UMA PESQUISA SOBRE CARSHARING

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1 UMA PESQUISA SOBRE CARSHARING Aluna: Gabriela Mello Kortchmar Orientador: Hugo Repolho Introdução Carsharing é um modelo de compartilhamento de carros por meio de aluguel que consiste em uma frota de veículos que podem ser retirados em várias estações ao longo das cidades e usados por diferentes usuários ao longo do dia. Os serviços de carsharing estão se tornando uma alternativa viável ao veículo particular devido aos seus múltiplos benefícios, que abrangem tanto aspectos econômicos quanto sociais e ambientais. O sistema de carsharing oferece as vantagens de possuir um carro e ter a liberdade e a praticidade de se locomover por onde desejar sem as responsabilidades, os custos e a manutenção que um carro particular requer. Carsharing consiste, ainda, em um meio sustentável de locomoção, sendo uma alternativa ecológica. A prática de carsharing, utilizada em maior escala na Europa, nos Estados Unidos e no Canadá, ainda não foi amplamente disseminada na América Latina. No Brasil, existe apenas uma empresa de carsharing na cidade de São Paulo. Apesar dos vários benefícios desse sistema, o sistema de carsharing ainda não representa uma ameaça real ao uso de carros particulares, que ainda são a maioria nos grandes centros urbanos. Objetivos Explorar, sintetizar e analisar a literatura existente sobre o tópico, identificando as possíveis causas de sucesso do sistema de carsharing e promovendo uma melhor compreensão sobre como obter sucesso em atrair novos seguimentos de consumidores para esse tipo de serviço e como manter os novos consumidores, expandindo sua aceitação entre os potenciais usuários. A pesquisa realizada possui como objetivo a futura aplicação de um modelo de sistema de carsharing para alunos e funcionários da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Metodologia A fase inicial da pesquisa, com o objetivo da futura aplicação na PUC-Rio, foi realizada através da análise bibliográfica de artigos que tratavam do assunto carsharing. Por meio dessa análise, dois principais pontos foram explorados no que diz respeito aos sistemas de carsharing: as preferências dos usuários em relação aos veículos existentes e de quais aspectos os potenciais usuários desse sistema desejam usufruir, ou seja, as causas de aceitação e sucesso do sistema. Quando se trata de avaliar por que os sistemas de carsharing estão obtendo aceitação suficiente ou não, e também a fim de atrair novos usuários, é essencial para explorar quais são as razões que fazem os consumidores pensarem em utilizar este modo alternativo de transporte e, mais importante, como fazer com que eles continuem usando em vez de optarem por possuir um veículo. Portanto, é essencial que se saiba quais os fatores que contribuem para o desenvolvimento do uso de carsharing. Além disso, é importante analisar os dados de uso carsharing para entender o comportamento dos usuários e suas preferências. As primeiras experiências com sistemas de carsharing foram feitas na Europa, na década de 1940, motivado principalmente por razões econômicas [1]. A indústria de carsharing existe há cerca de vinte anos, mas apenas recentemente que ela passou para um

2 período de integração comercial [2]. Um dos desafios que esta indústria tem de enfrentar é atrair novos segmentos de consumidores que não consideravam carsharing como uma opção [3]. Isso significa que o maior desafio sobre carsharing como um meio alternativo de transporte é baseado em como expandir com sucesso a aceitação do consumidor em relação aos seus serviços. Analisando dados de uso de carsharing como as atitudes dos usuários em relação ao meio ambiente, à segurança, à frequência de uso, à duração da associação, à demanda mensal, ao tipo de viagem e aos atributos do veículo escolhido, é importante para obter uma compreensão mais abrangente do comportamento dos usuários de carsharing. O estudo sobre o potencial de novas operações de carsharing em áreas urbanas [4] chama a atenção para a importância de os planejadores de transporte conhecerem as características geográficas que indicam a viabilidade de outros modos de transporte. O estudo mostra que as características da cidade podem influcineciar altamente no sucesso do carsharing, como, por exemplo, a quantidade e o preço dos estacionamentos, uma alta densidade populacional e o hábito de alternar o uso de serviços de carsharing durante a jornada de trabalho com usos residenciais para a noite. Além disso, ele aponta que a quantidade de serviços carsharing está fortemente relacionada com a posse do carro quanto menor o número de proprietários de automóveis, maior a quantidade de serviços de carsharing. Um estudo realizado sobre um sistema de carsharing chamado AutoShare na cidade de Toronto [5], no Canadá, analisou o comportamento dos usuários, através do exame dos dados administrativos de janeiro de 2008 a novembro de A AutoShare possui mais de 200 locais de estacionamento em toda a cidade e oferece a opção de compensar as emissões de carbono dos seus membros por quilômetro. Muitos membros consideram a opção de compensar suas emissões de carbono, especialmente membros vindos de bairros mais densos e de maiores rendas, possivelmente devido aos princípios de crescimento inteligente (smart growth) desses bairros, que consiste em um tipo de planejamento da cidade que possui objetivos de desenvolvimento sustentável. Isso deixa claro que muitas pessoas estariam dispostas a serem ecologicamente amigáveis se houvesse a oportunidade, criando uma consciência social. A maior parte dos usuários desse sistema faz menos de três viagens por mês, indicando que carsharing pode reduzir a demanda de automóveis em situações nas quais os membros não possuem carro privado. Os dados administrativos também revelaram que um aspecto que influencia fortemente o uso de carsharing é a acessibilidade para estacionamentos, ou seja, uma pequena distância entre a casa dos usuários e o próximo estacionamento. Os dados mostram que o aumento na cobertura do serviço tem mais influência no número de membros do que um aumento no tamanho da frota de carros. As análises em Toronto revelam que 65% das viagens são acessados a partir de menos de 1 km e mais de 80% são originados dentro de 3 km de qualquer estacionamento. As viagens mais longas acontecem quando a distância de acesso é inferior a 100m. Isto implica que estacionamentos devem ter localização com base na densidade populacional, a fim de aumentar as atividades de carsharing, uma vez que é mais provável que as pessoas vão usar os serviços de carsharing se as estações de estacionamento estiverem perto delas. A análise também revela que as pessoas que vivem em bairros de baixa renda estão mais dispostas a aceitarem os serviços de carsharing e a permanecerem membros por períodos mais longos. Segundo a pesquisa de Burkhardt e Millard-Ball [6], os diferentes níveis de renda podem definir diferentes motivações para carsharing. Por exemplo, pessoas de baixa renda podem ser motivadas pela acessibilidade e mobilidade do carsharing, enquanto as pessoas de maiores rendas podem ser motivadas pela conveniência de usar um carro do serviço de carsharing.

3 A coleta de dados do sistema AutoShare revelou ainda que aumentar o número de membros não significa que estes vão continuar usando o serviço após algum tempo, o que vem a ser o maior desafio da empresa de carsharing. Seu uso é altamente influenciado pela acessibilidade dos usuários às estações. Os estudos mostram também que pessoas com menores rendas tendem a utilizar o carsharing devido aos preços mais baixos, enquanto aqueles com renda mais alta tendem a utilizar o serviço devido à conveniência. Em relação às causas de sucesso, o principal objetivo das indústrias de carsharing é a forma de alcançar o sucesso em termos de configuração de produtos e oferta de serviços, o que só é possível quando os prestadores do serviço possuem conhecimento sobre o que os consumidores querem e precisam. A investigação dos motivos de uso carsharing pode fornecer importantes respostas sobre por que os consumidores ou subgrupos específicos utilizam os serviços [7]. Aspectos como atitudes, preferências e necessidades dos consumidores devem ser entendidos de forma a satisfazer os potenciais usuários e suprir a demanda, aumentando a aceitação de carsharing e, assim, expandindo seus serviços. Em geral, o estudo dessas variáveis não observáveis complementa o estudo das variáveis observáveis. Os consumidores muitas vezes não estão conscientes do que eles esperam de um serviço até que seja oferecido o que eles querem. Isto significa que a pessoa não sabe conscientemente quais as características que ela gostaria de encontrar em um determinado serviço, até que lhe é oferecido isso, e só então o indivíduo vai perceber que era exatamente o que ele estava esperando. Deste modo, um dos maiores desafios da indústria e prestadores de serviços carsharing é como descobrir as motivações inconscientes dos consumidores. Uma pesquisa realizada em um sistema norte-americano de carsharing [7] explora os padrões motivacionais conectados ao uso de carsharing através de uma análise de cadeia meios-fim (MEC), realizada através de uma sucessão de entrevistas nas quais o entrevistador questiona os motivos por trás de cada uma das respostas até que nenhum motivo relevante possa ser dado, ou seja, quando o valor terminal foi obtido. Desta forma, a análise aponta os motivos que influenciam no consumo do serviço, obtendo os motivos subconscientes dos consumidores. As primeiras perguntas foram sobre os motivos de uso, experiência pessoal e conhecimento sobre carsharing. As particularidades percebidas nas entrevistas foram codificadas como elementos distintos durante a análise das transcrições, e cada uma delas estava relacionada com um nível hierárquico do MEC. A fim de diminuir o número de códigos e fornecer um conjunto abrangente de elementos do MEC, os códigos similares no mesmo nível hierárquico foram combinados. As associações distintas nos MECs foram reproduzidas em um mapa de valor hierárquico (HVM), dividido em vários caminhos, cada um representando MECs dos consumidores, onde os atributos do serviço estão no nível mais baixo, seguido de conseqüências funcionais e psicossociais nos níveis médios e valores terminais no quarto nível. Houve um total de doze atributos diferentes, quinze e treze consequências funcionais e psicossociais, respectivamente, e nove valores terminais. Através dos resultados das entrevistas, as respostas foram separadas em quatro principais padrões identificados entre os membros: o primeiro é a busca por valor e qualidade, relacionado com a consequência psicossocial de poupar dinheiro e sentir-se capaz de se locomover sem carro, a consequência funcional de gastar menos do que com o próprio carro e os valores terminais de economia e qualidade de vida. Os atributos que permitem que as pessoas poupem dinheiro através do carsharing são os preços acessíveis e estacionamento gratuito. O segundo é a conveniência, relacionado com a consequência psicossocial da economia de tempo e do valor fundamental da qualidade de vida, o que mostra como os membros do sistema carsharing esperam que o serviço possibilite que os usuários economizem tempo e esforço. Os atributos que contribuem para a conveniência estão relacionados ao tamanho dos

4 veículos e à eficiência, além de aspectos do serviço como livre flutuação e pagamento por utilização. As consequências funcionais compreendem o uso flexível, pequena distância ao veículo seguinte, disponibilidade, confiabilidade e facilidade de encontrar vagas de estacionamento. O terceiro padrão motivacional é estilo de vida, que associa valores de pertencimento, status e reconhecimento. Eles são relacionados às consequências psicossociais de ser capaz de falar sobre carsharing e senso de comunidade, e as conseqüências funcionais de reconhecer e ser reconhecido por outros motoristas. Os atributos relacionados são design de veículos distintos e pequeno tamanho dos carros. O último padrão motivacional é ambiental, relacionado ao valor fundamental da sustentabilidade. É relacionado à consequência psicossocial da consciência ambiental, e as consequências funcionais são a disponibilidade, o uso flexível, substituição de carro próprio e redução de emissões de CO₂. Os atributos relacionados são tamanho do veículo e eficiência de combustível. Os resultados das entrevistas mostram que motivo ambiental não é o motivo de uso predominante; para a maioria dos inquiridos, era um efeito colateral positivo. Reforça a declaração de Constain et al [5] de que, se for dada a oportunidade de ser ecologicamente responsável, as pessoas estão dispostas a fazê-lo, mas não é a principal razão pela qual eles buscam serviços carsharing. Uma coisa importante a notar sobre as entrevistas [7] é que os consumidores têm vários motivos, com diferentes intensidades, para usarem serviços de carsharing, em vez de apenas uma razão. Os resultados deste estudo permitem direcionar serviços de carsharing aos padrões específicos de motivação, por isso permite que cada segmento de cliente seja relacionado a estruturas cognitivas específicas subjacentes à tomada de decisão. Os resultados podem ser usados também pelos prestadores de carsharing que querem aumentar o número de consumidores, e isso ajuda a promover carsharing como uma alternativa eficiente, econômica e benéfica para a posse do carro. Conclusões Ainda que sistemas de carsharing estejam se tornando mais populares em cidades norteamericanas e europeias, essa alternativa de transporte ainda não é inteiramente entendida e aceita entre as pessoas. Análises econométricas revelam que curtos períodos de filiação podem ser devidos a altos gastos mensais. Para o carsharing ser uma real ameaça aos carros particulares, os usuários devem perceber que estão salvando uma boa quantidade de dinheiro por esse sistema. Em termos de densidade demográfica, foi possível perceber que membros de áreas mais densas apresentam maior duração de filiação. Deste modo, quanto mais atividades de carsharing nas cidades, menor a necessidade de estacionamentos residenciais. Os postos de estacionamento devem estar localizados em áreas mais densas, uma vez que é mais provável o uso de carsharing quando as estações se encontram próximas aos usuários. A prática de carsharing atrai pessoas com consciência ambiental e pode influenciar nas iniciativas de crescimento inteligente em uma cidade, relacionadas a iniciativas de sustentabilidade. Os usuários de sistemas de carsharing esperam que consigam, através do serviço, salvar tempo e dinheiro, aumentando sua qualidade de vida. Ainda é possível dizer que, se tiverem a oportunidade de contribuir para um meio de transporte sustentável, as pessoas estão dispostas a fazê-lo, ainda que este não seja o principal motivo para a prática de carsharing nas cidades. A possível aplicação de um modelo de carsharing na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro está sendo estudada a partir da investigação dos dados sobre sistemas de carsharing já existentes.

5 Referências 1 - CORREIA, G.H.d.A., Antunes, A.P., Optimization approach to depot location and trip selection in one-way carsharing systems. Transportation Research Part E: Logistics and Transportation, v. 48, p SHAHEEN, S., Cohen, A., Chung, M., North American carsharing: 10-year retrospective. Transportation Research Record 2110, p FIRNKORN, J., Müller, M., What will be the environmental effects of new freefloating car-sharing systems? The case of car2go in Ulm. Ecological Economics v. 70, p CELSOR, C., Millard-Ball, A., Where Does Carsharing Work? Using Geographic Information Systems to Assess Market Potential. Transportation Research Record: Journal of the Transportation Research Board, No Transportation Research Board of the National Academies, p CONSTAIN, C., Ardron, C., Habib, K.N. Synopsis of users behaviour of a carsharing program: a case study in Toronto. Transportation Research Part A: Policy and Practice, v. 46, p , mar BURKHARDT, J., Millard-Ball, A., Who is attracted to carsharing? Transportation Research Record 1986, p SCHAEFERS, Tobias. Exploring carsharing usage motives: A hierarchical means-end chain analysis. Transportation Research Part A: Policy and Practice, v. 47, p , jan

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