residentes e visitantes e reforçar a influência do comércio local. No caso espanhol não existe uma única forma jurídica nos processos de gestão de centros urbanos, embora se constate uma presença maioritária da figura de associação sem fins lucrativos. Assumem-se três formatos: 1. Modelo privado (Associações dos Cascos Históricos): incluem-se casos como o Casco Viejo de Bilbao, o Centro Histórico de Málaga e o Barna Center; 122

137 Capítulo 5. Exercício de Benchmarking 2. Público (sustentados nas respectivas Autarquias locais): Gandía e Terrasa; 3. Modelos de cooperação público-privada: Bilbao Dendak e Gasteiz. Na criação de centros comerciais abertos verifica-se um recurso ao financiamento público como forma de obtenção dos seus recursos. Quando as associações de comerciantes são transformadas em CCA há uma reformulação do sistema de quotas dos associados que sobe de forma significativa, sendo esse incremento justificado através das contrapartidas e benefícios do novo modelo de gestão. Em Espanha foi constituída na cidade de Madrid a CO.CA.HI. - Confederación Nacional de Asociaciones de Comerciantes de Cascos Históricos de España e dela fazem parte vários centros comerciais abertos: Ciudad Real; Alicante; Ávila; Barna Center; Bilbao; Burgos; Las Palmas; Gijón; Granada; Logroño; Málaga; Panplona; Pontevedra; Palencia; Segovia; Santander; Santiago de Compostela; Teruel; Valencia; Valladolid; Madrid, etc. Quadro 18 - Resumo do modelo de gestão espanhol Forma jurídica Estrutura orgânica Financiamento Presença maioritária da figura da associação sem fins lucrativos Assumem-se três formatos: Modelo privado (Associações dos Cascos Históricos; Modelo público (sustentados nas respetivas Autarquias locais) Modelos de cooperação público privada. Recurso ao financiamento público; Contribuição económica direta dos comerciantes sob a forma de quotas de aderentes; Participação direta de entidades financeiras no processo de gestão do projeto; Fonte: Adaptado de Barreta (2009; Chico (2007) e Balsas (2002) Convém referir que a importância deste tema e das experiências desenvolvidas encontra tradução em numerosos centros urbanos de cidades de muitos outros países, facto bem revelador, não só pelo interesse suscitado pela questão da gestão dos centros urbanos, mas também devido aos resultados já alcançados com as práticas implementadas. A título exemplificativo, podemos enumerar alguns casos, embora apresentem caraterísticas particulares de acordo com o enquadramento legal e realidades vividas nos respetivos países: Estados Unidos (estima-se que existem mais de 2000 Business Improvement Districts ativos, criados na sua grande maioria nos anos 90 (por exemplo: Califórnia, 123

138 Capítulo 5. Exercício de Benchmarking Nova Iorque, Los Angeles, New Jersey, Carolina do Norte, Wisconsin, Filadélfia, Washington, Manhattan, ); Inglaterra (Manchester, Liverpool, Birmingham, Bradford, Shipley, Bingley, Keighley, Bristol, Coventry, Gravesend, Nottingham, Reading, ); Espanha (Madrid, Barcelona, Bilbao, Vigo, Valência, Gandía, Jerez de La Frontera, Antequera, ); Bélgica (sendo exemplos: Charleroi, Wallonne, Liége, Mons, Verviers, ); França (Bordéus, Marselha, Lille, Roubaix, Tourcoing, Le Havre, Neuville, ); Alemanha (mais de 250 em Hamburgo Bochum, Chemnitz, Halle, Dortmund, Duisburg); Canadá (mais de 200 em Ontario, cerca de 60 em Toronto, mais de 20 em Vancouver, mais de 80 municípios e bairros do Quebec, ); África do Sul (mais de 20, a maioria em Joanesburgo); Áustria (Salzburgo, e mais de 60, em especial em cidades de menor dimensão); Austrália, Japão, Nova Zelândia, Suíça, Suécia, Itália, Polónia, Escócia, País de Gales, Irlanda do Norte ( ) (Barreta, 2009: ). Contudo, podemos afirmar, tal como refere Balsas (2002) e Barreta (2009), que os resultados alcançados, devem-se à experiência norte americana, que iniciou, na década de 60, um processo de revitalização urbana. Ao nível europeu, ao tomar-se conhecimento do já ocorrido nos Estados Unidos e das suas consequências, surgiu igual preocupação e a consciência da importância da revitalização urbana associada a programas de regeneração urbana que incluem não só a área comercial, bem como, a promoção e constituição de parcerias para a sua revitalização urbano-comercial (Barreta, 2009:120). Em Portugal foram criadas 60 unidades de gestão, as chamadas UAC s (ver capítulo 2), das quais poucas subsistiram. Chaves também possui uma unidade de gestão, que assume a figura de associação privada sem fins lucrativos, cujos parceiros institucionais são a Câmara Municipal e a associação de comerciantes. Porém, devido à falta de sustentabilidade desta estrutura, que apenas subsiste da gestão das estruturas publicitárias que instalou no centro histórico, os parceiros têm vindo a equacionar o seu encerramento. 124

139 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves CAPÍTULO 6. CARATERIZAÇÃO DO CENTRO HISTÓRICO DE CHAVES INTRODUÇÃO Inicia-se este capítulo com uma caraterização genérica passando, numa fase posterior, para uma análise pormenorizada do centro histórico da cidade Chaves, considenrado todos os projetos de revitalização levados a cabo ao longo de várias décadas em Chaves. Sendo o objeto de estudo a zona histórica da cidade de Chaves, não podíamos deixar de incluir um breve enquadramento, onde será feita uma abordagem territorial, demográfica e do dinamismo socioeconómico; seguindo-se a caraterização histórica, a oferta turística, a acessibilidade, o estacionamento, transporte e circulação pedonal, para depois se considerar a área objeto deste estudo (o centro histórico de Chaves) e a revitalização que lhe está associada. No ponto 6.5. será feita uma análise do centro histórico sobre diversas perspetivas, tendo em atenção a conservação e preservação do património, a diversidade funcional e social, a evolução da morfologia e caraterização do edificado, zonas de densidade populacional e/ou desertificadas, estrutura do território, definição das Unidades Prioritárias de Intervenção, entre outras. Analisar-se-ão estes aspetos de forma integrada, uma vez que a sua observação terá influência direta no espaço em questão. No último ponto deste capítulo (6.6.) abordaremos as iniciativas de requalificação e revitalização promovidas pela Câmara Municipal de Chaves ao abrigo de vários projetos BREVE ENQUADRAMENTO Chaves é um dos seis concelhos da região do Alto Tâmega, situado no distrito de Vila Real, que abrange uma área de 591,3 km 2. É sede de concelho e dista cerca de 60 km da capital de distrito. A Norte faz fronteira com a região de Ourense, da vizinha Galiza, ficando a aproximadamente 10 km de Feces, na raia, que é a primeira localidade espanhola. Confina a Este com os concelhos de Vinhais e Valpaços, a Sul com Vila Pouca de Aguiar e a Oeste com Montalegre e Boticas. Até há pouco tempo era composto por 52 freguesias (conforme figura 14), passando a um total 39, em setembro de 2012, como resultado da nova legislação que levou à agregação de 13 freguesias. Nelas residem atualmente habitantes (INE, 2011) 125

140 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves concentrados na cidade e nas aldeias limítrofes, que foram atingidos por processos de periurbanização (ver quadro 19). Figura 18 - Mapa atual das freguesias do concelho de Chaves Fonte: Fernando Ribeiro (2012) O concelho de Chaves pertence à NUT II Norte e NUT III Alto Trás-os-Montes. Para além do concelho de Chaves, fazem parte da NUT III, Alto Trás-os-Montes, os concelhos de Alfândega da Fé, Boticas, Bragança, Macedo de Cavaleiros, Miranda do Douro, Mirandela, Mogadouro, Montalegre, Murça, Valpaços, Vila Pouca de Aguiar, Vimioso e Vinhais (apresentas na figura). Quadro 19 - Caraterização territorial do concelho de Chaves Localização Alto Trás-os- Alto Trás-os- Montes Montes Área 591,3 Km 2 591,3 Km 2 Freguesias (n.º) População residente Densidade populacional 73,8 hab/km 2 69,7 hab/km 2 Fonte: INE Instituto Nacional de Estatística O concelho situa-se numa posição estratégica de excelência no contexto do noroeste peninsular, desempenhando hoje um papel preponderante, como cidade média, criadora de novas oportunidades e centro de referência da região do Alto Tâmega. 126

141 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves Na Europa sem fronteiras, Chaves deixou de se posicionar numa situação periférica relativamente ao sistema urbano português alargando a sua área de influência a uma sub região transfronteiriça constituída pelos concelhos do Alto Tâmega e Vinhais e pelas Comarcas de Verin, A Limia e Viana, com cerca de 170 mil habitantes (dados de 2011). A sua posição geográfica é ainda reforçada pela confluência de importantes eixos rodoviários, como é o caso do eixo que faz a ligação de Chaves a Viseu passando por Vila Real, Régua e Lamego (A24), do eixo que liga Porto e Braga (A3), que se cruza com a A7 (Póvoa do Varzim Vila Pouca de Aguiar), e da A52 que liga Vigo a Madrid. Figura 19 - Concelhos da NUT III Alto Trás-os-Montes e Tipologia de áreas urbanas no concelho de Chaves Fonte: Caraterização socioeconómica do concelho de Chaves (2004) Chaves, encontra-se a uma hora das duas grandes áreas metropolitanas da Euro Região: Porto e Vigo. Constitui-se, por isso, como uma importante porta de saída e entrada para a Europa. Possui algum dinamismo socioeconómico para o qual as relações comerciais com a Espanha vizinha se tornam fundamentais. O comércio urbano é uma das fontes de rendimento e emprego de grande parte da população que habita na cidade de Chaves e na sua região de influência. É o motor essencial da economia dos flavienses. O concelho é também marcado pela atividade agrícola. A Veiga de Chaves possui solos agrícolas muito férteis cobrindo cerca de hectares, segundo o INE Instituto Nacional de Estatística. Quanto à indústria, têm algum peso as indústrias extrativas e florestais, bem como a exploração de granitos e rochas. Quanto a este aspeto, há um conjunto de projetos 127

142 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves desenvolvidos que marcam o dinamismo do concelho em termos empresariais, como sejam o Parque de Atividades Empresariais, o Mercado Abastecedor e a Plataforma logística. As termas atraem muitos turistas de termalismo, assumindo-se como o principal pólo de atração de visitantes. Estes aqui permanecem, em média, duas semanas, melhorando a procura, sobretudo no Verão, altura em que são em maior número e dotados de maior poder de compra. O rio pode constituir um importante eixo de diálogo com a cidade, simultaneamente urbano e lúdico. Tem servido para realizar alguns concursos de pesca que atraem um significativo número de participantes. Em síntese, a região apresenta inúmeras potencialidades turísticas, além das Caldas recorde-se, nomeadamente, a paisagem, em particular a das montanhas e dos planaltos, com os seus parques naturais, e a dos vales, as barragens, com a beleza dos lagos e a possibilidade de práticas de desportos náuticos, em particular de vela e remo, e de pesca, os seus rios ainda piscícolas, a riqueza cinegética, o património arqueológico, histórico e monumental, a riqueza em castelos, santuários, mosteiros, igrejas, pelourinhos, as aldeias tradicionais, a sua arquitetura rural, as festas populares, as feiras e romarias, o artesanato, a gastronomia, etc. Nesta zona encontramos diferentes espaços tais como o triângulo das águas termais, cujos vértices se encontram em Chaves, Carvalhelhos e Pedras Salgadas e a região do Barroso que envolve basicamente os concelhos de Boticas e Montalegre. Todas as publicações existentes sobre a região, nomeadamente aquelas que são divulgadas pelas instituições locais e/ou regionais, apresentam a região como possuidora de um potencial turístico assinalável. A extraordinária riqueza termal e o importante espólio de património constituem, sem dúvida, a grande atração turística CARATERIZAÇÃO HISTÓRICA Chaves é uma cidade histórica. Herdeira de um passado carregado de contactos com culturas e povos ao longo da sua história, possui um património carregado de significado. As termas estão na sua origem. Aquae Flaviae (Águas de Flávio), que foi a designação dada à urbe romana pelo Imperador Titus Flavius Vespasianus que, ao descobrir a povoação das águas quentes que brotam à face da terra à temperatura de 73ºC, aqui se instalou e permaneceu. 128

143 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves Do passado guardou o granito, as lendas e o nome. A sua riqueza natural, a fertilidade do rio Tâmega e, sobretudo, as águas cálidas da região fizeram com que Titus Flavius Vespasianus aqui quisesse permanecer para além do tempo de repouso e de passagem da sua legião. Assim, em 78 d.c., a região castreja é adotada pelos romanos e uma das formações da Legião, Gémina VII, a quem todos os povos ibérios estavam submetidos, constitui o seu acampamento em Aquae Flaviae com quatro mil homens. A vila ergue-se com as muralhas, cresce com as estradas, homenageia outros imperadores com a construção da ponte dedicada a Trajano e cultiva a fama para os seus balneários termais. Investigações e escavações arqueológicas revelaram um importante vestígio da romanização no concelho. As legiões romanas, há dois mil anos instalaram-se e sediaram onde hoje é a cidade, distribuindo pequenas fortificações pelas alturas circundantes. Edificaram, presumivelmente, a primeira muralha que envolveu o aglomerado populacional e teriam aproveitado para além das águas, explorações de filões auríferos e outros recursos do solo e do subsolo. Chaves Aquae Flaviae, foi um importante município romano, elevado a essa categoria no ano 79 por Vespasiano, então primeiro César da Família Flavia. Em volta das suas termas desenvolveu-se uma grande cidade, para ela convergindo várias vias romanas: a de Braga (Bracara Augusta), a de Artorga (Asturica), a de Lamego (Lamecum), entre outras CARATERIZAÇÃO DA OFERTA TURÍSTICA Importa agora fazer uma caraterização sumária da oferta disponibilizada pelo concelho de Chaves e que poderá constituir a base da sua atratividade e competitividade em termos globais. A oferta turística representa o conjunto integrado de todos os bens e serviços produzidos exclusivamente para consumo dos visitantes e ainda todos aqueles destinados aos residentes mas que também são consumidos pelos visitantes, bem como a imagem geral do destino e os atrativos que oferece. O património histórico e cultural, o comércio tradicional e as Termas de Chaves, são os principais recursos que a cidade de Chaves tem para oferecer ao visitante, e que constituem a base da sua atratividade e diferenciação. A estes três principais elementos acrescentámos as dinâmicas culturais e animação urbana. Património histórico cultural: O centro histórico e cultural de Chaves constitui uma unidade de elevado valor patrimonial, que tem sido, e continua a ser, objeto de diversas intervenções no sentido da sua preservação e valorização. São vários os monumentos que testemunham a diversidade de culturas que aqui marcaram presença, dos quais destacamos: o Museu da Região 129

144 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves Flaviense, o Museu Militar, a Torre de Menagem do Castelo de Chaves, a Igreja Matriz de Santa Maria Maior, Igreja da Misericórdia; Igreja da Madalena, Forte de S. Francisco, Ponte de Trajano, Muralha da cidade. O comércio: Chaves é uma cidade que vive essencialmente do comércio. O concelho continua a ser aquele que apresenta maior peso em termos de número de estabelecimentos no Alto Tâmega, seguindo-se por ordem decrescente os concelhos de Valpaços, Vila Pouca de Aguiar, Montalegre, Boticas e Ribeira de Pena. Segundo dados do INE, Chaves continua a ser o município com maior número de empresas no Alto Trás-os-Montes, apresentando um registo de 3566, seguindo-se Bragança com 3407 e Mirandela que apresenta 2183 empresas registadas. Segundo os dados facultados pela ACISAT Associação Empresarial do Alto Tâmega, relativamente aos setores de atividade de empresas associadas, que representa: O setor do comércio (grossista e retalhista) é o que maior expressão numérica representa, predominando as atividades ligadas ao setor alimentar, com 615 empresas inscritas. O setor da hotelaria e similares é o segundo mais representativo, tendo em conta as 413 empresas inscritas. O número de empresas prestadoras de serviços (184) tem vindo a ter um acréscimo assinalável, para o que contribuiu a criação de muitas empresas a operar em áreas de contabilidade, gestão e consultadoria. A Indústria (com exceção da hotelaria e similares) marca, em termos numéricos, a posição imediatamente a seguir, sendo a sua maioria ligada à transformação e à construção civil e obras públicas (72 empresas). O setor da agricultura e as atividades com esta correlacionadas, continuam a ter, em termos numéricos, pouca expressão, registando-se apenas 10 empresas a operar neste setor. As Termas de Chaves As Caldas situam-se em plena cidade, no Largo Tito Vespasiano, entre o rio Tâmega e a zona urbana medieval. Chaves é hoje um dos mais importantes centros termais da Europa. As águas começaram a ser exploradas pelos romanos há dois mil anos e a cidade desenvolveu-se sempre ligada às Caldas. As Termas de Chaves constituem-se como o principal centro dinamizador do turismo desta região, pelo que tem sido uma das principais apostas estratégicas do Município de Chaves. Sob o lema Tradição e Modernidade no 130

145 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves Caminho da Excelência, foram concretizados durante os últimos anos avultados investimentos de requalificação do Balneário Termal, tendo sido modernizado aos mais diversos níveis. Desde 2004, está a ser desenvolvido um programa de rejuvenescimento das atuais instalações, vocacionando as Caldas de Chaves não só para a vertente de saúde, mas também, para a vertente de bem-estar/lazer termal. Este novo produto será, na opinião do Município, capaz de atrair visitantes à cidade durante todo o ano, dinamizando o período de Inverno no qual a vertente de Termalismo de Saúde tem pouca procura. O balneário vai brevemente entrar numa nova fase de modernização, através do Projeto AQUAE Centro de Competências em Turismo, Termalismo, Saúde e Bem-estar. Este projeto criará o centro de competências AQUAE, que congrega várias vertentes: entro inovador na área do uso sustentável da água, contemplando a prestação de serviços, principalmente na área da saúde e bem-estar, gestão e controlo de qualidade, do desenvolvimento e inovação tecnológica e de transferência de tecnologia; Centro de desenvolvimento de projetos de investigação e de experimentação; Espaço de formação de competências e de divulgação do conhecimento científico e experimental. O balneário flaviense mantém o 2º lugar no ranking da cura termal a nível nacional, apenas superado por São Pedro do Sul. No entanto, em 2012, as Termas de Chaves registaram uma afluência de 5000 termalistas e uma faturação de cerca de um milhão de euros, tendo sofrido uma quebra de 14% em relação ao ano anterior, devido à recessão económica que afeta atualmente tanto a portugueses, como a espanhóis. Segundo a informação facultada pela Empresa Municipal das Termas, houve uma quebra global de 19% no número de aquistas, repartida por uma diminuição de cerca de 20% na cura e 15% nos programas de bem-estar, o que significa uma queda global de 14% a nível de faturação. Estes dados acompanharam a tendência a nível nacional e são explicados pela redução do rendimento disponível das pessoas e menos comparticipação através do Sistema Nacional de Saúde, que se traduziram numa quebra a nível nacional no mercado da cura termal, que é mais caro, demora mais tempo e é o mais procurado. Relativamente à oferta turística, torna-se ainda fundamental fazer uma abordagem sucinta sobre o alojamento, a gastronomia e o artesanato. Alojamento Os indicadores da oferta turística resultam principalmente dos dados disponíveis sobre a capacidade de alojamento, do número, categoria e lugares oferecidos pelos 131

146 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves estabelecimentos de restauração, dos meios de transporte existentes e de outros meios de produção turística. O Alto Tâmega oferece aos seus visitantes, boas condições no setor de alojamento e restauração. Existem vários hotéis, residenciais, casas de turismo rural, parques de campismo e outras modalidades de alojamento muito bem equipadas, que têm um saber receber digno da hospitalidade que carateriza o povo do Alto Tâmega. Segundo os últimos dados do INE (2001), Chaves possui 12 estabelecimentos hoteleiros, sendo que 4 são hotéis. Embora a estada média registada nos estabelecimentos hoteleiros no concelho de Chaves seja de 2 noites, no que se refere aos turistas do termalismo, permanecem em média 10 dias (tempo de duração dos tratamentos terapêuticos). Foi registado em 2010 um total de dormidas de estrangeiros, sendo considerado o segundo destino com maior número de dormidas do Alto Trás-os-Montes, o primeiro é Bragança. O concelho conta ainda com 6 estabelecimentos de Turismo no Espaço Rural e alguma oferta privada. Foi concluído em 2004, o Parque de Campismo do Rebentão, a 3 km da cidade de Chaves, com 3500ha e 300 lugares disponíveis, que veio suprir uma lacuna importante até à data no concelho. Durante o verão, o Parque de Campismo do Rebentão está sempre a completo. Relativamente à oferta turística de Chaves, há ainda que fazer referência ao Hotel Casino de Chaves, pertencente à Solverde, S.A., com um parque de estacionamento com 600 lugares, numa área total de m 2. A localização do Hotel Casino de Chaves é a porta de entrada principal da cidade de Chaves. Situado no topo poente do núcleo urbano em expansão e consolidação, é servido por uma via circular distribuidora do aglomerado, e desta ao acesso direto ao nó da A24. Gastronomia Como mostra dos pratos típicos do Alto Tâmega podemos referir o presunto de Chaves e Barroso, o salpicão, as linguiças, as alheiras, a posta barrosã, o cabrito assado ou estufado, o cozido à transmontana, a feijoada à transmontana, os milhos à romana, as trutas recheadas com presunto, entre muitos outros. Obviamente não nos podemos esquecer dos famosos Pastéis de Chaves que levam o nome da cidade a muitos recantos do país. Este produto pasteleiro, com base de massa folhada e carne picada foi introduzido na gastronomia de Chaves em meados do Século XIX, tendo sido reconhecido o seu registo como indicação geográfica em novembro de 2012, através de publicação no Diário da República. O Município de Chaves tem vindo a apostar na sua divulgação através da introdução da marca Sabores de Chaves", já registada pelo Município no Instituto Nacional de Proteção Industrial, o que permitirá a introdução no mercado de uma marca ligada à 132

147 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves promoção dos produtos regionais, sob a qual serão divulgados os produtos tradicionais de qualidade oriundos da região de Chaves. A marca Sabores de Chaves assenta na valorização de uma imagem de marca, capaz de dinamizar as atividades já instaladas e captar novos empreendedores. Para além de promover os produtos tradicionais do concelho, a marca Sabores de Chaves, permitirá também promover o concelho, a cidade e a região. Figura 20 Marca Sabores de Chaves Fonte: Município de Chaves, (2013) Outro dos produtos típicos é o folar produto à base de massa fofa recheado de carne de porco, salpicão e linguiça. Quanto a doces se refere, o Alto Tâmega também possui variados produtos, dignos de referência, o doce de cereja, o doce de abóbora, o pudim de castanhas, o mel e doce de amêndoas, entre muitos outros. Artesanato O artesanato merece especial atenção, tanto mais que nos transmite também todo um saber de arte e criatividade, pois utilizando métodos ancestrais na criação e reprodução de peças, ele transporta-nos hoje a um tempo longínquo que deve ser recordado e preservado, mantendo-se através dele parte da identidade de um povo. No Alto Tâmega como em muitas regiões do país têm-se vindo a recuperar estas tradições ancestrais. Um pouco por todo o lado surgem escolas, oficinas, ateliers e espaços próprios com o objetivo de não só realizar peças artesanais como também para se fazer uma recolha dos métodos de produção, materiais utilizados e formas de artesanato. O Alto Tâmega é rico em manifestações artesanais, mas aquela que de alguma forma é mais conhecida é o barro preto de Vilar de Nantes. Este artesanato está em processo de certificação, graças ao esforço conjunto da ADRAT, da Associação de Artesãos de Vilar de Nantes, Turismo do Porto e Norte de Portugal e da Câmara Municipal de Chaves. Podemos dizer que atualmente as peças de artesanato, de uma forma geral, não só são úteis, como também são dignas peças decorativas. 133

148 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves Dinâmicas culturais e animação Quanto às dinâmicas culturais e animação há a considerar as infraestruturas disponíveis, das quais podemos realçar as seguintes: Museu da Região Flaviense; Biblioteca Municipal; Antigo auditório municipal; Novo auditório municipal; Auditório Forte S. Neutel; Largo das Freiras; Centro Cultural. Em termos de orientações de política e de animação cultural, a Câmara Municipal de Chaves, inverteu recentemente a sua filosofia de dispersão de apoios pelas diferentes coletividades e associações culturais e recreativas locais, através da criação da Associação Chaves Viva, que passou a ser a entidade responsável pela coordenação e desenvolvimento de todas as iniciativas culturais e de animação na cidade de Chaves. De referir ainda a diversificação de eventos culturais, através da dinamização do Centro Cultural pela Academia de Artes; as constantes exposições de pintura e escultura na Sala Multiusos; semanalmente são realizados eventos culturais diversificados, para além dos eventos marcantes realizados ao longo do ano (em janeiro/fevereio, a Feira dos Sabores de Chaves, na primavera a Bienal de Arte, as feiras do folar de Chaves, do pastel e da castanha, dentro da marca Sabores de Chaves, as festas da cidade no verão e a tradicional feira dos Santos no outono). Existe ainda uma cooperativa de atividade teatral na cidade, o Teatro Experimental Flaviense (TEF), fundada em 1980, que tem desenvolvido um trabalho de teatro amador de qualidade significativa, e a qual a Câmara Municipal apoia com regularidade. Para os amantes da natureza, os motivos de atração são muitos, pois o Alto Tâmega é dono de uma beleza singular quanto a paisagens se refere, convidativa à prática de atividades de lazer e de deportos: bicicleta; desportos equestres, rappel; canoagem; parapente e paraquedismo; golf, entre outros. Após este enquadramento genérico da da cidade, vamos agora proceder a uma descrição mais detalhada da área deste estudo, designada de A.I. - Área de Intervenção, a qual foi objeto da intervenção de vários programas e projetos, tal é o caso dos Projetos de Urbanismo Comercial, do Projeto Municipal de Reabilitação e Revitalização do centro histórico de Chaves (de 1999), dos Projetos Mais Chaves e Mais Urbanidade, do Masterplan e de todos os projetos de animação comercial desenvolvidos pela associação de comerciantes e pela unidade de gestão, e que está integrada na sua totalidade no centro histórico da cidade. 134

149 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves 6.4. ACESSIBILIDADE, ESTACIONAMENTO, TRANSPORTES E CIRCULAÇÃO PEDONAL No que se refere à mobilidade, avançamos com uma análise sucinta que visa essencialmente caraterizar as acessibilidades, os transportes públicos da cidade, o estacionamento e a circulação pedonal e ciclável, com base no Plano de Salvaguarda do Centro Histórico de Chaves (2007), Plano de Desenvolvimento Estratégico de Chaves 2015 (2008) e Quaternaire (2013). Chaves foi até ao presente uma cidade isolada pelos maus acessos que possuía, não podendo tirar partido da excelente localização que detém como fronteira privilegiada de acesso à Europa para toda a Região Norte. No entanto, a construção dos eixos viários recentemente concluídos veio revolucionar o atual estado das coisas, sendo eles: o A24, na ligação desde a fronteira até Vila Real, com continuação para o eixo Régua/Lamego e a A7, que liga diretamente a Guimarães, Braga e Área Metropolitana do Porto (AMP). Estes eixos vieram melhorar substancialmente a ligação ao litoral. Este último eixo assume uma importância estratégica para o concelho, pois constituiu-se como a principal ligação ao mercado europeu, de regiões fortemente exportadoras como sejam a AMP e o Vale do Ave. Da mesma forma Chaves poderá beneficiar de vantagens comparativas induzidas pela nova acessibilidade, para a fixação de empresas industriais. Estes factos são complementados pela proximidade de Chaves à rede de autopistas espanhola, que passa em Verin e faz a ligação Vigo - Madrid, constituindo por isso um excelente canal de escoamento de produtos. O centro urbano de Chaves coincide na sua grande maioria com o centro histórico da cidade, pelo menos no que respeita à zona comercial. Este inclui dois eixos, física e historicamente mais importantes na estruturação da cidade, a Rua de Santo António e a Rua Direita, que se prolonga para a Rua da Ponte e Rua Cândido Sotto Maior. Abrange um conjunto fabuloso de edifícios e conjuntos urbanos que constituem um excelente cenário para o ato do consumo. No entanto, estes edifícios e estes conjuntos confrontam-se com ruas de reduzido perfil, o que dificulta a circulação automóvel e torna necessária uma reorganização do trânsito, que permita outras formas de acesso fácil aos utentes, aos moradores e aos serviços de cargas e descargas (Quaternaire, 2007). Acresce a isto o facto de a grande maioria das ruas terem um único sentido de trânsito existindo já algumas vias totalmente pedonalizadas. Os fluxos de tráfego exurbano são já desviados do centro, através de vias que funcionam no seu conjunto enquanto variante ou circular exterior. O tráfego automóvel no 135

150 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves centro urbano é assim, maioritariamente, o gerado pelas atividades urbanas, pelos habitantes da cidade nas suas deslocações e pelos eventuais visitantes ou turistas. O uso do automóvel é mais acentuado nas zonas limítrofes do casco medieval, assumindo-se como o meio de transporte privilegiado nos percursos intraurbanos e, essencialmente, nas ligações entre as localidades e municípios periféricos. Para tal também contribui o facto do acesso viário a esta área ser condicionado, o que cria dificuldades funcionais aos moradores e comerciantes. Nas zonas circundantes do centro histórico, as vias são largas e devidamente dimensionadas, tornando o trânsito viário mais fluído, verificando-se, no entanto, algum congestionamento pontual devido ao mau estacionamento, nomeadamente em dupla fila e zonas de rotundas. Existem nós de ligação entre eixos principais de acesso ao centro histórico nos quais os congestionamentos são mais frequentes, tal é o caso da rotunda do Largo do Monumento. O principal problema apontado ao centro urbano de Chaves pelos comerciantes e habitantes prende-se com a falta de estacionamento automóvel. Contudo, em termos de estacionamento, verifica-se uma oferta já bastante grande na área objeto de estudo, marcada pela existência de um número alargado de lugares de estacionamento em torno do centro histórico, com especial destaque para: Parques de estacionamento formais (Jardim do Tabolado e zona do rio, plataforma a NW da Torre de Menagem, junto ao Forte de São Neutel, Rua Cândido dos Reis, Lapa e outros); Estacionamento informal, organizado ao longo da via pública; Estacionamento ilegal (zona da Madalena, junto ao rio) e Estacionamento nos espaços residuais do espaço público (como na zona ribeirinha da Alameda do Trajano junto à Ponte Romana); Para além destes, existe um outro espaço disponibilizado pela Câmara Municipal junto ao Largo do Arrabalde e Rua das Longras, que embora provisório e com poucas condições, representa uma oferta adicional em termos de estacionamento (ProCentro, 2008). Acresce o facto de as tarifas serem, em geral, bastante baixas relativamente a outros centros urbanos, o que explica o uso privilegiado do automóvel em detrimento de outras modalidades. Refira-se por fim que o estacionamento desorganizado e informal em alguns pontos da cidade conduz a uma leitura bastante deteriorante da imagem e do funcionamento do espaço público, sendo situações a melhorar pelas estratégias de revitalização urbana. Muitos dos estacionamentos referidos são gratuitos, o que constitui uma mais-valia para o comércio, à exceção do estacionamento formal e informal, onde os parquímetros 136

151 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves foram colocados com o objetivo de garantir um número mínimo de locais de estacionamento, para quem se desloca ao centro por um período mais limitado de tempo, nomeadamente para aí realizar as suas compras ou recorrer aos serviços aí disponíveis. Assim, constatamos que o problema de estacionamento referido, não é propriamente um problema de falta de estacionamento mas antes do espaço que os utentes estão dispostos a percorrer para se deslocarem ao centro urbano. Os bairros e a área envolvente ao centro urbano, que são por excelência zonas residenciais, não dispunha até há bem pouco tempo de sistemas de transporte que permitem a facilidade de acesso à zona urbana sem para isso recorrer à viatura própria, o que contribuía para a sobrecarga de viaturas no centro urbano e pressão em termos de estacionamentos. Recentemente constituiu-se uma empresa de transportes urbanos destinada a cobrir estas necessidades, atuando exclusivamente na malha urbana, fazendo o transporte entre os bairros e zona envolvente e o centro urbano. Constata-se, no entanto, que este meio tem uma adesão baixa como meio de transporte e de mobilidade, sendo preterido sistematicamente pela circulação pedonal e/ou pelo uso do automóvel, quer nas ligações intramunicipais, quer nas ligações entre localidades e municípios vizinhos CARATERIZAÇÃO DA ÁREA OBJETO DE ESTUDO A estruturação do território urbano de Chaves comporta três situações fundamentais, que refletem três grandes fases do seu processo de evolução e crescimento. A parte mais antiga da cidade, que é consubstanciada no seu centro histórico, e que para além da sua apreciável dimensão, apresenta uma elevada qualidade patrimonial, seja no que se refere à estrutura da urbe, seja a conjuntos edificados, seja ainda a elementos arquitetónicos individualizados. Testemunho de uma sedimentação de povoamento com muitos séculos, o centro histórico padece dos males que são habituais deste tipo de áreas: degradação física das edificações, abandono de residentes, desadaptação da morfologia urbana e algumas exigências de vida moderna, nomeadamente quanto à circulação automóvel e estacionamento. O Programa de Urbanismo Comercial favoreceu a recuperação de muitos edifícios em degradação, principalmente comércios, e de muitas ruas, tal como referimos no ponto 6.6. A autarquia tem vindo a levar a cabo muitas obras de requalificação das ruas e edifícios públicos, ao abrigo desse programa, do Programa Pólis e de outros programas, dos quais 137

152 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves destacamos o Mais Chaves e o Chaves Monumental. Hoje, as principais ruas da considerada área de intervenção dos vários projetos (centro histórico) encontram-se completamente renovadas, as fachadas dos principais edifícios comerciais, os passeios e os pavimentos foram completamente remodelados. Envolvendo quase completamente o centro histórico (a exceção é a parte deste que se situa na margem esquerda do Tâmega a Madalena), encontra-se uma área urbanisticamente consolidada, com morfologias urbanas e tipologias construtivas que traduzem o crescimento paulatino e sedimentado, típico da evolução urbana do país até ao início da década de sessenta. É nesta zona, mais do que no centro histórico, que se têm verificado as intrusões mais gravosas na imagem tradicional da cidade, quer pela tipologia quer pela dimensão das edificações aí realizadas. Pese embora esta situação, as caraterísticas urbanísticas ainda prevalecentes em toda esta envolvente, em particular a sua rede viária, fazem desta zona o elemento essencial para conferir coerência urbana ao conjunto do território da cidade, pelo papel de articulação das diferentes partes que compõe o mesmo. Ainda deste perímetro é de destacar a vasta frente fluvial, que poderá garantir um papel estratégico, a par do centro histórico, na definição de um perfil urbano perfeitamente individualizado para a cidade de Chaves. Finalmente, no decurso das últimas décadas, a cidade viu expandir rapidamente os seus limites, extravasando claramente o território das freguesias que tradicionalmente a integravam (Santa Maria Maior e Madalena). Este crescimento, de tendências fortemente dispersivas, processou-se essencialmente na direção de Outeiro Seco, Sanjurge, Abobeleira, Valdanta e Vilar de Nantes e não teve a enquadrá-lo quaisquer diretivas de ordenamento urbanístico de conjunto. O centro histórico de Chaves corresponde aos limites do Plano de Pormenor de Salvaguarda do centro histórico, com uma área total de 49,44 hectares. Abrange apenas duas, das 39 freguesias de Chaves: a freguesia de Santa Maria Maior e a freguesia da Madalena. Santa Maria Maior ocupa uma área de 5,1 km 2, com um total de 3110 edifícios e uma densidade populacional de 2383,2 hab/km 2. A freguesia da Madalena, por sua vez, ocupa uma área de 6,1 km 2, com um total de 772 edifícios e uma densidade populacional de 329,6 hab/km 2. Os elementos mais marcantes são, sem dúvida: o rio Tâmega, o casco histórico (que se divide em 3 momentos essenciais: vila medieval e seu substrato romano, a praça forte e as expansões dos últimos 2 séculos), a existência de imóveis classificados como 138

153 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves monumento nacional (MN) e imóveis de interesse patrimonial (IIP), bem como de património arquitetónico inventariado pela entretanto extinta Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN). O centro histórico de Chaves apresenta testemunhos de variadas épocas, sendo necessário, para o compreender, recuar até ao império romano. Contudo, o essencial do seu plano urbano, no que se refere aos espaços públicos que hoje podemos observar e utilizar, foi predominantemente delineado por contributos medievais, seiscentistas, oitocentistas e da primeira república. Figuras 21 - Delimitação do centro histórico de Chaves Fonte: C.M.C., Plano de Pormenor de Salvaguarda do centro histórico de Chaves (2007) Apesar de existirem vestígios anteriores, foi sobretudo na Idade Média que se definiram as referências primordiais da estruturação do plano urbano de Chaves, com o surgir das cercas ou muros e respetivas portas, torres de menagem e castelos (Quaternaire, 2013). Os muros e portas medievais constituíram os elementos fundamentais de definição das principais povoações e, ainda hoje, além da forma das cercas de então ser identificável no plano urbano das cidades, partes do seu interior e/ou das suas imediações referenciam o centro funcional de algumas delas, como acontece em Chaves (Quaternaira, 2013:13). 139

154 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves O centro histórico de Chaves constitui-se, no seu conjunto, como área de interesse patrimonial, pela concentração de imóveis singulares, muitos dos quais reunidos em conjuntos urbanísticos de relevância significante (ver figuras 22 e 23). Figuras 22 e 23 Evolução da morfologia urbana e património classificado Evolução da morfologia urbana Evolução da Património Classificado Fonte: C.M.C., Plano de Pormenor de Salvaguarda do centro histórico de Chaves (2007) A estrutura edificada do centro histórico de Chaves apresenta uma forte coesão espacial conferida pelas caraterísticas morfológicas do traçado de suporte e pela escala e densidade de ocupação, daí resultando uma imagem urbana marcada por intensos fatores de identidade conjunta. Está fortemente demarcada pelos espaços coletivos, sendo de realçar os principais arruamentos estruturantes com desenvolvimento longitudinal NO/SE (como a rua Direita e a Rua de Sto. António com prolongamento pela ponte e rua Cândido Sotto Mayor, na Madalena) e sucessivos largos e espaços de praça (Largo 8 de julho, Praça de Camões/praça da República, Largo General Silveira, Largo Arrabalde, etc.), que determinaram uma morfologia parcelar da malha urbana. Muitos outros arruamentos com menor desenvolvimento longitudinal assumem grande importância, formando os correspondentes quarteirões. A estrutura edificada é fundamentalmente constituída e caraterizada pelos seguintes elementos/factos relevantes: 140

155 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves Conjuntos urbanísticos constituídos por dois ou mais edifícios, cuja importância advém da identidade resultante da sua associação, podendo ser ou não marcados por valores significantes singulares; Edifícios singulares diversificados, com valor histórico e cultural intrínseco, decorrente das produções arquitetónicas e estilísticas a que correspondem; Edifícios singulares com valor significante e de manifesto interesse patrimonial; Edifícios singulares com inserções urbanas peculiares de referenciação locativa ou imóveis de enquadramento e de acompanhamento a estruturas espaciais e edificadas com valor significante; Edifícios singulares ou outras estruturas de escala considerável ou com elementos decorativos e de composição com manifesta singularidade formal (Quaternaire, 2013:15-16). Verifica-se um panorama muito diversificado no que refere ao sentido tipológico das construções na malha urbana, sendo de realçar algumas caraterísticas de natureza urbanística e construtiva, tais como (ver figuras 22 e 23): Predomínio de construções com três ou quatro pisos, acrescidos ou não por piso recuado; Imagem urbana marcada por forte diversidade formal e de escala. Alguns percursos entre largos e espaços de praça são determinantes para a leitura da imagem urbana, revelando situações de mau estado de conservação do edificado gravosas; Caráter marcante de alguns dos termos de composição das fachadas principais de grande parte das contruções em presença; Desqualificação da imagem de alguns edifícios. Os aparelhos de granito, e não obstante a sua melhor (perpianho) ou pior (bugalho) qualidade, correspondem em geral à perda do reboco original, por degradação do mesmo ou por opção de reabilitação. Verifica-se, em geral uma desqualificação da imagem do edifício, por ausência de destaque de elementos notáveis decorativos ou de remate (brasões, cornijas, cunhais, embasamentos, etc.) e de guarnição de vãos (padieiras, ombreiras e peitoris). Verificam-se, no entanto, situações menos desfavoráveis, nomeadamente pela presença de elementos de perpianho de elevada qualidade ou singularidade. Frequente contingência da ausência de serventia urbanística autónoma dos pisos altos; A morfologia do parcelar, nomeadamente para as parcelas com apenas frente estreita, determina a organização tipológica das construções correspondentes, sendo frequente a ausência de serventia urbanística autónoma dos pisos altos; São ainda de realçar algumas construções modernistas com notável qualidade arquitetónica (como por exemplo alguns imóveis da rua 1º de dezembro e em alguns gavetos), dado o respetivo e extraordinário potencial de qualificação urbanística (Quaternaire, 2013: 16-17). Tendo por base a informação e dados demográficos sintetizados no Plano de Salvaguarda do centro histórico, a cidade apresenta uma ocupação multifuncional, com uma maior predominância da habitação face aos restantes setores, os quais se distribuem de forma aglomerada ou ao longo de eixos, em núcleos perfeitamente identificáveis. Os edifícios mais degradados e com piores condições de habitabilidade encontramse principalmente nas zonas da Madalena, na envolvente ao Largo do Anjo e no casco medieval, ou seja, na zona a sudoeste da Igreja de Santa Maior até à frente ribeirinha (ver figura). Ainda que se apresentem como as zonas de maior densidade populacional, a percentagem de edifícios devolutos ou parcialmente devolutos no casco medieval é bastante elevada. Nesta zona concentra-se maioritariamente a população mais idosa e carenciada, 141

156 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves em percentagens à volta de 40%, bastante superiores à média do centro histórico (cerca de 25% de população idosa e 10% de população jovem), já por si bastante elevada. Figura 24 e 25 Estado de conservação do edificado Estado de conservação do edificado Condições de habitabilidade Fonte: C.M.C., Plano de Pormenor de Salvaguarda do centro histórico de Chaves (2007) A habitação é muito reduzida nas envolventes ao Largo do Arrabalde e ao Forte de São Francisco e na zona da Lapa, onde predominam os serviços públicos, os escritórios e o comércio; ao longo das Ruas de Santo António e de Cândido dos Reis, com ocupação essencialmente comercial e de escritórios; e nas zonas ribeirinhas, onde predominam os equipamentos hoteleiros e zonas de restauração. Nas áreas de expansão mais recentes da cidade, nomeadamente na envolvente do Jardim do Tabolado, a Norte do Largo do Bacalhau e ao longo das principais vias a Nascente, verifica-se que a habitação é bastante mais qualificada e recente, apresentando bom estado de conservação. Quanto ao tipo de alojamento, existe uma percentagem relevante de habitações arrendadas (cerca de 35% do total dos alojamentos familiares), com particular relevância no casco mais antigo, nomeadamente na área delimitada entre o Largo do Anjo, a rua Santo António, o Jardim do Tabolado e a Muralha do Baluarte. A generalidade das rendas está muito desatualizada, fornecendo baixas fontes de rendimento aos proprietários. 142

157 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves Os jovens e estudantes universitários recorrem quase exclusivamente ao arrendamento, localizando- se predominantemente nas zonas de expansão mais recentes, junto à antiga Universidade e a Norte do Jardim do Bacalhau. No que se refere ao estado de conservação do edificado do centro histórico, podemos observar o seguinte: São inúmeras as situações de imóveis parcialmente ou totalmente devolutos, a maioria dos quais correspondem a estados deploráveis de conservação e consequentes más condições de habitabilidade. A malha da Madalena e o conjunto de quarteirões entre a praça da República e a Alameda Trajano constituem as áreas com maiores carências de reabilitação. Muitas das intervenções de manutenção e de reabilitação de estruturas edificadas, correspondem a intervenções ligeiras que não resolveram muitos dos problemas com que se debatem (infiltrações, degradação de caixilharias e de beirados, por exemplo). Por vezes são efetuadas simples pinturas sobre massas deterioradas, pelo que os sintomas de degradação retornam em pouco tempo. No entanto, estas ações têm a vantagem de contribuir para o melhoramento, embora momentâneo, da imagem urbana. Algumas intervenções com maior profundidade recorreram a soluções de agregação tipológica, para segregação das serventias urbanísticas do piso térreo e pisos altos. Determinadas intervenções de reabilitação observadas levantam questões pertinentes, nomeadamente no que se refere à mera preservação de fachadas, por vezes com adulteração formal das mesmas, o que, sendo de momento apenas pontual e residual (e em pate reversível), poderá ter efeitos gravosos se incidir em edifícios singulares ou determinar ruturas em determinados conjuntos urbanísticos. Os edifícios de utilização coletiva encontram-se distribuídos pelo centro histórico, que, a par de funcionalidades como a restauração e comércio, definem com clareza uma série de percursos de grande relevância, a observar como eixos com importância estruturante para a definição das estratégias e programas de reabilitação urbana (Quaternaire, 2013:18). Figuras 26 e 27 Uso atual predominante e ocupação total do edifício Uso atual predominante Ocupação total do edifício Fonte: C.M.C., Plano de Pormenor de Salvaguarda do centro histórico de Chaves (2007) 143

158 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves A AI incluiu as seguintes ruas e praças: Rua Direita, Rua Coronel Bento Roma, Rua do Sol, Largo do Anjo, Rua 25 de Abril, Rua de Santo António, Rua do Tabolado, Rua da Trindade, Travessa Cândido dos Reis, Rua Cândido Sotto Mayor, Largo do Arrabalde, Largo General Silveira (Largo das Freiras), Ladeira da Brecha, Largo da Madalena e Travessa S. João de Deus. Esta Área de Intervenção não apresenta, na sua totalidade, um caráter homogéneo nem no que respeita ao desenho urbano, nem à sua arquitetura. O estado de conservação ou de degradação dos edifícios e espaços também não é idêntico. Destacam-se como espaços públicos mais relevantes do centro histórico, o Largo do Arrabalde, o Largo General Silveira (também conhecido como Jardim das Freiras), o Terreiro da Cavalaria (também conhecido como Jardim do Bacalhau), a Praça da República Praça Camões Largo Caetano Ferreira, o Largo 8 de julho (mais conhecido como Largo do Anjo), o Largo da Madalena, a envolvente à Muralha Baluarte do Cavaleiro e ao Forte de S. Francisco (Largo da Lapa), a Alameda do Trajano e o Jardim da Madalena. De referir, de entre esses espaços, o Largo do Arrabalde, onde em 2004 foram iniciadas escavações que resultaram de um projeto para a construção de um parque de estacionamento subterrâneo que ficou, no entanto, sem efeito dado terem sido encontradas nas escavações arqueológicas realizadas, restos da muralha seiscentista, que outrora serviu de cerca a esta cidade e com o evoluir das escavações o pavimento e a base daquilo que teria sido um importante complexo termal romano, com várias salas de banhos a diferentes temperaturas, que veio por a descoberto dos mil anos de história da cidade de Aquae Flaviae. Figura 28 Termas Medicinais Romanas de Chaves Fonte: Decreto-Lei nº 31-H/2012, de 31 de dezembro de

159 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves Estas termas, classificadas em dezembro de 2012 de monumento nacional, são compostas por uma série de estruturas integrando um balneário termal romano de tipo terapêutico que se apresenta como o mais importante complexo termal português de dimensões apenas comparáveis, em termpos provinciais, às Aquae Sulis (atual cidade de Bath, em Inglaterra) (Decreto-Lei nº 31-H/2012, de 31 de dezembro de 2012). Inclui duas piscinas, um tanque pequeno e um complexo sistema de infraestruturas hidráulicas. As escavações permitiram ainda recuperar um espólio constituído por peças raras, de grande valor científico e em notáveis condições de conservação. Esta é, sem dúvida, uma descoberta da maior importância patrimonial e um documento único que possibilitará aprofundar o estudo e a caraterização da civilização romana na Europa. Em suma, pode considerar-se que o espaço público apresenta atualmente um adequado estado de conservação ao nível do edificado, pavimentos, infraestruturas e mobiliário urbano. Os pavimentos e o mobiliário urbano encontram-se renovados nas principais artérias comerciais (Rua Direita, Rua de Santo António, entre outras) e praças (Jardim das Freiras, Largo do Arrabalde envolvente à Muralha Baluarte do Cavaleiro, entre outras), apresentando um design moderno e um bom estado de conservação. Não obstante, a quantidade de equipamentos e mobiliário urbano com a função de promover a permanência e o usufruto do espaço público, nomeadamente bancos, esplanadas, zonas de sombreamento e outros é ainda insuficiente e desajustada. Verifica-se que o usufruto do espaço público enquanto zona de estadia e interação é essencialmente praticada pela população mais idosa. Como zonas de maior potencial de ocupação do espaço público, destacam-se o Jardim do Bacalhau, o Largo das Freiras, o Largo do Arrabalde e as zonas do Pelourinho da Praça da República e do Largo Caetano Ferreira. Com exceção da frente ribeirinha, na generalidade existem poucos espaços ambientalmente qualificados que proporcionem um espaço de permanência e ocupação para práticas desportivas ou de lazer, como jardins e zonas verdes sombreadas. Considerase ainda que os elementos arbóreos e zonas de sombreamento são insuficientes, como por exemplo no Largo General Silveira (Jardim das Freiras) A REVITALIZAÇÃO DO CENTRO HISTÓRICO DE CHAVES No que respeita à temática da revitalização/reabilitação urbana, os mais variados documentos estratégicos e de planeamento da política urbana municipal apresentaram ao longo dos anos os seguintes objetivos estratégicos: 145

160 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves Preservar a identidade do centro histórico da cidade; Dinamizar e revitalizar o centro histórico da cidade; Valorizar os elementos patrimoniais notáveis presentes no centro histórico; Garantir a coerência tipológica do edificado e da linguagem arquitetónica tradicional de Chaves; Abarcar um número significativo de edifícios que careçam de obras de reabilitação urbana (privilegiando a propriedade privada); Encerrar e enquadrar os projetos estruturantes que o Município de Chaves prevê levar a cabo no centro histórico (Quaternaire, 2013:33). Mas falar de revitalização do centro histórico de Chaves pressupõe recuar no tempo até à década de 1980, altura em que a Câmara Municipal de Chaves e a ACISAT assinam um protocolo de colaboração, no qual se comprometem a revitalizar a zona histórica de Chaves. Desde esse compromisso, surgem projetos e planos de intervenção de reflexão estratégica em matéria de revitalização urbana, que foram marcando as políticas urbanas deste território ao longo dos anos (apresentados no quadro 20). Quadro 20 Planos e projetos para a revitalização urbana Plano Integrado de Reabilitação e Revitalização do centro histórico de Chaves (1987) PDM (1995) revisão em curso Projeto global de Urbanismo Comercial (PROCOM / URBCOM) Estudo global para a revitalização do centro histórico de Chaves ( ) Plano Estratégico da Intervenção do Programa POLIS (2001) Plano de Pormenor de Salvaguarda do centro histórico de Chaves (2007) não publicado Agenda 21 Local (2007) Plano Estratégico de Desenvolvimento Chaves 2015 (2007) Projeto de Revitalização Urbana Mais Chaves Valorização do centro histórico (2008) Chaves Monumental (2008) Plano de Mobilidade Sustentável (2008) Plano de Intervenção em Edifícios em Risco de Ruína em Áreas Críticas de Salubridade (2009) Plano de Segurança, Combate a Incêndios no centro histórico de Chaves (2009) Urbanismo Comercial Fonte: Adaptado de Quaternaire (2013) Do compromisso assumido entre o município e a associação de comerciantes resulta a apresentação em 1998 do projeto global de urbanismo comercial, no âmbito do PROCOM, para a revitalização do centro histórico de Chaves, cujo objetivo era melhorar a situação do comércio, da cidade e a qualidade de vida dos cidadãos. Procurava-se através deste projeto, restituir a vitalidade perdida do centro histórico, mantendo-o em estado de conservação física e funcional, dotando-o simultaneamente de estruturas e atrativos mobilizadores do interesse de residentes e visitantes. 146

161 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves A parceria entre a autarquia e a associação comercial inicia-se naquele ano com o levantamento da área aprovada para ser intervencionada que culminou com a elaboração do Estudo Global de Chaves, documento que à posteriori serviu de base à análise de todas as candidaturas apresentadas a este programa. Este estudo teve como objetivo apresentar todas as deficiências, anomalias e necessidades de investimento nas vertentes privada, pública e comuns. O referido programa, da iniciativa do Ministério da Economia, designadamente da Secretaria de Estado do Comércio e da Concorrência, que visava a revitalização do centro histórico, surgiu então como forma de tentar parar o declínio comercial e urbano, através de três fases iniciais, às quais se acrescentará uma quarta fase: 1) Os investimentos privados, da responsabilidade dos comerciantes instalados na área de intervenção; 2) Os investimentos públicos, da responsabilidade da autarquia; 3) Campanha de animação comercial no âmbito do Plano de Comunicação, Promoção e Animação de Chaves, que consistiu na dinamização e promoção do comércio tradicional, que decorreu de 2003 a 2005; 4) Criação de uma Unidade de Gestão. Os investimentos privados tiveram como objetivo a remodelação e reestruturação dos estabelecimentos instalados na área de intervenção. Num universo de 248 estabelecimentos, só cerca de 45 % dos empresários aderiram aos projetos PROCOM/ URBCOM (ver quadro seguinte). As ruas que obtiveram maior investimento foram a Rua Direita e Rua Santo António, com 22% e 18% de adesões respetivamente. É de salientar que a estrutura comercial destes 110 estabelecimentos, em função da anterior Classificação Portuguesa de Atividades Económicas CAE, estava agrupada em várias classificações diferentes, agregadas nos seguintes agrupamentos: CAE - Divisão 52: Comércio a Retalho (Exceto de veículos automóveis, motociclos e combustíveis para veículos), que incluía 85 estabelecimentos comerciais; CAE Divisão 55: Alojamentos e Restauração (Restaurantes e Similares), estando incluídos 21 estabelecimentos comerciais; CAE - Divisão 93: Outras atividades de serviços, que contemplava 4 estabelecimentos comerciais Os investimentos públicos, da responsabilidade da Câmara Municipal de Chaves, permitiram tornar a área de intervenção mais atrativa, com o melhoramento das ruas, nomeadamente, o alargamento dos passeios, levantamento de calçada, substituição da rede 147

162 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves de distribuição de energia elétrica aérea por subterrânea, substituição de candeeiros, colocação de mobiliário urbano e alguma sinalética (substituíram-se papeleiras, foram colocados bancos de jardim), a disposição do trânsito, o estacionamento e a criação de espaços verdes. O projeto de Revitalização do Centro Histórico de Chaves representou um investimento de ,93, financiado a 50,43%. Quadro 21 - Distribuição dos Investimentos PROCOM/URBCOM Descrição PROCOM URBCOM TOTAL Investimentos Privados , ,03 Subsídios Recebidos , , ,81 N.º Estabelecimentos Fonte: Gabinete de Apoio ao Empresário ACISAT (2003) Os investimentos comuns, realizados na fase final, posterior à realização dos investimentos privados e públicos, tiveram como principal objetivo promover e dinamizar a área de intervenção, durante um período de dois anos, terminando em fevereiro de Consistiram na realização do Plano de Comunicação, de Promoção e de Animação, da responsabilidade da ACISAT, em parceria com a autarquia, representando um volume de investimento de , ao qual correspondeu um incentivo de ,83. No decorrer dos anos de 1999 a 2004, foram-se realizando os investimentos privados apresentados pelos comerciantes, bem como alguns dos investimentos públicos previstos pela autarquia, e a área de intervenção foi sendo remodelada gradualmente durante este período. Foram realizados cerca de 8 milhões de euros de investimentos privados, o que corresponde à remodelação dos referidos estabelecimentos comerciais instalados nas áreas de intervenção. Na sequência das três primeiras fases dos Projetos de Urbanismo Comercial e de forma a dar continuidade ao trabalho já realizado, com o objetivo de garantir o desenvolvimento e a atratividade do centro urbano de Chaves no futuro, a Câmara Municipal de Chaves e a ACISAT apresentaram, em março de 2006, uma candidatura à UAC s Unidade de Acompanhamento e Coordenação, ao abrigo da Portaria n.º 188/2004, de 26 de Fevereiro, que aprovou o Regulamento de Execução do Sistema de Incentivos a Projetos de Urbanismo Comercial (URBCOM). Nasce assim a UAC de Chaves, a 13 de março de 2007, uma unidade de gestão do centro urbano de Chaves, que reveste a forma jurídica de associação privada sem fins lucrativos, tendo sido denominada de Associação para a Promoção do Centro Urbano de 148

163 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves Chaves ProCentro, sendo sócios fundadores a Câmara e a ACISAT, que fazem parte dos seus órgãos sociais. Esta unidade é assim responsável pela gestão da área de intervenção do urbanismo comercial, permitindo melhorar a competitividade do centro urbano e a dinamização e através de funções de informação, aconselhamento e acompanhamento aos utentes e agentes de desenvolvimento tem procurado analisar mudanças, sugerir correções na gestão e manutenção do espaço público, adaptando o centro urbano às reais necessidades dos cidadãos. A ProCentro procura valorizar a zona histórica da cidade, de forma a se estruturar a criação de um espaço urbano e comercial de qualidade, preservando os usos e costumes da população em geral, garantindo uma coexistência das diferentes funções nessa zona urbana: comércio tradicional, serviços, habitação, turismo, entre outras. Pretende-se restituir a vitalidade do centro histórico, mantendo-o em estado de conservação física e funcional, dotando-o simultaneamente de estruturas e atrativos mobilizadores do interesse de residentes e visitantes, nomeadamente através de ações de dinamização comercial que realiza e aquisição de mupis e sinalética urbana. Programa POLIS Um outro projeto de requalificação urbana que decorreu na cidade de Chaves foi o Programa Pólis, cuja filosofia apostou essencialmente na valorização ambiental e na requalificação urbanística. O Polis de Chaves consistiu na requalificação da frente do rio Tâmega da zona urbana da cidade, que corresponde aproximadamente a 3,5 quilómetros de margem de cada lado do rio. E, também, na requalificação ou valorização de espaços públicos já existentes, no centro urbano, no centro histórico e nas zonas envolventes de alguns monumentos nacionais. O projeto desenhado pelo Programa Polis para a cidade de Chaves, abrangendo uma área de aproximadamente 351 ha., compreendeu um vasto leque de estudos e obras potenciadoras de uma verdadeira operação de requalificação urbanística e valorização ambiental desta milenária urbe. De entre os vários estudos e projetos previstos, realça-se a integral cobertura da zona de intervenção por intermédio de seis Planos de Pormenor (Zona Urbana Norte, Margens do Tâmega, Zona Urbana Poente, Zona Termal, Madalena e Centro Histórico) e a realização de estudos complementares de caráter específico. As obras mais significativas realizadas no âmbito dos seis principais desígnios estratégicos da intervenção polis em Chaves, caraterizam-se sumariamente nos seguintes moldes: 149

164 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves Incremento de áreas verdes urbanas: neste contexto foi feita a transformação em espaço público de ambas áreas marginais ao rio Tâmega, inicialmente na posse de privados (zona da Madalena, Longras, Galinheira) de forma a ser criado um corredor pedonal contínuo ao longo das citadas margens. Recuperação e valorização de estruturas ecológicas: A consecução deste objetivo alcançou-se através da reabilitação dos ecossistemas constituídos por duas linhas de água que atravessam a malha urbana (Ribeiros do Rivelas e do Caneiro), mediante a constituição ao longo das suas margens, de faixas com larguras médias de 10,00 m, para usufruição pública em moldes pedonais e ciclovias. Reabilitação de espaços públicos e de estruturas edificadas de interesse patrimonial: procedeu-se à reabilitação das áreas envolventes de duas fortificações da restauração e monumentos nacionais (Fortes de S. Francisco e de S. Neutel), através de ações de cariz eminentemente paisagístico, que propiciam a sua adequada integração na estrutura urbanística da cidade. Neste campo foi realizada igualmente a requalificação urbanística e paisagística dos Jardins do Tabolado e Público, os quais, constituindo-se como áreas públicas de enquadramento mais imediatas do Complexo Termal das Caldas de Chaves, são hoje em dia os dois espaços públicos verdes organizados com maior utilização da coletividade. Por último, há ainda a relevar a aposta na requalificação arquitetónica e funcional (pedonalização) realizada na Ponte Romana, da qual foi retirado o trânsito automóvel. Corredores Pedonais São de destacar as construções de uma ponte pedonal sobre o Rio Tâmega a interligar o Jardim do Tabolado e o Jardim Público e da valiosa ciclovia ribeirinha do rio Tâmega, com uma extensão aproximada de 6400,00 metros. Reforço da urbanidade da cidade - Construção de um espaço destinado à realização da feira semanal em Santa Cruz (que deixou atualmente de se utilizar para esse fim, a pedido da população local e dos próprios feirantes, tendo a feira semanal regressado à zona do mercado municipal e artérias circundantes). Este projeto assumiu assim um papel primordial na melhoria da qualidade de vida urbana da população e na requalificação das infraestruturas disponíveis para população e visitantes, para além da profunda mudança que operou ao nível da imagem da cidade. Trata-se de um projeto estruturante, que foi considerado em termos do desenvolvimento futuro do centro urbano de Chaves. A recuperação do património foi, sem dúvida, a área de 150

165 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves intervenção mais importante do Polis e, neste âmbito, está a reabilitação do Forte de S. Neutel e do Jardim Público. No Forte as obras destinaram-se a preservar e valorizar a área envolvente, repor a configuração original do monumento e criar circuitos de lazer, enquanto que no interior revitalizou-se o anfiteatro que tem servido para a realização de espetáculos. Quanto ao Jardim Público, secular, foi alvo de estudos fitossanitários e da revitalização dos espaços com a instalação de novos equipamentos urbanos e um parque infantil. Agenda 21 Local de Chaves Tendo sido aprovada em 2007, a Agenda 21 Local de Chaves, resultou de um longo processo efetivo de participação, com a implicação de múltiplos agentes sociais, económicos e institucionais locais. O Município de Chaves, atento ao novo paradigma de governação que visa promover o desenvolvimento sustentável com base num processo efetivo de participação, decidiu desenvolver o seu Projeto de Agenda 21 Local, em julho de 2003, em conjunto com 16 dos 18 municípios que integram o Eixo Atlântico 27, tendo assinado a Carta de Aalborg, em janeiro de 2006, na cidade de Santiago de Compostela. O projeto Agenda 21 Local do Município de Chaves, incluiu o desenvolvimento de vários estudos e de ações complementares que se podem agrupar nas seguintes fases: numa primeira fase do projeto, foi elaborado o diagnóstico técnico de caracterização da realidade do Município, constituindo-se como a base para o Plano de Ação. Com o referido diagnóstico foi possível identificar alguns problemas do Município, assim como os meios para os ultrapassar, sendo feita uma grande compilação de informação. Ao longo deste processo, a participação pública concretizou-se através da realização de vários fóruns, constituindo-se como os momentos privilegiados de discussão e reflexão sobre as necessidades do desenvolvimento sustentável, face à elevada participação ativa dos cidadãos. Paralelamente, desenvolvem-se outras atividades complementares ao nível da comunicação e sensibilização ambiental, bem como da formação de técnicos locais. A fase do Plano de Ação constitui o momento crucial da Agenda 21Local, uma vez que no respetivo conteúdo documental se encontram sintetizadas as principais orientações políticas, bem como os projetos/ações de atuação municipal de médio e longo prazo. Revisão do Plano Diretor Municipal (PDM) No que se refere à revisão do PDM, cujos estudos ainda decorrem, o seu processo (27) Os municípios portugueses são Braga, Bragança, Chaves, Guimarães, Peso da Régua, Porto, Viana do Castelo, Vila Nova de Gaia e Vila Real e os municípios galegos são Coruña, Santiago de Compostela, Ferrol, Lugo, Monforte de Lemos, Ourense e Vigo. 151

166 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves de elaboração será reconduzido à forma prevista na legislação vigente e compreenderá os seguintes estudos: Estudo Estratégico de Desenvolvimento Territorial; Diagnóstico do Plano Diretor Municipal em vigor e de outros instrumentos e Revisão do Plano. O conteúdo material e documental deste plano será o previsto no Regime Jurídico dos Instrumentos de Gestão Territorial, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 316/2007 de 19 de Setembro e respetiva legislação subsidiária. Mais-Chaves, Chaves Monumental e Chaves Mais Urbanidade Na sequência do Programa Polis e aproveitando o conhecimento e a vontade de qualificar a cidade que aquele programa deixou, a Câmara Municipal de Chaves viu aprovados três novos programas. Mais Chaves, Chaves Mais Urbanidade e Chaves Monumental, são as designações das candidaturas apresentadas em 2008 e 2009 pela Câmara Municipal de Chaves e que visam requalificar a estrutura urbana da cidade, nos planos cultural, monumental e social, que se têm afirmado como alguns dos mais importantes projetos do município ao nível da reabilitação urbana, que têm marcado a cidade nos últimos anos e que representam um investimento global de perto de 26 milhões de euros, segundo os dados obtidos (Inédia, 2010), aprovados, no âmbito do Plano Regional do Norte, financiado pelo Quadro de Referência Estratégica Nacional QREN e que ainda se encontram em curso. Fazem parte do Programa de Ação da Parceria para a Regeneração Urbana Mais Chaves Valorização do Centro Histórico, apresentado no âmbito da Política de Cidades Parcerias para a Regeneração Urbana, vários projetos de reabilitação e renovação urbana, que representam um investimento de cerca de 12 milhões de euros, nomeadamente a Pousada da Juventude (num edifício na Madalena onde funcionava um lar de estudantes), o Centro Ciência Viva no antigo Magistério, o Centro de Exposições no antigo pavilhão ExpoFlavia da ACISAT (antigo pavilhão do GATAT), o Centro de Convívio onde se encontra a sede da Associação Chaves Social, o Parque de Estacionamento, entre a rua de Santo António e a rua do Olival e a renovação do atual Posto de Turismo, localizado no Terreiro de Cavalaria (Jardim do Bacalhau). Esta candidatura também previa a intervenção em infraestruturas e espaços públicos, nomeadamente na remoção de barreiras arquitetónicas, instalação da rede de telecomunicações e fibra ótica no centro histórico, reabilitação e remodelação da rede de iluminação pública, requalificação urbanística do Largo da Lapa, conclusão do trabalho desenvolvido no âmbito do programa Polis, na Alameda do Trajano até à Ponte Romana, aquisição de sinalética direcional e o projeto de Dinamização das ações de rua do centro histórico de Chaves, destinado à dinamização comercial, levada a cabo pela ProCentro. 152

167 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves Apontava-se 2012 como data de conclusão dos projetos, no entanto, existem algumas obras ainda em curso atualmente, nomeadamente o Centro de Exposições da ACISAT e outras por iniciar, como é o caso do Posto de Turismo. O Programa Estratégico para a Valorização e Promoção dos Valores Culturais e Patrimoniais: Chaves Monumental, que implica um investimento de 4 milhões de euros, tem como grande projeto o Museu das Termas Romanas, obra a ser iniciada uma vez concluídas as escavações que decorrem atualmente e que promoveram a remoção de parte da muralha seiscentista que estava sobreposta ao balneário termal romano. Está ainda prevista a reabilitação da Torre de Menagem, onde irá ser criado um Centro de Interpretação do centro histórico e do Museu Militar e investimentos em escavações arqueológicas noutros locais da cidade, ao abrigo deste programa, bem como a criação de uma Sociedade de Reabilitação Urbana de Chaves, que ficará responsável pelo planeamento das intervenções no centro histórico. Com esta candidatura foi dado um grande passo para que a candidatura de Chaves a Património Mundial da Humanidade possa ser aceite pelo Governo e aprovada pela UNESCO. Chaves Monumental vem articular-se com a construção da Fundação Nadir Afonso e o Programa Polis e pretende reforçar a estratégia da reabilitação e valorização do património cultural da cidade. O projeto prevê a execução de várias ações de estudo e valorização do património arquitetónico e arqueológico; de salvaguarda e musealização do património (incluindo a sua integração na estrutura urbanística da cidade); de reabilitação e revitalização de áreas estratégicas nas envolventes do património; de divulgação e promoção do património arquitetónico e arqueológico nos contextos da comunidade cientifica e dos recursos turísticos; bem como ações preparatórias para a elevação de Chaves a Património Mundial. Entre as várias ações, tem especial destaque o projeto global de escavações arqueológicas e a construção do Museu das Termas (Largo do Arrabalde) e a constituição de uma Sociedade de Reabilitação Urbana. O programa Chaves Mais Urbanidade tinha por base a construção de um pavilhão multiusos, que se previa fosse localizado na freguesia de Santa Cruz Trindade, junto ao Parque de Exposições e Feiras, criado no âmbito do Programa Polis, com um investimento previsto de 12 milhões de euros, tendo ficado sem efeito. Existem ainda outros investimentos em obra já edificada, nomeadamente, a Biblioteca Municipal, o Centro Cultural, o Arquivo Municipal e, ainda em edificação, a Fundação Nadir Afonso. Biblioteca Municipal, Centro Cultural e Arquivo Municipal 153

168 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves Quanto à Biblioteca Municipal, encontra-se aberta ao público desde julho de Instalada no antigo quartel dos Bombeiros e da GNR, situa-se numa das praças mais emblemáticas da cidade, o Largo das Freiras. Na linha de respeito pelo património, bem evidente na urbe flaviense, a remodelação do imóvel preservou a sua fachada original, não deixando adivinhar a renovação do interior: moderno, esteticamente atraente, confortável, generosamente iluminado por luz natural. O projeto da nova Biblioteca, cujo investimento ascende a 1 milhão e 500 mil euros, foi financiado em partes iguais pelo Ministério da Cultura e pelo Município de Chaves. Quanto ao Centro Cultural, foram aproveitados o espaço e os edifícios da estação dos caminhos-de-ferro, abandonados desde Foi transformado todo o lugar num espaço cultural, construindo de raíz um grande edifício, recuperando o edifício principal e o cais de mercadorias. onde estão instaladas as múltiplas valências e funcionalidades culturais. A primeira fase deste projeto foi orientada para a recuperação e reabilitação do imóvel onde funcionam o Departamento Sóciocultural do Município, uma Sala Multiusos, um Espaço Internet, o Centro de Recursos Educativos e a associação Chaves Viva, que se dedica a programação e realização de eventos culturais. A segunda fase contemplou a instalação de um Museu Ferroviário e a Academia das Artes - com Conservatório de música, Auditório e espaços próprios para o ensino e prática de atividades relacionadas com o Teatro. O Arquivo Municipal foi instalado num antigo edifício da Rua Bispo Idácio, no centro histórico de Chaves, com uma área de 552 m2, dividida por dois pisos, que acolheu o arquivo do Município de Chaves. O projeto foi financiado em partes iguais pela autarquia e pelo Programa de Apoio à Rede de Arquivos Municipais, da responsabilidade do Instituto dos Arquivos Nacionais / Torre do Tombo, compreendeu salas de exposições, de leitura e consulta, gabinetes técnicos e respetivas áreas de apoio. O Arquivo Municipal veio possibilitar o arquivo histórico - organizando o espólio documental do município, tornando-o consultável e passível de estudo por investiga- dores, contando com um setor para recuperação de documentos, com salas de consulta. Masterplan do centro histórico de Chaves O Masterplan do centro histórico de Chaves consiste num programa estratégico de reabilitação urbana, com enquadramento no regime jurídico de reabilitação urbana (RJRU), criado ao abrigo do Decreto-Lei n.º 307/2009 e alterado pela Lei 32/2012. Carateriza-se por duas fases, em que a primeira consiste na aprovação da delimitação da ARU - Área de Reabilitação Urbana e a segunda fase na aprovação da ORU 154

169 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves - Operação de Reabilitação Urbana. É um documento que permitirá orientar a reabilitação urbana da zona histórica através de uma estratégia para a intervenção e num programa de ação realista e exequível a médio prazo, tendo por base princípios de: sustentabilidade das intervenções propostas, manutenção da identidade do centro histórico; criatividade das propostas (Quaternaire, 2013:3). Inserida na estratégia municipal de revitalização do centro histórico, já se encontra em vigor a ARU do centro histórico de Chaves, um programa para todo o centro histórico de Chaves. As vantagens deste programa são muitas para quem decida reabilitar os seus edifícios, beneficiando proprietários e arrendatários. Vantagens que podem ir desde comparticipação financeira nas obras, até benefícios fiscais ou incentivos ao arrendamento. A demarcação da ARU de Chaves teve por base a delimitação do centro histórico de Chaves, prevista no Plano de Pormenor de Salvaguarda do centro histórico de Chaves (Polis, 2007) com algumas exclusões, a saber: exclusão de áreas de expansão urbana a norte, frentes urbanas da av. Dr. António Granjo, av. Miguel Torga e ainda o troço norte da rua das Longras; envolvente à rotunda do Monumento, Cemitério Municipal e envolvente imediata e exclusão da Alameda e Jardim do Tabolado e envolvente edificada a norte. Esta área corresponde a cerca de 50 hectares de área urbana (ou urbanizável) do coração da cidade de Chaves, abrangendo as freguesias de Santa Maria Maior e da Madalena. Como elementos mais marcantes deste espaço podemos apontar o casco histórico (dividido em três momentos principais: a vila medieval e o seu substrato romano, a praça forte e as expansões dos últimos dois séculos), a presença de uma série de imóveis classificados (Monumentos Nacionais e Imóveis de Interesse Público) e de património arquitetónico inventariado pelo SIPA Sistema de Informação para o Património Arquitetónico, e ainda o rio Tâmega (que serve de divisão administrativa entre as duas freguesias). Algumas evidências e conclusões conduziram a um reajuste da área de intervenção do Masterplan (e por consequência da proposta de ARU), concretamente: Concentração de um número elevado de edifícios com evidências de necessidade de reabilitação (devido ao mau estado de conservação e condições de habitabilidade) no núcleo medieval e na expansão da Praça Forte, bem como um maior número de edifícios totalmente devolutos; Diversidade funcional, com especial destaque para as funções comércio, restauração e serviços (para além da habitacional) e predomínio da propriedade privada; Existência de algumas áreas edificadas recentes nos quadrantes norte e nordeste, com pouco interesse do ponto de vista da reabilitação urbana; 155

170 Capítulo 6 Caraterização do centro histórico de Chaves Presença de alguns elementos arquitetónicos dissonantes no limite sul e oeste da área de intervenção proposta; Inexistência de projetos municipais estruturantes para as áreas referidas nos pontos anteriores, com exceção do projeto de reabilitação do pavilhão da ACISAT (Quaternaire,2003:39). Figuras 29 e 30 Delimitação da ARU do centro histórico de Chaves Fonte: Quaternaire (2013). Tendo em conta as estratégias de desenvolvimento urbano assumidas pelo Município no quadro de outros processos de planeamento e programação municipal e urbana, principalmente os inúmeros planos e programas promovidos durante a primeira década deste século, entende-se que a estratégia de reabilitação urbana do centro histórico de Chaves deverá assumir a seguinte visão: Um Centro Histórico patrimonialmente valorizado e reabilitado, revitalizado com base em dinâmicas de sentido económico e de inovação, social e cultural, e com capacidade para assumir uma centralidade urbana, terciária e cultural, no contexto da Eurocidade Chaves Verín (Quaternaire, 2013:39). Foram considerados os seguintes objetivos estratégicos: 1. Recentrar algumas dinâmicas de atividade da cidade nas zonas do centro histórico que mantêm um perfil de ocupação menos residencial; 2. Criar as condições para aumentar o nível de conhecimento, de reflexão e de produção de quadros de orientação e regulamentares atualizados e inovadores; 3. Aumentar o nível de reabilitação e valorização do edificado dentro do núcleo medieval; 4. Concluir os projetos estruturantes em matéria de revitalização cultural e económica do centro histórico de Chaves; 156

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