Curso. INTRODUÇÃO À SEGURANÇA, HIGIENE E SAÚDE NO TRABALHO Manual do Formando. Introdução à Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho

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1 Introdução à Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho Manual do Formando

2 Curso 1 INTRODUÇÃO À SEGURANÇA, HIGIENE E SAÚDE NO TRABALHO Manual do Formando Introdução à Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho

3 P ERFIL, D ELTAC ONSULTORES E ISPA Manual do Formando Ficha Técnica Autor: José Ribeiro Baptista Título: Introdução à Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho Coordenação do Projecto: Maria da Graça Pinto e José Garcez de Lencastre Edição: Maio 2007 Produção apoiada por: UNIÃO EUROPEIA FUNDO SOCIAL EUROPEU GOVERNO DA REPÚBLICA PORTUGUESA PROGRAMA OPERACIONAL DO EMPREGO, FORMAÇÃO E DESENVOLVIMENTO SOCIAL Perfil, DeltaConsultores e ISPA Lisboa, 2007

4 Índice Introdução 1 Causas Humanas 26 Breve história da Organização da Causas Materiais ou Técnicas 26 Consequências dos Acidentes de Segurança, Higiene e Saúde do Trabalho 27 Trabalho, em Portugal 5 Análise dos Acidentes 28 Missão da ACT 8 Estatísticas sobre acidentes de trabalho 28 O Contexto da Globalização 8 Os índices mais utilizados nos cálculos As Estratégias da Qualidade e do estatísticos 29 Ambiente 10 A problemática dos acidentes de trabalho e das doenças profissionais 30 As Estratégias de Valorização dos Os custos dos acidentes 30 Recursos Humanos 10 Classificação dos acidentes de trabalho Os Modelos da Gestão da Prevenção dos Riscos Profissionais na Europa Segundo a Forma do Acidente 32 Segundo o Agente Material 32 Segundo a Natureza da Lesão 33 A Estratégia da União Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho 12 Segundo a Localização da Lesão 33 Declaração e registo de acidentes de Enquadramento Legal 13 Estão Abrangidos Pela Presente Legislação 15 Obrigações Gerais dos Empregadores 15 Obrigações gerais dos trabalhadores 16 trabalho e doenças profissionais 34 O sistema nacional de prevenção de riscos profissionais 36 Principais objectivos da política da prevenção 36 Auditorias 38 Princípios Gerais de Prevenção 17 Missão do Auditor 39 Sentido e alcance dos princípios gerais Objectivos gerais de uma auditoria 39 de prevenção 17 Programa de auditorias 39 Pré auditoria 41 Missão dos Serviços de Prevenção 20 Auditoria 41 Organização dos serviços de Segurança, Higiene e Saúde do Trabalho nas Empresas 20 Pós auditoria 41 Lista de Verificação 42 Como utilizar a lista de verificação 42 Organização dos Serviços de S.H.S.T. Itens de Controlo 42 Modalidades 20 Modalidades dos Serviços de Prevenção Avaliação de Riscos Etapa preliminar Identificação de Formação dos Trabalhadores 22 perigos 50 Etapas da avaliação de riscos 52 Acidentes de Trabalho 23 Identificar o Risco 53 Descaracterização do Acidente de Estimar o Risco 54 Trabalho 25 Valorar o Risco 54 Não dá direito a reparação do acidente Avaliação de Riscos Probabilidade de 25 que Ocorra o Dano 54 Causas dos Acidentes de Trabalho 25 Avaliação de Riscos Severidade do Causas estruturais ou organizacionais 26 Dano 55

5 Níveis de Risco 55 Lista de Riscos 57 Objectivos da avaliação dos riscos 59 Grandes domínios da avaliação de riscos 60 Momentos-chave da avaliação de riscos 64 Metodologias de avaliação de riscos 65 Tipos de avaliações de risco 67 Sequência Metodológica da Avaliação e Controlo de Riscos 68 Anexos 69 Código de Trabalho 70 Bibliografia 72 Índice Remissivo 73 Informações 74

6 Capítulo 1 Introdução A segurança, higiene e saúde do trabalho não se configura como um mero conjunto de actividades de natureza técnica e organizativa em torno da prevenção dos acidentes de trabalho e das doenças profissionais. Com efeito, trata-se de uma área cuja gestão influencia decisivamente a vida das organizações e que é determinante no desenvolvimento da sua principal fonte de energia: as pessoas. Por outro lado, a dinâmica da segurança, higiene e saúde do trabalho não se circunscreve ao território das organizações produtivas, dizendo respeito, também, à própria organização social, sendo, por isso, cenário de políticas públicas de grande dimensão. A industrialização e a especialização em diferentes actividades no mundo do trabalho deram origem a novos riscos que têm atingido a integridade física e causado danos na saúde dos trabalhadores. Num mundo em permanente e rápida evolução, são cada vez maiores os desafios que as empresas têm de enfrentar, face à concorrência: Surgimento de novos produtos; Desenvolvimento tecnológico dos equipamentos; Exigências do consumidor: Quanto à qualidade do produto; Quanto à qualidade do atendimento. Aumento das hipóteses de escolha. 1

7 Há, por isso, necessidade de modernizar e optimizar os meios de produção, desenvolver a eficiência e, como consequência, aumentar a competitividade. O avanço das novas tecnologias, além do bem estar, conforto e elevado nível de vida que eventualmente podem proporcionar ao homem, comportam novos riscos, pelo que é difícil a criação de postos de trabalho sem riscos e adaptados ao ser humano. Estes riscos não foram muitas vezes identificados e controlados. Da análise dos factores intervenientes num ambiente laboral, as consequências nocivas do trabalho são: O acidente e a doença profissional (patologia específica do trabalho); E a doença do trabalho (patologia inespecífica do trabalho). Técnicas médicas e não médicas, actuando respectivamente sobre o homem e sobre o ambiente permitem resolver tais problemas fazendo a sua prevenção. Fig. 1 2

8 Antigamente eram os médicos que se ocupavam do bem estar e da saúde dos trabalhadores. Actualmente as medidas técnicas e médicas de vigilância da saúde e do meio laboral são desenvolvidas através de uma ciência pluridisciplinar que ultrapassa as medidas praticadas no âmbito da medicina curativa. A abordagem de maior importância foi feita por Bernardo Ramazzinni, criador da medicina do trabalho, que na sua obra De Morbis Artificium Diatriba, publicada em 1690, usa já o termo higiene e descreve detalhadamente os riscos de 54 profissões distintas. A partir daqui, começaram os primeiros estudos sérios sobre a matéria, também como consequência das penosas condições de trabalho que a Revolução Industrial descobriu. Assim, por força dos acidentes de trabalho e das doenças provenientes do trabalho, e também pela teimosia de alguns apóstolos que eram apelidados de revolucionários e depois da própria opinião pública, os governos viram-se obrigados a legislar sobre o trabalho, as condições em que era exercido e por quem o executava. Em 1802, na Inglaterra, proíbe-se a aprendizagem nas minas e o trabalho nocturno, a menores de 9 anos; A Alemanha adopta as mesmas normas em 1839; A França faz o mesmo em 1841; Em 1867, nos EUA, aparece uma lei criando um sistema de inspecções aos locais de trabalho; A Espanha, em 1873, proíbe o emprego, em fábricas e minas a menores de 10 anos; Em 1910, nos EUA, é publicada uma lei considerando indemnizações para 12 profissões perigosas. Numa perspectiva histórica pode-se então dizer que a Higiene do trabalho nasceu da Medicina do trabalho o que explica em parte as estreitas ligações entre elas. O seu desenvolvimento teve que esperar os avanços da Medicina com a qual se confunde nas suas origens e pela criação e evolução do Direito do Trabalho e da Segurança Social. A evolução dos conceitos económicos contribui também para este desenvolvimento. Em 1919 é criada a OIT, em cuja carta constitutiva se prevê a obrigação de constituição nos países subscritores dos respectivos serviços de inspecção de trabalho. E, no âmbito deste princípio, na 1ª Sessão da OIT, realizada em Washington, no mesmo ano (1919), é adoptada a 5ª. Recomendação que versa, precisamente, sobre a inspecção do trabalho para questões de segurança e higiene. No fim do século XIX os problemas da saúde dos trabalhadores e das populações começaram a ser encarados de numa óptica mais técnica e mais científica. A citação da OIT (Organização Internacional do Trabalho) em 1919 e a evolução da 3

9 legislação laboral nos diferentes países, permitiram o desenvolvimento dessas técnicas. O bem-estar, conforto, adaptação e adequação do homem ao seu posto de trabalho são os principais objectivos da psico-sociologia e da ergonomia. No entanto, a saúde e esse bem-estar, dependem também certamente dos resultados fornecidos pela Higiene do Trabalho. A Higiene do Trabalho como ciência interdisciplinar contribui de maneira decisiva para tornar o ambiente de trabalho mais racional e mais atractivo para o homem. 4

10 Capítulo 2 Breve história da Organização da Segurança, Higiene e Saúde do Trabalho, em Portugal O combate aos riscos e doenças profissionais tem já um longo percurso que pertence à história mais geral da segurança higiene e saúde em Portugal. Conhecer alguns aspectos dessa história ajuda-nos a compreender os problemas actuais e a melhor concebermos o futuro de tão importante sector do trabalho que abrange fundamentalmente a população activa do País. Assim, iremos abordar, em linhas gerais, a evolução segurança higiene e saúde em Portugal desde a primeira República até aos dias de hoje, fazendo breves referências ao contexto nacional e internacional. Até meados do século XIX a segurança e higiene do trabalho era uma tarefa que pertencia fundamentalmente às corporações de artes e ofícios. Mais tarde, as confrarias e misericórdias também ajudaram aquelas instituições na tarefa de salvaguardar o trabalhador do acidente, sendo possível concluir que, nesta época, as regras de segurança do trabalho eram transmitidas de mestre para aprendiz. Com a consolidação do liberalismo e o nascimento das organizações de classe, as preocupações da segurança e higiene são assumidas por sindicatos, caixas económicas, socorros mútuos e associações de industriais. Assim, em 1837, surge uma lei que «atribui ao Conselho de Saúde a vigilância de indústrias insalubres com especificação das velas e curtumes», marcando de forma clara o início da intervenção do Estado nesta temática. A 6 de Junho de 1895 temos a primeira lei específica sobre higiene e segurança do trabalho que incide sobre o sector da construção civil. Foi, no entanto, com a 1ª. República, quando o trabalho industrial começou a ser relevante em algumas das principais cidades do País, que o Estado organizou pela primeira vez um «serviço de higiene, salubridade e segurança dos locais de trabalho», indo assim ao encontro dos vários e graves problemas de sinistralidade 5

11 que necessariamente acompanharam a evolução da sociedade portuguesa nos fins do século XIX e início do século XX. Com (o acentuado desenvolvimento industrial em quase toda a Europa), a Primeira Grande Guerra de , estatísticas elaboradas em França revelam uma subida anormal dos acidentes de trabalho, principalmente nas fábricas de armamento onde a mão de obra era predominantemente feminina e juvenil. Em 1916 a República Portuguesa cria o Ministério do Trabalho e Previdência Social que integra a Direcção Geral do Trabalho com variados serviços nomeadamente «o laboratório de higiene profissional; higiene, salubridade e segurança nos locais de trabalho». Legislação importante sobre segurança e higiene do trabalho é publicada nesta época com principal destaque para dois diplomas, um de 1918 relativo aos «estabelecimentos insalubres, incómodos, perigosos e tóxicos» (Dec. n.º 435 de 29 de Maio de 1918) e outro, de 1922, que «promulga o regulamento e as instruções gerais de higiene, salubridade e segurança nos estabelecimentos industriais» (Dec. n.º 8364 de 25 de Agosto de 1922). Seria fastidioso enumerar aqui toda a história e toda a legislação laboral. Refira-se, no entanto, que Portugal (pelo menos no campo legislativo) acompanhou os outros países da Europa. É de salientar que este avanço legislativo, revelador das preocupações do tempo, está em sintonia com o ambiente internacional que então existia, principalmente, como já referido, na Europa. Com efeito, por esta altura, nascia em 1919, a Conferência Internacional do Trabalho e o Bureau Internacional do Trabalho, BIT, a quem deram «a missão de preservar o operário do acidente». Em 1925 o Ministério do Trabalho e Previdência Social é extinto e os serviços encarregados da segurança e higiene «são dispersos por vários ministérios» com prejuízo para a prevenção. Já em 1933, alicerçadas as bases do Estado Novo, é criado o lugar de Subsecretário de Estado das Corporações e Previdência e podemos ler no Estatuto do Trabalho Nacional que «as condições de trabalho devem ser dispostas por forma que fiquem as necessidades de higiene física e moral e a segurança do trabalhador». Entretanto, a nível internacional, as preocupações sobre os acidentes de trabalho, prevenção e combate aos mesmos, avança consideravelmente. Em 1931, em França, cria-se uma cadeira de Prevenção dos Acidentes de Trabalho no Conservatório das Artes e Ofícios. Por outro lado, desde o ano de 1928 que as comissões de segurança e higiene entram na cena europeia. Em Portugal, em 1948, a Direcção Geral do Trabalho e Corporações assume, entretanto, as responsabilidades e tarefas relativas à segurança e higiene do trabalho. Relativamente às comissões de segurança e higiene, só a partir de 1959 é que em Portugal aparece um despacho orientado para a implementação dessas comissões que, aliás, não tiveram na sua maioria um papel relevante. É provável que isto esteja relacionado com a própria estrutura empresarial do País (pequena e média indústria) grau de industrialização e condicionamento político-sindical. Ainda em 1959 e com o surto industrial do País ( ) reforça-se o trabalho no 6

12 domínio da segurança. É neste ano que se inicia a Campanha Nacional de Prevenção de Acidentes de Trabalho e Doenças Profissionais que duraria precisamente até Esta campanha comportava dois objectivos importantes: Por um lado contrariar a «óptica predominantemente reparadora» com que os riscos profissionais eram encarados salientando a importância decisiva da Prevenção e, por outro, lançar as bases do que, em 1962, como Gabinete de Higiene e Segurança do Trabalho, na Junta de Acção Social «destinado à investigação, estudo e difusão dos princípios e técnicas de prevenção de acidentes e doenças profissionais». Este Gabinete deveria «elaborar pareceres; proceder a estudos e a trabalhos de investigação; promover a especialização de técnicos e divulgar os princípios e meios de prevenção e doenças profissionais». Também em 1962 é criada a Caixa Nacional de Seguros e Doenças Profissionais (posteriormente designada por Centro Nacional de Protecção contra os Riscos Profissionais1) e, em 1965, é publicada a lei 2127 que determina, em algumas das suas bases, as obrigações do Estado e das entidades patronais em matéria de segurança e higiene, nomeadamente na implementação nas comissões de segurança, só que... de segurança em empresas os trabalhadores encontravam como orientação apenas o despacho ministerial de 13 de Maio de «Nele estabelecem as condições para a existência de uma comissão de segurança nas empresas». Também por despacho ministerial de 14 de Janeiro de 1971, o Gabinete de Higiene e Segurança do Trabalho assume as competências em matéria de segurança e higiene do trabalho que até à data, pertenciam à 2ª. Repartição da Direcção Geral do Trabalho e Corporações. O ano de 1973 é um ano activo em prevenção. O Gabinete de Higiene e Segurança do Trabalho passa a Direcção de Serviços e é transferido para o Fundo de Desenvolvimento da Mão-de-Obra, entretanto criado na Direcção Geral do Trabalho e Corporações. Surge, assim, o Serviço de Prevenção de Riscos Profissionais com o objectivo de «estudar e pôr em prática as medidas adequadas à redução da sinistralidade laboral». Ainda em 1973 realiza-se no Porto o III Congresso Nacional de Prevenção de Acidentes de Trabalho e Doenças Profissionais e, em Barcelona o Segundo Colóquio Luso-Espanhol de Medicina, Higiene e Segurança do Trabalho. Estas iniciativas bem como os Congressos de 1965 e 1968 constituem, uma abordagem de relevo nas questões de prevenção suscitadas pelo crescimento industrial do País. Em 1974, dão-se novas alterações na Orgânica do Estado Português. Nasce o Ministério do Trabalho com duas secretarias: Secretaria de Estado da Emigração e Secretaria de Estado do Trabalho. Nesta última encontra-se a Direcção Geral do Trabalho em cuja dependência fica a Direcção de Serviços de Prevenção de Riscos Profissionais, a quem compete «o estudo das condições psicofisiológicas e ambientais da prestação do trabalho; o estudo e a proposta de medidas anti-sinistralidade, bem como colaboração nos trabalhos preparatórios de legislação referentes aos riscos profissionais; o apoio aos interessados, no domínio da sua competência técnica, nomeadamente em acções de formação». Em 1978 e com a reestruturação do Ministério do Trabalho é criada formalmente a Direcção Geral de Higiene e Segurança do Trabalho (DGHST) que, ao nível 1 Actualmente extinta devido às alterações orgânicas 7

13 oficial, é o único departamento estatal que tem atribuições exclusivas na área da segurança e higiene do trabalho. Em 1982 é criado o Conselho Nacional de Higiene e Segurança do Trabalho, órgão tripartido. No Conselho tem assento representantes da Administração Pública e das organizações mais representativas dos trabalhadores e de empregadores e os seus objectivos são «contribuir para a formulação e aplicação da política nacional de segurança, saúde dos trabalhadores e ambiente de trabalho; dar parecer sobre o plano nacional de segurança, saúde dos trabalhadores e ambiente de trabalho e sobre os diferentes programas que a integram; apreciar os resultados das acções periódicas, de acordo com a evolução sócio-económica do País». Assim, com a implementação do regime democrático e com a entrada na CEE Comunidade Económica Europeia, UE União Europeia, tudo aponta para um crescente empenhamento do Estado, sindicatos e associações patronais na tarefa de prevenir os acidentes e as doenças profissionais. Organizar em cada época, a segurança, higiene e saúde de forma adequada às necessidades do País é o desafio que se põe a todos os interessados: Trabalhadores, empresários e técnicos de segurança. Em 1993, é extinta a Direcção Geral de Higiene e Segurança do Trabalho (DGHST) e é criado o Instituto de Desenvolvimento e Inspecção das Condições de Trabalho (IDICT). Em 17 de Julho de 2004 é extinto o IDICT e, criado, pelo Decreto-lei n.º 171/04, o Instituto para a Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho (ISHST) IP. O Decreto-Lei n.º 221/2006 de 27 de Outubro, aprova a Lei orgânica do Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social (MTSS) e cria a ACT Autoridade para as condições de Trabalho. À ACT compete a promoção da melhoria das condições de trabalho. A orgânica da ACT encontra-se em discussão. Missão da ACT A missão da ACT, como acima foi referido, encontra-se em discussão pelo que deve ser objecto de actualização durante o decorrer deste módulo de formação. O Contexto da Globalização A influência das condições de trabalho na vida dos trabalhadores e na capacidade competitiva das empresas foi sempre reconhecida como importante no quadro da produção em massa que caracterizou, durante quase um século, a sociedade industrial. Em tal contexto, foram-se desenvolvendo, quer na Europa, quer nos EUA, diversas abordagens centradas, num primeiro momento, em grupos de trabalhadores expostos a trabalhos de maior penosidade e insalubridade, para, num momento posterior e já no pós guerra, se passar a equacionar a problemática dos riscos profissionais ao nível dos factores produtivos, através da percepção da influência dos agentes físicos, químicos e biológicos na segurança e saúde. 8

14 As abordagens de segurança e saúde no trabalho, traduziam-se fundamentalmente em: Intervenções sobre o homem através da vigilância médica; Intervenções correctivas sobre os componentes materiais do trabalho, nomeadamente locais de trabalho e equipamentos de trabalho; Intervenções ao nível de equipamentos de protecção individual do trabalhador. Todas estas abordagens perspectivavam-se no âmbito de uma filosofia de protecção do trabalhador e tinham em vista uma prevenção correctiva que fizesse diminuir os efeitos dos riscos de acidentes de trabalho ou de doença profissional. O nível de resultados, desta forma obtido na empresa, conhecia os seus efeitos repercutidos nas condições de trabalho do trabalhador e no nível da sua produtividade. A aceleração da introdução das novas tecnologias nos processos produtivos veio, entretanto, pôr em causa o nível de eficácia de tais abordagens. Com efeito, tornouse mais difícil acompanhar, em termos de conhecimento, todas as propriedades das novas matérias-primas, materiais e produtos, bem como dos novos equipamentos de trabalho que, com grande rapidez, começaram a substituir os anteriores. Estes novos componentes passaram a ser, muitas vezes, adquiridos em outros países, nem sempre sendo fácil obter informação relativa à sua composição, natureza e modo de utilização, além de que, cada vez mais, foi aumentando a dificuldade de se lhe acrescentarem dispositivos ou sistemas de protecção. Por outro lado, estes componentes passaram a interferir fortemente na estrutura dos processos produtivos, dando lugar a alterações radicais dos métodos e processos de trabalho, o que permitiu verificar a enorme influência dos modos operatórios no nível do ambiente de segurança e de saúde no trabalho. Todo este cenário foi sendo cada vez mais marcado pela evolução das tecnologias de informação e comunicação que passaram a influenciar a empresa, não só no âmbito dos seus processos produtivos, mas, também, no que se refere à relação com o mercado. Com efeito, tais tecnologias ampliaram a dimensão das relações do mercado, pela acessibilidade que as oportunidades de negócio passaram a ter no domínio da informação dos agentes económicos, daqui resultando um aumento crescente da competitividade entre empresas. Estes desenvolvimentos foram introduzindo nas empresas diversos factores de mudança, particularmente notórios no âmbito dos equipamentos de trabalho, das matérias primas, dos métodos de trabalho e, em geral, na organização do trabalho, os quais passaram a evidenciar a necessidade de se apostar na gestão de uma nova abordagem preventiva sobre os riscos profissionais, reais e potenciais, capaz de responder eficazmente a todo este ambiente de variabilidade ao nível dos factores produtivos. 9

15 Evoluiu também, ao mesmo tempo, o próprio conceito de saúde no trabalho, vindo este a ser entendido já não como um mero estado de ausência de doença, mas como necessidade de se promover um ambiente de bem estar, gerador dos factores motivacionais dos colaboradores da empresa. Tais realidades vieram, afinal, suscitar a necessidade da prevenção se moldar em novas metodologias, capazes de gerar uma percepção global do quadro de interacção entre todos estes riscos profissionais, de se apoiarem numa atitude constante de avaliação de todos os riscos e de se traduzirem em intervenções preventivas sempre enquadradas pela informação, pela formação e por formas de participação. A função da prevenção de riscos profissionais surge, assim, como dimensão estratégica da gestão. As Estratégias da Qualidade e do Ambiente O desenvolvimento do mercado trouxe, ainda, à gestão das empresas a preocupação em torno da «qualidade» Começando tal conceito por se reportar às características de cada produto, cedo se transformou numa abordagem centrada nos processos (produtivos e organizacionais) desenvolvidos pela empresa, para acabar por se assumir, mesmo, como requisito de credibilidade do agente económico. Hoje em dia, por exemplo, já não é possível classificar como bom o produto ou processo que não garanta, também níveis aceitáveis de bem-estar de quem os produz, comercializa ou consome. As Estratégias de Valorização dos Recursos Humanos O papel dos recursos humanos numa organização empresarial é, hoje, visto de uma forma diferente daquela que caracterizou o paradigma da sociedade industrial. Há uma necessidade imperiosa de criar uma adequada selecção e preparação dos recursos humanos. O facto de Portugal ser membro da UE acelera e aumenta o alcance das mudanças desencadeadas pelas novas tecnologias, pela concorrência e pelas necessidades e desejos dos consumidores. O ritmo a imprimir à mudança terá que ser mais intenso, tornando ainda mais urgente a necessidade de formar pessoas, de forma a torná-las mais capazes de enfrentar e vencer este desafio. Além disso, o fim de proteccionismos nacionais e, por outro lado, a obrigatoriedade de transpor para o direito interno directivas comunitárias condiciona, de algum modo, os processos produtivos existentes. Verifica-se, assim, a necessidade de grandes transformações nas empresas portuguesas e nos portugueses: estamos perante uma revolução silenciosa. A mudança não poderá, portanto, ser apenas económica, mas terá de ser também de mentalidades e comportamentos. Se as empresas e os seus 10

16 trabalhadores não estiverem devidamente preparados e formados, para enfrentar esta revolução, não haverá futuro: o desenvolvimento das suas capacidades e dos seus conhecimentos constituem imperativos da própria sobrevivência. A formação deve, pois, contribuir, de forma objectiva, para o desenvolvimento e para o reforço da eficácia no exercício de todas as funções da empresa através do desenvolvimento do seu factor mais importante: o homem, o trabalhador. Por sua vez, a formação está, hoje, submetida a uma procura importante em termos de qualidade e cobre um campo cada vez mais diversificado, teimando, ainda que muitas vezes subtilmente, alongar, salvaguardar, facilitar a vida ao homem. O reconhecimento pelos organismos internacionais (OMS, OIT, ONU, UE), pelos governos, pelos empresários e pelos trabalhadores dos imperativos da Segurança e Higiene no Trabalho, supõe já um esforço de informação, de persuasão, de motivação, de responsabilização e sobretudo de transformação efectiva de comportamentos habituais de e no trabalho que passa, obviamente, por um programa eficaz de formação. Mas para que não tenhamos de andar sempre a formar, tudo isto pressupõe, desde já, a inclusão nos currículos escolares, a todos os níveis (porque todas as profissões têm riscos) de formação nesta área. Além disso, é antes da entrada no mundo do trabalho que é necessário sensibilizar os futuros trabalhadores para as questões da segurança e higiene. Para se poder criar, cumprir e fazer cumprir segurança no trabalho é necessário crescer em segurança. As pessoas são, pois, presentemente, objecto de investimentos (directos e indirectos) cada vez mais elevados, seja por parte dos Estados, seja por parte das empresas, exigindo-se, também, que sobre elas se desenvolvam intervenções que garantam a sua preservação física e psíquica e que potenciem a sua energia criadora. A prevenção de riscos profissionais constitui um domínio de consenso, desempenhando um papel muito significativo no desenvolvimento da organização do trabalho e da motivação dos trabalhadores da empresa. Dando sentido a intervenções abrangentes que potenciam a melhoria das condições de trabalho e de vida, a melhoria da produtividade, o desenvolvimento do espírito de iniciativa, a optimização e racionalização da cadeia produtiva e da organização da empresa e, ainda a qualidade dos processos e a imagem dos agentes económicos. Os Modelos da Gestão da Prevenção dos Riscos Profissionais na Europa Actualmente, entende-se que a promoção da saúde no trabalho deve traduzir-se numa intervenção global e integrada, envolvendo todos os trabalhadores, todos os sectores da empresa e todas as dimensões da empresa. Além dos domínios tradicionais da segurança e saúde no trabalho os componentes materiais do trabalho, o ambiente do trabalho e a vigilância médica 11

17 dos trabalhadores a prevenção deve ainda englobar a própria organização do trabalho e as relações sociais da empresa. Esta perspectiva supõe assim: O desenvolvimento das metodologias específicas inerentes às principais valências implicadas (a segurança do trabalho, a higiene do trabalho e a medicina do trabalho); O desenvolvimento das metodologias próprias das abordagens complementares, como sejam a ergonomia, a psico-sociologia do trabalho e o recurso sistemático à formação e à informação; O desenvolvimento da própria gestão da prevenção, como abordagem integradora da empresa. A Estratégia da União Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho A oportunidade para a segurança, higiene e saúde no trabalho surge quando, na Conferência de Chefes de Estado e de Governo, realizado em Paris, em 1972, se formulam alguns considerandos e princípios destinados ao estabelecimento de um programa de acção social. A orientação base para este Programa apontou para a melhoria das condições de vida e trabalho que permitam a sua igualização no progresso. E, assim, a humanização das condições de vida e de trabalho passa, nomeadamente, pela: Melhoria da higiene e segurança do trabalho; Eliminação progressiva dos riscos físicos e psíquicos nos locais de trabalho. O desenvolvimento normativo comunitário processa-se a partir desta época. Dado o desequilíbrio europeu provocado neste domínio pelas normas mais exigentes dos países da Europa do Norte, e para não prejudicar a protecção dos seus trabalhadores, são estabelecidas prescrições mínimas, progressivamente mais exigentes, para se garantir a harmonização plena, sem colocar em causa os países mais atrasados. Assim, em 12 de Junho de 1989, foi adoptada a nova Directiva Quadro (Directiva 89/391/CEE), constituindo o primeiro acto de grande alcance social no âmbito do Acto Único e que passa a ser pedra angular de nova política. Estabelece os grandes princípios que devem reger a política de segurança e saúde no trabalho, com um significativo impacte nas legislações nacionais dos Estados Membros. 12

18 Capítulo 3 Enquadramento Legal P ela sua importância, é relevante referir a Lei nº 2127 de 3/8/65 que regulou, até há pouco, a caracterização dos acidentes de trabalho, das doenças profissionais e a reparação dos respectivos danos emergentes, contemplando já os serviços de Segurança e Higiene. Esta lei só foi regulamentada em 21/8/71 pelo Decreto n.º 360. (A lei n.º 100/97, de 13/9 vem substituir a Lei n.º 2127). No mesmo ano de 1971 surgiu a Portaria n.º 53/71 de 3 de Fevereiro, que aprova o Regulamento Geral de Segurança e Higiene nos Estabelecimentos Industriais, ainda hoje em vigor (Portaria n.º 702/80). Realce-se que, pelo menos neste aspecto e mercê também e sobretudo da integração de Portugal na UE, muita tem sido a legislação publicada sobre Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho. O quadro normativo (legal) da segurança e saúde do trabalho em Portugal é, actualmente, no seu essencial, o resultado do processo de transposição das Directivas comunitárias. Este quadro normativo conhece a seguinte estrutura básica: Regime de enquadramento da segurança e saúde do trabalho (DL 441/91, de 14/11) que resulta da transposição da Directiva Quadro de 89/391 e do desenvolvimento dos princípios da Convenção 155 da OIT. Este regime enquadra toda a acção a desenvolver no plano das políticas públicas e, no plano das políticas de empresa; Decorre directamente deste enquadramento geral o regime legal relativo aos recursos necessários para a prevenção, em que se destacam: O regime de organização e funcionamento dos serviços de segurança e saúde do trabalho nas empresas (DL 26/94, de 01/02, cuja alteração mais recente foi introduzida pelo DL 109/2000, de 30/06 que, entre outros aspectos, consagra o regime de autorização das empresas prestadoras de serviços de segurança e saúde do trabalho); O regime de certificação dos técnicos de segurança e higiene do trabalho (DL 110/2000, de 30/06); 13

19 O regime de organização dos serviços de segurança e saúde do trabalho na Administração Pública (DL 488/99, de 17/11). A legislação sobre os componentes materiais do trabalho, em que se destacam os regimes relativos a: Locais de trabalho; Equipamentos de trabalho; Movimentação manual de cargas; Riscos específicos. Agentes físicos (ruído e radiações ionizantes); Agentes químicos (amianto, agentes cancerígenos, chumbo e cloreto de vinilo monómero); Agentes biológicos; A legislação relativa às acções de protecção: Sinalização de segurança; Equipamentos de protecção individual. A legislação relativa à protecção de trabalhadores mais vulneráveis aos riscos: Menores; Mulheres; Protecção da paternidade e da maternidade. A legislação sectorial: Construção; Minas e pedreiras; Navios de pesca. A regulação da actividade económica: Licenciamento de estabelecimentos industriais; Licenciamento de estabelecimentos comerciais. 14

20 Regime de sanções laborais (coimas por infracções às normas de segurança e saúde do trabalho); Regime relativo às estatísticas de acidentes de trabalho e doenças profissionais; Regime de reparação: Reparação de acidentes de trabalho; Reparação de doenças profissionais. Todavia, o marco mais importante foi a publicação da Directiva Quadro n.º 89/391/CEE, que estabelece os grandes princípios que devem reger a política de segurança e saúde no trabalho, com um significativo impacte nas legislações nacionais dos Estados Membros. É de carácter horizontal e aplica-se, indiferenciadamente, a todos os sectores e ramos de actividade económica, pública ou privada, tendo como objectivos: Melhorar a segurança e saúde dos trabalhadores nos locais de trabalho; Constituir uma componente social do mercado interno; Constituir o quadro jurídico de referência a ser respeitado pelas Directivas especiais que são normas jurídicas de conteúdo acentuadamente técnico; Estabelecer critérios gerais da política comunitária, sendo referência obrigatória para a interpretação das restantes Directivas e das normas nacionais de harmonização. Estão Abrangidos Pela Presente Legislação Trabalhadores duma empresa; Trabalhadores contratados pela empresa ou uma outra; Trabalhadores independentes. Obrigações Gerais dos Empregadores Assegurar a prevenção relativamente a todos os trabalhadores e a todos os riscos profissionais; Desenvolver as actividades preventivas de acordo com uma ordem fundamental de princípios gerais de prevenção; Promover no âmbito daqueles princípios a avaliação dos riscos que não puderam ser eliminados; 15

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