MENTORIA E ADESÃO À ATIVIDADE FÍSICA: O CASO DOS USUÁRIOS DA ACADEMIA CHESF

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1 FACULDADE BOA VIAGEM CENTRO DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO EM ADMINISTRAÇÃO MESTRADO PROFISSIONAL EM GESTÃO EMPRESARIAL MENTORIA E ADESÃO À ATIVIDADE FÍSICA: O CASO DOS USUÁRIOS DA ACADEMIA CHESF PAULO ERLICH RECIFE 2010

2 PAULO ERLICH MENTORIA E ADESÃO À ATIVIDADE FÍSICA: O CASO DOS USUÁRIOS DA ACADEMIA CHESF Dissertação apresentada ao Centro de Pesquisa e Pós-Graduação em Administração da Faculdade Boa Viagem, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Gestão Empresarial. Orientadora: Profª. Sônia Maria Rodrigues Calado Dias, Ph.D. RECIFE 2010

3 Faculdade Boa Viagem Centro de Pesquisa e Pós-Graduação em Administração CPPA Curso de Mestrado Profissional em Gestão Empresarial MPGE MENTORIA E ADESÃO À ATIVIDADE FÍSICA: O CASO DOS USUÁRIOS DA ACADEMIA CHESF PAULO ERLICH Dissertação submetida ao corpo docente do Mestrado Profissional em Gestão Empresarial (MPGE) do Centro de Pesquisa e Pós-Graduação em Administração (CPPA) da Faculdade Boa Viagem e aprovada em 01 de fevereiro de Banca Examinadora:

4 Aos mentores da minha formação moral e intelectual: meu pai, Jacob Erlich (in memoriam); minha mãe, Elza Rotman Erlich; meu avô, Abram José Rotman (in memoriam). À minha companheira, Suely, que revigora essa formação. Aos meus filhos, Márcio e Maíra, que já ensaiam os passos como meus futuros mentores.

5 AGRADECIMENTOS A Sônia Calado Dias, pelas luzes da mentoria e novas visões sobre o ser humano que definitivamente marcaram minha vida; Aos demais professores do Mestrado da FBV, que me proporcionaram grandes momentos de crescimento pelo desafio ao conhecimento; A Ricardo De Marchi, referência pioneira, no país, em promoção da saúde corporativa, por me ter iniciado nessa área e pela oportunidade de entender, na prática, como a mentoria pode levar à amizade; A Heloísa Nóbrega, que, como poucos, valoriza, conhece e pratica a promoção da saúde corporativa e desde cedo incentivou a realização deste trabalho no ambiente da Chesf; A Benoni Guimarães, gestor da Academia Chesf, sem cujos esforços e entusiasmo a pesquisa não se viabilizaria; A Horácio Frydman, pela contribuição para o levantamento bibliográfico, sem a qual não seria atingido o nível de aprofundamento que eu pretendia; A todos os que foram por mim entrevistados, usuários e profissionais da Academia Chesf, pela disponibilidade e pela riqueza de dados que proporcionaram ao estudo; Aos meus colegas de curso, pelo compartilhamento de saberes e pelo deleite da convivência.

6 RESUMO Esta dissertação se baseia em um estudo de caso que procurou verificar a presença de experiências de mentoria nos relacionamentos que influenciam indivíduos a aderir à atividade física. A literatura que traz associações entre mentoria e atividade física é escassa e, em relação à essência dos relacionamentos que estão em ação, é praticamente ausente. Dessa forma não se consegue distinguir se o que está sendo considerado como uma relação de desenvolvimento para ajudar o indivíduo a aderir à atividade física é realmente mentoria ou suporte social, que é conceitual e operacionalmente semelhante à mentoria. Através de procedimento qualitativo e exploratório, valendo-se de entrevistas em profundidade e análise de conteúdo, foram abordados usuários de uma academia de ginástica sediada em uma grande empresa. A análise de conteúdo revelou as fontes de suporte para mudança do hábito e gerou uma categorização de funções de suporte social no contexto da adesão à atividade física. A comparação dessa tipologia com a que é tradicionalmente adotada nos estudos de mentoria gerada a partir do ambiente organizacional (KRAM, 1980, 1988) revelou que, no novo contexto, algumas funções tradicionais se modificam, outras desaparecem e novas funções emergem. Mas o nível de correspondência entre as tipologias é muito relevante. Através do aprofundamento do estudo das funções também se alcançou uma distinção entre relações de mentoria e relações de suporte social, bem como se chegou a um conceito de mentor. Os profissionais de educação física constituem a categoria que se apresentou no estudo com o maior número mentores. Os resultados do estudo contribuem para o estudo teórico da mentoria e para o campo de mudanças de comportamento em saúde, especificamente em relação à atividade física. Estudos futuros sobre como a mentoria influencia indivíduos a se tornarem habitualmente ativos poderão revelar ainda mais as potencialidades desse recurso relacional e torná-lo reconhecidamente estratégico em ações de promoção de saúde e para o negócio das academias de ginástica. Palavras-chave: Mentoria. Suporte social. Atividade física. Promoção de saúde. Academias de ginástica. Professores de educação física.

7 ABSTRACT This thesis is based on a case study exploring the influence of mentoring experiences on people s propensity to engage in physical activity. The literature on the association between mentoring and physical activity is scant, and practically non-existent so far as the nature of mentoring relationships. It is thus not possible to distinguish whether what is being considered as a development relationship helping individuals to engage in physical activity is truly mentorship or social support, which is conceptually and operationally similar to mentorship. Using qualitative and exploratory research and drawing on in-depth interviews and content analysis, we approached the users of a gym in a large company. Content analysis revealed the sources of support for physical activity behavior change and generated a categorization of the functions of social support regarding engagement in physical activity. Comparison of this typology with that traditionally adopted in studies of mentorship in the context of organizations (KRAM, 1980, 1988) revealed that, in the new context, some of the traditional functions are modified, some disappear and new ones emerge. Nevertheless, the degree of correspondence between these typologies is significant. More in-depth examination of these functions revealed a distinction between mentoring relationships and social support relationships and allowed a concept of the mentor to be drawn up. Physical education professionals were the category in this study that had the largest number of mentors. These results represent a contribution to the theoretical study of mentoring and to the field of health behavior change, specifically with regard to physical activity. Future studies of how mentorship influences individuals by making them habitually more physically active may reveal more about the potential of this relational resource and lead to its recognition as a strategic resource in health promotion interventions and for the fitness center industry. Keywords: Mentoring. Social Support. Physical Activity. Health Promotion. Fitness Centers. Gyms. Physical Education Instructors.

8 LISTA DE FIGURAS Figura 1: Contextos determinantes do comportamento em atividade física... 22

9 LISTA DE QUADROS Quadro 1 Tipologias de suporte social Quadro 2: Estágios de mudança de comportamento em saúde Quadro 3: Tipologia da mentoria Quadro 4: Funções de mentoria segundo Kram Quadro 5: Diferenças entre funções instrumentais e funções psicossociais segundo Kram Quadro 6: Equivalência entre suporte social e mentoria segundo Giblin Quadro 7: Integração entre mentoria e suporte social segundo O Neill Quando 8: Características da amostra Quadro 9: Fontes e tipos de suporte na pré-adesão Quadro 10: Fontes e tipos de suporte na adesão Quadro 11: Correspondência entre os tipos de suporte social verificados na pesquisa e a classificação de suporte social encontrada na literatura Quadro 12: Funções de suporte social no contexto da adesão à atividade física Quadro 13: Correspondências entre a tipologia de funções de mentoria de Kram e as funções de suporte social encontradas no contexto da adesão à atividade física Quadro 14: Tipologia das relações de suporte social Quadro 15: Fontes de suporte mais significativas para a adesão dos entrevistados à atividade física Quadro 16: Mentores autênticos identificados no estudo Quadro 17: Frequência média dos entrevistados às aulas da academia nos seis meses anteriores ao processo de seleção para a entrevista e participação em relação de mentoria autêntica

10 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO Contexualização Pergunta de pesquisa Objetivo geral Objetivos específicos Justificativas Justificativas teóricas Justificativas práticas FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Atividade física e suporte social Influências sobre a prática de atividade física Suporte social Suporte social associado à atividade física Mentoria Síntese histórica Conceito de mentoria Visão tradicional sobre mentoria Mentoria vista por novas lentes Benefícios da mentoria Tipos de mentoria Quanto ao grau de formalização do relacionamento Quanto à quantidade de mentores e mentorados envolvidos Quanto aos níveis hierárquicos de mentor e mentorado Quanto aos ambientes a que são vinculados mentor e mentorado Quanto ao canal de comunicação Quanto à evolução da experiência relacional Quanto ao nível de satisfação do mentorado com o relacionamento Quanto à distribuição dos benefícios transacionados no relacionamento Quanto à percepção da existência de mentoria nas interações... 49

11 2.2.5 Mentoria em contextos diversos Mentoria associada à atividade física Funções de mentoria Primeiras referências teóricas sobre funções de mentoria Funções de mentoria segundo Kram Funções de carreira Funções psicossociais Outras considerações sobre funções de mentoria Diferentes perspectivas sobre funções de mentoria Mentoria e suporte social Aproximação entre mentoria e suporte social Distinção entre mentoria e suporte social Provedores de suporte: mentores e não-mentores METODOLOGIA Delineamento da pesquisa Seleção dos sujeitos Coleta de dados Processo Instrumentos Método de análise Limites e limitações do estudo Limites Limitações ANÁLISE E DISCUSSÃO Fontes e tipos de suporte no contexto da atividade física Fontes e tipos de suporte antes da adesão Médicos Colegas Familiares Pessoas externas à rede de relacionamentos do indivíduo Empresa... 93

12 4.1.2 Fontes e tipos de suporte na adesão Profissionais de Educação Física Colegas Médicos Familiares Pessoas externas à rede de relacionamentos do indivíduo Empresa Discussão Relação entre tipos de suporte social e funções de mentoria no contexto da atividade física Funções instrumentais Conscientização Coaching Patrocínio Funções psicossociais Aceitação-e-confirmação Encorajamento Funções modelares Modelagem positiva Modelagem negativa Discussão Distinção entre relações de mentoria e relações de suporte social no contexto da atividade física O que faz a diferença Discussão Mentores autênticos Identificação dos mentores autênticos Discussão CONCLUSÕES E SUGESTÕES Conclusões Fontes e tipos de suporte Tipologia de funções nas relações de suporte social A diferença da mentoria

13 5.1.4 Mentores autênticos: fontes especiais Sugestões Sugestões de ação Sugestões de pesquisa REFERÊNCIAS APÊNDICE A: QUESTIONÁRIO PARA SELEÇÃO DOS SUJEITOS DA PESQUISA (POR ) APÊNDICE B: QUESTIONÁRIO PARA SELEÇÃO DOS SUJEITOS DA PESQUISA (IMPRESSO) APÊNDICE C: ROTEIRO DE ENTREVISTA APÊNDICE D: FICHA DE ENTREVISTA APÊNDICE E: GRÁFICO DOS ESTÁGIOS DA MUDANÇA APÊNDICE F: GRÁFICO DOS ESTÁGIOS DA MUDANÇA ANEXO A: Atividade física: recomendações para adultos ANEXO B: IPAQ

14 13 1 INTRODUÇÃO Inicia-se esta dissertação por uma abordagem que ressalta a importância da atividade física na composição do estilo de vida saudável e a necessidade de mudança comportamental em relação à atividade física. Introduz-se uma noção básica sobre mentoria e a possibilidade de relacioná-la com essa mudança. Em seguida se apresentam a pergunta de pesquisa, os objetivos e as justificativas deste trabalho. 1.1 CONTEXTUALIZAÇÃO Estilo de vida é um modo de viver baseado em padrões identificáveis de comportamento que são determinados pela interinfluência entre as características particulares do indivíduo, interações sociais e as condições de vida socioeconômicas e ambientais. (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1998). Segundo Nahas (2003, p. 19) estilo de vida é o conjunto de ações habituais que refletem as atitudes, os valores e as oportunidades na vida das pessoas. Esse modo de viver, quando saudável, reduz o risco de estar seriamente doente, ajuda a usufruir a vida e contribui como modelo positivo para outras pessoas (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1999). Para De Marchi (2008), o estilo de vida é o mais importante fator determinante de uma vida mais saudável. Ele é representado pelas escolhas pessoais em relação aos fatores que podem incrementar ou prejudicar a saúde do indivíduo. Essas escolhas estão diretamente relacionadas com pelo menos 50% do estado pessoal de saúde e custos de assistência médica a ele associados (NOELDNER, 2006). No ambiente organizacional, ressalta-se uma questão fundamental relacionada ao estilo de vida dos empregados: o conjunto de efeitos que as más escolhas individuais podem provocar sobre os resultados corporativos. Indivíduos com baixos níveis de saúde bem como os que adotam comportamentos de risco à saúde provocam, entre outras consequências, maiores desembolsos com assistência médica, absenteísmo mais frequente, presenteísmo 1, aumento das limitações físicas e produtividade abaixo do possível (GOETZEL et al., 2008; SCHULTZ; EDINGTON, 2007; BOLES; PELLETIER; LYNCH, 2004). 1 Presenteísmo é a situação em que os trabalhadores estão no trabalho, porém, em virtude de doença, lesão ou outras condições, não operam no nível máximo (D ABATE; EDY, 2007). A expressão também é utilizada para representar uma variável que indica perdas de produtividade do trabalhador nessas condições ou por associação a fatores de risco à saúde, como o sedentarismo (CHENOWETH; LEUTZINGER, 2006).

15 14 A atividade física é uma iniciativa presente entre as recomendações que configuram o chamado estilo de vida saudável. Adotada com regularidade, ela está associada a melhores níveis de saúde e redução de riscos de mortalidade (KAHN et al., 2002). Por outro lado, a vida sedentária é uma das principais causas de baixa qualidade de vida, incapacidade física e morte (MARCUS; FORSYTH, 2009). São amplamente apresentados e discutidos na literatura os benefícios da prática de atividade física, não apenas associados à saúde física e à redução de riscos relacionados ao sedentarismo predisponentes ao aparecimento e desenvolvimento de disfunções orgânicas. Focando-se em patologias específicas, há suporte científico para afirmar que a atividade física adequada, associada a uma dieta saudável, tem um papel importante na prevenção das cinco doenças crônicas não transmissíveis de maior incidência na população mundial: doença cardíaca, acidente vascular cerebral, câncer, doenças crônicas respiratórias e diabetes (WORLD HEALTH ORGANIZATION /WORLD ECONOMIC FORUM, 2008). Os exercícios físicos regulares, principalmente os aeróbicos, têm um papel marcante na prevenção e tratamento de doenças cardiovasculares degenerativas, tendo um efeito direto e independente e ajudando no controle de riscos como colesterol e pressão arterial, além de contribuir significativamente na redução de fatores de risco como a obesidade (NAHAS, 2003). Mas também há benefícios no campo psicoemocional, na medida em que níveis mais elevados de prática de atividade física habitual estão associados à conservação da autoestima e do autoconceito e melhoria do relacionamento interpessoal (GUEDES et al., 2001). A atividade física pode também relacionar-se com a melhora na qualidade de vida de dependentes químicos e depressivos (BARBANTI, 2006). Em relação ao ambiente organizacional, benefícios da atividade física são reportados na literatura. Wilson, Griffin-Blake e DeJoy (2002) relatam estudos em que a atividade física pode ser relacionada, por um lado, negativamente com absenteísmo, rotatividade, custos médicos e produtividade; por outro lado, associa-se positivamente com desempenho no trabalho e motivação para o trabalho. Pesquisas de Proper e Van Mechelen (2007) indicam efeitos favoráveis da atividade física em relação ao absenteísmo por doença, duração do afastamento por doença, e, ainda, desempenho no trabalho. Seria de esperar, portanto, que, diante de benefícios tão relevantes, as pessoas, em sua imensa maioria, se dedicassem com frequência a práticas de atividade física. Cotejando-se, porém, essa expectativa com a real atitude da população em relação a esse hábito, verifica-se que há uma distância imensa. Ainda que os efeitos positivos da atividade física sejam bem conhecidos por diversas populações, a maioria das pessoas tem um estilo de vida sedentário e

16 15 não alcançam esses benefícios à saúde (U.S. DEPARTMENT OF HEALTH AND HUMAN SERVICES, 2002). No Brasil, não se foge a esse perfil: pesquisas nacionais de larga abrangência, como as realizadas pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA, 2005) e pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2009), atestam elevadas taxas de atividade física insuficiente e inatividade física na população. Os estudiosos apontam justificativas diversas para essa incongruência. Para Ogata (2008, p. 5), ela ocorre talvez porque as pessoas não tenham consciência dos malefícios desse comportamento, não saibam como mudar ou melhorar seus hábitos ou mesmo não consigam fazê-lo. Aldana (2005) alega que algumas pessoas não mudam porque podem não ter tido a oportunidade de aprender como suas escolhas estão diretamente relacionadas com as causas de morte, doença e qualidade de vida insatisfatória. Mesmo quando as pessoas sabem por que deveriam mudar, a falta de motivação, de tempo, de suporte social e as pressões ambientais no sentido dos maus hábitos sobrepujam a habilidade pessoal de mudar. Diante desse cenário, o grande desafio que se impõe é promover a mudança de comportamento dos indivíduos. Nesse sentido, a mentoria poderá exercer um papel importante. Tradicionalmente, a mentoria tem sido conceituada como um relacionamento entre um adulto jovem e um mais velho e mais experiente que ajuda o mais novo a aprender a navegar no mundo adulto e no mundo do trabalho (KRAM, 1988). Segundo esse escopo, a mentoria tem sido pesquisada principalmente em três campos: na educação de jovens, no ambiente acadêmico e nas organizações (EBY et al., 2008). Mas, para além das limitações do conceito e da aplicação tradicionais, a mentoria tem sido recentemente impulsionada para diferentes áreas de investigação. Kram e Ragins (2007) afirmam que uma visão mais abrangente sobre a mentoria também leva em conta um entendimento mais profundo sobre como ela afeta a transição para novas posições de desenvolvimento, crescimento pessoal e mudança. Além disso, a mentoria pode ser associada com uma gama de resultados positivos tanto psicológicos quanto fisiológicos relacionados com saúde física e mental e bem-estar (KRAM; RAGINS, 2007; BOYATZIS, 2007). Este último autor defende que nos processos de mudança de comportamento em adultos é essencial o suporte de mentores, sem os quais novos padrões de comportamento não ocorrem ou não são sustentáveis. Descortina-se, dessa forma, a possibilidade de estudar, sob a ótica da mentoria, como indivíduos podem ser influenciados por outros-significativos nos processos de mudança de comportamentos que afetam a saúde, entre os quais se inclui o comportamento em relação à atividade física. Um grande volume de referências é encontrado na literatura sobre a ocorrência de suporte social como facilitador dessa mudança. Por exemplo, Zimmerman e

17 16 Connor (1989) encontraram evidências de que a tentativa individual de mudar o comportamento em saúde, especialmente quanto à prática de exercícios e redução da ingestão de gorduras, pode ser positivamente influenciada por outros-significativos (familiares, amigos, colegas de trabalho) ao longo do processo de mudança. Ornelas, Perreira e Ayala (2007) encontraram uma relação positiva entre o suporte social dos pais e a conquista pelos filhos de padrões recomendados de atividade física. Se, por um lado, referências de suporte social são amplamente reportadas, por outro lado são escassos os trabalhos que mencionam claramente a mentoria como recurso para a mudança comportamental no campo da atividade física. Entre elas, Dubois e Silverthorn (2005) reportam diversos resultados do impacto das relações de mentoria, quando incorporadas a outras intervenções, sobre o nível de atividade física de jovens. Um programa de mentoria de pares, relatado por Corbin (2006), buscou estimular pessoas com 50 anos ou mais a incorporar mais atividade física em suas vidas e resultou em significativo aumento do nível de atividade na grande maioria dos participantes. Os exemplos referidos pela literatura, porém, não esclarecem em que consiste a mentoria provida nesses casos. E, agravando a questão, como a literatura tem encontrado semelhanças entre suporte social e mentoria (GIBLIN, 2006; O NEILL, 1997), não se consegue distinguir nesses estudos se o processo de ajuda à modificação do comportamento pode ser entendido como mentoria ou suporte social. Isso posto, o presente estudo propõe verificar a presença de experiências de mentoria 2 nos processos que estimulam os indivíduos a ser praticantes habituais de atividade física. Por essa perspectiva, indivíduos que tenham decidido adotar essa prática e os que nela se mantêm poderão ter passado e/ou estar passando por experiências de mentoria. Para tanto, foi desenvolvida pesquisa com um grupo de usuários da Academia Chesf, pertencente à Companhia Hidro Elétrica do São Francisco e localizada na sede da empresa, em Recife, Pernambuco. Os indivíduos participantes da pesquisa foram selecionados entre funcionários frequentadores da academia que decidiram, em algum momento da vida, praticar exercícios físicos dentro de um padrão de regularidade. Com base no exposto, foi delineada a pergunta de pesquisa, que a seguir se apresenta, acompanhada pelo objetivo geral e objetivos específicos. 2 Será adotada a expressão experiências de mentoria por ser largamente utilizada na literatura, como uma forma de referência a interações de mentoria (e.g., FOX; SCHUHMAN, 2001; EBY, ALLEN, 2002; SIMON; EBY, 2003; DUFFY et al., 2008).

18 PERGUNTA DE PESQUISA De que modo experiências de mentoria estão presentes nos relacionamentos que influenciam os indivíduos a aderir à atividade física? 1.3 OBJETIVO GERAL Verificar de que modo experiências de mentoria estão presentes nos relacionamentos que influenciam os indivíduos a aderir à atividade física. 1.4 OBJETIVOS ESPECÍFICOS Objetivo específico 1: Identificar as fontes de suporte social que influenciaram os indivíduos a aderir à atividade física e os tipos de suporte providos por essas fontes. Objetivo específico 2: Analisar de que modo os tipos de suporte social providos pelas fontes que influenciaram os indivíduos a aderir à atividade física correspondem à tipologia de funções de mentoria tradicionalmente adotada pela literatura. Objetivo específico 3: Verificar de que modo se pode estabelecer distinção entre relações de mentoria e relações de suporte social enquanto experiências relacionais que influenciaram os indivíduos a aderir à atividade física. Objetivo específico 4: Identificar, entre as fontes de suporte social que influenciaram os indivíduos a aderir à atividade física, aquelas que podem ser considerados como mentores. 1.5 JUSTIFICATIVAS Justificativas teóricas Em termos de contribuição teórica, a pesquisa aqui proposta trouxe novos conhecimentos em diversas direções. Em termos gerais, para o próprio campo da mentoria,

19 18 principalmente em relação ao ambiente acadêmico brasileiro, no qual os estudos sobre o tema ainda estão em fase de evolução e o volume da produção literária ainda é pequeno. Faz-se necessário continuamente promover pesquisas que representem o fenômeno da mentoria no Brasil, em sua cultura específica. Chandler e Kram (2007) chamam atenção para a necessidade de, ao se discutirem as pesquisas, considerar os cenários nacionais em que são realizadas. Bozionelos (2006) acusa que há escassez de pesquisas de mentoria com amostras que não sejam relacionadas com a cultura anglo-saxã. Uma questão teórica ainda não plenamente esclarecida pela literatura é a distinção entre mentoria e suporte social. Os construtos possuem fortes semelhanças (JACOBI, 1991; ALLEN; MCMANUS; RUSSELL, 1999; GIBLIN, 2006) e até já foi proposta uma integração entre eles (O NEILL, 1997), porém há diferenças a considerar (GIBLIN, 2006; GOLDNER; MAYSELESS, 2008). Este estudo contribui para o clareamento desses limites e inclusive ajudar a construir algum consenso sobre o próprio conceito de mentoria, que ainda não alcança unanimidade entre os pesquisadores (CHANDLER; KRAM, 2007). Uma contribuição também foi gerada para a pesquisa sobre os processos de mudança de comportamento em saúde. Mais especificamente, fica sugerida uma nova luz à pesquisa brasileira em processos que levam à adesão à atividade física, visto que a utilização da mentoria como suporte para esse fim é um aspecto sobre o qual não foram localizados trabalhos na literatura científica do país, ao longo dos estudos que embasaram este trabalho. No cenário internacional, a literatura diz pouco sobre o impacto da mentoria sobre a mudança comportamental (em geral), a sustentação dessas mudanças e os impactos de longo prazo sobre as aspirações da pessoa (BOYATZIS, 2007). A pesquisa é, ainda, relevante para os estudos da promoção de saúde no ambiente de trabalho. Além de utilizar uma amostra composta de trabalhadores de uma empresa, verificou que a organização procura exercer uma influência marcante sobre o comportamento em saúde de seus funcionários, em sentido amplo, e, particularmente, sobre padrão de atividade física que praticam. Essa importância está alinhada com uma ideia proposta por Okie (2007): a empresa deve atuar como coach em relação à saúde dos trabalhadores. Coaching, como se verá neste trabalho, é uma das funções de mentoria de várias vezes confundida com a própria mentoria.

20 Justificativas práticas O foco prático desta pesquisa acompanha o ensinamento de Minayo (1996, p. 90): nada pode ser intelectualmente um problema, se não tiver sido, em primeira instância, um problema na vida prática. A autora defende que a escolha de um tema não surge de modo espontâneo, mas de interesses e circunstâncias socialmente condicionados e semeados na realidade. As justificativas a seguir se inserem nesse contexto. Como as más escolhas comportamentais contribuem globalmente para uma proporção significativa de doenças crônicas, deveriam ser levadas em conta estratégias baseadas em evidências, como a atividade física regular, para ajustar esses comportamentos, nos mais diversos ambientes (QUINTILIANI; SATTELMAIR; SORENSEN, 2007). Este trabalho propôs verificar se a mentoria poderia ser entendida como um recurso presente nesse processo de ajuste de comportamento, sendo percebida como uma influência sobre o indivíduo. A perspectiva prática deste trabalho é marcada pelo fato de o estudo ter abordado usuários de uma academia de ginástica vinculada a uma organização e ao seu programa de promoção de saúde. Segundo a Organização Mundial de Saúde, o local de trabalho é para muitas pessoas o contexto mais prático em que elas se podem tornar mais ativas, portanto pode ser o ambiente ideal para promover atividade física para adultos (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2006). Não obstante, um dos mais prementes desafios enfrentados pelos profissionais que estão à frente da gestão de programas de promoção de saúde no ambiente de trabalho é estimular os empregados a exercitar-se regularmente (CHENOWETH, 2007). Uma associação entre mentoria e adesão à atividade física poderá sinalizar para uma nova forma de promover a participação e manutenção dos empregados nos programas de exercícios. No ambiente organizacional, todavia, os benefícios da mudança de estilo de vida não se encerram no nível dos indivíduos. Ao adotar ou manter hábitos saudáveis, os empregados proporcionam economia nos gastos com assistência médica, redução de absenteísmo e aumento na produtividade (OKIE, 2007; ALDANA et al., 2005; O DONNELL, 2002). Segundo Porter e Teisberg (2007), os empregadores podem estimular a mudança de mentalidade e comportamento dos funcionários, para que estes façam boas escolhas e gerenciem sua própria saúde: A melhor forma de manter baixos custos de assistência à saúde é ajudar os funcionários e suas famílias a permanecerem saudáveis, ou tão saudáveis quanto possível, dadas as circunstâncias do sistema de saúde (PORTER; TEISBERG, 2007, p. 269). Kram e Ragins (2007) sugerem que, diante dos custos crescentes da assistência médica e da

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