PARA ALÉM DOS ESTEREÓTIPOS : RELATOS DE USUÁRIOS DE CRACK 1

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1 PARA ALÉM DOS ESTEREÓTIPOS : RELATOS DE USUÁRIOS DE CRACK 1 GIL, Bruna; BOTTON, Andressa 3 1 Trabalho de Pesquisa _UNIFRA 2 Psicóloga, formada pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA), Santa Maria, RS, Brasil 3 Psicóloga, docente da Faculdade Integrada de Santa Maria (FISMA), Santa Maria, RS, Brasil RESUMO Este trabalho aborda os esteótipos colocados sobre os usuários de drogas, com o intuito de problematizá-los. Para este estudo foram entrevistados usuários de crack em tratamento a fim de questionar o que eles pensam da forma que a mídia vem abordando o uso dessa droga. Pôde-se perceber, a partir do relato dos seus relatos, o quanto a rotulação perpetuada pela mídia contribui na exclusão social desses sujeitos, impossibilitando-o, muitas vezes, de qualquer possibilidade de reinserção. Palavras-chave: Exclusão; Estereótipos; Crack. 1. INTRODUÇÃO Conforme discursos que circulam diariamente no social sobre o uso e abuso de drogas ilícitas em geral, sabe-se que, são substâncias que fazem mal ao sujeito que as usa e que seus efeitos nocivos podem se estender aos familiares e todos ao redor dessa pessoa. Outro aspecto muito claro nesses discursos é o fato de serem proibidas. Conforme estudos de Corrêa (2011), a noção proibicionista das drogas é uma noção idealizada, montada e inventada em função de interesses. Assim, as drogas são, antes de tudo, idealizadas pelo Estado e por todas as esferas que têm interesses nessa questão, sendo elas de cunho político, financeiro, de poder e de manutenção desse poder. Dentro dessa perspectiva, segundo o autor acima citado, a reputação que a palavra droga tem, foi construída e inventada, através da perpetuação da ideia de que elas fazem 1

2 mal e retiram a pessoa da capacidade de perceber o mundo dentro da normalidade, ou seja, que alteram a consciência. Assim, a palavra droga foi associada a algo de cunho negativo, que remete à transgressão. Da mesma maneira, ou ainda pior, são as associações dentro do imaginário social sobre a pessoa que faz uso dela. Esta é investida de uma noção que remete à marginalidade e à delinquência. Visão que é continuamente reforçada pela mídia, que aborda a questão das drogas sem cientificidade, enfatizando os rótulos e os estereótipos colocados em cima desse assunto. Assim sendo, este trabalho buscou dar visibilidade a essas pessoas, mais especificamente, aos usuários de crack em tratamento. Teve o objetivo, ainda, de escutálos, tentando conhecer suas visões sobre o que é dito e mostrado na mídia a respeito da droga e dos sujeitos que fazem uso dela, ou seja, deles mesmo. 2. METODOLOGIA Foram entrevistados quatro usuários de crack que estavam em tratamento, no período da coleta dos dados, em um CAPS de uma cidade do interior do estado do Rio Grande do Sul. Cada entrevista foi feita individualmente, onde foram explicadas as questões éticas e assinado por cada um o termo de consentimento livre e esclarecido. Os participantes foram indicados pelas psicólogas da instituição, e estavam e abstinência há algum tempo. A abstinência era a forma de tratamento utilizada pelo local. Cada entrevista foi gravada, transcrita e posteriormente apagada, respeitando sempre o sigilo dos participantes. 3. RESULTADOS E DISCUSSÕES Este recorte buscou destacar as impressões dos entrevistados sobre a maneira como a mídia veicula o tema das drogas, em especial na campanha publicitária Crack Nem Pensar. Nesse sentido, foi relatado pelos entrevistados que propagandas, ou até programas que enfatizem a degradação do sujeito que usa drogas, faz com que eles se sintam desmotivados na busca pela reinserção social e ocupacional, já que esse tipo de 2

3 publicidade preconiza somente, na maioria das vezes, estereótipos de marginalização do usuário. Estas são questões que podem ser observadas nos trechos a seguir: P3: Isso ai dá indignação. Isso ai é uma injeção pra eu cair de novo. P4: É muito difícil pra um dependente que está em recuperação ver essas coisas, é muito forte. P2: Se tu é uma pessoa que está se tratando e vê isso daí...bah... Assim, ficou claro, que na opinião deles, o que é esperado, vai ao encontro de intervenções que não sejam pautadas na lógica da criminalização, da infração, permeadas pela cultura judaico-cristã que associa o prazer ao pecado, como relatam Nunes et al. (2010). Segundo as autoras, essas intervenções sempre foram apoiadas no modelo médico, tendo a internação como única possibilidade de tratamento. Nesse sentido, quando questionamos para a possibilidade de uma propaganda que falasse de drogas e que tivesse um efeito positivo, tanto para o público usuário como para os não usuários, eles relataram que deveria ser algo de cunho instrutivo, que primasse pelo acolhimento. Essas propostas podem ser vistas nas falas a seguir: P1: Acho que poderia ser uma família unida, filhos trocando ideias com os pais, ou brincando, com imagens boas, mas com palavras realistas, que poderiam falar: a droga, ou o crack, não proporciona estas situações na sua vida. Eu acho que as pessoas parariam pra pelo menos ver. P3: Teria que ser uma campanha de apoio, tipo um colega, um amigo tentando ajudar o outro, conversando sobre o assunto, explicando, mostrando a vida que leva (...) o relato de quem usou é o único que pode fazer com que o outro entenda alguma coisa, não tem como a sociedade dizer pra ti não fazer isso porque é ruim, porque faz mal. Na opinião de Trad (2003), a mesma sociedade que promove o consumo de drogas condena o uso descontrolado ou ilícito, só que, muitas vezes, o uso próprio pode se transformar em impróprio e, consequentemente em ilícito. Neste sentido, podemos perceber que, de alguma maneira, os entrevistados pensam que, para uma campanha atingir seu público alvo, deveria, justamente, fazer o contrário do que faz. Deveria falar das drogas, 3

4 conversar sobre elas, sem associá-las a um discurso moralista, que propõe que nem se pense a respeito disso, como associa o nome da campanha. Assim, percebemos, a partir das falas dos entrevistados, o quanto essa propaganda enfatiza o estereótipo negativo colocado em cima dos usuários de drogas, pois, adota como estratégia de prevenção a repressão, relacionando o usuário a características que denigrem sua imagem e colaboram para que ele seja colocado cada vez mais a margem do que se chama hoje de sociedade. Corrêa (2011), aponta que a proibição nunca deve fazer parte de uma estratégia educacional. No entanto, não nos parece que as intervenções a qual temos acesso na mídia atualmente estão pautadas na lógica da educação, elas aparentam muito mais estarem ligadas ao desejo de unicamente reprimir. Esse pensamento pode ser observado nos relatos a seguir: P3: Eu acho que é muito pesado isso daí. Eles estão usando muito sensacionalismo em cima disso aí. Isso ai é um circo montado. Isso ai está beneficiando gente que precisa, que quer, como é que eu vou dizer, se promover em cima disso ai, não pra ajudar. Se eu cair uma vez a sociedade vai me pisar pra eu cair mais pra baixo. É assim que funciona, a sociedade é assim, tudo é fachada. P4: Eu acho que a propaganda ajuda a excluir o dependente, porque é difícil de conseguir emprego, ninguém quer dar emprego pra um drogado. Na opinião de Nunes et al. (2010, p. 16), o que vemos hoje é o que a autora nomeia de sociedade do espetáculo na medida em que a mídia associa o uso de drogas a situações de violência de toda ordem. Essas atitudes contribuem para excluir e segregar cada vez mais as pessoas que usam drogas, sendo também um grande problema para aquelas que precisam de cuidado, pois, esse estereótipo acaba por afastá-las de qualquer aproximação para algum tipo de intervenção. Outro aspecto interessante que cabe ser ressaltado aqui, diz da repercussão da propaganda nos meios em que esses entrevistados circulam. Podemos observar esse pensamento através das falas de dois entrevistados: 4

5 P1: Não existe comentário entre as pessoas que eu circulo sobre a propaganda. Eu não ouço: ah, o senhor viu que a televisão está dando ênfase a um problema... não tem. Tem comentário sobre futebol, novela das oito, mas esse não. P3: Isso daí não serve mais pros dias de hoje, pro meu ponto de vista e pra vários que eu já vi. A gente conversa em vários grupos, todo mundo pensa dessa maneira que estou te falando. Pretendemos problematizar, a partir desses trechos, o poder que a mídia sensacionalista tem na perpetuação de um sistema que visa rotular o usuário de drogas, excluindo-o ainda mais da sociedade, se é que podemos dizer que algum dia esses foram incluídos. Desse modo, os relatos a seguir trazem à tona as conseqüências, desse estereótipo negativo associado a quem faz uso de drogas, que são vividas e sentidas no dia a dia desses sujeitos. O que foi trazido pelos participantes, só ressalta parte de toda exclusão que eles e suas famílias sofrem. P3: Meus guris não podiam brincar com ninguém porque eram filhos do maconheiro, do boletero (...) a pior coisa que tem é as pessoas fecharem as portas quando tu entra, é tirarem as crianças de perto, porque um drogado né, não vai deixar as crianças perto. P2: Estou mais que excluído da sociedade. Nem me dão bola. Eu me sinto uma pessoa fora da sociedade, me sinto mesmo (...). P1: Ninguém vai dar emprego, ninguém vai dar um trabalho digno pra alguém que é usuário. Queiroz (2001), aponta que ainda hoje, a maioria dos programas de prevenção e tratamento da drogadição têm como pressuposto a possibilidade de se chegar a uma sociedade sem drogas e, como objetivo principal, a abstinência total. Esse aspecto, além de ser impossível, está completamente articulado a um discurso extremamente moralista de cunho ortodoxo, que segundo Vedovatto (2010), determina o que é bom ou não, para o outro, associando o usuário de drogas a uma pessoa que destrói famílias, relacionando sua imagem ao responsável por todos os males da sociedade. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS 5

6 Essa pesquisa possibilitou-nos acima de tudo, poder de alguma maneira, dar voz a pessoas que quase nunca são ouvidas. A partir disso, possibilitou-nos, também, organizar um trabalho de pesquisa referente aos estereótipos colocados nas pessoas que usam drogas, a partir do olhar de cada entrevistado, colocando em evidências suas opiniões e dando ênfase ao seu discurso. Enfim, considerando-os sujeitos de potencial, que têm algo a dizer, que pensam criticamente sobre diversos assuntos, principalmente sobre aqueles que os envolve. Nesse sentido, pudemos visualizar o quanto os rótulos colocados nessas pessoas influenciam diretamente nos preconceitos, os quais são enfrentados por eles cotidianamente. Com base nessa afirmação, podemos citar a mídia como uma grande responsável por essa realidade, pois, a campanha publicitária Crack Nem Pensar, contribuiu de diversas maneiras para a formação do conceito excludente do usuário de drogas e propagando a aplicação de um discurso higienista sobre esses sujeitos. Minimizando toda dinâmica que envolve a drogadição, maximizando a violência, a delinquência e a guerra às drogas. Ficou muito evidente a partir deste estudo, o quanto esses sujeitos que foram entrevistados quebram o estereótipo (im)posto pela propaganda, pois, além de não serem zumbis que aterrorizam a sociedade, mostraram ter posição crítica e plena noção da realidade. Estudos como este servem, principalmente, para a confirmação de que a noção pronta e fechada da realidade precisa ser continuamente questionada e repensada, para que sempre haja a possibilidade da mudança. 5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Corrêa, Guilherme. Entrevista com Guilherme Corrêa, em resposta a questões sobre drogas. EntreVer p Nunes, D. C. Santos, L. M., Fischer, M. F., Güntzel, P....outras palavras sobre o cuidado de pessoas que usam drogas.... Santos, LM. organizadora. Outras palavras sobre o cuidado de pessoas que usam drogas. Porto Alegre: Ideograf; p Queiroz, IS. Os programas de Redução de Danos como Espaços de Exercício da Cidadania dos Usuários de Drogas. Psicologia Ciência e Profissão p

7 Trad, S. A publicidade de drogas na TV: o contraste entre o discurso da prevenção e da publicidade comercial. Revista Olho mágico p Vedovatto, S.. Contrapondo o discurso midiático sobre drogas: nem tão feios, nem tão sujos, nem tão malvados: pessoas de bem também usam drogas! Santos, LM. organizadora. Outras palavras sobre o cuidado de pessoas que usam drogas. Porto Alegre: Ideograf; p

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