O USO DE QUADRINHOS NO ENSINO DA MATEMÁTICA: UM ENSAIO COM ALUNOS DE LICENCIATURA EM MATEMÁTICA DA UECE

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1 O USO DE QUADRINHOS NO ENSINO DA MATEMÁTICA: UM ENSAIO COM ALUNOS DE LICENCIATURA EM MATEMÁTICA DA UECE Ana Carolina Costa Pereira Universidade Estadual do Ceará UECE Resumo: Atualmente o ensino de Matemática vem sofrendo mudanças significativas, principalmente no que se refere a métodos e técnicas de aprendizagem. A utilização dos Quadrinhos nas aulas de Matemática é uma delas. Nas aulas de Matemática, os Quadrinhos podem ser utilizados de forma a estimular os alunos a criar tramas baseadas em situações matemáticas, contribuindo, ainda, com a desmistificação da imagem negativa em torno da disciplina e mostrando que a Matemática pode ser vista de uma forma atraente, divertida e desafiadora. Este estudo visa apresentar uma experiência com alunos do curso de Licenciatura em Matemática, da Universidade Estadual do Ceará UECE, envolvendo o uso de Histórias em Quadrinhos e Tirinhas em Quadrinhos como elementos de investigação e abordagem de conceitos matemáticos de forma lúdica e criativa, nas disciplinas de Prática como Componente Curricular. Eles estimulam a imaginação e a criatividade e, fundamentalmente, despertam o interesse pela leitura e a escrita, contribuindo para a produção de textos, além de ser um ótimo recurso nas aulas de Matemática como revisão de conteúdo, ou mesmo uma forma de conhecer os conceitos prévios que os alunos trazem na sua bagagem. Palavras-chave: História em Quadrinhos; Ensino de Matemática; Formação de Professores. Introdução O uso de Histórias em Quadrinhos, Gibis e Tirinhas no ensino pode ser tratado como método ou técnica para a melhoria do ensino de Matemática. É difícil conhecer alguém que não goste de quadrinhos desde a infância, como forma de desenvolver e estimular a leitura, até a idade adulta, como lazer. As bancas de revistas estão lotadas dessas publicações, sejam elas revistas em quadrinho mensais, tirinhas impressas diariamente nos jornais, ou até mesmo como publicações específicas que reúnem uma quantidade expressiva dessas historias. Os Quadrinhos sempre foram uma mídia sedutora para o publico infanto-juvenil. Nesta nova tendência para o ensino de Matemática, a maioria dos recursos didáticos, como livros didáticos e paradidáticos, avaliações e até mesmo os vídeos educacionais, são cada vez mais utilizados os Quadrinhos para contextualizar um determinado assunto. Ao abrir, por exemplo, um caderno de prova como o do Exame 1

2 Nacional do Ensino Médio (ENEM) ou de vestibulares de renomadas Universidades (Figura 1), observa-se que são constantes as questões que envolvem Tirinhas em Quadrinhos como o contextualizador do problema. Figura 1: Questão 34 do Exame de qualificação da UERJ. SADE A utilização de Quadrinhos na educação ainda é incipiente no que se refere a pesquisas acadêmicas. Podemos encontrar alguns professores e pesquisadores que desenvolvem trabalhos envolvendo esse tema nas áreas de Física, Ciências, Português, História e Línguas (CÓRIO, 2006). Porém, dificilmente encontramos o uso desse recurso nas aulas de Matemática (TONON, 2009). Santos (2003, p. 2) afirma que o potencial didático-pedagógico dos Quadrinhos envolve muitas aplicações: incentivo à leitura, utilização em livros didáticos, aprendizado de línguas estrangeiras; discussão de temas; dramatização; e educação popular. Mas até que ponto essas pesquisas estão chegando aos nossos professores? Como efetivamente aplicar os Quadrinhos nas aulas de Matemática? Esse trabalho tem o intuito de apresentar uma prática em sala de aula com os alunos de Licenciatura em Matemática, da UECE, em que a abordagem principal foi o uso e a confecção de Histórias em Quadrinhos e Tirinhas para o Ensino de Matemática. Potencialidades dos Quadrinhos nas aulas de Matemática Por definição, as Histórias em Quadrinhos são sequências de imagens em quadros criados proporcionalmente, retratando pequenas histórias, acompanhadas por balões que representam diálogos de personagens, de modo a favorecer a sua compreensão. As Tirinhas em Quadrinhos são pequenas histórias, contadas em três ou quatro quadros, narrando histórias dos mais variados gêneros e estilos. 2

3 Não sabemos ao certo quando e onde surgiram as Histórias em Quadrinhos. Dentre suas várias origens, alguns pesquisadores 1 relatam que elas nasceram oficialmente nos Estados Unidos, em 1895, com a publicação de O Menino Amarelo (Yellow Kid), de Richard Outcault. No Brasil, a revista ilustrada Tico-Tico, criada em 1905, foi a precursora das Revistas em Quadrinhos, trazendo poesias e passatempos divertidos. Porém, segundo Carvalho (2003, p. 26), As revistas que traziam apenas quadrinhos surgiram na década de 1930, nos Estados Unidos. (...) No Brasil, o jornalista Adolfo Eizen, que já havia lançado o primeiro suplemento juvenil nos jornais, também foi responsável pela primeira revistas em quadrinhos, em 1939: O Mirim. Entre outros, O Mirim trazia Dick Tracy, Supermam e Batman (O Morcego Negro) A Editora Brasil-América (EBAL), fundada, em 1945, por Adolfo Aizen, foi pioneira na produção e edição de Histórias em Quadrinhos dedicadas a temas relacionados à educação e, especialmente, à História. O uso de quadrinho voltado para a educação já sofreu inúmeros protestos. Os primeiros inimigos dos quadrinhos no Brasil foram os padres. Classificavam os quadrinhos como imorais e desnacionalizantes. Em 1922, a Associação Brasileira de Educadores ABE, considerava que as crianças que lessem quadrinhos adquiririam hábitos estrangeiros prejudiciais e, em 1939, a Igreja reforçou essa ideia. Em 1944, o Instituto Nacional de Educação e Pesquisa INEP, apresentou um estudo preconceituoso no qual afirmava que as Histórias em Quadrinhos provocavam Lerdeza Mental. Gilberto Freyre foi um dos maiores defensores dos Quadrinhos no Brasil, que classificava como sendo uma ponte para a literatura. Hoje podemos perceber que os Quadrinhos podem possibilitar diversas habilidades. De modo geral, eles podem estimular a criatividade e despertar o interesse pela leitura e pela escrita, tão utilizadas nas diversas áreas do ensino: Português, Matemática, Física, Química, Biologia, Geografia, entre outros; além de desenvolver a socialização em grupos, pois para a confecção de Quadrinhos o trabalho em grupo é muito importante. Por exemplo, em uma sala de aula um aluno faz os desenhos da história; outro escreve a narração e os diálogos; um faz a revisão; quem tem a letra bonita escreve nos balões; e 1 Ver Carvalho,

4 outro aluno faz a arte final. Isso faz com que todos os alunos possam participar de alguma forma, mostrando suas aptidões. Carvalho (2006) propõe a utilização dos Quadrinhos em sala de aula de duas maneiras: Como ferramenta didática (em exercícios e exemplos das mais diversas disciplinas); Como exercício multidisciplinar, na criação de Histórias em Quadrinhos. No que se refere à disciplina Matemática, ele dar exemplos do seu uso no conteúdo de potenciação/multiplicação quando (...) Cebolinha (tornou-se gigante, graças a uma fórmula do Franjinha); Mônica (ficou minúscula, por causa do pó de um duende); Tio Patinhas, Donald e os Sobrinhos (ficaram pequenos, por meio de invenções do Professor Pardal e chegaram a entrar em um formigueiro) (...) (CARVALHO, 2006, p. 85) e o conceito de proporção na confecção de Fanzines. Achamos interessante a utilização de Quadrinhos proposta por Carvalho (2006), porém nossa proposta classifica, além dessas duas, outra que pode ser usada em sala de aula: utilizar Histórias em Quadrinhos e Tirinhas já publicadas nas mídias; confeccionar Histórias em Quadrinhos e Tirinhas junto com os alunos; utilizar Histórias em Quadrinhos e Tirinhas confeccionadas para um fim educacional. Essa utilização pode perpassar motivos de cunho ensino-aprendizagem, ou seja, possibilitam o crescimento da motivação do aluno com relação à disciplina, facilitando o entendimento de conteúdos abordados, instigando a curiosidade e desafiando a criatividade. Porém, ainda existe o receio, pelo professor de Matemática, da aplicação desses novos métodos e técnicas utilizados para o ensino, principalmente juntos (vídeo, quadrinhos e conteúdo). Nossa proposta é desmistificar essa ideia na da formação de professores de Matemática. Quadrinhos na Formação de Professores em Matemática da UECE Hoje, em alguns cursos de Licenciatura em Matemática, é comum no Projeto Pedagógico a inserção no currículo das Práticas como Componente Curricular (PCC), que 4

5 no curso de Licenciatura em Matemática da Universidade Estadual do Ceará (UECE) diz respeito às disciplinas vivenciadas ao longo do curso e voltadas ao ensino. Os novos modelos curriculares mostram que a prática de ensino deverá ser desenvolvida desde o início do curso, articulada aos conteúdos curriculares e ao estágio supervisionado, para que o aluno possa de fato exercer a prática docente. No curso de Licenciatura da UECE, as práticas como componente curricular estarão distribuídas em disciplinas a partir do primeiro semestre, perfazendo um total de 408 horas. Essas disciplinas objetivam sistematizar os conteúdos apreendidos, como um exercício de articular a teoria ao fazer pedagógico. As disciplinas são Metodologia do Trabalho Científico e Monografia e as que têm o nome de Laboratório de Ensino. Os Laboratórios têm créditos de teoria e créditos de prática. O último Laboratório é de pesquisa e, dentre outros objetivos, estimula a pesquisa e qualifica o aluno para a produção da Monografia. Todas estas disciplinas deverão ter os seus momentos teóricos e parte dos práticos no Laboratório de Ensino de Matemática. Nas disciplinas de Práticas como componente curricular foram realizadas, em três turmas, atividades envolvendo Quadrinhos. Essa não é uma ideia nova, pois em outros momentos realizamos oficinas e mini-cursos em eventos internos e externos à Universidade a fim de melhorar a prática da aplicação do uso de Quadrinhos. Vale ressaltar que a maioria dos alunos do curso de Matemática da UECE atua no ensino, antes mesmo de concluir a Licenciatura, o que ocasiona o repasse dessa atividade aos seus alunos de escolas públicas e particulares. A atividade com Quadrinhos teve como objetivos desmistificar a imagem da matemática, incentivar a criatividade e a cooperação entre os pares, propiciar oportunidade de investigação, na busca de diferentes formas de encontrar resultados, e abordar conceitos matemáticos de forma lúdica e criativa. Antes de iniciarmos qualquer atividade envolvendo rabiscos, desenhos e figuras que visem o ensino, é interessante que os envolvidos saibam o que é um Quadrinho e uma Tirinha. Por esse motivo, preparamos uma conversa inicial sobre história, tipos e utilização de Histórias em Quadrinhos na sala de aula, disponibilizando em seguida, para a leitura, uma variedade de Revistas em Quadrinhos, Mangás, Tirinhas, cartuns em jornais, entre outros, a fim de proporcionar o primeiro contato com esse material. 5

6 Mas como confeccionar uma História em Quadrinhos ou Tirinha em Quadrinhos? Carvalho (2006, p. 99) fornece em seu livro A Educação está no Gibi um capítulo intitulado Oficinas de Quadrinhos, que tem o intuito de minimizar esses problemas, e esse capítulo fornece informações e dicas que ajudaram professores e alunos na confecção de suas HQs (CARVALHO, 2006, p. 99). Assim, abrimos um espaço para o aprendizado da construção de uma HQs ou TQs a partir desse texto de Carvalho (2006). Figura 2. Cena do Filme Donald no País da Matemágica Com os alunos conhecendo algumas técnicas de construção de HQs ou TQs, exibimos o filme Donald no País da Matemágica, do Walt Disney, de 1959 (figura 2), com duração de aproximadamente 27 minutos. Em seguida propomos e discutimos o seguinte questionamento: Você conseguiria transformar esse vídeo em uma História em Quadrinhos? Nesse momento conseguimos visualizar as várias dúvidas e medos relacionados ao tema, ou seja, as próprias limitações dos alunos em desenhar, criar, escrever ou montar, o que num primeiro momento é uma barreira a ser vencida. Em seguida, apresentamos a Revista em Quadrinhos que contém a história do filme Donald no País da Matemágica e propomos inicialmente a criação de uma Tirinha em Quadrinhos (figura 4) com um tema em comum para todos, a Aritmética, e posteriormente uma História em Quadrinhos (figura 3) com temas escolhidos pelos próprios alunos. 6

7 Figura 3. Construção de Histórias em Quadrinhos Para finalizar, foi proposta uma exposição, em forma de painel, das HQs e TQs confeccionadas pelos alunos; ela teve como objetivo a interação entre os alunos e os próprios quadrinhos criados por eles. Vale ressaltar que a confecção das HQs foi realizada em grupo de quatro alunos e as TQs em dupla, pois a habilidade que um aluno não tem pode ser encontrada em outro aluno e complementarem-se. 7

8 Figura 3. Exemplo de Tirinhas em Quadrinhos Considerações finais O uso de Quadrinhos na formação de professores de Matemática ainda é embrionária, por isso poucas pesquisas estão direcionadas para essa vertente, de modo que para esse recurso chegar às salas de aulas do ensino fundamental e médio precisa estar inserido à formação continuada dos professores. Alguns professores até utilizam os Quadrinhos nas suas aulas, mas isso representa uma parcela mínima no ensino. Nossa proposta foi montar uma oficina que mostrasse as potencialidades dos Quadrinhos no uso em sala de aula para alunos do curso de Licenciatura em Matemática, da UECE. No princípio houve uma resistência pelos alunos do curso, pois consideravam atividade infantil, mas, à medida que desenvolvemos o tema e mostramos os vários usos dessa ferramenta pedagógica, os alunos acreditaram nessa potencialidade. A falta de algumas habilidades por parte dos alunos, como desenhar os Quadrinhos e criar os diálogos, foram superadas com os trabalhos em grupo. Eles perceberam que é possível trabalhar com Matemática desde a criação dos Quadrinhos (proporção) até a criação da história, envolvendo um conteúdo matemático. Esse trabalho não se esgota aqui: temos o intuito de aprimorar essa oficina com Quadrinhos para atingir um número maior de professores. Um grupo de pesquisadores (MISKULIN; AMORIM; SILVA, 2006) da UNICAMP desenvolveu um software chamado de HagáQuê 2, que consiste num editor de Histórias em Quadrinhos com fins pedagógicos. O próximo passo é trabalhar, além das aptidões dos alunos com papel e lápis, o uso do computador, porém é necessário estarmos conscientes da realidade dos alunos e das escolas da nossa região, com relação ao equipamento de informática. 2 8

9 Referências CARVALHO, D.J. A Educação está no Gibi. Campinas, SP: Papirus Editora, CORION, M, L, F. O personagem Chico Bento, suas ações e seu contexto: um elo entre a tradição e a modernidade Dissertação de Mestrado - Universidade de Marília, UNIMAR, Marília (SP), MISKULIN, R. G. S. ; AMORIM, J. A. ; SILVA, M. R. C.. Histórias em Quadrinhos na Aprendizagem de Matemática. In: IX Encontro Gaúcho de Educação Matemática (EGEM'2006), 2006, Caxias do Sul. Anais do IX Encontro Gaúcho de Educação Matemática (EGEM'2006). São Paulo: Sociedade Brasileira de Educação Matemática, SANTOS, R. E.. A História em Quadrinhos na sala de aula. In: XVI Congresso Brasileiro de Comunicação, 2003, Belo Horizonte. XXVI Congresso Brasileiro de Comunicação, TONON, S. de F. T. R. As Histórias em Quadrinhos nas Aulas de Matemática. In: IX EPEM - Encontro Paulista de Educação Matemática, 2008, Bauru - SP. IX EPEM Encontro Paulista de Educação Matemática,

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