Uma análise Sociológica, Psicanalítica e Estilística do conto Substância de Guimarães Rosa

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1 Uma análise Sociológica, Psicanalítica e Estilística do conto Substância de Guimarães Rosa Jaciara Candido dos Santos 1 (UFF) Resumo Guimarães Rosa tem obras extensas e ricas que possibilitam fazer várias análises. Neste trabalho foi designado o conto Substância parte do seu livro Primeiras Estórias, tem como personagem principal Sionésio, homem simples, de poucas palavras e trabalhador, Maria Exita sua empregada e outros, é essa história de amor e razão que norteia o Conto. Esta obra faz parte do seu acervo para leitura e análise onde é possível abordar a Sociologia, a Psicanálise e a Estilística.. Palavras-chave: literatura, sociologia, psicanálise, estilística, Língua Portuguesa Abstract Guimarães Rosa has extensive and rich that works to allow more analysis. This work was called the story "Substância" of his book "Primeiras Estórias", has as main character Sionésio, simple man of few words and worker, Maria Exit your employees and others, is the story of love and reason that guides the account. This work is part of its collection to read and review where you can address the Sociology, Psychoanalysis and the Stylistic. Key-words: literature, sociology, psychoanalysis, stylistic, Portuguese Language 1 Jaciara Candido dos Santos Graduada em Letras, Pós-graduada em Língua Portuguesa (FSB-RJ, Rio de Janeiro, Brasil), Pós-graduanda em Planeamento, Implementação e Gestão de Educação à Distância (UFF- Universidade Federal Fluminense Niterói, RJ, Brasil),

2 A sociologia nasceu dos efeitos das crises sociais, onde há uma revolução e evolução mental, produzida pelo advento do pensamento científico e é vista como um estado de espírito que permite entender a vida em sociedade. Este lado humano e ativo da relação do homem com a sociedade, indica que a atividade social e humana do homem é o seu trabalho, é mostrado no Conto Substância, esse homem que tanto questiona e é questionado pela sociedade, falado pela sociologia. Fala da preocupação do homem com o trabalho, com o lado material que é cobrado e imposto, que faz com que seja a sua única fonte de motivação para sua existência, não lhe permitindo fracassos e por isto lhe surge dúvidas sobre as pessoas do seu convívio, e assim se fechando para o novo. Conflitos estes tratados pela psicanálise que trata das desordens mentais e emocionais, angustias entre a necessidade e desejo e a todo instante surgem questionamentos entre razão e mente, o lado social onde há cobranças por parte da sociedade, a moralidade, lado emocional o coração quer falar mais forte, causando um duelo, pois se tenta separar razão e emoção causando com isso o estranhamento, a busca do eu, uma eterna batalha onde entra o desejo, a consciência e a emoção. Tudo isso analisado através da Estilística, pois Guimarães Rosa, com toda essência e criatividade, usa a linguagem textual, explorando-a em múltiplas possibilidades, para colocar no papel toda sensibilidade em relação a conduta que espera a sociedade e a busca do homem a todo momento do eu e do outro, utilizando da gama de possibilidades que a gramática da Língua Portuguesa permite. Partindo da Sociologia que estuda as condições sociais de existência, tentando a todo instante entender a vida em sociedade, onde abrange trabalho, condições econômicas e regras exigidas a serem seguidas. A Sociologia também estuda o trabalho como uma essencial atividade social e humana da sociedade capitalista que é enfatizada neste conto, mostra o que ela é capaz de causar ao homem, a luta pelo econômico. Há a tentativa de explicar através da Psicanálise, o duelo entre sociedade e consciência, o autor faz ver esses conflitos e consequências causados pela decadência social e pela força do capital ao homem....porque, contra a menos feliz, a sorte sarapintara de preto portais e portas: a mãe, leviana, desaparecida de casa; irmão perverso, na cadeia, por ato de morte; o outro, igual feroz, foragido ao acaso de nenhuma parte; o pai, razoável

3 bom homem, delatado com lepra... (ROSA, p. 133 linhas 26-29) O trecho acima mostra o lado castigado pela sociedade e a decadência que pode chegar um ser, uma família, pelo efeito de toda uma sequência de fatos como o econômico, a falta de trabalho, falta de afeto, de apoio moral, financeiro e psicológico, fruto de um país preocupado com o capital, com a sociedade industrial, do que com a sociedade familiar e ser humana, como consequência, obtém essa infelicidade social e familiar, pelas condições de vida para se manter e se reestruturar, em virtude disto, não se tem ajuda social para mudar este quadro, só se é considerado membro da sociedade se você produz, mas para isso é necessário dar condição para a produção. A família de Maria Exita, por não ter uma base, um alicerce onde pudesse se apoiar, caiu e permaneceu sem volta, onde é visto o verdeiro espelho, da sociedade fracassada. Só que a ele, Sionésio, faltavam folga...pois a vida não lhe deixava cortar pelo sono: era um espreguiçar-se a adormecer, para poupar tempo no despertar...herdando de repente...plantava à vasta os alqueires de mandioca, que ali aliás outro cultivo não vingava; chamava e pagava braços; espantava no diaa-dia, o povo... (ROSA, p. 133 linhas 12-14, 15, 16-20, 21, 22) Aborda-se também o quanto o homem é considerado responsável por ter que cultivar a terra e também por ser de onde vem o seu sustento, sua herança, não haveria nem uma dificuldade para isso e até seria honroso e de muito orgulho se não fosse somente a sua forma de sobreviver e para os que dele precisam e estão a sua volta. O homem acaba se privando de viver, de ter ilusões, pela cobrança imposta desde os tempos primórdios, incumbido de ser o alicerce da família, por este motivo ele ficou dividido, a personagem ficou dividido entre necessidade e desejo. A consequência dessa indústria social e econômica, aparece no comportamento que se tem em virtude do que nos é apresentado e dito a todo momento. Esse lado tratado pela psicanálise, trás a questão de assumir o desejo a nível individual ou a nível social, o Guimarães Rosa nos apresenta em Substância utilizando a palavra real, portadora da idéia e do sentimento querendo que haja entendimento no texto do

4 verdadeiro significado: essência de algo, e necessidade para a vida, a partir desta essência surgem os conflitos com o eu, com si mesmo, e a busca do outro. E a cada instante aparecem mais angustias, o medo da realidade, da consciência é fruto da ansiedade do homem perante a sociedade, e da eterna e duradoura luta que é travada com ele mesmo....sim, na roça o polvilho se faz coisa alva: mais que algodão, a garça a roupa na corda...chamava-se Maria Exita...em maio...mês mor-de orvalho, da Virgem... (ROSA, p. 133 linhas 1,2,5,6) É focalizado também pelo autor a todo momento o lado da pureza, e para isso ele faz uma relação metonímica, para simbolizar a brancura, pois lembra a tranquilidade, limpeza, clareza dos atos, a inocência, onde as pessoas estariam despidas de preconceitos e aceitasse as pessoas com os seus problemas e passados sem questionar, desconfiar e duvidar. Estes sentimentos que envolvem o puro são cobiçados pelo homem para que possa ter uma sociedade onde só tenha clareza de fatos e honestidade. O autor nos lembra a brancura do polvilho, a garça, o algodão se referindo sempre ao branco, para mostrar tal importância, cita a mais pura das Mulheres, a Virgem, o mês de maio por lembrar as noivas que se casam de branco em sinal de pureza. E retorna ao começo, a eterna cobrança da sociedade. A sociedade espera que a mulher seja um ser puro, perfeita e no trecho acima fala dessa cobrança para o Ser Mulher....Chamava-se Maria Exita...Maria Exita...A Maria Exita. Maria Exita... (ROSA, p. 133 linhas 4,25, p. 135 linha 20. p. 138 linha ) Quando usou o nome da personagem Maria Exita, ele utilizou o vocabulário português, a fantasia das palavras nesse nome. Quando é ouvido várias vezes o nome Maria Exita, essa sonorização, em nossa mente é como um alerta para a ambiguidade do nome, hesitação e êxito ao mesmo tempo, pois é o que espera depois de todo o seu sofrimento. Referindo-se a mulher como sendo aquela que tudo deve aceitar, que deve esperar o homem, e que a todo momento é cobrada, por uma certa conduta e é vista como submissa, só pelo fato de ser mulher. Um suposto ideal que é imposto pela sociedade, por isso Guimarães Rosa apresenta Maria Exita, e apresenta o medo do

5 fracasso, de vacilar. Este medo está em todos os sentidos, de assumir o desejo....ela parte o polvilho nas lajes... - a velha resumira... Ela que quer diz que gosta. E é mesmo com efeito... a Nhatiaga sussurrava. (ROSA, p. 134 linhas 18,20)...Se a meio-galope, se a passo, mas sôfrego descabido,...o ensimesmo...teve dó dela pobrinha flor. Indagou: - Que serviço você dá?...ela não se vexou. Só o mal-e-mal, o boquinãoabrir, o sorriso devagar. Não se pertubava...nem enrugava o rosto, nem espremia ou negava os olhos... - o quieto pisar, um muxoxozinho úmido prolongado, o jeito de pôr sua cinturinha nas mãos. Feliz pelas pétalas, juriti, nunca aflita... (ROSA, p. 135 linhas 2-4) Só sabia calar-se, abaixar a cabeça e simplesmente aceitar o sofrimento sem se quer questionar o porquê e brigar para mudar, pois era a única forma de sentimento que conhecia. Esse sentimento era o que tinha sido causado pelo sofrimento, não teve referência familiar, havia aprendido a não reclamar, não indagar, por não ter nada, aprendera a aceitar com resignação tudo que lhe fora oferecido em sua vida. Até o momento não encontrara nada que a impulsionasse a ser diferente. Mais uma vez é usada a linguagem, do qual o autor faz o seu próprio estilo nas invenções verbais e para tal forma utiliza-se da aglutinação de palavras, ênfase através de repetição e criação de novos substantivos abstratos....pares se casavam, arrumava-se festas; numa, ali, a notara: ela, a flor...sem se dar idéia, a surpresa se via formada...e a beleza. Tão linda clara, certa de avivada carnação e airosa- uma iazinha, moça feita em cachoeira. Viu que, sem querer, lhe fazia cortesia...todo esse tempo. Sua beleza, donde vinha? Sua própria, tão firme pessoa?...se um sorriso;...sionésio não entendia. Somente era bom, a saber feliz, apesar dos ásperos... estava amando mais ou menos... (ROSA, p. 133 linhas 7, 8; p. 135 linhas 9, 10, 32-34; p. 136 linha 2) São abordadas neste trecho, as barreiras ao pensar na paixão, surgem preconceitos e começa uma grande luta com o seu eu contra o desejo, o medo de sucumbir ao amor, junto vir sofrimento, perda e o risco do fim. Como ceder a este sentimento, porque está envolvido com preocupações do dia a dia, cuidar da fazenda em preocupar-se com a sociedade.

6 ...Se outros a quisessem, se já gostasse de alguém? - as asas dessa cisma o saltearam...temiam a herança da lepra, do pai, ou da falta de juízo da mãe...acautelavam...assim ela estava salva... (ROSA, p. 136 linhas 3, 10-12) Surgem então os preconceitos, as discriminações, onde é lembrada a todo instante a origem da família, o passado de má-reputação, começa a surgir as incertezas, afasta as pessoas dificultando a convivência, como se a todo estivesse pagando pelo que fez os seus pais, dando importância que cada ser humano tem a sua personalidade, e terá o seu seguimento na sociedade que se espera uma forma digna, com trabalho e aceitação moral, sem sob questionamentos e desconfianças a todo o momento....apanhar polvilho! Apanhar polvilho!...salteou-se. Sem ela, de que valia a atirada trabalheira, o sobreesforço, crescer os produtos aumentar as terras? Vêla quando em quando. A ela a única Maria no mundo...não receava a recusação. Consigo forcejava. Queria e não podia,...que temia, pois não sabia que temesse? Por vez pensou: era ele são? Tinha por onde a merecer?..tinha raiva ela...tomara...poder se desentregar da ilusão, mudar de parecer, pagar sossego, cuidar só dos estritos de sua obrigação, desatina...achou-se em lágrimas, fiel...seria ela igual à mãe?...se a beleza dela a frutice, da pele, tão fresca, viçosa só fosse por um tempo, mas depois condenada a engrossar e se escamar, aos tortos e roxos, da estragada doença? - o horror... (ROSA, p. 136, linhas 9, 17-19, 26-33) O oposto se atrai, mas trás agonia, duelos com seus medos que a todo instante surgem. E vem novos preconceitos, discriminações, vem à tona as oposições paixão/verdade; razão/emoção, faz lembrar da sociedade, e a todo momento questiona se seria melhor seguir a vida do que lutar contra todas essas dúvidas, deixar o coração falar mais auto e ceder a paixão e ao desejo. É preciso coragem para se desprender de todos os preconceitos, o sentimento que inquieta, e não se preocupar com o que a sociedade vai pensar, e sim unir a família....ele lhe perguntou: - Você tem vontade de confirmar o rumo de sua vida? - falando-lhe de muito coração. - só se for já... e, com resposta, ela riu clara e quentemente... Você, Maria, quererá, a gente, nós dois, nunca precisar de separar? Você, comigo vem e vai? Disse e viu. O polvilho coisa sem fim. Ela tinha respondido: Vou demais. Desatou um sorriso...só o um-e-outra, um emsi-juntos, o viver em ponto sem parar, coraçãomente: pensamento, pensamor. Alvor... (ROSA, p. 138 linhas 2,3, 26-29,34,35)

7 Embora preocupado com a ascendência da moça, Sionésio sente que a paixão é maior que o preconceito e a pede em casamento. Decide superar todos os preconceitos, discriminações e trocar, aflição por felicidade, esquecer as oposições, e dá lugar ao amor, a paixão, não mais se privar de qualquer sentimento, está disposto a sofrer para viver cada vez mais, só eles dois, juntos como senão existisse mais ninguém, viver sem parar emoção e razão, pensamento e amor sem oposição e sim união, assim encontrar a verdadeira realização e unir sociedade e família sem lembrar do passado, mas é lembrado da pureza de Maria Exita, pelo polvilho, a que nunca se acabaria, assim ela era amada por ser pura....o quebrar, à mão, o polvilho, nas lajes...ela estava em frente a mesa de pedra...seria o polvilho-a ardente espécie singular, escura límpida...parados, dentro da luz, como se fosse no dia de Todos os pássaros. (ROSA, p. 138 linhas 33,34) Através da gramática com a utilização da metonímia o autor mostra o lado subjetivo deste trecho, simbolizando a brancura, o pano branco, mostrando o lado puro da personagem em todos os sentidos do conto, cita a laje referindo-se a pedra, como rocha, vendo o lado insensível, duro, causado pelo sofrimento, também lembra a pedra como algo precioso que representa o local onde liberta das impurezas e imperfeições, o local seguro, estaria limpo de qualquer sujeira e para a felicidade ser total. Com isso vem a liberdade como o voar dos pássaros, livres sem nenhum obstáculo sempre em direção da luz, o lugar da clareza, do discernimento e do ideal do ego.

8 Bibliografias CASTRO, Dácio Antônio de. Primeiras Estórias Guimarães Rosa Roteiro de Leitura. Série Princípios, Editora Ática, 1993, p.95. DIEGUEZ, Gilda Korff. Fernando pessoa : Quatro Discursos Extra/Vagantes. p DIEGUEZ, Gilda Korff. Narciso, Ontem e Hoje Rede Letras. FORACCHI, Marialice Mencarini & MARTINS, José de Souza. Sociologia e Sociedade (Leituras de introdução à Sociologia). 15ª Tiragem, Editora Livros Técnicos e Científicos, 1992, p LAPA, M. Rodrigues. Estilística da Língua Portuguesa. Editora Martins Fontes, SP, p Obras completas de Sigmund Freud, Volume XIV, Totem e Tabu e Ensaios. Editora Delta S.A, SP, p. 239 Revista Psicologia e Psicanálise, Instituto de Psicologia da UFRJ. 1ª Edição. Editora UFRJ, 1989, p. 123.