Comunicado do Seminário Internacional - Auditoria da Dívida na América Latina

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1 Comunicado do Seminário Internacional - Auditoria da Dívida na América Latina Nos dias 12 a 14 de novembro foi realizado Seminario Internacional "Auditoria da Dívida na América Latina". Durante a permanência dos convidados estrangeiros, o Presidente da Câmara dos Deputados recebeu em audiência uma delegação do Equador, que explicou a importancia da Auditoria equatoriana, e do significado, para a América Latina, de um procedimento semelhante que deveria ser realizado pelo Brasil, em cumprimento à Constituição Federal. Segue abaixo o Comunicado aprovado pelos presentes, ao final do Seminário. COMUNICADO DO SEMINÁRIO INTERNACIONAL AUDITORIA DA DÍVIDA NA AMÉRICA LATINA Representantes de entidades do Equador, Brasil, Argentina, Paraguai, Peru, Bolívia, Bélgica e das redes internacionais CLAI (Conselho Latino-americano de Igrejas), Latindadd (Rede Latino-americana sobre Dívida, Desenvolvimento e Direitos), Jubileu Sul Americas e CADTM (Comitê pela Anulação da Dívida do Terceiro Mundo), reunidos em Brasília, nos dias 12 a 14 de novembro de 2008, no Seminário Internacional Auditoria da Dívida na América Latina para difundir a auditoria oficial feita pelo governo Equatoriano e outras iniciativas que agora se iniciam, conclamam a todos os governos e movimentos sociais da América Latina que se unam a este esforço. A América Latina vive um tempo de avanços na caminhada de libertação de seus povos. Destacamos a realização, por parte do Governo do Equador, da Auditoria Integral da Dívida Externa e Interna (CAIC), cujo relatório final será apresentado publicamente em Quito pelo Presidente Rafael Correa no próximo dia vinte de novembro de Esta Auditoria expressa a vontade política soberana dos povos do Equador de conhecer a verdade sobre a dívida para terem condições de

2 decidir o que fazer em relação a esse processo que gera sacrifícios dos direitos da maioria de sua população. Significado político das auditorias da dívida A crise capitalista, evidenciada pela crise financeira, econômica, ambiental, alimentar e social, tem seu custo cobrado, mais uma vez, dos empobrecidos. Por isso, a presente crise é um momento oportuno para mostrar à sociedade a interferência e a dominação das instituições financeiras sobre os países que se endividaram. A Auditoria é um instrumento que revela a verdade sobre o processo de endividamento e que a ajuda a mostrar a falsidade do sistema capitalista e a corrupção que o caracteriza. Demonstra a violação da soberania, as imposições e cláusulas abusivas, revelando como todos os processos de renegociação e reciclagem da dívida foram instrumentos de saque, implicando aumento da dívida. Ao contrário do que é dito pelo governo e pela mídia, dívida pública não acabou, e continua sendo, cada vez mais, o centro dos problemas nacionais, e representa o pano de fundo para as reformas neoliberais, como as da previdência. O significado político da auditoria é tornar pública a co-responsabilidade do endividamento pelos países emprestadores e governos do Sul, mostrando que essa dívida já foi paga e que somos, na realidade, credores. A auditoria revela as assimetrias entre os países, aprofundadas pelas relações de endividamento; mas ela pode, também, evitar que essas assimetrias se perpetuem, e ajuda a desenvolver um processo educativo que possibilita aos povos terem certeza de que a dívida é fraudulenta e ilegítima. A Auditoria da dívida é um dos instrumentos para reconquistar a soberania. Ao tornar-se oficial, com participação da sociedade civil, como no caso do Equador, significa a vitória das organizações sociais. A luta não se esgota na Auditoria, mas ela é importante para o enfrentamento da dívida, contra a reforma liberal do Estado, e deve ligar-se às lutas mais amplas em favor dos direitos humanos e das transformações estruturais da sociedade.

3 Sobre a base das Auditorias, os governos podem decretar de forma soberana a anulação da dívida ilegítima. Estratégias de ação Diante disso, o debate do Seminário sugere as seguintes propostas: - divulgar amplamente a Auditoria oficial realizada pelo Equador (CAIC) em todos os países da América Latina, criando uma visão positiva sobre o processo; divulgar também as conquistas presentes na Constituição equatoriana e lutar para que sejam incluídas nas Constituições dos outros países regras que evitem endividamentos ilegais e ilegítimos; - divulgar outras iniciativas de Auditoria (Paraguai, Argentina, Peru) e a Auditoria Cidadã da Dívida. - divulgar a posição da Noruega ao reconhecer a co-responsabilidade nos empréstimos ilegítimos a 5 países Equador, Egito, Jamaica, Peru e Serra Leoa e cancelar unilateralmente a dívida. - criar mais oportunidades de estudo e debate sobre a dívida em todos os setores e organizações sociais, sindicatos, igrejas, universidades, provocando mobilizações, ações, alianças; buscar simpatizantes; - desenvolver estratégias para ingresso à mídia e criar redes de informação próprias, internet, publicações populares; - que cada entidade ligue suas lutas específicas com a problemática da dívida; - realizar uma atividade para capacitar pessoas para os trabalhos de auditoria através da socialização da metodologia utilizada na Auditoria do Equador; - sistematizar as experiências de Auditoria da dívida e, tendo por base a prática do Equador, construir uma metodologia de auditoria integral da dívida, exemplificando com casos concretos auditados e tipificando penalmente os casos recorrentes.

4 - criar um manual para guiar a contratação de créditos, com base nas descobertas da CAIC e outras auditorias, e que possa ser utilizado pelas entidades para o exercício do controle social em todo o processo de endividamento. - caminhar na direção da constituição de um fórum integrado pelas entidades que buscam a realização das auditorias da dívida; fazer um planejamento do movimento, prevendo os recursos necessários; - fazer pressão cidadã de comitês estaduais, regionais e nacionais sobre os parlamentos em favor de auditorias oficiais; - fazer um balanço das lutas e aprofundar o debate sobre a dívida na América Latina no próximo Fórum Social Mundial de Belém, Brasil; - construir um conjunto de indicadores sociais, relacionando a Dívida com direitos humanos, exclusão social e outros aspectos sociais afetados pelo endividamento público; - trabalhar para que o governo do Equador proponha que os governos dos demais países façam auditorias para terem argumentos em favor do não pagamento da dívida ilegítima; - que os membros da CAIC, ao tornar-se público seu relatório, busquem uma forma de colocar sua experiência à disposição dos países, criando oportunidades para encontros entre pessoas que atuam em movimentos socais e governos da região; - exigir das autoridades que têm como função acompanhar o endividamento que assumam suas responsabilidades; - avançar no processo de judicialização da dívida; - ampliar a solidariedade com o Equador e o Paraguai em suas demandas contra contratos abusivos com empresas brasileiras, como a Odebrecht e Eletrobrás (caso Itaipu); empreender auditorias sobre esses casos, e exigir sanções, soluções justas e reparações; - ligar a luta pelas auditorias com a construção de uma nova ordem financeira regional e internacional;

5 - Aprofundar os estudos e trabalhos relacionados à crise atual, denunciando o uso de recursos públicos para salvar os grandes bancos especuladores às custas do aumento da pobreza e da exclusão de nossos povos. - Exigir que os países e instituições emprestadoras paguem sua dívida com os países devedores - Buscar maior compromisso das redes e instituições. Realizar evento de planejamento de ações conjuntas. Com essas tarefas e objetivos, as entidades promotoras e participantes do Seminário Internacional desejam e esperam contar com a adesão de mais forças políticas dos povos latino-americanos para implementarem auditorias das dívidas externa e interna que apressem sua libertação da dominação e saque que elas representam. Brasília, 14 de novembro de 2008.

6 Na Audiência com Arlindo Chinaglia (Presidente da Câmara dos Deputados), Hugo Arias (Presidente da Rede Latindadd e membro da CAIC), Maria Lucia Fattorelli (Coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida e membro da CAIC), Wilma Salgado (Jubileo 2000 e Ex Ministra de Finanças do Equador) e Franklin Canellos (CLAI, e Vice Presidente da CAIC). Foi reivindicada a instalação da CPI da Dívida Pública, que já conta com as assinaturas necessárias de parlamentares.

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