OBRIGAÇÃO ALIMENTAR E POSSIBILIDADE DE RESTITUIÇÃO Dos ALIMENTOS PAGOS INDEVIDAMENTE

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1 OBRIGAÇÃO ALIMENTAR E POSSIBILIDADE DE RESTITUIÇÃO Dos ALIMENTOS PAGOS INDEVIDAMENTE MARCELO CERQUElRA Advogado CONCEITO DE ALIMENTOS Tratando da conceituação de alimentos, a doutrina, de um modo geral, inicia por esclarecer que, em sentido jurídico, o vocábulo tem um significado bem mais amplo do que no vernáculo. Conforme Clóvis BeviláquaI a palavra alimento tem, em direito, uma acepção técnica, de mais larga extensão do que a da linguagem comum, pois que compreende tudo que é necessário à vida: sustento, habitação, roupa, educação e tratamento de moléstias. De fato, a prestação de alimentos não se destina unicamente a possibilitar o sustento, ou solucionar a fome, da pessoa com ela favorecida, mas também o atendimento de outras necessidades básicas do ser humano, inclusive a instrução e educação, quando o favorecido ainda não atingiu a maioridade. A prática de incluir na conceituação o conteúdo dos alimentos parece-nos bastante arriscada, já que as necessidades variam, no I Direito da Família, 7' ed. Rio de Janeiro: Editora Rio, 1976, p. 383.

2 182 INSTITUiÇÃO TOLEDO DE ENSIN~ tempo, lugar e espaço, e dependem de fatores como a idade e situação econômica dos envolvidos. Exemplo claro desta variação diz respeito a itens como a educação e lazer, que podem integrar a prestação alimentar de um menor, por exemplo, sem, no entanto, considerarem-se obrigatórios, indispensáveis, nos alimentos prestados a um adulto. Interessa ainda frisar que, a quantificação da intensidade com que vão ser prestados os alimentos varia, também, de acordo com a condição financeira e social das pessoas envolvidas na relação jurídica alimentar. Esse é um problema que freqüentemente se propõe em sede de alimentos: identificar até onde se estendem as chamadas necessidades básicas do beneficiário, posto que, em sendo o ser humano incontrolável no que diz respeito às suas pretensões, que existem em número ilimitado, tornar-se-ia imperioso estabelecer que tipo de necessidades poderiam ser erigidas à categoria de necessidades básicas, e incorporadas ao valor da prestaçã0 2. A fim de evitar que um mesmo conceito não possa se aplicar a casos distintos, o mais correto, a nosso ver, seria, no momento da conceituação, evitar fazer menção às parcelas que devem integrar o quantum da prestação. Orlando Gomes afirma que alimentos são prestações para satisfação das necessidades vitais de quem não pode provê-las por si... 3 Entretanto, logo adiante, esclarece que a expressão pode também abranger, no caso dos alimentos civis, necessidades outras, que não se têm por vitais, consideradas morais ou intelectuais. Tentando oferecer um conceito de alimentos que compreenda, na medida do possível, ambas as categorias (naturais e civis), arriscaríamos o seguinte: obrigação imposta a uma pessoa, por força de lei, ou da vontade humana, de fornecer a outra o necessário para sua subsistência material e moral. Afirmar, logo no conceito, que espécie de parcelas podem ser 2 Outro fator importante a ser considerado no exame dessa questão é a diferenciação que a doutrina costuma fazer entre os alimentos naturais e os civis, uma vez que, os primeiros compreenderiam apenas as chamadas necessidades vitais (alimentação, cura, vestuário c habitação). c os úliimos incorporariam também as necessidades morais e intelectuais (instrução, educação e Jazer). 3 Direito de Família. li' ed., J998, Rio de Janeiro: Forense, p. 427.

3 MARCELO CERQUEIRA 183 consideradas necessanas à subsistência material e moral do ser humano seria precipitado, já que, somente diante do caso concreto, seria possível listar as necessidades que devem compor o valor da prestação, ao menos no que diz respeito às necessidades morais ou intelectuais. A OBRIGAÇÃO ALIMENTAR E SUAS FONTES Depois de comentar que os alimentos podem ser vistos, no sentido vulgar, como tudo aquilo que é necessário à conservaçüo do ser humano com vida,,4, esclarece Yussef Said Cahali que, tecnicamente, o conceito estaria completo com acréscimo da idéia de obrigação proveniente de uma causa jurídica estabelecida em lei. Considerando a estrutura de uma relação obrigacional civil, teríamos de um lado o devedor, representado pela pessoa que, em virtude de alguma causa jurídica, é compelida a prestar alimentos a uma outra, e, no outro pólo, o credor, que deles necessita para fazer frente às suas necessidades materiais e morais. Seria, entretanto, importante destacar que, enquanto as obrigações civis resolvem-se com execução de ordem patrimonial, a execução de obrigação alimentar pode atingir, excepcionalmente, além dos bens, a pessoa do devedor, quando decorrentes do parentesco ou do matrimônio. Por fonte de obrigações, pode-se entender os fatos que determinam seu nascimento, o lugar de onde elas promanam, ou, nos dizeres de Silvio Rodrigues 5, os atos ou fatos nos quais estas encontram nascedouro. Classificar de maneira eficiente as fontes de obrigações é tarefa que, até hoje, não encontrou quem a desempenhasse sem estar livre de críticas. No Direito Romano, mais precisamente nas Institutas de Justiniano, encontram-se enumeradas quatro fontes: o contrato, o quase-contrato, o delito e o quase-delito. No ordenamento civil nacional, podemos encontrar, 4 Dos Alimentos. 3' ed. São Paulo: RT, p Direito Civil - Parte Geral das Obrigações, 24' ed. São Paulo: Saraiva, 1996, p. 8.

4 198 INSTITUIÇÃO TOLEDO DE ENSINO continuar solvendo sob pena de sujeitar-se à prisão civil. O alimentando, por sua vez, mesmo ciente de que não necessita mais da prestação, continua a recebê-ia, e, comumente, procura procrastinar o andamento do feito, a fim de locupletar-se, o quanto possível. Locupletar-se indevidamente!45 A lrrestituibilidade como Exceção Uma vez demonstrada a possibilidade de restituição judicial dos alimentos, e mais, demonstrada a restituibilidade como regra, restaria indicar a hipótese em que essa restituição não seria possível. Tal como ocorre nas obrigações civis em geral, a restituição do que foi pago somente não seria possível quando não ocorresse algum dos requisitos exigidos para a caracterização do pagamento indevido. Assim, se o alimentante pagou a verba alimentar durante vários anos, mas os requisitos para a configuração da obrigação alimentar também permaneceram presentes durante esse período, não pode ele pretender a restituição do que pagou simplesmente porque, atualmente, o alimentado melhorou suas condições financeiras, ou mesmo enriqueceu. É que, nesse caso, os pagamentos feitos tinham causa jurídica. E a restituição, anote-se, somente teria lugar nas hipóteses em que o pagamento não tivesse causa, ou quando a causa fosse injusta, conforme visto anteriormente. BIBLIOGRAFIA ALVIM, Agostinho. Revista dos Tribunais, n 259, São Paulo: RT. BEVILAQUA, Clóvis. Direito da Família. 7 a ed., Rio de Janeiro: Editora Rio, BITENCOURT, Edgard de Moura. Alimentos. 4 a ed., Leud A esse respeito artigo do Prof". Ralph Madalena. publicado na Rel'isl(/ JurídiCíl. n 211. Porto Alegre: Síntese. maio de 1995.

5 MARCELO CERQUEIRA 199 BITTAR, Carlos Alberto. Direito das Obrigações. Rio de Janeiro: Forense Universitária, CAHALI, Yussef Said. Dos Alimentos. 3 a ed. São Paulo: RT, CARVALHO Santos, J. M. Código Civil Brasileiro Interpretado. V. VI, 11 a ed., Rio de Janeiro: Freitas Bastos, COUTURE, Eduardo J. Fundamentos dei Derecho Procesal Civil. Buenos Aires: Depalma, DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro. sa v. 13 a ed. São Paulo: Saraiva, FERREIRA Filho, Manoel Gonçalves. Curso de Direito Constitucional. na ed. São Paulo: Saraiva, GOMES, Orlando. Direito de Família. lia ed., Rio de Janeiro: Forense, GOMES, Orlando. Obrigações, 8 a ed., Rio de Janeiro: Forense, GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito das Obrigações. São Paulo: Saraiva, MACIEL, Protásio Borges, Efeitos das Obrigações. Porto Alegre: Livraria dos Advogados, MADALENO, Rolph. Restituição Judicial dos Alimentos. Revista Jurídica n 211, Porto Alegre: Editora Síntese, OLIVEIRA, José Lamartine Corrêa de; MUNIZ, Francisco José Ferreira. Curso de Direito de Família, Curitiba: Ed. Juruá, 2 a ed., PEREIRA, Áurea Pimentel. Alimentos no Direito de Família e no Direito dos Companheiros. Rio de Janeiro: Renovar, 1998, p. 09. PEREIRA, Caio Mario da Silva. Instituições de Direito Civil. V. II - Teoria Geral de Obrigações, 8 a ed., Rio de Janeiro: Forense, 1986.

6 200 INSTITUIÇÃO TOLEDO DE ENSINO RIZZARDO, Arnaldo. Direito de Família. V. n. Rio de Janeiro: Aide, RODRIGUES, Silvio. Direito Civil - Parte Geral das Obrigações, 24 a ed., São Paulo: Saraiva, RODRIGUES, Silvio. Direito Civil, v. 6, 23 a ed., São Paulo: Saraiva, VARELLA, Antunes. Direito das Obrigações. Rio de Janeiro: Forense, VENOSA, Silvio de Salvo. Direito Civil - Obrigações. São Paulo: Atlas, VIANA, Marco Aurélio S., Direito Civil - Direito de Família. Belo Horizonte: Del Rey, W ALD, Arnaldo. Direito de Família, 6 a ed., São Paulo: RT, 1988.

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