Categoria: Desafios e debates sócio-ambientais nos conteúdos CTS (CTSA)

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2 Rede Sociotécnica, Ciência e Ambiente: os professores da rede pública do Estado do Rio de Janeiro como coautores de uma experiência em Educação Ambiental Categoria: Desafios e debates sócio-ambientais nos conteúdos CTS (CTSA) Helaine David - Departamento de Orientação e Supervisão Pedagógica DEP/UERJ, Daniela Beltrão de Souza - Núcleo de Ensino e Pesquisa em Ciências, Biologia e Ambiente a Distância IBRAG/UERJ, T. B. Branquinho -Faculdade de Educação; Pós-graduação em MA/UERJ, Fernanda de Oliveira Gomes - Instituto de Biologia Roberto Alcântara Gomes. IBRAG/UERJ, O Programa de Educação Ambiental do Complexo Petroquímico do Rio de JaneiroPEA/COMPERJ, foi desenvolvido no arcabouço das ações mitigadoras do Impacto ambiental resultante da instalação do COMPERJ. O Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro/COMPERJ consiste, atualmente, no maior projeto individual da Petrobras Petróleo Brasileiro S/A, uma sociedade anônima de capital aberto, cujo acionista majoritário é o Governo da República Federativa do Brasil e que atua como uma empresa de energia nos setores de exploração e produção, refino, comercialização e transporte de óleo e gás natural, petroquímica, distribuição de derivados, energia elétrica, biocombustíveis, entre outras fontes renováveis de energia (Petrobras, 2012). O COMPERJ segue voltado para atividades petroquímicas e ocupará uma área de aproximadamente 45 milhões de m² situada no município de Itaboraí/RJ. Tendo em vista a dimensão deste empreendimento e o número de pessoas afetadas por ele, várias ações de preservação e de conservação socioambientais necessitaram ser adotas pela Petrobras no decurso de seu processo de instalação (Figura 01). Nesse sentido, a Educação Ambiental emerge como fator imprescindível à consecução de seu licenciamento perante os órgãos ambientais competentes do Estado do Rio de Janeiro e da República Federativa do Brasil. Figura 01 Visando atender aspectos específicos da legislação que rege as fundações de empreendimentos dessa natureza, nasceu a proposta de Educação Ambiental do 1

3 COMPERJ. A proposta originou-se do convênio firmado entre a Universidade do Estado do Rio de Janeiro/UERJ e a Petrobras no ano de 2009, sendo direcionada aos 07 (sete) municípios atingidos direta e/ou indiretamente pelas atividades do empreendimento, a saber: Itaboraí, Rio Bonito, Tanguá, São Gonçalo, Magé, Guapimirim e Cachoeiras de Macacu. As atividades educativas objetivaram orientar o fortalecimento das populações locais através da difusão de conhecimentos, da compreensão do papel da ciência na sociedade, da sensibilização acerca do significado da responsabilidade e do reconhecimento de processos degradantes sociais e ambientais. Imbuídos deste espírito, buscamos promover uma integração entre as comunidades e o empreendimento local da construção, interesses que orbitam seus serviços e alterações nos modos de vida, pautando-nos nas fragilidades do paradigma científico moderno (Santos, 2010). Ao aproximar as populações dos meandros implícitos no COMPERJ, pretendemos subsidiar reflexões acerca da conformação ambiental estabelecida. Destarte, entre as ações desenvolvidas, destacamos nesse trabalho o Curso PEA/COMPERJ: Introdução à Educação Ambiental, que teve duração de um ano e contou com aproximadamente 220 docentes, vinculados à rede pública (estadual e municipal) e aproximadamente 80 membros da sociedade civil das localidades supracitadas. Esse público foi selecionado como cursista devido a seu potencial multiplicador no seio das comunidades das quais se originam. Estima-se que o curso tenha atingido indiretamente, por conta de seu público, um mínimo de 1000 mil pessoas em cada unidade escolar e por volta de 600 pessoas da sociedade civil, em cada um dos sete municípios abarcados. A participação da comunidade escolar motivou a inserção no conteúdo abordado não só de temáticas de cunho global mas, principalmente, de questões locais dos municípios participantes do Programa. Assim, partimos do micro para o macro e buscamos relacionar as questões vivenciadas no cotidiano com aquelas conhecidas somente através dos meios de comunicação e, aparentemente, distantes da realidade dos cursistas. A elaboração das atividades privilegiou os cursistas como co-autores de ferramentas educacionais, propiciando novas perspectivas acerca de temáticas relevantes e de sua aplicabilidade nos conteúdos. No transcorrer dos encontros, a vertente multiplicadora dos profissionais se dilatou a medida que se apropriaram desta real possibilidade e, junto à equipe pedagógica, constituíram uma teia/rede de conhecimentos. Com esta rede e o fortalecimento dos docentes, fomentamos o diálogo e este, protagonizou a idealização das ações, firmando-se, então, a base do Programa nas proposições da rede sociotécnica (Latour, 1994). Nesta rede as relações entre os atores humanos e não-humanos são entrelaçadas e, ao mesmo tempo, tecem conhecimentos oriundos da realidade na qual nos encontramos, trazendo sempre novos elementos para a rede. Partindo desse pressuposto, o planejamento aspirou estabelecer uma rede em constante ampliação, tendo como matéria-prima os conhecimentos dos cursistas, o contexto no qual estavam inseridos e a vivência acadêmica dos responsáveis pela preparação das atividades. Deste modo, as mesmas foram divididas em 4 módulos que figuraram como eixos temáticos e oportunizaram desdobramentos peculiares a cada município, a saber: Histórias Locais e Consciência Ambiental; Água, Bacias Hidrográficas e Áreas de Proteção Ambiental Locais; Vegetação Local; Solo e Reciclagens Orgânicas e Fauna Local e Questões Socioambientais. Tais eixos se consubstanciaram através de pesquisa de campo com os docentes - realizada em evento prévio em Itaboraí (Figura 02), de consulta aos documentos Estudo de Impacto Ambiental/EIA e Relatório de Impacto Ambiental/RIMA, elaborados pela Petrobras, e do diálogo com outras vertentes do convênio. 2

4 Figura 02 Este processo apontou a importância da discussão de temas de interesse dos municípios alinhados aos relacionados ao COMPERJ, contribuindo assim para a edificação de propostas para as questões locais. Por serem dotadas de dinâmica e movimento harmônico, as oficinas - componentes dos módulos -, tencionaram promover uma redescoberta dos ambientes locais, através de reflexões, da experimentação e da discussão dos panoramas socioambientais. Adotando essa linha, a realização de pesquisas de imagens, bem como, o levantamento bibliográfico de características locais, tornou-se fundamental para adequação às necessidades e demandas dos cursistas. O teor dos módulos teve por finalidade evidenciar a sobreposição da inter-relação entre os temas propostos à vida cotidiana, sublinhando a dimensão humana/existencial para além dos ecossistemas e seus fatores bióticos e abióticos. Como resultado, vimos ações antrópicas serem ressaltadas: queimadas, tráfico de animais silvestres, contaminação da água etc. Como resposta a essas ações trabalhamos dinâmicas e atividades que, em sua essência, provocassem o apontamento de possíveis soluções. Como exemplo, citamos o município de Guapimirim, onde os cursistas criaram um fórum virtual para debater os aspectos envolvidos na introdução de espécies exóticas invasoras neste município e no Estado do Rio de Janeiro. Nessa primeira etapa, onde foram apresentados conteúdos fundamentados na metodologia participativa sob a forma de jogos, dinâmicas e construções coletivas (Figura 03), os cursistas puderam expandir sua bagagem teórico-metodológica e ressignificar saberes. Figura 03 3

5 Em seguida, desenvolveram Planos de Ação à luz das reflexões suscitadas no decorrer dos módulos. Os Planos de Ação, elaborados através da metodologia da pesquisa-ação (Thiollent, 1988), deveriam relacionar os saberes popular e científico em prol das questões socioambientais sinalizadas pela comunidade escolar, além de estimular o uso deste espaço como locus de partilha do conhecimento apreendido/construído/ressignificado. Fundamentados na rede sociotécnica e vislumbrando ações neutralizantes para as questões contidas nos Plano de Ação, os cursistas experimentaram, ainda, a co-autoria de ações no bojo do Programa e protagonizaram o incentivo ao exercício da cidadania em suas comunidades. Durante o Curso a equipe realizou trabalhos de campo e pesquisas visando afinar e aperfeiçoar o trabalho desenvolvido para cursistas oriundos de locais e escolas diferentes e portadores de formações e práxis diversas. Contudo, logo alcançamos que apesar das múltiplas características dos cursistas, o desejo de ampliar conhecimentos acerca das possibilidades de minimização dos impactos causados pelo desenvolvimento e pela chegada de um grande empreendimento em sua região era comum. Acompanhando as propostas de Plano de Ação, percebemos a incorporação das reflexões em suas práticas e suas transmutações em indivíduos participativos nos processos de tomada de decisão. Assim, consideramos comungar de uma reforma de pensamento (Morin, 2008), tendo em vista termos alcançado nosso intento em relação às comunidades e que o trabalho desenvolvido, pari passu, contribuiu para a equipe ao possibilitar descobertas, criações e a participação na constituição de um novo olhar sobre o ambiente. Como um dos resultados do Curso, destacamos a editoração do livro Educação Ambiental e Rede Sociotécnica (figura 04) que apresenta em sua estrutura uma compilação das oficinas oferecidas no âmbito do Curso e de seus produtos didático-pedagógicos. O material desta publicação retrata a metodologia utilizada em sala de aula pelos condutores das oficinas e pela Coordenação Pedagógica e objetivou ser um material bibliográfico para consulta e resgate de ideias e propostas de trabalho. Figura 04 A publicação foi distribuída aos cursistas na ocasião da formatura oficial dos grupos dos municípios. Na oportunidade, os Planos de Ação dos cursistas foram 4

6 apresentados em formato de pôsteres e esta exposição facilitou a interação e a troca de saberes entre os cursistas dos municípios componentes do Programa. Cabe lembrar que esta foi a primeira etapa do Programa de Educação Ambiental do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro - PEA/COMPERJ e que sua segunda etapa encontra-se em fase de planejamento pedagógico e de acertos administrativos por parte das instituições componentes do convênio. Referências LATOUR, B. (1994). Jamais fomos modernos Ensaio de Antropologia Simétrica. Tradução de Carlos Irineu da Costa. (1ª ed.). Rio de Janeiro: Editora 34. MORIN, E. (2008). A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Tradução de Eloá Jacobina. (15ª ed.). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. Perfil Petrobras. Disponível em: Acesso em: 14 de julho de SANTOS, B. S. (2010). Um discurso sobre as ciências. (7ª ed.). São Paulo: Cortez. THIOLLENT, Michel (1988). Metodologia da pesquisa-ação. São Paulo: Cortez. 5

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