MARIA DE LOURDES DEL FÁVERI CÓRIO O PERSONAGEM CHICO BENTO, SUAS AÇÕES E SEU CONTEXTO: UM ELO ENTRE A TRADIÇÃO E A MODERNIDADE.

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1 MARIA DE LOURDES DEL FÁVERI CÓRIO O PERSONAGEM CHICO BENTO, SUAS AÇÕES E SEU CONTEXTO: UM ELO ENTRE A TRADIÇÃO E A MODERNIDADE. Marília 2006

2 MARIA DE LOURDES DEL FÁVERI CÓRIO O PERSONAGEM CHICO BENTO, SUAS AÇÕES E SEU CONTEXTO: UM ELO ENTRE A TRADIÇÃO E A MODERNIDADE. Dissertação apresentada ao curso de Pós Graduação da Universidade de Marília SP, como requisito para a obtenção do título de Mestre em Comunicação e Estudos de Linguagem. Área de Concentração: Mídia e Cultura. Orientadora: Prof. Dra. Rosangela Marçolla. MARÍLIA 2006

3 UNIMAR - UNIVERSIDADE DE MARÍLIA Reitor: Márcio Mesquita Serva PRO-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO FACULDADE DE COMUNICAÇÃO, EDUCAÇÃO E TURISMO DIRETORA: PROFª. DRA. SUELY FADUL VILLIBOR FLORY CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO E ESTUDO DE LINGUAGENS ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: MÍDIA E CULTURA ORIENTADORA: PROFª. DRA ROSANGELA MARÇOLLA

4 Ao Agostinho, meu marido muito querido, meu companheiro, agradeço pelo apoio, paciência e incentivo. Aos meus filhos, Fabiana e Fernando, por compreenderem a minha dedicação a este trabalho Amo vocês.

5 AGRADECIMENTOS A realização deste trabalho dependeu da ajuda de muitas pessoas. Agradeço a todos que, de alguma forma, contribuíram para que ele se concretizasse, mas em especial : À professora doutora Rosangela Marçolla, pela orientação segura, pela atenção e gentileza, e por acreditar na viabilidade dessa pesquisa. Ao professor doutor João Adalberto Campato Júnior, por sua colaboração e seu incentivo Ao professor doutor Alfredo Peixoto Martins, pelo seu incentivo e seus ensinamentos. À professora doutora Lucia Correia Marques de Miranda Moreira pelo seu bom senso e sua sabedoria Ao meu marido Agostinho, por estar sempre do meu lado com seu conhecimento e seu bom humor À Rosangela Braga Barbosa pela atenção dispensada no transcorrer do curso e sua grande amizade. ROMANCE LIII OU DAS PALAVRAS AÉREAS

6 Ai, palavras, ai, palavras, Que estranha potência, a vossa! Ai, palavras, ai, palavras Sois de vento, ides no vento, No vento que não retorna, E, em tão rápida existência, tudo se forma e se transforma! Sois de vento, ides no vento, E quedais, com sorte nova! Ai, palavras, ai, palavras, Que estranha potência, a vossa! Todo sentido da vida Principia à vossa porta; O mel do amor cristaliza Seu perfume em vossa rosa; Sois o sonho e sois a audácia Calúnia, fúria, derrota... A liberdade das almas, Ai! Com letras se elabora... E dos venenos humanos Sois a mais fina retorta: Frágil, frágil como o vidro

7 E mais que o aço poderosa! Reis, impérios, povos, tempos, Pelo vosso impulso rodam... Detrás de grossas paredes, De leve, quem vos desfolha? Pareceis de tênue seda, Sem peso de ação nem de hora... - e estais no bico das penas - e estais na tinta que molha, - e estais nas mãos dos juízes, -e sois o ferro que arrocha, - e sois barco para o exílio, - e sois Moçambique e Angola! Ai palavras, ai palavras, Íeis pela estrada afora, Erguendo asas muito incertas, Entre verdades e galhofa, desejos do tempo inquieto, Promessas que o mundo sopra... Ai, palavras, ai palavras Mirai-vos: que sois, agora? -Acusações, sentinelas,

8 bacamarte, algema, escolta; - o olho ardente da perfídia, a velar, na noite morta; - a umidade dos presídios - a solidão pavorosa; - duro ferro das perguntas, com sangue em cada resposta; - e a sentença que caminha, -e a esperança que não volta, - e o coração que vacila, - e o castigo que galopa... Ai, palavras, ai palavras, Que estranha potência, a vossa! Perdão podíeis ter sido! - sois madeira que se corta- sois vinte degraus de escada, -sois um pedaço de corda... -sois povo pelas janelas, cortejo, bandeiras, tropa... Ai, palavras,ai palavras, Que estranha potência, a vossa! Éreis um sopro de aragem... -sois um homem que se enforca MEIRELES, Cecília. Obra poética. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1995, p in:platão &FIORIN. Para Entender o Texto.p.50

9 RESUMO Entre todas as linguagens que fazem parte do mundo contemporâneo, iremos abordar uma que realiza a integração entre a linguagem escrita e a linguagem visual: as histórias em quadrinhos Essa pesquisa objetiva estudar Chico Bento, como um representante do indivíduo caipira. Como um representante do universo rural, mas de maneira inteligente, onde vive as tradições, o folclore, com inocência e simplicidade. O personagem personifica a bondade, a simplicidade do homem do campo, que são características que o identificam. Nesse sentido, as histórias em quadrinhos de Chico Bento resgatam do passado (da tradição) os valores morais para a contemporaneidade como uma alegoria do passado. Palavras chave: história em quadrinhos, tradição, Chico Bento, caipira. ABSTRACT Among all of the languages which are part of the contemporary world, we will approach one that accomplishes the integration between the written language and the visual language: the cartoons. This research is aimed at in studying Chico Bento, as a representative of the rustic individual. It is a prototype of the rural universe, but in an intelligent way, where he lives the traditions, the folklore, with innocence and simplicity. The character personifies the kindness, the man's of the field simplicity, that are characteristic that identify him. In this sense, Chico Bento's cartoons rescue of the past (of the tradition) the moral values for the "contemporaneidade" as an allegory of the past. Key words: cartoons, tradition, Chico Bento, tacky.

10 SUMÁRIO INTRODUÇÃO I A GLOBALIZAÇÃO E A HISTÓRIA EM QUADRINHOS História em Quadrinhos: Produto da Indústria Cultural Cultura de massa e a formação da identidade social A cultura de massa e os quadrinhos de Maurício de Sousa II AGORA É HORA DAS HISTÓRIAS... DOS QUADRINHOS A evolução das formas de comunicação: um resgate histórico As fases da evolução dos quadrinhos Os quadrinhos no Brasil III - A NATUREZA E A TIPOLOGIA DOS QUADRINHOS A linguagem da história em quadrinhos Elementos que compõem uma vinheta Planos Os ângulos de visão O Balão, a Legenda, a Onomatopéia Estrutura narrativa em quadrinhos IV MAURÍCIO DE SOUSA: UM POUCO DE SUA HISTÓRIA O Empreendedor

11 V A CONSTRUÇÃO DO PERSONAGEM CHICO BENTO Chico Bento e o retrato de sua turma A Turma da roça Chico Bento e a cultura popular A folkimídia e os quadrinhos O elo entre o passado e a contemporaneidade Recontando a história Os valores e potencial dos quadrinhos As virtudes denotadas nos quadrinhos CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

12 LISTA DE ILUSTRAÇÕES PÁGINA 1 - Chico Bento e seu primo da cidade Monumento de arte rupestre no oeste da África Bisão, encontrado na caverna de Altamira Os ideogramas chineses Parte inferior da coluna de Trajano em Roma Bíblia em xilogravura do século XII O Down Hogan s Alle Yellow Kid O garoto amarelo e seu gramofone Capitão, dona Chucruts, Coronel, Hans e Fritz Little Nemo Mutt Jeff Les Pieds-Nickelés (1908), de Louis Forton As Cobranças (1867), de Ângelo Agostini A revista O Tico Tico O amigo da Onça Pererê (1959) Made In Brazil (anos 90) Plano geral Travelling Plano médio Plano americano Primeiro plano O ponto de vista Panorâmica O detalhe dominando a imagem... 83

13 27 - O detalhe do detalhe dominando a cena Recursos de enquadramento Ângulos de visão inferior Ângulo de visão superior: Ângulo de visão médio: Balão Fala Balão pensamento Balão cochicho Balão berro Balão trêmulo Balão vibrado Balão uníssono Balão censurado Balão mudo Balão duplo /44/45/46/47/48-Onomatopéia Maurício de Sousa no início de sua carreira Bidu Cebolinha Chico Bento Cascão Jotalhão Horácio Mônica Magali O Astronauta Tina, Pelezinho Maurício em campanha com a Trol /63 - Chico Bento consultando sua galinha Caipira Pitando

14 65 -Chico Bento e a reforma agrária Hiro Rosinha Zé Lelé Zé da Roça Tira do Hiroshi e Zezinho(l963) Casamento na roça Cozinha Caipira Caminhos da Roça Chico Bento e seus pais Chico Bento e os repórteres Chico Bento e o ovo de ouro Chico Bento e seu amigo príncipe Chico Bento e seu primo da cidade Chico Bento e seus pais Chico Bento e sua amiga

15 INTRODUÇÃO

16 Com o desenvolvimento dos Estudos Culturais e das ciências da comunicação, nas últimas décadas, podemos notar que estudiosos vêm se preocupando em analisar as histórias em quadrinhos quanto à sua especificidade e ao seu impacto na sociedade como meio de comunicação de massa. Isso mostra uma preocupação da cultura acadêmica com o ver, compreender e revelar as histórias em quadrinhos como um elemento de destaque do sistema global de comunicação. Sobre o assunto Oliveira diz que originalmente surgidos na Inglaterra, na década de 1950, e trazendo na bagagem forte influência do estruturalismo francês, o interesse dos Estudos Culturais voltou-se primeiramente para os problemas da sociedade e da linguagem. Na década de 1980,[...] ultrapassam as fronteiras da Grã- Bretanha, chamando a atenção de estudiosos de outros países, sobretudo dos Estados Unidos da América. [...], os Estudos Culturais passam a privilegiar a interdisciplinaridade e seu corpus deixa de ser apenas a literatura 1. Dentro dos Estudos Culturais, a história em quadrinho, como objeto de estudo, assume relevância após os estudos de Ariel Dorfman e Armand Matellart (1978) com o livro Para Ler o Pato Donald, que tratou o tema com uma análise crítica. Em 1978, Umberto Eco (2000) publica Apocalípticos e Integrados, um estudo semiológico da cultura de massa e dos meios de comunicação. No capítulo intitulado O mito do Superman, Eco relata alguns fatos que ilustram bem o poder de persuasão das histórias em quadrinhos. Como um meio de comunicação impresso, as histórias em quadrinhos levam ao seu receptor a informação, o entretenimento e a orientação, assim como podem vender produtos por meio da publicidade. Os elementos verbais e os não verbais que compõem as revistas em quadrinhos atuam como formas de difusão de idéias, além de persuadirem o leitor a consumir produtos e aderir a determinados comportamentos, já que os meios de comunicação são formadores de opinião. Na sociedade contemporânea, o homem vive seu cotidiano inserido no mundo das imagens. É possível ver pessoas assistindo a um trailler de um filme na TV e, ao mesmo 1 OLIVEIRA, Geisa F D. Cultura em Quadrinhos: reflexões sobre as histórias em quadrinhos na perspectiva dos Estudos Culturais. In: Alceu. Revista de Comunicação, Cultura e Política- v 4 nº 8 - jan / jun, 2004, p.78.

17 tempo, observar a mesma história em revistas de quadrinhos ou ainda acessar a um site desse mesmo personagem ou assistir, no cinema, a um longa metragem enfocando o mesmo enredo. Cada vez mais, a tecnologia vem potencializando a criação de signos por meio da mídia. O excesso de signos, de técnicas de simulação vem, cada vez mais, transformando o cotidiano na sociedade do espetáculo. Nesse contexto, a história em quadrinhos faz parte da indústria cultural, com produção em série massificadora que eterniza a ideologia de classe, seja dominante ou não. Tendo em vista que as histórias podem despertar o senso crítico e reforçar vínculos, desenvolvendo um certo tipo de olhar crítico que os recursos verbais tradicionais isoladamente não possibilitam, podemos chegar à importância que lhes reserva o campo da comunicação. Pretendemos com este trabalho buscar respostas no que diz respeito à relevância da persuasão imposta pela ideologia das histórias em quadrinhos de autoria de Maurício de Sousa, ainda que este estudo se restringirá, especificamente, a um de seus personagens: Chico Bento. Estudar a criação deste personagem, seus costumes e seu contexto como um elo entre a tradição e a modernidade contemporânea. Para melhor entendimento do termo, buscamos, no dicionário da Língua Portuguesa Houaiss, a definição da palavra tradição e encontramos: como comunicação oral de fatos, lendas, ritos, usos e costumes etc. E, conjunto de valores morais, espirituais etc.,transmitidos de uma geração para outra 2. E como contemporaneidade, o dicionário define como: que ou o que é do tempo atual 3. A partir da metade do século XX, o Brasil passa a ser um país mais urbanizado e industrializado e, conseqüentemente, irrigado pela cultura das mídias. Isso causou uma inversão na vida das pessoas, os valores passaram a ser demonstrados e conduzidos para alterar a sensibilidade e o cotidiano do indivíduo. As gerações que se desenvolveram neste mundo infestado pelos meios de comunicação e de informação, experimentaram mudanças fundamentais nas percepções de si próprias, do mundo social e do mundo cósmico. No ano de 1961, foi criado o personagem de Maurício de Sousa: Chico Bento, que possui características peculiares que o diferenciam de outros personagens: seu estilo de vestir, sua maneira de falar, seus valores pessoais e sociais, o meio em que vive (campo), o grupo de 2 HOUAISS, Antonio et al. Dicionário de: Língua Portuguesa: 1ª ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p HOUAISS, Antonio et al. Op., cit., p. 817.

18 pessoas com o qual convive. Aliado ao conceito de família em que ele está estabelecido, todo esse perfil compõe e determina seu jeito de viver. Por meio das histórias em quadrinhos, pode-se afirmar que o Chico Bento possui as seguintes características: menino do campo, caipira, fala de forma diferente. Cuida dos animais e plantas de tal forma que deposita neles carinho, amor e amizade, preocupa-se com o bem-estar social, gosta de dormir depois do almoço, tem um jeito de pessoa tranqüila, seu figurino é simples, sem a preocupação do que está ou não na moda, usa camisa xadrez e calça curta, é fácil de fazer amigos. Tem na família uma estrutura fortalecida e valorizada, que mantém como cultura e meio de sobrevivência a horta, as aves, e os cereais. Preserva valores como o amor, a honestidade, a coragem e a simplicidade. O personagem pode ser o tipo que caracteriza o homem do campo e mantém, até os dias atuais, os costumes e as idéias de um Brasil rural. Sobre Chico Bento Oliveira comenta que o simpático menino do interior paulista foi elevado à categoria de objeto de estudo, pelo fato de despontar como uma unanimidade dentre os teóricos dos quadrinhos nacionais [...] o Chico Bento permanece impávido, citação indefectível quando o assunto é brasilidade. Estranho poder, o desse menino 4 Há apenas algumas décadas, os sujeitos formavam a sua imaginação do mundo a partir das referências da vida no campo, no contato com as arborescências da natureza, do mundo agrário, num tempo em que a publicização da vida não era tão eminente. Nas décadas de 1950 e 1960, os sentimentos íntimos mais profundos de nacionalismo se faziam permanecer e eram considerados como regras na sociedade brasileira. Com a urbanização e os crescentes meios de comunicação e de transportes, vimos uma transformação nas estruturas da vida cotidiana da sociedade brasileira, nas décadas de 1970 e 1980 e, conseqüentemente, a formação de uma nova mentalidade das pessoas. As mídias têm uma contribuição incisiva nesse processo ao difundir novos hábitos de consumo, fabricando desejos e necessidades e criando a figura pública do cidadão. A partir da década de 1990, com a evolução das cidades, as redes e tecnologias de interação virtual tornam-se imprescindíveis e uma exigência na contemporaneidade. Podemos definir como oposto à modernidade contemporânea: a tradição 4 OLIVEIRA, Gêisa F D. Op., cit., p

19 que se manifesta como o passado, revivido, da memória; a contemporaneidade é o presente, o futuro. Podemos considerar a tradição e a modernidade como as faces de uma mesma moeda, estabelecendo entre elas uma relação: contemporâneo é tudo o que se demarca em relação aquilo que permanece como tradicional, tal como tradicional é tudo o que se demarca em relação àquilo que se apresenta como moderno. Nesse sentido, de ruptura entre o que é passado, na memória, e aquilo que se faz presente na modernidade contemporânea; buscamos resgatar os valores e princípios de brasilidade que constituem a identidade do sujeito rural representado pelo personagem Chico Bento. O personagem preserva a identidade caipira por não se modernizar dentro dos parâmetros da cultura contemporânea, nesse sentido, Chico Bento denota a fragmentação do indivíduo inserido na cultura atual. Vale ressaltar que as revistas e o personagem Chico Bento, por meio da mídia, resistem ao tempo e ao espaço, embora sujeitos à concorrência mercadológica imposta pelas relações da globalização e a competição decorrentes das novas tecnologias, sobretudo do computador, vídeo games, televisão e internet. No entanto, continuam brilhando e divertindo as pessoas de todas as idades e sexos, de diferentes níveis sociais e culturais, inclusive ultrapassando fronteiras. Essas questões são partes que ajudam a determinar o nosso objeto de estudo para este trabalho que se encontra organizado em cinco capítulos. O primeiro capítulo trata do processo de globalização e as histórias em quadrinhos como um produto da indústria cultural. As HQ participam desse movimento como uma mídia que intensifica o fluxo comunicacional entre as pessoas. Destacam a identidade do sujeito que deixa de ser formada pela interação entre o eu e a sociedade, passando a ser formada pelas supostas necessidades do homem, influenciada pela indústria cultural. No capítulo seguinte, aborda-se a evolução das formas de comunicação do ser humano e o resgate histórico das histórias em quadrinhos na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil. A seguir, o terceiro capítulo enfoca a natureza e a tipologia das histórias em quadrinhos, ou seja, a linguagem formada por dois componentes ou códigos diferentes: a imagem e o texto que estão irrevogavelmente entrelaçados, assim como o enquadramento que corresponde aos personagens, cenários, planos de visão, às metáforas visuais, balões, e às onomatopéias. O quarto capítulo apresenta o resgate de parte da história do autor Maurício de Sousa e sua trajetória profissional. Mostra os principais personagens que mais conquistaram a simpatia

20 dos leitores. O quinto capítulo aborda um breve estudo da formação do personagem Chico Bento e sua relação com a cultura popular. Traz a abordagem dos valores e das virtudes destacados dos quadrinhos de Chico Bento da coletânea: Um Tema Só - Mônica. A coletânea é composta de 5 revistas publicadas no ano de 2003, na cidade de São Paulo, pela Editora Globo, com republicações das melhores histórias criadas por Maurício de Sousa, mas não consta a data das publicações das mesmas. Os temas das revistas são: aniversários, passeios, fábulas, superestrela, parabéns e superaventuras. Para encontrar respostas, que satisfazem ao objeto da pesquisa, foram efetuadas leituras sobre o tema, abordado por autores nas áreas em questão. Após a coleta dos dados históricos, adotamos a pesquisa bibliográfica para construirmos o corpus teórico do nosso trabalho. Acreditamos na necessidade de adotarmos como embasamento teórico os principais autores que possam contribuir na tentativa de chegarmos a um possível resultado acerca das nossas hipóteses em questão. Rubem Alves diz que todo pensamento inicia com um problema e que para fazer ciência é preciso perceber e formular problemas. Ele recomenda a busca de um modelo, ou seja, de uma teoria através da qual seja possível prever o comportamento da natureza no futuro: O espanto perante a ordem é a primeira inspiração da ciência. Quando um cientista enuncia uma lei ou uma teoria ele está contando como se processa a ordem. É isto que significa testar uma teoria: ver se, no futuro, ela se comporta da forma como o modelo previu 5 A investigação que norteará essa pesquisa adotará o segundo critério das opções metodológicas [...], e diz respeito à seleção de uma multiplicidade de métodos de análise de pesquisa. No caso da comunicação, por se tratar de uma disciplina ou campo recente, ela não pode senão apoiar-se e desenvolver-se a partir das Ciências Sociais tradicionais. Suas formas específicas de aproximação à realidade só agora começam a ser delimitadas 6. Na procura de uma resposta para a problemática do nosso objeto de estudo, a pesquisadora Maria Immacolata Vassalo de Lopes comenta que o amadurecimento 5 ALVES, Rubem. Filosofia da Ciência - Introdução ao jogo e suas regras. São Paulo:Loyola 2003,p.94 6 LOPES, Maria Immacolata Vassalo de. Pesquisa em Comunicação. São Paulo: Loyola, p.104

21 metodológico no campo da Comunicação depende do desenvolvimento das análises de seus múltiplos níveis e dimensões, o que exige, necessariamente, uma variedade de metodologias 7, portanto acreditamos que, no primeiro momento, a teoria da Indústria Cultural será mais adequada, visto que, nos últimos anos, a Indústria Cultural tornou-se o setor mais ativo que exerce total supremacia no mercado de bens culturais do País. Nesse sentido, a cultura de massa assume uma posição histórica e ideológica na atual sociedade. A sociedade contemporânea está envolta pela aura do consumo da cultura de massa; cada classe social procura, de acordo com sua especificidade sócio-econômica, consumir produtos que apresentam nítidas diferenças qualitativas entre si. Ao mesmo tempo, em que se produzem bens culturais, mais sofisticados, esperando-se do cidadão de baixa renda que os compre à procura de status, ocorre também que há uma produção específica de subprodutos da cultura para manter esse mesmo cidadão nos padrões culturais de sua classe social. O prazer da compra pode também desenvolver uma função psicossocial de auto-satisfação. Nossa proposta é desenvolver um trabalho destinado à área de Comunicação, voltado para a cultura de massa, considerando a propagação desta nova forma de desenvolvimento dos meios de comunicação e cultura na atualidade, como uma das ferramentas mais utilizadas na sociedade contemporânea. 7 Id, Ibid., p. 105

22 CAPÍTULO I - A GLOBALIZAÇÃO E AS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS Vive-se o processo de globalização: o mundo todo conhece um pouco de todo mundo. A mídia participa desse movimento por meio de seus produtos, intensificando o fluxo comunicacional entre as pessoas. Como produto midiático, as histórias em quadrinhos também

23 se projetam, atingindo seu público, ávido por novas histórias. Walt Disney é nosso conhecido, pois há décadas, suas HQ circulam em prateleiras brasileiras. No sentido inverso, Maurício de Sousa freqüenta lugares distantes daqui. Não fosse a globalização, os quadrinhos de Sousa não atravessariam as fronteiras em busca desses novos leitores. A Revolução Industrial estabelece um limite inicial na origem das histórias em quadrinhos, como afirma Moya é no mapa desse período que o marco zero da história das estórias em quadrinhos foi estabelecido 8. Eco compactua com Moya, ao afirmar: A melhor prova de que a estória em quadrinhos é produto industrial de puro consumo é que, embora uma personagem seja inventada por um autor genial, dentro em pouco esse autor é substituído por uma equipe, sua genialidade se torna fungível, e sua invenção, produto de oficina 9. A história em quadrinhos de Maurício de Sousa nasce na terceira fase do desenvolvimento industrial (1900 até os dias de hoje). Quando Mauricio criou seus personagens, pouco se ouvia falar de transmissão via satélite, internet, e não tínhamos o fluxo de informações dos dias atuais, da globalização ou mundialização cultural. A nova tecnologia não inibiu o crescimento da indústria de entretenimento dos quadrinhos do criador de Chico Bento, mas foi um fator facilitador para o seu crescimento, transformou-se em filmes e desenhos para a TV. Em estudos feitos para essa pesquisa, observamos que Maurício foi encaminhado por seu pai desde pouca idade a tomar aulas de administração de negócios (com um amigo seu) para apreender a sistemática do comércio. A afirmação nos leva a acreditar que seu sucesso na atual sociedade globalizada foi sua visão empresarial que se estabeleceu nos moldes daqueles que faziam sucesso em outros países. Maurício valeu se principalmente dos moldes americanos. Dessa forma, podemos fazer algumas referências: inspirou-se nos syndicates americanos para montar A Maurício de Sousa Distribuições, sistema de distribuição e revenda de suas revistas; foi um grande admirador de (L il Abner) Ferdinando, um Chico Bento adulto e ingênuo criado por All Cap, que lhe ensinava o lado caipira dos Estados 8 MOYA, Álvaro de. Shazam! 3ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2004.p ECO, Umberto. Apocalípticos e Integrados. 6 ed. São Paulo: Perspectiva, p.2

24 Unidos, com narrativas irônicas onde hábitos sociais e costumes políticos eram massacrados com muito humor, afirma Sousa 10. Ao definir o que é globalização, inclui-se, no contexto geral da palavra as questões desencadeadas como: conhecimento, tecnologia, cultura, relacionamentos interpessoais e capital. A globalização trouxe a comunicação mais rápida, de fácil acesso entre nações do mundo. Essa comunicação proporcionou também a troca de experiências, o acesso a novos conhecimentos e a diversificação das culturas entre as nações. O conhecimento, por sua vez, gerou novas tecnologias que criaram lucros, ou seja, venda ou criação de produtos ou serviços. Houve também uma transformação nos conceitos de atividades econômicas, equipamentos e de profissões, extinguindo-se algumas, mas criando-se muitas outras. É o caso por exemplo da máquina de escrever, que ficou obsoleta diante de computadores, extinguindo-se a produção dessa ferramenta, assim como também houve a extinção das secretárias datilógrafas. Ademais, criaram-se indústrias de computadores e novas profissões, como digitador, técnico de informática, web design, programadores de computador, etc. Surgiu a internet, que é um fenômeno que vem colaborando na consolidação da globalização. Diante disso, o conceito de conhecimento também tomou outra direção, outra velocidade; tornou-se um poder: conhecer é poder. Essas mudanças atingiram a todas as regiões do Brasil, envolvendo o país em uma rede mundial de culturas e informações. As revistas em quadrinhos resistiram, no tempo e no espaço, a todos esses novos paradigmas. Ganharam novos formatos de design, novas texturas de papel, novas cores, novas capas. Transformaram-se também em negócio rentável do ponto de vista mercadológico. Além das características registradas pelos ilustres estudiosos já citados, arriscamos a dizer que não só o Chico Bento resistiu ao tempo e ao espaço, assim como também manteve a oportunidade de introduzir, nos quatro cantos do mundo, o perfil do brasileiro caipira, representando o Brasil no planeta Terra. O Chico Bento é uma bandeira que, independente da região do Brasil em que esteja, propaga uma ideologia cultural entre brasileiros que vivem sob o signo da contemporaneidade, influenciados pelos meios de comunicação de massa HISTÓRIA EM QUADRINHOS: PRODUTO DA INDÚSTRIA CULTURAL 10 SOUSA, Maurício de.crônicas. Navegando nas Letras II.. São Paulo: Globo, p.32.

25 O termo indústria cultural foi usado por Adorno e Horkheimer em 1940 ao tratarem de cultura de massa. Esse novo conceito é argumentado pelos estudiosos como perspectiva de uma nova sociedade. O ponto central de tal argumentação está baseado na idéia de que o produto (qualquer produto) traz, em si, as marcas do sistema que o fez nascer. Dessa forma, a indústria cultural produz bens padronizados, os quais resultam das necessidades de seus consumidores. Essa é a maneira encontrada para vender produtos sem encontrar resistência em seu comprador. mas este mundo, que uns alardeiam recusar e outros aceitam e incrementam, não é um mundo para o super-homem. É também o nosso. Nasce com o acesso das classes subalternas à fruição dos bens culturais, e com a possibilidade de produzir esses bens graças a processos industriais. [...] 11. O mercado consumidor aumenta à medida que o produto se torna mais barato, mais acessível. Isso se consegue por meio de processos de mecanização. Dessa forma, a revista em quadrinhos é introduzida na esfera da indústria de produção em série e busca pela lucratividade. Com isto se estabelece uma indústria que pode fabricar e distribuir os mais variados produtos, ou uma série de mercadorias culturais. Essa transformação de bens culturais em mercadorias tem um objetivo, não único, de manipulação. Dessa forma, essas mercadorias pensadas pela indústria cultural visam à integração da sociedade de massa, aproximando a vida cotidiana dos indivíduos. Sobre comunicação de massa, Eco afirma: o universo das comunicações de massa é reconheçamo-lo ou não o nosso universo; e se quisermos falar de valores, as condições objetivas das comunicações são aquelas fornecidas pela existência dos jornais, do rádio, da televisão, da música reproduzida e reproduzível, das novas formas de comunicação visual e auditiva 12. No entanto, podemos dizer que a publicação das histórias em quadrinho, por meio de revistas especializadas, inseridas nesse contexto de massificação, somente tem validade para a indústria cultural se, de alguma forma, ela puder ser reformulada e reintroduzida na sociedade 11 ECO, Umberto. Op. cit. p Id., Ibid., p. 11

26 contemporânea. Assim, para o receptor, apesar das revistas em quadrinhos estarem sendo apenas mais um produto para o seu consumo, ele passaria a adotar as ideologias das suas histórias como um símbolo de sua identidade. Ou seja, a revista em quadrinhos como veículo de comunicação, são formadoras de opinião. O leitor assimila, por meio da leitura, a ideologia repassada pelas histórias. Assim os quadrinhos figuram como poderosos instrumentos nas mãos de comunicólogos, professores, artistas e educadores preocupados com a melhoria da qualidade do ensino-aprendizagem. A capacidade de influência exercida pelas histórias em quadrinhos é defendida por Moya quando diz: testes psicológicos aplicados em crianças demonstraram que a informação quando transformada em história em quadrinhos era apreendida num tempo assustadoramente pequeno [...] 13. Tendo em vista a condição de mecanismo regulador que exerce a história em quadrinhos para seu receptor, podemos dizer que os personagens e as histórias de Maurício de Sousa, que têm como público alvo o leitor, (crianças e adultos), reforçam e disseminam ideologia, colaboram para a construção de formadores de opinião. Nesse sentido, podemos destacar que o personagem Chico Bento preserva o ritmo de vida e seu estigma de caipira, para um único desígnio, que é o de manter a imagem do indivíduo do campo na memória das pessoas e preservar para as futuras gerações a cultura rural que é basicamente a formadora da cultura brasileira. Nesse contexto de identificação, podemos destacar, no âmbito político e ideológico, os chargistas [...], de posse de um saber prévio, esses formadores de opinião fazem uma leitura crítica e burlesca do mundo. Eles conhecem a comunidade sobre a qual se debruçam e tentam intervir - via - humor- nesta pulsão de vida, que é a realidade 14. Seja o leitor dos quadrinhos ou das charges, esse sujeito é legitimado ao ser identificado com sua identidade em mutação e ao procurar, nos símbolos valorizados pela cultura de massa, sinais de suas raízes culturais. Chico Bento, personagem tipicamente brasileiro, atinge grandes massas por meio do processo de identificação. Para Hall (1998) o mundo social apresenta uma estabilização que é mantida pelas antigas identidades. Com a dissolução das barreiras nacionais e internacionais, os quadros de referência do indivíduo se dissolvem e se constitui a crise de identidade ou seja, essa crise se estabelece pela interferência de muitas culturas impostas ao mesmo tempo ao sujeito na 13 MOYA, Álvaro de. Shazam! 3ª ed. São Paulo: Editora Perspectiva p OLIVEIRA, Maria Lilia S. Imagem e palavra numa leitura burlesca do mundo.in: AZEREDO, José Carlos (org). Letras e Comunicação.Uma parceria no ensino de Língua Portuguesa. Petrópolis:Vozes p.265.

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