Fome e à Pobreza no Brasil : revisitando a obra de Josué de Castro

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1 Fome e à Pobreza no Brasil : revisitando a obra de Josué de Castro A obra de Josué de Castro desenvolvida a partir dos anos 30 e nas três décadas seguintes no Brasil expressa uma postura acadêmica incisiva e engajada frente aos problemas da fome e da miséria. Pioneiro em explorar a natureza e a complexidade das diferentes formas de privação alimentar no país, Josué de Castro articula a fome aos dilemas da construção da nação, do Estado e do desenvolvimento econômico e social. Algumas importantes matrizes e tradições teóricas marcaram o autor. No processo de leitura e releitura de seus inúmeros livros, artigos e ensaios diferentes sentidos e significados foram sendo atribuídos ao seu pensamento iluminando a própria dinâmica histórica de tradução e retradução da obra. No entanto, ainda que existam diferentes tendências interpretativas incontestavelmente podemos dizer que Josué de Castro buscou de maneira incansável e fecunda interrogar o seu tempo. Embora a matriz positivista e um certo otimismo com o papel da ciência na superação dos problemas sociais que tanto marcaram o ambiente intelectual dos anos 30 e 40 sejam, inicialmente, fios condutores de suas pesquisas, aos poucos a crise do nacional desenvolvimentismo e os fracassos das tentativas de enfrentar o problema da fome e da pobreza na década de 1960 irão trazer importantes inflexões teóricas. Na medida em que Josué de Castro reconhece os dilemas da atividade científica e os limites da racionalidade técnica frente à questão da justiça social, cresce seu engajamento político e a crítica à postura neutra do cientista e à fragmentação do saber. Ainda que o papel do Estado como principal agente do desenvolvimento com equidade e a especificidade do campo científico permaneçam elementos fortes na obra, há em seus últimos escritos a presença de um 1

2 universo conceitual mais amplo e que possibilita ao autor refletir sobre os processos de interação entre diferentes atores e forças em torno de decisões redistributivas e do desenho de políticas públicas. Fome e Construção da Nacionalidade O pensamento de Josué de Castro amplia o foco de análise do problema alimentar. Dialogando com os avanços da bioquímica e da fisiologia no início do século XX, o autor ultrapassa as fronteiras das disciplinas biomédicas e introduz em sua abordagem sobre a fome categorias analíticas ligadas à sociologia, antropologia e economia. Em O Problema da Alimentação no Brasil publicado em 1932 como na pesquisa As Condições de Vida das Classes Operárias em Recife, divulgada no ano seguinte é clara a preocupação em desvendar a influência do clima, da cultura e da alimentação na saúde e na atividade dos indivíduos. Além disso, o interesse em discutir o descompasso entre as condições salariais e as necessidades alimentares dos trabalhadores motiva o autor a refletir sobre o papel do Estado e das políticas de governo. As famílias pesquisadas por Josué de Castro apresentavam mais de 70% da renda mensal comprometida com a compra de alimentos e, ainda assim, não conseguiam atender suas necessidades nutricionais em termos quantitativos e qualitativos: O regime que analisamos, possuindo apenas 1645 calorias, é um regime insuficiente, que somente chega a cobrir os gastos do metabolismo mínimo individual no nosso clima, sem 2

3 margem para o gasto do trabalho. Sob o ponto de vista qualitativo também é um regime incompleto ( Castro, J:1932) Na medida em que os trabalhadores não conseguem garantir nem ao menos os mínimos vitais com sua remuneração que, a tão cotidiana e humana experiência da alimentação torna-se, para Josué de Castro, uma questão pública. Em um contexto social marcado pela perda da hegemonia das teses racistas e busca de uma via efetivamente nacional para o crescimento e o desenvolvimento social, Josué de Castro desloca o debate sobre as necessidades alimentares do trabalhador do âmbito privado e doméstico e transforma a questão alimentar em prioridade política e uma demanda coletiva. O seu esforço em ampliar as pesquisas e a investigação sobre o problema alimentar, sob a influência de Pedro Escudero, médico argentino e fundador do Instituto Nacional de Nutrição de Buenos Aires, culmina com a realização do primeiro Inquérito sobre as Condições da Alimentação Popular no Distrito Federal em 1937 e de vários estudos posteriores que buscavam superar o vazio de dados e informação. A geografia e os territórios da fome Através da geografia humana, a matriz de pensamento que buscava transcender fronteiras disciplinares e avançar no estudo das conexões entre cultura e biologia, entre a sociedade e o indivíduo, entre a dimensão fisiológica da nutrição humana e o processo de desenvolvimento social, o mundo da natureza, torna-se indissociável do mundo da ação e 3

4 da interação social. Oposições e dualidades ainda que não totalmente superadas são tensionadas num caminho rico de aproximação com vários campos temáticos.sem abdicar das demonstrações empíricas da fome crônica e das carências nutricionais em suas múltiplas formas, a obra caminha desvendando o enraizamento social dos indivíduos que têm fome. Quem são os famintos, como vivem, como trabalham e sobretudo, de que maneira fazem parte da história de sua região emergem como eixos privilegiados de investigação. O livro Alimentação à Luz da Geografia Humana, escrito em 1937, revela a centralidade da geografia enquanto um instrumental teórico-metodológico capaz de garantir o olhar multidisplinar no estudo da alimentação e, também, viabilizar não só a descrição dos problemas nutricionais mas a reflexão acerca dos processos de determinação da fome. Só a geografia que considera a terra como um todo e que ensina a saber ver os fenômenos que se passam na superfície, a observá-los, agrupá-los e classificá-los, tendo em vista a sua localização, extensão e causalidade, pode orientar o espírito humano na análise do vasto problema da alimentação, como fenômeno ligado, através de influências recíprocas à ação do homem, do solo, do clima, da vegetação e do horizonte de trabalho ( Castro, 1937:26) Em 1946, o livro Geografia da Fome e o aprofundamento do conceito-horizonte da ecologia, permitem que Josué de Castro caracterize as múltiplas correlações entre os grupos sociais e as condições regionais de solo, clima, ocupação e desenvolvimento econômico e social. Estudando com rigor as especificidades da alimentação da população nas diferentes 4

5 regiões do país, o autor define cinco áreas de fome. Na Amazônia, por exemplo, a pobreza do solo, as práticas arcaicas na agricultura e a baixa densidade demográfica são refletidas na alimentação composta basicamente de farinha de mandioca, feijão, peixe, ovos de tartaruga e arroz. O abandono da região após o fim do ciclo da borracha, os altos índices de mortalidade e a migração para o Sul vão desenhando um quadro complexo de vulnerabilidade à fome. Já no Nordeste, o sertão e a região açucareira expressam, em sua análise, diferentes possibilidades alimentares e quadros de fome endêmica e epidêmica. Ao estudar o fenômeno da composição privilegiada da dieta no sertão, rica em milho, leite, carne e também tubérculos sendo totalmente desestruturada, porém, com as secas o autor revela com clareza a sabedoria alimentar do sertanejo nordestino e ao mesmo tempo, os limites de intervenção pública na região. Assim, a corrente francesa da geografia e principalmente Vidal de La Blache exercem importante influência em seu trabalho. A recusa ao determinismo e o esforço em realizar descrições regionais aprofundadas, capazes de possibilitar a compreensão do entrelaçamento entre a história, o homem e a natureza foram aspectos decisivos da geografia humana de Vidal de La Blache incorporados na obra de Josué de Castro. A procura pela identidade e pela vocação do lugar aliada à arguta observação de singularidades e especificidades locais garantiu uma rearticulação virtuosa entre relações sociais e meio natural na obra do autor. Para Josué de Castro a pouca importância dada pelo Estado à agricultura e à ênfase na industrialização das regiões Sul e Sudeste do país ampliava o abismo social e a fome. Ao 5

6 mesmo tempo a manutenção do perfil desigual de distribuição da terra emerge como uma das faces do subdesenvolvimento nacional. É impossível promover o desenvolvimento em um país em que 8 % dos proprietários possuem 75% da terra ( Castro, J: 1967) A fome hoje Hoje, sem dúvida a miséria e a pobreza apresentam novos contornos e novas perspectivas de intervenção pública. Como aponta Sonia Rocha (2003) os déficits calóricos em algumas regiões analisadas por Josué de Castro diminuíram, assim como a prevalência de algumas carências de vitaminas e sais minerais. No entanto, a fome ainda é um tema prioritário e uma exigência política no Brasil. Sem dúvida ainda não conseguimos erradicar a indigência, entendida como a incapacidade de obter a renda necessária para a garantir a cesta básica de alimentos e portanto a mera sobrevivência física dos indivíduos em patamares aceitáveis. Segundo dados do Censo Demográfico do IBGE, em 2000 a proporção de pessoas vivendo abaixo da linha de indigência era de 12,9 %, ou seja, cerca de 21,7 milhões de pessoas. Ainda que seja necessário enfatizar que fome e pobreza não são sinônimos, que as pessoas padecendo de pobreza extrema podem através de múltiplas estratégias de sobrevivência e acesso diferenciado à rede de serviços de saúde e saneamento, contornar a desnutrição e as carência nutricionais, é clara a maior vulnerabilidade à fome dos indivíduos e famílias que 6

7 se encontram abaixo da linha monetária de indigência. Neste sentido, o problema ainda ocupa o cenário social brasileiro, embora com novos contornos, perspectivas e desafios. Ao mesmo tempo, diferentemente da realidade dos anos 30, 40 e 50 analisada por Josué de Castro, o quadro de miséria e fome tornou-se mais complexo, mais urbano e segmentado a partir de clivagens de gênero, etnia, escolaridade e inserção ocupacional. Vários autores (Lavinas,2003, Henriques, 2001) têm ressaltado nossa suficiência em termos de produção de grãos. No entanto, assim como ocorre com nosso perfil de distribuição de renda persistem barreiras sociais históricas que impedem o acesso equitativo aos alimentos. Dilemas atuais para as políticas públicas de combate à fome e a miséria Como analisa Dahendorf (1992) a sociedade civilizada deve oferecer tanto prerrogativas como provimentos. O grande impasse vivido hoje no âmbito das políticas de combate à fome no país é criar condições institucionais capazes de oferecer tanto prerrogativas como provimentos para toda a população. À medida em que exibimos níveis pivilegiados de produção agrícola e também possuímos um PIB per capita que nos insere entre o conjunto de um terço dos países mais ricos do mundo, podemos afirmar que nossos maiores limites para equacionar o problema da fome estão ligados a questão das prerrogativas e dos direitos de cidadania. 7

8 A atualidade do pensamento de Josué de Castro No pensamento de Josué de Castro, economia, política e ética encontram-se reconciliadas. Ao formular um conceito de desenvolvimento que não é puramente econômico, mas que remete aos aspectos substantivos do bem estar dos indivíduos, a obra mantêm uma proximidade inquestionável com o debate atual em torno das políticas sociais e da cidadania. Estar bem nutrido para Josué de Castro é, antes de mais nada, uma exigência ética. Neste sentido, é possível perceber uma proximidade intelectual entre os textos de Josué de Castro e a obra de Amartya Sen, economista indiano ganhador do prêmio Nobel e autor de vários livros sobre fome, desigualdade social e desenvolvimento. Também para Sen, a fome é um obstáculo para que os indivíduos sejam livres, emancipados e consigam realizar suas capacidades de maneira plena. Ambos os autores vêem a possibilidade de uma interação entre ética e economia e, apontam para a interdisciplinaridade e para a interdependência entre saberes e práticas no que se refere ao processo de construção do desenvolvimento sustentável. Metodologicamente, é possível perceber, igualmente, pontos de contato na busca de indicadores combinados e territorializados para caracterização das condições de vida e bem estar. Os estudos que vêem utilizando o geoprocessamento de dados sobre saúde, fome e pobreza, buscando conjugar diferentes variáveis como renda, qualidade de vida, acesso aos serviços de saúde e autonomia, por exemplo, também são tributários da perspectiva ecológica tão presente na obra de Josué de Castro ao refletir sobre a construção e reconstrução do tecido social em contextos geográficos singulares. Nesta direção, como aponta Giddens ainda que 8

9 historicamente sociólogos e geógrafos tenham trilhado caminhos diferentes ao longo da história, partilham origens comuns. Como analisa Giddens as configurações espaciais da vida social são matéria de tanta importância básica para a teoria social quanto a dimensão de temporalidade No que se refere às opções políticas para a solução da situação de fome e miséria, Josué de Castro também nos ensina a recusar o assistencialismo e a fragmentação das ações e evitar a perpetuação de programas setoriais que não buscam a convergência em torno de resultados comuns. Para Josué de Castro, estas são perspectivas frágeis e ineficazes para a solução da pobreza extrema e da privação alimentar no país. Neste sentido, o esforço de fazer dialogar as diferentes agendas das políticas públicas, possibilitar novos arranjos de governança incluindo múltiplos atores, instituições e grupos sociais em torno da questão da segurança alimentar atualiza e expande a obra e o pensamento de Josué de Castro Rosana Magalhães Pesquisadora titular da Escola Nacional de Saúde Pública, FIOCRUZ 9

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