7ª CÂMARA CÍVEL APELAÇÃO CÍVEL N.º DO FORO CENTRAL DA COMARCA DA REGIÃO METROPOLITANA DE CURITIBA 16ª VARA CÍVEL

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1 7ª CÂMARA CÍVEL APELAÇÃO CÍVEL N.º DO FORO CENTRAL DA COMARCA DA REGIÃO METROPOLITANA DE CURITIBA 16ª VARA CÍVEL Apelantes: KIMILAN COMÉRCIO DE PRODUTOS DE LIMPEZA LTDA, HELIO BERICA e JOHNY HUDSON BERICA Apelada: ALC FOMENTO MERCANTIL LTDA Relator: Des. GUILHERME LUIZ GOMES APELAÇÃO CÍVEL AÇÃO DE COBRANÇA CONTRATO DE FOMENTO MERCANTIL FACTORING DUPLICATAS SEM ORIGEM RESPONSABILIDADE DA ENDOSSANTE FATURIZADA PELO PAGAMENTO INTELIGÊNCIA DO ARTIGO 295, DO CÓDIGO CIVIL. 1. Art Na cessão por título oneroso, o cedente, ainda que não se responsabilize, fica responsável ao cessionário pela existência do crédito ao tempo em que lhe cedeu; a mesma responsabilidade lhe cabe nas cessões por título gratuito, se tiver procedido de má-fé. (Código Civil). 2. Apelação cível desprovida. Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apelação Cível sob n.º , em que é apelante KIMILAN COMÉRCIO DE PRODUTOS DE LIMPEZA LTDA, HELIO BERICA e Página 1 de 11

2 Apelação Cível n JOHNY HUDSON BERICA e apelada ALC FOMENTO MERCANTIL LTDA. I RELATÓRIO Trata-se de recurso de apelação interposto contra a sentença de fls. 129 a 139, proferida pelo MM. Juiz da 16ª Vara Cível do Foro Central da Comarca da região Metropolitana de Curitiba, em ação de cobrança, autos sob n.º 1533/2008, que julgou procedente o pedido, condenando os requeridos ao pagamento da quantia de R$ ,00 (cento e quatro mil, novecentos e trinta e seis reais) acrescida de correção monetária (IGP-M, desde a data do vencimento de cada título) e juros legais de 12% ao ano, contados a partir da citação, bem como ao pagamento das custas processuais e honorários advocatícios, fixados em R$ 4.000,00. Alegam os apelantes, em síntese, fls. 140 a 148, que... impõem-se a extinção da ação em face da carência do direto de ação nos precisos termos do artigo 267-IV e VI do CPC.., fl. 141; bem como que não há aval das pessoas físicas dos réus nos títulos, fl Afirmam, ainda, cerceamento de defesa, fl. 142, ante o julgamento antecipado da ação. No mérito, afirmam que a empresa de fomento assume o risco da operação, pois é esta que presta o serviço na parte do financiamento da produção e da venda, aprovando os negócios da parte tomadora e mesmo que tivesse ocorrido a emissão ilegal alegada, não há o retorno indicado, pois, a compra teria sido justa e regular, porém, não há prova da entrega do numerário do desconto do título, pelo contrário, mesmo Página 2 de 11

3 Apelação Cível n porque deveria ser objeto de contrato, ou aditivo específico para cada operação, o que não ocorreu., fl A autora apresentou contrarrazões ao recurso, fls. 183 a 195, manifestando-se pela improcedência. É o relatório. II VOTO E SEUS FUNDAMENTOS Presentes os pressupostos de admissibilidade, voto pelo conhecimento do recurso. Inicialmente, no que se refere ao alegado cerceamento do direito de defesa dos réus-apelantes, é de se esclarecer que sendo o juiz o destinatário da prova e verificando que a produção de provas se mostra desnecessária para a solução do litígio, é possível ao magistrado o julgamento antecipado da lide, consoante dispõe os artigos 130 e 330, I, do Código de Processo Civil, in verbis: Art Caberá ao juiz, de ofício ou a requerimento da parte, determinar as provas necessárias à instrução do processo, indeferindo as diligências inúteis ou meramente protelatórias. Art O juiz conhecerá diretamente do pedido, proferindo sentença: I - quando a questão de mérito for unicamente de direito, ou, sendo de direito e de fato, não houver necessidade de produzir prova em audiência; Página 3 de 11

4 Apelação Cível n Tribunal: A respeito da matéria, a seguinte decisão deste APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE REVISÃO CONTRATUAL. (...) RECURSO DOS APELANTES/COMPRADORES ALEGANDO CERCEAMENTO PELO JULGAMENTO ANTECIPADO DA LIDE. LIVRE APRECIAÇÃO DO CONJUNTO PROBATÓRIO PELO JUIZ. PROVAS ACOSTADAS AOS AUTOS QUE SÃO SUFICIENTES PARA JULGAR A LIDE. INTELIGÊNCIA DOS ARTS. 130 E 330, I, AMBOS DO CPC. (...) 1. O julgamento antecipado da lide, por si só, não caracteriza cerceamento de defesa, mormente se o magistrado de primeiro grau, que é o destinatário das provas, se convence, segundo seu juízo subjetivo, que a produção de novas provas não acrescentaria novos elementos que poderiam alterar o pronunciamento jurisdicional. 2. Prova pericial afastada corretamente pela julgadora singular com julgamento antecipado, por presentes os requisitos contidos no artigo 330, inciso I, CPC (...). (Apelação Cível n.º rel. Des. Ruy Francisco Thomaz Julgamento: ). Conforme bem fundamentou o MM. Juiz da causa: A lide comporta julgamento antecipado, posto a desnecessidade de produção de provas em audiência, haja vista que aquelas constantes dos autos autorizam o julgamento seguro da matéria (art. 330, CPC). A realização de provas implicaria em mero retardo no trâmite do feito, contrariando o princípio da celeridade processual, previsto na Constituição Federal, em seu artigo 5º, inciso LXXVIII, alterado pela Emenda constitucional n. 45, de 30/12/2004., fl Página 4 de 11

5 Apelação Cível n Dessa forma, existindo nos autos elementos suficientes à formação do convencimento do julgador e à solução do litígio, não há se falar em cerceamento de defesa. Alegam, ainda, os apelantes, carência de ação, ao fundamento de que os títulos não foram protestados, e sendo a alegação de que os títulos foram endossados por contrato de endosso e, de acordo com a legislação específica, somente poderá buscar o resgate junto ao endossante no caso de serem tomadas as medidas cabíveis contra o sacado para o exercício do direito de regresso., fl Aqui, são necessárias algumas considerações acerca da atividade de factoring. Na lição de Fran Martins:... o contrato de factoring é aquele que um comerciante cede a outro os créditos, na totalidade ou em parte, de suas vendas a terceiros, recebendo o primeiro do segundo o montante desses créditos, mediante pagamento de uma remuneração. (O contrato de factoring e sua introdução no direito brasileiro. Revista Forense, Rio de Janeiro, 2001, v. 262, p. 469) Com isso, verifica-se que o faturizador recebe do faturizado a cessão de créditos oriundos de operações comerciais com terceiros, assumindo o risco da liquidação, tornando-se responsável pela cobrança e recebimento do valor cedido. Consoante preleciona Arnaldo Rizzardo: Sabe-se que a duplicata de fatura constitui um título de crédito, sujeito ao processo de execução (art. 585, I, do CPC), e, assim, regendo-se pelas regras que tratam dos títulos de crédito. O art. 25 da mesma Lei é expresso a respeito: Aplicam-se à duplicata e à Página 5 de 11

6 Apelação Cível n triplicata, no que couber, os dispositivos da legislação sobre emissão, circulação e pagamento das letras de câmbio. Na Lei Uniforme de Genebra, sobre letras de cambio e notas promissórias, promulgada pelo Decreto , de , vem prevista a transferência mediante simples endosso. Prescreve seu art. 11: Toda letra de cambio, mesmo que não envolva expressamente a cláusula à ordem, é transferível por via de endosso. O que também já admitia o Decreto 2.044, de , no art. 8º: O endosso transmite a propriedade da letra de câmbio. Outrossim, de acordo com o art. 14 da Lei Uniforme, o endosso transmite todos os direitos emergentes da letra. Já pelo art. 15, o endossante, salvo cláusula em contrário, é garante tanto da aceitação como do pagamento da letra. (Factoring, 3ª ed., São Paulo, Revista dos Tribunais, 2004, p.100) O Código Civil, por sua vez, estabelece em seu artigo 295, verbis: Art Na cessão por título oneroso, o cedente, ainda que não se responsabilize, fica responsável ao cessionário pela existência do crédito ao tempo em que lhe cedeu; a mesma responsabilidade lhe cabe nas cessões por título gratuito, se tiver procedido de má-fé. Sobre a responsabilidade obrigatória do cedente faturizado, doutrina Antonio Carlos Donini: Como ensina Washington de Barros Monteiro:... o cedente enriquecer-se-ia ilicitamente se recebesse pagamento pro crédito Página 6 de 11

7 Apelação Cível n irreal, de incerta existência. Por essa razão, a lei impõe-lhe a obrigação de responder pela positiva existência do crédito cedido. E, continua o festejado mestre: Em três hipóteses diferentes subsiste a responsabilidade do cedente: a) transfere este crédito inexistente; b) contra o crédito cedido existe exceção, que o inutiliza, como o de dolo, ou compensação; c) o crédito tem existência positiva, mas não em favor do cedente, que assim aliena bem alheio. (...) Crédito inexistente Quando o cedente faturizado entrega ao cessionário faturizador duplicatas com base em venda futura ou saca duplicata sem lastro. Ambas as situações ocasionam a nulidade da cessão, por inexistir no momento da cessão, o crédito, correspondendo, por parte do sacador-faturizado, prática de ato ilícito, tipificado criminalmente. (Factoring: de acordo como novo Código Civil (Lei n , de ), Rio de Janeiro, Forense, 2002, p. 105) Deste modo, imperioso que a duplicata tenha origem e represente um negócio, ou seja, o crédito tem que ser verdadeiro. No presente caso, a autora tentou promover a cobrança das duplicatas constantes das fls. 29 a 31, junto à suposta empresa sacada, as quais fora endossadas pelos réus por meio de contrato de fomento mercantil (fls. 15 a 20). Todavia, conforme comprovam os documentos de fls. 32 a 34, a empresa que aparece como sacada nos títulos sub judice informa não haver pedido correspondente às duplicatas, e, ainda, que em razão desse tipo de problema não contam mais com a ré Kimilan Com. de Produtos de Limpeza Ltda. como fornecedora de produtos. Página 7 de 11

8 Apelação Cível n Os réus, por sua vez, não juntaram aos autos elementos que demonstrasse a relação comercial descrita nos títulos faturizados e, por conseqüência, a origem das duplicatas, procedendo, portanto, a afirmação da autora de ausência de regularidade dos títulos, o que implica na responsabilidade dos requeridos pelos créditos neles descritos. No mesmo sentido é a lição de Arnaldo Rizzardo: De outro lado, responde o cedente pela existência do crédito, quando da cessão. Deve o faturizado realmente ser credor, sob pena de ser obrigado a ressarcir o faturizador pelo valor recebido. Nestes termos ordena o artigo 295 do Código Civil (art da lei revogada... (op. cit., p. 125/125) Embora o endosso no factoring, importe em transferência de propriedade do título, não se resumindo a um endosso mandato, não se desvincula o endossante da garantia, respondendo pela realidade do crédito. O Projeto de Lei 230, em seu art. 4º (art. 4º do Projeto 3.615), sintetiza nas seguintes situações a responsabilidade do faturizado: A cedente se responsabiliza civil e criminalmente pela veracidade, legitimidade e legalidade do crédito cedido, respondendo pelos vícios redibitórios. (op. cit., p. 127) Superior Tribunal de Justiça: Sobre a matéria, assim já se pronunciou o egrégio FALÊNCIA. NOTA PROMISSÓRIA. RELAÇÕES DECORRENTES DO CONTRATO DE DESCONTO DE TÍTULOS. FACTORING. - Nota promissória emitida para o resgate de duplicatas frias objeto de factoring. Tal promissória é título hábil para instruir pedido de falência. Página 8 de 11

9 Apelação Cível n É lícita a recompra de títulos "frios" transferidos em operação de factoring. (3ª-Turma, REsp /SP, rel. Min. Humberto Gomes de Barros, j. 25/04/2006) CHEQUE - ENDOSSO - FACTORING - RESPONSABILIDADE DA ENDOSSANTE- FATURIZADA PELO PAGAMENTO. - Salvo estipulação em contrário expressa na cártula, a endossante-faturizada garante o pagamento do cheque a endossatária-faturizadora (Lei do Cheque, Art. 21). (3ª-Turma, REsp /DF, rel. Min. Humberto Gomes de Barros, j. 06/03/2008) Outrossim, é de se ressaltar, ainda, o contido na cláusula 17ª, do contrato de fomento mercantil firmado pelas partes: Cláusula 17ª... Parágrafo segundo Na eventualidade da não liquidação dos títulos de crédito adquiridos com responsabilidade pelos sacados-devedores, será contratante comunicada para recomprar os títulos no prazo de 24 (vinte e quatro horas), sob pena de, decorrido o prazo citado, serem aplicados sobre o crédito inadimplido os mesmos encargos previstos na cláusula vigésima deste instrumento., fl. 18. Com isso, fica claro o prévio acordo das partes de recompra dos títulos pelos requeridos, no caso de não liquidação dos mesmos. Ou seja, contratualmente, há previsão expressa de responsabilidade dos ora apelantes pelos créditos cedidos. respeito da matéria: Esta Câmara Cível assim já se pronunciou a APELAÇÃO CÍVEL. CONTRATO DE FOMENTO MERCANTIL. CARACTERIZADO. CLÁUSULA DE Página 9 de 11

10 Apelação Cível n RECOMPRA. INEXISTÊNCIA DE VEDAÇÃO LEGAL. COMISSÃO DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS (AD VALOREM). REMUNERAÇÃO PERMITIDA. ÔNUS DE SUCUMBÊNCIA INVERTIDO. SENTENÇA REFORMADA. RECURSO PROVIDO POR MAIORIA. (Apelação Cível n , rel. Des. Joatan Marcos de Carvalho, j ) Destarte, como bem decidiu o digno Magistrado sentenciante, fls. 133/134: A relação jurídica entre a requerida e a autora restou comprovada, conforme contrato de fomento mercantil n. 34 de fls. 15/20, e dos termos aditivos de fls. 21/25, que ratificam as negociações mantidas entre as partes, relativamente aos títulos não pagos. Ocorre que, apesar de assumir o risco do contrato de factoring, a empresa cessionária não pode ser prejudicada pela inexistência de crédito a receber, se motivada em emissão simulada de títulos, como se verifica no caso em testilha. De tudo que se colheu nos autos, especialmente pela contestação apresentada, restou evidenciada a fraude cometida pela primeira requerida, da qual são fiadores os demandados Helio e Johny. A jurisprudência pátria tem acenado para a possibilidade de concessão de direito de regresso ao factor, quando a emissão do título cedido apresentar vício que a invalide, como na hipótese observada na presente lide, qual seja duplicata sem origem... Página 10 de 11

11 Apelação Cível n Em face do exposto, voto pelo desprovimento do recurso, mantendo-se a sentença da lavra do eminente Juiz de Direito, Doutor Paulo B. Tourinho. III DISPOSITIVO ACORDAM os Desembargadores integrantes da Sétima Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em negar provimento à apelação, nos termos do voto do Relator. Participaram da sessão de julgamento os Excelentíssimos Senhores Desembargadores LUIZ ANTÔNIO BARRY, Revisor e LENICE BODSTEIN. Curitiba, 27 de setembro de Des. GUILHERME LUIZ GOMES Presidente e Relator Página 11 de 11

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