UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CURSO DE GRADUAÇÃO EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS LUCAS VIEIRA DOS SANTOS

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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CURSO DE GRADUAÇÃO EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS LUCAS VIEIRA DOS SANTOS O HIV/AIDS E A TEORIA DE SECURITIZAÇÃO: A EPIDEMIA COMO UM PROBLEMA DE SEGURANÇA INTERNACIONAL FLORIANÓPOLIS 2013

2 2 LUCAS VIEIRA DOS SANTOS O HIV/AIDS E A TEORIA DE SECURITIZAÇÃO: A EPIDEMIA COMO UM PROBLEMA DE SEGURANÇA INTERNACIONAL Monografia submetida ao curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina, como requisito obrigatório para a obtenção do grau de Bacharelado. Orientadora: Profª. Drª. Juliana Lyra Viggiano Barroso FLORIANÓPOLIS 2013

3 3 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CURSO DE GRADUAÇÃO EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS A Banca Examinadora resolveu atribuir a nota 9,0 (nove) ao aluno Lucas Vieira dos Santos na disciplina CNM 7280 Monografia, pela apresentação do trabalho O HIV/AIDS E A TEORIA DE SECURITIZAÇAO: A EPIDEMIA COMO PROBLEMA DE SEGURANÇA INTERNACIONAL Banca Examinadora: Profª. Drª. Juliana Lyra Viggiano Barroso (orientadora) Profª. Drª. Graciela de Conti Pagliari Prof. Dr. Felipe Amin Filomeno FLORIANÓPOLIS, 18 de novembro de 2013

4 4 Dedico este trabalho a todas às pessoas que, de alguma maneira, lutam pelo fim da epidemia de AIDS

5 5 AGRADECIMENTOS Agradeço, primeiramente, à minha família, pelo apoio irrestrito e pelos valores a mim passados. Agradeço à minha orientadora, Professora Juliana, pelas correções oportunas e pelas críticas sempre construtivas. Agradeço aos pesquisadores citados neste trabalho, por me permitirem tomar emprestado seu conhecimento para redigir esta monografia. Agradeço aos novos amigos que fiz durante a graduação, pelas risadas e pelo companheirismo, e lhes desejo toda a sorte do mundo. Agradeço a todos os meus professores, pelo conhecimento transmitido. Agradeço, por fim, a Deus, por estar sempre presente.

6 6 Os maiores aliados da AIDS são a ignorância, preconceito e discriminação. É a partir da renovação e sustentação dos compromissos de enfrentamento à epidemia, do investimento efetivo e eficiente de recursos, da utilização de evidências e respeito aos direitos humanos que poderemos vislumbrar o fim da AIDS. (Relatório UNAIDS A ONU e a resposta à AIDS no Brasil)

7 7 RESUMO Entrando agora em sua quarta década, ainda sem uma cura conhecida, a epidemia de HIV/AIDS tem tudo para se tornar a mais devastadora pandemia da história moderna e uma dos maiores desafio já enfrentados pela comunidade médico-científica. Todavia, suas implicações vão muito além da questão de saúde pública, constituindo uma contundente ameaça à estabilidade em algumas regiões do planeta, não respeitando fronteiras e pondo em risco, diariamente, diversos grupos humanos. Dessa forma, o presente trabalho procura analisar por que o HIV/AIDS pode ser visto como um assunto de segurança internacional, isto é, como um tema da nova agenda internacional, entendida como um reflexo da necessidade de ampliação do escopo de análise diante do vácuo deixado pelo fim da Guerra Fria. Para tal análise, utilizar-se-á do arcabouço teórico relacionado à teoria da securitização da Escola de Copenhague e de dados relativos ao perfil global e regional da epidemia, bem como suas ramificações nos ambitos da segurança humana e nacional. Palavras-chave: Segurança internacional. Securitização. Segurança humana. HIV/AIDS.

8 8 ABSTRACT Now entering its fourth decade, with no known cure, HIV/AIDS is well poised to become the most devastating pandemic in modern human history and one of the biggest challenges faced by the medical and scientific communities. However, its implications go far beyond the public health domain, constituting a blunt threat to stability in some regions of the planet, with no regards to boundaries and endangering many human groups. Therefore, this paper seeks to analyze why HIV/AIDS can be seen as a matter of international security, i.e., as a subject of the new international agenda, understood as a reflection of the need to expand the scope of analysis as a result of the vacuum left by the end of the Cold War. For this analysis, we will use the theoretical framework related to securitization theory of the Copenhagen School, data on regional and global profile of the epidemic and its ramifications for the areas of human and national security. Key-words: International security. Securitization. Human security. HIV/AIDS.

9 9 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ACNUR AGNU AIDS CDC CIA CSNU EUA GT HIV OIT ODM OMS ONU PCB PEPFAR PMA PNUD SIV UNAIDS UNESCO UNFPA UNGASS UNICEF UNODC Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados Assembleia Geral das Nações Unidas Síndrome da Imunodeficiência Adquirida Centro de Controle e Prevenção de Doenças Agência Central de Inteligência Conselho de Segurança das Nações Unidas Estados Unidos da América Grupos Temáticos Vírus da Imunodeficiência Humana Organização Internacional do Trabalho Objetivos do Milênio Organização Mundial da Saúde Organização das Nações Unidas Junta de Coordenação de Programas President s Emergencial Plan for AIDS Relief Programa Alimentar Mundial Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Vírus da Imunodeficiência Símia Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura Fundo de População das Nações Unidas Sessão Especial da Assembleia Geral das Nações Unidas Fundo das Nações Unidas para a Infância Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime

10 10 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO SEGURANÇA INTERNACIONAL: ABORDAGENS TEÓRICAS AS ABORDAGENS TRADICIONAIS E ALTERNATIVAS EM SEGURANÇA INTERNACIONAL A ANÁLISE CONCEITUAL DE SEGURANÇA E SECURITIZAÇÃO: A ESCOLA DE COPENHAGUE A EPIDEMIA DE HIV/AIDS E SUAS IMPLICAÇÕES PARA A SEGURANÇA HUMANA E PARA A SEGURANÇA NACIONAL OS NÚMEROS DA AIDS: ORIGEM E EVOLUÇÃO O HIV/AIDS NO ÂMBITO DA SEGURANÇA HUMANA O HIV/AIDS NO ÂMBITO DA SEGURANÇA NACIONAL A SECURITIZAÇÃO DA EPIDEMIA DE HIV/AIDS A SECURITIZAÇÃO DO HIV/AIDS NOS ESTADOS UNIDOS A SECURITIZAÇÃO DENTRO DO CONSELHO DE SEGURANÇA A SECURITIZAÇÃO NA ASSEMBLEIA GERAL O PAPEL DO UNAIDS CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS... 65

11 11 1 INTRODUÇÃO A noção de segurança em relações internacionais sempre foi bastante controversa, permeada por uma infinidade de debates não resolvidos acerca de seu verdadeiro significado. As principais correntes de pensamento dessa área podem ser divididas em dois grupos: o primeiro é composto por acadêmicos que interpretam a segurança do ponto de vista da segurança estatal, isto é, o medo de possíveis ameaças militares entre Estados. Essa escola de pensamento tem como base central a tradição realista das relações internacionais. A visão realista do problema de segurança nacional é exemplificada pela ideia do dilema de segurança (BAYLIS, 2005), ou seja, a noção de que as necessidades de segurança de um Estado obrigatoriamente resultarão em insegurança para outros Estados, conforme cada Estado interpreta o comportamento alheio como potencialmente ameaçador ou perigoso (BUZAN, 1991). Para os realistas, o sistema internacional é anárquico, o que implica na ausência de uma autoridade central que restrinja o comportamento dos atores no caso, os Estados. Nesse ambiente naturalmente hostil, os atores acabarão por desenvolver capacidades militares como meio de defesa. Essa visão pessimista da segurança internacional é compartilhada pelos contemporâneos neorrealistas, como Kenneth Waltz e John Mearsheimer, que identificam a balança de poder como a característica central do sistema internacional (WALTZ, 1979; MEARSHEIMER, 1990). Particularmente, Waltz teve uma importância fulcral para o campo de estudos em segurança internacional: sua teoria neorrealista argumenta que o Estado é a unidade de análise mais importante para as relações internacionais e que o objetivo central dos Estados é a autopreservação since no one can be relied on to do it for them (WALTZ, 1979, p. 109) e que as características estruturais do sistema internacional moldam o comportamento estatal. Nesse sentido, alega que as unidades do sistema anárquico são funcionalmente iguais, sendo diferenciadas, portanto, por suas maiores ou menores capacidades de realizar a mesma tarefa. Segundo Vieira (2007), isso significa que a estrutura de um sistema em particular é definida pela distribuição de capacidades entre unidades semelhantes e não através de diferenças no seu caráter e funções. Assim, para Waltz e para uma boa parte dos teóricos neorrealistas, a segurança só pode ser alcançada através de um equilíbrio das capacidades de poder entre as unidades mais importantes do sistema. Desde o início dos anos 1980, entretanto, a conceitualização neorrealista do padrão de segurança internacional vem sendo questionada por um número crescente de autores que fazem parte de uma segunda corrente de pensamento, que procura elaborar uma maneira

12 12 alternativa de compreender a segurança. Essas novas abordagens passaram a incluir na análise da segurança atores não exclusivamente estatais e ameaças não exclusivamente militares como definidoras do comportamento de tais atores. Ullman (1983) argumenta que a segurança nacional pode ser solapada por eventos que não vêm da jurisdição militar, em uma definição não convencional de ameaça à segurança nacional, que passa a incluir uma série de eventos não necessariamente militares que afetam a qualidade de vida da população ou que limitam as opções políticas disponíveis para um governo ou para uma entidade não governamental. Na mesma tendência, Buzan (1991) tornou claras as diferenças entre ameaças de segurança econômica, política, ambiental, societal e militar que poderiam afetar do mesmo modo estados e atores não-estatais. A subsequente emergência da noção de segurança humana está intimamente ligada ao desenvolvimento da literatura construtivista de Relações Internacionais. Essa escola de pensamento acredita que são as ideias e não o poder que moldam as relações entre os Estados (WENDT, 1992). Os construtivistas sociais evitam a visão limitada de segurança dos estudos tradicionais e voltam-se para a ampliação do foco para uma análise mais compreensiva da segurança humana. Para os teóricos dessa corrente, essa mudança de foco demonstra claramente o poder que as ideias exercem na formulação de um novo entendimento de segurança, que passa a englobar a segurança de grupos humanos que não estão sob ameaças militares, mas sim sob outros tipos de ameaça como doenças, degradação ambiental, instabilidade socioeconômica etc. A introdução dessa nova agenda de segurança no campo acadêmico foi acompanhada por tendência, advinda do fim da Guerra Fria, de mudar o objeto de referência do Estado para o indivíduo (VIEIRA, 2007). Nesse sentido, as Nações Unidas encabeçaram estiveram no centro dessa nova dinâmica. Em 1992, a pedido do Conselho de Segurança, o então Secretário-Geral Boutros Boutros-Ghali escreveu uma série de documentos que tratavam da mudança que vinha ocorrendo na ordem da segurança internacional. A Agenda para a Paz de Boutros-Ghali delineou a lógica por trás da mudança em direção a uma segurança mais centrada no indivíduo (BOUTROS-GHALI, 1992). Seguindo essa perspectiva, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) foi a primeira iniciativa a abraçar oficial e institucionalmente essa noção de segurança do indivíduo. Em 1994, foi lançado o Relatório de Desenvolvimento Humano, que listava as diferentes categorias nas quais a segurança humana poderia estar em risco (segurança alimentar, econômica, pessoal, comunitária, ambiental, política etc.) e que propunha uma série de medidas com o objetivo de institucionalizar de fato o conceito de

13 13 segurança humana e a necessidade de respostas globais aos mais diversos problemas suscitados por esse novo conceito. Essa noção de segurança humana ilustra um caso de securitização de novos temas, algo que foi proposto pelos pensadores da Escola de Copenhague. A securitização e os critérios de securitização, segundo o grupo de Copenhague, são práticas intersubjetivas, por meio das quais um agente securitizador procura estabelecer socialmente a existência de uma ameaça à sobrevivência de uma unidade do sistema internacional (DUQUE, 2008). Para esses teóricos, portanto, a agenda de segurança internacional deve, também, abarcar temas que vão além da alçada militar. Nessa agenda ampliada, a epidemia global de HIV/AIDS claramente está enquadrada nessa definição mais recente e ampla de segurança. Governos, agências multilaterais, a mídia e a academia, todos passaram a levantar questões a respeito dos impactos econômicos da doença, de como a epidemia está deixando milhões de crianças órfãs, se ela pode vir a se tornar uma ameaça à segurança alimentar, como ela está relacionada à escalada da criminalidade nos países em desenvolvimento e subdesenvolvidos e as implicações da epidemia para as estruturas de governança e para o desenvolvimento econômico (KRISTOFFERSON, 2000; ELBE 2005, 2006; PIOT et al., 2004; DE WAAL, 2003). Na tentativa de conter o avanço da doença e de seus efeitos devastadores, diversos programas foram lançados, em especial capitaneados por organismos do Sistema ONU, de modo a melhorar a conjugação das políticas dos governos nacionais e mobilizar forças internacionais em torno de políticas e objetivos comuns. Em 1994, o Conselho Econômico e Social das Nações Unidas lançou o UNAIDS Joint United Nations Programme on HIV and AIDS cuja missão era aprimorar, reforçar e a expandir a resposta dos governos locais ao HIV, com o intuito de evitar que a epidemia de HIV/AIDS se tornasse uma verdadeira pandemia. Reconhecendo as implicações para a segurança internacional, o Conselho de Segurança das Nações Unidas fez história em janeiro de 2000 ao debater pela primeira vez em seu plenário um assunto de saúde pública. Ao adotar a Resolução 1308, as nações reafirmaram a ameaça potencial à segurança internacional que a epidemia impõe, especialmente em locais envolvidos em conflitos, e deram um passo fundamental para a securitização do HIV/AIDS, reconhecendo que Se não for controlada, a pandemia de HIV/AIDS pode se tornar um risco à estabilidade e segurança (RESOLUÇÃO 1308 DO CSNU, 2000, p. 1).

14 14 A própria Assembleia Geral das Nações Unidas, diante do crescimento do número de casos da doença, adotou, em 27 de junho de 2001, a Declaração de Comprometimento com o HIV/AIDS. Nela os líderes mundiais reconhecem que a epidemia global de HIV/AIDS [...] constitui uma emergência global e um dos mais formidáveis desafios para a vida humana e para a dignidade (DECLARATION OF COMMITMENT ON HIV/AIDS, 2001, p. 1). Agora em sua quarta década, o vírus do HIV/AIDS se mostra como a mais devastadora pandemia da história moderna. O HIV/AIDS é hoje uma das principais causas de insegurança ao redor do mundo e em especial nas regiões mais pobres do planeta exigindo uma resposta incisiva, conjunta e global dos diferentes atores envolvidos (ELBE, 2006). As proporções atingidas pela doença são tão grandes que acadêmicos e policy makers já reconhecem que, nos países mais afetados, os efeitos a longo do prazo do HIV/AIDS não estão confinados apenas aos indivíduos portadores do vírus; nesses mesmos países a doença trará e já esta trazendo, como destaca Elbe (2002) uma miríade de ramificações econômicas, políticas e sociais que precisarão de respostas incisivas e conjuntas, não restritas a um único Estado. Sendo assim, faz-se necessário estudar os aspectos de internacionalização e securitização de um tema que atinge milhões de pessoas ao redor do mundo já que, dentre as ramificações supracitadas, estão as dimensões emergentes da segurança humana, nacional e internacional de doença. É preciso que sejam estudadas e reconhecidas tais dimensões com o intuito de ampliar o entendimento sobre a natureza de epidemias globais, de modo que a resposta dada ao problema seja proporcional à extensão do desafio à segurança global e humanitária imposto pela pandemia de AIDS e, especialmente porque o campo da segurança pode contribuir de maneira sensível com os esforços internacionais de prevenção e redução do número de casos globais de HIV (ELBE, 2002). Assim, o que o presente trabalho procura entender é como a noção de segurança mudou ao longo das últimas duas décadas de modo a permitir a inclusão de um tema de saúde como uma das principais ameaças à estabilidade de algumas regiões do planeta, algo impensável dentro de uma agenda de segurança estritamente militar. O objeto de estudo do presente trabalho, portanto, está centrado na temática do HIV/AIDS e como ela se enquadra no âmbito da segurança internacional. Mais especificamente, o estudo procurará responder por que e epidemia de HIV/AIDS passou ser vista como um problema de segurança internacional em especial pelos Estados Unidos e pela ONU, que passaram a empreender grandes esforços para elevar o tema à alçada da segurança internacional, principalmente com a chegada do novo milênio, período em que o número

15 15 global de casos da doença chegou ao ápice. Para tal, utilizar-se-á do arcabouço teórico supracitado, proporcionado pelo grupo de Copenhague. Para a consecução da presente pesquisa, tratar-se-á de revisar a literatura especializada sobre o tema do HIV/AIDS, precisamente àquele relativo à securitização do assunto. Apesar de ser uma doença relativamente nova, seu grande impacto sobre a sociedade abriu espaço para uma bibliografia extensa sobre as inúmeras dimensões da epidemia, tanto da perspectiva biológica quanto da análise histórico-sociológica. Inicialmente, procurar-se-á revisar a literatura clássica consolidada de relações internacionais sobre o processo de securitização e de consolidação da agenda de segurança internacional. Em seguida, recorrer-se-á à leitura de autores mais específicos sobre o impacto gerado no campo da segurança internacional pela epidemia e sobre a dimensão desse impacto que acabou levando à inclusão do tema na nova agenda de segurança como evidenciado, por exemplo, pelo tratamento inédito dado à epidemia pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, no início do novo milênio. Como já existem dados sobre a epidemia de HIV/AIDS e seu processo securitização, o método utilizado como linha de orientação do presente trabalho será o interpretativo-dedutivo. Segundo Dias e Silva (2002), pelo método interpretativo se busca entender o processo pelo qual o fenômeno influencia o seu contexto e assim como ele é influenciado, ao passo que o caráter dedutivo implica em utilizar uma teoria geral no caso, a teoria construtivista dentro do campo das relações internacionais para tentar elucidas as questões específicas da securitização dessa doença em particular. Dentro dessa perspectiva, a consecução dos objetivos baseia-se em pesquisa bibliográfica de livros e periódicos, em meio impresso e eletrônico, discursos e publicações oficiais de órgãos envolvidos diretamente com o tema (e aqui se destacam os inúmeros reports e press releases publicados pelo UNAIDS e por outras entidades do sistema ONU), além de pareceres e boletins informativos do Ministério da Saúde e do seu braço dedicado ao tratamento de DST, o Departamento de DST, AIDS e Hepatites virais e de agências não governamentais e representantes da sociedade civil. Estruturalmente, o presente trabalho, além da introdução e da conclusão, conta com três capítulos. Após esta breve introdução, no segundo capítulo, será debatida a evolução do conceito de segurança, bem como suas abordagens tradicionalistas e abrangentes dentro do campo de Relações Internacionais. Focar-se-á na perspectiva de segurança e securitização proposta pelos teóricos da Escola de Copenhague, que teve por base a linha de raciocínio construtivista e desenvolveu uma conceituação ampliada da segurança, com a inclusão dos campos econômico, societal e ambiental.

16 16 Uma vez estabelecidos os pressupostos teóricos, no terceiro capítulo serão apresentados os dados relativos aos perfis global e regional da epidemia de modo a agregar concretude à análise do objeto de estudo bem como a nova abordagem em segurança humana e os espraiamentos da doença dentro desse âmbito que permitiram mudar o modo como a epidemia passou a ser vista como uma ameaça real à segurança humana, à segurança nacional e à estabilidade regional e global. A partir daí, o quarto capítulo delineia algumas ideias a respeito da securitização do HIV/AIDS nas arenas de altas políticas, especialmente no âmbito político norte-americano e na jurisdição de alguns organismos do Sistema das Nações Unidas, considerando a teoria de securitização da Escola de Copenhague. Por fim, a última seção alinha algumas ideias à título de conclusão.

17 17 2. SEGURANÇA INTERNACIONAL: ABORDAGENS TEÓRICAS Vladimir Šulović (2010) afirma que desde o seu surgimento, os estudos de segurança representaram o core dos estudos de Relações Internacionais, tratando predominantemente das questões ligadas à guerra e à paz. Nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial, os estudos em segurança passaram a fazer parte do léxico dos estudos estratégicos, ou seja, aqueles com um foco particular no setor militar. Todavia, a crescente complexidade da agenda de Relações Internacionais ao longo das últimas décadas, notadamente com a emergência de novos riscos, ameaças e desafios nos mais variados âmbitos ambiental, econômico, social entre outros tornou a visão tradicional de segurança, em sua essência, muito restrita. Nesse breve capítulo, abordar-se-ão os conceitos teóricos relevantes para a compreensão posterior do objeto de pesquisa. Antes dessa abordagem acerca dos paradigmas convencionais e alternativos nos estudos de segurança internacional, faz-se necessário esclarecer o que significa segurança, um conceito tão caro e ao mesmo tempo tão frágil para os estudiosos da área. Huysmans (1998) sugere que definir o significado de uma categoria (no caso, segurança) é condensá-la em uma sentença, de modo que não haja dúvidas para o leitor sobre o conteúdo do texto. A análise conceitual, do mesmo modo, também condensa o significado de segurança para que se possa estabelecer um caminho mais ou menos comum dentro das futuras pesquisas na área, porém faz-se isso de modo muito mais complexo do que apenas reunir um conceito em uma frase. Para Šulović (2010), a suposição inicial de uma análise conceitual é a de que o significado do objeto que está sendo examinado é mais ou menos familiar, mas tal significado, geralmente, não se manifesta de maneira explícita. Como diz Panić (2009, p. 29, tradução nossa): quando falamos de segurança, geralmente assumimos que sabemos bem o que de fato é segurança. Usamos segurança como uma palavra cujo significado é geralmente conhecido e não pensamos duas veze-s antes de entrar em um debate sobre segurança. Tornar esse significado explícito ao eliminar suas inconsistências e ambiguidades é o propósito de se fazer uma análise conceitual, de modo que se possa achar um denominador comum que expresse distinções conceituais comuns que perpassam as diferentes concepções de segurança (BALDWIN, 1997). O conceito de segurança, de fundamental importância para as Relações Internacionais, traz em seu bojo noções tão essenciais como paz, guerra, poder, liberdade e sobrevivência. Para Neves (2011, p. 18) segurança não diz respeito só ao homem individualmente, mas sfaz

18 18 sentir na vida em sociedade, assim como na existência dos Estados e do próprio sistema internacional. O Dicionário da Academia Brasileira de Letras nos diz que segurança é o ato ou efeito de tornar seguro; ato ou efeito de assegurar; proteção, defesa. Essa definição denotativa, não contempla, todavia, os diversos fatores que devem ser considerados ao se falar em segurança, dependo do propósito, do ponto de análise e da própria formação pessoal. Mesmo para os estudiosos do assunto, o tema de segurança mostra-se bastante complexo e avesso a uma definição monolítica. Em Baylis (2005) encontramos três definições de segurança: Uma nação está segura na medida em que não esteja correndo risco de sacrificar valores centrais se deseja evitar a guerra e seja capaz, caso desafiada, de mantê-los por meio da vitória em tal guerra 1. Segurança, em um sentido objetivo, mede a ausência de ameaças a valores adquiridos, e em um sentido subjetivo mede a ausência do medo de que tais valores serão alvo de ataque 2. Segurança estável só pode ser alcançada por pessoas e grupos se eles não privarem outros dela mesma; isso pode ser alcançado se a segurança for concebida como um processo de emancipação 3. A primeira definição nos traz uma visão mais tradicional ligada ao conceito de defesa de valores centrais, se necessário, através do uso da força. A segunda apreciação introduz à análise o conceito de valores, que podem ser atacados por outros. A terceira conceituação apresenta segurança como um processo emancipatório, de maneira que os grupos não se privem de suas necessidades. Para Buzan (1991, p. 432, tradução nossa) segurança é [ ] a busca pela liberdade de ameaças e a capacidade dos Estados e sociedades de manter sua identidade independente e sua integridade funcional. Em uma visão mais holística, Baldwin (1997), ao longo de seu artigo, se pergunta segurança para quem, segurança por quais valores, segurança de quais ameaças, por quais meios, a que custo, em que período de tempo? Dessa forma, percebe-se que não há um conceito firmado sobre o que seja segurança. No sistema internacional, o conceito de segurança, além de toda sua abrangência, está atrelado ao debate entre as visões tradicionais, herdeiras da tradição realista, e as visões mais 1 LIPPMANN apud BAYLIS, 2005, p. 255, tradução nossa. 2 WOLFERS apud BAYLIS, 2005, p. 255, tradução nossa. 3 BOOTH & WHEELER apud BAYLIS, 2005, p. 255, tradução nossa.

19 19 abrangentes. Não há uma definição única de segurança que guie o trabalho de todos os especialistas na área, e isso representa uma dificuldade quando se quer demonstrar que determinado tema é um assunto de segurança internacional. Desse modo, antes de passar à análise sobre a noção de securitização que tornou possível a inclusão da epidemia de HIV/AIDS como um tema tão sensível à nova agenda de segurança internacional, abordaremos brevemente as visões tradicionais e alternativas predominantes (nomeadamente, o realismo e o construtivismo) em segurança internacional. 2.1 AS ABORDAGENS TRADICIONAIS E ALTERNATIVAS EM SEGURANÇA INTERNACIONAL Dentro do campo das Relações Internacionais, os estudos de segurança consolidaramse no decorrer do século XX, tendo como pontos fulcrais, a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria e o pós-guerra Fria. Desde o surgimento e a consolidação do campo como relevante para o debate em Relações Internacionais até os dias de hoje, ocorreram mudanças sensíveis tanto nas configurações e arranjos internacionais quanto nas perspectivas de estudo utilizadas. A primeira corrente de pensamento que ganhou destaque no campo da segurança foi a tradicionalista, herdeira da tradição realista dos estudos em relações internacionais. Estudiosos tradicionalistas definem segurança como a liberdade de qualquer ameaça objetiva militar à sobrevivência do estado em um sistema anárquico internacional (ŠULOVIĆ, 2009, p.2, tradução nossa). Tal corrente de pensamento encontrou consonância com a conjuntura internacional da época 4 : em fim dos anos 70 e começo dos anos 80, a invasão soviética no Afeganistão e a eleição de Reagan para a presidência dos EUA reacenderam a dinâmica das competições militares entre as duas superpotências da época, levando a uma repaginação da perspectiva realista na forma do neorrealismo ou realismo estrutural. Com o declínio da economia norte-americana, os sucessivos choques do petróleo e o esfacelamento dos impérios coloniais 5, alguns estudiosos passaram a questionar o escopo restrito do conceito tradicional de segurança internacional, passando a demandar a inclusão de outros temas na agenda: ameaças não-militares e internas (ULLMAN, 1983); recursos, meio ambiente e demografia (MATHEWS, 1989); economia, ecologia, fatores domésticos da segurança e ameaças transnacionais (KEOHANE, 1984; HAFTENDOR, 1991). 4 HOBSBAWM, 1995, p , passim. 5 Ibid., p passim.

20 20 Essas novas perspectivas 6, chamadas de abrangentes, passaram a desafiar a concepção tradicional de segurança ao alagar e aprofundar os estudos de segurança, tanto horizontal quanto verticalmente. Horizontalmente, os estudiosos abrangentes acreditam que, de fato, o conceito de segurança expandiu-se de uma jurisdição exclusivamente militar para outros setores tais como ambiental, econômico, societal e político. Verticalmente, esse novo escopo de segurança internacional deve estar aberto a objetos referentes 7 que não sejam exclusivamente o Estado grupos humanos, indivíduos, a humanidade como um todo (BUZAN et al., 1998). As novas linhas de pensamento dentro do campo de relações (e segurança) internacionais passaram, portanto, a incluir na análise da segurança atores não exclusivamente estatais e ameaças não exclusivamente militares como definidoras do comportamento dos atores. Tendo em vista a dimensão horizontal, esses novos pensadores acreditam que, na verdade, o conceito de segurança expandiu-se: a noção de que as relações internacionais são afetadas por mais fatores do que a política de poder dos Estados deu origem a uma abordagem teórica mais ampla, que tem se tornado cada vez mais relevante nos círculos acadêmicos. Essas abordagens teóricas alternativas encontram suporte no arcabouço construtivista, que vinha sendo lentamente construído desde a década de Essa escola de pensamento acredita que são as ideias e não o poder que moldam as relações entre os Estados (WENDT, 1992). A partir de uma combinação de abordagens sociológicas e teoria crítica (McDONALD, 2008a), os teóricos construtivistas argumentam que a realidade mundial é socialmente construída através de interações subjetivas e que fatores ideacionais tais como normas, identidades, e ideias são essenciais para a construção e mutação da política mundial (BAYLIS, 2005; McDONALD, 2008a). Conforme ressalta Baylis (2005), os teóricos construtivistas têm um modo de pensar a política internacional bastante diferente daquele neorrealista. Para os construtivistas sociais, a estrutura é produto de relações sociais compostas de elementos como recursos materiais, conhecimento compartilhado e práticas. Adler (1999, p. 205) ressalta que o construtivismo é a perspectiva segundo a qual o modo pelo qual o mundo material forma a, e é formado pela, 6 Duque (2009, p. 33) e Neves (2011, p. 21) informam que, além da corrente tradicionalista e da abordagem abrangente, há uma terceira abordagem denominada crítica, que considera que a ameaça e os objetos de segurança são socialmente construídos, tomando uma postura mais inquisitiva em relação à estrutura de segurança, considerando que a segurança do indivíduo (segurança humana) é mais importante do que a estatal. 7 Objetos referentes: things that are seen to be existentially threatened and that have a legitimate claim to survival (BUZAN et al., 1998, p. 36).

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